The Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX, by 
Alexandre Herculano

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Title: Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX

Author: Alexandre Herculano

Release Date: May 6, 2006 [EBook #18330]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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OPUSCULOS

TOMO IX


Proprietrios e editores: Jos hastes & C.^a--Typographia da Antiga Casa
Bertrand, Rua du Alegria, 100--Lisboa, 1909.





Opusculos

POR

A. HERCULANO


TOMO IX


LITTERATURA

TOMO I


*Antiga Casa Berfrand--JOS BASTOS & C.^a--Livraria Editora*

73, Rua Garrett, 75--LISBOA




Reservados todos os direitos de propriedade. Para o Brazil, nos termos
do ajuste feito entre Portugal e aquelle paiz em 9 de Setembro de 1889,
mandado cumprir pelo decreto do Governo Imperial de 14 de Setembro do
mesmo anno.




ADVERTENCIA


Na colleco dos tomos de opusculos de A. Herculano ainda at hoje no
estava representado um dos grupos em que elle a dividiu--o de
litteratura. O presente tomo vem remediar esta falta embora com a
probabilidade de ficar isolado na diviso a que pertence. Os avulsos
litterarios do nosso escriptor no so todos da mesma ndole. Com alguns
d'elles, os de caracter poetico, resolvemos coordenar um volume appenso
ao grupo dos romances e lendas e que est prompto a entrar no prlo. Foi
depois d'esta seleco que passmos a apurar entre os demais os
adoptaveis para tomos de opusculos. Taes nos pareceu deverem ser os que
constassem de historia, theses, controversias e juizos litterarios.
Nestas condies a obra do escriptor era bastante para que elle tivesse
calculado formar com ella dois tomos pelo menos e por certo mais, se
aproveitasse interessantes cartas que no genero escrevera. Accresce que
sendo a maioria d'estes artigos dos primeiros tempos da vida litteraria
do auctor, elle proprio dizia tencionar acompanh-los de um exame
retrospectivo e ampliar alguns como em parte nelles indicara.  tambm o
que se deduz do plano geral da publicao exposto na advertencia do tomo
I. Mas dos trabalhos complementares conducentes a esse fim, e que o
auctor de dia para dia adiava para horas de aprazivel remanso de
espirito, no achmos vestigios nos papeis d'elle. Apenas nalguns dos
artigos recolhidos neste tomo estavam indicadas breves correces de
linguagem, das quaes introduzimos nas cpias enviadas para o prlo as de
immediata intelligencia. E ainda essas correces, to leves que ho-de
passar despercebidas, seriam apenas preparativos de reviso, segundo o
methodo adoptado pelo auctor,--meros signaes para marcar os logares e
lembrar o sentido em que teriam de ser feitas as definitivas. Estes os
motivos pelos quaes  provavel que tenhamos de limitar-nos ao presente
tomo em materia de litteratura, sem todavia podermos assegurar que aos
elementos que ficam de reserva, no venham de futuro junctar-se outros
que por novas pesquisas possam apurar-se, e tornem possivel o seguimento
do grupo.

Dada, porm, a abundancia de original de que dispunhamos para este tomo,
conseguimos organiza-lo de modo que os elementos que encerra quasi
constituem um todo homogeneo de doutrina, representando em globo, sem
embargo da falta de ampliaes que haviam de enriquec-lo; como que as
generalidades de um curso de litteratura moderna, prevalecendo a lio
sobre litteratura patria. E no admira que assim succeda attendendo 
relao ntima dos artigos escolhidos com o ideal da epocha em que foram
escriptos, e que dominava o espirito do auctor. Aspirava A. Herculano a
encaminhar por meio d'elles a revoluo litteraria que nascera para ns
com a recente mudana de instituies politicas e que, sob o ponto de
vista poetico com intenso brilho fra iniciada por Almeida Garrett, com
os dois poemas _D. Branca_ e _Cames_. D'ahi a feio doutrinal e
harmonica que o tomo apresenta. Sabem os leitores com que riqueza e
variedade de monumentos concorreu A. Herculano ao lado de tantos outros
privilegiados escriptores para engrandecer a imponente phase das nossas
letras que desde ento se foi desenvolvendo. Juncto a esses monumentos
vem, pois, occupar agora o logar que lhe compete, a propaganda com que
elle os precedeu e os acompanhou, naquella esperanosa epocha de
revivencia nacional.

Nas paginas que precedem os artigos vo indicadas as datas em que estes
vieram a publico e as folhas de onde foram trasladados. Mas desde j
convm advertir que trouxemos os dois primeiros da folha quinzenal _O
Repositorio Litterario_, publicada durante alguns meses de 1834 a 1835
na cidade do Porto, contando o auctor vinte e quatro annos de edade. Nos
dois annos anteriores havia elle arriscado a vida em mais de vinte
combates do crco da cidade, em todos em que interviera o glorioso
batalho a que pertencia de _Voluntarios da Rainha_. Segundo resam
formais attestados, e era proprio do altivo caracter que elle nunca
desmentiu, em todos esses combates dera aos companheiros de armas
exemplos de inexcedivel destemor, de arrojada bravura. Levantado o crco
despia os trajos de soldado e quando se lhe afigurou terminada a lucta
pelas armas, surgiu cheio de enthusiasmo, revelando inesperados
conhecimentos e como vulto dominante do Repositorio, a pelejar no campo
das idas. Pela leitura dos dois artigos transcriptos d'essa folha, se
ajuizar da originalidade e vigor com que deu comeo  propaganda
exposta no discorrer do tomo. O primeiro descreve o estado geral da
nossa litteratura naquelle periodo de transio, visando norte-la  luz
das novas aspiraes e exigencias sociaes, e nas varias frmas em que
ella tinha de manifestar-se. O segundo trata da poesia em especial, e
como se o auctor j ento quisesse dar medida do poderoso engenho
analytico de que era dotado, ao passo que vai explanando com
extraordinaria erudio e lucidez a famosa questo dos classicos e
romanticos, vai tambem deduzindo e conglobando as bases de uma alta
poetica de concepo propria, com o pensamento de afastar o genio
nascente das aberraes de uma e outra d'aquellas seitas, e de o guiar
para a fecunda desenvoluo litteraria em que meditava.

A par d'estes artigos abria o novel escriptor nas columnas do
Repositorio, com a descripo das escholas de ensino elementar da
Prussia, a campanha em parte descripta no tomo VIII de opusculos, e que
no mais abandonou, em prol da instruco popular. Provocando o
confronto da excellencia d'aquellas escholas com a obscuridade das
nossas, frisava por esse meio o alcance do grave assumpto, pondo em
relevo perante os homens cultos e aquelles a quem competisse dirigir os
destinos da nao, o maior dos obstaculos que tinham a vencer para
assegurar o bom exito das instituies liberaes. O absolutismo politico
fra derrubado pelas armas e pelas geniaes concepes legislativas,
arremessadas contra elle em som de guerra. Chegava o momento de lanar
novas e grandes idas, de suggestionar os espiritos para que sobre os
escombros do derrocado edificio se erguesse gradualmente o da liberdade
e da civilizao. Era com o profundo sentimento, a nitida viso d'esta
imperiosa necessidade social, que A. Herculano se estreava como
propagandista no memoravel periodico portuense.

_Maio de 1907_.

O coordenador.




Qual  o estado da nossa litteratura?

Qual  o trilho que ella hoje tem a seguir?

*REPOSITORIO LITTERARIO*

1834




Qual e o estado da nossa litteratura?

Qual  o trilho que ella hoje tem a seguir?


Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confisso da
decadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e o
encargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e no
estudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores,
exporemos a serie das nossas idas sobre este duplicado objecto.

A convico de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII um
erro na Italia, que, extendendo-se  Hespanha e a Portugal, transviou da
legitima direco todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamada
do seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas as
figuras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmo
nos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptores
classicos e modernos, que j nesse tempo illustravam a Europa: viu-se
que as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, de
Dante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade,
e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal e
talvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestir
todas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos os
estylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dos
poetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idas
esqueceu e s se olhou para as frmas:  sombra d'esta mania prosperavam
os conceitos e as agudezas, chegando as letras a car numa barbarie, que
tanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilizao litteraria
j exaggerada. _O Zodiaco soberano_, _Os crystaes d'alma_, _A Fenix
renascida_ e outros muitos escriptos d'esse tempo, so lamentaveis
monumentos da corrupo de gosto a que chegou Portugal no principio do
decimo oitavo seculo.

Porm o mal no foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volver
as letras  severa singeleza das puras frmas da Grecia. Muito ae deve a
Garo, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou a
superioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade do
seculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados  poesia chamada
pindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco das
imagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimo
que bebera na eschola, em composies nas quaes era mui facil
introduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garo tentaram o mesmo
genero, em nosso intender, Dinis no foi emulado. Capaz de todos os
tons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveis
exemplos, e as suas dissertaes sobre a poesia campestre so dictadas
por um grande conhecimento da arte, ainda que no excedam em merecimento
theorico as annotaes de Gomes s proprias poesias, nem os trabalhos de
Freire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas de
Aristoteles e Horacio.

Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de Jos I olhou as
letras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores do
seculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assim
o caracter das duas litteraturas  a confuso dos principios absolutos
com os de conveno. Cingindo-se quasi cgamente  auctoridade dos
antigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obediencia
illimitada a alheias opinies contribuiu muito para a posterior
decadencia. A impertinente questo dos archaismos e neologismos veiu
tomar o logar das discusses da Arcadia e essa occupao dos meios
talentos e da meia instruco, influindo sobre objectos mais
importantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobre
palavras e phrases Francisco Manuel ajunctou s suas poesias, fossem
dedicadas a _coisas_, quo ricas messes ns colheriamos do saber d'este
homem! Mas infelizmente no foi assim, e a polemica suscitada sobre o
merito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra elle
vomitou o orgulhoso auctor do gelado _Oriente_, mostraram a que
mesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparos
que Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta,
porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dos
antigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entre
ns, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do to grande
quanto infeliz Cames ainda resta a fazer, apesar da abundancia de
escriptos que sobre este objecto se publicaram.

Emquanto assim entre ns a critica se apoucava, um sentimento vago de
desgosto pelas antigas frmas poeticas, a influencia da philosophia na
litteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suas
inspiraes num mundo de idas mais analogas s dos nossos tempos, e
emfim, varias outras causas difficeis de enumerar, comearam a crear na
Europa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canones
classicos. A Alemanha foi o foco da fermentao, e foi l que os
principios revolucionarios em litteratura comearam a tomar desde a sua
origem uma consistencia, e a alcanar uma totalidade de doutrinas
methodicas e consequentes, no dada, ainda hoje, ao resto das naes. L
no havia a luctar com a gloria nacional para a introduco de novas
idas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz no honravam
demasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV,
impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram comeo 
revoluo ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton  de
Racine e de Boileau; comtudo as opinies na Alemanha teem-se desviado,
em parte, d'esta direco e as idas de Schlegel j teem reagido na sua
tendencia um tanto nova, sobre a litteratura inglesa donde tiveram
origem. Na Frana o antigo systema, amparado pelo renome de muitas
produces immortaes, disputa ainda a campanha s innovaes que entre
esse povo, extremo em tudo, teem chegado a um deseafreamento barbaro e
monstruoso.

Mas a Portugal no coube o figurar nesta lide. A parte theorica da
litteratura ha vinte annos que  entre ns quasi nulla: o movimento
intellectual da Europa no passou a raia de um pas onde todas as
attenes, todos os cuidados estavam applicados s miserias publicas e
aos meios de as remover. Os poemas _D. Branca_ e _Cames_ appareceram um
dia nas paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os
annunciassem, um representando a poesia nacional, o _romantico_; outro a
moderna poesia sentimental do Norte, ainda que descobrindo s vezes o
caracter meridional de seu auctor. No  para este logar o exame dos
meritos e demeritos destes dois poemas; mas o que devemos lembrar  que
elles so para ns os primeiros e at agora os unicos monumentos de uma
poesia mais liberal do que a de nossos maiores.

Comtudo, no existindo ainda um s livro sobre as letras consideradas de
um modo mais geral e mais philosophico do que os que possuimos; sem uma
s voz se-ter levantado contra a auctoridade de Aristoleles e de seus
infieis commentadores, ser impossivel emittir um juizo imparcial sobre
escriptos de similhante natureza. Julg-los por frmas que o poeta no
admittiu, ser um absurdo, emquanto se no provar a necessidade d'essas
frmas; e isto, mesmo que ellas sejam legitimas, s pode ser resultado
de um maduro exame ou de uma polemica sincera. Antes d'isso os velhos
eruditos, vendo offendida a _inviolabilidade_ de um tropel de preceitos
que julgavam imprescriptiveis, s daro ao genio nascente o sorriso do
desprezo; e os mancebos poetas, a quem o sentimento incerto das opinies
contemporaneas dirige por estradas que muitas vezes no conhecem, faro
que as suas poesias corram brevemente parelhas com os desvarios que tem
ultimamente manchado a mais bella das artes na Frana e na Inglaterra.

Um curso de litteratura remediaria os clamnos que devemos temer, e
serviria ao mesmo tempo de dar impulso s letras. Em Portugal ainda ha
homens cheios de vasta erudio, de philosophia e de genio. Tyrannias
mais ou menos longas, mais ou menos crueis, os teem conservado na
obscuridade de que devem sar, agora que se no receia a instruco,
agora que os resguarda a egide da lei. Ns no desejariamos, porm, que
uma tal obra fosse puramente orgo d'esta ou d'aquella eschola; d'este
ou d'aquelle partido. Convem que os principios oppostos sejam examinados
de boa f e sem acrimonia: a intolerancia em idas politicas ou
religiosas  odiosa; em materias scientificas  ridicula. Se coubesse
nas nossas diminutas foras um trabalho de tanta magnitude, ns
comeariamos por discutir qual  o objecto da poesia, e d'esta questo
nos parece que j se tirariam importantes resultados, e que as duas
caracteristicas--o _icastico_ e o _ideal_--que distinguem as tendencias
do antigo e do novo systema, surgiriam d'ella para nos servirem depois
na resoluo de varios problemas que se nos apresentariam na serie das
nossas indagaes. O exame das differentes theorias sobre o bello e o
sublime, e as consequencias, objecto immediato a que nos conduziriam os
primeiros raciocinios, dariam em resultado os principios necessarios e
universaes de todas as poeticas, e consequentemente aquelles sobre que
deveriamos emittir uma opinio absoluta e exclusiva: no resto
respeitariamos as opinies de cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo
em que ellas se no oppusessem aos principios geraes. Indagando a
historia da poesia nos diversos tempos e naes, v-la-amos depois da
queda da bella litteratura greco-latina, surgindo do norte com um
sublime de melancholia e mesmo de ferocidade, proprio dos povos que a
inventaram: veriamos esta poesia fundida com os restos da romana, e
posteriormente com a arabe, produzir as diversas especies do romantico,
d'essa poesia variada e verdadeiramente nacional, na Frana e nas duas
peninsulas, e termo medio entre a bella symetria classica e o sublime
gigantesco do septentrio: achariamos essa originalidade nascente da
litteratura da meia-edade destruida quasi no resurgimento das letras, e
substituida por theorias antigas, que, conservando sempre o mesmo nome,
foram sendo enxertadas em idas, em preceitos modernos: encontrariamos,
finalmente, o espirito de liberdade e de nacionalidade da actual
litteratura. O quadro das novas opinies nas suas variedades todas, as
vantagens ou damnos resultantes de cada uma comparada com os elementos
universaes da arte, nos poria em estado de formar um corpo de doutrina
que determinasse as propores essenciaes da futura poesia portuguesa,
completando ao mesmo tempo uma serie de juizos imparciaes sobre as
produces das differentes eras e das differentes escholas, em relao
ao seu genio particular, e  philosophia geral das letras.

Todos sabem que os antigos dividiam a eloquencia em tres generos, que
muitas vezes se confundem: um destinado ao elogio ou  invectiva; outro
a fazer condemnar ou a absolver, a invocar a lei a favor do innocente, a
invoc-la contra o criminoso; outro, emfim, destinado a ventilar os
grandes interesses das naes nos congressos ou na tribuna popular. Foi
a estas trs classes que elles reduziram a oratoria, diviso que ainda
hoje se conserva e que, apesar da sua arbitrariedade, ns respeitaremos
em nossas reflexes. Em Portugal, onde a representao nacional no
existia, onde os tribunaes eram fechados s defesas oraes e aos juizos
publicos, e a arte de defender e accusar consistia geralmente em
conhecer os meios de oppor entre si a nossa ora mesquinha, ora
contradictoria, ora obscura legislao, e numa dialectica as mais das
vezes pueril, tanto o genero deliberativo como o judiciario no tinham
quasi applicao: ficava smente a eloquencia dos panegyricos para o
orador profano, e uma mistura de todos os tres generos para o orador
sagrado; mas em nenhuma das duas classes temos de que nos gloriar neste
seculo. Por uma parte elogios de encommenda ou feitos com miras de
interesse pessoal no podiam sair da bocca do orador acompanhados das
inspiraes do enthusiasmo; e sem convico e persuaso propria no se
pde convencer nem persuadir os outros: por outro lado a eloquencia
sagrada nunca pde preencher inteiramente o fim da arte, uma vez que no
divague do seu objecto--a moral religiosa. O fim da eloquencia 
persuadir; para isto no s  necessario mover os affectos, mas tambem
obrigar a razo. O usar d'este meio, nervo principal da oratoria entre
as naes civilizadas, seria ridiculo perante um auditorio christo. O
incrdulo no vai ouvir sermes, e o orador que empregasse uma logica
severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem
d'isso est de antemo convencido, obraria com tanta impropriedade, como
se o missionario diante de homens de diversa crena buscasse to smente
mover os affectos sem falar  razo.

O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de
dizer. So elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a
severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do
sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperanas da
imaginao, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que so
elles modelos? , justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio
se contm na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone no
preencheu, nos discursos em que se lanou no abysmo dos mysterios, o
objecto da arte: esta dirige-se  vontade, pela aco; e a defesa
metaphysica bem que eloquente dos dogmas christos no requer aco
alguma. Bossuet est no caso contrario: para que as suas oraes tenham
effeito  necessaria a f. O homem indifferente em materias de religio,
e que no possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormir
tranquillamente  leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica
ou olynthia de Demosthenes far sempre impresso em todo o homem que
tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos pdem oppor
sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, no
sendo possivel o entrar aqui numa questo bastante vasta que estas
reflexes no comportam, lembraremos s aos leitores que ns
consideramos os panegyricos e os sermes de controversia como alheios do
pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a
necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus
panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que
elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo
logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do
pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta
natureza: _J'avoue_, diz elle, _qu'il est trs-rare de pouvoir suivre
cette marche didactique dans nos chaires, o les discussions morales ne
sont jamais problmatiques, et o la conscience, qui ne ment jamais, ne
saurait contester la vrit  ses remords_. O que entra justamente na
ordem de nossas idas, tanto sobre o objecto como sobre o defeito
constitutivo da eloquencia sagrada.

Voltando ao nosso pas, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em
Portugal cultivada, s um orador deixou pela estampa monumentos dignos
de exame, se attendermos  fama popular que para seu auctor grangearam:
j se v que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a
popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das idas, e sobre
tudo a essa instruco perfunctoria que comea a invadir a capital e que
 mais damnosa s letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da
sublimidade de Bossuet, sem a unco de Fenelon, sem a profundeza de
Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade,
ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda
soar na posteridade, no ser para as suas cinzas um bafejo consolador
de gloria.

Porm no  a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa atteno:
ella tem sido o luxo da religio, e ns desejamos v-la substituida por
meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral
do evangelho no precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero;
e a religio practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais
eloquente para insinuar a moral do Crucificado.

Antes de passar avante occorreremos a um reparo que faro os leitores: o
de no falarmos sobre a eloquncia desenvolvida nas crtes da nossa
primeira epocha de liberdade, que frma uma excepo de quanto dissemos
sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso
razes, e talvez a principal seja o quo longe nos levaria o exame de
alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da
nossa patria que ento appareceram mui grandes homens, e que
desejariamos ver publicar uma escolha das opinies e relatorios ento
ventilados,  maneira do que se fez em Frana das oraes dos
representantes nacionaes desde o principio da revoluo.

, portanto, a educar homens que ventilem dignamente as questoes de
interesse publico nas camaras legislativas, ou que defendam a innocencia
e persigam o crime nos tribunaes j publicos, que o estudo e ensino
d'esta parte da litteratura se deve dedicar:  assim que ns fariamos da
essencia d'estes dois generos de oratoria o objecto da segunda parte de
um curso litterario, tocando apenas de leve quanto  formal na arte e
que sapientissimos rhetoricoes, copiando-se uns aos outros, de sobejo
explicaram; mas tractando com profundeza os principios applicaveis
principalmente aos generos judiciario e deliberativo em relao  nossa
situao politica. Para isto seria do exame da eloquencia nos
differentes tempos e logares, que ns partiriamos em nossas indagaes:
veriamos Demosthenes, trovejando na tribuna, armado da razo e da
indignao, admiravelmente conciso e misturando com esta conciso os
sublimes movimentos do patriotismo, arrastar aps si a opinio das
multides; veriamos Cicero defender os seus clientes, tractar os mais
importantes negocios da republica quasi sempre com uma gravidade e
eloquencia estudadas: na historia da oratoria moderna achariamos a
vigorosa razo de Mirabeau acompanhada de um estylo raras vezes
rasteiro; achariamos nos discursos de Maury os mais bellos monumentos de
uma eloquencia mascula mas tranquilla; e, finalmente, o frenesi
inspirado pelo amor s velhas frmas do absolutismo nas oraes de
Montlosier: passando  da Inglaterra exporiamos o genero de Pitt, genero
severo, renovado hoje por Makintosh e Burdett, a que succedeu o
igualmente nervoso, porm mais cheio de artificio, de Burke, Sheridan e
Caning, e o genero medio de Fox, terminando assim o exame das fontes
verdadeiras da eloquencia.

Seria a d'esta ultima nao que ns proporiamos como principal modelo
sem exceptuar comtudo as outras. Entre os gregos, romanos, e franceses
ha muito que aproveitar; mas, se  verdade que a litteratura em parte
depende de certa harmonia com as circunstancias de cada povo, nenhuma
eloquencia  mais digna para ns d'estudo do que a inglesa. Nem entre os
antigos, nem na republica francesa, ella estava na mesma relao com as
instituies sociaes que vai a estar na nossa patria. O orador, na
discusso de uma lei perante a plebe, que deve votar sobre ella ou
influir na votao, como acontece no calor das revolues, tem de usar
de meios differentes dos que hade empregar para a impugnar ou defender
em uma camara, cujos membros so, ou devem ser, os mais conspicuos da
nao por suas luzes e virtudes. No primeiro caso os raciocinios convem
sejam acompanhados dos meios formais da arte para dirigir as paixes
populares; no segundo, expostos a homens que conhecem a arte to bem
como o orador, sem alcanarem o seu effeito, os artificios s
attrahiriam sobre elle a suspeita de m f: isto sem pretendemos dizer
que elle discuta com a secura de um geometra as questes do publico
interesse; porm os seus movimentos devem surgir sinceros de um corao
intimamente commovido e de nenhum modo dar a conhecer que foram
tranquillamente calculados pelos preceitos de Quintiliano.

Entre os romanos, a pequena poro de leis que havia ainda nos ultimos
tempos da republica e o espirito de generalidade a que se limitavam,
dava motivo a que nas causas particulares o advogado ou accusador de
qualquer ro buscasse despertar a compaixo ou a sanha dos juizes, de
quem muitas vezes era guia unica o senso commum e a moralidade, na falta
de disposies preceptivas, e apesar da similhana dos tribunaes civis e
criminaes de Roma com os nossos modernos jurados, existe entre ns e
elles uma differena enorme por causa das circunstancias legaes. Hoje,
entre os povos livres, ha, ou deve haver, um codigo que previne todos os
casos com clareza e exaco, e o mister do orador reduz-se a provar se o
seu cliente est ou no no caso da lei: ento todo o pleito dever ser
uma questo de factos provados ou provaveis, e vice-versa.

D'aqui se colhe quo sobrio elle deve ser empregando os meios que lhe
ministra a arte. Clareza, ordem de idas, logica severa, eis os meios
principaes da eloquencia do fro e das camaras legislativas.

Tal  o rpido quadro do nosso modo de pensar sobre a actual litteratura
portuguesa, e sobre os meios de a dirigir. As curtas reflexes que temos
feito sobre a poesia e a eloquencia so as bases em que julgamos
dever-se fundar um curso de litteratura, que serviria como de
introduco aos estudos mais profundos do poeta e do orador. Oxal que
d'entre os nossos litteratos algum se encarregue d'esta util e
importante tarefa.




POESIA

Imitao--Bello--Unidade

*REPOSITORIO LITTERARIO*

1835




POESIA

Imitao--Bello--Unidade


     Je donne mon avis non comme bon, mais comme mien.

     Montaigne.


Na torrente de opinies contrarias sobre a critica litteraria, que na
presente epocha combatem, morrem, ou nascem, tambem ns temos a nossa: e
vem a ser parecer-nos que da falta de exame dos principios em que se
fundam os differentes systemas, procedem essas questes que se teem
tornado interminaveis talvez por esse unico motivo. O genio, impellido a
produzir no meio de idas vagas e controvertidas sobre as frmas, as
condies da poesia, julga que todas ellas so indifferentes e
desvairado se despenha; o engenho, dominado pelos preceitos que muitos
seculos por assim dizer, sanctificaram, contrafaz e apouca as suas
produces temendo cair naquillo que julga monstruoso e absurdo. Tal ,
geralmente, o estado da litteratura: e emquanto se no estabelecer um
corpo de doutrina que, afianando a liberdade do poeta, o circumscreva
aos limites da razo, a republica das letras similhar as associaes
politicas no meio de uma revoluo espontanea onde o despotismo extremo
e a extrema licena, os terrores e as esperanas, a felicidade e a
desventura, se cruzam, se arruinam e se anniquilam no meio de uma
confuso espantosa.

Os que conhecem o estado actual das letras fra de Portugal, na Frana,
na Inglaterra, e ainda na Italia, sabem ao que alludimos. Trememos ao
pronunciar as denominaes de _classicos_ e _romanticos_, palavras
indefinidas ou definidas erradamente, que smente teem gerado sarcasmos,
insultos, miserias, e nenhuma instruco verdadeira; e que tambem teriam
produzido estragos e mortes como as dos _nominaes_ e _reaes_, se
estivessemos no XVI seculo. Infelizmente em nossa patria a litteratura
ha j annos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraa publica: mas
agora ella deve despertar, e despertar no meio de uma transio de
idas. Esta situao  violenta, e muito mais para ns, que temos de
passar de salto sobre um longo prazo de progresso intellectual para
emparelharmos o nosso andamento com o do seculo. Se as opinies
estivessem determinadas, o mal ainda no seria to grande; mas  num
chos que nos vamos mergulhar e do qual nos tiraremos talvez muito
depois de outras naes. A influencia da litteratura estrangeira torna
necessario este acontecimento, se aquelles a quem est encarregada esta
poro do ensino publico no tractarem de estabelecer uma theoria segura
que previna tanto o delirio d'uma licena absurda como a submisso
abjecta que exige certo bando litterario. Sabemos as difficuldades que
tal trabalho encerra; porm o amor da lilteratura vencer todas quando
ajudado do estudo e do genio.

As reflexes que ora apresentamos so fructo de uma parte de nossas
meditaes sobre tal objecto. Desejariamos t-las podido coordenar todas
e estabelecer melhor algumas; mas trabalhos, posto que litterarios, de
differente especie, impostos por um dever, nos distrahiram do nosso
desenho. Offerecemo-las aos eruditos para que tendo alguma utilidade a
aproveitem e sendo damnosas acautelem d'ellas aquelles a quem podem ser
nocivas. Ns nos envergonhariamos mais de ter acertado com leveza do que
de ter errado pensando.

Talvez alguem as julgue em demasia abstrusas; mas, ou o bello, objecto
da poesia, seja inteiramente resultado das relaes das nossas
faculdades intellectuaes entre si, ou das d'estas faculdades com o mundo
objectivo, ou, finalmente, resida neste,  sempre a alma do homem quem o
sente e goza. Para ns a sua existencia depende da nossa; e a
metaphysica influir sempre em qualquer systema que sobre tal objecto
venhamos a adoptar. Tem-se dito, e mil vezes repetido, que  preciso
para que a litteratura floresa afast-la d'esta sciencia: isto equivale
a dizer-se que para os ramos de uma arvore se conservarem virentes 
mister decepar-lhe o tronco principal. Na poesia ha essencia e frmas:
estas devem convir quella, ou, diremos melhor, d'ella devem partir. Sem
levar o facho da philosophia ao seio das artes, sem examinar a essencia
d'estas, as theorias formaes ficam sem fundamento; e  justamente o que
tem acontecido. Seguiu-se quanto a ns, methodo inverso ao que devera
seguir-se, e um grande mal d'ahi resultou: a fluctuao dos principios,
e consequentemente dos juizos criticos. Todos sabem das controversias de
Boileau e seus sectarios com Perrault, Lamotte, e ainda Fontenelle e
Huet; mas o que nem todos sabem  que muitas vezes os ultimos tinham
razo. E se  possivel entender uns e outros, veremos que o arruido
nascia da incerteza ou da contradico dos preceitos, o que nunca
succederia se a poetica estivesse fundada em principios metaphysicos em
que ambos os bandos conviessem. Mas qual era a consequencia da
versatilidade das regras e das suas contradices? O fazerem homens,
alis engenhosos, os juizos mais contradictorios sobre a mesma coisa, e
haver uma falta de consciencia em todos esses juizos que salta aos
olhos. A critica tomou naquella epocha um caracter mesquinho e pedante.
Nem acreditemos que esse mesmo Boileau, to gabado pelos seus franceses
como homem de summo gosto e fino tacto, sobrelevasse muito outros seus
contemporaneos. A falta d'esse gosto e d'esse tacto achamos ns numa
carta a Brossette acrca do Telemacho. Esta grande creao de um dos
maiores genios do seculo (perdoem-nos os admiradores do inquisitorial e
raivoso Bossuet) foi comparada pelo autocrata litterario da Frana com o
romance de _Theagenes_ e _Chariclea_ de Heliodoro bispo de Tydea,
romance obscuro escripto na decadencia do imperio romano e da antiga
litteratura: bastava esta carta para sabermos o peso que deviamos dar s
decises de Despreaux, quando nas suas poesias no encontrassemos j
para isso erradas opinies acrca do Quinault e do Tasso.

A historia da critica em Frana no reinado de Lus XIV e de Lus XV, e
que tambem o  com pouca differena da que vogava em Inglaterra durante
o governo de Anna, se reduz a que, se um poeta ousava apartar-se das
frmas imaginadas nos antigos monumentos, e se este poeta merecia a
estimao publica, os criticos se viam na necessidade ou de confessar,
se no a inutilidade, ao menos a instifficiencia de seus preceitos, ou a
votar ao desprezo as produces do genero moderno. A opo no era
duvidosa; as regras sempre tinham razo; mas como ante o tribunal da
opinio era preciso que ellas apresentassem algum titulo, ahi se corria
a pedir soccorro ao homem e ao mundo, e sempre l se achava com que
contentar o povo litterario. Aquelles preceitos que factos oppostos no
controvertiam ficavam amparados por grandes nomes e pelo respeito dos
seculos sem dar razo da sua existencia, bem como em nossas cathedraes
os conegos  sombra do culto religioso.

A justia pede que digamos que uma grande parte dos preceitos dos
antigos foram deduzidos do principio da unidade, d'esse principio que
reside em nossa alma e que, emquanto existirmos sobre a terra,
representa para ns o absoluto, ao qual nos faz constantemente tender a
consciencia da immortalidade; mas a applicao d'este principio foi em
nosso entender muitas vezes errada ou exaggerada. Metastasio refutou
excellentemente a regra da restricta unidade de logar e de tempo nos
poemas dramaticos, e ns veremos brevemente que nem s essa unidade
carecia de fundamento: porm, a fra das regras nascidas d'este
principio, outras ha de tal maneira futeis que para as destruir basta
negar-lhes a validade. Que razo daria Horacio, tirada da essencia do
tirania, para uma tragedia ou comedia no ter nem mais nem menos de
cinco actos? Julgamos no teria outra melhor do que uma dada
engraadamente pelo auctor do _Anno de 2440_ em nota a um dos seus
dramas.[1]

Ns devemos em grande parte aos antigos o que sabemos: seria uma
ingratido neg-lo. Elles crearam as letras e as levaram a um ponto de
esplendor admiravel; mas por as crear e aperfeioar no se deve concluir
que acertaram em tudo ou tudo sabiam. Ns no dizemos com Mr. de
Chateaubriarid que em litteratura s devemos estudar os antigos: Cames,
Tasso, Klopstok no nasceram na Grecia ou em Roma, e entretanto achamos
tanto que estudar nos escriptos d'elles como nos de Homero e Virgilio. O
mesmo Mr. de Chateaubriand  uma prova de que o genio no  partilha
exclusiva de nenhuma epocha, de nenhum povo. No renascimento das letras
a admirao pelos auctores classicos no deixou ver seus defeitos e
erros, e julgou-se inviolavel a antiguidade. Venia mereciam os
descobridores dos preciosos manuscriptos que continham o thesouro de
idas que nos herdaram os gregos e os romanos: laboriosas indagaes,
largos annos de applicao davam jus aos Vallas e aos Philelfos, aos
Aldos e aos Stephanos, a no verem uma s macula nos objectos caros que
elles revelavam  Europa: mas que, passados dois seculos, ainda a
republica litteraria se conservasse deslumbrada pelo fulgor tios tempos
remotos, emquanto as sciencias comeavam a fazer justia e a dar o seu a
seu dono,  o que nos parece inexplicavel ou, para melhor dizer, o que
com repugnancia explicariamos.

Embora se apresentassem difficuldades insuperaveis, embora fosse preciso
recorrer s razes mais frageis, aos argumentos mais illusorios, uma vez
que as regras fossem ou se cressem originaes, ou derivadas dos escriptos
de Aristoteles ou de Horacio, de Cicero, de Quintiliano ou de Longino,
era obrigatorio defend-las sob pena de ser havido por ignorante ou por
homem de minguado criterio. Boileau disse em uma das suas satiras que s
a verdade era bella: o padre Castel profundo litterato que escreveu
sobre o bello e sublime e que jurava ante os numes defender esta
proposio (porque em fim era de Despreaux), sem mesmo se aproveitar da
vaga distinco do verdadeiro e verosimil, que tem salvado muita coisa e
muita gente, comeou a applic-la por esse mundo poetico; mas embicou
logo com Virgilio. O verso _Provehimur portu terraeque urbesque
recedunt_ recalcitrava, alm de outros, contra a sentena do mestre. Que
fez o bom rio padre?--Zs--Uma razo digna de Fr. Gerundio: O verso de
Virgilio exprime uma ida verdadeira, porque ha ahi uns annos
descobriu-se a theoria do movimento; e voto a Apollo que a regra ha-de
passar inconcussa: o verso e bello porque  verdadeiro. Se fosse
possivel um padre grave ludibriar o publico, ns diriamos que elle
estava escarnecendo os leitores. Desejariamos que o padre Castel nos
tivesse explicado porque o verso era achado bello antes d'essa theoria e
porque o continuaria a ser mesmo se ella fosse destruida. Taes so as
miserias que teem resultado do modo porque durante muitos seculos foram
tractadas as letras. D'estas ninharias poderiamos dar muitos exemplos;
mas voltemos ao nosso objecto.

Depois de Aristoteles a poesia foi para os antigos a imitao do bello
da natureza, tendo por condies a unidade e a verdade, ou a
verosimilhana.  esta em nossa opinio a maneira mais simples de
exprimir a philosophia da arte entre elles, ou os elementos da sua
poetica, os quaes o continuaram a ser at nossos dias. , pois, o valor
dos termos _imitao_, _bello_, _unidade_, _verdade_ ou _verosimil_, que
cumpre determinar para ver se as idas que exprimem esto em harmonia
entre si, e se podem dar validade a uma poetica nellas fundada.

A imitao suppe o bello em a natureza moral ou physica, e qualquer
d'ellas existente fra de ns. Os actos humanos sero na primeira,
digamos assim, o _substractum_ da imitao: na segunda s-lo-ho os
corpos, e o bello nos ser communicado por meio das sensaes: qualidade
dos corpos, frma das aces, naquelles a sua impresso ser universal,
nesta nunca necessaria. O europeu, o chim, o hottenlote sentiro
egualmente que o Apollo de Belvedere  bello: a aco dos templarios
cantando hymnos a Deus no meio das chammas, e cuja morte Mr. Rainouart
pintou divinamente num s verso:

     Il n'en etait plus tems, les chants avaient cess.

nunca ser nessariamente bella: se elle a imitou de um acto humano
similhante, esse acto sendo contingente parece-nos no teria qualidade
dotada de caracter necessario: se applicarmos isto a uma aco pica ou
dramatica, ainda mais visivel  a falta de necessidade da sua existencia
e consequentemente a dos seus caracteres formaes.

Se dissermos que o bello  relativo e resultado do nosso modo de ver, da
relao particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos
tactos com as nossas idas moraes, nesse caso no poderemos affirmar que
os _Lusiadas_ ou a _Odyssea_ sejam absolutamente superiores ao _Affonso_
ou ao _Viriato Tragico_. Poderemos dizer que para ns no ha sequer
comparao; mas seria absurdo exigir dos outros o mesmo sentimento.
Boileau julgou esquivar-se a esta difficuldade asseverando que a opinio
geral devia ser a norma do nosso modo de sentir, e que a totalidade dos
homens no se engana numa crena duradoura. Desejariamos que Boileau nos
dissesse se era pela opinio geral que elle acharia frio o gelo e quente
o fogo. Que nos importa a opinio quando se tracta de sensaes? Que
vale mesmo aos olhos dos homens cordatos o credito de uma opinio geral?
Cremos ns hoje na arte mgica, na alchymia, ou na virtude dos Jesuitas?
E foram estas crenas porventura pouco geraes e pouco duradouras? Quando
concedessemos o principio, elle nos seria inutil para julgar as
produces contemporaneas, e a critica no nos serviria para conservar
puras as letras, nem para gozar as creaes do genio moderno: a gloria
ou o desprezo no encontraria j nem as cinzas do poeta. Seculos
haveriam passado para reformar a opinio, quando isso mesmo fosse
possivel.

Mas felizmente no  assim. Lamartine! com uma poesia celeste tu fazes
adorar a religio que saudaste em teus hymnos solitarios. Monti! tu nos
encheste de um terror delicioso conduzindo-nos aos umbraes do outro
mundo. Schiller! quem no sentiu bater mais fortemente o corao lendo a
despedida de Picolomini e Thecla? A infancia do seculo XIX j tem muitos
titulos com que faa passar sua memoria enobrecida deante dos outros
seculos. Elles julgaro como ns os genios que no meio das tempestades
politicas consolaram o genero humano com a harmonia de seus cantos.
Acrca de Lamartine, de Monti, de Schiller, e no s d'elles, ns damos
seguro da posteridade.

Tal  o bello para quem o julgar em sua modalidade necessario e
absoluto: uma ida opposta repugna e nos afflige: ns queremos que todos
os tempos, todos os homens o julguem e gozem como ns, e diremos sem
hesitar, o que no for de nosso sentir ou carecer de gosto ou o ter
pervertido.

 esta circumstancia da necessidade do nosso juizo sobre o bello que
distingue inteiramente este do agradavel.--Do primeiro ns affirmamos a
existencia, do segundo a sua relao comnosco. O quadro da morte da
Clorinda na Jerusalem Libertada  bello, e que deixe os poetas aquelle
que tal no o julgar. Um pomo saboroso  para ns agradavel, talvez para
outrem o no seja, o que nos  indifferente. No primeiro caso julgamos;
no segundo exprimimos a ida da relao particular entre ns e o
phenomeno.

A que reduzirio Burke e Delaunay a maxima parte do que escreveram sobre
o assumpto se tivessem reflectido nesta differena? Poria um porventura
os elementos do bello nas linhas curvas e no macio e t-lo-ia outro
dividido geographicamente como se dividem as raas humanas? Estamos
persuadidos que no.

A incerteza acrca do criterio do bello no  o unico resultado do
principio da imitao: elle tambem est em contradico com o da
unidade: esta debalde se procuraria nos corpos: as partes do universo
coexistem; mas individualmente, e entre individuo e individuo medeia um
abysmo que rigorosamente falando ns no podemos eliminar: generos,
especies, familias, causas e effeitos necessarios so frmulas do
entendimento; so como lhes chama Ancillon muletas da intelligencia. Se
procurassemos a fugitiva unidade do total do Universo l mesmo ella
seria para ns a nuvem de Ixion. Com effeito, sendo impossivel 
imaginao acabar a synthese dos phenomenos, ella disse quando
cansou--isto  o universo--; mas teem acaso os objectos que produziram
essa ida uma ligao absoluta e una entre si?--No: a mente faz uma
abstraco similhante  que faz a historia natural deduzindo dos
individuos generos, especies, familias. O Universo no  seno a
repetio indefinida da individualidade.

Parece-nos, pois, que  foroso ou abandonar a imitao do mundo
physico, ou no exigir a unidade nas imitaes d'este genero. Outras
razes existem para provar que a mesma difficuldade apresenta a
conciliao dos dois principios no mundo moral; mas ns guardamos essas
reflexes mais complicadas para quando voltarmos a este assumpto,
temendo ser por agora tachados de prolixos.

Do que temos dicto concluimos que o bello das imagem, o bello chamado
physico no existe nos objectos porque a unidade e a necessidade da sua
existencia seriam destruidas; mas sem estas duas condies o espirito
no o admitte. , pois, em ns, no mundo das idas que o devemos buscar.
Um typo independente do que nos crca, deve existir, com o qual a
faculdade de julgar possa comparar o bello de uma imagem particular.
_Eu_--_No eu_, eis o circulo das existencias, os dois nomenos fra os
quaes nada concebemos. Mas ns admittimos o necessario e o uno sem o
encontrarmos no que nos rodeia: cumpre, pois, que elles residam em ns
como frmas da intelligencia.

 visivel que um typo  preciso para julgar o bello: sem elle as artes
plasticas seriam impossiveis. As comparaes entre os objectos no podem
jmais estabelecer regras invariaveis de gosto, e ellas suppem j uma
comparao anterior. Quando comparamos dois objectos, um bello outro
no, o unico resultado que tiramos d'ahi  ver que so desimilhantes:
mas por que modo agrada um, outro repugna?  sem duvida porque um
harmoniza com uma ida, bem que indeterminada, e outro se oppe a ella.

Ser este typo resultado da experiencia? Cremos que no. Onde existe o
typo da Venus de Medicis, de Laocoonte, ou de Marco Sexto? Quem se pde
gabar de o ter encontrado na natureza? Elle existia na mente dos
artistas: as idas d'estas creaces foram para elles antes de ser para
ns: unisonas com o seu typo, o genio as traduziu no marmore, no bronze
e na tela. Dir-se-ha, em ultimo caso, que o estatuario e o pintor
reuniram o bello parcial para formar o todo. Porm seria aggregado uno?
Alm d'isso, no  claro que para essa escolha precisavam de um guia
existente na sua alma? Quem os moveu a escolher esta fronte, estes
labios, este collo com preferencia a outros? Parece-nos que estas
perguntas ficaro sem resposta emquanto os homens procurarem fra de si
o principio vivificante das artes.

Quanto ao verosimil e verdadeiro na imitao, ns faremos s alguns
leves reparos, porque de outro modo seria preciso examinar as mudanas
que se teem feito na intelligencia d'este principio para devidamente o
apreciar, e este trabalho exigiria longas paginas. Aristoteles
estabelece a differena entre a verosimilhana e a verdade, dizendo que
a primeira pertence  poesia, a segunda  historia: que a primeira
consiste nos actos consequentes de um caracter em geral, a segunda nos
actos practicados por um individuo existente e determinado. D'estas
expresses resulta que para a distinco do verdadeiro e do verosimil
physico o critico grego no nos deixou nenhuma regra, e que no moral
cessa com o verosimil a imitao: na natureza no ha seno caracteres
individuaes, os geraes existem por uma ida. Confessamos nossa rudeza;
no entendemos como as paixes concebidas da maneira que as concebe o
genio e applicadas a um individuo, ou supposto ou historico, sejam uma
imitao. Quando quisessemos exprimir esse caracter por factos, dar-lhe
uma existencia real e individua, nada mais fariamos do que destruir uma
abstraco por nos servirmos da linguagem sensualista. Alm d'isso,
suppondo que todas as nossas idas sejam resultado de sensaes, a ida
geral e absoluta de um caracter  uma chimera dando-lhe validade
necessaria e imprescritivel. Circumstancias particulares, opinies, em
fim as _cres locaes_ viriam introduzir a confuso e a anarchia no
imperio da critica. Supponhamos que os caracteres dos heroes da Hiada
foram traados, segundo a opinio de Aristoteles, pela ida geral do
valor, mas ns vemos esses heroes fugirem do inimigo que temem. Odoardo
e Gildippe, na Jerusalem, cem sob o alfange de Saladino sem terem
voltado as costas, Sueno acaba sobre os cadaveres dos seus soldados no
meio dos infiis sem depor a espada, apesar de ser impossivel vencer.
Quem imitou a ida geral do valor? Foi Homero ou foi Tasso?
Provavelmente Homero porque  mais antigo. Algum futuro commentador de
Aristoteles no-lo explicar.

No nos tendo este deixado a norma para julgar o verosimil physico,
vejamos se Horacio occorreu a esta falta. Foi por ahi que elle comeou a
epistola aos Pises. Descrevendo um monstro que imaginou, convida-os a
rir do quadro que lhes apresenta--e porque? D o poeta a razo--_vanae
fingentur species_,--Batteux paraphraseando accrescenta--_images vagues
qui n'ont point de modle dans la nature_. E assim, o que for vo, o que
no tiver typo na natureza nunca ser bello. Pobre Homero! Os teus
cyclopes, o teu Poliphemo, os monstros de Charybdis, emfim teus lindos
sonhos devem-nos arrancar uma gargalhada. Tu mesmo, crapulario Horacio,
querers com o teu Pegaso fazer-nos estourar de riso? Com effeito, onde
existem as fices dos antigos monstros da mythologia? Quem viu um homem
ou um cavallo alado como o Amor e o Pegaso? Nem se diga que a crena
popular lhes tinha dado a existencia: isto so palavras que soam mas sem
sentido.--Cremos que existir na intelligencia no  existir no mundo
real. Se a phantasia produziu estas creaes ellas no foram imitadas,
logo no teem modelo, logo no so bellas; porque nos persuadimos que a
mais duradoura crena nunca poder fazer que uma coisa seja o que no
.--Vemos, portanto, que para a theoria do verosimil pouco se aproveita
a poetica do illustre adulador de Meenas e de Octaviano.

Talvez Boileau nos satisfaa. Eis o que encontramos nas suas doutas
poesias a este respeito:

_Rien_ n'est beau que le vrai, le vrai seul est aimable.[2]

Le vrai peut quelque fois n'tre pas vraisemblabe.[3]

Qual seria a concluso que tirariamos d'estas duas proposies,
dispondo-as em frma de syllogismo?--Quem respeitar Despreaux no ousar
faz-lo.

Metastasio falando da imitao nos commentarios da poetica
d'Aristoteles, nos explica em que consiste o verosimil que o imitador 
obrigado a conservar na sua imitao: O alvo do copista, diz elle, 
que a sua cpia possa substituir o original, o do imitador  conservar a
_similhana possivel_ do objecto sem alterar a materia sujeita da
imitao. Continua depois dizendo que o _admiravel_ d'esta consiste nas
difficuldades que venceu o artista: o que, em nosso entender, equivale a
dizer que o bello consiste em vencer as difficuldades da imitao:
lembremo-nos, porm, que por este mesmo tempo Batteux reduzia as artes a
um s principio--a imitao da _bella natureza_; e louvemos a Deus pela
unidade de doutrina de uma eschola que hoje com tanta arrogancia accusa
de barbarismo e incerteza todos os principios litterarios que no se
amoldam aos seus.

Tirou Metastasio da estatuaria um exemplo para nos dar a conhecer as
differenas que ha entre imitao e cpia, mas, tractando-se de poesia,
seria talvez bom que nesta o buscasse. Ns o faremos por elle comparando
o retrato de Gabriella de Estes por Voltaire, com o de Ignez Sorel por
Chapelain.--Para os nossos leitores poderem ajuizar transcreveremos
ambos:

CHAPELAIN

En la plus haute part d'un visage celeste,
...un front grand et modeste
Sur qui vers chaque temple  bouillons spars
Tombent les riches flots de ses cheveux dors
Sous lui...
Deux yeux tincelans... sereins...
Au dessous se tait voir en chaque joue close
Sur un fond de lis blanc une vermeille rose
Qui de son rouge centre pandue en largeur
Vers les extremits fait palir sa rougeur.
Plus bas s'offre et s'avance une bouche enfantine,
Q'une petite fosse a chaque angle termine,
Et dont les petits bords faits d'un corail riant
Couvrent deux blancs filets...


VOLTAIRE

Telle ne brillait point au bord de l'Eurotas
La coupable beaut qui trahit Mnlas.
Moins touchante et moins belle,  Tarse on vit-paraitre
Celle qui des Romains avoit dompt le maitre

       *       *       *       *       *

Elle entrait dans cette age, hlas! trop redoutable,
Qui rend des passions le joug inevitable.
Son coeur n pour aimer, mais fier et gnreux,
D'aucun amant encor n'avoit reu les voeux.
Semblable en son prinptems  la rose nouvelle
Qui renferme en naissant sa beaut naturelle,
Cache aux vents amoureux les trsors de son sein
Et s'ouvre aux doux rayons d'un jour pur et serein.

Quem duvidar que Chapelain imita uma bella mulher com a _similhana
possivel_ e que no retrato de Gabriella a imaginao nada pde
affigurar-se que no seja vago e indeterminado? Quem duvidar tambem que
o primeiro retrato  obra de um borrador e o segundo digno de Albano?
Comtudo hoje  reputado barbaro e extravagante quem se ri das regras da
velha poetica!...

Desde Batteux, Sulzer, Jaucourt e outros, as artes em geral e a poesia
em particular foram definidas--a imitao do bello da natureza. Esse
principio se achava nos escriptos dos antigos, mas confundido com a ida
de que do artificio da imitao tambem resultava um prazer similhante ao
produzido pelo bello. Muito devemos a estes criticos; alis, fugindo
constantemente da natureza para a arte e d'esta para aquella, a velha
poetica salvaria uma grande parte dos seus canones dos olhos
investigadores da philosophia. Era isto misturar a noo do agradavel
com a do bello. Os modernos, reduzindo a poesia  imitao d'este,
cairam, em nosso entender, num erro analogo confundindo-o com o bom.

Diderot disse que no util consistia o bello--Watelet que o era tudo o
que preenchia o seu fim. Mr. Lemercier d como causa final das letras a
utilidade. Mendelssohn creu-o a expresso sensivel da perfeio, e ao
seu systema similha o de Mr. Laurentie cerca do bello intellectual.
Todos estes enunciados se podem reduzir ao de Mr. de Bonald--o bello
absoluto  synonimo de bom. No sabemos o que Marmontel e Laharpe
opinaram, porque temos a infelicidade de no entender as suas
deffinies.

Os sensualistas do seculo passado, depois de um longo rodeio, voltaram 
confuso do agradavel e do bello; e os espiritualistas d'aquelle seculo
e do nosso foram progressivamente tirando o bello da natureza physica e
collocando-o smente na moralidade, ou creando uma cousa chamada _bello
relativo_ que, ou no existe ou  o mesmo que o agradavel.

Mr. Laurentie escreveu um volume para mostrar aos barbaros innovadores
que o bom e o bello moral eram inseparaveis: neste livro toma o pobre
Kant para a sua alma, visto que, por culpa d'elle, foi enxovalhado o
rico e harmonioso idioma de Paschal e Bossuet com o _Eu_ e _No-eu_. At
aqui bem vamos. Se Kant fosse vivo, como causa primeira de se commetter
to horroroso attentado, devia acabar numa fogueira: e nisto, cremos,
conviria Mr. Laurentie, porque nos seus escriptos alguma pena mostra de
ter visto findar as assaduras dominicanas. Mas no que no tem razo  em
insultar a memoria do veneravel professor de Konigsberg, que estabeleceu
antes d'elle a mesma verdade, como mostrariamos se este escripto
comportasse uma exposio da doutrina d'aquelle philosopho acrca do
juizo esthetico. No seria melhor que Mr. Laurentie, antes de decidir
com um tom to dogmatico e magistral estudasse primeiramente as opinies
que intentava impugnar? Similhante altivez no nos parece concordar com
a humildade evangelica propria de um bom christo como Mr. Laurentie![4]

Insistimos na differena do bom e do bello, porque o grande nome de
Mendelssohn se colloca naturalmente  frente dos que os declaram
identicos. Esta ida se encontra j na philosophia no-platonica e
talvez no Hippias maior do mesmo Plato, de cujas opinies Mendelssohn
no estava mui longe. O que Mr. de Bonald e Alletz disseram sobre este
ponto funda-se inteiramente naquellas doutrinas.

Porm sero ellas verdadeiras? Ns cremos que no. A perfeio de
qualquer coisa  o complemento de seus fins, e estes devem ser bons,
alis no se daria aquella. D'isto resulta sempre um interesse, quer no
moral quer no physico, o que suppe uma existencia real: porm o
sentimento do bello  desinteressado e no carece de ser acompanhado do
de existencia. Os jardins de Alcinoo, a ilha de Venus, no seriam mais
bellos se os cressemos existentes fra da Odyssea e dos Lusiadas. A
imaginao  quem nos presta a ida de que resulta o juizo acrca do
bello: o bom nasce de uma ida determinada pela razo; porque, para
julgar uma coisa boa e perfeita,  preciso saber para que serve, qual
seu alvo, quaes suas relaes: um edificio irregular, mas commodo e
reparado, ser bom, porque satisfaz o seu alvo objectivo: a Venus de
Medicis chama-se bella, porque satisfaz, por uma ida da imaginao, o
jogo das nossas faculdades quando a comparamos com o ideal do bello
humano.

Dissemos que o bello moral  sempre acompanhado do bom. Concordando
nisto com as opinies actuaes dos litteratos puros, julgamos no ser
preciso prov-lo e portanto nos absteremos d'isso. O pouco que notmos
basta para se ver em que consiste a differena das duas idas no mundo
da moralidade.

Cremos ter indicado, bem que mui de leve, as difficuldades e por ventura
contradices que encerra uma poetica respeitada por tantos seculos. Mas
desde Aristoteles estava apontado, e por elle mesmo, o vicio da sua
construco. Applicando  Iliada os canones que tinha estabelecido e que
julgou ter deduzido d'ella, achou que s vezes elles falhavam, e viu-se
obrigado a dizer que as regras se podiam pr de parte quando o bello
assim o exigisse. No  d'este modo que ns concebemos a poesia. Seus
preceitos devem ser imprescriptiveis sendo deduzidos do bello e de suas
condies. De que modo o nosso criterio pde ser seguro, ter este
caracter de necessidade que a consciencia requer, sendo incertos os seus
meios? O jogo de arguies e replicas que constituem o capitulo 25 da
sua poetica seria digno de um sophista, no do maior philosopho da
antiguidade: ellas fariam luzir um estudante das nossas aulas de
rhetorica em uma sabatina; mas para o estudo da litteratura parece-nos
que de nada servem.

Tendo at aqui procurado derribar, cumpria edificar agora: mas no
escrevendo um livro, nem possuindo para isso o cabedal necessario,
apenas lanaremos os primeiros traos dos (quanto a ns) unicamente
verdadeiros fundamentos de uma poetica razoavel, para estabelecer a
theoria da unidade de um modo mais conforme a razo, e ao mesmo tempo
mais concorde com os grandes monumentos litterarios.

A poesia  a expresso sensivel do bello por meio de uma linguagem
harmoniosa.

O bello  o resultado da relao das nossas faculdades, manifestada como
jogo da sua actividade reciproca.

Esta relao consistir na comparao da ida do objecto com uma ida
geral e indeterminada: a harmonia d'ella resultante produzir o
sentimento do bello: esta harmonia ser sujectiva, residir em ns; e a
sua existencia _a priori_ necessaria e universal.

Como composta a ida do objecto leva comsigo a variedade; como geral o
outro termo da comparao  puramente subjectivo e consequentemente uno.

A condio, pois, do bello  a concordancia da variedade da ida
particular com a unidade geral: condio que  por tanto necessaria em
todos os juizos acrca do bello.

Mas existindo essa harmonia no jogo das faculdades e requerendo-se para
ella a unidade, esta ser subjectivamente absoluta, e tudo o que na ida
particular do objecto no estiver em relao com ella nunca poder ser
julgado bello.

Tanto nos basta da longa e difficil theoria do bello e sublime para o
nosso intento. Na sua applicao restringir-nos-hemos aos poemas
narrativos, porque os outros, sobretudo os dramaticos, exigiram um mais
amplo desenvolvimento que no comporta este escripto.

Dos principios que apresentmos e que em parte as antecedentes
observaes pediam, se colhe o sempre imprescriptivel canon da unidade,
porm esta collocada mui longe d'onde os antigos a collocavam.  uma
ida geral e indeterminada que a torna necessaria: a aco no  mais do
que a serie de variedades que devem, digamos assim, dar um som unisono
com a ida geral e una. Ser, pois, em nosso systema o primeiro passo a
dar no exame de qualquer poema o buscar qual foi essa ida, esse _deus
in nobis_ que constrangeu o poeta a revelar-se ao mundo em cantos
harmoniosos. Ns a buscaremos nos cinco mais celebres poemas da
Europa--_a Iliada_,--_a Eneida_--o _Orlando furioso_--os _Lusiadas_--e a
_Jerusalem libertada_. Se a theoria for verdadeira acharemos essa ida:
as partes que os constituem sero concordes com ella; alis estes poemas
cessaro para ns de ser considerados como absolutamente bellos, e
ficaremos persuadidos de que a Europa inteira se enganou tendo-os por
modelos do gosto.

Antes, porm, de tudo convem sujeit-los a um exame cujo norte seja o
que a antiga poetica exige para julgar similhantes produces. Seremos
severos neste exame, mas limitar-nos-hemos ao mais importante
principio--o da unidade de aco, a que ns temos a infelicidade de no
dar valor algum. Com este nos contentamos, que de outro modo fariamos em
vez de um artigo um volume.

Quem ser nosso guia para vr em que essa unidade consiste? Aristoteles:
ninguem o refusar. Elle  o unico escriptor original sobre taes
materias: os que vieram depois d'elle o copiaram, o commentaram e talvez
demudaram suas idas. Diz Dacier que todas as poeticas se reduzem  do
Stagyrita, e por outra parte Mr. Lemercier nos assegura ser bastante
para constituir um perfeito critico em poesia o entender bem as poeticas
de Aristoteles, Horacio, Vida e Despreaux. Reunindo, pois, as opinies
de dois to illustres litteratos parece-nos que nesse escripto do velho
grego devemos buscar a norma de nossos juizos para avaliar os poetas.

Busquemos l, com effeito, em que a unidade consiste. Ach-lo-hemos no
capitulo 8. _Sero_, diz elle, _as partes de uma aco de tal geito
ligadas entre si, que tirada ou transposta uma, fique tudo destruido ou
mudado_.

So os episodios que na epopa constituem essas partes da aco,
rigorosamente falando. Assim o julga Dacier e a Encyclopedia: assim o
cria Voltaire dizendo que os episodios similham aos membros de um corpo
robusto e bem affigurado. Um episodio, pois, que sendo omittido deixa a
aco inteira, inserido nella destruir a sua unidade. Mas ficar,
porventura, incompleta a aco da Iliada se lhe tirarmos o longo trecho
da descripo das naus gregas e o muito mais longo do funeral de
Patroclo? Cremos que no, e que portanto se, pela poetica de Aristoteles
julgarmos a Iliada, d'ella desapparecer a unidade.

Diz mais o critico grego, no comeo d'este capitulo, que a identidade do
heroe principal nunca estabelecer a unidade, quando as aces forem
multiplices. Ora, quem  que une a primeira metade da Eneida 
segunda?--Apenas o heroe. Tudo  novo depois da sua chegada  Italia.
Novas so as aventuras, novas so as personagens secundarias.  o mesmo
Virgilio quem nos indica a duplicidade da aco do seu poema. A
exposio da Eneida estava plenamente desenvolvida no fim do sexto
livro, e assim, logo no principio do setimo, elle nos avisa que vai
contar uma nova ordem de coisas[5]. Podemos, pois, affirmar affoitamente
que na Eneida da falta a unidade.

Quanto aos Lusiadas nada  preciso dizer. Salta aos olhos que a historia
dos doze de Inglaterra, o assassinio de D. Ignez, teem tanto com a aco
do descobrimento da India como com a da Odyssea.

Todos acham bellissimo o Orlando furioso, ainda ninguem o achou uno. A
distinco de poema heroico, de poema romance, de Dubois, Fontenelle, e
de Mr. Lemercier nada mais  do que a impotencia absoluta de applicar a
certas produces as regras da antiga poetica.

A Jerusalem libertada  o poema que mais parece ageitar-se aos preceitos
classicos pelo que toca  unidade. Entretanto qual  a aco do poema? A
conquista de Jerusalem: e acaso conduziria o episodio de Olindo e
Sophronia para o seu exito? Certo no. Alm d'isso, a aco da Jerusalem
conquistada  a mesma; o poeta mudou varios episodios e ella continuou a
ser a da Jerusalem libertada, apesar de Aristoteles.

Vejamos, segundo o nosso modo de julgar, se uma uma ida geral e
indeterminada pde estabelecer a unidade na serie de aces, de quadros
e de descripes que constituem estes cinco poemas.

No tempo de Homero a historia grega apresentava s um grande feito, a
conquista e ruina de Troia. Uma grande ida occupava a mente do poeta e
esta ida era a gloria da Grecia. Foi, pois,  roda d'ella que Homero
agglomerou as variedades que lhe diziam respeito. Onde existiam ellas?
Unicamente na memoria das batalhas pelejadas juncto aos muros de Troia:
mas uma parte d'essa historia era vergonhosa para os gregos. Ou
admittamos qualquer das opinies referidas por Herodoto acrca da queda
d'aquella populosa cidade, ou as narraes de Triphyodoro e do supposto
Dictys, a nodoa de fraqueza, quando no de dolo, sempre parece vir
manchar os gregos. Neste caso o poeta repelliu todo o odioso da historia
e aproveitou ou inventou o que dava um som unisono com a ida que o
dominava: assim, na Iliada tudo a ella tende; assim, o poema comea
quando a ialta de Achilles deixa fulgir o valor dos outros heroes e
acaba quando a morte de Heitor devia, bem pelo contrario da verdade
historica, fazer car Troia e dar a victoria aos gregos. Da era a mais
gloriosa da semi-barbara Grecia, foram os successos de poucos dias que
Homero escolheu para objecto de seus cantos; mas estes dias eram os mais
bellos d'aquella epocha memoranda; nelles tiveram logar os mais
brilhantes feitos de guerra to acintosa, e o poeta ainda os tornou mais
admiraveis com os traos vigorosos do seu pincel divino.

Os caracteres dos heroes da Iliada so todos agigantados e o valor
d'estes rude, como o podia conceber a mente de Homero; mas os valentes
de Troia so sempre homens, em quanto os da Grecia so muitas vezes
semi-deuses. O mesmo Heitor, que hoje (ns pelo menos) achamos a
personagem mais interessante da Iliada, e que parece vir destruir a
opinio de que a unidade exista neste poema por uma idea vaga da gloria
patria,  uma prova do principio que estabelecemos. Para julgar Homero 
preciso collocar-nos no seu tempo e no seu pas. O amor paternal e
conjugal por que Heitor nos interessa, no era para os antigos,
sobretudo nos tempos primitivos, o mesmo que para ns. A robustez de
brao e de corao era a principal virtude, e os affectos moraes estavam
apenas esboados nessas sociedades nascentes. Por isso elle devia
interessar, no despedindo-se de Andromacha, porm combatendo por uma
causa que reputava injusta, mas que se tinha tornado a da patria; no
por suas virtudes domesticas, mas pelas virtudes publicas e por seu
valor quasi egual ao de Achilles.

Foi por causa d'este que Homero desenhou to amplamente o caracter de
Heitor. Com effeito, aquelle guerreiro que viu fugir ante si Diomedes, o
vencedor de um nume[6], cai vencido e morto aos ps de Achilles. Quanto
este devia parecer grande entre um povo que olhava o valor e a fora
como o dote mais digno do homem, e qual seria a ufania e a gloria de um
pas cujos filhos assim sobrelevavam os numes.

Alguem cr dever notar o haver-nos Homero pintado Achilles arrastando o
cadaver do seu inimigo  roda dos muros de Troia. Parece-nos tambem
nascer isto de se julgar os antigos por nossas actuaes idas. Ns vemos
que para a maior parte das virtudes sociaes elles no tinham divindades
particulares; comtudo havia-as para a amizade. Certo , pois, que esta
nobre paixo tinha preo e valia entre elles. Esqueamo-nos das virtudes
que devemos unicamente ao Christianismo, constituamo-nos gregos, e
vejamos qual de ns no faria o mesmo no momento da vingana e da
colera. Smente aquelle desgraado que no possuisse um amigo.

Se assim examinarmos toda a Iliada, acharemos sempre a ida de gloria
patria servindo de n a este admiravel poema que hoje se despreza por
moda, crendo-se que nisso consiste o romantismo. J lemos numa enfiada
de versos, de que no era possivel ler vinte sem bocejar, que Homero
fazia dormir. Ao menos quem assim calca aos ps o velho trovador da
Grecia no corre o risco de lhe acontecer o caso do soldado liliputiano
que metteu a lana pelo nariz de Gulliver. Homero j no espirra. Que
pensariam taes criticos poetas se lhes dissessemos que a Odyssea, quanto
s imagens e mesmo s frmas, tem muitissimos caracteres proprios da
poesia romantica? Certamente no nos entendiam. No  em chamar ridiculo
ao que  bello, nem em destemperos que deve consistir a ingenuidade das
modernas opinies litterarias.[7] Mas passemos a Virgilio.

Foi na epocha d'este que Roma cau em terra e que Cepias se assentou
sobre a campa da patria. Todos sabem a historia dos feitos romanos e a
gloria que os cerca: mas a gloria acaba onde a escravido comea. Nesta
transio appareceu Virgilio que, talvez exemplo unico, sabia mendigar
as migalhas de um tyranno e nutrir idas generosas. As recordaes da
republica, as memorias de um povo que j no existia reclamavam as
canes do poeta. Esta ida o agitava e ella gerou a Eneida. Porm o
corteso no podia no palacio de Augusto, nos banquetes da prostituio,
ao som dos grilhes de Roma, entoar um hymno em que a lembrana da
liberdade se associaria a quasi todas as imagens, a quasi todos os
sentimentos. Por outro lado a grinalda dos louros romanos partia de uma
caverna de salteadores: nascia de um ponto negro como o em que findava.
Este podia illustr-lo Virgilio; uma messeniana[8] e um punhal bastavam;
mas elle queria gozos e repouso: Augusto ameigava-o, e o manhoso Mecenas
dava-lhe os meios de satisfazer seus vergonhosos appetites. O mal
denominado epicurismo que dominava na cidade eterna e que tanto
contribuiu para ella deixar de o ser, o fazia olhar a vida feliz como um
bem que se devia conservar mesmo  custa da moralidade. Tudo contribuiu
para envilecer Virgilio, e notemos que at no seu estylo encontramos a
prova disso. Aquelle lavrado, aquelle _molle atque fecetum_ que Horacio
achava em seus versos no sabemos o que tem de analogo s palavras
suaves e attractivas de um homem abjecto quando a dula o seu patrono.
Porque haver tantas similhanas entre as pessoas do tempo de Lus XIV
que dava penses aos poetas, e as do seculo de Augusto que lhes dava
tambem de comer? Porque sero elles nestas duas epochas modelos de
perfeio, pelo que toca ao bem obrado do estylo, sempre em proporo de
seus servios e da sua frequencia nos passos dos Reis e dos grandes da
terra?

Na impossibilidade de cantar os romanos, quando dignos d'este nome,
smente restava a Virgilio um meio de satisfazer essa ida de gloria
patria, d'esse Deus que o agitava, o collocar um monumento espantoso no
bero obscuro da sua nao: elle o fez, e a Eneida foi este monumento.
No tendo como Homero ao menos um pequeno cabedal de realidade, elle
arrancou da phantasia todo o seu edificio, edificio o mais bem acabado
que neste genero conhecemos. Porm observemos que elle desenhou os
caracteres dos seus heroes mui differentes dos da Iliada. Os d'esta so
rudes mas sublimes, os da Eneida so macios e cuidados, mas geralmente
mesquinhos. No poema grego surgem, interessam individualmente os Aiaces,
Dimedes, Ulysses, Agamemnon e tantos outros; no latino os heroes
secundarios deslizam pelo poema, como as turbas de Roma deslizavam por
uma existencia sem significao debaixo dos ps do Cesar. De todos os
troianos, acabada a leitura da Eneida, apenas nos recordamos do filho de
Anchises: Achates, Gyas, Cloantho sumiram-se como sombras. O mesmo Eneas
tem um certo ar hypocrita que desagrada aos homens singellos e o colloca
a seus olhos bem longe de Achilles. Foi a influencia do seculo quem fez
Virgilio, nesta parte to inferior a Homero: se o poeta tivesse vivido
no tempo dos velhos romanos, ns no possuiriamos hoje a mais agradavel
poro do 4.^o livro da Eneida. Dido no teria sido seduzida e
abandonada, embora isto contribua, e muito, para satisfazer a ida
principal do poeta. Uma immoralidade to vil, o ludibriar a
hospitalidade e a fraqueza s podia caber a um heroe inventado na epocha
dissoluta da queda da republica romana. Afra isto ns no podemos
deixar de admirar Eneas; e apesar da corrupo do seculo e da propria,
Virgilio soube ainda dar um illustre fundador  sua patria. De todos os
restos de Troia s d'elle precisava o poeta, assim  que s elle
resplandece no meio dos seus troianos, emquanto os guerreiros da
Hesperia, Turno, Pallante, Lauso, Camilla, teem muitas vezes uma cr
homerica. Estes eram filhos da Italia e a Italia era o solo que viu
nascer Virgilio. Quando Voltaire, acabando de ler a Eneida, achou que
Turno interessava mais que Eneas, disse que apesar da falta da unidade
de interesse no ousava reprehender Virgilio. Nem havia de qu: a
unidade de interesse tem tanta validade como a de aco. Qualquer dos
dois que interessasse principalmente, a ida geral estava preenchida.
Nos bellos dias de gloria de Roma, todos os povos do Lacio estavam
fundidos no romano e as suas recordaes nas d'este. Escondesse o filho
de Venus o covil de Romulo com o seu escudo celeste, o fim de sua
existencia estava satisfeito, e o poeta podia na serie das variedades
buscar as que bem lhe parecessem para com ellas tirar um som accorde com
a ida que o dominava. Segundo nosso modo de pensar em litteratura,
muitos defeitos que teem sido assacados  Eneida no existem nella. Em
nenhuma coisa offendeu Virgilio os principios eternos do bello, seno
quando o seculo com sua peonha pde mais do que o genio extraordinario
do poeta. Elle no teria egual se tivesse sido livre.

A ordem das idas exige que desprezemos a rias datas. Circumstancias ha,
como o leitor ver, que nos obrigam a falar dos Lusiadas em seguimento
aos dois grandes poemas da antiguidade, e a unir as reflexes acerca do
Orlando s que temos de fazer acrca da Jerusalem. Os Lusiadas so o
poema onde mais apparece a necessidade de recorrer a uma ida
independente da aco para achar a imprescriptivel unidade, e o seu
titulo nos revela logo a mente de Cames. No foi, quanto a ns, o
descobrimento da India que produziu este poema: foi sim a gloria
nacional. Esta ida bella, pura, immensa, como a alma de Cames, gerou
os Lusiadas. A unidade, que procurada de outro modo no pde
encontrar-se neste poema, se encontra logo encarando-o por esta maneira.
Era o feito mais espantoso da historia portuguesa que servia de
frontispicio  longa colleco de maravilhas que ella offerecia; foi por
alli pois que rompeu a cano nacional que entoou Cames; mas todas as
recordaes de Portugal, mesmo as suas debeis esperanas, esto
consignadas nos Lusiadas. No  um facto que elle cantou; so mil
factos, mas unidos todos por um ponto, a ida do renome portugus.
Cames lanou mo de nossos annaes, rasgou e maldisse suas paginas
negras, e arrojou o resto  eternidade. As differentes feies moraes
traadas no seu poema teem uma individualidade que no cede, em nossa
opinio,  das personagens da Iliada ou da Jerusalem, mas todas com um
ideal eminente de bello ou de sublime. Poucos sentimentos houve de que o
poeta no revestisse algum de seus compatricios, e se Mr. de
Chateaubriand accusa Tasso de ter esquecido o mais puro de todos elles,
o da maternidade, no poderia dizer o mesmo do nosso Cames, que por
este lado, despindo-nos de qualquer preveno nacional, no podemos
deixar de chamar divino. Se nisto ninguem o excede, talvez ninguem o
eguale em agglomerar num quadro selvas to densas e variadas de imagens
e sentimentos. Diz Mr. J.B. Say que a descripo da partida dos
portugueses para o descobrimento da India  mais do que a narrao de um
embarque. Ns dizemos que pouco achamos neste genero que assimilhar-lhe.

Chegando a este trecho dos Luziadas, cremos estar vendo ondear na praia
do Restello um tropel immenso de pessoas de todas as condies e edades;
cremos descobrir no gesto, nas expresses de cada uma d'ellas, a
multido de idas, de paixes que tal espectaculo devia excitar, e
quando ellas acabam de passar deante de nossos olhos, um velho l surge
e fluem da sua bocca as palavras da sabedoria. Ns o escutamos: a vida
exterior nos esquece: o ancio nos fez pensar sobre a vaidade de nossas
paixes, sobre o nada de nossas esperanas; e o poeta terminando aqui e
com arte summa um canto do poema,  que nos vem despertar da nossa
meditao, abrindo o seguinte canto com estes versos, que exigem uma
expresso vagarosa, similhante ao modo por que um homem embebido em
reflexes as deixa, e comea a volver os olhos para os objectos que o
rodeiam:

Estas _sentenas_ taes o velho honrado
_Vociferando_ estava, quando abrimos
As azas ao _sereno e sooegado_
Vento, e do porto amado nos partimos.

Tal  sempre um poeta livre, celebrando as memorias de uma nao
illustre. Tal  Cames a quem no pde envilecer nem a desventura, nem o
ar da crte de D. Joo III e de seu illudido e absoluto neto, ar ja
apestado pela escravido. Assim talvez o unico deleito dos Lusiadas seja
o seu absurdo maravilhoso, que elle deveu ao sculo, e de que mesmo
poderiamos tirar um argumento a favor da immensidade do genio de Cames,
se o espao d'este artigo j demasiado longo no-lo permittisse.

A admirao e o respeito que lhe consagramos nos fez desviar um tanto do
nosso objecto: mas seja-nos isto desculpado. S por Cames ns os
portugueses seriamos grandes. Opprobrio da Europa nos tempos modernos,
era debaixo da sua cora de louro e das de antiga gloria, que j
comeavam a desfolhar-se quando elle a cantou, que ns nos abrigavamos
para ainda entre os estranhos ousar dizer o nome de nossa patria. E esta
com que retribuiu ao poeta? Nem com um amigo. O seu Antonio era filho da
Asia. E em nossos dias levantou-se um verme da terra para insultar sua
memoria. Deshonra eterna quelle que pretendia despedaar-nos nosso
ultimo titulo de nobreza, nosso ultimo consolo no meio da infamia e das
desditas!

Ariosto e Tasso no tinham patria, porque  no t-la o nascer numa
terra de servos. D'este modo as duas idas que do unidade a seus poemas
so duas idas geraes, mas estranhas como taes  Italia,--a cavallaria e
as cruzadas. A segunda parece conter-se na primeira, mas considerada em
si  to geral e to indeterminada como ella. O que  a cavallaria?  o
espirito humano modificado de certo modo. O que so as cruzadas? A
resposta do Christianismo  terrivel pergunta que lhe fizera o islamismo
quando os sarracenos invadiram a Italia, a Hespanha e uma parte da
Frana. Qual de ns dominar a terra? Esta era a pergunta: a resposta
foi o som das armas nos plainos de Ascalon, o estrondo das portas de
Jerusalem estalando aos embates dos arietes de Godofredo. Incerta como a
pergunta do mahometismo foi a replica da cruz. Vagas como o seu
resultado, estas invases longinquas teem uma certa magnificencia moral,
digamos assim, uma certa demasia de enthusiasmo religioso, de
generosidade e de valor que esses glidos filhos do seculo XVIII, esses
compiladores e discipulos da Encyclopedia escarneceram, porque eram
incapazes de sentir profundamente o bello e sublime d'esse todo
historico das cruzadas. Foi, pois, a ida geral de Ariosto uma epocha
brilhante; a de Tasso, a lucta e victoria da cruz contra o crescente. As
variedades relativas  primeira, eram em muitissimo maior numero do que
as relativas  segunda; assim o Orlando  mais variado do que a
Jerusalem. Multiforme, como a vida de um cavalleiro, a idade mdia se
apresentou a Ariosto ora sublime, ora bella, ora ridicula nas suas
variedades immensas, e se o Orlando tem muitas vezes um caracter de
verdade objectiva, isso, em vez de servir de argumento a favor da
imitao, unicamente prova haver-se muitas vezes quasi realizado o ideal
nesses tempos hericos das naes modernas[9]. Faltam a Tasso a miudo as
cres locaes, a verdade dos costumes, porque a sua grande ida tinha um
lado extremamente moral, e nos costumes e no historico das Cruzadas
havia muita cousa em desharmonia com ella. O poeta substituiu tudo isso
por fices de cres muito mais bellas, e a Jerusalem ficou sendo um
canto admiravel elevado em honra do christianismo e do enthusiasmo dos
baixos tempos.

Tasso respeitava as regras: a Jerusalem _conquistada_ foi o fructo
d'esse respeito. Felizmente a _Libertada_ j era publica: alis o poeta
perseguido pelos preceitos e pelos pedantes teria destruido a sua obra
prima para nos deixar um poema que ninguem hoje l. Seria mais um mal
produzido pelo fanatismo litterario; e apesar de Galileo e de Dureau
Delamalle, ns folgamos que tal no acontecesse.[10]

Passmos de leve na applicao de uma parte de nossos principios aos
cinco mais celebres poemas da velha e nova Europa, porque no era
compativel com a brevidade o faz-lo de outro modo; por essa razo fomos
talvez obscuros. Ser-nos-ha porventura dado algum dia tractar d'esta
materia, fra de uma folha periodica: ento mostraremos que esta nova
theoria no  to horrivel como agora parecer a muitos; nem se nos
levar tanto a mal a nossa impiedade litteraria, quando, mais
miudamente, fizermos surgir do chos da antiga critica suas
contradices e absurdos.

Mas, pertendendo destruir o systema da eschola classica, no somos ns
romanticos? Alguem nos ter como taes: cumpre por tanto que nos
expliquemos. Na verdadeira accepo do termo elle  o nosso symbolo;
porm este symbolo nada tem em rigor com aquillo acrca de que havemos
falado. Tractmos das frmas da poesia. As modernas opinies dos
verdadeiros romanticos versam sobre a sua essencia. Verdade  que a
theoria do bello, que indicmos apenas, d a razo da maior parte
d'essas mesmas opinies, cujo exame nos absteremos de encetar. Diremos
smente que somos romanticos, querendo que os portugueses voltem a uma
litteratura sua, sem comtudo deixar de admirar os monumentos da grega e
da romana: que amem a patria mesmo em poesia: que aproveitem os nossos
tempos historicos, os quaes o Christianismo com sua doura, e com seu
enthusiasmo e o caracter generoso e valente desses homens livres do
norte, que esmagaram o vil imperio de Constantino, tornaram mais bellos
que os dos antigos: que desterrem de seus cantos esses numes dos gregos,
agradaveis para elles, mas ridiculos para ns e as mais das vezes
inharmonicos com as nossas idas moraes: que os substituam por nossa
mythologia nacional na poesia narrativa; e pela religio, pela
philosophia e pela moral na lyrica. Isto queremos ns e neste sentido
somos romanticos; porm naquelle que a esta palavra se tem dado
impropriamente, com o fito de encobrir a falta de genio e de fazer amar
a irreligio, a immoralidade e quanto ha de negro e abjecto no corao
humano, ns declaramos que o no somos, nem esperamos s-lo nunca. Nossa
theoria fra a primeira a car por terra deante da barbaria d'esta seita
miseravel que apenas entre os seus, conta um genio, e foi o que a creou:
genio sem duvida immenso e insondavel, mas similhante aos abysmos dos
mares tempestuosos que saudou em seus hymnos de desesperao: genio que
passou pela terra como um relampago infernal, e cujo fogo mirrou os
campos da poesia e os deixou aridos como o areal do deserto; genio emfim
que no tem com quem comparar-se, que nunca o ter talvez, e que seus
exaggerados admiradores apenas teem pretendido macaquear.

Falamos de Byron. Qual e, com effeito, a ida dominante nos seus poemas?
Nenhuma ou, o que  o mesmo, um scepticismo absoluto, a negao de todas
as idas positivas. Com um sorriso espantoso, elle escarneceu de tudo.
Religio, moral, affectos humanos, mesmo a liberdade e a esperana foram
seu ludibrio. A leitura dos seus poemas s produz, em geral,
descorooamento ou antes desesperao. Byron  o Mephistopheles de
Goethe lanado na vida real.--Virtude e crime, pudor e impudencia,
gloria e infamia, que montam em seus cantos sinistros? Mas o homem, ser
immortal, passageiro em um mundo transitorio, no nasceu para o
scepticismo, para um estado violento, porque elle precisa crr, quando
mais no fosse ao menos na voz esperanosa ou ameaadora da consciencia:
infeliz, pois, d'aquelle que ao acabar de ler Byron no sente no corao
um peso insupportavel: a sua alma ser to escura e to vasia como a
d'este poeta sublimemente destruidor. De sua eschola apenas restar
elle; mas como um monumento espantoso dos pricipicios do genio quando
desacompanhado da virtude. Dos seus imitadores diremos s que elles
faro com seus dramas, poemas e canes em honra dos crimes, que a
Europa, volvendo a si, amaldioe um dia esta litteratura, que hoje tanto
applaude. Nossa prophecia se verificar, se, como cremos, o genero
humano tende  perfectibilidade, e se o homem no nasceu para correr na
vida um campo de lagrymas e despenhar-se pela morte nos abysmos do nada.
No meio das revolues, na epocha em que os tyrannos, enfurecidos pela
perspectiva de uma queda eminente, se apressam a exgotar sobre os povos
os thesouros da sua barbaridade: emquanto dura o grande combate, o
combate dos seculos, os hymnos do desespero soam accordes com as dres
moraes; mas quando algum dia a Europa jazer livre e tranquilla, ninguem
olhara sem compaixao ou horror os desvarios litterarios do nosso seculo.
Muitos mesmo no os entendero.




*Origens do theatro moderno--Theatro portugus at aos fins do seculo
XVI*

PANORAMA

1837




*Origens do theatro moderno--Theatro portugus at aos fins do seculo
XVI


O pas onde primeiro appareceu a arte dramatica moderna foi a
Inglaterra, se arte dramatica podemos chamar a espectaculos tirados de
passos historicos da Biblia, sem inveno ou enredo, e s copiados
litteralmente em discursos e aces. Estas primeiras tentativas
theatraes, a que depois os franceses e italianos chamaram _mysterios_,
appareceram na Gr-Bretanha durante o seculo XI. Os monges as compunham
e representavam, e ainda no fim do seculo XVI elles pediam a Ricardo II
embargasse os comediantes de exercerem uma profisso que julgavam ser um
privilegio seu, porque ordinariamente o objecto dos dramas se tirava do
velho e novo Testamento.

Pelas muitas relaes que havia entre a Inglaterra e a Frana, parece
que os mysterios ingleses no tardaram em introduzir-se neste ultimo
pas. A _Morte de Santa Catherina_, representada na abbadia de
Dunstaple, em mil cento e tantos, foi no seculo seguinte posta de novo
em scena no mosteiro de Sancto Albano em Frana, e  talvez esta a
memoria mais antiga que temos da arte dramatica francesa. Depois esta
continuou e cresceu, chamando se s faras prophanas _jogos_ ou
_representaes_, e aos dramas sacros _mysterios_.

A Italia comeou mais tarde, com este genero de composies barbaras:
mas, tendo primeiro que nenhuma outra nao seguido o gosto da
litteratura grega e romana, brevemente o tomou tambem no theatro. Os
dramas de Mussato compostos no principio do seculo XIV, e em latim, so
_Ezzelino_ e _Achilles_, imitaes de Seneca, escriptas com um to falso
estylo como o do dramaturgo romano. Foi no XV seculo que appareceram na
Italia os primeiros dramas vulgares: Loureno de Medicis publicou a
_Representao de S. Joo e S. Paulo_, e Angelo Policiano deu pouco
depois a sua tragedia intitulada _Orpheo_.

Desde o seculo XIV appareceram dramas na Alemanha; mas estes nada mais
eram do que imitaes dos _mysterios_ franceses, e escriptos em latim
pelos monges. Em meado do seculo XV foi que verdadeiramente comeou
neste pas o theatro nacional. Hans-Folz e Rosemblut compuseram diversas
faras, que se representaram em Nuremberg e Calmar: estas faras, obra
de homens rudes, so um tecido de grossarias e indecencias apenas dignas
de se recitarem diante da plebe mais desfaada. Depois de 1500  que
appareceu _Hans-Sachs_, a quem podemos chamar o Gil Vicente da Alemanha.

Na Hespanha, ou porque os arabes o introduzissem, ou porque os
hespanhoes o inventassem, ou, emfim, porque muito cedo o imitassem dos
franceses, o drama remonta aos primeiros tempos da monarchia. S, na
verdade, do principio do seculo XIV conhecemos a scena hespanhola; mas
restam memorias d'ella muitissimo mais remotas, e pouco depois de 1200,
dizem que appareceram dramas em Valenciano. Do seculo XV ainda existem
muitas composies neste genero de litteratura.

Essas primeiras tentativas dramaticas eram forosamente um tecido sem
nexo, sem ordem, e ridiculo: os seus auctores se entregavam
desenfreadamente a todos os caprichos de uma imaginao fervente, e as
produces d'esse tempo so em geral monstruosas e absurdas. Rodrigo de
Cotta comeou a dar alguma regularidade ao drama na comedia de _Calisto
e Melibea_; mas a licena de seus quadros e expresses mancha o
merecimento d'esta pea, que depois foi algum tanto corrigida e
accrescentada por Fernando de Roxas, auctor de outra comedia--_Progne e
Philomela_. Apesar de assim emendada a obra de Cotta ainda  monstruosa.
Uma serie de enredos amorosos e de crimes se encruzam e estendem ahi
atravs de vinte e cinco actos. Entretanto a verdade dos costumes e
caracteres e a verosimilhana dos episodios lhe deram celebridade; e com
o titulo de _Celestina_ ella foi muitas vezes reimpressa, traduzida em
diversas linguas e at na latina pelo celebre Barthius. A reputao da
_Celestina_ fez nascer os imitadores; e novas composies, com o mesmo
ou differente titulo, mas que esto longe de ter o merito da original,
surgiram brevemente em Hespanha.

Por este tempo floresceram mais outros dois auctores dramaticos, o
Marquez de Villena e Joo de la Enzina, que foi o principal modelo do
nosso Gil Vicente. Os dramas do primeiro foram representados em Saragoa
na crte de D. Joo II, pelo meado do XV seculo; os do segundo o foram
tambem, na crte de Fernando e Isabel nos fins d'aquella mesma era.

Resurgiam ento as letras gregas e romanas, e a admirao do theatro
antigo despertou na Hespanha o genio da tragedia. Oliva publicou duas
composies trgicas--_Hcuba triste_ e _La venganza de Agamemnon_, as
primeiras que neste genero se escreveram na Peninsula. Restrictas e
acanhadas imitaes dos gregos, ellas se podem considerar como
traduces livres da _Hcuba_ de Euripides e da _Electra_ de Sophocles.

Em Portugal  provavel comeassem as representaes scenicas pelo mesmo
tempo em que principiaram na Hespanha; mas nenhuns vestigios restam
d'esse theatro primitivo. O que  certo  que j nos fins do seculo XIV
havia em Portugal entremezes. Garcia de Rezende na chronica de D. Joo
II, narrando as festas que se fizeram em Evora no casamento do principe
D. Affonso com a infanta D. Isabel de Castella, fala, em varios
capitulos, dos _entremezes_ e _representaoens_, que nessa occasio se
fizeram, dando a entender pelo modo porque acrca d'elles se exprime,
que eram uma coisa bem conhecida e vulgar, e no  impossivel que ainda
se nos depare algum monumento d'esse nosso primitivo theatro.

Porm, o mais antigo drama que hoje conhecemos  um de Gil Vicente,
representado em 1502 na crte de D. Manoel, e Gil Vicente , no estado
actual da nossa historia litteraria, considerado como o fundador da
scena portuguesa, pela mesma razo porque o podemos ter por inventor dos
_rimances_, ou _xcaras_, dos quaes os mais antigos que existem so os
que elle entresachou pelos seus _Autos_, e o que elle dedicou  morte de
el-rei D. Manoel.

Gil Vicente dividiu em quatro livros as suas composies dramaticas,
incluindo no primeiro todos os autos a que chamou de _devoo_, por
versarem em geral sobre objectos biblicos e religiosos; mas estas _obras
de devoo_ parecem as menos devotas de todas, se das outras
exceptuarmos a comedia de _Rubena_ que pertence ao segundo livro. Taes
_autos_ so na essencia o mesmo que os mysterios franceses, como elles
cheios de indecencias, porm ao mesmo tempo ricos de sal e chistes. O
poeta abominava cordealmente o clero, sobretudo os frades, e no
desaproveitou occasio alguma de os presentear com chascos e epigrammas.
Os autos das _barcas_, que so como continuao uns dos outros, e formam
a _trilogia_, ou drama em tres quadros, mais antiga da Europa,
constituem com _Mofina Mendes_ e _Rubena_ a flr do theatro de Gil
Vicente; porque talvez em nenhuma das scenas que os compem deixa de
patentear-se em subido gru o genio da comedia. Este poeta reunia 
qualidade de auctor a de actor; e com seus filhos representava os
proprios dramas na crte de D. Manoel e de D. Joo III. Apesar de
corteso, o poeta morreu pobre, em Evora, depois de 1550. As suas obras
se imprimiram em Lisboa em 1562, e muito mutiladas em 1586. Uma nova
edio completa se publicou ultimamente em Hamburgo em 1833.

Gil Vicente teve um filho do seu mesmo nome, que dizem desterrou para a
India, levado pelo ciume de este o exceder no genio dramatico. Ao moo
Gil Vicente se attribue a composio de um auto intitulado _D. Luiz de
los Turcos_.

Pelo meado do seculo XVI appareceram em Portugal varios poetas que mais
ou menos seguiram as pisadas do auctor de _Rubena_. Ao infante D. Luiz
se attribue o auto de _D. Duardos_, que anda impresso como de Gil
Vicente. Antonio Ribeiro Chiado, to conhecido na crte de D. Joo III e
de D. Sebastio, pelos seus gracejos e agudezas, e pela propriedade com
que remedava a voz e o gesto de todos, nos deixou dois autos asss
engraados, o da _Natural Inveno_ e o de _Gonalo Chambo_. Na
_Primeira parte dos Autos e Comedias Portuguezas_, publicada em 1587,
livro hoje bastante raro, se imprimiram sete autos de Antonio Prestes,
que revelam espirito comico no inferior porventura ao de Gil Vicente,
cuja escola Prestes seguiu, bem como Jorge Pinto, auctor de _Rodrigo_ e
_Mengo_, e Jeronymo Ribeiro Soares, auctor do _Auto do Fisico_, que vem
naquella colleco cuja segunda parte nunca se deu  estampa. O nosso
Jorge Ferreira de Vasconcellos, auctor dos dois romances da _Tavola
Redonda_, floresceu tambem por estes tempos. Tres composies suas nos
restam, _Aulegrafia_, _Euphrosina_ e _Ulyssipo_, a que elle chamou
comedias, e que, realmente, so antes dialogos do que dramas. Nellas
teve por alvo Jorge Ferreira reunir os proverbios e annexins da lingua
ou a philosophia popular do seu tempo, e por este lado so ellas, na
verdade, dignas da maior estimao; mas se as quisermos considerar como
dramas bem pequeno  o seu merito.

No reinado de D. Sebastio, o cego Balthasar Dias, poeta natural da
Madeira, publicou um grande numero de autos e outras obras, humildes
pelo estilo, mas com toques to nacionaes e to gostosos para o povo,
que ainda hoje so lidos por este com avidez. Correi as choupanas nas
aldes, as officinas e as lojas dos artifices nas cidades, e em quasi
todas achareis uma ou outra das multiplicadas edies dos _Autos de S.
Aleixo_, _de S. Catherina_ e da _Historia da Imperatriz Porcina_, tudo
obras d'aquelle poeta cego do seculo XVI.

Este era o theatro verdadeiramente nacional at o anno de 1600, em que
floresceu Simo Machado, auctor do _Cerco de Diu_ e da _Pastora Alfa_.
Muitas composies d'este genero se perderam, ou no chegaram  nossa
noticia, como os Autos de Antonio Pires Gonge, de Sebastio Pires, e de
Antnio Peres, que dizem que escrevera mais de cem dramas. O auto do
_Fidalgo de Florena_, composto por Joo de Escobar, no reinado de D.
Sebastio, teve nesse tempo grande celebridade, e se imprimiu repetidas
vezes: porm d'elle ainda no encontrmos um unico exemplar.

Emquanto assim a escola formada por Gil Vicente progredia, e, em nosso
entender, se aperfeioava, independente de estranha influencia, poetas
de grande nome trabalhavam por introduzir em nossa litteratura as frmas
do theatro grego ou romano. Francisco de S de Miranda escreveu duas
comedias intituladas _Vilhalpandos_ e _Os Estrangeiros_, as quaes se
imprimiram, depois de sua morte, em 1560 a primeira, e a segunda em
1569. Nestas procurou elle seguir as pisadas de Planto e Terencio, como
o confessa no prologo dos _Estrangeiros_, e com effeito ellas se podem
comparar com as dos dois comicos latinos. Antonio Ferreira comps quasi
pelos mesmos tempos as comedias _Bristo_ e _Cioso_ e a tragedia _D.
Ignez de Castro_, a segunda que appareceu na Europa conforme a todas as
regras classicas, sendo a primeira a _Sophonisba_ do poeta italiano
Trissino; mas a de Castro  superior; e ns a temos por um milagre
dramatico, attendendo  falta de modelos modernos e ao seculo em que foi
escripta. O illustre Cames tambem nos deixou, com o titulo de autos,
duas comedias--_Os Amphytrioens_ e _Filodemo_, das quaes a primeira 
quasi uma traduco de Plauto. Desde esta epocha o theatro portugus foi
caindo e podemos dizer que nunca mais tornou a restaurar-se.




*Novellas de cavallaria Portuguesas*

PANORAMA

1838-1840




*Novellas de Cavallaria Portuguesas*


I

Amadis de Gaula


As idas de honra, de valentia e de amor, que occupavam quasi
exclusivamente os espiritos durante a edade mdia, reproduziram-se em
todas as frmas sociaes e instituies d'aquella brilhante epocha: o
sentimento religioso traduzia-se em cruzadas ou em guerras de seitas: o
do prazer em justas, torneios e caadas, que eram imagem da guerra, ou
em seres, onde os themas inexgotaveis dos trovadores eram ou amores ou
armas: as leis apesar de terem a sua principal origem no direito
canonico e depois no romano, l abriam a lia aos combates judiciarios:
as habitaes eram castellos, e os adornos dos aposentos corpos de armas
pendurados, lanas, e razes, onde as mos das donzellas tinham lavrado a
historia de combates. Neste predominio exclusivo de certas idas, como
escaparia a litteratura de ser dominada por ellas? Assim, depois das
cantigas dos trovadores, vieram os _rimances_ mais longos, os poemos e
as novellas de cavallaria. Era esta a litteratura d'aquelles seculos,
nem outra podia ser: a imaginao dos poetas e novelleiros no
alcanaria espraiar-se alm das frmas da sociedade de ento; porque a
litteratura de todas as epochas sem exceptuar a nossa, no  mais do que
um echo harmonioso, ou um reflexo resplendente das idas capites, que
vogam em qualquer d'ellas. As aventuras, os amores, os feitos d'armas
dos heroes do Boiardo eram a imagem, vista atravs de um prisma, dos
homens do XV seculo: a ancia de liberdade descomedida, a misantropia, os
crimes, a incredulidade dos monstros de Byron so o transumpto medonho e
sublime d'este seculo de exaggeraes e de renovao social.

O prazo durante o qual os portugueses tocaram a meta do espirito
cavalleiroso, e o conservaram em toda a pureza e vigor, prolongou-se por
obra de um seculo, desde os ultimos annos do reinado d'el-rei D.
Fernando at o d'el-rei D. Affonso V. Antes d'esse tempo nossos avs
eram demasiado rudes para conceberem e reduzirem a inteira practica a
concepo immensamente bella da cavallaria; depois d'elle, eram muito
cidados para serem cavalleiros. D. Alvaro Vaz d'Almada caindo morto na
batalha de Alfarrobeira era o symbolo da cavallaria expirando nas
paginas da ordenao affonsina. Nesta compilao indigesta e
essencialmente contradictoria da legislao de tres seculos, no bastava
o ser inserido o velho regimento de guerra portugus, emendado por
jurisconsultos, para salvar da morte a cavallaria, que outras
disposies d'esse codigo indirectamente assassinavam. Nisto como em
quasi tudo o mais, das actas das crtes portuguesas anteriores a D. Joo
II e da ordenao affonsina, se pde extrahir toda a substancia
philosophica da historia dos primeiros tres seculos da monarchia.

Se o espirito puro de cavallaria dominou to largo periodo, os
_cavalleiros-modelos_ (permitta-se-nos a expresso) foram s os que se
crearam na crte de D. Joo I; e a poetica fico dos Doze de Inglaterra
pinta a epocha em que se diz succedera essa aventura. Cavalleiros
andantes portugueses houve-os nos seculos anteriores; mas a cortesia, a
louainha, e a galantaria que caracterizam a verdadeira cavallaria s as
amostra a nossa historia nos guerreiros indomaveis, que na batalha de
Aljubarrota formavam o esquadro brilhante chamado a _Ala dos
Namorados_. Eram estes guerreiros que faziam aquelles _votos denodados_,
em demanda de cuja execuo muitas vezes perdiam a vida: eram estes que,
discorrendo pelas terras estrangeiras, ahi deixavam perenne memoria de
seus esforados feitos.

Foi na luzida crte do mestre de Aviz onde achou a cavallaria de toda a
Europa o seu Homero em Vasco de Lobeira. Como antes d'aquella houve
poetas, assim antes d'este houve romancistas; como Homero eclypsou a
memoria dos cantos dos seus antecessores, assim Lobeira fez esquecer as
mal tecidas invenes dos mais antigos novelleiros, e o _Amadis de
Gaula_  a primeira e a principal novella no extensissimo catalogo dos
contos de cavallaria.

Poucas memorias nos restam acrca de Vasco de Lobeira. Sabe-se que foi
natural do Porto, e armado cavalleiro por D. Joo I antes de comear a
batalha de Aljubarrota. Viveu a maior parte da sua vida em Elvas, e
morreu em 1403.

Escripto muito antes da inveno da imprensa, o _Amadis_ correu
manuscripto at o tempo de D. Joo V; porque os nossos antepassados
nunca tiveram a curiosidade de o imprimir. Foram assim escasseando as
copias d'elle, e nos ultimos tempos se havia tornado to raro que apenas
se lhe conhecia um ou dois exemplares. O conde da Ericeira, testemunha
acima de toda a excepo, o viu, e o abbade Barbosa diz que o proprio
original estava na livraria dos duques de Aveiro. O fatal terremoto de
1755 fez desapparecer este monumento precioso da nossa litteratura, e
tudo nos incita hoje a crr que se perdeu para sempre.

Mas, se j no existe o original, existem as verses d'elle, ainda que
alteradas pelos traductores. Trasladado em hespanhol se publicou em
Sevilha em 1510. Vimos esta traduco, de que ha um exemplar na
bibliotheca publica da cidade do Porto; e bem sentimos no ter tomado
d'ella varias notas, que de grande utilidade nos foram para o que vamos
dizer. Lemos ultimamente a edio de Garciordonez de Montalvo, impressa
tambem em Sevilha, em 1526, da qual nenhum bibliographo, que ns
conheamos, faz meno. Segundo o abbade Barbosa as edies do _Amadis_,
vertido em hespanhol, se repetiram em 1539, 1576 e 1588.

Esta novella tambem appareceu em 1540, traduzida em francs e
accrescentada por Nicolau de Herberay: em 1583 a publicaram os alemes
na sua lingua; e Bernarda Tasso, pai do grande Tasso, a reduziu em
italiano quasi por esse mesmo tempo, fazendo um poema riquissimo de
versos pomposos, e... de dormideiras. Esta acceitao unanime das
diversas naes  o maior elogio que se podia fazer  obra do nosso
Lobeira.

O _Amadis_, como hoje o conhecemos, na antiga verso hespanhola, consta
de quatro livros, o ultimo dos quaes foi grandemente alterado por
Garciordonez, segundo elle mesmo diz: "Corrigi (so palavras do prologo)
estes tres livros do Amadis, que por culpa dos mus escriptores ou
compositores mui corruptos e viciados se liam, e _trasladei_ e emmendei
o livro 4.^o". Estes quatro livros, traduzidos tambem em francs, foram
continuados por diversos auctores, constando hoje a obra de vinte e
quatro.

Sendo impossivel dar uma ida do _Amadis de Gaula_, teia immensa de
aventuras, que ao modo das do Ariosto formam um labyrintho inextricavel,
buscaremos ao menos dar a conhecer o tempo e o logar da aco, e o seu
principal actor, com a brevidade a que nos constrangem os limites do
_Panorama_.

A epocha escolhida pelos romancistas de cavallarias para nella
collocarem os seus heroes fabulosos  indeterminada em todas as
novellas. A do _Amadis_, ainda que bastante incerta,  menos vaga. O
heroe viveu muito antes do celebre Arthur ou Artus, rei de Inglaterra:
mas j quando este pas e o de Frana eram christos.  o que se l no
1.^o capitulo do _Amadis_, e sendo assim este guerreiro floresceu no VI
ou VII seculo; e como a maior parte dos romances de cavallaria, que
ainda existem, versam sobre a vida dos seus imaginarios descendentes,
podemos tambem para elles estabelecer, ainda que imperfeitamente, uma
especie de chronologia.

O theatro em que se passam as aventuras de _Amadis de Gaula_,  um
theatro quasi tamanho como o mundo conhecido no tempo de D. Joo I. O
heroe e os mais cavalleiros seus contemporaneos cruzavam mares extensos,
peregrinavam centenares de leguas, com a mesma rapidez e facilidade com
que ns fazemos visitas dentro de Lisboa. Esta commodidade
aproveitaram-na todos os novelleiros que vieram depois de Lobeira; e
para as distancias que seria incrivel fazer correr em curtissimo prazo a
um cavalleiro, l estavam as magas e os encantadores, especie de espada
de Alexandre, que o escriptor sempre tinha  mo para cortar todos os
ns gordios que embaraavam as narraes.

No nos cabendo neste logar tudo o que temos de dizer acrca do
_Amadis_, o deixaremos para segundo artigo, continuando nos subsequentes
com a historia das outras novellas de cavallaria portuguesas.


II

Amaclis de Gaula

(Continuao)


Promettemos no antedecente artigo dar uma brevissima ida d'esta
primeira novella de cavallaria: cumpri-lo-hemos aqui, tocando depois um
ponto em que de proposito deixmos de falar, e vem a ser a clebre
questo acrca de saber se esta novella  obra de um auctor portugus,
hespanhol, ou francs. Todas estas tres naes a pretendem para si; e na
contenda os portugueses parece estarem peior que os seus adversarios,
visto j no existir o original. Mas, ao cabo, so elles que teem razo,
segundo nosso entender; e por isso no duvidmos de attribuir o _Amadis_
a Vasco de Lobeira.

O rei Perion reinava na Gaula (Frana): o rei Garinter na Pequena
Bretanha, hoje a provincia de Frana d'este nome. Levado pelo desejo de
conhecer Garinter intenta Perion uma longa viagem[11]; e com efteito o
encontra numa caada; do-se a conhecer um ao outro, e Perion 
conduzido  corte do seu novo amigo. Tinha este uma filha chamada
Elisena, que se namora de Perion, o qual d'ahi a pouco parte para a
Gaula, deixando-a gravida. Ella para esquivar-se  infamia entrega o
fructo dos seus amores  merc das ondas, encerrado em uma caixa. Foi
este Amadis. Encontrado por uma barca em que a Gandales, cavalleiro
escocs, este o salva e cria com seu filho Gandalim, depois escudeiro de
Amadis. Os dois moos so levados  crte de Languines, rei da Escocia.
Aqui viu a Amadis el-rei Lisuarte, que de Dinamarca vinha reinar em
Inglaterra, o qual deixou na crte de Languines a sua filha Oriana. Foi
ento que comearam os amores d'esta princeza com Amadis, que so o
principal objecto da novella. Amadis  reconhecido por seu pai Perion,
j casado com a filha de Garinter, e cresce em poder e renome. Mil
difficulclades se alevantam para elle chegar a possuir Oriana, as quaes
vence com repetidos actos de generosidade e valentia. Emfim o romance
acaba de um modo incompleto com os trabalhos que nos seus ultimos annos
cercaram a el-rei Lisuarte.

 esta, em summa, a materia que enche o volumoso romance de _Amadis_,
novella cheia de muitas paginas fastidiosas, mas tambem de muitas que
grandemente excitam a curiosidade. O estylo em que est escripto  o de
uma velha chronica do seculo XV, e notamos nelle uma grande similhana
com os escriptos do pai da nossa historia, o singelo chronista de Joo
I, Ferno Lopes, que tantas vezes se mostra mais poeta que muitos que se
arrogam este titulo.

Traado um leve esboo da novella de _Amadis de Gaula_, segue-se tractar
a questo de saber se a devemos attribuir a um escriptor portugus.

Primeiro que tudo,  de notar que a tradio constante em Portugal foi
sempre que o _Amadis_ fra composto por Lobeira. Antonio Ferreira e o
dr. Joo de Barros, que escreveram no seculo XVI, no duvidam d-lo por
certo: o conde da Ericeira numa conta dada  academia de historia, de
certa colleo de livros que andava examinando, diz que ali se achava um
manuscripto do _Amadis_, sem que sobre isso faa admirao ou reparo; o
que parece provar que naquella academia nenhuma duvida havia acrca da
existencia da novella, no original portugus. Mas no era s nossa esta
opinio: a maior parte dos escriptores hespanhoes convem em attribuir a
Lobeira o _Amadis de Gaula_.

Pretendem os franceses (no todos os que na materia teem escripto) que
esta novella fra traduzida em hespanhol do idioma picardo, e Herberay
diz a vira nesta lingua: mas isto nada prova. Quem impedia que os
franceses traduzissem o original de Lobeira? A outra objeco contra ns
 ter feito o auctor os seus heroes franceses e ingleses; mas isto
tambem nada prova: por que prova de mais. Os ingleses teriam ainda mais
razo para pedirem a gloria d'esta obra, visto que, apesar de ser
francesa a personagem principal, a maior parte dos acontecimentos
pe-nos o auctor em Inglaterra, e quasi todos os cavalleiros notaveis
so d'este pas,  excepo de Amadis e seu irmo Galaor. O certo  que
Lobeira, tendo vivido no tempo de el-rei D. Fernando I e de D. Joo I,
tinha visto as proezas que em Portugal obraram os cavalleiros ingleses,
a quem devemos os progressos que ento fizemos na arte da guerra. Devia
elle fazer portanto alta ida da cavallaria d'aquella nao. Nada havia
mais natural do que fazer da Inglaterra o theatro das faanhas dos seus
imaginarios heroes. Como, porm, o agente principal de todos os
successos devia ser o amor, naturalissimo era que o auctor buscasse um
principe estrangeiro que viesse tornar brilhante a crte inglesa, com
seus amores pela dama principal, a filha de Lisuarte, que no poderia
alis corresponder  affeio de um subdito de seu pai. Eis a razo
obvia porque Amadis  francs.

Alem d'estas observaes ha uma principal, que ainda ninguem, que ns
saibamos, se lembrou de fazer: o examinar em si a novella, para ver se
das suas proprias entranhas se podia arrancar a certeza da sua origem.
Se isto se tivesse feito, a questo estaria de ha muito decidida.

Citmos mui de proposito no primeiro artigo as palavras de Garciordonez,
que diz emendara os tres livros de _Amadis_, que andavam viciados, e
_trasladara_ o quarto. Aqui o verbo _trasladar_,  claro que no pde
significar seno traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados que a
obra no era originalmente hespanhola.

Seria francesa?--Dizemos, sem duvida alguma, que no. Perion encontrando
Garinter diz-lhe que viera de mui remotas terras para o vr. Era
possivel acaso que um escriptor francs fizesse o rei da Pequena
Bretanhi desconhecido do da Frana, e pusesse na boca d'este um to
descompassado erro geographico? Alm d'isto Perion e Lisuarte reunem
_crtes_, nos casos difficeis e circumstancias importantes: nestas
crtes apparecem, no os bares das antigas assembleas feudaes da
Inglaterra e Frana, mas os _ricos-homens_ e _homens-bons_ das crtes
portuguesas. Emfim o auctor descreve a passagem do canal de Inglaterra
como uma viagem de nove dias com vento favoravel. As frequentes relaes
de guerra e de paz entre a Gr-Bretanha e a Frana permittiam porventura
que ignorasse um escriptor francs a distancia de um a outro pas?

Ns poderiamos accrescentar muitos outros exemplos d'esta natureza; mas
cremos serem de sobejo os que apontamos, para que  nao portuguesa
seja cedida a palma de ter sado da penna de um escriptor seu a mais
antiga e mais celebre das novellas cavalheirescas.


III

Novellas do seculo XV


Quando escrevemos os dois primeiros artigos acrca das novellas de
cavallaria portuguesas,[12] era nossa inteno continuar sem demora a
publicao do breve resumo, que encetmos d'esta parte da nossa historia
litteraria, por ser aquella sobre a qual menos se tem escripto. Mas por
isso mesmo era preciso fazer maiores indagaes, que outros trabalhos
nos no permittiam. Abrimos pois, mo do intento que hoje continuamos a
pr por obra: no porque julguemos sufficiente o que temos colligido,
desde ento para c, sobre a materia; mas porque mais valem poucas
noticias que absolutamente nenhumas.

Antes que passemos adiante cumpre-nos accrescentar aqui alguma coisa
acrca do _Amadis_, de que largamente falmos nos artigos j publicados,
e vem a ser um testemunho que corta por uma vez a questo da sua
originalidade. Este testemunho  o de Gomes Eannes de Azurara,
historiador que os nossos leitores j conhecem[13], e que diz o seguinte
no capitulo 63 da chronica do conde D. Pedro de Menezes--e assy o livro
d'Amadis, como quer que smente este fosse feito a prazer de um homem,
que se chamava Vasco Lobeira em tempo d'el-rei D. Fernando, sendo
toda-las cousas do dito livro fingidas do auctor--Este logar de um
escriptor, a bem dizer coevo, deve tirar a ltima sombra de duvida sobre
a nacionalidade do celebre _Amadis de Gaula_.

Assim como a crte de D. Joo I foi a eschola dos mais famosos
cavalleiros de Portugal, assim a epocha do seu reinado se pode
considerar como a mais favoravel para as letras, que Portugal viu, at o
tempo de D. Manuel. D. Duarte, o bom e infeliz D. Duarte,
proporcionalmente o mais instruido dos nossos reis, no teve que ir
aprender, nem virtudes, nem cavallaria, nem sciencias nas crtes
estrangeiras, porque as virtudes de que foi ornado, e os vastos
conhecimentos que possuiu, adquiriu-os na de seu illustre pai. O infante
D. Pedro, principe grande entre os maiores que Portugal tem gerado, se
correu o mundo foi para encher de assombro os sabios com sua sciencia,
os valorosos com seu valor.

O infante D. Henrique ha ahi quem no o conhea? Quem no conhea o
fundador da nossa gloria maritima? Certo que no. Nome  esse que nunca
esquecer. E todavia de todos os quatro filhos de Joo I (contando o
infante D. Fernando)  elle quem occupa o logar mais baixo na escala das
virtudes, e porventura na sciencia apenas lhe caber o terceiro depois
de D. Duarte e D. Pedro.

E ainda o infante D. Fernando, esse pobre cavalleiro da cruz a quem a
nao ousou negar o resgate, preferindo alguns palmos de terra cingidos
de muralhas,  liberdade e  vida de um homem leal, que bem a servira,
antepondo uma infamia a uma perda, talvez facil de remediar; ainda,
dizemos, o bom infante sancto, o martyr resignado da patria e da f,
quo amigo e protector foi das letras e dos que as cultivavam! Ferno
Lopes e Fr. Joo Alvarez foram feitura sua; e, provavelmente, no nos
honrariamos hoje d'esses dois homens, dos quaes um deu o primeiro
impulso  nossa linguagem historica, e outro  nossa linguagem oratoria,
se a boa sombra de D. Fernando os no fizesse medrar. Leia-se o
testamento que fez quando mancebo partiu para a Africa, e ver-se-ha
quantos e quo notaveis livros possuia o infante; numa epocha em que,
no existindo a typographia, muitas vezes em pases ento semi-barbaros,
como por exemplo a Inglaterra, era necessario empenhar um castello ou um
solar inteiro para obter a copia de qualquer livro. E todavia, de todos
os quatro irmos D. Fernando  o menos conhecido na nossa historia
litteraria.

Os vestigios da litteratura portuguesa do periodo que decorre desde os
principios do reinado de D. Joo I at o de D. Affonso V so
innumeraveis; mas so apenas vestigios. Das artes ahi est a Batalha, e
ainda apesar de conegos, S.^{ta} Maria de Guimares, dizendo o que em
Portugal foi essa era de toda a casta de glorias, a que vertendo sangue,
se acolhem os coraes que por ora no renegaram do nome portugus, hoje
vilipendiado e arrastado por tabernas e monturos d'estrangeiros. Dos
monumentos, porm, da nossa velha litteratura apenas restam alguns
nomes, e alguns titulos ou fragmentos d'obras, consumidas por incuria
propria, e por terremotos e incendios, ou roubadas por castelhanos,
franceses, ingleses, e, emfim, por todos aquelles que teem querido tomar
o leve trabalho de arrebatar, ou pr em almoerla as preciosidades dos
nossos cartorios, bibliothecas e museus.

Do j citado testamento do infante D. Fernando, do de Diogo Affonso
Mangancha, do inventario de Vasco de Sousa, do catalogo da livraria
d'el-rei D. Duarte, e de muitos outros documentos publicados e ineditos,
bem como de varias passagens dos nossos chronistas, e ainda mais dos
historiadores monasticos, se v quo grande era em Portugal o tracto dos
livros, numa epocha, que por ahi se chama barbara, porque era de grandes
virtudes. E no se creia que esses livros eram s latinos: pelo
contrario, a maior parte estava escripta nas linguas vulgares de
Hespanha, principalmente na portuguesa. As obras de Cicero foram
traduzidas pelo infante D. Pedro, e por sua ordem o livro do Regimento
dos Principes. S a lista das obras d'el rei D. Duarte espanta pela
variedade de materias em que este rei philosopho empregou a sua penna
nada rude. Marco Paulo j estava traduzido no seu tempo. O livro da
crte imperial prova que naquella epocha se tractavam em vulgar as
arduas materias de theologia polemica. Levantavam-se cartas
topographicas do reino, se  que os _Cadernos das cidades e villas de
Portugal_, que existiam na livraria d'el-rei D. Duarte, no eram antes
uma especie de estatistica, o que, em nosso entender, mais admiravel
fra. Ento, Diogo Affonso Mangancha, Fr. Gil Lobo, os dominicanos Fr.
Rodrigo e Fr. Fernando d'Arrotea, e tantos outros oradores, faziam
descer do alto dos pulpitos palavras de eloquencia e de unco, que
chegavam ao fundo dos coraes, como se viu nas exequias de D. Joo I.
Estudava-se a philosophia e a historia, de que do testemunho os livros
philosophicos, e historiadores romanos e modernos da mesma livraria
d'el-rei D. Duarte. Emfim o ensino da jurisprudencia, trazido de Italia
por Joo das Regras, produziu uma multido de jurisperitos, a quem
depois Portugal deveu grande parte da legislao, excellente para
aquelle tempo, que se encontra no codigo affonsino.

Que resta de tantos homens e coisas? Esse codigo, que serviu de base aos
que o substituiram. Dos livros que ajunctou D. Duarte apenas sabemos da
existencia do intitulado _Crte Imperial_ e de um fragmento do
_Regimento de Principes_. Tudo o mais quasi com certeza se poderia
talvez dizer, que, ou o tempo o consumiu, ou jaz sepultado por
bibliothecas estrangeiras, como succede s obras do mesmo monarcha.

Na sua j citada livraria existiam quatro obras que pelos titulos se v
serem novellas de cavallaria. Eram estas o _Livro de Tristo_, _O
Merlim_, o _Livro de Galaz_, e o _Livro d'Hannibal_. O referido
catalogo, que apenas merece o nome de rol, s declara expressamente ser
em portugus o _Livro d'Hannibal_. Incrivel  quasi que o _Amadis_
ficasse sem imitadores, e poder-se-ia conjecturar que alguma das citadas
novellas fosse original portuguesa. De todas, porm, temos achado rastos
nas litteraturas estrangeiras, vindo por tanto, a serem provavelmente
todas ellas traduces do normando-saxonio (ingls), ou com mais
probabilidade da lingua d'Oil (francesa) ou da lingua d'Oc (provenal).

Para intelligencia d'esta nossa opinio poremos aqui resumidamente uma
ida geral dos romances ou novellas de cavallaria.

Os que teem escripto acrca d'esta materia, e nomeadamente Sismondi,
dividem todos os romances em trs classes ou cyclos, conhecidos pelos
nomes das primeiras personagens d'essas series de novellas, que partindo
da historia de cada um d'aquelles heroes, continuavam pela de seus
filhos e netos, alliados, ou inimigos indefinitamente. Estas tres
classes so a das novellas de Amadis, a das de Artus, ou Arthur
d'Inglaterra, e a das de Carlos-Magno. Todavia parece-nos que esta
classificao  imperteita. Dividiriamos antes essa multido de romances
em cinco cyclos ou classes: a de _Artus_, a do _Sancto-Brial_, a de
_Carlos-Magno_, a de _Amadis_, e a dos romances a que podemos chamar
greco-romanos, porque eram as vidas dos heroes antigos, que davam
materia s invenes dos novelleiros. No esconderemos que a do
_Sancto-Brial_ est to ligada  de _Artus_, que se confunde com esta;
mas logo diremos porque nos parece dever-se d'ella separar.

Os romances de _Artus_ ou da _Tavola-redonda_ so a historia fabulizada
do famoso Arthur, ultimo rei d'Inglaterra, da raa dos bretes, e que
defendeu valorosamente o seu pas da invaso dos anglo-saxonios. Esta
serie de novellas comea no romance de Bruto, composto por micer Gasse
em 1155; a ella pertence o romance de Merlin, filho de uma dama bret e
do diabo, no qual se contam as guerras de Uter e de Pandragon, o
nascimento de Artus, e a instituio da Tavola-redonda, isto , de uma
especie de doze pares ingleses, que costumavam comer como _eguaes_ em
uma _mesa redonda_ nos paos d'el-rei Artus: a historia de Tristo de
Leonis tambem pertence a este cyclo, sendo Tristo um dos cavalleiros da
Tavola-redonda; e estes dois romances cremos ns que eram os que
existiam traduzidos na livraria de D. Duarte: no mesmo cyclo entram as
novellas de Meliot de Logres, Melinus de Dinamarca, Micer Galvo,
Lancelote do Lago, Vigalois, Vigamor, e Daniel de Valdeflores, e muitas
outras que fra longo enumerar.

Os romances do Sancto-Greal, Gral, ou Graal (que os nossos escriptores
chamam erradamente Santo Brial) formam um cyclo bastante ligado com o
antecedente, mas distincto pelo pensamento que presidiu  sua inveno.
O Sancto-Greal (derivado de _Sang-ral_, ou _Sanguis-ralis_) era o vaso
ou copa em que Jesu-Christo tinha comido com os seus discipulos na noite
da ca, e em que Jos d'Arimathea tinha, segundo a tradio dos
novelleiros, recolhido o sangue derramado pelo Senhor na cruz; vinha
assim esta copa imaginaria a ser o mesmo que o Sancto-Catino que os
genovezes se gabaram de ter trazido da terra sancta. Este precioso vaso
estava guardado, segundo os romancistas, em um templo na Hespanha, num
sitio desconhecido, e s os cavalleiros escolhidos por Deus podiam
atinar com elle. Para isto era necessario que se alevantassem  maior
alteza, no s de feitos de armas, mas de virtudes moraes. V-se,
portanto, que o pensamento d'estes romances era uma allegoria religiosa,
um typo do alvo em que devia cada cavalleiro pr a mira do seu
procedimento para merecer tal nome, ou para ser _escolhido_ de Deus[14].
A este cyclo pertencem o Perceval, Lohengrin, Titurel, e uma parte dos
romances da Tavola-redonda, porque muitos dos cavalleiros de Artus
trabalhavam por conquistar o Sancto-Greal, que, segundo escrevem alguns
dos novelleiros d'esse cyclo, tinha sido levado para Inglaterra. O
primeiro e principal romance do Sancto-Greal foi escripto por Christiano
de Troyes no seculo XII, e existe manuscripto na bibliotheca real de
Paris, na sua frma original, que  em verso.

O cyclo dos romances de Carlos Magno comea com a chronica fabulosa do
arcebispo Turpin, publicada em 1566, por Echardt, mas escripta, segundo
a opinio mais seguida, no undecimo ou duodecimo seculo. Este livro
passou muito tempo por historico, e as fabulas nelle contidas foram
inseridas como authenticas nas chronicas de S. Dinis, recopiladas por
ordem do celebre abbade Sugerio, nos fins do seculo XII:[15] mas depois
das cruzadas, a obra attribuida a Turpin no serviu mais seno como de
llo de uma multido de novellas relativas aos suppostos pares de
Frana, ou paladinos de Carlos-Magno. O romance de Bertha, o de Ogeiro
de Dacia, e de Cleomadis, o de Reinaldos de Montalvo, o dos quatro
filhos d'Aymo, o de Flora e Brancaflor, o do gigante Morgante, e varios
outros, de que se aproveitaram Boiardo, Ariosto, Pulci, e os mais poetas
romancistas d'Italia pertencem a este cyclo.

O cyclo dos romances do Amadis comea por o d'aquelle nome, e
pertencem-lhe todas as emitaes que d'ellese fizeram, e das quaes, a
mais notavel  o Amadis de Grecia. Florismarte d'Hircania, Galaos,
Florestam, as Sergas de Esplandiam, o D. Duardos, os Palmeirins d'Oliva
e d'Inglaterra, e muitissimos outros entram nesta diviso.  esta
especie de novellas de cavallaria propriamente hespanhola. A maior parte
d'ellas foram compostas nos idiomas da Peninsula, e muitas nem d'aqui
saram. Desgraadamente os continuadores e emitadores de Lobeira foram,
por via de regra, faltos de talento e cheios de mu gosto. D'ahi veio a
graciosa justia que d'elles fez Cervantes por mos do cura, no seu
inimitavel D. Quixote.

A ultima classe de romances de cavallaria  aquella em que as
personagens e successos da historia antiga, conhecidos imperfeitamente,
davam largueza  imaginao dos novelleiros, que revestiam essas
personagens dos costumes, crenas e opinies da edade-mdia, e
affeioavam esses successos pelas instituies da cavallaria, enxerindo
at os heroes da Grecia e de Roma, nas familias fabulosas dos Artus e de
Amadis. Pertencem a este cyclo os romances d'Alexandre, descendente
d'el-rei Artus, o d'Eneas, o da guerra de Troia (do qual segundo parece,
tambem existia uma traduco em aragons na livraria de D. Duarte) e
outros, com os titulos dos quaes escusado  encher papel.[16] Em alguma
d'estas cinco classes entram naturalmente todas as novellas de cuja
existencia em Portugal, no principio do seculo XV, temos noticia. O
_Merlim_ e o _Livro de Tristo_ indicam pelo seu simples titulo, serem,
quando muito, verses dos dois romances do cyclo da Tavola-redonda,
conhecidos por aquelles nomes. O livro de _Galaaz_ com toda a
probalidade no era mais que a historia de _Galaad_, filho de Lancelote
do Lago, pertencente ao mesmo cyclo. E finalmente o livro d'_Hannibal_
seria uma traduco de alguns dos numerosos romances do cyclo
greco-romano.

Nem nos admiremos de que na livraria d'el-rei D. Duarte predominassem os
romances da Tavola-redonda. Todos sabem que sua mi, a rainha D.
Philippa, era inglesa, e nada mais natural do que ella e as pessoas da
sua nao, que com ella vieram a Portugal, fizessem conhecer essa classe
de novellas que, mais que nenhumas, lisongeavam o amor proprio dos
ingleses.

De outras obras se faz meno no indice d'aquella livraria, que
vehementemente suspeitamos serem novellas de cavallaria; mas no
passando esta opinio de mera suspeita, guardaremos sobre isso silencio.

Desde a epocha de D. Duarte at o principio do reinado de D. Manuel
nenhum rasto temos encontrado d'este genero de litteratura. Foi em 1496
que se publicou a _Estoria do muy nobre Vespasiano emperador de Roma_,
livro de que dmos noticia a pag. 164 do 1.^o volume d'este jornal.

Esta _Historia de Vespasiano_, que examinmos por permisso do nosso
erudito collega o sr. Vasco Pinto de Balsemo, e da qual o unico
exemplar que existe pertence  bibliotheca publica da crte, no  seno
uma novella de cavallaria, pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na
verdade, alguns factos historicos, mas os costumes, e as
particularidades da narrao no passam de meras fices. Que a obra
seja uma traduco, no nos parece duvidoso. Na subscripo d'ella se
diz que fra ordenada por Jacob e Josep abaramatia, que a todas
aquellas cousas foram presentes. Isto indica bastantemente a origem
estrangeira do livro. Se, porm, nos lembrarmos de que Jos de
Arimathea, figura nos romances do Santo-Greal, como tendo recebido o
sangue de Christo nesse celebre vaso,  naturalissimo que o novelleiro,
auctor da historia de Vespasiano, se lembrasse de lhe attribuir a
propria composio, tanto mais que era quasi como lei entre os
romancistas dar uma origem mysteriosa, ou ao menos remota, ao fructo das
suas imaginaes.

Accresce, para mais fundamentar a nossa opinio, que Mr. Fauriel
menciona uma _historia romance_ da destruio de Jerusalem por
Vespasiano, escripta em provenal, e que elle classifica como livro
connexo com o cyclo das novellas do Santo-Greal. Este romance, que,
segundo nossa lembrana, existe manuscripto na Bibliotheca Nacional de
Paris,  com toda a probabilidade, o original da novella portuguesa.

Eis o que temos podido alcanar acrca dos romances de cavallaria em
Portugal, durante o seculo XV. Outros mais habeis e mais felizes tero
chegado a maior profundidade com as suas indagaes. Trouxemos  praa,
em proveito commum, a nossa pobreza. No eramos a mais obrigados.

No artigo subsequente falaremos dos romances de cavallaria portugueses,
no seculo XVI.[17]




*Historia do Theatro Moderno Theatro Hespanhol*

PANORAMA

1839




*Historia do theatro moderno Theatro hespanhol*


I

Ha um anno a esta parte que o theatro comea a ter entre ns a
importancia que ha muito tinha entre as outras naes da Europa.
Acontecimentos, vulgarmente sabidos e que no veem ao nosso proposito,
contribuiram para que a reforma do theatro, em todas as suas partes, que
em todas d'ella carecia[18], excitasse o espirito publico: os periodicos
falam j das actuaes representaes, e julgam, bem ou mal, no s as
novas tentativas litterarias que se teem feito, mas o modo porque so
levadas  scena e executadas pelos actores: e no so, por certo, esses
artigos os que se lem com menos avidez.

No segundo numero do Panorama dmos ns uma noticia do nosso theatro,
precedida de alguns breves paragraphos acerca do theatro das outras
naes: na conjunctura actual parece-nos que no ser fra de propsito
o continuar aquelle artigo com mais alguns sobre a arte dramatica dos
demais povos, cuja litteratura tem relao com a nossa, e como do
theatro hespanhol veiu o portugus, conforme o que dissmos falando das
origens d'este, ser da origem e progresso do drama hespanhol, que
tractaremos em primeiro logar.

Em Hespanha, como nos outros pases, foi a egreja que fez nascer o
drama: todavia a primeira representao, a que estrictamente se pde
chamar theatral, e de que ha meno nos annaes de Hespanha,  a que se
fez em 1414, na festa da coroao de Fernando o bom, rei de Arago. Foi
composta pelo marquez de Vilhena, e s sabemos que era uma pea
allegorica, em que figuravam a Justia, a Paz, a Verdade, e a Clemencia,
de modo que pertencia  classe das _moralidades_, que tiveram voga por
algum tempo, na infancia da arte dramatica hespanhola, e que depois
Cervantes fez reviver. Pouco depois d'esta tentativa de Vilhena, o seu
amigo, o marquez de Santilhana, homem, como elle, de grande saber e de
idas claras, reduziu a drama, com o titulo de _Comedieta de Ponza_, os
incidentes de uma batalha naval, dada em 1435, juncto  ilha de Ponza,
entre os aragoneses e genoveses, em que estes ficaram vencedores. O
drama nunca foi representado nem impresso com as demais obras d'este
auctor, e s se sabia da sua existencia pelas cartas do marquez, at que
o sr. Martinez de-la-Rosa, o grande poeta hespanhol nosso contemporaneo,
o descobriu entre os manuscriptos da bibliotheca real de Paris. Esta
curiosa reliquia das primeiras tentativas do genio dramatico hespanhol 
notavel pela habilidade que nella apparece, no s no modo de tractar um
facto historico, mas tambem no enredo, dialogo, e versificao.

Foi pelos fins do seculo XV que em Castella se estabeleceu uma especie
de theatro. Os primeiros ensaios dramaticos nesta parte da peninsula,
f-los Joo de la Encina, mui conhecido pelas suas poesias soltas, e
cujas obras formam por si s um cancioneiro. Depois de alargar os
limites das representaes religiosas, compondo varios autos, onde no
smente se acham paraphrases da biblia, mas tambem invenes do poeta,
formou o projecto de fazer sar o drama dos objectos religiosos, para o
que comps pequenas peas pastoraes, que denominou eclogas. Estas peas,
em que elle proprio fazia os principaes papeis, se representaram
primeiramente em casa do almirante de Castella, e da duqueza do
Infantado. Como a denominao o indica, ellas de nada mais constavam do
que de um dialogo entre dois ou mais pastores. O auctor,  imitao de
Virgilio, usou a primeira vez d'esta inveno para celebrar, por via de
alluses, algum acontecimento notavel, como a concluso de pazes ou a
volta de algum principe; e depois inventou uma aco curta e simples, na
qual reduziu a drama as paixes das suas personagens. Estas pequenas
peas, cortadas por danas, e acabando com vilhancicos ou cantigas,
continham tambem alguma scena truanesca ou graciosa; de modo que nellas
entravam juntamente os elementos da tragedia, comedia e opera. Teem
estas primeiras tentativas bastante sal e agudeza, e ao mesmo tempo
naturalidade e viveza. A primeira representao d'estas comedias
pastoris fez-se em 1492, anno memoravel nos annaes de Hespanha, por ser
o da conquista de Granada e do descubrimento do Mundo Novo. Foi tambem
por este tempo que appareceu a famosa _Celestina_ de Rodrigo de Cota, de
que j falmos no primeiro artigo.

Os primeiros dramas regulares hespanhoes nasceram no principio do Seculo
XVI, e, o que  mais notavel, fra de Hespanha. Um certo Torres Naharro,
residente em Roma, comps alli varias comedias, que foram representadas
perante Leo X.[19] Nellas a inveno  feliz, os caracteres bem
traados e o dialogo vivo, e contm algumas ousadias que neste auctor
no eram de admirar, porque, apesar de ser clerigo e de viver na crte
pontificia, comps satyras contra os ecclesiasticos, taes que Luthero
no estimaria pouco ser auctor d'ellas. Naharro comps tambem uma arte
dramatica, a primeira que appareceu em castelhano: nella faz a
distinco da tragedia e da comedia, e divide esta em duas especies,
comedia de _noticia_, isto , historica, e comedia de _phantasia_, isto
, de imaginao: foi tambem elle que inventou os _introitos_ ou
prlogos e que deu aos actos a denominao de _jornadas_, seguida depois
constantemente pelos auctores hespanhoes nas divises dos seus dramas.

As peas de Naharro, apenas appareceram em Hespanha, foram, prohibidas
pela inquisio, como succedeu s pouco mais recentes de Christovam de
Castillego, secretario dos imperadores Maximiliano e Fernando.[20]
Estas, quando se imprimiram as obras de Castillejo, passados annos,
foram supprimidas e perderam-se de todo. Apresenta assim o theatro
hespanhol o phenomeno singular de ter tido duas infancias. Havendo sido
prohibidas, as primeiras tentativas de composies dramaticas regulares
no acharam imitadores, e at parece que inteiramente esqueceram, porque
no casamento de uma infanta de Castella, em 1548, foi uma pea de
Ariosto que se representou. Entretanto alguns eruditos, como Villalobos,
Oliva e outros, trabalhavam por apresentar os antigos como modelos
dramaticos, traduzindo as comedias de Plauto, Terencio e Aristophanes;
mas estas antigas composies casavam-se mal com o genio hespanhol, de
maneira que, emquanto as produces theatraes que a Hespanha possuia,
jaziam sepultadas nas livrarias dos curiosos, ou nos archivos da
inquisio, o povo se entretinha com as grosseiras caturrices dos
jograes trues. D'aqui nasceu que Schlegel, Bouterweek, Sismondi, e
quasi todos os criticos estrangeiros, ignorando at os nomes dos
primeiros escriptores dramaticos hespanhoes, no s d'elles no falam,
mas pem a origem do drama castelhano no meiado do seculo XVI.

O fundador do theatro hespanhol a que verdadeiramente se pde chamar
nacional e popular, foi Lopes de Rueda de Sevilha, que deixou o seu
officio de btefolha para se ajunctar a uma companhia de comicos
ambulantes dos quaes foi brevemente o cabea, ou, segunda a expresso
hespanhola, o _autor_. Este titulo, derivado, no do latim, _auctor_,
mas de _auto_, dava-se naquelle tempo ao que compunha e recitava peas;
e tambm lhe chamavam _maestro de hacer comedias_. Lope de Rueda tinha
ambas as castas de talento necessarias para ser um _autor_ d'aquella
pocha; ganhou por isso grande reputao, e foi unanimemente julgado
grande poeta e grande actor; e to completamente esqueceram as
tentativas dramaticas feitas antes d'elle que o tiveram em conta de
inventor da diviso em jornadas ou actos, e dos prologos chamados
introitos, e depois loas. Durante uns poucos de annos discorreu Lope de
cidade em cidade; mas por fim a sua grande reputao fez com que fosse
chamado  crte de Philipe II. Os poucos dramas, dialogos pastoris,
etc., que d'elle restam, se destinguem por certa graa e viveza
naturaes; e posto que sejam todos em prosa, elle os escrevia em verso
com a mesma facilidade.

Ha um facto curioso, que prova a indulgencia com que os ecclesiasticos
olhavam, naquelle tempo, at para os dramas profanos; facto que se l na
historia de Segovia, de Colmenares: na occasio da grande festividade da
abertura da cathedral d'aquella cidade, a companhia de Lope de Rueda
representou em um tablado, erecto no meio da egreja, depois de vesperas
solemnes, _una gostosa comedia_. O proprio Lope, morrendo em Cordova no
anno de 1567, foi alli enterrado com grande pompa, no cro da cathedral.

Por este tempo (1561) a crte hespanhola, que at ento tinha andado
vagueando pelas capites das differentes provincias, fez assento fixo em
Madrid, circumstancia que foi favoravel para a arte dramatica, porque
d'ella nasceu o haver um theatro fixo. Documentos authenticos provam que
um anno depois da morte de Lope de Rueda havia theatros em Madrid.
Existiam ento, tanto na capital como nas provincias, varias companhias
de actores, distinctas umas das outras por nomes extravagantes e
burlescos, e to numerosas, que um escriptor moderno hespanhol as
distingue em oito especies differentes.

Os progressos materiaes acompanharam d'ahi vante os litterarios e
moraes. Por 1570 estabeleceram-se os dois theatros _de la cruz e del
principe_, que ainda existem, e alguns engenhos summos comearam a
trabalhar em composies dramaticas, o que at ento se tinha deixado
aos directores das companhias ambulantes. Cervantes, tendo chegado do
seu captiveiro de Argel, foi um dos primeiros que encetaram esta
carreira; mas, apesar dos seus muitos meritos como escriptor dramatico,
era mais inclinado ao genero narrativo, o que no se compadecia, por
certo, com o estylo proprio do drama.

Emquanto o auctor de D. _Quixote_ escrevia em Madrid, Joo de la Cueva
fazia representar alguns dramas no theatro de Sevilha, reduzindo a
quatro o numero de actos ou jornadas, que at ento eram cinco ou seis.
A representao de cada noite constava da pea principal, e, alm
d'isso, de tres entremezes e um baile. Tambem Valencia, que nas artes e
boas letras era a rival de Sevilha, deu alguns passos na carreira
dramatica. Foi um poeta valenciano Christovam de Virues, que ainda
reduziu o numero de actos a que se limitaram d'ahi vante todos os
escriptores dramaticos hespanhoes. At ento o drama, segundo o
engraado conceito de Lope de Vega, tinha andado com as mos pelo cho
(a quatro ps) como uma creana, porque estava na idade infantil.

A pompa scenica do theatro hespanhol tinha j feito grandes progressos.
Rojas diz que no tempo de Lope de Rueda toda a vestiaria e mais aprestos
de qualquer companhia dramatica se podia carregar s costas de uma
aranha, mas que no tempo de Cueva e Virues as actrizes representavam os
seus papeis com vestuarios de seda e veludo, e com fios de prolas e
cadeias de ouro; que nos entremezes se cantavam tercettos e quartetos; e
que at appareciam no tablado cavallos, quando assim era necessario para
ser completa a illuso.

Digno  de notar-se que j no seculo XVI se acha em Hespanha travada a
guerra entre os escriptores dramaticos, que pugnavam pela sua liberdade,
e os criticos, que os queriam sujeitar aos preceitos d'Aristoteles. Era
assim que emquanto o _rhetorico_ Pinciano clamava que respeitassem as
tres unidades, de que nenhum caso se fazia, Joo de la Cueva tomava
despejadamente a seu cargo deffender as liberdades dramaticas no seu
_Exemplar Poetico_. Pugnava por ellas porque eram o fructo de uma serie
de seculos que tinham abolido todos os antigos costumes;--porque eram
mais favoraveis aos vos atrevidos da imaginao;--e porque, emfim, eram
o mais adaptado meio de agradar ao publico. Mas, apresentando to
judiciosa opinio, estabelecia maximas para regular as composies
dramaticas, taes que sero sempre approvadas pelo bom juizo e bom gosto,
posto que os seus compatriotas nem d'estas mesmas fizeram caso, no seu
ardor contra toda a casta de restrices litterarias.

Este desregrado fervor de imaginao era o resultado necessario das
particulares circumstancias que por muitos seculos tinham concorrido
para formar o caracter nacional em Hespanha. Os hespanhoes, diz
Schlegel, tiveram um quinho glorioso na historia da idade mdia,
quinho muito esquecido pela ingratido dos tempos modernos. Elles foram
ento como uns atalaias soltos nas fronteiras da Europa: a Peninsula era
como um arraial exposto aos incessantes commettimentos dos arabes, e
desamparado de alheio soccorro. Acostumado a combater ao mesmo tempo
pela liberdade e pela religio, o hespanhol era afferrado a esta com o
zlo fervoroso de quem a tinha comprado  custa do mais puro sangue.
Cada solemnidade do culto divino era para elle como um premio de suas
aces heroicas; cada templo um monumento das faanhas dos seus
antepassados. Em mais recentes epochas nunca importou aos hespanhoes
examinar os actos de seus superiores, mas continuaram nas guerras de
aggresso ou ambio com a mesma fidelidade e valentia que tinham
mostrado nas guerras de defenso. A fama individual, e o zlo falso da
religio os cegava acrca da justia das causas que os moviam. Empresas
sem egual, levaram-nas felizmente a cabo; e o Mundo-Novo, descuberto por
elles, foi conquistado por um punhado de valorosos aventureiros: casos
particulares de crueza e rapina mancharam o brilho do mais acabado
heroismo, mas estas corrupes no chegaram ao amago da nao. Em parte
nenhuma como em Hespanha, sobreviveu o espirito de cavallaria  sua
existencia politica por tanto tempo, por isso que ainda brilhou depois
de ter passado o predominio de Hespanha e de ter soffrido grande
diminuio a opulencia interna do pas, em virtude dos ruinosos erros de
Philippe II. Propagou-se o espirito cavalleiroso at o periodo mais
florente da sua litteratura, e nella estampou o seu cunho, de no
duvidosa maneira. A imaginao dos hespanhoes era audaz, como as suas
aces: nenhuma aventura intellectual lhe parecia perigosa. A
predileco do povo por maravilhas extravagantes j se havia mostrado
nas novellas de cavallaria. Desejavam vr tambem o maravilhoso no
theatro; e quando os seus poetas, eminentes na cultura litteraria, e na
situao da vida, lhes representavam esta na frma requerida,
introduziam nella uma especie de harmonia, e purificavam-na da sua
grossaria real, resultando do contraste entre o objecto e a sua frma
uma fascinao irresistivel. Imaginavam os espectadores que viam certo
fulgor da omnipotente grandeza da sua nao, j muito abatida, quando
toda a harmonia dos mais variados metros, toda a elegancia de agudas
alluses, todo aquelle esplendor de imagens e comparaes que s na sua
lingua se acha, se derramavam por enredos dramaticos, sempre novos, e
quasi sempre grandemente engenhosos. Buscavam-se na imaginao os mais
ricos thesouros de passados tempos para contentar o povo, como se
realmente existissem: pode-se dizer que nos dominios de tal poesia, como
nos de Carlos V, nunca se punha o sol.

Foi quando os animos mostravam similhante tendencia, que surgiu Lope de
Vega, para exercitar a sua protentosa fertilidade de inveno dramatica,
e facilidade metrica. D'este illustre dramaturgo falaremos no proximo
artigo.


II

Lope de Vega tinha o grandissimo e principal dote para primar na
carreira que seguia: era este dote o conhecer profundamente o gosto e
paixes do povo para quem escrevia: porm do que nunca elle deu mostras,
foi do mais importante e nobre merito de estimar a arte e cultiv-la com
enthusiasmo. O effeito, segundo a vulgarissima accepo d'este vocabulo,
no era s o seu principal objecto, como cumpre que seja para todo o
verdadeiro escriptor dramatico, mas unico--as miras todas p-las
unicamente em bater neste alvo--e em verdade ninguem o alcanou como
elle; deixando-nos assim o mais notavel exemplo de sacrificio de alta e
duradoura reputao a troco de inegualavel mas temporaria popularidade.
Na grande poro que nos resta das suas innumeraveis composies, o que
mais admira  a inexhaurivel inveno de incidentes, a variedade de
caracteres, o jogo das paixes, e o mimoso e subtil do dialogo; mas
todas estas brilhantes circumstancias esto como que affogadas na
espantosa exuberancia com que pullulam, em cada scena, em cada fala, e
at em cada verso.

Cumpre, porm, que digamos que nem no seu pas nem fra d'elle, teve
Lope de Vega modelo que imitasse, ou rival que excitasse a sua emulao.
A Italia no tinha ainda passado da _Mandragola_ de Machiavello; nem a
Frana sado das informes imitaes dos antigos: em Portugal s havia os
esboos dramaticos de Gil Vicente, os dramas-novellas de Jorge Ferreira,
e as imitaes classicas de S de Miranda e Ferreira; a Alemanha no
tinha sado ainda dos _mysterios_; e a Inglaterra, onde j apparecera o
divino Shakspeare, era, excepto pelo lado politico, uma terra incognita
para os escriptores hespanhoes.

Em 1621, dze annos antes da morte de Lope da Vega, sobreveiu a do
triste e devoto Philippe III, a quem succedeu um principe mancebo
inclinado aos passatempos, e mui addicto ao theatro. Philippe IV gostava
do tracto dos homens de letras, recebia-os na crte, e se divertia em
compor com elles essa especie de improvisos que ento, andavam muito em
moda na Italia: at se lhe attribuem algumas composies dramaticas que
appareceram anonymas; e tal affeio tinha aos dramas nacionaes, que no
consentiu que em Hespanha entrasse a opera italiana, que ento era muito
estimada em todas as crtes da Europa. Estas circumstancias augmentaram
nova fora ao impulso j dado por Lope de Vega, e trouxeram o mais
brilhante periodo do drama hespanhol. Durante a vida de Lope, grande
numero de escriptores seguiram as suas pisadas: taes foram os doutores
Ramon, e Mira de Mescua; os licenciados Mexia e Miguel Sanchez; o conego
Tarraga, Guillen de Castro, Aguilar, Luiz Velez de Guevara, Antonio de
Galarza, Gaspar d'Avila, Damian Salustrio del Poyo, e varios outros; mas
todos eram meros imitadores de Lope de Vega, e muito inferiores a elle;
no fim d'este dramatico reinado  que devia apparecer um rival, que lhe
disputasse a primazia.

Foi este Calderon de la Barca, que, no menos conhecedor do genio e
gosto do vulgo, do que o proprio Lope, unia a isso o amor pela sua arte,
que ao outro faltava. Como as composies d'este grande escriptor teem a
primazia entre os dramas hespanhoes verdadeiramente nacionaes; como
ellas em nada so inferiores s de Lope, em variedade, e o seu numero
mais que o das de nenhum outro, se approxima do numero das d'elle; e
como, por consequencia, nos do os mais perfeitos monumentos de cada uma
das differentes especies de produces dramaticas peculiarmente
hespanholas; no ha meio nenhum de dar uma ida clara das fmas e genio
do theatro hespanhol na epocha do seu maior esplendor, seno
caracterizando breve mas distinctamente, as varias classes das peas de
Calderon. A mais corrente classificao dos dramas profanos,  para os
mesmos hespanhoes, a de _comedias heroicas_, _comedias de capa y espada_
e _comedias de figuron_. As da primeira d'estas classes tinham o mesmo
logar na litteratura dramatica, que nas fices narrativas tiveram as
novellas de cavallaria que, expulsas da prosa pelo D. Quixote, se
acolheram ao theatro, onde por muito tempo foram bem acceitas do
publico. As da segunda classe, cujo nome vinha do vestuario que se usava
na epocha em que foram escriptas, representavam os costumes hespanhoes
d'esse mesmo tempo; mas, em consequencia do grande sabor de novella que
esses costumes ainda conservavam, tinham um aspecto, que a homens
modernos e de outras naes parece ideal. Isto (observa Schlegel) no
fra possivel, se Calderon nos introduzisse no interior da vida
domestica... Estas peas acabam, como as comedias dos antigos, por
casamentos; mas quo differente  tudo o que precede a este desfecho!...
traa, na verdade os seus principaes caracteres de ambos os sexos no
primeiro fervor da mocidade; mas o alvo a que elles miram, e diante do
qual tudo abate bandeiras, nunca em seus animos se confunde com outro
qualquer desejo. A honra, o amor e o ciume, so sempre os motivos da
pea, e o enredo nasce da impetuosa mas nobre lucta d'estas paixes...
Nos caracteres mulheris o sentimento da honra no  menos poderoso do
que nos dos homens: este sentimento rege o do amor, que tem logar a par
d'elle, porm no acima d'elle. A honra das mulheres, segundo o modo de
pensar que transluz nos dramas de Calderon, consiste em amar um homem de
reputao sem macula, e em am-lo com perfeita pureza. O amor requer ahi
inviolavel segredo, at que uma legitima unio permitia declar-lo
publicamente: este segredo o salva dos effeitos da vaidade, que poderia
misturar nelle gabos de favores concedidos, ou pretenses a elles, e lhe
d a apparencia de um voto, que, por isso que  mysterioso,  mais
pontualmente observado. No meio d'esta moralidade dramatica, so, em
verdade, admittidas manhas e dissimulaes, para fins amorosos, e a
ponto de parecer que recebe quebra a honra: mas, quando essas manhas vo
de encontro a deveres, como, por exemplo, os da amizade, o respeito mais
pundonoroso  constantemente guardado a esses deveres. O poder do ciume,
sempre vivo, e revelado s vezes de terrivel maneira; ciume no como o
dos povos do oriente, de posse, ou de gozos materiaes, mas dos
sentimentos suavissimos do corao, serve para ennobrecer o amor. A
perplexidade, que nasce d'estes differentes motivos moraes, acaba muitas
vezes em nada, e ento o desfecho  grandemente comico: s vezes, porm,
a catastrophe  trgica, e a honra se converte em uma especie de destino
avesso, para aquelle que com ella no pde cumprir sem anniquilar a
propria felicidade, ou tornar-se para sempre criminoso. Grande numero
d'estas peas no teem seno um papel burlesco, o do creado ou gracioso,
que serve principalmente para parodiar os motivos sublimes das aces de
seus amos, o que, por via de regra, faz com muita graa, servindo raras
vezes para instrumento do enredo.[21].

As comedias de _figuron_, ou de caracter, distinguem-se da classe de que
tractmos no antecedente paragrapho, em o interesse da aco no ser
dividido pelas personagens de um enredo variadissimo, mas concentrado em
um individuo, no qual  personalizado caracteristicamente algum vicio ou
absurdo.

Alguns dos dramas de Calderon, historicos ou mythologicos, no podem
estrictamente ser classificados em nenhuma das tres especies
antecedentes. Com a maior verdade aproveitou elle algumas epochas da
antiga historia hespanhola; mas parece ter tido tamanho aferro ao genio
da sua nao, que no pde produzir facilmente o caracter das outras. A
antiguidade classica era inintelligivel para elle, e por isso, o j
citado Schlegel observa que a mythologia grega se converte, nas suas
mos, em uma deleitosa novella, e a historia romana em uma hiperbole
magestosa. Outra classe de peas tem Calderon a que elle chama
_fiestas_: eram estas destinadas para serem representadas na crte em
occasies solemnes. Posto que taes peas requeressem pompa theatral,
frequentes mudanas de scenario, e at musica, todavia podemos
chamar-lhes _operas poeticas_, isto , dramas, que pelo mero esplendor
da poesia, produziam o mesmo effeito que na opera moderna produzem as
vistas, a musica e a dana. Foi nestas composies que Calderon se
entregou inteiramente aos vos da sua imaginao, podendo dizer-se que
nellas as personagens apenas pertencem a este mundo.

Mas  na classe dos _autos sacramentales_, ou dramas religiosos, que o
genio e o espirito de Calderon se desenvolveram com mais fora e
formosura. As cerimonias religiosas dos gregos tinham gerado o theatro
grego: as cerimonias do christianismo deram origem ao theatro moderno. O
principio fundamental dos espectaculos dramaticos, introduzido ou
sanccionado pelo clero, consistia em apresentar ante os olhos dos fiis,
em todas as festividades ecclesiasticas, e dias de commemorao de
certos sanctos, a representao ao vivo da passagem do Testamento Novo
ou do Catalogo dos Sanctos, que tinha connexo com essa festividade.
Estas representaes, que no resto da Europa se denominavam mysterios,
chamaram-se em Hespanha, desde o principio, _divinas comedias_ e _autos
sacramentales_. Faziam-se com grande pompa, no s nas praas e nas
procisses, mas tambem nos theatros publicos. Taes dramas, representados
em dias solemnes, debaixo da proteco das auctoridades civis e
ecclesiasticas, e em presena de todo o povo, no s davam ao auctor
mais proveito, mas tambem mr gloria. Lope de Vega escreveu alguns
centenares d'estas peas: mas Calderon tanta vantagem levou aos seus
predecessores e contemporaneos, nisto como no mais, que lhe foi
concedido um privilegio exclusivo de compor os autos que se haviam de
representar na capital, monopolio de que gozou durante trinta e sete
annos.

Temos sido talvez mais technicos e extensos do que cumpria sobre o
espirito e execuo dos dramas hespanhoes dos fins do seculo XVI e
principios do XVII, porque as regras dos rhetoricos e pedantes, regras
que se desfazem em p diante de um _porqu_,--persuadem o vulgo da
republica das letras de que qualquer drama, a no ser grego ou romano,
ou no trazendo, pelo menos, ps, casaca de seda e espadim,  moda de
Lus XIV,  forosamente barbaro, rude ou absurdo. Este pensar acanhado,
emquanto se no derrocar de todo, torna impossivel uma verdadeira
regenerao dramatica: os portugueses devem ser em litteratura uma s
nao com os hespanhoes: se quisermos ter originalidade, nacionalidade,
e o que mais , verdade, estudemos Lope, Calderon e os seus
contemporaneos; no nos envergonhemos de folhear livros por onde
constantemente estudam os mais illustres escriptores dramaticos da
Alemanha e da Inglaterra, apesar de no poderem tirar d'elles todo o
proveito, que ns por certo tiraremos. Mas voltemos ao nosso assumpto.

 digno de notar-se, que, durante o mais bello periodo do theatro
hespanhol, o conselho de Castella se atrevesse a propr como condio
para se reabrirem os theatros que tinham estado fechados por causa de
varios luctos da crte, desde 1644 at 1649, que os dramas que se
houvessem de representar se limitassem a objectos edificativos, sem
mistura das profanidades do amor; e que, por consequencia, todos
aquelles que at ento se tinham representado fossem prohibidos,
nomeadamente os de Lope de Vega, que to prejudiciaes tinham sido  s
moral. Felizmente o bom gosto do monarcha, concorde com o do publico,
fez com que fosse regeitada a proposta dos austeros conselheiros.

Durante a longa carreira de Calderon, appareceu Moreto, que dotado de
menos fora inventiva e menos fervor de imaginao, se distinguiu
principalmente por aperfeioar melhor as comedias de _figuron_ ou de
caracter. Como exemplo, taes so os seus dramas--_O lindo D. Diogo_, e
_O marquez de Cigarral_, especie de D. Quixote, endoudecido  fora de
ler e reler, sem descanso, os pergaminhos de sua casa, e os costados da
sua arvore genealogica. Por este lado, pde-se crer que Moreto foi um
dos modelos de Molire, entre cujas peas, com effeito, se encontra uma
fraca imitao do _marquez de Cigarral_. Nesta mesma epocha viveu outro
poeta dramatico, cuja fama emquanto vivo no egualou a celebridade de
que goza depois de morto e que, por um acaso extraordinario foi
desconhecido aos mais eminentes criticos, como Signorelli, Sismondi e
Schlegel: era este um frade da Trindade, chamado Fr. Gabriel Telles,
que, com o supposto nome de Tirso de Molina, ps em scena um grande
numero de dramas, que depois foram colligidos e publicados por um
sobrinho seu. Menos engenhoso do que Calderon, e menos delicado, excede,
todavia, os outros poetas do seu pas em certa agudeza maledica. Pouco
lhe importam as regras, ou a verosimilhana, com tanto que lhe venham a
pello gracejos pungentes e maliciosos, usando de uma linguagem, s vezes
licenciosa, e de pensamentos que mostram to pouco respeito s potencias
da terra como s do cu. Nada poupa, uma vez que esse objecto lhe
desagrade ou possa mover a riso. Ha s um escriptor a quem elle deva com
exaco ser comparado, e com quem, com effeito, tem muitissima
parecena:  este o moderno dramaturgo francs Beaumarchais. E assim
como este auctor foi o verdadeiro pai de Figaro, do mesmo modo (facto
certamente curioso) Fr. Gabriel foi o primeiro que ps em scena a famosa
historia de D. Joo e a Estatua (_El combidado de Piedra_)
aproveitando-se da lenda inventada, segundo dizem, pelos franciscanos de
Sevilha para explicarem o desapparecimento do verdadeiro D. Joo
Tenorio, que, conforme tambem alguns querem, fra por elles assassinado
em vingana dos muitos vexames que lhes fazia.

No proximo artigo mencionaremos mais alguns dramaturgos hespanhoes
d'esta epocha, e concluiremos a historia do theatro hespanhol com a
noticia dos escriptores mais modernos.


III

O periodo brilhante do theatro hespanhol encerra-se na primeira metade
do seculo XVII. O gosto do monarcha, da crte e da nao, tinha lanado
um grande numero de homens de letras nesta carreira, que ento era a
mais honrosa e lucrativa. Assim, alm dos eminentes escriptores
mencionados no antecedente artigo, appareceu um enxame de dramaturgos de
segunda ordem, a cuja frente devemos collocar Francisco de Rojas, que
tinha todos os dotes de Moreto, mas que o excedia nos defeitos.
Seguiam-se a este Guillen de Castro, Ruis de Alarcon, La-Hoz, Diamante,
Mendoza, Belmonte, os irmos Figueroas (que escreviam conjunctamente,
como os modernos auctores de faras francesas), Cancer, Enciso, Salazar
e Candamo, os quaes, posto que nenhum creasse uma eschola sua,
produziram ao menos importantes composies theatraes.

Os desastres que sobrevieram  monarchia hespanhola nos ultimos annos do
reinado de Filippe IV, junctos com uns poucos de luctos publicos, que
fizeram fechar por muito tempo os theatros, deram o primeiro golpe na
arte dramatica hespanhola. Em 1665 a morte d'aquelle principe, que tinha
sido o seu mais zeloso protector, foi o signal da queda rapida e inteira
do theatro. O successor de Filippe IV, o parvo Carlos II, era ainda
creana; e a rainha regente assignalou o principio da sua administrao
com um decreto, dictado, sem duvida, pelo seu director espiritual o
jesuita Nitar, e, por certo, unico nos annaes dramaticos. Ordenava a
rainha no citado decreto, que todas as representaes cessassem at seu
filho ter idade de se entreter com ellas. Posto que esta extravagante
ordem no pudesse ser executada  risca, todavia  claro quo grande
effeito devia produzir numa epocha, em que a litteratura s podia
progredir debaixo do patrocinio dos grandes, e em que o theatro, s com
a especial proteco do monarcha podia resistir aos repetidos ataques do
conselho de Castella. Para vermos o que d'aqui resultou poremos em
contraste dois factos notaveis. De um memorial, dirigido a Filippe IV em
1632, pelo actor Ortiz, se v que havia ento em Hespanha mais de
quarenta companhias de comicos, e que estas companhias davam a somma de
mil actores; e que se tinham edificado tantos theatros, que poucas
cidades ou villas notaveis havia que no tivessem o seu. No anno, porm,
de 1679, quando Carlos II casou com uma infanta de Frana, na festa do
casamento, no foi possivel reunir mais de tres companhias para virem
representar na crte.

Neste periodo de decadencia e desprezo um unico escriptor trabalhou por
amparar o vacillante theatro: Solis, o eloquente historiador da
conquista do Mexico, dedicou tambem ao theatro a sua brilhante
imaginao, polida agudeza, e vigoroso estilo. Deixou-nos varios dramas
dignos do periodo a que sobreviveu; especialmente um d'elles que
intitulou--_Amor al uso_, tem grandissimo merito.

Com Solis pde-se dizer que expirou o theatro verdadeiramente hespanhol.
A subida ao throno de Filippe V, tendo dado valia ao gosto francs, e
introduzido (ao menos na crte) os habitos e costumes da crte de Lus
XIV, fez que os hespanhoes, depois de terem sido os mestres e
precursores dramaticos dos franceses, se contentassem de se converter em
humildes imitadores e copistas d'elles.  verdade que, durante o seculo
XVII, algumas tentativas fizeram para restabelecer o drama nacional,
Zamora, Canizares, Luzan e Jovellanos; mas estas honrosas tentativas s
alcanaram transitorio applauso; e para achar uma obra original
(mencionando, todavia, os _sainetes_ de Ramon de la Cruz) cumpre chegar,
no principio do seculo actual, a Moratin, o engraado e elegante auctor
do _Caff_, do _Baro_, etc., e ao sr. Martinez de la Rosa, auctor
de--_A me no baile, e a filha em casa_.

A descripo que fizemos das varias especies de composies dramaticas
do tempo de Calderon, mostra que no antigo drama hespanhol a tragedia
classica, posto que menos que a comedia classica, podia ter amplo e
effectivo logar. Todavia, enganados, segundo parece, pela palavra
_comedia_, que na lingua hespanhola teve sempre uma significao to
geral como a palavra alem _spiel_ ou a inglesa _play_[22], muitos
criticos de nota, principalmente franceses, falaram da total falta de
tragedias no theatro hespanhol, como de um phenomeno singular e
inexplicavel. To enraizadas estavam nos animos de taes criticos as
distinces _classicas_, com que os haviam educado, que assim o
affirmavam com toda a gravidade, embora admittindo ao mesmo tempo, que
o elemento tragico predominava em grande numero das mais afamadas peas
do theatro hespanhol. Mas que  este predominio seno o unico meio de
destinguir a tragedia da comedia, unico que existe na essencia da
natureza humana e da arte dramatica? Segundo este systema mais racional
de classificao, o antigo theatro hespanhol, pela propria confisso dos
criticos de que falamos  grandemente abundante na tragedia. Noticiemos
agora brevemente as poucas amostras de obras dramaticas, que na Hespanha
appareceram mesmo com a _denominao_ de tragedias.

Boscan, que primeiro introduziu na Hespanha o estilo italiano de
versificao, dizem que traduzira uma das tragedias d'Euripedes,
traduco que se perdeu. Tambem pelos annos de 1520 Ferno Peres
d'Oliva, voltando da crte de Leo X, onde vira representar a
_Sophonisba_ de Trissino, escreveu duas imitaes do theatro grego,--a
_Vingana d'Agamemnon_, tirada da _Electra de Sophocles_, e a _Hecuba_,
imitao de Euripedes. Estas tragedias, escriptas em elegante prosa,
ficaram desconhecidas fra das universidades, e at ha razo para crer
que nem ahi foram representadas. Em 1570, Joo de Malara deu ao theatro
de Sevilha varias tragedias, de objectos biblicos, como _Absalo_,
_Saul_, etc; e em Madrid, que ento fra escolhida para capital do
reino, um frade, chamado Jeronymo Bermudez, tomando o nome supposto de
Antonio da Silva, publicou duas tragedias, que merecem fazer-se d'ellas
especial meno. So ambas fundadas na celebre historia de D. Ignez de
Castro. A primeira, intitulada _Nise Lastimosa_,  uma imitao da
Castro do nosso Antonio Ferreira: a segunda, intitulada _Nise Laureada_,
que tem por aco a vingana, que o infante D. Pedro, quando subiu ao
throno, tomou dos assassinos da sua amada, e a coroao do cadaver
d'Ignez,  mais original que a primeira, mas inferior a ella no enredo e
desenlace. Estas duas peas, dividida cada uma d'ellas em cinco actos,
entresachados de coros, so as primeiras tragedias regulares, que em
verso castelhano se escreveram. Por este mesmo tempo, em Valencia, onde
o primeiro theatro, edificado em 1526, era pertena de um hospital,
foram representados varios dramas, ainda mais notaveis, compostos por
Christovam de Virues, de quem j falmos, e por Andres Rey d'Artieda.
Virues official militar, era um dos cabeas da grande eschola que, desde
o seu principio se gloriara de menoscabar as restrices aristotelicas.
Foi a sua primeira produco _La Gran Semiramis_, aco que ao mesmo
tempo tractava, em Italia, Murio Manfredi. Todavia, Virues, em vez de
fazer a pea em cinco actos ao modo grego, dividiu-a em tres _jornadas_,
nas quaes metteu toda a vida de Semiramis, passando-se o primeiro acto
na Bactriana, o segundo em Ninive e o terceiro em Babilonia. Comps
depois, sempre com o mesmo desprezo das unidades, as tragedias da _Cruel
Cassandra_, _Atila Furioso_, _Infeliz Marcella_, etc. A que intitulou
_Elisa-Dido_, e que elle annunciou como escripta _conforme al arte
antigua_,  com effeito, a unica, em que as regras so inteiramente
respeitadas. O consocio de Virues na antiga guerra contra os preceitos
classicos, Juan de la Cueva, depois de traduzir o _Ajax_ de Sophocles,
publicou em Sevilha duas tragedias originaes; uma fundada em certa
tradio popular, e intitulada--_Los Siette Infantes de Lara_, a outra
tirada da historia romana e reunindo dois objectos tragicos, a morte de
Virginia e a de Appio Caudio, sendo La Cueva o primeiro que ps em scena
estes successos, tantas vezes aproveitados depois. Entretanto no theatro
de Madrid as tragedias de Bermudez eram substituidas pelas de Lupercio
d'Argensola, as quaes Cervantes louva mais do que ellas merecem. O
proprio auctor do D. _Quixote_ escreveu ento a sua _Numancia_, tragedia
a mais classica que, porventura, tem o theatro hespanhol, porque 
aquella em que mais transluz a simplicidade e pureza do drama grego,
posto que o espirito cavalleiroso de Cervantes apparea quasi sempre
debaixo d'essas frmas antigas.

 claro que o espirito romantico predomina sobre o classico, at nas
produces declaradamente tragicas do theatro hespanhol antigo. Todavia,
quando a subida de Filippe V ao throno submetteu o gosto nacional 
influencia do de Paris, no s os poetas tragicos franceses foram
traduzidos em lingua castelhana, mas tambem os poetas hespanhoes fizeram
varias tentativas para os imitar. No numero d'estas se devem contar a
_Virginia_ e o _Ataulfo_ de Montiano.

Subsequentemente, durante o alumiado ministerio do marquez d'Arauda,
Fernandez Moratin, Cadalso e Garcia de la Huerta renovaram essas
tentativas: o primeiro escreveu _Hormesinda_, o segundo _D. Sancho
Garcia_ e o terceiro _Rachel_, mas estas obras, posto que valiosas,
principalmente a ultima, no eram sufficientemente notaveis para haverem
de naturalizar uma casta de dramas to nova em Hespanha. No principio
d'este seculo tentou o mesmo genero, com melhor successo, D. Nicasio
Alvarez de Cienfuegos, habilmente ajudado pelo talento do celebre actor
Isidoro Mayquez, de algum modo discipulo de Talma, e no indigno de seu
mestre, posto que mais se approximasse da versatilidade maravilhosa do
actor ingls Garrick, porque no s era feliz nos papeis tragicos, mas
tambem em quaesquer outros, sem exceptuar os de truo e bobo.

Depois de Cienfuegos, que deixou um _Idomeneu_, um _Pitaco_ e uma
_Zoraida_, appareceram dois outros poetas tragicos, que cremos, vivem
ainda ambos. Um d'elles, Quintana,  auctor de uma tragedia intitulada
_Pelayo_, fundada na historia d'esse antigo campeo da causa perdida da
independencia hespanhola contra os arabes triumphantes, pea, em
verdade, nobre e pathetica, da qual os modernos hespanhoes, obrigados
como seus avoengos a repellir o dominio estranho, costumavam repetir as
passagens mais energicas, marchando para os combates. O outro, Martinez
de-la-Rosa, ha pouco primeiro ministro d'Isabel II,  auctor de uma pea
tambem patriotica, intitulada _A Viuva de Padilla_, fundada na memoravel
lucta das cidades municipaes da Hespanha contra a aggresso tyrannica de
Carlos V. Esta tragedia, a primeira de tal genero, que Martinez
de-la-Rosa comps, foi feita e representada em um theatro, construido
para isso em Cadiz, quando os franceses tinham esta cidade cercada. O
mesmo auctor comps uma _Morayma_ um pouco ao modo da _Merope_ de
Voltaire, e um Edipo, representado depois em Madrid, no qual, diz um dos
mais entendidos criticos da litteratura hespanhola (Mr. Viardot) elle
trabalhou por ser original, tractando um objecto j tractado por
Sophocles, Seneca, Corneille, Voltaire, La-Motte e Dryden.

Pelo que respeita a presente estimao theatral, que se faz dos antigos
dramaturgos hespanhoes no seu proprio pas, devemos observar que, em
quanto Lope de Vega est desterrado nas bibliothecas, e emquanto
Calderon e Moreto raras vezes sobem  scena, Tirso de Molina, de quem j
falmos, apparece mais frequentemente no theatro que outro qualquer
antigo escriptor dramatico. Fernando VII gostava muito dos _ricos_
gracejos do licencioso frade; e esta declarada predileco fazia calar o
genio vidrento e pundonoroso de certas auctoridades, cuja sanha podiam
excitar os motejos do frade contra os grandes. A comedia de Tirso,
intitulada _D. Gil el de las calzas verdes_ era a de que el-rei mais
gostava; e por isso a camara municipal de Madrid no deixava de a mandar
representar nos dias de gala.

Posto que a representao dos _Autos Sacramentales_ fosse supprimida em
1765, todavia o advento e a quaresma, e especialmente a Semana Sancta,
ainda se festejavam ha poucos annos nas igrejas com taes representaes;
levantava-se no cro uma especie de tablado, sobre o qual se
representavam os passos da paixo de Christo, e em que as numerosas
personagens que successivamente figuravam na pea, se apresentavam com
os vestuarios da idade-mdia, quaes se deviam usar na origem d'estas
representaes, como san-benitos, mascaras pretas, farricocos, cotas,
camisolas, e, numa palavra, toda a vestiaria de uma procisso de _auto
da f_.




*Crenas populares portuguesas ou Supersties populares*

PANORAMA

184O




*Crenas populares portuguesas*


I

Todas as naes tanto antigas como modernas teem sido sujeitas  doena
moral chamada credulidade. Dada a crena da existencia dos espiritos e
da sua immortalidade, os homens vendo diariameute morrer os seus
semelhantes, e sentindo em si uma consciencia que repugna a
anniquilao, perceberam facilmente que o espirito no morria: a
revelao no fez mais que confirmar um sentimento innato no homem.
Depois a saudade dos mortos que nos foram caros, e o temor que
experimentavam os criminosos de que as suas victimas ainda se pudessem
vingar d'elles alm do sepulchro: emfim amor e remorsos, ajudados da
imaginao, povoaram este mundo de phantasmas. A Grecia, sempre poetica,
formulou esta serie de factos intellectuaes em muitas expresses
materiaes: sirva de exemplo a descida d'Orpheu aos inferno em busca
d'Euridice, mytho formosissimo, com que os antigos gregos simbolizaram o
amor como capaz de unir os espiritos que passaram com os que vivem na
terra. A imaginao multiplicou e variou estas expresses de um
pensamento vago e primitivo. D'ahi vieram os lemures, as strygas, e
todas essas creaes extravagantes, que ainda no primeiro seculo
christo o severo philosopho Plinio no se atrevia inteiramente a
descrer.

Entre as naes modernas a portuguesa passa por uma das mais inclinadas
a muitas d'estas supersties.  uma das multiplicadas calumnias que
sobre nossas cabeas lanam estrangeiros: quem d'isso se quiser
desenganar leia o _Diccionario infernal_ de Colin de Plancy, e achar
que qualquer provincia da Frana, ainda das mais civilizadas, nos deita,
como se diz vulgarmente, a barra adiante em supersties populares.
Quasi o mesmo se pode dizer da nao mais allumiada da Europa--a allem.
Na Inglaterra, basta dizer que no haver ahi perro turco, ou brahmane
credulo que leve vantagem em superstio ao povo dos tres reinos unidos.
As bruxas, diabos azues, vampiros, e seiscentas outras diabruras surgem,
por assim dizer, debaixo dos ps dos ingleses, como nos pinhaes do
Alemtejo e Estremadura se erguem, debaixo dos ps dos caminhantes, as
ninhadas dos sapinhos, quando sobre o p das estradas cai em dia de
vero um aguaceiro de trovoada.

Apesar, porm, de no sermos dos povos mais abastados neste genero de
riquezas (que poeticamente o so) tem havido entre ns muitas crenas
populares dignas de se fazer meno d'ellas; por isso mesmo que as mais
antigas so geralmente desconhecidas, e as mais modernas vo diariamente
desapparecendo;--que ao menos esse bem temos tirado das nossas luctas
politicas e d'este espirito do seculo, que renegou de tudo quanto nos
transmittiu o passado;--tanto de umas como de outras colligiremos aqui
algumas especies, que se nos no enganamos, sero lidas com interesse
pelos leitores do Panorama.

Um dos mais antigos documentos que nos restam sobre as nossas
supersties populares  a celebre postura da camara de Lisboa de 1385.
Esta postura caracteriza essencialmente o espirito religioso da epocha
de D. Joo I. Nella se prohibem as supersties populares, as quaes ahi
se enumeram, como querendo a camara agradecer assim a Deus a victoria
d'Aljubarrota, que assegurou a independencia de Portugal.
Transcreveremos algumas passagens do referido estatuto, sem que tentemos
explicar muitas d'essas supersties a que se allude, porque difficil
fra apresentar mais do que conjecturas. Eis o que nos parece mais
notavel naquelle assento municipal.

Os sobreditos estabelecem e ordenam, que d'aqui em diante nesta cidade,
nem em seu termo nenhuma pessoa no use, nem obre de feitios, nem de
ligamento, nem de chamar os diabos, nem de descantaes, nem de obra de
veadeira, nem obre de carantulas, nem de geitos, nem de sonhos, nem
d'encantamentos, nem lance roda, nem lance sortes, nem obre
d'advinhamentos... nem outrosim ponha nem mea cinta, nem _escante
olhado_ em ninguem, nem lance agua por joeira...

Outrosim estabelecem que d'aqui em diante nesta cidade e em seu termo
no se cantem janeiras nem maias, nem a outro nenhum ms do anno, nem se
lance cal s portas sob titulo de janeiro, nem se furtem aguas, nem se
lancem sortes...

Porque o carpir e depenar sobre os finados  costume que descende dos
gentios, e  uma espcie de idolatria, e  contra os mandamentos de
Deus, ordenam e estabelecem os sobreditos que d'aqui em diante nesta
cidade, nenhum homem ou mulher, no se carpa, nem depene, nem brade
sobre algum finado, nem por elle, ainda que seja pae, mi, filho ou
filha, irmo ou irm, marido ou mulher, nem por outra nenhuma pena, nem
nojo, no tolhendo a qualquer que no traga seu d, e chore se
quiser...

Muitas d'estas disposies dizem respeito a crenas que j no existem,
ou so conhecidas por outras denominaes. As janeiras e maias duraram
at os nossos dias e ainda no Minho se chamam maias as flores da
giesteira amarella, com que se adornam as janellas no primeiro de maio;
alem d'isso todos os que hoje vivemos nos lembramos de ver em Lisboa os
maios pequeninos passearem as ruas cubertos de flores, bem como de ouvir
cantar as janeiras, o que ainda dura em muitas partes das nossas
provincias.

As prohibies da camara relativamente aos prantos pelos mortos, alludem
ao carpirem-se e arrepellarem-se sobre o cadaver e por elle, depois
d'enterrado, certas mulheres, que d'isso viviam chamadas carpideiras ou
pranteadeiras, e na falta d'estas os parentes mais proximos. Fr.
Francisco Brando diz que tal costume se acabou no tempo de D. Joo I;
mas engana-se manifestamente, porque nos nossos chronistas se acham
memorias de similhantes prantos em epochas mui posteriores, e l diz Gil
Vicente.

Prantos fazem em Lisboa
Dia de Sancta Luzia
Por elrei D. Manoel
Que se finou neste dia.

Entre as supersties antigas podem contar-se os reptos, requestas, ou
desafios, em que se appellava para o juizo de Deus quando um homem
accusava outro de homicidio ou traio. Este costume, geral em toda a
Europa, vogou muito em Portugal no principio da monarchia, sendo at
declarados nos foraes de algumas terras os casos em que o duello devia
servir de prova da justia ou injustia da accusao ou querella. Muito
cedo porm comearam os nossos reis a trabalhar, por meio de leis
prudentes e saudaveis, em pr termo a este costume barbaro. D. Dinis foi
o primeiro que por lei de 1318 prohibiu houvesse reptos duas leguas em
redor d'onde estivesse a crte.--Estabeleo e ponho por lei (diz elle)
que d'aqui adiante nenhum Filho d'algo no desafie, nem mande desafiar
outro, nem por si, nem por outrem, perante mim, nem nos logares onde eu
fr, nem a duas leguas aredor de mim; e aquelle que contra isto vier,
morra por isso, e a desafiao no valha--Successivas providencias se
foram dando a este respeito, de modo que na ordenao affonsina apenas
so permitidos os desafios no caso de traio contra a pessoa real, como
se pode ver no titulo 64 do Livro 1.^o d'essa ordenao.

Como, porm, os reptos no tinham logar em todos os casos, e tal era o
de car a suspeita do crime em mulheres, as quaes no podiam ir defender
s lanadas a sua innocencia, havia outros meios de recorrer ao juizo de
Deus. D'estes eram geralmente em toda a Europa, as provas da agua fria,
da agua quente, e do ferro em braza. A que se usou em Portugal foi a
ultima, a qual consistia no seguinte: o accusado que queria arriscar-se
 prova, depois de se confessar, e de jejuar rigorosamente por alguns
dias, e de receber exorcismos, benos e oraes de um sacerdote, ou se
punha a andar descalo sobre uma vara de ferro em braza, ou pegava nella
e caminhava apertando-a nas mos por certo espao. Se o _ferro caldo_
(como lhe chamavam) no produzia o seu natural effeito, o culpado era
havido por innocente; mas se lhe queimava os ps ou as mos impunham-lhe
a pena do crime de que fra accusado. J se v que era difficultosa
empresa achar innocentes por meio tal; todavia algumas tradies existem
que a serem verdadeiras, provariam que a providencia apiedando-se dos
injustamente opprimidos, suspendera algumas vezes a favor d'elles as
leis da natureza. Juncto ao sepulcro do commendador de Lea D. Garcia
Martins se conservava, segundo o testamento de Jorge Cardoso, um ferro
de arado, que, posto em braza, transportou para alli a mulher de um
ferreiro accusada de adulterio. Fr. Bernardo de Brito e Fr. Antonio
Brando citam uma doao feita ao mosteiro de Arouca, Por D. Tareja
Soares, mulher de D. Gonalo Mendes de Souza, que sendo accusada pelo
marido d'adulterio, recorreu, em sua defeza,  prova do ferro em braza,
e saindo illesa, se recolheu ao convento d'Arouca, ao qual fez uma
doao, onde se menciona este successo, que seria em verdade
extraordinario, se no fosse mais facil e razoavel crr na supposio do
documento do que na realidade do milagre.

Esta superstio da prova por fogo parece que ainda estava muito
arreigada em Portugal no fim do seculo XIV. Quando o Mestre d'Aviz matou
o conde Andeiro a rainha D. Leonor, ouvindo na sua camara o ruido que
soava, mandou saber o que era, e vieram dizer-lhe que tinham assassinado
o conde. A rainha quando isto ouviu, houve gro temor, porem disse: Oh
sancta Maria vale me mataram em elle um bom servidor!--e sem o merecer;
c (porque) o mataram, bem sei porque. Mas eu prometto a Deus que me v
de manh a S. Francisco, e que mande ahi fazer uma fogueira, e ahi farei
taes salvas, quaes nunca mulher fez por estas cousas. (Lopes chron. de
D. Joo I cap II). Santos, narrando este mesmo successo, accrescenta:
Alludiu ao antigo costume de se purificarem, tomando o ferro quente, as
mulheres accusadas, ou murmuradas d'adulterio. (Mon. Lusiti Liv. 23,
cap. 8). E com effeito no  crivel que a rainha na sua afflico
fizesse uma figura de rhetorica, dizendo que se queria sujeitar a um
costume que j no existia; muito mais que Ferno Lopes, escriptor to
vizinho d'aquelles tempos, parece reconhecer a actualidade de to
barbara usana, accrescentando que a rainha _tinha mui pouca vontade de
o fazer_.

No era este supersticioso costume, que durou por tantos seculos, apenas
uma inveno do vulgo. Nas antigas leis d'Hespanha, conhecidas pelo nome
de _Fuero juzgo_,  expressamente ordenada a prova da agua a ferver, e a
do ferro em braza, e no foral de Baea se particularizam os casos em que
taes provas tinham logar, bem como a maneira de as fazer.
Transcreve-lo-hemos aqui por ser grandemente curioso, tanto mais que em
parte diz respeito  prova do desafio.

A mulher, que sabidamente mover, sendo o movito por mau termo seja
queimada, ou salve-se por ferro quente. E se alguma disser que  prenhe
de algum homem, e elle a no crer, tome ferro quente, e queimando-se,
no seja crida; mas se escapar livre do ferro, d o filho ao pai, e
crie-o como mandam as leis.

A mulher que _ligar_ homens ou animaes, ou quaesquer outras cousas que
podem ser ligadas, queimem-na, e se negar, salve-se por ferro quente; e
se o ligador for homem seja aoutado e lanado fra da terra, e se
negar, salve-se por combate.

A mulher que der hervas peonhentas ou for feiticeira, seja queimada,
ou se salve por ferro quente.

A mulher que matar seu marido seja queimada, ou se livre por ferro
quente. Toda a mulher que taes cousas faz, deve tomar ferro; mas no por
erro da sua pessoa propria, salvo quando for approvada por m mulher, e
que teve parte com cinco homens differentes. As _terceiras_ sejam
queimadas, ou, se negarem, salvem-se por ferro quente.

O ferro que se mandar fazer por justia para esta experiencia, tenha um
palmo de comprimento, e dous dedos de largo, e tenha quatro ps (a modo
de banco) to altos, que a pessoa que houver de fazer a salva possa
metter a mo por baixo. E quando o tomarem, levem-no por distancia
d'outo ps, e tornem-no a pr em terra suavemente. Mas antes o benza o
sacerdote, e depois elle e o juiz aquentem o ferro, e em quanto o ferro
se aquentar, nenhum homem se chegue junto ao fogo, porque no acerte de
fazer alguma feitiaria; e a que houver de tomar o ferro primeiro se
confesse mui bem, e depois seja olhada, porque no traga escondido algum
feitio. Depois lave as mos diante de todos, e depois de limpas, tome
ferro, mas antes faam todos orao, pedindo a Deus que mostre a
verdade. E depois que tiver levado o ferro, o juiz lhe cubra logo a mo
com cera, e sobre ella lhe ponha a estoupa ou linho, e depois atem-lha
com um panno, e leve-a o juiz a sua casa, e passados tres dias vejam-lhe
a mo e se for queimada, queimam-na tambem a ella.

Vimos que a prova do fogo durou em Portugal, pelo menos at o fim do
seculo XIV. No sabemos ao certo a epoca da completa extinco d'este
abuso; todavia  sabido que elle estava em esquecimento no seculo
seguinte. No assim a crena em feitiarias que, como sabemos, durou at
aos nossos dias, e ainda hoje tem bastante voga entre os espiritos mais
rudes.

A primeira lei, que nos lembre fosse promulgada em Portugal contra os
feiticeiros  uma de D. Joo I, do anno de 1403, em que se diz o
seguinte: No seja nenhum to ousado, que por buscar ouro ou prata, ou
outro haver, lance varas, nem faa circo, nem veja em espelho ou em
outras partes. Esta lei foi confirmada no codigo affonsino, d'onde em
substancia passou para os que se lhe seguiram. V-se por ella que a
magia portuguesa d'esse tempo se reduzia a uma especie d'alchimia, ou
sciencia de encontrar ouro, o que, em verdade, era bem pouco se o
compararmos ao incremento prodigioso que teve a feitiaria no seculo
seguinte.

Da variedade de praticas supersticiosas que produziu este incremento,
nunca encontrmos memoria mais curiosa, que o capitulo que trata d'esta
materia no rarissimo livro das Constituies do arcebispado d'Evora,
impressas em Lisboa no anno de 1534. Eis aqui o texto da constituio
primeira do titulo 25, que se intitula--_Dos feiticeiros, benzedeiros e
agoureiros_:

Defendemos que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condio que seja,
tome de logar sagrado, ou no sagrado, pedra d'ara ou corporaes, ou
parte de cada uma d'ellas, ou qualquer outra cousa sagrada; nem invoque
diabolicos espiritos, em circulo, ou fora d'elle, ou em encruzilhada;
nem d a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa, para querer
bem ou mal a outrem, ou outrem a elle; nem lance sortes para adivinhar,
nem varas para achar haveres; nem veja em agua, ou crystal, ou em
espelho, ou em espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem em
espadua de carneiro; nem faa, para adivinhar, figuras ou imagens
algumas de metal, nem de qualquer outra cousa; nem trabalhe de adivinhar
em cabea de homem morto, ou de qualquer outra alimaria; nem traga
comsigo dente, nem barao de enforcado, nem faa com as ditas cousas, ou
cada uma d'ellas, nem com outra alguma semelhante, posto que aqui no
seja nomeada, especie alguma de feitiaria, ou para adivinhar, ou para
fazer damno ou proveito a alguma pessoa ou fazenda: nem faa cousa para
que uma pessoa queira bem ou mal a outrem, nem para ligar homem ou
mulher, etc.

Outrosim defendemos que nenhuma pessoa doente passe por silva ou
machieiro, ou por baixo de trovisco, ou por lameiro virgem; nem benzam
com espada que matou homem, ou que passasse o Douro e Minho tres vezes;
nem cortem solas em figueira baforeira; nem cortem obro em limiar da
porta; nem tenham cabeas de saudadores encastoadas em ouro, ou em
prata, ou em outras cousas; nem apregoem os demoninhados; nem levem as
imagens d'alguns sanctos cerca d'agua, fingindo que as querem lanar em
ella, e tomando fiadores, que se at certo tempo lhes no der agua, ou
outra cousa que pedem, que lanaro a dita imagem na agua, nem revolvam
penedos e os lancem na agua para haver chuva; nem lancem joeira; nem
dem a comer bollo para saberem parte de algum furto; nem tenham
mendracolas em sua casa, com teno de haverem graas, ou ganharem com
ellas; nem passem agua por cabea de co, para conseguir algum proveito;
nem digam cousa alguma do que  por vir, mostrando que lhe foi revelado
por Deus, ou algum santo, ou viso, ou em sonho, ou por qualquer outra
maneira; nem benzam com palavras ignotas e no entendidas, nem
approvadas pela egreja, ou com cutellos de tachas pretas, ou d'outra
alguma cr, nem por cintos e ourelos, ou por qualquer outro modo no
honesto; nem faam camisas fiadas e tecidas em um dia, nem as vistam,
nem usem de alguma arte de feitiaria 


II

Transcrevemos os titulos das constituies do arcebispado d'Evora acrca
de feitiarias, com preferencia a outro qualquer documento, por ser o
que mais especificadamente tracta d'esta materia; as outras
constituies diocesanas que vimos, promulgadas no seculo XVI,
limitam-se em geral a prohibir agouros e bruxedos sem os particularizar,
e sem que d'ellas se possa tirar maior luz para a historia das crenas
nacionaes. Muitas d'essas antigas compilaes ecclesiasticas so hoje
rarissimas, nomeadamente as que primeiro se imprimiram, como uma da
diocese do Porto, de que nos lembra ter visto uma copia, e que pela
linguagem e o estylo nos pareceu pertencer ainda ao seculo XV.--Nas mais
remotas achar-se-hiam, porventura, outras noticias; mas no as pudemos
alcanar. E de passagem lembraremos aqui aos amigos das velhas coisas do
velho Portugal, que no ha, porventura, mais rica mina para a historia
dos costumes de nossos avs, depois das compilaes das leis civis, que
estas leis ecclesiasticas, que am devassar o proceder das familias, o
proceder de todas as classes, de todos os individuos, no s nas suas
relaes sociaes, como, por via de regra, acontece com aquellas, mas
tambem nas relaes domesticas, nas relaes com Deus, tomando muitas
vezes para si os misteres e direitos, que em boa razo s deveriam
pertencer  consciencia de cada qual. Pelas antigas constituies dos
bispados quasi podemos seguir a existencia de nossos antepassados do
bero ao tumulo, porque a religio de um at outro cabo os acompanhava,
e ella ento era essencialmente positiva e pratica. A lei ecclesiastica
vigiava a infancia, a puberdade, a idade viril, e a velhice; e para cada
epocha da vida tinha preceitos, e para cada erro castigo. Perguntava ao
celibatario se as suas noites eram solitarias, aos esposos se o seu
leito era casto, ao sacerdote se o seu corao era puro; batia alta
noite  porta afferrolhada das casas da devassido, do jogo, da
ebriedade, e fazia tremer o devasso jogador, o ebrio; porque no era uma
lei morta, mas sim lei com a sanco de penas materiaes. Esta legislao
particular que tinha por base o Evangelho, por objecto os costumes,
devia primeiro que tudo conhecer exactamente estes, e ser definida e
precisa nas suas disposies.  assim que ella nos conservou a historia
das crenas e abuses do povo: das suas paixes, dos seus trajos, das
suas festas e jogos; e at dos seus alimentos:  assim que talvez se
possa dizer em rigorosa verdade, que s com as leis civis e
ecclesiasticas se poderia escrever a historia intima, a _historia do
viver_ das geraes que antes de ns passaram nesta terra portuguesa,
desde os primeiros seculos da monarchia. Para isto, todavia, 
necessario consultar as mais remotas com dobrada curiosidade; porque o
progresso da civilizao trouxe o habito de generalizar as idas, e este
habito influindo na legislao, tornou a sua expresso mais geral, e por
consequencia, neste sentido, muito menos histrica.[23]

Mas, voltando ao nosso assumpto, de que um pouco nos affastmos,
observaremos neste logar que a lei civil que por este mesmo tempo fra
feita (Ord. Man Liv. 5.^o Tit. 33) fazia distinco, por assim dizer, da
grande e pequena bruxaria; porque as feitiarias em que se usava
empregar pedra d'ara ou corporaes, ou quaesquer outras cousas sagradas,
era punida com pena de morte, bem como os esconjuros e invocaes de
diabos, feitos em circulo ou em encruzilhada, e o dar a beber ou a comer
cousas enfeitiadas para querer mal ou bem a alguem.

Todos os outros bruxedos, porem, que naquella ordenao se acham
especificados, e que so, pouco mais ou menos, os mesmos que enumeram as
constituies d'Evora, tinham por pena a marca de ferro nas faces, e o
degredo perpetuo para a ilha de S. Thom. As demais supersties
populares, que no pareciam depender de tracto com o demonio eram
punidas com aoutes, sendo o criminoso peo, e sendo vassalo ou
escudeiro, ou mulher de qualquer d'estes, com degredo de dous annos para
os logares d'Africa. Estas disposies passaram quasi textualmente para
o titulo 3.^o do livro 5.^o das Philippinas, conhecidas geralmente pela
denominao d'Ordenaes do Reino.

E cumpre aqui advertir que, se quando se reformou este codigo no
principio do seculo XVII se conservaram penas to severas contra
individuos que no passavam de meros charlates, que por taes meios
viviam  custa da credulidade publica, ou que se enganavam a si
proprios, imaginando terem imperio nos demonios e tracto com as
potencias invisiveis,  porque ainda ento se cria que similhantes
sonhos eram realidades. E fomos s ns acaso os que isso
acreditmos?--No. A Europa inteira estava na mesma persuao: nessa
epoca todos os governos, e legisladores, e at homens da mais alta
cathegoria litteraria admittiam a possibilidade dos maleficios, dos
sortilegios, e dos adivinhamentos. E to duradora foi essa crena, que
ainda no principio do seculo decimo-oitavo, quando appareceu a _Magica
anniquilada_ de Maffeu (livro, em nosso entender, muito aqum da sua
reputao) se levantou uma grande discusso a similhante respeito, o que
 claro signal de que para muitos homens instruidos a magia no era uma
coisa inteiramente v.

       *       *       *       *       *

Uma das coisas mais notaveis acrca da credulidade dos nossos
antepassados no seculo XVII,  um alvar datado de 15 de outubro de
1654, impresso no _Jornal de Coimbra_ e citado por J. P. Ribeiro, em que
se d licena a um soldado, que dizia ter o dom de _curar com palavras_,
para continuar a fazer uso d'esta estupenda habilidade com a obrigao
de empregar o seu prestimo em beneficio dos militares que d'elle
houvessem mister.

O progresso, porm, das sciencias foi pouco a pouco destruindo estas
abuses nos animos das pessoas sensatas, e os leiticeiros e bruxas, e
adivinhes viram-se obrigados a refugiar-se entre a plebe ignorante das
cidades, e entre a gente boa e simples dos campos.  ahi onde, ha mais
de cincoenta annos, apenas restam usanas que revelam a existencia das
chamadas artes diabolicas.

O conflicto entre o progresso intellectual e as antigas supersties
acarretou por vezes desgostos e perseguies quelles que trabalhavam em
allumiar as naes; mas tambem deu aso a acontecimentos mui graciosos,
dos quaes re'ataremos aqui um, succedido em Evora no reinado de D. Jos.

Um frade de certa ordem tinha sido nomeado mestre de philosophia
naquella cidade. Querendo dar uma vez a seus discipulos ida da
electricidade, pde obter emprestada uma machina electrica, com a qual
fez algumas experiencias diante de varios padres graves do seu convento,
que ficaram pasmados de coisa to extraordinaria, e suppuseram l
comsigo andar nisto obra de feitiaria. Esperaram, portanto, um dia em
que o mestre de philosophia sasse fra do convento, e mandando o
prelado tocar  communidade, revestido, e de cruz alada, seguido dos
demais frades, foi ao aposento, onde estava a machina para a exorcismar.
Comeados os exorcismes tanta agua benta lhe deitaram que dentro em
pouco ficou completamente estragada. Quando d'ahi a dias o professor
quis trabalhar com ella, nunca o pde alcanar; e os padres graves,
rindo uns com os outros, escarneciam do pobre philosopho, a quem, com
esconjuros, tinham inutilizado aquelle diabolico feitio.

Concluiremos este artigo dando uma noticia do que temos alcanado acerca
das feitiarias, bruxas, e lubis-homens, na opinio do vulgo, cuja
imaginao ainda d existencia a estes sonhos ridiculos conservados nas
tradies populares.

O povo faz distinco entre feiticeiras, bruxas, e lubis-homens. So as
feiticeiras e bruxas, por via de regra, mulheres velhas, pobres, feias,
immundas, e de genio melancholico, ou colerico. Estes motivos bastam
para o vulgo as aborrecer, e para justificar a seus olhos qualquer
accusao que lhes faam de feitiaria ou bruxedo. O mister das
feiticeiras  fazer maleficios a todo o genero de pessoas de qualquer
idade que sejam: estas acompanham ordinariamente o diabo em todas as
suas funces neste mundo. As bruxas teem poder limitado, estando apenas
auctorizadas para chupar de noite o sangue ou a substancia das creanas,
matando-as pouco a pouco d'inanio, ou de repente, se chupam
desarrazoadamente.

Os lubis-homens so aquelles que teem o _fado_ ou _sina_, de se despirem
de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem
cinco voltas, espoujando-se no cho em logar onde se esponjasse algum
animal, e em virtude d'isso transformarem-se na figura do animal
_pre-espoujado_. Esta pobre gente no faz mal a ninguem, e s anda
cumprindo a sua _sina_, no que teem uma cenreira mui galante, porque no
passam por caminho ou rua, onde haja luxes, seno dando grandes assopros
e assobios para que lh'as apaguem, de modo que seria a coisa mais facil
d'este mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, accendendo luzes por
todos os lados por onde elle pudesse sar do sitio em que fosse
presentido.  verdade que nenhum dos que conta similhantes historias fez
a experiencia.

A instituio de qualquer feiticeira ou bruxa  pela seguinte maneira. A
adepta  levada alta noite pelas feiticeras professas a um logar ermo,
onde o diabo apparece transformado em bode negro. Comea a ceremonia,
como  de razo, pela matricula, e a novia escreve o termo da vencia da
sua alma com o proprio sangue: ento o diabo lhe entrega um novello e um
pandeirinho que so os symbolos da nova dignidade que recebe, e pelo que
fica habil para fazer os seus maleficios, e para se transformar no que
quiser, quer sejam corpos animados, quer inanimados. Depois d'isto o
demonio _bodificado_ se assenta no seu throno cercado de candeinhas, e
por baixo d'este throno passa a novia tres vezes; acabado o que, a nova
feiticeira d um beijo na proximidade da cauda ao transformado rei do
inferno.

Feita esta ceremonia as circumstantes (que so todas as feiticeiras da
provincia, chamadas alli para assistir quelle auto) tocam os seus
pandeirinhos, e com dansas mysteriosas levam a nova socia a casa, onde
lhe mostram os respectivos novellos de fiado, que so maiores ou
menores, conforme a importancia ou estimao em que as tem o diabo.

Estes novellos diabolicos em que principalmente reside a fora e poderio
das feiticeiras so compostos de uma especie de linha fiada _pela mo do
diabo_, e cuja materia prima  o pello do bode, em que o co tinhoso
costuma transformar-se. Tambem as bruxas teem por apanagio uma maaroca
preta; mas a demonologia popular no declara de que maneira, ou de que
materia seja feita, bem como as dos lubis-homens, que tambem possuem
este adminiculo, do qual apenas sabemos uma circumstancia, que  o ser
de fio pardo.

Quando alguma d'estas importantes personagens, que tem pacto, ou fado,
est para morrer, chama a pessoa que mais estima, e a esta entrega o
fatal novello. Se lh'o no aceitam, no pode expirar, ainda que esteja
em agonias mortaes; mas apenas essa, ou alguma das circumstantes lh'o
recebe, a pobre creatura entrega logo descansadamente a sua alma a
satanaz. Parece que a posse de tal herana d um direito na secretaria
d'estado infernal, para o herdeiro ser preterido no prehenchimento do
logar que ficou vago.

Tem a feiticeira obrigao, cada vez que quer infeitiar alguem, de
invocar primeiramente o diabo, e de lhe pedir licena para exercer seu
officio, o que prova que no s na terra ha maus systemas de legislao.
A formula usada em taes casos, segundo alguns gravissimos auctores, :
_Tenato, ferrata, andato, passe por baixo_, o que se repete tres vezes.
Acode o dmo ao reclamo, e a professora de feitios pde ento ter a
certeza de tirar a sua a limpo.

Se, porm, se no tracta de um feitio de segunda ordem; mas sim d'algum
que deva produzir a morte do individuo enfeitiado,  preciso mais
trabalho, e pelas leis infernaes no  licito a qualquer feiticeira
tomar sobre si s tamanha responsabilidade, d'onde se pde concluir qual
seja a prudencia, gravidade e consciencia do diabo, que por certo no 
to feio como o pintam. Quando, pois, alguma d'estas boas creaturas quer
dar cabo de qualquer individuo, toca o seu pandeirinho e chama duas suas
companheiras para d'ellas se ajudar naquella boa obra. Ento as taes
fazem uma figura da pessoa condemnada a morrer, e compostos certos
unguentos liquidos vo com elles unctando aquelle vulto, e  proporo
que o trabalho se vai adiantando, vai o enfeitiado adoecendo, at que
chega s ultimas. Neste ponto a feiticeira mais velha tira o seu
novello, pe-se a dob-lo, e quando o doente deve morrer uma das outras
corta o fio com uma tesoura, e no mesmo instante expira o enfeitiado.
Depois invocam todas tres o demonio, que vem, e solda de novo o fio que
ficou cortado.

Limitamo-nos neste artigo a tractar com mais alguma individuao a mais
notavel das supersties populares, o imaginario pacto com o demonio.
Deixamos para outra occasio o falar de muitas outras crenas e costumes
que poderiamos ajunctar a estes incompletos apontamentos, e ento
daremos especial noticia das _mulheres de virtude_, especie de
contraveneno com que o povo de algum modo quis destruir os terrores que
lhe causava o poderio das feiticeiras que elle proprio creara.




*A Casa de Gonsalo*

COMEDIA EM CINCO ACTOS

PARECER

Memorias do Conservatorio

1840




*A Casa de Gonsalo*

COMEDIA EM CINCO ACTOS

PARECER


A commisso encarregada de dar o seu parecer sobre a comedia
intitulada--_A Casa de Gonsalo_--que concorreu aos premios destinados
para os dramas originaes portugueses, que mais se avantajarem entre os
outros no concurso aberto por este Conservatorio para o corrente anno de
1840, vem apresentar a sua opinio a este Jury, desempenhando assim o
encargo que lhe coube em sorte.

A comedia sobre que versa este parecer  precedida por um prologo, ou,
como seu auctor lhe chama, por um endereo aos censores.

A Commisso hesitou se devia ou no fazer algumas observaes sobre a
materia nelle contida: grave e importante  esta; ridicula e talvez
chula a frma porque o auctor a tractou; mas a Commisso intendeu por
fim que tocando-se nesse prologo a grande questo das condies da arte,
que hoje agita o mundo litterario, era da sua obrigao, entrar no exame
das idas contidas nelle. Pospondo, por tanto, os gracejos do auctor, e
considerando somente as suas opinies e proposies, at porque elle
parece apresent-las, como norma por onde os censores houvessem de
guiar-se, antes de julgar o drama dir algumas palavras sobre o
mencionado prologo.

Comea o auctor esse prologo pela sua biographia litteraria referindo
como tem composto um bom numero de _comedias comicas_, e outras
lamentosas ou patheticas, de que, segundo elle diz, so muito
apaixonados os alemes. Deixando de parte as noticias
biographico-litterarias, importantissimas para uma nova edio da
Bibliotheca Lusitana, ou do Diccionario dos homens illustres, mas que no
caso presente nada montam para o Conservatorio, a Commisso apenas se
faz cargo das duas circumstancias que deixa apontadas: a 1.^a de ter o
auctor composto comedias lamentosas, ou como, com Voltaire, elle lhes
chama, _larmoyantes_: 2.^a a de affirmar que d'este genero so muito
apaixonados os alemes. Admira com effeito, que o auctor to afferrado
aos sos principios dos antigos, to desprezador dos desvarios modernos,
gastasse o seu tempo com um genero dramatico bastardo, em que os antigos
nem sonharam, porque s conheceram a tragedia e a comedia, vendo-se
daqui que houve uma epoca em que o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_
sacrificou ao Moloch revolucionario: no admira menos, que um escriptor
to versado em materias litterarias ignore que o drama lamentoso nasceu
em Frana, e que a Alemanha s conta um auctor notavel neste
genero--Kotzebue--que no teve successores, e que hoje est quasi
completamente esquecido naquelle pas, onde exclusivamente apparecem
poucas comedias, bastantes tragedias, e infindos dramas da eschola
moderna que est bem longe de ser a de Diderot, ou dos dramaturgos
chores, lamentosos ou patheticos.

Continua o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ dizendo que sabe que a
sua comedia no hade agradar porque tem aquelle mau gsto de composio
que recommenda Aristoteles e Horacio que eram uns ranosos e d'esse
rano  Menandro, Aristophanos e Terencio etc.; fala nos freios da arte
da eschola classica, unidade de aco, consistencia de caracteres;
paixes e affectos naturaes, verdade de costumes, (!) estabilidade de
logar, unidade de tempo; fala no Sales que tinha a habilidade de fazer
velhos os rapazes que iam ouvir-lhe as lices de poetica e rhetorica
(!); diz que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne, e que os
modernos destruiram a unidade d'aco, de caracter, de tempo, e de
logar. Do que tudo conclue o auctor que a sua comedia no hade agradar,
e que por isso a apresentou sem a mandar copiar.

Se a letra em que a comedia est escripta, e a historia litteraria do
illustre auctor inserida neste prologo, no revelassem, aquella a mo
trmula de um velho, esta uma larga vida cheia de recordaes do
sapientissimo Sales, que, bem differente das magas das novellas de
cavallaria, as quaes transformavam as rugas de velhice em vio de
mocidade, convertia a mocidade em velhice: se a Commisso, digo, no
inferisse de tudo isso que este prologo encerrava um pensamento de
Sanso, classico, o qual vendo morta a sua nao quer morrer tambem
levando comsigo os philisteus da nova arte, e se este pensamento no
fosse generoso, ella se teria abstido de fazer observaes algumas
acrca das idas do auctor, que em um homem moo e que no tivesse essas
razes d'amor s coisas com que se creou, seriam apenas dignas de
compaixo muda. A Commisso, porm, pertence infelizmente ao presente, e
quando v um campeo do passado, de quem se pde dizer como Virgilio:

_Et dulces moriens reminiscitur Argos.
Do caro Sales lembra-se morrendo_.

no pode deixar de lhe dar o extremo _vale_, nem  licito que responda
com um silencio que se poderia tomar pelo silencio do desprezo a quem
vem lanar na estacada a luva do combate, por uma causa talvez bella,
mas nestes tempos irreverentes e dissolutos, bem mal-aventurada.

Senhores! A guerra que os homens do passado fazem s opinies do
presente  um phenomeno trivialissimo, e repetido todas as vezes, que,
ou as meditaes ou as inspiraes do genio, ou finalmente a accumulao
das idas e das observaes de muitos homens, tem produzido uma
revoluo, seja ella de que natureza fr. A razo d'isto d-se neste
prologo. Quem encanecendo no estudo de qualquer ramo de sciencia nunca
pde passar alm de comprehender o que os outros pensaram, intende que a
isto se deve reduzir todo o poderio intellectual do genero humano. Taes
individuos so por via de regra os representantes da immobilidade. Bem
longe da theoria do progresso indefinido, crem que a civilizao  como
a praia do mar, os homens como as ondas d'elle, que ora se aproximam ora
se afastam em continuados stos. So taes individuos que nunca se
persuadiriam de que as chamadas trevas da edade mdia no eram mais que
a chrisalida de uma civilizao maior e melhor que a grega e romana, de
uma civilizao cuja aura vital era a grande transformao religiosa
chamada o christianismo. So taes individuos para quem fra baldada a
demonstrao de que no objecto de que neste logar se tracta--o
drama--uma nova epoca e por consequencia uma nova frma tinha comeado
com o bero das naes modernas, e de que entre o nosso theatro e o dos
antigos devia haver a mesma differena que ha entre a civilizao
christ e a pag, entre o christianismo e o polytheismo; emfim que nas
respectivas litteraturas dramaticas devia haver uma diversidade
parallela  que ha entre aparte material do theatro antigo e a do
theatro moderno.

Era licito, pois, a estes homens morrerem abraados com as poeticas e
rhetoricas sobre que encaneceram; era-lhes licito desprezarem os fructos
das cogitaes dos modernos; era-lhes licito terem commentado as regras,
na impossibilidade de fazerem dramas. Tudo isso lhes era licito menos
ignorarem a historia da arte antiga, desconhecerem os principios da
moderna, mentirem acrca d'aquella, e calumniarem esta. Isto  o que tem
feito os admiradores dos rhetoricos de todas as naes, isto  o que se
reproduz no prologo do erudito discipulo do eruditissimo Sales.

A Commisso no entrar aqui no exame do valor relativo dos principios
da eschola antiga, e da eschola moderna que tambem os tem mais profundos
e por ventara mais creadores de difficuldades que os da antiga. A
comparao d'esses principios seria materia de um livro, de um curso de
litteratura dramatica, e nunca de um parecer que deve servir de base 
discusso especial do merito de um drama. Mas a Commisso se mostraria
pouco attenta  dignidade, e  honra litteraria do Conservatorio se
deixasse passar como exactas affirmativas contrarias  historia do
theatro e  critica, sem que rectificasse inexactides que se lhe vem
apresentar como verdades.

O auctor diz que sabe que a comedia no ha de agradar por se verem nella
cumpridos os decretos de Aristoteles e de Horacio. Desejaria a Commisso
que elle tivesse declarado cujo era o desagrado em que tinha a certeza
d'incorrer. Se era o do publico, como tendo essa certeza concorre s
provas publicas?--Neste procedimento ha pelo menos um pleonasmo to
flagrante como ha no titulo de _comedia comica_ que elle d a esta. Se 
o do Conservatorio, parece fazer com isso grave injria a este.

O Conservatorio possue no seu seio homens de convices differentes, e
at certo ponto oppostas, em materias litterarias: uns pertencem, como o
auctor, s idas antigas, outros s opinies modernas. Para os primeiros
a execuo d'essas regras  um merito; para os segundos se as suas
opinies assentam sobre uma theoria completa da arte--e a Commisso cr
que sim--o desempenho d'essas regras  indifferente, porque no  nem na
falta, nem na existencia d'ellas que consiste a arte. O auctor devia
saber que a eschola moderna colloca quasi a par de Shakespeare e acima
talvez de Calderon e Lopo da Vega, dois escriptores da arte dos
preceitos--Moliere e Corneille: devia saber que ella rejeita d'esses
preceitos aquelles que no teem uma sanco esthetica; aquelles que, ou
o capricho, ou um exame superficial das materias litterarias, admittiu
como canones imprescriptiveis; aquelles que so mui proximos parentes
dos achrosticos, dos echos, e dos versos leoninos--mas devia tambem
saber, que a eschola moderna nunca desprezou o dramaturgo, cujo genio,
apesar d'essas peias escholasticas, se remontasse a altura da verdadeira
arte, e que, por tanto os membros do Conservatorio cujas opinies so
modernas no rejeitariam o drama s porque se assujeitava s andadeiras
rethoricas da eschola antiga. Se um pensamento unico tivesse precedido 
composio d'esta comedia: se o ideal de um ou muitos caracteres comicos
tivessem nella revestido as frmas da vida real, embora o drama
estivesse arrebicado de cem regras e duzentos preceitos, os sectarios da
nova eschola teriam dicto com os da antiga; _equites romani plaudant_!

O digno auctor da _Casa de Gonsalo_, seguindo as pisadas dos homens da
sua eschola parece querer tornar solidaria a arte dos gregos e romanos
com a arte do renascimento; essa arte bella, pura, e nacional dos
antigos com a arte caprichosa, polvilhada, cortes e regreira do seculo
de Luis XVI. Hoje no  licito ignorar as differenas que ha d'aquella a
esta: ignorar que alm de outras coisas duas regras essenciaes para os
modernos faltam entre os antigos as unidades de logar e de tempo, e que
vice-versa entre os antigos havia no theatro os coros que os classicos
modernos deixaram, bem como a musica tanto dos coros como da scena, a
qual fazia que o drama fosse ento o que  hoje a opera italiana, ou a
vulgar, onde esta existe.

Senhores: o drama moderno nasceu dos mysterios ou representaes
religiosas da edade mdia: o caracter essencial dos mysterios era o
vestir o ideal christo--e o nome o est dizendo--com as frmas da vida
real, e a vida real era ento como hoje, como sempre, uma indistincta
mistura de lagrimas e riso, de paixes vis e nobres, d'infamias e de
grandezas. Nos mosteiros onde o drama comeou, se reuniam os extremos
oppostos da sociedade: o monge era a um tempo sacerdote e jogral: a
ignorancia vejetava ahi ao lado da sciencia, a crapula ao lado da
modestia e da virtude, o folguedo e o bom humor ao lado da penitencia,
os grandes crimes ao lado da pura innocencia. Ento o monge a quem a
natureza fizera poeta, tendo quasi por unicos estudos a historia
symbolica dos hebreus, as sublimes invenes da sua poesia, e esse
evangelho to ideal desde a primeira at a ultima pagina, no conhecendo
o drama antigo, fazia, sem o saber, uma transformao na arte dramatica
e comeava essa eschola moderna, salva apenas na Hespanha e na
Inglaterra no seculo XVII e restaurada hoje em toda a Europa com mais
brilho, e aperfeioada pela philosophia. O caracter d'esta eschola  na
essencia um contraste completo com a antiga: esta tomava o mundo real,
positivo e at trivial e vestia-o de frmas ideaes: os caracteres, as
paixes, as situaes procurava-as na vida quotidiana: nas expresses,
na fraze  que estava a poesia, e  por isso que o poeta antigo carecia
dos coros para ahi principalmente derramar as harmonias da sua alma; 
por isso, que Sophcles, ou Euripides no comprehenderiam o drama em
prosa;  por isso que o theatro dos antigos no separava a musica da
letra, porque a tragedia no era seno uma larga elegia sobre as
amarguras da existencia ordinaria; a comedia no era seno uma satyra,
um escarneo contra os vicios e as ridicularias da vida commum. Pelo
contrario o theatro da edade mdia buscava no ideal paixes, caracteres,
situaes. Onde achamos ns essas martyres to suaves, to aereas, to
amorosas de um objecto sumido nas profundezas do cu? Onde achamos esses
demonios chocarreiros e perversos, cujos motejos e risadas infernaes nos
fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onde esses coraes, ao mesmo tempo
to robustos e to delicados, dos cavalleiros do romance e do drama da
edade mdia?--Nos mysterios e nos autos; e os mysterios e os autos so
ascendentes do drama actual: as Angelas, os Myphistopheles, e os
Hernanis no refusam a sua arvore genealogica.

Esta familia, nobre, porque, como as familias humanas, vai entroncar-se
na edade mdia, teve um tempo em que cau na abjeco: foi quando os
paos a rejeitaram; quando appareceu outra, que se chamava mais
illustre; outra que se dizia de mais antiga ascendencia, aparentando-se
com gregos e romanos: mas a critica mostrou que isto era falso, a
philosophia que, ainda sendo verdade, no era tal razo bastante para a
preferencia. Esta  em resumo a historia das vicissitudes da arte.

Ha ainda duas proposies no prologo da _Casa de Gonsalo_ as quaes a
Commisso intendeu que no devia deixar passar sem fazer sobre ellas
alguns reparos. Consiste a primeira em dizer que os modernos destruiram
o principio do desenvolvimento logico dos caracteres, ou como o auctor e
a sua eschola lhe chamam--a unidade de caracter. De todas as accusaes
que se podiam fazer  eschola moderna esta  a mais infundada. Condio
absoluta da arte actual  essa unidade dos caracteres, e neste ponto a
Commisso no recearia d'eslabelecer parallelos entre os melhores dramas
classicos e os dramas de segunda ordem, escriptos debaixo da influencia
dos novos principios, certa de que a vantagem ficaria sempre ou quasi
sempre aos ultimos. Consiste a segunda proposio em affirmar o auctor
que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne: nisto ha uma
falsidade e um rro de historia litteraria. Falsidade porque no 
preciso ter lido seno os prologos de Victor Hugo ao _Cromwel_, e ao
_Ruy-Blas_ para se ver que ainda o dramaturgo mais exaggeradamente
liberal da eschola moderna estabelece regras, que a Commisso no avalia
aqui, mas que incontestavelmente o so, boas ou ms. Accresce que, sem
falar numa grande multido d'escriptos sobre a arte dramatica publicados
ha vinte annos, basta ler as revistas litterarias francesas, alems, e
inglesas, para ver que a critica tem j assentado muitos principios
incontestaveis para julgar as produces do theatro, e que se em outros
ha diversidade de opinies, no  isso de admirar numa eschola que conta
apenas vinte annos como theoria, e que  obrigada a provar a justia da
sua causa com razes e ao mesmo tempo com obras, ao passo que os
defensores da antiga, firmados em monumentos e glorias seculares,
desobrigados, e por ventura incapazes de crear obras de arte, no tem
outro trabalho seno defender e amparar seus principios, principios que
apesar d'esses monumentos, d'essas glorias, d'essas defenses, e sobre
tudo de sua antiguidade, no deixam muitas vezes de ser incertos e at
contradictorios. Agora quanto ao rro de historia litteraria a Commisso
julga escusado dizer mais nada, seno que quem pe em parallelo
Delavigne e Hugo, como egualmente destructores da arte antiga, mostra
que nem os comparou, nem os leu, e por certo nem um nem outro lhe deve
ficar obrigado. Delavigne, o academico Delavigne, que treme a cada passo
de pertencer ao seu seculo, no se julgaria em decente companhia
vendo-se ao lado de Victor Hugo, e este, que vai por ventura mais longe
do que devera, crer-se-ia sujo de todo o p dos bacamartes pedantes dos
commentadores d'Aristoteles, achando-se collocado a par do classico
auctor da _Princesa Aurelia_, do bucolico auctor do _Pari_.

Entremos no exame da comedia.

O auctor tomou por objecto nesta composio o converter em uma aco
dramatica um dos antigos proverbios populares, especie de formulas com
que o vulgo exprime muitas vezes idas complexas.  este o que se
applica a qualquer casa mal governada e arruinada por toda a casta de
desvarios: _ a casa de Gonsalo_:--eis a expresso proverbial; eis o
pensamento que presidiu  composio do drama. Vejamos como o auctor o
tractou.

Um viuvo e uma viuva so casados em segundas nupcias: ella tem uma
filha. D. Farnacia  o nome da mulher: elle chama-se Gonsalo--pobre
homem que se deixa governar inteiramente por D. Farnacia prezada de
fidalga, caprichosa, e gastadora. Gonsalo instigado por D. Farnacia ps
na rua seu filho Bernardo, moo to sisudo e composto, quanto Leonor,
filha de D. Farnacia,  tola, namoradeira e desassisada.

A familia compe-se, alm dos tres, Gonsalo, D. Farnacia e Leonor, de um
irmo e de uma sobrinha de D. Farnacia, chamados Bonifacio e D.
Dorothea; aquelle  um peralvilho, frequentador de botequins, e que no
pensa seno em acceitar cartas d'amores; esta  uma presumida de sbia,
que em todos os seus discursos mistura palavras e phrazes francesas, e
que s l novellas, citando a torto e a direito quantos destemperos tem
lido. Um creado e uma creada desobedientes, ladres, e desavergonhados
completam aquella ninhada domestica.

Gonsalo tem um amigo, Florencio, a quem deve obrigaes, e dinheiro,
homem prudente e srio, que pretende tir-lo da vida de abjeco em que
vive, aconselhando-o sempre para que tome o logar de verdadeiro dono da
casa, e seguindo-se d'isto o ser cordealmente odiado por D. Farnacia.

Dois alindados frequentam esta casa, ou antes torre de Babel--Constando
e Carlos: o primeiro  o namorado de Leonor.

 com estas personagens, que o auctor conduz a comedia a seu fim, e a
Commisso seria demasiado prolixa se quisesse histori-la por todos os
cinco actos em que elle a dividiu. Bastar dizer que  fra de gastos
loucos, Gonsalo se acha finalmente no maior apuro, do qual o livra o
expulso e maltractado Bernardo, obtendo uma proviso para administrar a
casa paterna, ajudado por Florencio, que sendo o principal credor exige
para seu filho a mo de Leonor, e faz casar Bernardo com Dorothea, a
qual tem um avultado dote, a que por isso era requestada por Carlos,
amigo de Constancio, e que juntamente com elle frequentava a casa de D.
Farnacia.

 Commisso parece que o drama  em geral bem conduzido, o dialogo
excellentemente travado, a successo das scenas logica e natural, e a
linguagem accommodada ao assumpto, e com poucas excepes, limpa e
corrente. Estes so os meritos que julgou se davam no drama, e pelos
quaes seu auctor  digno de ser louvado.

Infelizmente partes e circumstancias so estas que no bastam.
Obte-las-ha para as suas composies todo aquelle que escrever
fortalecido de estudo: mas s o genio d vida s obras d'arte. As frmas
exteriores pde-as traar mo amestrada; vida s a infunde o alento do
poeta, que se assimelha ao spro vivificante de Deus.

Os caracteres, as situaes, e os pensamentos das personagens de
qualquer comedia abrangem forosamente toda a graa comica que nella se
pde dar; e nesta no ha nem um caracter, nem uma situao, nem um
pensamento verdadeiramente comico. D'isto ficaro persuadidos aquelles
que se derem ao trabalho de ler o drama; a Commisso est prompta a
mostr-lo quando haja quem o conteste.

Do que fica ponderado se conclue naturalmente que este drama, falho dos
meios de attrahir a atteno dos espectadores, correr grande risco em
ser posto s provas pblicas, e portanto a Commisso louvando o que ha
bom nelle, isto , o que propriamente se pde chamar a sua parte
material, deixa ao Conservatorio o resolver o que mais justo e acertado
fr quanto ao destino que se lhe deve dar.

Conservatorio Dramatico, 17 de Julho de 1840.--_A. Herculano_, Relator.




*Elogio historico*

de

SEBASTIO XAVIER BOTELHO

Memorias do Conservatorio

1842




*Elogio Historico*

de

SEBASTIO XAVIER BOTELHO


Senhores:

Honrado com o encargo de revocar hoje a memoria de um nosso illustre
consocio que a morte nos roubou, no posso deixar de sinceramente
lamentar que este Conservatorio quisesse que eu, intendimento humilde,
va bater  porta do sepulchro para atravs d'elle citar uma nobre
intelligencia, que repousa no seio de Deus, e dizer-lhe--Vem ouvir o
processo da tua gloria, o julgamento sobre o modo porque desempenhaste a
tua misso intellectual na terra.

Porque, Senhores, ou muito me engano, ou  esse o principal, diria quasi
o unico mister que nos incumbe, aos que fomos escolhidos para falar
neste dia e neste logar dos nossos fallecidos consocios. Em nome das
letras, d'essa revelao formosa e sancta do ingenho humano, nos
ajuntmos neste recinto: por ellas existimos como corporao: ellas nos
fizeram irmos e eguaes. Pelas letras as differenas voluntarias e
incertas do mundo--as riquezas, o poder, os nomes d'avs, se convertem
em palavras sem sentido. A democracia absoluta, sonho impossivel,
talvez, de realizar na sociedade civil, torna-se entre ns uma condio
d'existencia. Nas associaes litterarias a vida  de certo modo
immaterial, e as nossas distinces so unicamente as da superioridade
do ingenho. Mas a ultima instancia onde taes preferencias se julgam  o
tribunal da posteridade. S a morte abre de par em par as portas d'este,
e  ahi que definitivamente se resolve se o nome do que passou ser
lanado na herana dos seculos, na memoria perenne dos homens, ou se tal
nome deve esquecer como esquece o som derradeiro da loisa caindo sobre a
borda do sepulchro, onde foi repousar o que no pde ou no soube
conquistar a immortalidade.

 por este caracter democratico, de todas as corporaes como a nossa,
porque alheias inteiramente s condies da sociedade civil, que me
parece no ser nos archivos d'esse pobre mundo das vaidades, a que
chamam realidade, onde hajamos de ir buscar documentos e testemunhos,
que provaro muito para outro genero de renome e gloria, mas que de
nenhum modo vem a ponto para as canonizaes litterarias, no momento
solemne em que devemos preparar o processo pelo qual a posteridade tem
de julgar intelligencias ja livres d'este sudario da vida. Antepassados,
haveres, grandeza, cargos, que nos importam? Outra  a nossa misso:
temos de perguntar ao que traou algumas palavras no livro eterno e
immenso da arte e sciencia humana--Que foi o que fizeste?--Que era o que
podias fazer? Isto  o que nos pertence, o resto  sociedade.

O nosso fallecido consocio, que passando na terra escreveu nesse livro
uma das suas formosas paginas, foi o sr. Sebastio Xavier Botelho. Para
se poder avaliar o merito d'esta escriptura de que preciso eu?--De
l-la.

Difficultosa  similhante leitura; porque as palavras do homem de
ingenho so concisas e profundas: soletram-nas a custo os que no
possuem esse dom de cima; e, sem humildade hypocrita, eu sei que
perteno a estes.

A culpa do mu desempenho ser, pois, vossa, Senhores, que medistes
erradamente as minhas foras pelos meus e pelos vossos desejos.

A historia intellectual e intima do sr. Botelho divide-se em dois
grandes periodos: corre o primeiro desde a epoca em que concluiu os seus
estudos de jurisprudencia na Universidade de Coimbra at quella em que
importantes e laboriosos cargos, que lhe foram confiados, o
constrangeram a dedicar-se inteiramente ao cumprimento de suas
obrigaes, e a deixar os ocios litterarios da juventude: o segundo
abrange o tempo que discorreu desde esta epocha at  da sua morte. O
primeiro periodo foi para elle o do tracto e cultura das boas lettras: o
segundo o do estudo dos homens e das coisas, da sciencia, da historia e
do governo. No primeiro, o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal:
no segundo foi historiador, economista, e politico; foi o homem do mundo
real.  nestes dois periodos que eu considerarei as obras da sua
intelligencia, e procurarei responder  pergunta--Que servios fez o sr.
Botelho ao progresso do espirito humano?

As primeiras composies poeticas do nosso illustre consocio foram
escriptas nos fins do anterior ou nos comos do presente seculo:
d'estas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes seguiram, pertencendo
pela maior parte  litteratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo de
publicao--o da scena: mas o unico penhor de duradoiras recordaes e o
unico fiador da perpetuidade da gloria, essa fonte de toda a sciencia e
civilizao modernas--a imprensa--faltou-lhes como ainda ha dez annos
faltava commumente s obras dos nossos bons ingenhos que nasciam e
morriam sem a conhecerem; porque dois anjos mus a guardavam, os quaes
tinham por nome--censura e ignorancia.

Por esses archivos de theatros jazem sepultados os dramas do sr.
Botelho, dos quaes apenas  imperfeitissimamente conhecida a tragedia
_Ignez de Castro_, e um pouco melhor a _Zulmira_, melodrama de que
restam varias copias.

_Zulmira_ , como todos os melodramas, uma composio hybrida,
monstruosa, e falsa  luz dramatica; mas considerada como um hymno aos
nobres affectos do corao humano ella nos revela quanto era poetica e
formosa a alma do Sr. Botelho. Poucos versos haver da epoca em que foi
escripta, a no serem os do melhor metrificador portugus--Bocage--nos
quaes se encontre tanta suavidade, melodia e arte e ao mesmo tempo to
generosas idas, to affectuoso sentir, expresso muitas vezes com
admiravel precizo. No  um drama a _Zulmira_!--E que importa? _Esther_
 uma elegia; _Athalia_ uma epopea; mas elegia e epopa sublimes de um
poeta divino!

Mais bem salvas para a historia das letras foram as numerosas verses
dramaticas do sr. Botelho--amparavam-nas, seus originaes, largamente
conhecidos no mundo. Alem de muitas operas de Metastasio e de quatro
tragedias de Racine, _Berenice_, _Mitridates_, _Phedra e Bajacto_, elle
transportou para a scena portuguesa quasi todos os mais afamados dramas
de Voltaire, como _Mahomet_, _Zara_, _Bruto_, _Marianna_, _dipo e
Semiramis_, aos quaes accresceram muitos outros de menos celebres
auctores dramaticos.

J vedes, Senhores, quantas e quo largas vigilias o mancebo poeta
consagrou ao theatro; as suas poesias volantes sabe-se que foram muitas,
mas do naufragio do tempo apenas salvou a imprensa a epistola a Bocage,
a qual mereceu os extremados louvores que este grande poeta d para me
servir da linguagem arcadica d'aquelles tempos, ao vate Salicio. Vate
Salicio era o Sr. Botelho, que ainda ento os poetas, por obrigao de
seu officio, se desbaptizavam do nome christo, am em espirito
pastorear  velha Grecia, e voltavam de l no poetas, mas pastores e
vates.

Procurei, Senhores, lembrar-vos quo extensos foram os trabalhos
poeticos do Sr. Botelho. Resta-me, todavia, mais difficultosa tarefa, o
recordar-vos qual foi a significao litteraria d'elles--o averiguar
como e quanto o nosso fallecido consocio contribuiu para os progressos
da arte nesta to poetica terra de Portugal.

Poeta elmanista, e um dos primeiros e mais distinctos sectarios d'esta
eschola, que rainha da poesia, e dispensadora de gloria regeu sem
partilha de imperio os dominios da arte,  no julgamento d'essa eschola
brilhante que est o seu julgamento. Os juizos individuaes em historia
litteraria so to falsos como em historia social: o individuo que vai 
frente da sua epoca, no  mais que a ida predominante d'ella encarnada
no homem. Julguemos a ida, e teremos julgado o symbolo humano que a
representa. Se aquelle que passou no a comprehendeu, no o chamemos
tambem ao tribunal da posteridade, e deixemo-lo repousar na paz de seu
esquecido sepulchro.

Mas o pensamento progressivo que agitou uma gerao ou um seculo no vem
s: vem com elle os pensamentos dominadores das geraes ou dos seculos
antecedentes que o produziram, e vem os que elle gerou. Sem isso o
processo ser incompleto: errada provavelmente a sentena. Expresso de
uma serie contnua e eterna de idas, grandes porque veem de Deus, o
progredir humano revela o elemento intellectual de cada uma das nossas
transformaes successivas em todas as formulas da vida. Esse elemento,
essa ida prolifica, busquemo-la em todos os aspectos da civilizao,
que em todos a havemos de encontrar. Nas instituies, e nos costumes,
na sciencia, e na arte, l est escripta--escripta pela mo do anjo do
Senhor, que deixa cair sobre a terra uma lagrima de d, quando a mo
d'algum louco cr que pde apag-la, ou a voz do insensato se ergue para
a desmentir, e nella desmentir o brado do genero humano.

 na arte,  qual foi completamente dedicado o primeiro periodo da vida
litteraria do Sr. Sebastio Xavier Botelho, que eu buscarei
principalmente o pensamento ou facto intellectual que caracteriza e
explica a sua epoca e a sua eschola, ligando esse facto com os que o
precederam e com os que d'elle vieram. Oxal que para animar-me em
tractar um objecto acima de minhas foras me no desampare a vossa
indulgencia!

Vs sabeis, Senhores, que durante a primeira metade do decimo sexto
seculo uma grande revoluo se operou e completou no Meio-Dia da Europa.
As sociedades feudaes e municipaes, estas, no seu crescer, aquellas na
sua declinao, deram o ultimo arranco aos ps da sociedade monarchica.
Toda a vida anterior das naes do occidente desabou aps ellas. Entre
ns mudou tudo: socialismo, sciencia, arte, caracter religioso. Ninguem
curou d'isso. A robusta e intelligente monarchia d'esse tempo atirou 
espantosa actividade de nossos avs tres partes do mundo para esmagar:
cevou-a em podero, e saciou-a de gloria. Compuseram-se ento todos os
aspectos da sociedade a exemplo da unidade monarchica: o senhorio feudal
tornou-se dependencia completa: o municipio delegao: os parlamentos
letra morta. A chronica, essa frma to viva, to dramatica, to
nacional da historia, cedeu o campo aos Thucydedes e Livios modernos: o
platonismo christo e espiritual, fugiu, combatendo como os Parthos,
ante o aristotelismo argumentador e materialista: as artes plasticas
seguiram de longe os destinos de suas irms d'Italia, onde as
illuminuras aereas e incorrectas dos missaes e horas, desappareciam
deante do pincel terreno e correcto de Rafael e as cathedraes
mysteriosas e symbolicas se desmoronavam ao altear do templo de S.
Pedro, prostituido  luz por Miguel Angelo: todas as artes se
confessaram vencidas, na sua imperfeio e rudeza sublimes, pelos
monumentos da arte antiga. O proprio christianismo se fez intolerante e
sanguinario, como o polytheismo romano, o perseguidor dos martyres--e a
inquisio restaurou o pretrio. Finalmente a poesia nacional,
balbuciante ainda, retrahiu-se ante o fulgor da litteratura latina. As
instituies de Roma, a Roma dos imperadores, annullaram as nossas
instituies primitivas, e a poesia romana mudou o caracter da poesia
moderna. A sociedade reproduzia o pensamento que guiava o seculo. Deixou
de ser christ e nacional, para ser pag e peregrina. Roma que, viva e
possante, no alcanara subjugar inteiramente este cantinho da Europa,
cadaver j, profanado pelos ps de muitas raas barbaras, conquistou-nos
com o esplendor da sua civilizao, que resurgira triumphante. Netos dos
celtas, dos godos, e dos arabes, esquecemo-nos de todas as tradies
d'avs para pedirmos s cinzas de um imperio, morto e estranho, at o
genio da propria lingua!

Mas essa civilizao violenta, enxertada em arvore de diverso genero,
devia tarde ou cedo ceder o logar a outra mais homogenea com as
tradies e costumes, com as crenas e habitos dos povos modernos. O
mundo antigo fra condemnado por Deus: a sua condemnao era o
evangelho. O ingenho humano pde vestir-lhe o trajo dos vivos; mas por
baixo d'este estava-lhe sobre o esqueleto mirrado o sudario dos mortos.
Mais tarde ou mais cedo, repito, elle devia voltar  sua jazida.

E a reaco no tardou os annos de tres geraes. O seiscentismo foi uma
reaco.

Ha ahi acaso quem duvide de que elle era uma revolta, seno contra a
essencia da arte romana, de certo contra as frmas exteriores d'essa
arte? Bem sabeis, Senhores, que no  difficil prov-lo, e que entre a
poesia anterior ao renascimento e a dos seiscentistas ha alguns
caracteres analogos, e muitas tendencias similhantes. No direi quaes,
porque melhor o conheceis que eu--e porque preciso de approximar-me
rapidamente  epocha em que viveu para honra das letras o Sr. Sebastio
Xavier Botelho.

Qual foi a origem do seiscentismo? A historia litteraria diz-nos que
foram Marino, Gongora, e no sei quem mais.  uma d'aquellas falsidades
historicas, que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens
puderam assim mudar nem a minima das frmulas sociaes, em cujo numero a
arte de certo no  a ultima. So as geraes arrastadas e agitadas por
idas que nasceram e se derramaram insensivelmente, que fazem
similhantes transformaes. Esses cabeas d'eschola so o verbo da ida,
so os interpretes do genero humano--e mais nada.

O seiscentismo foi uma resoluo que falhou, uma tentativa de
restaurao da nacionalidade em litteratura, que no sendo acompanhada
pela restaurao social completa do modo d'existir portugus anterior s
influencias romanas, ficou aleijada e rachytica, e substituiu a uma arte
antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra falsa e alm d'isso
ridicula.

A celebre Arcadia, e a influencia que esta corporao teve nas letras
foi uma nova reaco litteraria, e o dogmatismo em que se restauraram as
doutrinas romanas, posto que reflexas j d'Italia e de Frana, foi ainda
mais intolerante e absoluto que na epocha do renascimento. O
seiscentismo acabou s mos dos arcades, que restabeleciam o predominio
da arte antiga e revocavam o pensar e o estylo dos poetas do tempo de D.
Joo III e D. Sebastio, ao passo que o Marquez de Pombal procurava
restaurar a esquecida robustez da monarchia com a austeridade dos seus
principios administrativos, e com a aco vigorosa do seu governo de
ferro.

A monarchia do Marquez de Pombal era anachronica em politica: a
restaurao da arte romana era anachronica em litteratura. Ambas deviam
necessariamente passar--e passar rapidas. Assim aconteceu. Alm do
anachronismo havia em ambas ainda outro elemento de dissoluo. A
frmula politica nunca fra to absolutamente monarchica: a frmula
litteraria nunca fra to mesquinhamente romana. Nunca o motu-proprio
fra to cabal explicao de todas as leis: nunca os nomes e exemplos de
Aristoteles e de Quintiliano, de Horacio e de Virgilio, substituiram to
completamente o raciocinio na critica. Mas o Marquez de Pombal comeava
por discutir com a aristocracia e com a theocracia, e a Arcadia com o
seiscentismo; os homens do futuro tinham portanto tambem o direito de
discutir com elles.  o que tem feito e far o nosso seculo.

A Arcadia derrubara a poesia seiscentista: cumprira com sua misso.
Depois dogmatizou e morreu. Foi d'inanio. Esta sociedade, to activa,
to belligerante, to ruidosa nos seus comeos--expirou, e nem sequer o
mundo litterario deu tino d'isso. Era que a Arcadia nunca propriamente
vivera, porque nunca representara uma ida progressiva.

Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua eschola, um de cujos
luminares era o Sr. Sebastio Xavier Botelho. Resta-me trazer  vossa
memoria o logar d'esse poeta e d'essa eschola nos annaes da arte.

Bocage vinha depois de duas restauraes classicas, ou romanas;
assistira ao derradeiro claro da segunda, e fora educado por ella. Os
seus primeiros poemas so moldados pelos dos arcades, mas j nesses
poemas ha mais inspirao, porque Bocage nascera e no se fizera poeta,
com se haviam feito aquelles, se exceptuarmos Garo. As variedades que
gradualmente appareceram no seu estylo e pensar foram mui pouco
distinctas, salvo na metrificao em que escureceu completamente os
arcades, e na tendencia, visivel nas suas melhores composies, para
substituir a mythologia pag pela allegoria, o que deveu talvez 
influencia dos poemas descriptivos franceses, a que o materialismo e a
incredulidade do seculo XVIII tinham reduzido a poesia d'aquella nao.

Mas , Senhores, sob outro aspecto que importa considerar este homem
extraordinario para avaliar a misso da sua eschola, e saber qual
transformao o apparecimento d'ella veio produzir na arte.

Na litteratura dos arcades, como nas litteraturas de epocha de D. Joo
III e da pocha d'Augusto; a poesia tinha sido essencialmente cortes,
aristocratica, altiva. Os pastores da Arcadia nunca assistiram aos mais
sublimes espectaculos do universo, nunca sentiram no corao essas
paixes violentas que devoram as existencias. Que sabiam elles dos
campos de batalha, das sedies, dos grandes crimes e das grandes
virtudes? Elles ignoravam o que so lagrimas de desterro, o que so
contentamentos de tornar a ter patria. Odios, fanatismos politicos,
ancia de gloria popular, ambies, miserias humanas, no existiam para
elles. Os mares e os seus terrores, as solides profundas das serranias,
o ruido das torrentes, o sibilar dos ventos por gandras bravias, no
imaginavam o que fosse. As procellas emfim da natureza, e as mais
terriveis ainda do espirito em que parece deleitar-se o poeta d'este
seculo grave e triste, porque o converteram  melancholia e ao cogitar
profundo os seus destinos solemnes--tudo isso era alheio  suave
existencia dos bons arcades. Sacerdotes, magistrados, e servidores do
estado, o seu monte Menalo era uma sala adornada de sedas e razes; a sua
lyra ou rabil uma penna muitas vezes dourada; as suas inspiraes uma
vasta erudio. Assim os affectos e imagens dos seus poemas vacillavam
entre a frieza e trivialidade, e a exaggerao e mentira--porque para
elles as paixes e a natureza estavam nos livros. Os livros foram o seu
universo.

Bocage porm no era arcade. Era um homem do povo que alimentava no
espirito todas as paixes violentas, e muitas vezes freneticas e
desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajunctava a feios vicios nobres e
generosas virtudes. Era o trovador que improvisava os seus mais
admiraveis versos no meio das multides,  luz do sol ou dos astros da
noite, nas orgias das cidades, nas festas campestres--em todos os
logares, a todas as horas. Depois de Cames, Bocage foi o nosso primeiro
poeta popular; como Cames, foi pobre, foi criminoso, e foi malfadado;
adormeceu, como elle, muitas vezes no balouar das vagas do oceano, e
como elle orvalhou de lagrimas o po do desterro, e veio morrer na
patria sobre a enxerga da miseria. Similhante ao infermo do Evangelho
passou pela terra abandonado, pobre, n; mas como os antigos romeiros
trovadores, alegrou ou commoveu os animos das classes no privilegiadas,
s quaes tres seculos tinham feito esquecer que a poesia era tambem e
principalmente para ellas.

Bocage  o typo mais perfeito da sua eschola, e de feito devia s-lo.
Ella popularizou a arte, porque poetou principalmente para o povo, e
emballou ao mesmo tempo com as melodias da linguagem, com o sonoro do
metro, essas almas rudes mais attentas  harmonia da frma que ao
poetico do pensamento.

Feita assim a poesia plebea, duas consequencias deviam seguir-se d'esse
passo gigante--a liberdade litteraria e o apparecimento do theatro. A
poesia popular regeita como o povo, quando comea a pensar e deixa de
querer, todas as leis que se fundam em auctoridade ou tradio e no em
conveniencias; e o drama  a frma mais completa da arte quando esta se
faz burguesa. No aconteceu todavia assim: a razo d'isso  obvia.

A revoluo litteraria que a gerao actual intentou e concluiu, no foi
instincto: foi resultado de largas e profundas cogitaes; veio com as
revolues sociaes, e explica-se pelo mesmo pensamento d'estas. Mas nem
Bocage, nem os poetas que o imitavam ou seguiam suas doctrinas, se
doctrinas havia nessa eschola, curavam d'averiguar theorias estheticas;
porque os tempos da grave discusso ainda no eram vindos. Poetas
inspirados deixavam-se ir ao som das suas inspiraes, viviam numa
especie d'excitamento intellectual; o _estro_, em que tantas vezes
falam, era uma realidade, e o improviso a forma commum em que davam
vulto aos seus pensamentos e affectos. Esses ingenhos ardentes
respiravam numa atmosphera d'enthusiasmo, d'ebriedade poetica.
Similhantes  avesinha que solta o seu gorgeio como o aprendeu da
natureza e do gorgeio paterno, elles, no seu poetar espontaneo,
acceitavam sem exame as regras que lhe ensinara a Arcadia. E que podiam
fazer os pobres poetas pees seno curvar a cabea ao voto dos mui
eruditos e cortesos pastores do monte Menalo?

Por isso a eschola bocagiana preparou s metade da revoluo artistica:
trouxe a poesia dos corrilhos e sales aristocraticos para a praa
publica; mas no a fez nacional. Esta difficultosa empresa estava em
grande parte guardada para um poeta to romano em intenes e desejos,
quanto portugus na indole do seu ingenho. Francisco Manuel foi quem
acabou o que Bocage comeara, completando pela nacionalidade o plebeismo
da arte. Feito isto, seguia-se a revoluo--e um poeta mancebo,
desterrado como Francisco Manuel, rasgou a bandeira romana e hasteou a
portuguesa. Os poemas--D. Branca e Cames--foram o signal da revolta. As
tradies da Arcadia estavam irremissivelmente condemnadas.

Foi esse incompleto da eschola elmanista que impediu nascesse no meio
d'ella um theatro original. D'este houvera sido o fundador o Sr.
Sebastio Xavier Botelho, se as suas tendencias, o seu agudo ingenho, e
continua applicao a similhante genero de litteratura fossem ajudados e
acompanhados pelo espirito da pocha, e pelo caracter da eschola a que
pertencia. Debalde com a paciencia e tenacidade de poeta, que so as
maiores d'este mundo, no levantou elle mo de uma empresa que era
impossivel levar a cabo, e em que tinha ficado vencido o incansavel
Manuel de Figueiredo e Garo, o poeta da Arcadia. A nacionalidade no
existia ainda, e nacionalidade e theatro no ha separ-los. O theatro 
para as multides, e o povo no intende seno quem lhe fala na sua
linguagem e sobre as suas coisas; das suas tradies e crenas, ou das
suas paixes e da sua vida actual.

Assim, com a logica do genio, o Sr. Botelho vira qual era a consequencia
da revoluo litteraria para que elle contribuia; conhecera que feita
popular a poesia, e tirada dos aposentos de senhores e poderosos, ou do
seio das academias para ser lanada no mundo--porque ella  do mundo,
devia tomar a frma mais adequada aos seus novos destinos; mas no viu,
porque no podia ultrapassar as idas do seu tempo, que a transio era
incompleta. Foi por isso que se enganou nos meios, e pensou que trazendo
 nossa scena as sublimes poesias liricas, epicas, e elegiacas, chamadas
tragedias de Racine, e as dissertaes dialogadas de philosophia
incredula, chamadas tragedias de Voltaire, o theatro resurgiria; mas o
theatro deixou-se ficar morto, porque no era a voz da individualidade
nacional, que o revocava  vida.

Eis aqui, Senhores, a luz a que eu vejo a eschola litteraria, a que
pertenceu o Sr. Botelho no primeiro periodo da sua vida intellectual, e
como me parece deve ser julgado elle proprio nas obras do seu ingenho. A
essa eschola cabe um honrado logar na historia do progresso humano, ao
Sr. Botelho toca especialmente o ter sentido, ou antes adivinhado, que,
tornada popular a poesia, devia o drama vir a ser a sua mais completa
expresso. Se no logrou seus desejos, segredo foi de cima. No quis
Deus que essa mente gigante viesse ajudar-nos a evangelizar a nova
religio da arte com a eloquencia da palavra, e com a mais vehemente
ainda, de obras dignas da immortalidade.

Vistes, Senhores, o nosso fallecido consocio--lidando por honrar as
letras portuguesas, e restaurar o theatro; viste-lo consagrando  poesia
os annos proprios d'ella porque so os do imaginar; ve-lo-heis agora
applicando na edade madura a meditao, a energia do seu vigoroso
talento, e a experiencia alcanada no servio da patria, a estudos
positivos, ao desenvolvimento das mais graves questes sociaes. O poeta
affectuoso, delicado, harmonioso, converteu esse ingenho de que a
natureza to prodigamente o dotara,  philosophia politica, e nesta nova
carreira do mundo positivo, quasi posso dizer, escureceu a reputao que
anteriormente adquirira no mundo da idealidade.

Foi na sua demorada rezidencia na banda oriental das nossas desprezadas
colonias africanas, como governador de Moambique e dos vastos
territorios adjacentes, que o Sr. Botelho colligiu os apontamentos e
noticias para a sua Memoria estatistica sobre os dominios portugueses na
Africa Oriental. Juiz incompetente, nada direi, Senhores, quanto 
materia do livro: escripto por um homem da capacidade do Sr. Botelho, e
talvez em grande parte naquellas mesmas provincias, facil  de suppr
qual seja o seu valor intrinseco. Violentamente acommettida a obra em um
dos principaes periodicos litterarios d'Inglaterra, a Revista
d'Edimburgo, tal e to cerrada de razes e provas foi a resposta do Sr.
Botelho, que no houve mais replicar, no sei se com quebra do orgulho
ingls. Acrca da doutrina do livro,  esta em meu intender a mais cabal
defenso.

O que porm, naquelle precioso volume chega a causar uma d'essas invejas
que no deshonram, porque so nobres e honestas,  o estylo e a
linguagem d'elle. To sua tinha feito o Sr. Botelho esta formosa lingua
portuguesa, to elegante e fluente  o seu descrever e narrar, que
difficultosamente lhe levaro vantagem os nossos principaes prosadores.
Ha no livro do Sr. Botelho uma circumstancia que muitos teem notado:
paginas inteiras das relaes dos naufragios, principalmente das que
escreveu o celebre Diogo do Couto, se acham ahi reproduzidas
textualmente. Estas paginas, o mais exercitado leitor do Couto no ser
capaz de as distinguir entre as do nosso illustre consocio, to
irmo-gemeo  o seu estylo e linguagem com os d'aquelle admiravel
historiador. Ou esse apparente plagiato fosse uma prova incontestavel,
que o Sr. Botelho nos quisesse dar, de que o seu talento e saber o
egualavam com os nossos melhores classicos, ou fossem reminiscencias
involuntarias (que no precisava elle d'alheios haveres para ser
abastado)  indubitavel que tal circumstancia basta para caracterizar a
alteza a que chegara como prosador aquelle de quem como poeta dissera
Bocage:

O solemne idioma, o tom dos numes,
A voz que longe vai, que longe sobe,
Que sa alm do mundo, alm dos tempos.

Esta importante Memoria foi coordenada e concluida no periodo que
discorreu desde 1828 at 1833, em que o Sr. Botelho esteve inteiramente
afastado dos negocios publicos. Precedeu pois a sua composio aos
opusculos politicos do nosso fallecido consocio, por isso a mencionei
primeiramente. Estes opusculos so, a Carta a S. M. I. o Duque de
Bragana, impressa em Londres em 1833, e as Reflexes Politicas
publicadas successivamente no seguinte anno. Escriptos com a singeleza e
sincera liberdade de homem que sentia bater dentro do peito um corao
portugus, esses opusculos so, litteralmente considerados, uma nova
cora para o Sr. Botelho pela gravidade do estylo e pelo pensar profundo
que nelles transluz. Versam sobre importantes successos da poca em que
foram publicados. Nesse tempo de paixes violentissimas, taes escriptos
pareceram talvez revelar em seu auctor demasiado apego s coisas do
passado, e ainda hoje assim parecero a muitos. Todavia, confesso-vos,
Senhores, que no vejo eu ahi seno novos motivos de venerar a memoria
do nosso illustre consocio, e de admirar a sua consummada prudencia, e o
seu amor de patria.  um filho extremoso que treme e desmaia vendo
applicar a seu pai velho e infermo, medicina violenta, que pde salv-lo
ou arremess-lo ao tumulo. E quem ousaria condemnar receios e hesitaes
de um filho, nesse arriscado momento?

A epoca de 1833 foi a unica epocha revolucionaria porque tem passado
Portugal, neste seculo. Nem antes, nem depois, quadra tal epitheto aos
successos politicos do nosso pas; porque s ento foi substituida a
vida interina da sociedade por uma nova existencia. As fras sociaes
antigas desappareceram para dar logar a novas foras; destruiram-se
classes; crearam-se novos interesses, que substituiram os que se
anniquilaram: os elementos politicos mudaram de situao.--Podia esta
mudana fazer-se lentamente e sem convulses dolorosas, ou cumpria que a
revoluo fosse rapida e energica? Nem saber, nem vontade tenho eu para
o resolver. O Sr. Botelho julgou que o mais conveniente methodo era o
primeiro; disse-o sinceramente, e procurou prov-lo. Eis a substancia do
que nesses opusculos pde parecer menos progressivo a esses cujo
espirito vai aps o futuro. Mas, na verdade, nem um s dos grandes
principios de reforma, que ento se converteram em factos, foi combatido
pelo Sr. Botelho. A questo que elle tractou era a do tempo, e era a
prudencia quem movia a sua penna. As diligencias para conter o rapido
desabar das velhas instituies e costumes, era dever dos homens, cuja
edade grave e capacidade extraordinaria abonava d'experimentados.
Inquieto e ardente  por natureza o espirito da mocidade neste seculo de
grandes idas e de grandes transformaes. Aos velhos, aos que, melhor
que ns mancebos, conheceram a sociedade que expirou, incumbe
apontar-nos o que ella tinha respeitavel e bom, e o que ha em nossas
opinies exaggerado ou perigoso, e a ns incumbe escut-os com respeito.
Esses homens falam-nos com a mo sobre o corao, porque entre elles e o
julgamento de Deus, e da posteridade medeia s a grossura de uma loisa.
Elles nos admoestam encostados  borda da sepultura, e raro ser que at
l a hypocrisia ou a lembrana de mesquinhos proveitos acompanhem os que
viveram sem mancha uma larga vida. Solemnes e venerandas julgo eu as
palavras da velhice, porque a velhice  uma especie de sacerdocio, e
quando o ancio se ergue para soltar um brado de reprovao, se
escutarmos esse brado, elle poder contribuir mais para o verdadeiro
progresso do que se os ultimos homens da sociedade extincta saudassem
covardemente a victoria das novas idas; se caminhando para a morte,
imitassem os gladiadores de Roma, nos circenses do triumpho, que nesse
momento supremo saudavam os Cezares vencedores com aquellas horriveis
palavras: Salve, Cezar! Os que vo morrer te sadam! Arriscar-se-a
com isso a ser despenho o nosso progresso, e ao despenho segue-se ou o
perecer no abysmo, ou um doloroso retrogradar.

Considerados a esta luz, os opusculos politicos do Sr. Botelho no so
mais que o complemento de dilatados trabalhos encaminhados
constantemente ao aperfeioamento intellectual dos seus compatricios.
Poeta na mocidade, bem mereceu da arte: historiador e estadista na edade
grave, mais bem mereceu da patria por escriptos proprios d'essa pocha
da vida. Ns que o tractmos, que o vimos no meio de ns, que com
saudade nos lembramos do seu mrito, fazemos-lhe inteira justia.
Far-lha-ha tambem a posteridade--e mais completa; porque se como homem
da arte e da sciencia to honrado nome deixou entre ns, que ser para o
mundo, que alm d'essas razes de lhe venerar as cinzas, tem a rica
herana dos exemplos de virtudes domesticas, d'amor de patria, de
servios ao estado, emfim de um nobre proceder--como homem, como pai de
familia, e como cidado? Os vindouros, que no ns, poro o cimo e
remate ao formoso monumento da sua glria.--_Disse_.




*D. Maria Telles*

DRAMA. EM CINCO ACTOS

PARECER

Memorias do conservatorio

1842




*D. Maria Telles*

DRAMA EM CINCO ACTOS

PARECER


A Seco de Litteratura encarregada por vs de dar um parecer que sirva
de texto  discusso dos meritos ou demeritos do drama--_D. Maria
Telles_--que concorreu aos premios, offerecidos por este Conservatorio
para animar os nossos auctores dramaticos; vem apresentar-vos por minha
interveno as reflexes que lhe occorrem sobre a materia, e que
rectificadas e ampliadas pelas dos outros membros d'esta Academia, devem
produzir a final um juizo prudente e acertado que sirva no s para em
especial determinar o valor litterario d'esta composio, mas para
illustrar os noveis que commettem to difficil genero de litteratura.

_D. Maria Telles_-- um drama historico--historico ao menos na inteno,
de seu auctor.--A aco e a poca escolhida pelo poeta,  bem conhecida.
A historia da formosa irm da nossa Lucrecia Borgia--de D. Leonor
Telles-- uma d'aquellas biographias que encerram um s facto; mas que
por esse facto so perpetuamente celebres. No ha ninguem que ignore com
que arte infernal a adultera D. Leonor sabia obter sempre a satisfao
das suas paixes: entre estas houve uma que era pura, o unico pensamento
sancto e suave que mora no corao d'essas hyenas com gesto humano
chamadas Telles ou Borgias, as quaes felizmente raro apparecem no mundo.
Este affecto era o amor materno. Devia ser vivo e profundo, se o
avaliarmos pelos crimes que D. Leonor commetteu para segurar na cabea
de sua filha D. Beatriz a coroa de D. Fernando, que se cria seu pai e
que talvez o seria. O Infante D. Joo era um obstaculo que podia
oppor-se aos intentos d'aquella mulher diabolica. Como livrar se
d'elle?--Convertendo-o em um grande criminoso. Foi ento que para o
perder lhe soprou na alma as duas paixes mais ferozes do corao
humano--a ambio e o ciume--e D. Maria Telles foi assassinada pelo
marido porque D. Leonor precisava do seu cadaver para calar a estrada
por onde D. Beatriz devia subir ao throno.  este assassinio o desfeixo
a que nos conduz o drama: os acontecimentos que o prepararam so a tela
onde se desprega o lavor da imaginao do poeta.

Os caracteres introduzidos neste drama so o de D. Maria Telles; o do
Infante D. Joo: o de D. Lopo Dias de Sousa, filho de D. Maria e de seu
primeiro marido: o de Garcia Affonso, Commendador d'Elvas; o de Joo
Loureno da Cunha, marido de D. Leonor Telles; o de D. Fernando I; o de
D. Leonor; o de Vasco, pagem de D. Leonor, e o de Fr. Soeiro, Director
espiritual, segundo parece, de D. Maria Telles. Um carcereiro, Damas,
Cavalleiros, povo, constituem isso a que se chama cheios, comparsas, ou
personagens mudos.

No se pde na verdade negar ao auctor d'esta composio uma grande
ousadia litteraria em ajuntar no seu quadro tantos vultos difficultosos
de desenhar, e que por ventura seriam rebeldes aos pinceis de grandes
mestres. Vejamos como elle resolveu o seu problema dramatico
relativamente aos caracteres principaes.

D. Maria Telles era uma formosa viuva, de quem o Infante D. Joo se
enamorou. Os affectos do Principe s acharam correspondencia quando
prometteu casar com ella, e o casamento effectuou-se, porque a paixo do
Infante era ardente, mas d'esse ardor um tanto brutal proprio de uma
Crte dissoluta como a de D. Fernando, e d'uma pocha em que o amor
demasiadamente metaphysico nos escriptos dos trovadores, era asss
grosseiro na realidade dos costumes. As probabilidades todas so que
similhante consorcio foi do lado de D. Maria Telles um calculo
d'ambio, e do lado do Infante um meio de satisfazer seus desejos. Isto
 o que resulta da historia. Mas o auctor podia substituir este
argumento historico pelo de um amor talvez mais lyrico, mas por ventura
no mais dramatico. O que no devia era dar a esse amor a frma e
expresso que lhe deu. Expliquemo-nos.

D. Maria Telles no era uma donzella na primavera da vida: era uma dona
entrada j naquella edade a que se pde chamar o outono da formosura. O
auctor nesta parte acceitou o argumento da historia, introduzindo no seu
drama o Mestre de Christo, mancebo de dezoito ou vinte annos, filho de
D. Maria Telles. Forosamente esta passara por isso o vio da mocidade.
O seu amor portanto devia ser intenso, mas grave: revelar-se
profundamente nos factos e muitissimo pouco em discursos. Devia ser um
amor que no tarda a transformar-se em amizade; que, por assim dizer,
comea a ter pudor do si mesmo, porque as illuses da juventude teem
quasi todas passado. Difficil  na verdade o pintar esse affecto severo
e intimo; mas se j deixou de ser um merito vencer difficuldades
inuteis, ainda  restricta obrigao do poeta o conhecer as phases do
corao humano, e no as desmentir jmais porque a natureza  immutavel.
O auctor sentiu ao que parece confusamente a verdade d'esta observao;
quis dar gravidade ao caracter de D. Maria Telles: no lhe deu seno
tristeza. Tristeza tanto quando se vai desposar com o Infante como
depois que elle comea a afastar-se d'ella, e a dar-lhe no equivocos
signaes de desamor. Porque est ella triste at  morte, segundo a
expresso de Job, quando se approxima aos altares?  por certos
presagios;  por sonhos;  por certo dizer do corao;  por vergonha
que tem de seu filho. Afora a ultima, nenhuma d'estas razes 
verdadeira, dramaticamente, e a tristeza fica inexplicavel, porque o
pudor no  melancolia. Sereno devia ser o seu contentamento; mas devia
ser contentamento. No era nessa afflico e lucto infundados que podia
revellar-se a gravidade do caracter de D. Maria Telles, quando por outra
parte todas as palavras d'esta mulher affectuosa, como o auctor a quis
pintar, s condizem com o amor dos vinte annos que se dilata impetuoso
at aos extremos horizontes da vida. Seno nos enganamos o caracter de
D. Maria Telles est falsificado em relao  historia, e o que mais 
em relao  natureza.

O caracter do Infante apenas se pde dizer que existe: no primeiro
apparece para dizer a D. Maria Telles que muito a ama. Das suas palavras
no resulta individualidade; repete o que em similhante materia se diz
desde o principio do mundo. No terceiro acto onde torna a apparecer, 
ameaado e affrontado por Joo Loureno da Cunha, e fica impassivel,
salvo quando este, provavelmente aborrecido de tanta tranquillidade,
volta as injurias e feros contra D. Leonor que est tambem presente. 
ento que o Infante arranca da espada; mas el-rei acode: um dialogo se
trava entre este e Joo Loureno. E o Infante? No sabemos mais d'elle,
seno no V acto em que j quasi persuadido de que sua mulher  infiel,
encontra as provas suppostas d'essa infidelidade. Desde este momento no
 mais possivel o desenhar D. Joo; porque a furiosa cholera que o
domina o torna necessariamente similhante a qualquer outro homem em
situao analoga. A honra offendida pede sangue;  um pensamento
doloroso moralmente necessario  situao que depois d'isso actua no
drama, no a individualidade d'um homem. Onde est portanto o caracter
do infante?

E todavia esse caracter l tinha os seus principaes lineamentos traados
nos capitulos 98.^o e 99.^o da chronica de D. Fernando pelo grande
poeta-chronista Ferno Lopes. O genio aventuroso, folgazo e ousado, do
filho de D. Ignez de Castro, estudados nesses traos do grande mestre,
dariam facilmente a individualidade do personagem ao auctor de--_D.
Maria Telles_--e por certo que essa individualidade variando a monotonia
dos caracteres produziria maior contraste, e por consequencia maior
effeito no terrivel desfeixo do drama.

A monotonia dos caracteres dissemos ns. A monotonia na inveno  na
verdade o principal defeito d'esta composio. Ha ahi quatro ou cinco
vingativos, quatro ou cinco vinganas empastadas por toda ella. Vinga-se
o Infante de sua mulher, de quem tambem se vinga o Commendador d'Elvas,
cujo amor ella desprezara. Joo Loureno quer vingar-se de D. Leonor: D.
Leonor de quasi toda a gente. D'esta identidade de situaes moraes
forosamente devia resultar esse capital defeito.

Os dois caracteres que nos parecem individuados so o de D. Leonor e o
do D. Lopo Dias. D. Leonor  a mulher successivamente hypocrita e
insolente: vil e orgulhosa; pobre de crenas moraes, rica de paixes
violentas.  a D. Leonor da historia, salvo em uma ou outra scena;  o
vulto principal do drama. D. Lopo  mancebo, poeta e triste como sua
mi, mas sobram-lhe para isso razes. O mesquinho est phtysico, pelo
que se collige das suas palavras. Molestia  esta que tem levado muito
poeta imberbe  sepultura. Feliz ainda no meio de seus males, a
afflico pulmonar que o consome  chronica e por isso lenta, por tal
arte que esperando elle morrer j no primeiro acto, ainda no quinto,
(cujos successos so posteriores mais d'um anno, aos do primeiro) D.
Lopo vive, e ao car o panno fica de saude, no perfeita; mas da saude
que  compativel com a existencia de tuberculos pulmonares. Apesar de
que a phtysica no parea coisa excessivamente dramatica e possa ter
algum perigo de ridiculo no theatro,  certo que essa vida cuja
distancia da morte a victima pde quasi exactamente medir: esse caminhar
para o sepulchro por uma estrada onde no ha de retroceder, e na qual
no passa hora ou momento em que a campa seno contemple erguida e
immovel no horizonte: esse oratorio peior que o do sentenciado, porque
dura meses emquanto este dura apenas tres dias; tudo isso  tremendo e
solemne, e o verdadeiro poeta poder achar nas phases da longa e cruel
agonia do phtysico situaes dolorosas e terribilissimas. Alexandre
Dumas as achou num dos seus melhores dramas. Seguiu-o de longe o nosso
auctor, mas nem por isso deixa este caracter de ser um dos mais bem
sustentados em--_D. Maria Telles_.--Os affectos de Lopo Dias so
generosos e puros: teem certa brandura de resignao, certa saudade de
quem pela esperana vive j num mundo melhor, mas que ainda pela
affeio filial est preso s tristezas da terra. Este personagem  na
verdade possivel e poetico, absolutamente falando. O seu unico defeito 
o commum a todos;  no representar a pocha a que o poeta que o creou
quis que elle pertencesse.

Os outros caracteres do drama ou so nullos, ou reflexos mais ou menos
pallidos dos que ficam avaliados. Os sentimentos de vingana que
subjugam D. Joo Loureno da Cunha e o Commendador d'Elvas, tornam
confusos os traos de um com os do outro, apesar das diligencias que o
auctor fez para lhes variar as situaes; confuso esta que se augmenta
com a analogia que ha entre ambos e os de D. Leonor e do Infante. Fr.
Soeiro  perfeitamente nullo; e Vasco, seide de D. Leonor,  um caracter
que no pode fixar-se por demasiadamente transitorio, posto que
fortemente concebido. Se tivesse passado de um esboo seria talvez o
mais dramatico de todos elles. Isabel emfim  a eterna confidente do
theatro classico, cuja utilidade dramatica foi,  e ser sempre passiva;
substituio impertinente do monologo; especie de titere que se deixa
mover  merc do auctor, e que por mais que fale, se esfora ou chore,
por via de regra, serve tanto para o andamento da aco como as pols em
que se movem os bastidores.

Notmos acima que os personagens d'este drama no representam a poca a
que historicamente pertencem:  este depois do uniforme, e confuso dos
caracteres o maximo defeito d'elle. Nesta parte accrescentaremos algumas
consideraes que no parecero inteiramente inuteis para os cultores
principiantes d'este genero de litteratura. A epocha dos reinados de D.
Fernando e D. Joo I  incontestavelmente a mais dramatica da historia
portuguesa. So-no os factos politicos e a vida civil d'esse tempo: as
pessoas e as coisas. A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza,
porque as instituies feudaes que se haviam misturado com a nossa
primitiva indole social, tinham tocado ento a mta do seu predominio:
quando j a sua dilatada agonia comeava no resto da Europa: o povo dava
signaes exteriores de que existia, e existia robusto; a monarchia
exgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a
aristocracia na vespera de dar principio ao duello de morte para que ia
rept-la, e que devia durar cem annos. Nestes dois reinados operou-se
uma transformao nacional: o fim do seculo XIV foi um periodo
revolucionario: revolucionario no tanto para as pessoas como para as
coisas; os elementos da vida social foram ento chamados a uma grande
lucta, e, como acontece sempre em similhantes situaes, tanto os que
deviam ser vencidos como os que haviam de ficar vencedores combateram
energicamente. Os grandes vultos historicos d'esse tempo--os personagens
extraordinarios, diriamos quasi homericos, que ento surgiram--os
caracteres profundamente distinctos, e altamente poeticos, quer pela
negrura, quer pela formusura moral:--todos nasceram da situao social
do pas: foram o resultado e o resumo d'esta, e por ella smente se
podem comprehender, avaliar e explicar. Se porm essas imagens to
aproveitaveis para a arte, forem arrancadas do quadro em cujo cho e luz
appropriados a ellas, unicamente se devem contemplar, ficaro
convertidas em desenhos de morte-cr, e o que mais , perdero os seus
lineamentos caracteristicos; sero abstraces; sero quando muito
objectos d'estudo para a physiologia das paixes: sero representantes
do genero humano em geral, mas nunca de uma gerao, de uma poca, e
d'um pas: daro materia para o drama metaphysico, para o drama como o
conceberam Goethe em _Ferv_ e _Betly_ ou na _Filha Natural_, e Byron no
_Manfredo_; porm no para o drama historico, para o drama que se
incarna na realidade, para o drama que no  um poema lyrico como a
_Athalia_ ou uma amplificao brilhante como _Mahomet_, mas uma obra
d'arte que toma por expresso a vida humana, e que  destinada para a
scena.

O titulo do drama historico dado s composies mais notaveis neste
genero, que no seculo passado e no presente tem apparecido na Europa,
como _Goetz_, _Wallensteim_, _Hernani_, e tantos outros, no foi uma
phantasia ou capricho dos eminentes poetas que as produziram ou dos
criticos que as julgaram. Este titulo corresponde a uma realidade:
representa uma theoria litteraria verdadeira e nova substituida a outra
velha e falsa. O theatro antigo por via de regra era uma abstraco: os
seus personagens so vultos por assim dizer desenhados na atmosphera, e
que se movem nos raios do sol; no pisam a terra; no choram nem folgam
humanamente; no descendem como ns de Ado; no esto sugeitos seno a
certas condies da vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter de
um tyranno, chamava-lhe Nero; de um voluptuario, chamava-lhe
Sardanapalo; de uma incestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypocrita
feroz, chamava-lhe Mahomet. Podia chamar-lhes outra qualquer coisa;
buscar na historia ou fra d'ella outros quaesquer nomes. _Constei
sibi_: eis o que exigia d'esses caracteres a philosophia da arte.
Satisfeita esta condio bem pouco importava se o personagem era romano,
syro, grego, ou arabe. _Constet sibi_.--Pouco importava se as suas
dimenses eram humanas. _Constet sibi_. Pouco importava quaes haviam
sido as crenas, as condies da vida civil, os varios aspectos emfim da
sociedade e da poca em que o individuo que se arrastava para o theatro
tinha vivido, e que forosamente deviam modificar-lhe de certo ou certo
modo as paixes ou os affectos, o pensar intimo ou o porte exterior.
_Constet sibi_: era o que lhe pedia a arte antiga. E na verdade no era
pedir muito. A arte moderna que os ingenuos e innocentes defensores do
passado accusam de licenciosa pe apenas mil vezes mais duras condies
aos seus sacerdotes; porque alem da constancia dos caracteres
dramaticos, exige nestes circumstancias, que s o muito estudo e um
ingenho profundamente synthetico pde fazer que se liguem s obras
filhas da imaginao do poeta.

Se to leves de soffrer foram outr'ora as condies dramaticas quanto
aos caracteres, escusado parece dizer que foram nullas quanto 
phisiologia intima do drama. Malbaratou-se toda a esthetica dos antigos
nas frmas materiaes e externas d'elle, na anatomia dos ossos e
cartilagens. Os escriptores _licenciosos_ do seculo presente sentiram
no tanto que esta anatomia era erronea, apesar de o ser muito, quanto
sentiram que era incompletissima. Posto o principio incontestavel de que
o drama no  mais do que a arte vasada no molde da vida social, tiraram
o corollario foroso de que era preciso primeiro que tudo estudar esta,
e exclusivamente esta. A arte no se estuda; porque a arte  o ideal, e
o ideal vem de Deus;  uma inspirao: o que se estuda so as formulas
materiaes em que ella se revela, os typos em que se resume; para que
estes possam ser claros e definidos como meios de communicao entre o
poeta e o mundo. No drama a historia  a expresso da arte,  a voz
articulada do homem inspirado. Elle deve por isso saber perfundamente a
historia da pocha e do povo que vai alevantar do sepulchro, para servir
d'interprete entre elle e as geraes que ho de escutar as suas
revelaes de poeta.

Se os antigos pudessem ter adivinhado e seguido esta _licenciosa_
theoria, os seus estudos no houveram sido apesar d'isso nem largos nem
custosos. A historia era falsa como a arte. Reduzia-se a biographias
soltas e incompletas; era tambem um aggregado d'abstraces; resumia-se
nos factos politicos. A vida social passava desconhecida: o povo
desapparecia nas sombras gigantes que derramavam em volta de si os
homens eminentes. Ao passo, porm, que a arte se reconstruia,
reconstruia-se a historia. Ao lado de Goethe e Schiller apparecia Herder
e Muleer; ao lado d'Hugo, Guizot e Thierry. Ambas as refrmas se viram e
vem obrigadas a refutar o passado com as razes e com o exemplo. Mas o
poeta  constrangido a encerrar-se na poca e no pas cuja historia se
acha escripta por um systema racional, ou a ser ao mesmo tempo
historiador e poeta, tarefa difficil debaixo da qual poucos hombros
deixaro de vergar; mas que  indispensavel leve a cabo aquelle que
quiser incarnar a sua obra dramatica na historia do passado, sob pena de
cair no convencional e incompleto do antigo theatro, porque no basta
sacudir o jugo dos preceitos pueris das poeticas para escrever o drama
historico: importa redigir-lhe a formula, e esta no est em achar
quatro datas, e seis nomes illustres, mas na resurreio completa da
epoca escolhida para nella se delinear a concepo dramatica. Primeiro
que tudo, importa que essa epoca se alevante, como Lazaro  voz ele
Jesus, cheia de vigor e de vida.

 de lamentar que os nossos mancebos, esperanas da litteratura patria,
prefiram ordinariamente as epocas historicas que passaram para nellas
traduzirem ao mundo os fructos do seu ingenho dramatico, tendo alis
para isso a vida presente que tambem  sociedade e historia. No seria
melhor que estudassem o mundo que os rodeia, e que vestissem os filhos
da sua imaginao com os trages da actualidade? No lhes era mais facil,
mais agradavel at, este estudo feito no meio dos banquetes, dos bailes,
das conversaes, do ruido, do presente, no qual os leva
irresistivelmente a lanarem-se a superabundancia de vida, o fogo da
mocidade? Muito se enganam elles, crendo que acham a historia em alguns
pobres livros historicos que por ahi existem. No: a historia no est
l! No, vs no achastes a formula material para a vossa idealidade; o
vosso drama  a viso infernal mas ridicula de Perrault;  a sombra do
cocheiro que alimpava a sombra de uma carruagem com a sombra de uma
escova. Na vossa obra no ha drama porque na sua forma externa no ha
realidade, e a expresso  o real. Para achar este cumpre ter o estamago
e os braos robustos, os orgos do olfacto endurecidos, a paciencia de
ferro, porque  preciso revolver a grande lagem que cobre o cadaver do
passado;  preciso aspirar o p do sepulchro, deslizar prega por prega o
sudario apodrecido das geraes extinctas:  preciso contemplar as
formosuras das sociedades que se transformaram ou pereceram mas tambem
apalpares cancros que as devoraram:  preciso contemplar seus monumentos
sublimes de marmore; mas tambem ler lentamente os quasi apagados e
barbaros caracteres dos seus pergaminhos, e as obscuras, tediosas e
incertas sentenas da sua legislao;  preciso viver com os grandes
d'outr'ora em seus paos esplendidos, mas assistir tambem s miserias e
agonias dos pees, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior
malaventurado. Tudo isto  necessario, sem contar o grande e fatal risco
de perderdes neste rude trabalho o que vale mais do que elle--a
imaginao e a poesia. Deixai que outros a quem alguma vocao fatal
leva para este genero de estudo, o mais tedioso talvez de todos, vos
reconstruam os tempos que se dissolveram em pedaos. Ento podereis
livremente escolher a urdidura da vossa ta, e bord-la com os ricos
matizes das vossas inspiraes.

Que resulta de se escolherem para objectos de composies dramaticas
successos e individuos pertencentes a uma gerao e a uma sociedade cuja
indole e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro
antigo; fazer abstraces, e desmentir a verdadeira arte.  o que
succede em--_D. Maria Telles_.--Ponham-se ahi em vez d'esses nomes to
conhecidos do fim do decimo quarto seculo, signaes algebricos: cortem-se
todas as alluses aos acontecimentos politicos ou pessoas notaveis
d'ento, e o drama pertencer  epoca e ao pas que nos approuver. E
porque? Porque falta ahi a individualidade portuguesa d'ento: faltam o
crer, os costumes, as relaes sociaes d'essas eras. E sendo isto assim
poder-se-ha dar a--_D. Maria Telles_--o titulo de um drama historico,
que evidentemente quis seu auctor se lhe dsse?

Julgmos ser nossa obrigao dilatar-mo-nos nestas consideraes sobre
duas partes importantissimas de qualquer drama--os caracteres, e a cr e
verdade historica e local, porque  preciso confessar que depois da
restaurao do nosso theatro,  sobre estes dois pontos que a critica
litteraria attenta em demasia a averiguaes, sobre a correco de
lingua, tem sido asss negligente e escaa. Resta agora examinarmos com
a brevidade possivel a disposio ou enredo do drama, a propriedade do
seu estylo, e a pureza da sua linguagem. A traa do drama  a seguinte.

Primeiro acto.--O Infante D. Joo est a ponto de desposar-se com D.
Maria Telles. Esta o espera no castello de Barcellos, onde a ceremonia
do casamento deve celebrar-se a occultas, e alta noite, a despeito dos
sagrados canones. A boa dona possuida de uma tristeza inexplicavel est
acompanhada da sua confidente e ora na capella, onde se v o tumulo do
seu primeiro marido. Por Isabel manda chamar Fr. Soeiro para que venha
anim-la e consol-la, e fica sozinha. Chega seu filho D. Lopo Dias, D.
Maria Telles lhe escondera o negocio do casamento, mas elle o aventara
no sabemos como, nem o auctor o diz. Queixas do filho porque fica
desamparado; razo tinha, attento o seu estado de phtysico. Promessas da
mi, de que toda a familia ficar junta, por que elle Lopo Dias e o
Infante so os seus unicos amigos. _Ainda tendes outro_, lhe brada um
cavalleiro de armadura negra e viseira callada que apparece  porta da
capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que entra. D. Lopo pergunta-lhe quem
: resposta; _sou um defensor de vossa mi_. D. Lopo diz que lhe fica
muito obrigado mas que ella no precisa de defensores. Insiste o
desconhecido porque D. Leonor ha de persegui-la. Isso  a mim que
toca:--acode D. Lopo. Com bom fundamento o affirmava, e por isso o
cavalleiro no acertando a replicar-lhe vai-se ao tropheu d'armas que
est sobre o tumulo de Alvaro Dias, pega na espada do defuncto e
entrega-a ao mancebo recommendando-lhe que se mostre digno d'ella. A to
bom conselho no havia fazer reparos. D. Lopo promette dar-lhe o devido
uso. Ento o cavalleiro sai, no sem offerecer a D. Lopo o seu brao e
espada para qualquer lano apertado; j se sabe sem dizer quem  ou onde
mora. Ido o cavalleiro, D. Maria pergunta ao filho quem seria aquelle
homem, era melhor ter-lho perguntado a elle. Se o conhecesse como as
suas mos D. Lopo no responderia mais confiado: _ um homem que vos
ama, e que vigia sobre vs_. No diz isto porque o conhea: mas porque o
sabe ab alto, a proposito do que vem uma dissertao sobre o dom
d'adivinhar que teem os phtysicos. Saindo Lopo, volta Isabel com Fr.
Soeiro: scena inutil.--Chega ento o Infante, acompanhado do Commendador
d'Elvas; colloquios amorosos. O Commendador Garcia Affonso nas visagens
que faz, nos  partes que murmura mostra a raiva que lhe accende na alma
o affecto dos dois conjuges, que finalizam o acto ajoelhando junto ao
altar provavelmente para receberem a beno matrimonial de Fr. Soeiro.

Este acto, afora a inutilidade da scena VI, involve grave falta de
probabilidade. Como pde um cavalleiro desconhecido entrar de viseira
callada e depois da meia noite na capella de um castello do seculo XIV?
Como rodou a ponte levadia para lhe dar passagem? Que fazia o madrao
do alcaide; que faziam os vigias das quadrellas, roldas e sobre roldas,
que assim deixavam devassar a boa fortaleza d'el-rei de Portugal? Como
entrou esse homem? Eis o que o auctor no diz, nem lhe fra facil
diz-lo. Depois,  acaso natural que D. Maria Telles nem sequer deseje
conhecer quem elle ? Homem que fosse, no descansaria sem o saber,
quanto mais sendo mulher! D. Lopo indaga na verdade quem elle seja; mas
contenta-se com uma resposta evasiva, e consente que o incognito lhe v
buscar a espada de seu pai, e lh'a entregue com a comminao de que ha
de fazer bom uso d'ella. O melhor uso que D. Lopo naquelle momento podia
fazer d'esse ferro era pr-lho aos peitos para o obrigar a erguer a
viseira. Sua mi vai celebrar um casamento occulto, e  quasi na hora
prefixa para a ceremonia que elle tolera venha um desconhecido devassar
a capella, sem o obrigar a descobrir-se? A theoria de que os phtysicos
adivinham ser muito boa e verdadeira; mas a palhologia ainda no chegou
a atinar com essa circumstancia nas affeces pulmonares, e os
espectadores no podero admittir a razo com que o auctor por bocca de
D. Lopo pretende desculpar a inverosimilhana de tal procedimento, isto
, que elle j tem o que quer que seja d'alma do outro mundo, e que por
isso sabe que o desconhecido  pessoa de confiana. O antigo theatro s
consentia milagres em casos apertadissimos. _Nec Deus interrit nisi
dignos vindice nodus_. A licenciosa eschola moderna em nenhum admitte
taes meios, quer seja para conduzir o drama, quer para desfeixo d'elle.
Natureza e verdade so os seus unicos elementos.

Segundo acto.--Tem passado um anno. D. Maria Telles est em Coimbra com
seu filho, e o Infante que j comea a esquecer-se de sua mulher anda na
crte. D. Lopo faz versos e carpe-se: D. Maria carpe-se e ouve-lh'os
declamar. Mas como lagrimas e versos continuados so duas grandes
canseiras, a pobre dama abandonada convida seu filho para irem
espairecer suas maguas pelas margens do Mondego. A isto acode D. Lopo,
que  melhor irem ao monte visitar a caverna do solitario.--Qual
solitario? Logo o sabereis. D. Maria Telles faz suas objeces: a
caverna do referido solitario ou _homem dos mysterios_ tem m nomeada:
ninguem se atreve a chegar perto d'ella: a isto acode o poeta, com dizer
que todos esses medos so sandices do vulgo, e que l por certos
barruntos que elle tem, adivinha que o solitario  pessoa de porte e de
bondade. Desassombrada de seus temores D. Maria est a ponto de sair eis
seno quando chega o Commendador d'Elvas com uma carta do Infante. Roto
o fecho da carta com o punhal de Garcia Affonso, D. Maria l o contheudo
d'ella em voz baixa. A boa da carta era fria, fria como glo: nem uma
palavra affectuosa! Apenas lhe diz sua merc o Infante que no pode ir a
Coimbra, demorado na crte por negocios d'alta monta. Desesperao de D.
Maria que sente por isto que vai morrer. Porque? Porque D. Joo, marido
j de um anno, e preoccupado por graves negocios, no lhe escreve uma
carta de amores, e no lhe declara que negocios so esses que lhe
embargam os passos. Vr a morte diante dos olhos; ficar desesperada por
tal motivo seria loucura d'uma rapariga de vinte annos, mas em uma dona
de trinta e seis  uma inverosimilhana inadmissivel. Se todas as
mulheres casadas de mais de um anno morressem por no serem as cartas de
seus maridos ausentes adubadas de amores e requebros: a proporo das
viuvas com o resto da populao seria mais descommunal e espantosa do
que em Inglaterra a dos que morrem de fome com os que teem que comer.
Quanto ao segredo que o Infante guarda sobre os negocios que o reteem,
razo tinha D. Maria Telles, porque mencion-los sem os particularizar,
era fazer nascer desejos vos  insaciavel curiosidade feminina, e
todavia no podiam ser materias d'estado esses negocios?--no podiam ser
coisas que nada importassem a D. Maria? Para um desmaio ainda a carta
teria substancia se a dama fosse uma rapariguinha; mas para agonias
mortaes em uma dona sisuda, como lhe chama Ferno Lopes, no havia ahi
motivo. Por uns longes que se enxergam em dois  partes do Commendador
v-se que foi elle quem armou esta negregada inveno da carta, e que
folga com o effeito d'ella. Se o auctor do drama tivesse concedido a D.
Maria Telles mais uma mealha de senso commum, Garcia Affonso no teria
mostrado ser na tal inveno da carta, seno um solemnissimo mentecapto,
se a sua inteno era, como elle diz num monologo, vingar-se d'ella e do
Infante.

Lida a carta, D. Maria chama o filho para irem visitar o solitario,
porque s nelle poder achar consolaes. Pois que tem o solitario (de
quem ella ha um instante tremia de medo) com o desamor de D. Joo? O
poeta, que fra o movedor d'esta ida est prestes, e l vo ambos por
montes e valles em cata do mysterioso anachoreta.

No tardam muito a encontr-lo.  apenas o tempo necessario para a
mutao da scena, cair e levantar-se o panno; no para mudana de acto,
mas de quadro. O solitario est na caverna falando a ss comsigo. De seu
dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e no podendo obt-la
por ser j casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irm D.
Leonor, que o deixou para subir ao throno. , portanto, o eremita--Joo
Loureno da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a
morte e sonhar vinganas, o que no  a mais approvada disposio moral
para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo.  neste
ponto que chegam Lopo Dias e sua mi. lista apenas entra, diz-lhe que
vem trazer-lhe consolaes. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a
ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou
na vida eremitica por desventuras e no pelo arrependimento de seus
peccados? Quem lhe d a certeza de que poder consol-lo, ella que no o
conhece, e que no sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe
consolaes?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de
casa? Que vinha pedir e no offerecer consolo. Disse uma coisa sem
sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da
offerta e com razo. Affirmando-se porm na recem chegada, reconhece-a,
e ella reconhece-o a elle.--Explicaes mutuas. Joo Loureno refere
ento como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na
capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na crte o
seu casamento, e a mo da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser
offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria
Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sa na bocca da caverna
responde--_Acceitou_!-- o Commendador d'Elvas que assoma involto numa
capa, j se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno.

Este desfeixo do acto  natural e dramatico, e a melhor coisa de todo
elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a
conversao, e em seus pensamentos de vingana no consentiu que outrem
desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o
efleito dramatico vem naturalmente da situao e caracter dos
personagens. Quanto s scenas anteriores parece-nos que esto abaixo de
toda a critica.

Acto terceiro.--D. Leonor est s debatendo-se com os remordimentos de
sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia
de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que
achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o
trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os
remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no
outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos,
conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia
dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel
Commendador. O triplicado da punio; as pontas, os rochedos e as
brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. No assim a rainha a quem os
sonhos pavorosos no podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os
insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaando a rainha.
Apenas esta se acha s, entra Joo Loureno da Cunha: scena violenta
entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se,
amaldioa e ameaa, e em que elle fala constantemente a linguagem do
odio profundo. No meio da altercao sobrevem o Infante que tendo Joo
Loureno por morto, cr que  a sua alma em pena. Este o ameaa tambem
por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A
rainha nega o casamento: Joo Loureno injuria-a de novo, e o Infante
arranca da espada. A ponto j de brigarem acode el-rei aos brados de D.
Leonor. Joo Loureno que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem
D. Fernando que chega a levar a mo  espada, mas que lembrando-se de
quem , manda-o como era de razo, metter na cada. Partindo, o antigo
marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defender D.
Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu
filho_!--E cai o panno.

Este acto, tem entre todos como  evidente, a primazia no desalinhavado
e absurdo do desenho, posto que no lhe falta merito s vezes na
execuo das scenas. Primeiramente como  crivel que tendo Garcia
Affonso sido encarregado pela Rainha de propr ao Infante o novo
casamento, e estando este na crte, o Commendador antes de dar parte a
D. Leonor do desempenho da commisso, fosse a Coimbra levar a celebre
carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em
segundo logar, no estaria doido Joo Loureno, tendo tomado a peito
defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, s para
a injuriar e aos outros seus inimigos, porque no consta do drama que
viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no
pao, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, seno
ir jazer na cada? Depois como entrou elle sem licena at o quarto de
D. Leonor?  a mesma inverosimilhana do primeiro acto. O pao real no
seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differena dos
tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando
e como lhe approuvesse; e todavia  sobre estes argumentos que assentam
os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada
contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico
perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto  pelo apparecimento
de um personagem inesperado.

Acto quarto.--Joo Loureno est na masmorra em que a propria
imprudencia o lanou. Ahi se de e queixa de Deus, em vez de se queixar
de si. No meio de suas lstimas passa uma barca pelo Tjo, e ouve-se
nella uma voz que se approxima da priso. A unica priso em que podia
estar Joo Loureno era a dos paos do Castello e como de l se ouvia
uma voz no rio e esta se approximava da masmorra no ser facil dizer:
todavia deixemos bagatellas. Provavelmente quem cantava era D. Lopo que
d'ahi a pouco entra no calaboio, alis, no intendemos que pudesse
trazer-se a proposito tal cantiga que nada tem com o drama. D. Lopo vem
livr-lo, acompanhado do carcereiro que provavelmente para isso peitou.
Isto de carcereiros comprados como meio dramatico,  coisa quasi to
velha e gasta quanto o esto os confidentes classicos. O prso recusa a
liberdade porque quer morrer. Aqui fica evidente a doidice de Joo
Loureno. No podem ter passado cinco minutos desde que elle dizia: _Oh
Senhor Deus deixar-me-heis morrer sem ter salvado a innocente Maria?...
Oh, nem uma esperana me dais_?--e agora que o querem soltar responde
com vehemencia; _deixai-me morrer; deixai-me morrer_!?--Pois se quer
morrer para que estava apoquentando os cus com seus queixumes? Isto era
capaz d'impacientar at o sancto dos sanctos. Em fim depois de varias
ponderaes do poeta phtysico o homem resolve-se a sair. D. Lopo diz-lhe
que espere que vai arranjar os meios da fuga, e parte com o carcereiro.
Fica s o prso, porm no tarda companhia. Uma porta secreta se abre e
D. Leonor entra, tira a chave e encaminha-se para seu primeiro marido.
Vem dizer-lhe que elle ha de morrer alli mesmo: vem saciar o seu odio:
Joo Loureno depois de ameaas mutuas tira-lhe repentinamente a chave
da porta secreta, e diz-lhe que vai salvar D. Maria Telles; a isto acode
a Rainha que no lhe achar seno o cadaver. Desesperao de Joo
Loureno da Cunha, que supplica de joelhos, e que achando D. Leonor
inabalavel, ergue-se furioso e quer mat-la com um punhal que traz
escondido:  ento que ella supplica;  ento que elle se torna
inexoravel. Aponto de a apunhalar chega D. Lopo; a esperana amortece a
cholera no corao do marido da Rainha; o punhal cai-lhe das mos. D.
Leonor continua todavia a ficar de joelhos, a pedir no que lhe deixem a
vida, porque esta j ella sabe que est salva; mas que a soltem: que lhe
permitiam sair d'aquelle logar d'horror. Sublime hypocrisia que encubriu
o animo damnado com a mascara do susto. Recusam-lho: ento a cholera
trasborda do peito d'essa mulher que  um abysmo de maldade. Nem a
demora d'uma hora a que elles a condemnam saindo, soffre a rainha.
Apenas se acha s a rgia hyena corre, e lana raivosa as garras s
grades da masmorra; depois ajoelha e quer orar, mas alevanta-se logo, e
sorri. Pensa um momento, e com gesto ameaador exclama: _D'aqui a uma
hora serei outra vez rainha_. Um pensamento atroz e medonho reluziu por
certo  luz sanguinea que bruxulea nessa alma? Qual foi elle?
Sabe-lo-hemos no sexto e derradeiro quadro.

Nas tres ultimas scenas d'este curtissimo acto, to curto que talvez a
representao d'elle no occupe quinze minutos a scena, revela-se um
poeta. No mencionaremos defeitos porque o que tem excellente no-los
varreu da memoria: o auctor comprehendeu perfeitamente o caracter de D.
Leonor: ha aqui o talento profundo de um verdadeiro escriptor dramatico.
Oxal poderamos dar de tudo e de todo o drama os mesmos testemunhos de
louvor e admirao! Com magua temos feito o contrario, porque  o nosso
penoso dever distribuir recta e severa justia, e corresponder 
confiana que em ns depositou esta assembla.

Quinto acto.--Estamos em Coimbra nos paos do Infante. Ao correr do
panno D. Leonor e Garcia Affonso falam a ss. A rainha, segundo parece,
sau da priso e chegou a Coimbra antes que Joo Loureno e D. Lopo. No
6 isto provavel mas  possivel; porque o odio entranhavel costuma ser s
vezes mais diligente que todas as affeies. A scena da priso, uma
vingana falha, uma humilhao necessaria mas cruel, espertaram toda a
violencia do caracter da rainha: os remorsos desappareceram, e ella
precisa de sangue. Incita por isso o Commendador para que positivamente
accuse sua irm~ de adultera: conhecera pelo terror de Joo Loureno que
este a amava, e  de bom-grado fratricida para comear pela vingana que
mais deve doer a seu antigo marido.  este o verdadeiro retrato de D.
Leonor, mas o que  falso, o que no condiz com o caracter profundamente
dissimulado que lhe attribue a historia, e o auctor to bem pintou no
fim do 4.^o acto,  o injuriar gratuitamente o mesmo homem que est
incitando para que seja instrumento da sua vingana. Embora ambos se
conhecessem bem mutuamente: embora estas duas almas negrissimas
estivessem sem mscara; mas ainda os maiores malvados no ouzam recordar
uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se com elles seno nos
extremos de cholera. Vemos que do aspecto que toma esta scena e do seu
desfeixo, depende a existencia de duas ou tres scenas seguintes: a
inverosimilhana porm da origem diminue-lhes grande parte do merito que
possam ter. As affrontas da rainha so correspondidas por Garcia
Affonso, que acceitando a infame commisso, e um bracellete que deve
servir de prova  calumnia, sai praguejando e ameaando D. Leonor, e
ameaado e praguejado por ella. Esta scena  evidentemente desarrazoada,
ou antes impossivel. D. Leonor fica s, e num monologo resolve a morte
do Commendador: foi para isto que se delineou a scena antecedente. Por
assim dizer, o auctor fez num drama o que se diz fazia Boileau nos seus
alexandrinos, sugeitou a rima do primeiro verso  do segundo. Resolvido
o assassinio do seu antigo cumplice, a rainha d um signal e apparece
Vasco seu pagem. D. Leonor diz-lhe que um homem a ultrajava: responde o
pagem que lhe diga seu nome e elle morrer: esta scena est felizmente
imaginada e o caracter de um official d'assassino dado ao pagem  rapida
e profundamente traado. Vasco sai e a rainha esconde-se em uma camara
para d'alli ver morrer Garcia Affonso. Apenas ella se retira o Infante
entra com o Commendador d'Elvas que pretende persuadi-lo da infidelidade
de D. Maria Telles e que por fim o convence com a prova do bracellete, o
qual, diz elle, Joo Loureno perdera. Fraquissima  a prova, mas
acceitemo-la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a adaga,
arromba a porta da camara de Maria Telles e arroja-se para l furioso.
Garcia Affonso fica s e tirando um frasco de veneno, declara em um
monologo que envenenar o Infante logo que tenha assassinado sua mulher.
Vasco entra ento, e gracejando com Garcia Affonso, diz-lhe que precisa
de lhe communicar um segredo, mas que antes d'isso beber com elle um
trago de vinho. O aspecto de Vasco assustou o Commendador lembrado do
que passou com a rainha, e de que este pagem  o executor das suas
vinganas secretas. Emquanto Vasco vai buscar o vinho, elle lana 
cautella veneno em uma das taas que alli esto, e quando o pagem volta
enche-a e offerece-lh'a, tomando para si outra. Ambos levam as taas 
bocca, mas nenhum bebe. Garcia Affonso pe a sua sobre a mesa e pergunta
ao pagem qual  o segredo; rindo atrozmente este lhe pergunta se quer
sab-lo; Garcia Affonso responde que sim, e que o diga depressa porque
lhe resta pouco tempo para o revelar por estar envenenado: o pagem
continua a rir e replica que  elle que o est, e que esse era o
segredo. Garcia Affonso despejando a taa mostra que lhe no tocara: o
pagem faz o mesmo. O Commendador ento lhe diz: _Pois bem! nem um nem
outro morreremos_.--_Enganaes-vos_!--torna Vasco soltando uma risada
terrivel e dando-lhe uma punhalada. Garcia Affonso, amaldioa-se a si e
ao pagem, procurando tambem feri-lo. Neste momento ouve-se dentro a voz
de D. Maria Telles que implora piedade. O horror appossa-se do
Commendador agonizante, os gritos de D. Maria redobram, e o Infante sai
da camara com a adaga na mo tinta em sangue. Os remorsos fazem que o
Commendador moribundo confesse a innocencia de D. Maria Telles. O
infante furioso quer cravar-lhe a adaga, mas antes d'isso cai morto.
Garcia Affonso Joo Loureno chega j tarde seguido de cavalleiros e
povo: o Infante desesperado pede que o matem, e Joo Loureno quer
cumprir-lhe os desejos, quando D. Maria Telles saindo da camara o retem
e vai cair nos braos do Infante a quem perdoa morrendo. Apparece ento
D. Leonor, e apontando para os cadaveres da irm e de Commendador diz
para o marido--que veja como se vingou uma rainha. D. Lopo apparecendo
subitamente com a espada na mo, abre uma janella e mostrando a praa
atulhada de povo armado, diz-lhe:--_Senhora rainha, o filho vingar
tambem a morte de sua mi, e o povo as injurias recebidas_. Assim se
conclue o drama.

Este acto  incontestavelmente o melhor, e o seu effeito scenico deve
ser grande. Apesar das imperfeies que n'elle se pdem e com razo
reprehender, o auctor procurou resgatar aqui os defeitos que pullulam
nos antecedentes, como successivamente notamos em cada um d'elles.

Restam algumas observaes sobre estylo e linguagem: assim completaremos
o exame d'este drama visto a todas as luzes a que se deve considerar.

O estylo para dizer tudo em poucas palavras  o da moda: isto , a maior
parte das vezes falso: comparaes frequentes, que a situao moral dos
personagens que as fazem no comporta: certa poesia na dico impropria
do dialogo: fartura d'essas exaggeraes com que embasbacam os parvos da
plata, e que os homens de juizo no podem soffrer. s mos cheias esto
por ahi derramadas as maldies, os anjos de azas brancas, os rochedos
em braza, os infernos, os demonios, e toda a mais ferramenta dramatica,
usada hoje no theatro, e que no sabemos d'onde veio, porque sendo
evidente que os nossos escriptores principiantes buscam imitar os
grandes dramaturgos franceses,  certo que raramente acharo l essa
linguagem ca e falsa, que s pde servir para disfarar a falta de
affectos e pensamentos: Victor Hugo e Dumas no precisam nem usam de
taes meios, e para citarmos de casa, j que temos c o exemplo, que
esses noveis vejam se nos dramas do nosso primeiro escriptor dramatico,
se no _Aucto de Gil Vicente_ ou no _Alfageme_ ha essa linguagem de
cortia e ouropel, ha essas expresses turgidas e descommunaes que fazem
arripiar o senso commum, e que offendem a verdade e a natureza. O estylo
 tudo, dizia Voltaire. No somos da sua opinio absolutamente, mas 
incontestavel que uma obra litteraria excellente em todas as demais
partes, se lhe falecer a propriedade do estylo nunca poder obter para
seu auctor uma reputao duradoira. No faltam na historia litteraria de
todas as naes exemplos d'esta exactissima observao.

Quanto aos erros de lingua e construco, faceis so elles de emendar:
assim o fossem os de estylo, e ainda mais os de contextura!
Intoleraveis, mais que nenhuns, nos parecem o vicio constante do
introduzir um _i_ nas segundas pessoas do plural dos preteritos como
_fizesteis_, _tivesteis_, etc.--por fizestes, tivestes; _soffrer_ por
_padecer_, sendo a significao portuguesa de _soffrer_ a de _padecer
com paciencia ou constancia_: o uso demasiado dos possessivos que tanto
afrancezam o nosso mui illiptico idioma: a substituio escusada de
preteritos simples pelos compostos do participio e dos auxiliares:
tautologias indisculpaveis, como--_abysmo immenso e sem fim_; _caverna
que parece zombar e escarnecer, etc._;--gradaes s avessas, como:
_cheio de desesperao e pesar_. A estes e outros defeitos poderia o
auctor dar remedio revendo attentamente o manuscripto, que talvez o
limite de tempo para o concurso lhe no deixou aperfeioar e pulir, e
por isso intendemos dever nessa parte ser indulgente a censura do
Conservatorio.

Temos feito longa e severamente a critica do drama--_D. Maria
Telles_.--Fizemo-lo assim por muitas e mui urgentes razes. Tem soado
queixas contra a frma demasiado simples com que se costumam exarar os
pareceres sobre os dramas que annualmente concorrem a premios: conselhos
sinceramente dados tem-se tomado pela expresso do orgulho; imaginou-se
uma aristocracia litteraria, contraria a todos os ingenhos que surgem de
novo.  preciso confessar que pelo que toca ao no motivado, e 
brevidade dos pareceres, sobre tudo d'aquelles que condemnam,  justa a
queixa. Todas as mais so infundadas. Os factos de quatro annos ahi
esto provando o contrario. Se alguma culpa se pode lanar ao
Conservatorio  a nimia indulgencia; j algumas das suas sentenas
favoraveis tem sido reformadas pelo supremo tribunal do publico, ao
passo que ainda nenhum drama condemnado por elle toi levado por
appellao ao grande jury da opinio da platea: todavia se os auctores
d'esses dramas tinham a consciencia da injustia no julgamento, para l
deviam aggravar-se. Esta  a nossa defenso completa contra as vs
accusaes de parcialidade; contra os sonhos de uma imaginaria
aristocracia litteraria com que a mediocridade pretende passar aos olhos
de parvos e ignorantes, pelo ingenho perseguido ou menoscabado.

A Seco da Litteratura pensa por tanto, que importa ao bom nome do
Conservatorio o fazer sempre miuda e inexoravelmente o exame dos dramas
que concorrem aos premios, e motivar largamente as suas sentenas. Tanto
os concorrentes como a nao teem direito de assim o exigirem. O tempo
da censura inquisitorial, que muitas vezes s serve de capa 
incapacidade, passou.  nossa obrigao restricta fundamentar as
opinies que assentamos: julgadores aqui, seremos l fra ros, e o
commum juiz que  o publico no est adstricto a julgar por nossas
palavras. Por outra parte esta miudeza e severidade de critica servir
de correco aos auctores, para cuja emenda  inutil um parecer
superficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes habilita o amor
proprio para crer que no foram elles, mas fomos ns os que errmos.

Alm d'isso, a Seco da Litteratura intende que  necessario ser
finalmente severa a censura do Conservatorio, para o verdadeiro
progresso dramatico. Durante quatro annos este progresso tem sido
unicamente em extenso: falta a profundidade. O numero dos dramas
augmenta, mas o merito d'elles  o mesmo, seno  menor. A principio
convinha affagar todas as tentativas: hoje  preciso afastar as no
vocaes dramaticas que a facilidade das recompensas tem tornado em
demasia ousadas, e  preciso constranger aquelles que podem e sabem
produzir fructos de verdadeiro ingenho a darem ao theatro obras que os
honrem e honrem a patria.

Pelo que respeita em especial ao drama--_D. Maria Telles_--a Seco de
Litteratura ainda pede para elle a indulgencia do Conservatorio. A
leitura d'esta composio revla a verdura d'annos e inexperiencia do
seu auctor. O desconnexo e inverosimil da contextura, a ignorancia quasi
absoluta dos costumes e instituies da epoca escolhida, e ainda mais a
falta de conhecimento da logica das paixes e affectos, e por isso da
consistencia dos caracteres esto dizendo que o mundo e a sociedade  em
grande parte um mysterio para elle, mysterio que ainda mal as
tempestades politicas e a vida demasiado energica do nosso seculo lhe
revelaro em breve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos prudentes
que para melhorar o seu escripto lhe no recusaro, por certo, os
membros d'este Conservatorio, o drama--_D. Maria Telles_--poder subir 
scena, no com a certeza de obter a approvao de summo juiz
o--publico--mas de apparecer ante elle sem deshonra sua, e sem que ns
sejamos accusados de desleixo no cumprimento dos nossos deveres. O
parecer da Seco da Litteratura  portanto, que a Mesa convide o auctor
do drama a dirigir-se a ella para o fim apontado. O Conservatorio
resolver o que fr mais justo e conveniente.--_Alexandre Herculano_.




*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*




*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*[24]


Por grande que deva ser a gratido que se associa s recordaes
d'aquelles que nos geraram, por funda que v a saudade inseparavel da
memoria paterna, no corao do bom filho ha um affecto no menos puro, e
no menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela
cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus
destinos no mundo so mais elevados e nobres que os d'esses tantos que
nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois
morrerem sem deixar vestigio. Este affecto  uma especie de amor filial
para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos
regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: caminha! e nos
apontaram para a senda do estudo e da illustrao, caminho to povoado
de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se
teem assentado, no para repousarem e seguirem vante, mas para
retrocederem desalentados, quando szinhos no sentem mo amiga apertar
a sua e conduzi-los aps si. Tirai  paternidade os exemplos de um
proceder honesto, as inspiraes da dignidade humana, a severidade para
com os erros dos filhos, os cuidados da sua educao, e dizei-nos o que
fica? Fica um certo instincto, ficam os laos do habito, e para impedir
que to frageis prises se partam, fica o preceito de cima que nos
ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles no nos
prenda seno a dadiva da existencia, esse to contestavel beneficio.
Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com
a persuao e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos
abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos
supremos que ella encerra; para esses no  preciso que a lei de
agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razo e a
consciencia estamparam-na no corao: cada gozo intellectual do poeta,
do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o
vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justia do sentimento
de gratido que os domina.

Estas reflexes occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da
senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor
d'Almeida, que actualmente se publicam e de que j dois volumes se acham
nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever
estas cogitaes d'um momento. Aquella mulher extraordinria, a quem s
faltou outra patria, que no fosse esta pobre e esquecida terra de
Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vs
pretenses de superioridade excessiva do nosso sexo,  que eu devi
incitamento e proteco litteraria, quando ainda no verdor dos annos
dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confess-lo
aqui, como outros muitos o fariam se a occasio se lhes offerecesse;
porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de
sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos
se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da
senhora marqueza de Alorna no affectava jamais o tom pedagogico e quasi
insolente de certos litteratos que s vezes nem sequer entendem o que
condemnam, e que tomam a brancura das proprias cs por titulo de
sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha no sei
o que de natural e affectuoso que se recebia com to bom animo como os
louvores, de que no se mostrava escaa quando merecidos. Uma virtude
rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se
teem distinguido pelo seu talento e saber,  a de no alardearem
escusadamente erudio, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em
grau eminente. A sua conversao variada e instructiva era ao mesmo
tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu to
bem, no dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os
melhores, mas a moderna de quasi todas as naes da Europa, no que
nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de
Stael ella fazia voltar a atteno da mocidade para a arte de Alemanha,
a qual veio dar nova seiva  arte meridional que vegetava na imitao
servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no
transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Lus XIV. Foi por
isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razo, se lhe
attribuiu o nome de Stael portuguesa.

A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se  frente da edio das
suas obras: para l remetto o leitor. Ahi ver como em todas as phases
da sua larga e no pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne
testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: ver
que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e
a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa
estimao de principes e de illustres personagens da republica das
letras. Ahi ver como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos
annos no foco das idas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os
dias repetir essas idas por homens de incontestavel talento, ella soube
conservar pura a crena da sua infancia, e expirar no seio do
christianismo. Ahi finalmente ver como as ausencias, por vezes
involuntarias, da sua terra natal, no puderam fazer-lhe esquecer o amor
que devemos a esta, ainda no meio das injustias e violencias de todo o
genero.

O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna
contm, afra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de
Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte
d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito
annos de idade com sua mi, occorrendo a priso do marquez de Alorna D.
Joo. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos
mais viosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de to longo
captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e
os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais
severidade na escolha das composies d'aquella epocha, algumas das
quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento
s que seno pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de
ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido
um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora,
que nas obras de to verdes annos annunciava j o seu brilhante futuro
nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e
vivo.

O resto do primeiro volume e o segundo contm as poesias da senhora
marqueza posteriores  sua sada do mosteiro. Na disposio d'ellas
tambem no se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas
determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composies
no cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e
que sabem entend-las appreciam-nas devidamente. Ellas so um illustre
monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da
piedade filial que as trouxe  luz publica, e para em tudo esta
publicao ser apreciada, a sua nitidez typographica  uma prova dos
progressos que a arte de imprimir tem feito entre ns[25].

FIM DO TOMO




ndice


Advertncia
Qual  o estado da nossa litteratura? Qual  o
  trilho que ella hoje tem a seguir?
Poesia: Imitao--Bello--Unidade
Origens do theatro moderno--Theatro portugus
  at aos fins do seculo XVI
Novellas de cavallaria portuguesas
Historia do theatro moderno--Theatro hespanhol
Crenas populares portuguesas ou supersties
  populares
_A Casa de Gonsalo_, comedia em cinco actos:--Parecer
Elogio historico de Sebastio Xavier Botelho
_D. Maria Telles_, drama em cinco actos:--Parecer
D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna




Notas:


[1] Diz Mercier em uma annotao, que segundo nossa lembrana vem no
1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a diviso de cinco actos 
fundada em ser preciso atiar cinco vezes as luzes do theatro em quanto
dura uma recita.

[2] Epist. 9--v. 43.

[3] Art. poet. C. 3--v. 48.

[4] Talvez alguns dos nossos leitores extranhem o modo por que tractamos
um escriptor accreditado e ainda vivo. Ns sabemos que a urbanidade  o
principal dever de quem impugna qualquer opinio: mas confessamos que
no pudemos resistir  tentao. Mr. Laurentie  um defensor do
absolutismo, e muito mal tractou a causa da nossa patria no seu exame da
Carta portuguesa.  uma pequena vingana litteraria que se nos deve
perdoar.

[5] Major mihi rerum nascitur ordo:
Majus opus moveo--7, 4 4.

[6] Iliad, 5.^o.

[7] O nosso socio o Sr. Castilho teve tambem o seu _quinhom_ de critica
na referida moxinifada romantica. Cremos piamente que elle riu tanto
como teria rido o bom do Homero se fosse nosso contemporaneo.

[8] Alludimos s Messenianas de Barthelemy e s de Mr. Delavigne, de que
talvez as primeiras deram a ida. Das ultimas lembrmo-nos
principalmente da de Waterloo.

[9] Em um curso de litteratura como ns o concebemos daria materia esta
idea, aqui apenas ennunciada, a dois capitulos interessantssimos, o da
theoria do agradavel e o da poesia nacional, ou dos objectos da poesia
moderna.

[10]  curioso ver as observaes de Galileo acrca da Jerusalem
libertada, as quaes jaziam ineditas e foram publicadas em 1793, assim
como o  ler a dissertao de Dureau Delamalle comparando as duas
Jerusalens, a qual vem no fim do 1.^o tomo da Historia das Cruzadas de
Mr. Michaud.

[11] Livro 1.^o, capitulo 1.^o.

[12] Publicados no vol. de 1838, e o terceiro no vol. de 1840.

[13] Opusculos, tomo V, pag. 10.

[14] Herzog-Geschichte der deutschen Nat-Litt.--pg. 99 (Jen. 1831.)

[15] Sismondi. De la litteratura du Midi--tomo I, pg. 289.

[16] Os que sobre esta materia desejarem mais ampla instruco consultem
as dissertaes de Mr. Fauriel cerca da origem da Epopeia Cavalleirosa,
no 8.^o vol. da _Revue des Deux-Mondes_ (anno se bem nos lembra, de
1832). A opinio de Mr. Fauriel, contraria  de Sismondi, pe o bero da
maior e melhor parte das novellas de cavallaria na Provena; mas antes
de abraar essa opinio cumpre lr e pesar maduramente as reflexes de
Sismondi, que o pe na Normandia, a pag. 273 e seg. do 1.^o vol. da sua
Historia Litteraria do Meio-dia da Europa.

[17] No appareceu este novo artigo quer nos seguintes numeros do vol.
4.^o quer nos demais volumes, emquanto A. Herculano foi collaborador
permanente do Panorama. De outros mui variados assumptos litterarios o
auctor se occupou nesses volumes. A melhor conjectura sobre tal
interrupo no  a de um simples esquecimento, mas a de que o auctor,
certo de haver esclarecido a materia especial d'estes artigos onde mais
interessava, tencionasse porventura ligar o porseguimento d'ella a
certos pontos da nossa historia litteraria que demandavam vagarosa
meditao.

[18] Sem exceptuar a dos espectadores, que, bem como tudo o mais,
permitta-se-nos a expresso,  preciso crear de novo.

Sobre isso publicaremos brevemente um artigo que, dizendo respeito a um
objecto realtivo  civilizao e moral publicas, entra naturalmente no
plano d'este jornal.

[19] E impressas em Napoles em 1517. Esta rara edio existe na
bibliotheca publica do Porto, e pertencia segundo nossa lembrana, 
livraria do Visconde Balsemo.

[20] O mesmo succedeu aos dramas portugueses contemporaneos: d'ahi
provm, principalmente, a extrema raridade das primeiras edies de
alguns d'elles, como de Jorge Ferreira, que s so conhecidos nas
edies mutiladas.

[21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas--as mais difficeis de
todas--bom ser que reparem nesta observao de Schlegel acrca do
gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande
critico alemo no apontou o motivo principal d'este elemento dramatico:
o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representao da vida,
onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam
inextricavelmente. No ser o gracioso elemento necessario do enredo tem
por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco pde deixar de ser
necessidade da aco; mas nunca de ser essencivel  _frma_ da aco: no
quadro dramatico o gracioso no  _desenho_,  _cr_;  a sombra do
claro do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine
morreu, porque no havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e
viver para sempre, porque nella as lagrymas tolhem s vezes o riso: na
comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia.

[22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda no
chamam geralmente qualquer drama, seno _comedia_, embora elle seja
tragico. Porventura  isto uma _tradio de bastidores_, conservada
desde o seculo XVII, em que entre ns eram to vulgares as
representaes dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha.

[23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da
historia, no dos reis ou dos soldados, mas do _progresso das naes_,
deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de
extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas
constituies d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das
representaes nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o
povo julgava ento ou licitas ou piedosas. Deffendemos, diz a
constituio 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e
seculares, de qualquer estado e condio que sejam, que no _comam nas
egrejas, nem bebam, em mezas_, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em
ellas, nem em seus adros: nem os leigos faam ajuntamentos dentro dellas
sobre cousas profanas; nem se faam nas ditas igrejas, ou adros dellas,
jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa;
nem _representaes, ainda que sejam da paixo de nosso Senhor J. C., ou
da sita resurreio ou nascena; de dia, nem de noite_, sem nossa
especial licena; porque _dos taes autos_ se seguem muitos
inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos coraes d'aquelles
que no esto muito firmes na nossa sancta f catholica, _vendo as
desordens e excessos que nisto se fazem_. D'esta passagem se pde
concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo
sexto seculo, sendo, alm d'isso, provavel, que semelhante usana
remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam
muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito,
ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corra de
Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se v de uma sua
ordenana que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituio;
mas que por brevidade no apontaremos aqui.

[24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839.

[25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao
titulo as palavras _Panorama_--1844.





End of the Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano -
Tomo IX, by Alexandre Herculano

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OPSCULOS POR ALEXANDRE ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

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