The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
       Janeiro a Fevereiro de 1877

Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

Release Date: July 6, 2005 [EBook #16218]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL ***




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[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS]

RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

NOVA SERIE TOMO VIII

Janeiro a Fevereiro 1877





Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
Universo, e da adorao de mim mesmo.

P.J. PROUDHON




SUMMARIO

A actual situao politica. Conceituosa parabola das moscas e das
maselas. O partido revolucionario e o partido conservador. A funco de
um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extinco do
partido revolucionario por falta de idas. Mancommunao conservadora.
Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A
profunda synthese do pipo do Estado.--As inundaes. Crise
meteorologica. Theoria da chuva. Os irrigamentos e as cheias. As
civilisaes e os rios. As previses industriaes e economicas. O
regimen das torrentes. A arborisao. Os diques provisorios. As fontes
de Palissy. Crise economica. O Estado e o Inundado. Troca de
correspondencias. Lisboa durante a crise: os sales, os espectaculos, a
imprensa, o parlamento. Interveno de sua magestade a rainha. A
caridade como elemento de administrao. Autopsia do anjo. De como este
no baixou do ceu. Demonstra-se que saiu da arcada do Terreiro do Pao.
A interveno dos Prelados. As preces para mudar o tempo e os
observatorios para o estudar. Os moinhos do Tibet e as cabaas dos
Kalmuks. A interveno da colonia portugueza no Brazil. O brazileiro
que parte, e o brazileiro que chega. O patriotismo dos nostalgicos. A
commisso de soccorros.--Um banquete militar. O que se passa dentro dos
craneos sob a presso das barretinas.--O centenario da Academia das
Sciencias. A tradio academica. A Academia, bero da revoluo e da
liberdade. Ferreira Gordo, o abbade Correia da Serra, o padre Antonio
Pereira, o duque de Lafes, academicos e jacobinos.--_O crime do Padre
Amaro_ romance d'Ea de Queiroz.

A situao politica...

Mas, perdo--antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

Era uma vez um velho burro. Fora madrao e manhoso. No conquistra
amigos porque os no merecia. Tinham-o lanado  margem no fim da vida.
Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de
um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel,
olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e
encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e
procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idas
philosophicas.

Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no vio das
illuses, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta
ossada angulosa do ancio parecia furar-lhe a pelle resequda e aspera.
Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe
o aspecto de ter um albardo feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo
de missangas pretas e palpitantes,--coisa rabujosa  vista.

--Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de
que,  similhana do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso
musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e
moveres a pelle?... Sacode-te, bestiaga!

Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

--No sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas
 que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vs, e de que o meu cerro 
a estalagem com mesa redonda, so moscas fartas, teem a mansido
abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,--as
famintas, de ferres gulosos, que zinem como frechas, pousam como
causticos, mordem como furunculos. As que tu vs prestam-me um servio
impagavel:--livram-me das que podem vir; so o meu xairel benigno e
suave, o meu arnez, a minha couraa. Quando te chegar a idade de seres
pasto de moscas (e breve te soar essa hora porque a mocidade , como a
herva, uma ephemera transio entre o alfobre da meninice e a palha da
edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho
imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que no aprende
linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca
sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das
revoadas novas. Papos cheios no s no mordem mas at empacham!
Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?

Revertamos agora, como vinhamos dizendo,  situao politica.

Em toda a sociedade em movimento ha dois unicos partidos: o partido
conservador e o partido revolucionario.

A funco do partido revolucionario, qualquer que seja o seu
nome--republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista,
positivista, etc.-- transformar a ordem estabelecida, modificando as
condies da civilisao no sentido de um mais rapido progresso.

Para este fim o partido revolucionario agita constantemente por meio de
idas novas as opinies preconcebidas.

Como, porm, no est ainda definido o programma geral e harmonico da
revoluo, como a tendencia progressiva das multides indisciplinadas se
basea no sentimentalismo esteril ou no phantastico ideal methaphysico
dos phraseadores eloquentes, succede que todo o esforo revolucionario
representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de
anarchia.

A funco do partido conservador  a manuteno da ordem contra todas as
invases que directa ou indirectamente ameacem a integridade da
organisao existente. Em todas as velhas sociedades os governos so por
essa raso, os inimigos natos do progresso. A evoluo progressiva da
humanidade realisa-se, a despeito d'elles, pela elaborao irresistivel
das idas fora da esphera official, sob a aco das descobertas da
sciencia ou das suggestes da arte. O mais que fazem os governos 
submetterem-se s transformaes sociaes que a soluo de cada novo
problema resolvido pela sciencia impe  existencia dos povos. Os
governos, portanto, sempre que uma forte effervescencia intellectual no
agita a sociedade e os no abala constantemente na eminencia do seu
posto forando-os a concesses successivas, tendem ao retrocesso.

A civilisao no  na orbita politica seno o justo equilibrio das
foras resultantes d'essas duas tendencias: a tendencia retrograda na
ordem, a tendencia anarchica na revoluo.

Em Portugal o que succede?

A vida intellectual  extremamente debil. A sciencia no tem cultores
desinteressados e ardentes, a aco da arte sobre a aspirao dos
espiritos  nulla.

O resultado  que os partidos de opposio, no encontrando nos
phenomenos da vida nacional a profunda expresso implacavel de novas
necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se
naturalmente desarmados das grandes rases que reptam os governos a
progredir ou a abdicar.

Em taes condies o partido revolucionario dentro da milicia politica,
partido fabricado pelos proprios governos com a corrupo do
suffragio,--sendo uma pura conveno, uma fixo constitucional, uma
expresso rhetorica, sem raizes na consciencia e na vontade
popular,--acabou por desapparecer inteiramente do nosso systema
representativo. Ha muitos annos que a revoluo no tem quem a
represente no parlamento portuguez.

Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma opposio composta de varios
grupos dissidentes. Estes grupos so fragmentos dispersos do unico
partido existente--o partido conservador--fragmentos cuja gravitao
constitue o organismo do poder legislativo.

Estes partidos, todos conservadores, no tendo principios proprios nem
idas fundamentaes que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente
indifferente para a ordem e para o progresso que governe um d'elles ou
que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de
commum accordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente
segundo o lado para que as despesas da rhetorica nos debates ou a fora
da corrupo na urna fizesse pesar a balana da regia escolha. Tal  o
espectaculo recreativo que ha vinte annos nos esta dando a representao
nacional.

Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um
pipo de vinho. Como nenhum d'elles tem mais direito que os outros a
beber do pipo, combina-se que cada um d'elles ponha a bocca ao espicho e
beba em quanto os pontaps dos outros o no contundirem at o ponto de o
obrigar a largar as mos da vasilha para as apertar na parte ferida
pelos pontaps applicados pela companhia que espera.  exactamente o que
ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relao ao
usofructo do poder que elles acharam na estrada, perdido.

Chegou finalmente a vez de pr o pipo  bocca um partido
excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido
no desemboca o pipo por mais que lhe faam. Protestaes
escandalisadas, de almocreves, retroam.

--Este partido abusa!

--Isto no vale!

--Isto no  do jogo!

--Elle esvasia o pipo!

--Larga o pipo, pipa!

--Larga o pipo, pimpo!

--Larga o pipo, ladro!

E incitam-se uns aos outros at  ferocidade:

--Chega-lhe rijo!

--Mais! que lhe da bem!

--Rebenta-me esse dre!

--Racha-me esse tunel!

--Ah! co!

O partido, porm, continua sempre a beber, e  insensivel a tudo:  dor,
ao insulto, ao chasco, ao improperio,  graa pesada,  insinuao
perfida e  aluso venenosa!

Em vista de uma tal pertinacia, que ns mesmos somos forados a taxar de
irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o
pacto da Granja, constituem-se n'um s partido novo,--n'uma s bocca
para o pipo. Fazem um programma, redigem um manifesto, vo de terra em
terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes occorreu n'esse
momento que o pipo tem dono! que  do paiz o pipo!

Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do
manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos
_meetings_ revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz
responde-lhes:

Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas _Farpas_? Eu
sou esse burro. Vs sois a revoada das novas moscas pretendendo
expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas--sendo meu destino que
ellas sempre me cubram e me comam--prefiro as antigas moscas saciadas s
novas moscas famintas.

Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,--que 
para no bolir comigo!


       *       *       *       *       *


Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugao erea de
Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o cu, descem no espao
sobre as nossas cabeas, rolam pelos telhados com os idyllios felinos do
mez de janeiro, cem sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo
asphalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em
abraos aquosos que lhes atravessam o paletot, o collete de flanella e
as articulaes dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas
pelos resquicios das portas e das janellas, e na sua dana macraba as
pardas e humidas filhas do ar cobrem de sofregos beijos molhados e
bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o marmore
polido das chamins, os cabellos que se desfrisam e as idas que se
dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do cu,
chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobilia, dos
castes das bengalas, dos _abat-jours_ dos candieiros, e dos barretes de
dormir. Ha dois violentos temporaes com poucos dias de espao entre um e
outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se arvores.
Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agricolas, os generos
em deposito nos celleiros, os viaductos e os rails das linhas fereas so
arrebatados pela corrente das aguas. O curso ordinario dos negocios, o
movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos
habitantes das regies inundadas ficam na miseria e tem fome.

       *       *       *       *       *

Ha por tanto duas crises: uma crise meteorologica e uma crise economica.

       *       *       *       *       *

Sendo a crise economica um effeito da crise meteorologica, a questo
fundamental no estudo d'essas duas crises  a questo da chuva.

Esta questo acha-se definida e tem a sua theoria na sciencia.

Assim como a agua sujeita a uma dada elevao de temperatura se evapora
e se converte em ar, assim o ar sujeito a uma proporcional depresso
athmospherica se transforma e se converte em agua. Os conhecimentos que
j hoje se possuem da physica do globo permittem determinar os
differentes tramites do processo seguido pela natureza para obter os
resultados achados pela observao humana.

Todo o vento (effeito da rotao da terra) humedecido pela impregnao
aquatica do mar, encontrando na sua passagem um estorvo que o dilate na
atmosphera, transforma-se em chuva, ou transforma-se em neve, segundo o
gru de arrefecimento, maior ou menor, resultante da altura a que o
eleva no espao o volume do estorvo interposto na sua corrente.

Assim se explica o phenomeno da chuva, a existencia da neve nos
pincaros de todas as altas montanhas, e o nascimento dos rios. D'estes,
uns, como o Rhodano, o Rheno, o Danubio, so formados pela opposio das
cordilheiras  corrente regular de certos ventos; outros, como o
Mississipi e o Missouri, nascem do encontro das duas correntes
atmosphericas oppostas, uma que se do golpho do Mexico, outra que parte
dos Estados Unidos na direco da Europa.

Achando-se determinado que 200 metros de elevao acima do nvel do mar
do 3 grus de frio,  facil calcular, o frio que deve actuar no ar
elevado s alturas dos Alpes, dos Pyreneus, do Caucaso, e de descobrir
assim as causas das geleiras, do mesmo modo se descobriu a origem das
chuvas e a do nascimento dos rios.

Possuida esta simples e clara noo, o homem adquiriu o poder de
intervir no meteoro. Em 14 de novembro de 1854 uma tempestade medonha
cau sobre as esquadras franceza e ingleza, estacionadas no Mar Negro.
Todos os navios das duas marinhas tiveram avarias desastrosas. Muitas
embarcaes de transporte naufragaram. O sr. Leverrier, director do
observatorio de Paris, procedeu ento a um inquerito sobre as
perturbaes atmosphericas d'esse dia, dirigindo circulares a todos os
meteorographos do mundo. Duzentas e cincoenta respostas de differentes
observatorios provaram que a onda atmospherica qua determinara a
tempestade fra presentida pelos observadores, e que a catastrophe teria
sido evitada se o telegrapho, que caminha mais depressa do que a
corrente do ar, houvesse feito passar de observatorio em observatorio a
noticia do phenomeno.

Antigamente faziam-se preces e penitencias para pedir chuva; hoje em dia
a chuva no se pede, manda-se-lhe simplesmente que caia, e ella ce
precisamente no ponto que se lhe designa.

Ha poucos annos ainda, no Baixo Egypto, no chovia nunca. Os celleiros
eram construidos ao ar livre, a descoberto, sobre os telhados. Desde
tempos immemoriaes que o vento secco do norte mantinha esse estado de
coisas na referida regio. Um dia, porm, a corrente septentrional chega
 Alexandria e encontra uma certa difficuldade em passar com a rapidez
do costume; detem-se um momento, retarda-se um instante: basta isso para
que ella se dilate, para que se eleve no espao, para que arrefea na
razo da altura a que subiu e para que, por-consequencia, se converta
em chuva. D'onde viera esta poderosa resistencia  invaso do vento
esteril? De uma revoluo geologica na configurao do solo? Do encontro
de um vento opposto? Da influencia calorifica da radiao solar? No. A
voz de preso dada ao vento norte, o encarceramento d'elle n'uma certa
poro do espao, a sua condemnao inilludivel a condensar-se e a ser
chuva, fra simplesmente a obra do homem, que vencera o vento plantando
a arvore.

As florestas que tem o poder de occasionar as chuvas por meio da sua
interferencia na corrente dos ventos, possuem ainda a propriedade de
lhes regular os effeitos impedindo os excessivos irrigamentos, e as
inundaes.

Alm de certos processos de cultura e de arborisao nos cabeos dos
montes e nas encostas das colinas, ha outros meios de impedir os
estragos das cheias,--dando aos rios um regimen torrencial, operando
largos cortes transversaes nos declives do solo para regular a descida
das aguas, construindo tubos de drenagem, etc.

Quando um dique, como o de Vallada, se rompe por effeito de um
repentino augmento no volume da agua no leito de um rio, ha meios
praticos, prontos, expeditos, de construir diques provisorios. O sr.
Babinet, nos seus estudos cerca da chuva e do irrigamento da Frana,
lembra para os casos analogos ao de Vallada a construco de barreiras
feitas com grandes caixas de ferro fundido similhantes s que
transportam a agua potavel nas navegaes de longo curso. Estas caixas
enchem-se com a mesma agua do rio e sobrepem-se ou enfileiram-se de
encontro  corrente at formarem um obstaculo de dimenses adquadas ao
volume da agua que se tem por fim represar.

O mesmo sr. Babinet suggere para o meio preventivo da arborisao o
sabio alvitre, to moralisador, de organisar regimentos de plantadores
formados de corpos de veteranos, cujas praas encontrariam n'esse
trabalho um suave emprego da sua actividade, que o Estado poderia
utilisar remunerando-a com liberalidade superior  importancia mesquinha
do soldo e proporcional ao servio prestado por esses cidados, at hoje
inuteis,  salubridade e  riqueza publica.

Por occasio das ultimas inundaes em Frana, das recentes inundaes
na Inglaterra, os meios apontados e muitos outros, descobertos pela
sciencia no momento do perigo, em frente da catastrophe, tem sido
objecto dos mais graves estudos por parte do governo, por parte da
imprensa, por parte principalmente das corporaes especiaes, dos
meteorologistas, dos engenheiros hydrographos, dos de florestas, dos de
pontes e caladas, etc.

Em Portugal deante do facto da inundao espraiada sobre as povoaes do
Ribatejo, e das margens do Guadiana, a questo principal, a questo
summa, a questo technica,  posta completamente de parte, ou nem sequer
chega a ser afastada: no concorre no problema,  como se no existisse!

       *       *       *       *       *

Em face do desastre, dos nossos periodicos, do nosso parlamento, dos
nossos proprios estabelecimentos de instruco, irrompe um s grito
enorme, consternado, lacrimoso, impotente, imbecil:--_Caridade!
Caridade! Caridade!_

Parece no se ter unicamente em vista achar um remedio, mas cumprir uma
expiao que minore os castigos do Ceu!

Um antigo proloquio egypcio dizia: _Chuva em Tebas, desgraa no Egypto_.
A populao portugueza no mostra ter da chuva uma comprehenso menos
supersticiosa que a da tradio tebana. Estamos na metaphysica dos
cataclismos incommensuraveis.

Debalde a meteorologia--com quanto em estado rudimentar, no constituida
ainda em sciencia sobre bases experimentaes e com processos
deductivos,--nos annuncia, ainda assim, que no ha nos phenomenos do ar
aberraes extraordinarias, inaccessiveis  previso, mas sim
uniformidades periodicas de successo, as quaes o estudo das ondas
atmosphericas e da aco magnetica do globo, estudo dirigido
harmonicamente em uma cinta de observatorios que cinja
ininterrompidamente o globo, chegar por certo a poder um dia
regulamentar systematicamente. Definir-se-ha o sentido scientifico do
sonho symbolico das vaccas magras e das vaccas gordas, demonstrando-se
como aos annos de estiagem e de fome succedem annos compensadores de
irrigao e de abundancia.

Debalde a historia nos mostra que foi das inundaes dos grandes rios
que saiu a iniciao dos grandes progressos humanos; que foi das
inundaes do Nilo que procedeu a civilisao do Egypto; das inundaes
do Hoang-Ho que procedeu a civilisao da China; das inundaes do
Euphrates, que procedeu a civilisao da Caldea, da Babilonia e da
Syria. Povos na infancia, desprovidos das lies da experiencia,
desarmados dos instrumentos da analyse moderna, souberam fundar a sua
vida historica na previso industrial e na previso economica das cheias
dos seus rios.

Ns, portuguezes, em pleno seculo XIX, na posse dos mais importantes
segredos da mechanica, da astronomia, da physica, da chimica, ns,
filhos de Kepler, de Galileu, de Newton e de Francklin, ns,
contemporaneos de Mayer, de Helmboltz, de Virchow, de Haeckel, de
Humboldt, e de Wourtz, de Ampere, de Leverrier, ns, no sabemos tirar
das inundaes successivas de um rio que vem de annos a annos,
periodicamente, contra nossa vontade, fertilisar os nossos campos,
nenhuma das lies que a experiencia devia suggerir-nos para regularmos
e utilisarmos em nosso proveito a aco violenta d'esse phenomeno!

Ha perto de trezentos annos que um velho naturalista, um modesto
oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as
fontes artificiaes, fazendo passar as aguas da chuva atravez de um
pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento
argiloso, terminando n'um muro de supporte que se corta no ponto em que
se colloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno
entre as raizes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado,
venha a correr no vero em bica de agua mineralisada e limpida. Ha
trezentos annos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva
torrencial  um facto de quasi todos os invernos, onde a falta de agua
potavel  um facto de quasi todos os veres, ainda ninguem aprendeu a
construir a fonte de Palissy!

Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro
abalo de terra se tivesse seguido s grandes chuvas  natural que muitos
outros predios aluissem, porque a grave questo das edificaes em
Lisboa est absolutamente despresada e abandonada  rotina do velho
systema adoptado pelo marquez de Pombal. Ora esse systema, alis
excellente no tempo da reedificao subsequente ao terremoto,  hoje
imperfeito e perigoso. A canalisao da agua e as chamins dos foges de
sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela
sabia administrao pombalina. Os andaimes de madeira geralmente
adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente
ao contacto dos canos da agua que envolvem os predios ou se carbonisam
por effeito do calor que lhes communicam os tubos das chamins. A
elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos
procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, s
poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisao,
empregando nas construces modernas o ferro em vez do pau. Esta
modificao to facil, to economica, to urgentemente exigida nos novos
systemas de edificar, o nosso desleixo nacional no nol-a tem deixado
ensaiar. De modo que a mesma previso do perigo discorrida pelo unico
homem que acordou em Portugal por occasio do grande tremor de terra com
que  natureza benigna approuve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa
indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos annos
em mais uma causa de destruio e de aniquilamento!

Do regimen torrencial dos rios, da arborisao das montanhas, dos crtes
transversaes das vertentes, da construco dos tubos de drenagem, das
applicaes da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes
caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que
um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos
centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar
pelo pequeno espao de tempo necessario para evitar o perigo, quasi
momentaneo, das inundaes, do emprego finalmente de qualquer dos muitos
meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas,
ninguem se occupa--nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente
sentado nos seus _fauteuils de orchestre_ e applica  marcha dos
successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o
parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!

       *       *       *       *       *

A crise economica no nos parece ter sido objecto de cuidados mais
serios do que aquelles que cercaram a questo hydraulica. Ou  certo ou
no  que a inundao do Tejo e os temporaes que concorreram com ella
destruram as casas, devastaram os campos, reduziram povoaes inteiras
 miseria e  fome. Se isto  uma pura inveno dos _reporters_
sentimentaes, o diligente esforo humanitario empregado para arrancar da
caridade o remedio supremo do grande mal  uma simples ostentao
insensata e ridicula. Se so verdadeiras as informaes que os jornaes
vagamente nos transmittem das desgraas provenientes da inundao do
Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questo no se resolve pela caridade
particular mas sim pela assistencia publica.

Porque--reflictamos um momento--ou existe esse conjuncto harmonico de
instituies solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou no existe.

Se no existe, em nome de que principio nos esto aqui a impr o servio
militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a
lista civil?

Se o Estado existe, o que  para elle o _lnundado?_ O _Inundado_  o
productor e  o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o
cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha,
pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado
desde tempos immemoraveis que no faz mais do que estas duas coisas:
produz e paga.

Ns outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do
Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, ns,
republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e
mesarios da confraria das Chagas, ns outros no produzimos e por
conseguinte, em rigor, tambem no pagamos.

Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores,
poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores
de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos
de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,--ns,
francamente, no produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto
, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas--mais
ou menos legitimamente--os usufrutuarios, os administradores officiosos
ou officiaes do dinheiro dos outros.

Portanto, como acima dissemos, na outros, como no produzimos, em
rigor tambem no pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar  apenas uma
parte que se nos deduz n'aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse
vem a pagar  unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o
productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que
cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o
cavallo, o porco e o carneiro, o que d a cortia, o mel, a cebola, o
po, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.

 elle, o Inundado, quem at hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as
carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as
purpuras dos nossos reis, as _toilettes_ das nossas danarinas, os
penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d'agua dos nossos
parlamentos, finalmente toda a despeza de administrao, de pompa, de
luxo e de fora, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.

Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O
Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:

Inundado! Voc trabalha como um boi de nora, o que o no impede de ser
um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a
felicidade material, intellectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e
que v. no sabe nem pde constituir sem mim. Voc no sabe lr nem
escrever, voc no sabe trabalhar, no sabe prevr, no sabe economisar.
Voc no nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia
rural, nem o banco rural. Voc no tem a granja modelo que lhe ensine os
novos processos agricolas e lhe empreste as grandes machinas de
trabalho. Voc no tem arborisao nos seus montes nem canalisao nos
seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeioamento
e de prosperidade, arranjei-lhe eu um systema, que se chama o systema
monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo
seis ministros e seis correios a cavallo, um parlamento, composto de
duas camaras, uma electiva e outra hereditaria. Quer voc ou no quer a
civilisao? Se a quer, aceite o meu systema e eleja um deputado que v
 minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que voc
appetea. Em troca d'este enorme servio que eu lhe presto ha de voc
resignar-se a pagar-me um imposto annual, que eu c mandarei cobrar pelo
escrivo de fazenda, e cuja importancia applicarei a regalal-o e a
divertil-o summamente com um exercito, uma crte, um sceptro, varias
duzias de reparties publicas, um theatro, um _Diario das Camaras_, um
arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.

O Inundado comeou desde ento a pagar e o estado comeou a dispender.
Ha perto de cincoenta annos que dura esta troca de servios. O Inundado,
porm, ainda at hoje no pde obter nem a escola pratica, nem a
bibliotheca, nem a granja, nem os novos instrumentos agricolas, nem as
grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisao, nem os
trabalhos hydraulicos no rio.

Um bello dia, um temporal rebenta, as aguas das chuvas, sem florestas
que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no
rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruina, alaga as
povoaes, invade as casas, e deixa o Inundado entregue  nudez, 
desolao e  fome.

O Inundado pede ento a alguem que em seu nome exponha ao Estado a
situao em que elle se acha:

       *       *       *       *       *

Excellentissimo Estado e meu amigo.--Ha cincoenta annos que para aqui me
acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinmos quando v.
ex.'a fez comigo o contracto de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de
v. ex.'a me mandar para aqui a civilisao. At  data d'esta nada
recebi.

Os deputados que para ahi tenho expedido  custa de muita intriga, de
muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas
distribuidas com as listas  bocca da urna, nada remetteram para c
seno discursos cheios de exclamaes e de erros de grammatica. Graas
aos effeitos de quarenta annos de eloquencia sobre os trabalhos da terra
e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as ultimas
chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, generos,
ferramentas.

Acho-me na derradeira miseria.

Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que j
alludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa,
entregava-o aqui assim ao morgado, ao capito-mr, e ao convento. Mas o
morgado e o capito-mr, se por um lado me arrancavam a pelle como v.
ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres,
padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as bras e as amendoas pelas
festas do anno, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos
seus moos e os d'elles proprios ao servio da nossa causa, quebravam
todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros
e aos almotacs, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em
quando a creao ou davam-nos chicotadas quando estavam bebados, mas em
seu juizo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braos abertos
para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades
resavam,--o que, se no nos fazia bem, tambem nos no fazia mal; e esta
 a differena que distingue os frades dos seus successores, os
deputados: o frade resava, os deputados intrigam. Alm d'isso, os
frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre
acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e
agallegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades,
se de ordinario viviam  nossa custa, tambem nas occasies de crise nos
permittiam viver  custa d'elles, e o caldo da portaria era uma
restituio.

Quem at hoje no tem restituido a importancia de um vintem nem em
dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma
especie  v. ex.'a, meu nobre e illustre senhor.

Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem
gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas
paradas; corpo diplomatico; crte; gratificaes aos doze homens que
representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias
dos outros; governadores civis e secretarios geraes; desembargadores
para Ga e juizes para os Aores; reparties publicas; arsenaes;
imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.

Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequencia de uma desgraa de
que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que no serei
desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas
necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das sommas com que eu
ha cincoenta annos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem
sequer ao menos me teem convidado,

D'este que 

De v. ex.'a

Humilde subdito e servo

_O Inundado._

A resposta do Estado a estas argumentaes e a estas instancias  de tal
modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua authenticidade no
fosse reconhecida, como , de todo o mundo.

O Estado respondeu:

Meu caro Inundado.--A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma
situao bem critica para te poder servir, como desejava.

Acho-me a braos com a resposta ao discurso da cora, com a appario
dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para
me occupar de ti.

Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripo. A rainha
acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros
e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commisses de homens e
commisses de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de
amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

Dizes-me que no tens nada de comer.  pouco. Todavia espero que, com
alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que
simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. S
sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia
garrafa de vinho  quanto te deve bastar. Como no tens nada, resigna-te
um pouco e abstem-te de champagne e de faises dourados. Perdeste a
casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de
chambre e no saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogo,
toma grogs e l romances. Reveste-te de paciencia, j que no podes
revestir-te de pano piloto, e espera.

Tudo est preparado e em via de execuo para te acudir. Eduardo Coelho
e Rio de Carvalho escrevem o hymno e esto no segundo moteto. O nosso
Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso
Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o
nosso Forte Gato, e outros.

 tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam j os
consoantes para _rainha_; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres
disponiveis e mais proprios do alto estylo do que _tainha, morrinha,
doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha_.
Manda tambem para _Pia_ os que poderes obter, menos os que parea
conterem alluses irreverentes como _enguia, folia, tosquia, letria,
azia, mania_ e _bacia_.

Cada um ajusta ao p o patim da caridade e guina para seu lado em
arabescos cheios de phantasia e de elegancia: est-se n'um _skating
rink_ de beneficencia para te accudir, meu grande magano.

Alm dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os
teus revezes--to lastimados elles so!--tem feito espigar mazurkas e
rebentar polkas... de pura dr.

Entre as modistas tem havido largas discusses para se decidir se a
caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos
de beneficencia diurna tem-se adoptado geralmente os vestidos de meia
caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de
beneficencia nocturna as _toilettes_ so sempre de grande-caridade, isto
: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda,
luvas de dez botes, e diamantes.

 indiscriptivel a animao ferverosa que reina em todos os sales para
se tratar de ti. Triplicaram as _soires_ n'este inverno e dana-se
todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os
lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.

--Elle geme nas vascas da mais horrorosa agonia!... Chaine anglaise,
minha senhora!

--Mas ns havemos de arrancal-o das fauces da miseria... Sirva-me um
gelado!

--Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!... De fructa ou de leite,
minha senhora?

--Salvemol-o vivo ou morto!... De leite!

s duas horas ceia, volante ou de bufete, servio quente e frio, menu de
Baltresqu.

Um telegramma que chega:--O Inundado est com agua pela cinta.

Um sujeito fugindo com um per assado:--Vou levar-lhe uma boia!

Uma menina gritando:

--No! No! no o devo consentir! no consentirei jmais que o corao
generoso d'aquelle que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente
por um inundado que s est em perigo--da cinta para baixo! Accudam ao
pap! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vae fazer mal:
elle j comeu uma!

De rasgos d'estes poderia citar-te centenas.

Restos de velhas edies de livros, de polkas, de almanacks, que o
consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos
nos archivos de familia dos respectivos autores, acabam de te ser
coasagrados e cem sobre as subscripes abertas para te proteger como
benos dos genios incomprehendidos e olvidados.

A mesma infancia estudiosa abre nas aulas de instruco primaria
subscripes para te acudir, e meninos, que ainda no conseguiram
penetrar no _quadro de honra_ como sufficientemente fortes em leitura,
figuram nas resenhas dos jornaes como bemfeitores dos homens.

No sei realmente, querido Inundado, como poders agradecer-nos to
reiterados e to grandes beneficios! Como no sabes fazer mais nada,
espero ao menos quo rezes por ns. Compenetra-te bem de quanto nos
deves, e no te esqueas nunca, em primeiro logar de nos pagar as
decimas, e em segumdo de nos encommendares a Deus em todas as tuas
oraes de manh e de tarde para que o Altissimo vele constantemente
pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais
longos annos, como desejas e has mister.

No te assustes, por quem s, com esse passageiro incidente da agua pela
cinta. Mantem-te em uma attitude serena e firme. As cheias bolindo-se
com ellas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as
cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo
que o tempo enxugue e os terrenos sequem, socega que irei ver-te. Podes
desde j preparar a foguetada, o vivorio, e o publico regosijo, para
receberes quem  devras,

Teu amo e protector

_O Estado_.

_P. S._ O bom amigo Luiz de Campos recommenda-se-te muito e manda
perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta  latina com _c
a_, ou  grega com _c h a_.

       *       *       *       *       *

Diz-se geralmente--e parece-nos util fixar este boato como um symptoma da
epoca--que sua magestade a rainha fra aconselhada e guiada em todos os
tramites da sua interveno a favor do Inundado por um personagem j
hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua
magestade vo dar um novo grau de importancia culminante e unica na
governao publica. Ser perfeitamente legitima essa importancia. Se
effectivamente houve um homem sufficientemente sagaz para se conservar
na sombra e para suggerir a sua magestade a rainha a ida profunda de
apparecer ella, unica e exclusivamente, a debellar unma catastrophe
publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um
servigo incomparavel e deu uma prova de pericia e de habilidade que
nunca se egualou e que se no pde exceder.

Como se sabe, os partidos conservadores no tem idas, no podem e no
devem tel-as; os que por excepo as produzem commettem um erro fatal e
so victimas do seu proprio acto. Em todo o _statu quo_ toda a ida nova
 um rombo. Quem no poder tem idas, afunde-o. Nos regimens
conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as
idas so erupes revolucionarias extranhas  aco governativa. A
misso dos que governam no  lanar na circulao essas idas, mas sim
e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraa de um monitor em
batalha naval, e sempre que uma ida penetre, rolhar o furo e
disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo
projectil inimigo.

Aos governos conservadores no se pedem por conseguinte idas: pedem-se
expedientes. Expedientes para qu? Para conservar. Como? Por todos os
meios que produzam este resultado:--a consolidao do que est.

 de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que
ns dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem
effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos j porque) so o acto
mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais
adequado e mais proficuo.

Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da
inundao, que succederia? A opposio contraditava-o. Na imprensa e na
camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes,
controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos,
com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo
e estibordo no acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de
alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma ida?!

Que aconteceu, porm, em vez d'isso?

Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os
soccorros s victimas da inundao. E sobre esta noticia publicada em
grandes letras nos jornaes da manh, o governo foi para a camara, cruzou
os braos e esperou corajosamente que a representao nacional se
manifestasse. Ento a opposio em peso, composta dos srs. Barros e
Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela
bocca dos seus oradores.

O sr. Osorio de Vasconcellos disse:--Partiu de alto a iniciativa;
partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois
congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este
sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidados sem
distinco de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que 
geral _(apoiados)_ do soffrimento que  grande; das amarguras que so
immensas... O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da
caridade... Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc.,
etc.

O sr. Barros e Cunha:--Mando para a mesa a seguinte proposta que espero
seja desde j votada por acclamao: A camara prestando a caridosa
iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio
das victimas das inundaes a homenagem que lhe deve em nome do povo que
representa, resolve que este voto seja lanado na acta das suas sesses,
e que uma grande deputao deponha aos ps da augusta princeza o tributo
do seu reconhecimento.

O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)--Trago tambem aqui uma
proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a
de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porm, que a camara
approvou a d'elle, vou pr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio.
Tenho concluido.

E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido
violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos
effeitos da inundao, os unicos tres deputados da opposio que n'este
dia se achavam na sala no tiveram voz seno para louvar a caridade,
para citar o Golgotha e para convidar uma grande commisso a ir depr
nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento
popular!

A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era
indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam
permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de
gratido.

Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporaes todas
com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os
empregados das reparties publicas, os carpinteiros, os serralheiros,
os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros
angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes,
_speechs_, mensagens, missivas particulares, desenhos  penna, vivas,
bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus
emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu
n'esta immensa apotheose.

E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que
anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais
firme que nunca no amor dos novos.

Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de
resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela
caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo
que o paiz podia desejar na sua situao presente.

       *       *       *       *       *

O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um
promotor das conveniencias politicas e no guiada por impulsos
expontaneos  o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a
interveno da Cora e nas quaes se revela a mo burocratica do
conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir
programmas do que a imitar a graa engenhosa, a poetica delicadeza, o
fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os
actos nativos de um corao de mulher. N'esses actos, quando legitimos e
authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os
laboratorios officiaes no imitam seno por meio de falsificaes
baratas e reles.

Por este lado, que j no  o lado politico mas sim o lado esthetico, o
lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vs,
meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procisso de
popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas
companhias de amadores dramaticos em que s representam homens: tem os
ps chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e
miseravel.

Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos
grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na
alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos
collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas
azas prendem por articulaes de couro a espaduas de porta-machado.

Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vs a
no bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si s,
teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada
simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita
educao de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa;
far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria  dedicao absoluta
de toda a sua alma pelos desgraados e pelos humildes, sem passar por
cima da ara encarnada dos triumpos de rua, sem transpr os arcos de
murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, at o
ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas
_rclames_ com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens
sentimentaes e sonoras do _perfume dos seus cabellos_, das _pregas dos
seus vestidos_, da _flexibilidade da sua estatura_, etc. Houve um
folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua
magestade--a Magdalena!

Ns protestamos contra similhantes invases do enthusiasmo nos dominios
da dignidade pessoal, e negamos  rhetorica monarchica o direito de
lanar s faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela
mo, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera
deitar fora com as camelias murchas.

Este abuso iniquo e grosseiro fostes vs, conselheiros habeis nos
manejos politicos mas imperitos nas questes do gosto,--que os
promovestes e auctorisastes.

Vs comeastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana
prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripo.
Quando a miseria  geral, quando as amarguras so immensas, como disse o
proprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes publicos no
baixa uma s medida para acudir a tanto infortunio, quando todo o
remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha,
como quereis vs que se acredite que essa rainha, em uma tal
conjunctura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnanimos at
achar o numero de libras que compense a miseria geral e a amargura
immensa? Por que vibraes de piedade, por que processo de sentimento,
por que logica de consternao, por que induco de pezares, quereis vs
que o alanceado corao de sua magestade tenha chegado de dor em dor, de
lagrima em lagrima,  conta, que s vs podieis ter feito, de duzentas e
vinte e duas libras em oiro e dez tostes em prata? Esta conta
deploravel  de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, no
tendo aprendido pelas necessidades proprias qual  o valor do dinheiro,
no sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vs lhe tivesseis
dito simplesmente que para acudir a uma catastrophe nacional no havia
nem uma s disposio da sciencia ou da lei e que todo o remedio para
essa desgraa publica se esperava da influencia regia, a rainha,
entregue ao impulso instinctivo do seu corao, no deixaria de
contribuir para esse fim de um modo illimitado, sacrificando-se
inteiramente e incondicionalmente  fatalidade da fome como teria de se
sacrificar  fatalidade da guerra.

Depois no vos occorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se
cerceava em soccorros no producto dos espectaculos em beneficio das
victimas da inundao. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma
senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher occorreria:
a prescripo da _toilette_. Como sois homens publicos e viveis
permanentemente na ostentao e no apparato vs no podeis conceber
quanto ha de inopportuno, de indelicado, de offensivo do bom gosto no
aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de
joias como para um certame de luxo. Se fosse effectivamente uma senhora
quem tivesse a direco d'esses actos de phylantropia, as joias teriam
sido abolidas, o preo das luvas de baile teria sido applicado 
subscripo para os pobres, e nas mos nuas um annel de ferro mandado
fazer pela commisso ornaria toda a pessoa que quizesse acceital-o em
troca de um annel de oiro offerecido aos inundados. Em vez dos
ramilhetes, de 15 ou 20 libras, offertados aos actores, aos musicos e
aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa
despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais
economico e mais expressivo como seria por exemplo, o offerecimento de
uma pequena photographia de sua magestade com uma simples dedicatoria
autographa.

       *       *       *       *       *

Alm da commisso de soccorros presidida nominalmente por sua magestade
a rainha a unica corporao que em Portugal se occupou do problema das
inundaes foi a de suas excellencias os srs. bispos.

Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos
os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericordia
que os rios voltassem aos seus leitos.

Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pr em
harmonia a meteorologia e a religio, crear barometros especiaes
dedicados s nossas circumscripes ecclesiasticas.

Estes barometros, que os srs. parochos collocariam nas sacristias ao
lado das folhinhas em que se prescreve a cr das vestimentas, teriam as
indicaes precisas para constituirem um formulario perpetuo sem o
incommodo da interveno dos srs. bispos por via das suas pastoraes.
Bastaria que os aneroides _ad usum ecclesiae_ fossem um pouco mais
desenvolvidos na indicao dos resultados da presso atmospherica sobre
os aspectos do tempo. Por exemplo:--78, _bom tempo fixo, faa preces a
pedir chuva_;--74 _grande chuva, faa preces a pedir sol_;--73
_tempestade, saia procisso e faa preces a pedir bom tempo_.

N'este caso os observatorios astronomicos e meteorologicos podero ser
substituidos com vantagem pelas cabaas rotatorias dos Kalmuks ou pelos
moinhos do Tibet. As cabaas, cheias de oraes e agitadas polo vento,
produzem a adorao perenne. Os moinhos so uma fabrica mecanica de
preces continuas, de moagens devotas.

 preciso que n'este ponto nos decidamos por uma das duas:--pela
meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosphericos se determinam
nos templos  absolutamente inutil estudal-os nos observatorios. As duas
coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeas que pensem ou bem
cabaas que rodem. Decidam!

       *       *       *       *       *

O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro,
foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, no podendo
chegar a Lisboa seno oito dias depois d'aquelle em que partira do
Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos--quinze ou
vinte--que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um
dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estaes proximas de Gaya
esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo
pendente do pescoo por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraavam
nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abenoal-os, dar-lhes os
ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de
mulheres que choravam. Vozes soluadas diziam: Adeus! adeus talvez para
sempre! Abraos tenazes parecia no poderem deslaar-se dos derradeiros
abraos. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres,
indifferentes, debruados das portinholas, intervinham nos excessos da
ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com
commentarios facetos, com exclamaes punidoras. Um aldeo j velho,
magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe
abrara ao pescoo; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e
uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:-- labrego, larga o
rapaz! e accrescentou sentenciosamente este conceito:--Beijos de
homens so coices de burro! O velho teve a coragem de sorrir com uma
visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na
carroagem,  pressa, em voz baixa, envergonhada: Deus Nosso Senhor te
abene! Deus Nosso Senhor te abene e te d boa sorte!

O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva no
pde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde
chegou s duas horas da noite. Os pequenos aldees, trespassados de
frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os ps
molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mos nas algibeiras das
calas, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da
estao. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados,
perdidos no meio da indifferena, desappareceram. Quando ns, no
primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de
Coimbra, onde ficaramos, at Santarem, no encontramos nenhum dos nossos
pequenos companheiros.  provavel que tivessem continuado a p, sob a
tempestade, at chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza.
Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troados, escarnecidos
na sua dr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanas de
fortuna, eram os embries da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao
deixar a patria.

Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundaes era um
velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por
baixo do chapeu, um leno de seda e s costas uma manta _couvre-pieds_,
que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por
traz at os calcanhares. Esta manta, de pano baeto, tem estampada a
figura de um tigre, o que d ao nosso companheiro, visto pelas costas,
com o seu leno na cabea, os seus scos, o seu chapeu de chuva, o
aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua
prima, mais velha que elle, e de um po de l mais volumoso do que os
dois primos juntos.

Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu po de l e
de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua
naturalidade, e trazia o po de l, que as chuvas avariaram, para um seu
amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fra em
creana para o Brasil, reunira  fora de trabalho e de economia uma
modesta fortuna. J na velhice liquidara todo o seu capital, voltara
para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus
paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundao de
uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moos, mettera
operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de
castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome
de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na
politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias,
contentando-se com a modesta gloria de restituir  terra em que nascera
toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional--a
fertilisao do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os
partidos confederados de Felgueiras comearam a hostilisal-o como o
inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo  em toda a parte--a
imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o,
desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspiraes.
Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado
acabara, porm, de o ferir no corao: dias antes da nossa viagem, na
vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim,
invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as
suas arvores. Elle querelra, e vinha para Lisboa esperar que se lhe
fizesse justia. Exijo--dizia elle--que me paguem indemnisao na
medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a
quem pouco tempo j resta para esperar que as arvores cresam. Venho
para Lisboa at que os tribunaes decidam a minha sorte. Se no me
fizerem justia, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! No
tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz
extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida,
repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha
dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado
e escarnecido. Lavrador por vocao e por velho geito adquirido, parto
hoje pelo caminho de ferro para Frana, e plantarei a minha horta n'essa
terra estimavel, onde os homens no teem rei nem os campos teem muros
mas onde a nao da justia baixou j dos dominios da intelligencia at
penetrar nos costumes e ter a sua encarnao nas leis. Sirva-se portanto
vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de
menos[1].

[Nota 1: Textual.]

Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os
pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o
brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.

Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, est o
portuguez residindo e trabalhando no Brasil. L, esquecido do que
passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o
portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente
patriotismo. Nas suas allucinaes de exilado a patria apparece-lhe
deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam
os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeia em cada dia pelo
trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo
progresso, e mede pelo esforo d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o
empenho com que esto concorrendo para a civilisao no paiz os seus
homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus
escriptores e os seus artistas.  similhana da colonia de que elle faz
parte, suppe a patria um grande todo confederado e harmonico com
interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados,
tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de
paixes profundas, de dedicaes fortes, de sacrificios illimitados. E
tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicaes de que a
suppe susceptivel.

Assim  que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundaes
a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de
libras por cada paquete.

Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as
sementeiras comeam a crescer, a lembrana da catastrophe principia a
dissipar-se, e o dinheiro das subscripes do Brasil continua a chegar.
Dentro de pouco tempo a commisso portugueza de soccorros aos inundados
no saber o destino que ha de dar ao dinheiro que amonta.

As crises do trabalho subsequentes s inundaes so transitorias e to
rapidas como as proprias inundaes. Desde que a inundao cessa, o
trabalho restabelece-se nas suas condies normaes. Os estragos causados
pelas cheias no affectam os trabalhadores e os pobres, affectam
unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo
proposto pelo governo, mas no podem receber um donativo feito pela
caridade. Portanto, desde que o governo no acudiu aos pobres em tempo
opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o
dinheiro accumulado pela caridade  inutil a todos: aos pobres porque
no tem a opportunidade do tempo em qu, e aos ricos porque no tem a
opportunidade do modo como.

 por estas rases que suppomos fazer um servio  commisso de
soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com
que se acha a braos. Este meio : dar em nome do paiz uma satisfao de
honra aos portuguezes residentes no Brasil--1. indemnisando os
emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de
janeiro pelos prejuizos provenientes de no haverem chegado a Lisboa a
tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2. fundando em
Felgueiras uma policia rural que empea a populao indigena de destruir
as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na
provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes
residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e
que acima referimos, procedem, no das inundaes dos rios, mas da
indisciplina dos homens.

       *       *       *       *       *

Para servir de complemento  historia das inundaes portuguezas, eis o
que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalico, com um pequeno
riacho obscuro que ali passa.

Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o
adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, alm de uma obra fluvial, era
tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos,
todos os grandes proprietarios da regio em que passava o ribeiro
pretenderam ter a ponte  sua respectiva porta. N'este sentido ferveram
os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaas, as presses dos votos,
todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia
das idas, a direco dos principios, os planos das estradas e os
projectos das pontes.

A obra fez-se finalmente sob a aco d'essas influencias e, como 
costume, em satisfao do empenho mais preponderante. Era no vero, e
tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as
copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e
pelos caminhos, passou por toda a parte, smente no passou--por baixo
da ponte!

Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalico. A sua ponte 
verdade que no representa completamente uma ponte, mas representa um
symbolo monumental, que os habitantes no procuraro para atravessar o
ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos
os philosophos iro ver com admirao e respeito para se compenetrarem
do legitimo espirito da politica e da administrao na presente phase da
civilisao portugueza.

       *       *       *       *       *

Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignra
de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda,
offerecendo-lhes em Palacio um banquete composto das iguarias mais finas
e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chourio,
carne guisada com batatas e laranjas.

No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da
guerra e com as rosas da paz, libavam as taas da victoria, nas quaes, a
um gesto da regia munificencia o _doutor roxo_ se repartira e
prodigalisra na razo de dois decilitros por praa, o sr. capito da
companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos
dithyrambos, s canes bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto to
anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jmais deixa
de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta
arte:

Soldados! O principe, cujo pennacho branco vs tendes visto
constantemente  vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos s
victorias, o principe cuja espada invencivel vs tendes visto sempre no
meio de vs, j relampagueando intemerata ao sol das batalhas, j
embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o principe, generoso e
magnanimo, n'este dia consagrado ao ephemero repouso dos acampamentos,
convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros d'armas. Uma
coisa de que sua real magestade jmais se pde esquecer  a maneira como
vos tem visto pelejar! Porque  mister dizer-vol-o: no maior ardor dos
combates, no proprio momento em que mais absorto elle parece no afan de
retalhar em postas os exercitos inimigos, nunca o principe vos perdeu de
seu real olho!

Tudo elle viu, e nada do que obrastes lhe  occulto.

Viu-vos caminhar vante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no
meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os
estandartes do outro campo! Viu-vos quando  chegada fatal da maldita
cavallaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a
p firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos
pelo peito como heroes! Viu-vos morder o p! Viu-vos finalmente exhalar
o ultimo suspiro, a vs todos, desde o primeiro ao ultimo, at nada mais
se ver no logar onde estaveis seno um monte de cadaveres abraados a um
monte de bandeiras! Foi ainda o principe, piedoso e grande, quem,
percorrendo o campo no dia seguinte  batalha, recolheu e enfrascou as
vossas cinzas, restituindo-as elle proprio s vossas viuvas, e
dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: Em cada um d'esses frascos,
marcados com o numero da praa e da companhia, encontrareis uma pitada
de tudo quanto vos resta d'esse punhado de bravos!

Foi depois de todas essas provaes--to arduas!--que sua magestade
deliberou reunir-vos n'este banquete sumptuoso.

Soldados! em testemunho de agradecimento a uma to manifesta prova de
considerao e de amor, peo-vos que ergaes as vossas taas, de dois
decilitros cada, e que, antes de haurirdes o phalerno de Torres que
ellas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os
quaes dou por finda esta allocuo marcial. Viva sua magestade el-rei!
Viva a real familia! Viva a carta constitucional da monarchia!

Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos _toasts_,
porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessaria para criticar os
seus proprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em
palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coando nas
cabeas essa especie de comicho produzida por todo o rude encontro de
idas contradictorias e confusas.

Expressos sob a frma litteraria, os sentimentos que o soldado revelou
sob a frma de coceira dariam o seguinte discurso:

Capito! Ha alguns annos que eu fui agarrado  fora na minha terra
para vir para a tropa. A minha primeira ida foi livrar-me comendo um
dedo. Affianaram-me, porm, que poderia egualmente livrar-me dizendo
que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas no me acreditaram, e c
fiquei s ordens.

Desde que jurei bandeiras  raro o dia em que o capito, o major, o
tenente-coronel ou o proprio commandante me no fallam do meu ardor
mavorcio, da minha firme e tremenda attitude diante do inimigo e dos
meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.

Eu devo dizer ao capito, com toda a franqueza, que desde que estou na
militana nunca tive _ardr mavorcio_ nem d'outra qualquer especie, a
no ser que o capito se refira ao que senti nas orelhas quando na
recruta me puchava por ellas o sargento instructor. Se  d'este ardr
que se trata, tive-o, e se o sargento o no teve ainda, ha de tel-o
tambem se, quando eu largar a farda, elle continuar a conservar as
orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de ento estender
conscienciosamente desde a porta do quartel at  entrada da minha minha
freguezia.

Emquanto ao inimigo declaro que o no conheo, e muito obrigado ficaria
ao capito se tivesse a bondade de m'o mostrar para que eu podesse
desenferrujar estas inuteis pernas applicando-lhe sem perigo de offender
a disciplina alguns dos pontaps que em observancia da mesma disciplina
no tenho at hoje feito seno receber.

Quem  o inimigo? No faro favor de me responder:--quem  o inimigo?

Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco cr de pinho, de
gola levantada para cima, que s vezes se mettia commigo nas guardas.
Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso
das artes da guerra.

Vejo todavia que no fazemos mais do que preparar-nos constantemente
para resistir ao inimigo, o qual parece no implicar com mais ninguem
seno connosco. Pelo menos ninguem o teme seno a tropa.

Ha familias, compostas unicamente de mulheres, que dormem ssinhas nas
suas casas sem medo a ninguem; no quartel, cheio de homens, cada um dos
quaes tem uma espingarda e uma bayoneta,  preciso pr sentinellas a
todas as portas, velam uns emquanto os outros dormem, e ha sempre gente
armada at aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite,
para que no nos surprehenda o inimigo!--Que  sempre com o que lhe
do:--com o inimigo!

Emquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me
egualmente fazer sentir ao capito que desde que estou no exercito ainda
no seguei.

A minha vida tem consistido unica e exclusivamente em deitar todas as
manhs umas correias s costas e em pr uma tocha ao hombro para marchar
ao som da musica ou para passear de sentinella  porta dos edificios
publicos.

Pelo que diz respeito ao banquete opiparo para que sua real magestade
me convidou, agradeo-o muito, confesso-me profundamente sensivel aos
attractivos da real carne guizada e das fulgidas batatas da cora.
Todavia no posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria
que me fizessem a especial merc de me mandar embora.

Apezar da excellencia das iguarias preciosas de que consta este
banquete olympico, sou forado a dizer que por mais de uma vez a esta
meza o bocado se me tem enfardelado na bocca sem querer ir para baixo.
Porque? Porque me sobe do corao e me aperta a guela a lembrana da
minha aldeia, da alegre festa do Natal, n'este dia, ao p do lar, no
casal da minha velha... Chamo-lhe eu a minha velha! O capito faz
ida... Fallo-lhe da minha me.

Hontem matava ella o porco, ou antes era eu que lh'o matava. Hoje
tinhamos lombo assado  fogueira do lar, n'um espeto de loureiro. Que
lombo aquelle, capito! Com que vontade que eu principiava a jantar
outra vez se fosse d'esse lombo que me dssem! E depois no era o rei
que me convidava a mim,--o capito ha de comprehender o effeito moral
d'esta differena--era eu que poderia convidar o rei a comer no meu
casal, d'aquillo que era meu, que eu proprio ganhara ou ajudara a ganhar
com o meu trabalho, com a minha fora, com o meu prestimo! Na minha
aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um
cidado, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho
e com o meu cajado, o rei era eu!

Aqui, que diabo! Aqui, francamente, capito, que raio de diabo!

Aqui, que sou eu? Um monte de cisco, um molho de palha, um estafermo,
um espantalho de botes de ouro fingido, de espingarda descarregada e de
patrona vasia, para metter medo a outro estafermo, a outro espantalho, a
outra abantesma de espingarda egualmente descarregada e de patrona
egualmente vasia, o qual outro se chama o inimigo!

Dizem qae tambem sirvo para--manter a ordem. A ordem que eu mantenho 
outra historia da carocha como a do inimigo que eu combato.

Na minha aldeia, onde nunca de memoria de homem appareceu o bico de uma
bayoneta, todos vivem em harmonia e em paz. Aqui, onde a ordem  mantida
por dez ou doze regimentos, ha desordens todos os dias e todos os annos
ha revoltas. Revoltas de quem, meu capito?--Dos sargentos!

Ora, se eu no sirvo para nada, se o inimigo, sendo outro que tal como
eu, no serve tambem para coisa nenhuma, no acha o capito, que o mais
justo seria mandar-nos para nossas casas a ambos--ao inimigo e a mim?

Se como o capito affirma, el-rei  meu amigo e pretende obsequiar-me,
que sua real magestade cesse de esbanjar-se nos acepipes com que me
cumula! Que me permitta estar na minha casa, como sua magestade est na
d'elle com sua excellentissima esposa e com os seus interessantes
filhos! Eu lhe protesto que no s dispensarei todos os seus favores,
mas que poderei ainda fazer-lhe alguns, e me tornarei um cidado
independente, servial e util, em vez de me desfallecer para aqui,
dentro d'este uniforme, coberto por esta barretina, inundado de
ociosidade, comido de tedio[2], de nojo de mim mesmo, de todas as ms
molestias da alma e do corpo, perdido para o bem dos outros e no
prognosticando grande coisa seno para o mal de mim mesmo. Nada mais
accrescento porque est a cair o quarto e tenho de me ir deitar ao
inimigo,--passeiando de sentinella  porta de palacio.

[Nota 2: No dia em que estas linhas foram escriptas suicidavam-se dois
soldados, um de infanteria n. 1, em Belem, outro de caadores n. 10,
em Setubal.]

Depois de coado este discurso na cabea dos soldados, terminou o
banquete, retirando-se todos os convivas profundamente penhorados pela
excellencia do servio e pelas delicadas maneiras do sr. capito.

       *       *       *       *       *

Referem os jornaes que a Academia Real das Sciencias celebrar no mez de
maro do futuro anno de 1879 a festa do primeiro centenario da sua
fundao.

A primeira das rases porque folgamos com esta noticia e que se inicia
em Portugal uma tendencia nova no espirito das sociedades modernas:--a
tendencia a reformar o calendario, substituindo as ephemerides
ecclesiasticas pelas taboas historicas.

Essa tendencia revela um progresso.

A igreja tem, certamente, datas memoraveis que a civilisao ha de
manter entre as grandes epocas da humanidade. Mas essas datas, por mais
gloriosas que sejam, no bastam para prehencher os fastos da humanidade
e para pautar o culto devido  lembrana dos grandes factos e  memoria
dos grandes homens.

Se a igreja tem os seus santos, os seus martyres, os seus doutores, a
liberdade, a sciencia, o trabalho, a arte, teem tambem os seus, e a
gratido humana no deve menos aos segundos do que aos primeiros. O dia
de S. Bernardino, a 20 de maio,  tambem o dia de Christovo Colombo. O
dia de S. Luciano, a 8 de janeiro,  egualmente o dia Galileu. O dia 5
de abril  o de Santo Adriano e  o de Danton e de Camille Desmoulins. O
dia 23 do mesmo mez  o aniversario do nascimento de S. Jorge e 
tambem o da morte de Shakespeare e de Cervantes.

Nem toda a gente sabe, de pronto, sem consultar a colleco dos
bolandistas ou o _Flos Sanctorum_ o que foram precisamente para o mundo
e para Deus, Bernardino, Adriano ou Luciano. Ninguem todavia ignora o
que a humanidade deve a Colombo, a Galileu, a Danton e a Shakespeare.

Depois a circumstancia de ir para o ceu por uma deciso dos concilios
nem sempre equivale a haver deixado na terra um exemplo que fortifique
as almas para servirem ao mundo ou para servirem a Deus.

Temos por exemplo que, segundo S. Lucas, capitulo XXII, versiculo 61, S.
Pedro, convicto da divindade de Jesus, o renega por tres vezes no
tribunal de Caiphaz. No tribunal da Inquisio, deante da fogueira que o
vae devorar se no renegar o seu livro, Giordano Bruno prefere morrer a
trahir a verdade. S. Pedro fundou a igreja christ; Giordano Bruno
fundou uma nova teoria do Universo. Um  adorado como santo; o outro 
condemnado como hereje. E todavia  com Bruno e no  com Pedro que
todos ns, filhos do seculo ou filhos da religio, temos que aprender
como se sustenta uma convico ou como se defende uma crena.

A iniciativa da Academia contribuir poderosamente, de certo, para fazer
entrar nos costumes a fecunda lio alliada ao culto dos grandes homens
e  commemorao dos grandes feitos, ceremonias destinadas a tornarem-se
as festas nacionaes de todos os povos civilisados.

Ao centenario da Academia succeder-se-ha sem duvida o do apostolo da
nacionalidade portugueza Cames, e o do martyr da liberdade de
pensamento Damio de Goes.

       *       *       *       *       *

A segunda raso porque nos regosija a noticia que registamos  que a
celebrao do jubileu academico, pedindo a publicao de uma historia
d'aquelle instituto, vir por meio d'esse documento recordar o papel
brilhantissimo que teve na historia das idas em Portugal essa
corporao scientifica, e chamar talvez alguns dos actuaes academicos a
reatarem a tradio gloriosa d'aquelles que os precederam na direco
intellectual do paiz.

A Academia Real das Sciencias foi o foco da revoluo e o bero da
moderna liberdade em Portugal.

Em um excellente livro do sr. Theophilo Braga, recentemente
publicado--_Bocage, sua vida e epoca litteraria_--encontram-se os mais
preciosos documentos para a nossa moderna historia litteraria,
documentos at hoje ineditos e pacientemente colligidos por aquelle
eminente escriptor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se
teem feito, o publico no aprendeu ainda seno a calumniar o auctor.
Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Theophilo Braga, acham-se
as mais curiosas revelaes para a historia dos nossos primeiros
academicos.

O duque de Lafes, o abbade Jos Correia da Serra, Joaquim Jos Ferreira
Gordo, Antonio Pereira de Figueiredo, insignes na philosophia e nas
sciencias naturaes, conhecidos e respeitados na Europa, estavam
denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos
pela policia sob a direco do intendente Pina Manique, o qual nas suas
_contas para as secretarias_, manuscriptos conservados na Torre do
Tombo, por differentes vezes se refere aos alludidos academicos,
accusando-os como sectarios das idas da Revoluo franceza,
relacionados com os homens da Conveno, iniciadores do movimento
liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeio com os
livreiros francezes residentes em Lisboa, com os addidos  legao de
Frana, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas
tampas das suas caixas de rap a figura da liberdade, com os populares
finalmente que em certa noite vo debaixo das proprias janellas do pao
entoar a cano do _a-ira_.

Os cabeas d'este movimento de revolta contra o despotismo
monarchico-catholico so designados pelo intendente Manique com o nome
generico, ainda hoje em voga, de _philosophos modernos_. Os livros
dirigidos de Frana  Academia sob o nome do duque de Lafes so
sequestrados na alfandega.

A publicao de qualquer escripto revolucionario por parte da Academia 
impossivel sob a espionagem de Manique, mas a adheso d'esta companhia
s idas francezas  manifesta em muitas passagens dos registros
policiaes.

Acha-se n'esta corte--diz o intendente Manique--nas casas da _Academia
das sciencias_, ao Poo dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo
_abbade Correia_, Broussonet, que foi medico de profisso em Paris, e
depois secretario de Necar ( assim que Manique escreve o nome de
Necker) e aquelle que se fez marcar quando na sesso da conveno
Nacional, de que era tambem deputado, continuou o discurso que o
sobredito Necar no acabou de recitar por lhe dar no meio d'este acto um
deliquo; e ainda mais conhecido por ser um d'aquelles sanguinarios do
partido de Robespierre na Conveno. Pela morte que este assassino
soffreu, fugiu aquelle e aqui foi acolhido e introduzido ao _duque de
Lafes_ na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia
das Sciencias, d'onde frequenta as casas do sobredito duque e do _abbade
Correia_ que  amigo mui particular do ministro e consul da America do
Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a
v. ex., e reputado por pedreiro livre.

Eguaes accusaes pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da
_Recreao Philosophica_ o Padre Theodoro de Almeida, com o qual,
accrescenta Manique, o j alludido Broussonet fica algumas vezes na casa
do Espirito Santo de Lisboa.

A Academia encerrava pois no seu gremio o fermento da revoluo,
levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas
instituies em 1834 e a liberdade subsequente.

A misso da Academia em Portugal no pode ainda hoje ser seno a mesma
que era no fim do seculo passado.

No  no estado de indifferena, de egoismo e de ignorancia em que ainda
hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como
queria Proudhon, a funco moderadora dos trabalhos do pensamento e das
creaes da arte.

A interveno das academias como elemento official e conservador pode
ser util e salutar em Frana ou em Hispanha, onde a temeridade
impaciente e indisciplinada dos escriptores revolucionarios, actuando
constantemente na opinio, pode perturbar a lei da continuidade
historica e lanar a sociedade na anarchia. Ahi compete s academias
salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.

Em Portugal, porm, onde a revoluo de modo algum ameaa partir da
circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e
invasoras dos espiritos,  absolutamente preciso, para que nos possamos
considerar uma nao, que a revoluo parta do centro para a periferia,
que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu
gremio as intelligencias mais avanadas, discutindo os problemas mais
vivos da philosophia, aclarando todas as questes relativas aos maximos
interesses do espirito,  religio,  politica,  esthetica, implantando
finalmente a revoluo na esphera intellectual para que d'ahi ella
penetre nos costumes e se infunda nas instituies.

Se o desempenho d'este papel, que lhe est marcado pela sua tradio, 
incompativel com as ligaes existentes entre a Academia, presidida pelo
chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que  Academia compete fazer 
libertar-se d'essa dependencia e constituir-se em corporao livre. O
poder espiritual, de que ella  a encarnao litteraria, no lhe procede
de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.

Subsidiada pelos governos ou no subsidiada por elles, estabelecida em
um palacio ou refugiada em um soto, recrutando os seus membros entre os
invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos
da controversia moderna, separando-se da sua tradio gloriosa, ou
sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser d'estas duas coisas
uma:--ou a fora dirigente do futuro social, a cabea do paiz, ou uma
excrecencia apparatosa, um orgo atrophiado e inutil  civilisao.

       *       *       *       *       *

Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que
lem, a funco da publicidade  predominar nos espiritos--ou seja
lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra litteraria d um
d'esses resultados; ou se adapta s opinies existentes e as consolida e
refora ou reage sobre ellas e as decompe. Toda a litteratura ou 
_conservadora_ ou  _revolucionaria_. Queremos dizer: ou transige
passivamente com as condies do meio social ou se debate contra o
obstaculo que a influencia d'esse meio lhe impe.

Sempre que a litteratura toma o caracter conservador tende a immobilisar
a sociedade e a atrophiar o progresso. Foi o que succedeu nos seculos em
que a litteratura no fez mais do que fortalecer as supersties que
achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade n'um marasmo
de quinhentos annos embalados com o esteril rumor monotono das homilias
e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quasi completamente
de ler, a humanidade voltou a si. A litteratura havia sido para ella uma
catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo
mysticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de
que se compe a bibliotheca bollandista, e so esses _acta sanctorum
quotquot tote orbe coluntur_ que encerram a historia inteira da
humanidade sob o regimen clerical em toda a Europa e em quasi todo o
Oriente, desde o seculo VI at o seculo XII! Com razo conclue Buckle--o
grande historiador da civilisao--que o maior dos estorvos do progresso
tem sido a manuteno do erro pelo poder litterario.

Nos tempos modernos, sob os dominios despoticos, em quanto a obra do
pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como
succedeu em Portugal durante o imperio do Santo Officio, a litteratura
deixou egualmente de ser o livre producto artistico e converteu-se n'um
poder do Estado, o mais enervante para a imaginao, o mais dissolvente
da intelligencia e da dignidade humana.

Portanto: a primeira condio social para a existencia de uma
litteratura compativel com o progresso  a liberdade.

Todo o escriptor portuguez actual nasceu n'esse meio propicio. Todavia,
por uma fatalidade physiologica, por um effeito da heriditariedade,
falta-nos a orientao cerebral da independencia. O nosso espirito
conserva o stygma servil, o signal da marca que, em muitas geraes que
nos precederam, foi deixando a grilheta da oppresso mental. A nossa
tendencia de escriptores  ainda hoje, geralmente, para lisonjear a
rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da
credulidade geral.

A maior parte dos individuos que fazem um livro teem, nas precaues da
forma, no rebuo das opinies, na doblez do stylo, o ar miseravel de
pedintes que solicitam venia para divertir inoffensivamente o
respeitavel publico.

Entre as aberraes eminentes d'essa tendencia geral, como por exemplo
os srs. Anthero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Theophilo
Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia
politica, a Sr. D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no
folhetim,--apparece-nos o sr. Ea de Queiroz no romance. Na pequena
litteratura portugueza destinada a ser um agente na evoluo das ideias
e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos effeitos
sociaes, _O crime do padre Amaro_, representa a obra mais profundamente
caracteristica.

Este livro foi recebido pela imprensa periodica com um silencio que pode
parecer o resultado de um _mot d'ordre_. Cremos, para honra do
jornalismo, que a razo do apparente despreso de que foi objecto este
romance est no simples facto de que a critica se considerou
incompetente para o julgar. A unica coisa de que temos de accusar a
critica  de nos no haver dito isso mesmo. Em circumstancias analogas
as _Farpas_ deram um exemplo de sinceridade que ficou esteril. Um dia
escreviamos um artigo cerca do adulterio; a logica arrastava-nos a
deduces que nos no atreviamos a imprimir; publicmos o nosso artigo
at o ponto em que o julgavamos compativel com os costumes e
concluimol-o com a confisso franca de que nos achavamos coactos pelo
publico. Quando tivemos medo confessamol-o.  verdade que omittimos uma
opinio, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de
espirito que elles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos
analysadores que se nos seguissem.

_O crime do padre Amaro_  effectivamente difficil de sentenciar porque
constitue um caso novo, no previsto nas ordenaes porque se regulam as
audiencias geraes do folhetim e do noticiario.

Essencialmente moderno este romance no  a narrativa de uma aventura ou
de uma serie de aventuras  Lessage,  Dumas ou  Gaboriot, no  um
estudo de sentimento  Rousseau,  Alfred de Musset ou  George Sand. 
uma pintura de caracteres, mas no uma pintura  Balzac ou  Flaubert,
porque este livro no  exclusivamente de nenhuma escola seno da escola
de si mesmo, e  esse cunho profundamente pessoal qne lhe d o caracter
que o distingue como verdadeira obra d'arte.

Ora uma exposio de caracteres se pertence  sphera da arte pelos
processos da pintura,  um ramo da historia e est subordinado 
sciencia pelas operaes de critica e de relacionao. O officio do
historiador  discernir no estudo das epocas e no estudo dos
acontecimentos o seu caracter social. O officio do romancista 
discernir no mesmo estudo das epocas e no mesmo estudo dos factos o seu
caracter artistico. O methodo do historiador  o methodo do romancista.
No pode ser romancista um simples _observador_. Cada sciencia tem, como
diz Littr, o seu methodo particular e caracteristico. A _observao_ 
um methodo exclusivo da astronomia, para cujos phenomenos irreductiveis
o astronomo no pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela
_experiencia_ e pela _analyse_. O biologo tem por methodo especial a
_comparao_. O historiador, e por tanto o romancista, teem como
instrumento particular a _filiao_, isto , a produco dos estados
sociaes uns pelos outros. Pintar um caracter  expor no personagem a
figura moldada dentro do contorno delineado n'uma dada poro do espao
e do tempo por um certo estado social.

Um caracter  um phenomeno historico, que se no comprehende seno
emoldurado na convergencia de todos os factores que o produziram.

 por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposio
concentrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um
acto;--influencias naturaes, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o
sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade;
influencias sociaes, as instituies, os costumes, a familia, a
educao, a profisso.

Comprehende-se a commoo de surpreza que produziu este livro, ao
notar-se que a proposito da biographia de um padre em uma parochia da
provincia elle suscitava as mais graves e melindrosas questes
physiologicas e sociaes que podem envolver a igreja, o celibato, a
sentimentalidade e o mysticismo, isto , todos os pontos de controversia
philosophica que o jornalismo exclue da discusso para se no pr em
conflicto com o assignante. Confessamos que n'este caso o melhor que
tinha que fazer a critica jornalistica era effectivamente calar-se.

Pela nossa parte, como  precisamente o conflicto que constitue o nosso
programma, no temos raso plausivel para abster-nos da apreciao
d'este livro.

A raso da condemnao silenciosa, do escandalo branco, que envolveu a
appario do _Crime do padre Amaro_ est no simples facto de que elle 
um _romance de caracter_. Esta simples designao explica tudo. O genero
 novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castello Branco so
romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence  litteratura de
_tricot_ cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas _miss_. Apesar
das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua
feminilidade ingenua e pittoresca, as novellas de Julio Diniz no teem
alcance social, so meras narrativas de salo.

O livro do sr. Ea de Queiroz offerece-nos o primeiro exemplo de uma
obra d'arte suggerida pela considerao de um problema social.

E todavia _O crime do padre Amaro_ no  de nenhum modo um livro de
critica,  um livro de pura arte na mais alta accepo d'esta palavra.
Nem na bocca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma
palavra declamativa ou didactica.

Em uma pequena cidade de provincia, na Extremadura portugueza, o velho
parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote ecclesiastico e o
seu bahu, apeia-se da diligencia de Cho de Mas, sobe aos quartos que
lhe esto preparados, cala uns chinellos de ourelo, veste o casaco
velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego,
caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um trao riscado
pela fatalidade atravez d'aquella estreita vida de provincia, com a sua
intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas
beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos,
compungidos, pretenciosos, miseraveis.

D'este fundo sombrio, espesso, pesado como o tedio, a aco destaca-se
luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos
vivos.  a vida mesma com toda a sua trivialidade real que n'essas
paginas perpassa aos nossos olhos como aquellas florestas que andam no
sonho de Machet.

Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execuo.

O dialogo, trasbordante de verdade,  de um rigor psychologico, de um
colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros
stylistas francezes no conseguiram ainda egualar. A lingua portugueza,
pela incomparavel variedade das suas construces grammaticaes, pela
inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu
arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodigios de execuo
sempre que a no deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da
farragem e do euphemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidemica do
estylo erudito.

O dialogo do sr. Ea de Queiroz, no porque o trabalhasse a
preoccupao do purismo, mas em resultado do escrupulo com que foi
arrancado da indole e da natureza dos personagens,  de tal modo genuino
e to accentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.

Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situaes dramaticas
mais profundamente sentidas, mais commoventemente narradas, o auctor
compraz-se habitualmente em pintar, com frio cynismo, as ridentes
paizagens em que scintillam as frescuras da manh, os suaves occasos do
outomno impregnados do rumor das aguas e do perfume dos prados, os
tepidos interiores aconchegados e pacificos, todos os aspectos da
natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais
profundamente real do que a impresso deduzida d'esse contraste entre a
inclemente immobilidade das coisas e a devastao tempestuosa das
supremas paixes no fundo da alma humana!

O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens
principaes sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia,  deduzido
com o mais scientifico rigor da diagnose n'um caso de pathologia
psychica.

A infancia de Amaro em uma casa nobre, onde a me d'elle era criada de
quarto. Os pequenos pormenores d'esse interior de familia, onde o
catholicismo era um requinte heraldico, onde as meninas, acreditando em
Deus como na omnipotente elegancia, tinham como culto dos destinos da
alma a preoccupao da _toilette com que haviam de entrar no paraizo_. A
creao de Amaro at aos doze annos n'essa convivencia mulheril,
ajudando s missas na capella, espanando os santos, aparando as hostias,
dormindo entre as criadas, que lhe faziam cocegas, lhe chamavam
_Padreca, Frei Lombrigas_, e o utilisavam nas suas intrigas para fazer
as queixas. A sua mocidade no seminario, abafando na estreitesa dos
corredores, invejando todos os destinos ainda os mais humildes, o
almocreve que via passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro
que ia cantarolando ao aspero chiar das rodas, e at os mendigos
errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro! Os seus
primeiros alvoroos de adolescente ao pensar na mulher sobre os livros
dogmaticos: Que ser era esse que atravez de toda a theologia ora era
collocado sobre o altar como a Rainha da Graa ora amaldioado com
apostrophes barbaras? Que poder era o seu que a tragica legio dos
santos, ora se arremessa ao seu encontro, n'uma paixo extactica,
dando-lhe n'uma acclamao o profundo reino dos cus, ora vae fugindo
diante d'ella como do universal inimigo com soluos de terror e com
gritos de odio, e, escondendo-se, para a no vr, nas thebaidas, nos
claustros e nos sepulchros, vae alli morrendo do mal de a ter amado?
Amaro sentia, sem as definir, estas perturbaes, e julgava-se
desgraado e maldito.

Vemos, a dia por dia, crescer, constituir-se, formar-se esse homem,
branco, lymphatico, molle, creado entre chumaos de mulheres ordinarias,
e sobrepelizes de padres boaes, no fartum das alcovas sujas e na sombra
humida dos claustros musgosos. E prev-se a quda fatal d'essa natureza
stagnada e paludosa, atravez da qual os desejos insaciados luzem como os
olhos de um tigre.

 egualmente bem assignalado o caracter de Amelia. A sua educao
sentimental e devota  descripta a golpes de bisturi. Cada trao  uma
inciso. Aos oito annos tinha ido para a escola. A mestra era uma
velhita rolia e branca que fra tacho das freiras de Santa Joanna em
Aveiro; com os seus oculos redondos, junto da janella, empurrando a
agulha, morria-se por descrever o convento, os seus terrores, as suas
legendas, as suas peripecias; as perrices da escriv sempre a escabichar
os dentes furados; a madre rodeira preguiosa e pacata, com uma
pronuncia minhota; a mestra de canto-cho, admiradora de Bocage e que se
dizia descendente dos Tavoras; a historia de uma freira que morrera de
amor e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores,
soltando gemidos dolorosos e chamando:--Augusto! Augusto!... Tinham-lhe
ensinado o cathecismo e a doutrina: fallavam-lhe sempre dos castigos do
cu; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um Ser que d o
soffrimento e a morte, e que  necessario abrandar resando e jejuando,
ouvindo novenas e amando os padres. Era por isso toda cuidadosa e se s
vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro
dia porque temia que Deus lhe mandasse sesses ou a fizesse cair na
escada. Alm da doutrina aprendera a tocar piano com um velho
romanesco. Lra livros de versos, fra namorada durante uma estao de
banhos por um estudante de Coimbra, que lhe fizera umas quadras. Estava
pedida por um escrevente de tabellio, que se perturbava sob o seu olhar
voluptuoso mas que ella no amava, sentindo em si como um grande somno
do corao. No tinha pae. Era sanguinea e forte, de grossos beios
levemente sombreados de pennugem negra. Ouvia missa todos os dias e
confessava-se todas as semanas.--A me era protegida por um conego. Ella
padecia tedios nevralgicos e inquietaes hystericas.

Todos os demais personagens, alguns d'elles apenas indicados por quatro
palavras, que tem o poder de uma evocao, o conego Dias, o padre
Natario, o padre Brito, o chantre, o coadjutor, o Libaninho, o tio
Esguelha, o escrevente, o redactor da _Voz do Districto_, as senhoras
Ganosos, a sr. D. Maria da Assumpo, a Joanneira,--vivem, tem uma
physionomia, uma personalidade.

O desenlace do drama, a morte de Amelia, a fuga do padre da quinta da
Cortegaa, de noite, levando o filho escondido na capa; o seu terror ao
sentir-se seguido, ao ouvir atraz de si no macadam as passadas surdas do
escrevente, passadas commedidas pelas d'elle, acompanhando-o como o
remorso, como o presentimento da catastrophe que se aproxima; o
infanticidio perpetrado no escuro, com os ps no lodo,  beira do rio,
escondido nos juncos como um animal ferido cercado pelos latidos
raivosos da matilha; a sua retirada de Leiria ao outro dia, por uma
serena tarde de outomno, de uma poetica serenidade ineffavel, partindo a
cavallo no momento em que os sinos da s comeavam a soluar o dobre de
defuntos, emquanto um realejo toca na rua um trecho da _Norma_, e, de
uma casa defronte, um pequerrucho seguro ao peitoril da janella pelo pae
e pela me que riem, lhe diz adeus com a sua pequena mosita
papuda;--constituem paginas de uma concepo e de uma tonalidade
tragica, profundamente elegiaca e solemne, que fica vibrando por muito
tempo na memoria como o ecco funebre de um _dies irae_.

Este livro misanthropicamente concebido, e executado com uma ironia
mordente e com um humorismo repassado de lagrimas, deixa todavia no
espirito uma forte impresso consoladora;  a obra de um grande artista,
de um poderoso revelador de ideal; e como toda a idealisao perfeita,
repousa-nos das nossas preoccupaes pessoaes e egoistas,
engrandece-nos, eleva-nos aos nossos proprios olhos, infunde-nos a f,
obriga-nos a crr no sagrado desinteresse da arte, na divina
immortalidade do bello.

       *       *       *       *       *

Se depois da ida que procurei dar-te d'este livro, tu, leitor me
perguntares se o deves dar a ler  menina tua filha, eu respondo-te
terminantemente que no. As meninas nunca lem romances, quaesquer que
elles sejam.

Se o podem lr as mulheres-- uma outra questo,  qual respondo que
podem, ainda que com esta reserva--s escondidas.

No que este livro seja immoral. A arte  absolutamente independente da
moral, e no pde nunca nem servil-a nem prejudical-a.

Quando para minha consolao e refrigerio eu me desvio da estrada em que
succumbo de fadiga mordido pelo sol, e vou descanar um momento  sombra
de uma arvore, no pergunto se essa arvore d peras ou se d pilritos,
se da sua resina se pde extrair um balsamo ou um veneno, se dos seus
filamentos se pde entranar uma corda para o sino ou um barao para a
frca, se no seu tronco se podem serrar as pranchas para construir a
arca ou para armar o patibulo. A unica coisa que lhe pergunto  se ella
tem, para m'a dar, uma boa sombra fresca, macia, aromatica; e se a tem,
eu, que n'esse momento no sou um negociante de productos alimenticios,
nem um madareiro nem um chimico nem um engenheiro constructor, mas sim
um caminheiro prostrado, eu declaro, no s em meu nome, mas em nome da
sciencia, em nome da moral, em nome da religio, em nome do homem e em
nome de Deus, que essa arvore  boa,  util,  necessaria--no pelos
materiaes que ministra, no pelos fructos que produz, nem pelas
substancias que segrega, mas unica e simplesmente por uma condio
imponderavel e etherea, da qual em dada crise pode depender o meu
destino inteiro e toda a minha vida; e essa condio  a de se interpr
no espao entre mim e o ceu, e projectar sombra.

Na esphera das multiplas vegetaes do nosso espirito a sciencia e a
philosophia fornecem as substancias alimenticias e ministram os
materiaes das construces; a arte  a arvore santa, a arvore da sombra
para os peregrinos do pensamento.

Schiller em uma das suas cartas, cujo texto no tenho presente, expe
uma theoria que pode resumir-se n'estes termos: Se um critico em nome
da moral processa o meu livro no pelo que eu n'elle escrevi mas pelas
concluses que elle critico lhe extrae, eu despreso esse julgamento. Se,
porm, a critica me convencer de que, dado o assumpto qual eu o concebi,
eu poderia executal-o por outro modo, eu n'esse caso submetto-me, no
porque tenha errado contra a moral, mas porque errei contra a arte.

Ora na execuo do livro do sr. Ea de Queiroz ha na parte descriptiva
dois ou tres pormenores que no quereriamos eliminados--com quanto isso
fosse possivel sem quebra da verdade--mas que nos parece poderem ser
referidos de um modo--no dizemos mais pudico--dizemos mais artistico.

Ha em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac at o sr.
Queiroz, uma tendencia de que o vulgo tem feito o attributo de uma
escola, tendencia febril a demorarem sensualmente as analyses da torpeza
e da podrido.

O grande Eschylo dizia, censurando Euripides: Elle deprimiu tudo
aquillo em que pegou, eu enobreci tudo aquillo em que toquei; os homens
saidos das minhas mos respiram gladios e lanas, capacetes de
pennachos brancos e escudos reforados com sete couros. Os artistas
modernos no podem infelizmente inscrever nos seus brazes a nobre
divisa do velho tragico. A sociedade actual no fornece  arte os
grandes crimes que alimentaram o interesse da tragedia grega, porque as
depravaes contemporaneas no gravitam em torno do crime heroico mas
sim em torno do vicio mesquinho e vergonhoso. Quem descreve os
caracteres modernos tem fatalmente de operar na gangrena; o que nos no
parece egualmente inevitavel  que o puz do tumor salpique a mo que o
opera. Ora o que julgamos notar, por duas ou tres vezes como acima
dissemos, na obra to profundamente casta do sr. Ea de Queiroz  que os
seus instrumentos anatomicos, to bem acerados e to finos, teem os
cabos demasiadamente curtos.

A disseco--permitta o nosso amigo que lh'o observemos--tem tambem as
suas leis de conveniencia e de elegancia. Alm de que, para estudar um
orgo  ocioso expr aos olhos do amphitheatro toda a nudez do cadaver.
Mesmo em anatomia o completo conjuncto  obsceno, porque  inutil.

As damas da crte to _pointilleuse_ de Luiz XIV--ellas que
representavam tudo quanto possamos conceber mais escrupuloso e mais
exigente no decoro e no gosto--frequentavam, sem offensa do seu fragil
melindre de estufa, os theatros anatomicos.

 medida, diz Fontenelle, que Verney se tornava um homem  moda punha
em moda a anathomia, a qual, encerrada at ahi nas escolas de medicina
ou em Saint-Cme, ousou produzir-se na alta sociedade apresentada pela
mo d'elle. O tacto especial de Verney contm um exemplo que pode no
ser inutil ao sr. Ea de Queiroz.

As senhoras portuguezas no cursam os estudos scientificos. No teem os
menores principios de biologia, de anathomia e de physiologia,
principios indispensaveis para entrar nos estudos mais complexos do
homem como so na sciencia a historia e na arte o romance de caracter e
a esculptura do n.

Por isso a falsa noo que ellas teem do pudor as torna incompativeis
com muitas das mais preciosas convivencias intellectuaes.

Uma noo social no pode, porm, ser modificada pelos escriptores ou
pelas academias. Essa reforma  a obra collectiva e impessoal do
progresso nos costumes e nas instituies.

N'estas condies, deploraveis mas inamoviveis, maior deve ser a ateno
do artista em limar--tanto quanto isto seja possivel sem detrimento da
obra--os pequenos angulos subalternos que difficultem a adaptao d'ella
aos costumes.

Sob este ponto de vista _O crime do Padre Amaro_ est adeante do seu
tempo. Como obra de arte  este um destino feliz, porque n'este caso ter
de esperar  adquirir a certeza de sobreviver. Como obra de hygiene
social lamentamos que elle no possa desde j actuar pela sua
influencia no espirito d'este paiz onde o primeiro livro da educao
moderna _La femme, le prtre et la famille_  ainda tido por um
sacrilegio de Michelet, o impio!





End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
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     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
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     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
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providing it to you may choose to give you a second opportunity to
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is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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*** END: FULL LICENSE ***

