The Project Gutenberg EBook of Como atravessei frica (Volume I), by 
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

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Title: Como atravessei frica (Volume I)

Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

Release Date: February 2, 2007 [EBook #20508]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI FRICA (VOLUME I) ***




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[Mappa 2.--De Benguella ao Bih]




COMO EU ATRAVESSEI FRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA  CONTRA-COSTA.

A-TRAVS REGIES DESCONHECIDAS;

DETERMINAES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.

Por SERPA PINTO.


Dois Volumes.


Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.


VOLUME PRIMEIRO.

Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.


LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.

[_Tdos os direitos sam reservados_.]



LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.




A SUA MAGESTADE EL-REI D. LUIZ 1^o,

COM PRVIA LICENA

OFFERECE ESTE LIVRO

O AUTR.




SENHOR,

No foi um sentimento de adulao servil que me levou a pedir licena a
Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de uma
dupla dvida de justia e de gratido: de justia ao Monarcha
intelligente e illustrado que firmou o decreto creando recursos para a
primeira expedio scientfica Portugueza d'este sculo  frica
Central; de gratido, ao prncipe cujos dotes de corao e de esprito
disputam primazias s suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis
constitucionaes da Europa contempornea.

Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu obscuro
nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas
tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro
pertence a Vossa Magestade como legtimo ttulo da minha immensa
gratido. Ouso rogar respeitosamente a Vossa Magestade queira aceitar a
minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que se dignou dar-me
incitamentos para uma empresa, da qual, depois de realisada, fram ainda
os favres de Vossa Magestade a mais sincera e no regateada recompensa.


O Vosso ajudante de campo
E o mais dedicado dos
Vossos sbditos,

Alexandre de Serpa Pinto.


Londres, 61 Gower Street,
_5 de Dezembro de 1880_.





A SUA EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOO D'ANDRADE CORVO.


Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},

Com propor o meu nome, em 1877, na Commisso Central Permanente de
Geographia, para fazer parte da expedio Portugueza ao interior
d'frica, assumio Vossa Excellencia a responsabilidade da minha
nomeao.

Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia satisfao
plena do encargo que tomou indigitando-me para to rdua tarefa.

Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os
resultados dos meus trabalhos e estudos.

No sei se corresponder ao que Vossa Excellencia esperava de mim; como
no sei se cumpri os deveres que Vossa Excellencia, em nome do paiz, me
impoz.

Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto
quanto em fras humanas cabia, o pensamento e as instruces de Vossa
Excellencia.

A leitura da minha narrativa mostrar a Vossa Excellencia, com quantas
difficuldades lutei, e de quo minguados recursos dispuz.

Se, porem, os meus trabalhos corresponderem  confiana com que Vossa
Excellencia me quiz honrar, ser isso o maior prmio a que pode aspirar,
o mais respeitoso admirador do talento, vasto saber e elevadas
qualidades de Vossa Excellencia,

Alexandre de Serpa Pinto.

Londres, 61 Gower Street,
_28 de Novembro de 1880_.




TRIBUTO DE GRATIDO.


Vou citar nomes.  difficil e perigosa tarefa. Ha sempre o receio de
ferir modestias, ou levantar susceptibilidades. No importa; sigo
avante.

Ser grande a lista, por serem multiplicados os favres; e posso bem
peccar por omisso, filha de memoria preguiosa.

Que me perdem os que desejariam esconder sses favres na mais velada
modestia, como aquelles a quem um lapso de reminiscencia deixasse no
olvido.

Seguindo a ordem chronolgica dos factos, procurarei no profundo
sentimento de gratido a lembrana dos servios e favres recebidos.

Cabe  Commisso Central de Geographia o primeiro logar no meu
reconhecimento; por me ter distinguido com a sua esclha para
instrumento da explorao que decidio fazer em frica.

Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui unnimemente
aceito, e attendido nas propostas que apresentei para a organizao da
emprsa. Falando da Commisso Central de Geographia, no posso omittir
de citar nomes; porque, recebendo obsquios de tdos, fui
particularmente auxiliado por muitos.

O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio
Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos
seus jazigos, no podem occultar  minha gratido.

O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de
Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da
Costa e Silva, fram os cavalheiros que, no seio da Commisso, mais se
esforram por me encher de favres.

Outro, que s annos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se
organizou a expedio), no deixou de concorrer com o sem conslho
abalizado para a parte scientfica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito
Limpo.

Fora da Commisso, prestram-me valiso auxilio, os meus particulares
amigos Marrecas Ferreira e Joo Botto.

Vem depois da Commisso Central, a Sociedade de Geographia de Lisboa; e
com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.} Bocage e
Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano Cordeiro e
Rodrigo Pequito.

Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente agrado tdos os
favres que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeao.

Fora do paiz prestram-me valiso auxilio, o S^{nr.} Mendes Leal,
Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Vizconde de
Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que 
cooperao d'estes cavalheiros, e s a ella, podmos eu e Capello ter
dado conta do encargo que tommos de organizar em um mez o material da
expedio.

Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que
concorrram poderosamente para a realizao da nossa emprsa.

Sam o Conselheiro Jos de Mello e Gouvea, que ento governava nos
negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral do Ministerio
das Colonias.

Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensram-me taes favres
em viagem, que no posso deixar de escrever aqui os seus nomes.

Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vrde, Vasco Guedes, e o do
Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me dispensram
innmeras finezas.

Em Loanda, Jos Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul Newton, a
Associao Commercial, e sbre tudo os officiaes e Commandante da
Canhoneira _Tmega_, sam crdores do meu mais profundo reconhecimento.

Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do
mundo, e assombrava com as suas faanhas o orbe inteiro:

Henrique Moreland Stanley.

O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais
prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro,
e d'elle recebi proveitosas lies. Melhor mestre no poderia ter. Que
elle recba n'estas curtas linhas o mais sincero tributo da grande
admirao que nutro por elle, e a mais franca expresso da minha estima,
e da gratido que lhe consagro.

Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar; e
nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus
actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente
Seraphim, o pharmacutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam outros tantos
cavalheiros que no posso esqucer.

Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de
Quillengues, sam mais dois crdores  minha gratido.

Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e da
familia Coillard, transprto-me ao Bamanguato, a _Shoshong_ (Xoxon),
onde os favres do rei Kama, e sobre tudo os de M^{r.} e Madame Taylor,
me obrigam a no olvidar os seus nomes.

Vai comear para mim um embarao enorme. Estou em Pretoria; estou na
primeira terra do mundo civilisado que encontro depois de Benguella; e
ali sam tantos os favres que se me prodigalizam, que no sei como sahir
do embarao que elles me causam para os agradecer.

M^{r.} Swart, o thesoureiro do Govrno, foi o primeiro a obsequiar-me, e
ser o primeiro citado.

Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.}
Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capito Saunders, e tdos os
officiaes do Regimento 80.

A Baronza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim o Coronel
Lanyan.

Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e no se demorou o nosso
Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.

Se dvo muita gratido ao Governador Inglez, no dvo menos ao Consul
Portuguez, que, por telegrammas immediatos, veio prestar-me a maior
assistencia.

Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, ento residindo em
Pretoria, no foi dos ltimos a encher-me de favres.

Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe, e
em Maritzburgo multiplicram-se os obsequios do Coronel Baker, Capito
Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.

Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de
Waal, chefe da Handels Company em frica Oriental, muito se distinguram
em favres prestados.

Agora  que se torna verdadeiramente embaraosa a minha misso. Vou
regressar  Europa, tendo terminado a minha viagem, e accumlam-se os
obsquios que recbo a cada momento.

Em Loureno Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em
Moambique, o Governador Cunha, Torrezo e tdos.

Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e sbre tdos o Capito
Draper do 'Danubio' da _Union Steamship Company_, que de Durban me
transportou ali.

No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favres. Em Alexandria,
sobresse a tdos o Conde e a Condssa de Caprara.

Ainda antes de chegar a Lisba, recbo um servio importante do Baro de
Mendona, em Bordeos.

Em Lisba, o Govrno, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos,
porfiam em obsequiar-me.

Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favres, e
em que me no sobejou um minuto para os agradecer.

Quizram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda das fadigas
da viagem; e sem o poderso concurso que me prestram Pequito, Sarrea
Prado, Batalha Reis e D^{or.} Bocage, impossivel me seria fazel-a.

No querendo, no podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam elles, no
deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento,  Sociedade de
Geographia de Lisboa tudo o que por mim fez.

 Associao Commercial e ao seu digno Presidente, o S^{nr.} Chamisso,
que sempre tomou o maior interesse pela explorao de que eu fiz parte.

Sube em Lisba um facto que no posso deixar de consignar aqui com um
nome.

Agrado ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da
Marinha, para que me fssem enviados soccorros de Moambique para o
interior d'frica.

Ao Crpo Diplomtico residente em Lisba expresso os meus sentimentos de
gratido, e sobre todos aos S^{nrs.} Morier, Baro de P. Hegeurt,
Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.

 Associao Commercial do Porto, aos bombeiros voluntarios d'aquella
cidade,  Sociedade Euterpe e  Sociedade de Instruco, aos municipios
e mais instituies do paiz que me obsequiram, consigno aqui um
testemunho de agradecimento.

s Associaes Portuguezas no Brazil, aos meus conterraneos que longe da
patria me saudram, a elles que nada poupram para mim em honras e
distinces, envio um fraternal protesto de immensa gratido.

Sobre todos quelles que formram uma sociedade com o meu nome, e que de
Pernambuco me offerecram um mimoso presente, de tal distinco, que
nunca os poderei esqucer.

Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros
as altas honras com que me distinguram, sbre tdos ao Monarcha Belga,
ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento
geogrphico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me
podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais
affectuoso interesse.

s Sociedades de Geographia da Frana, principalmente s de Paris, onde
o Almirante La Roncire le Noury, Ferdinand de Lesseps, MM. Daubr,
Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, me enchram de favres;
de Marselha, que me conferio uma subida distinco, e cujo Presidente,
M^{r.} Babaut, muito me obsequiou; e  Commercial de Paris, onde
distingo o seu digno Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot.

Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.}
Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite,
Garrido, e D^{or.} Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favres
recebidos.

s Sociedades de Geographia Belga, e  de Anvers, nomeadamente aos seus
Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e lm d'estes
cavalheiros, no posso deixar de falar, em um paiz onde tdos me
obsequiram, nos nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e
ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favres repetidos e
cordialidade de trato convertram em verdadeira amizade a sincera estima
das primeiras relaes.

Cabe, pela ordem dos factos, o ltimo lugar  Inglaterra, que seria
talvez a primeira plo nmero de favres dispensados.

Principiou nas colonias Inglezas da frica do Sul a ter juz  minha
gratido este paiz, onde depois se me tinham de multiplicar os
obsequios.

 Sociedade de Geographia de Londres, ao seu Presidente o Conde de
Northbrook, aos seus Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus
Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat,
e muitos outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus
sentimentos de reconhecimento.

Ao S^{nr.} Frederico Youle, ao D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas,
Sampaio, Fonseca Vaz, Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que
alem de subidos favres me dispensram grandes servios durante a minha
grave doena, no posso deixar de lavrar um bem pblico testimunho de
gratido.

Ainda me falta citar o nome de M^{r.} David Ward, o Mayor de Sheffield,
e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovett
Cameron, para fechar a lista, que seria interminavel a no tomar a
resoluo de a fechar aqui.

s Sociedades Scientficas dos outros paizes, e a tdos aquelles que no
posso citar, e que me cobrram de favres, agrado tudo quanto por mim
fizram, e agrado tanto mais sinceramente, quanto me custa no os
poder personalizar.

Major Alexandre de Serpa Pinto.

Londres, _5 de Dezembro de 1880_.




O LIVRO.


No tem pretenes a obra de literatura este livro.

Escrito sem preoccupao da forma,  a fiel reproduco do meu diario de
viagem.

Cortei n'elle muitos episdios de caadas, e outros, que um dia no
descanso, produzirm um volume de caracter especial. Busquei sbre tudo
fazer realar o que mais interessante se tornava para os estudos
geogrphicos e ethnogrphicos, e se no me pude eximir a narrar um ou
outro dos muitos episdios dramticos que abundram na minha fadigosa
empresa, foi quando a sses episdios se ligavam factos consequentes, de
importancia, ja para alterar o itinerario projectado, j determinando
demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a
exposio das causas determinantes.

 Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertes do interior
d'frica, no  dado comprehender o que se soffre ali, quaes as
difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro no
interrompido para o explorador.

As narraes de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan
de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os
soffrimentos do viajante Africano. Difficil  comprehendel-o a quem o
no o experimentou; quelle que o experimentou difficil  descrevel-o.

No tento mesmo pintar o que soffri, no procuro mostrar o quanto
trabalhei, que me faam ou no a justia de que me julgo merecedor
aquelles que examinarem os meus trabalhos, hje  isso para mim
indifferente; porque me convenci, de que s posso ser bem comprehendido
plos que como eu pisram os longnquos sertes do continente ngro, e
passram os maos tratos que eu por l passei.

Assim como s o homem que, sendo pai, pode comprehender a dr pungente
da prda de um filho, assim tambem s o homem que foi explorador pode
comprehender as atribulaes de um explorador. Ha sentimentos que se no
podem avaliar sem se haverem experimentado.

Os factos narrados n'este livro sam a expresso da verdade.

Verdade triste muitas vzes, mas que seria um crime occultar.

Procurei apresentar nlle os resultados de um trabalho aturado de muitos
mzes, e garanto o que digo sbre geographia Africana, porque s eu sou
autoridade para falar n'ella na parte respectiva  minha viagem, em
quanto outro no houvr seguido os meus passos atravz d'frica, e no
me convencer do contrario.

As minhas opinies genricas sbre um ou outro problema podem ser
errneas, sam sujeitas  crtica, podem cahir por terra com uma
demonstrao prtica das futuras viagens, como tem acontecido a
asseres de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que
no tem nem pode ter contestao, sam os factos que eu vi, sam aquelles
que se referem aos paizes que percorri, e que descrvo n'este livro com
a consciencia que deve sempre dictar as aces do explorador.

No fui  frica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do
exrcito e no quiz outra.

Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a ptria e tudo
para trabalhar, e s para trabalhar, em cooperao com os outros paizes,
na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a
consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.

Deixo aos homens de sciencia e quelles que sam autoridades em tal
materia o avalial-o.

Ponho ponto n'este assumpto que parecer filho de um orgulho que no
tenho, mas factos inslitos apparecidos no decurso dos primeiros mzes
da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa
jornada d'frica, dictram as palavras que escrevi.

Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus
trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doena por vzes interrompeu a
vontade que nutria de dar  estampa esses trabalhos.

Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tdo
escrito nos mzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em
Portugal.

A pressa com que foi terminado contribuir de certo muito para a
incorreco da forma.

A publicao d'elle  feita em Londres, onde encontrei na grande casa
editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades
que no pude obter fora d'ella.

Estes cavalheiros no recuram ante a enorme despesa a fazer com uma to
difficil e custosa publicao, e levram a sua condescendencia a fazer
imprimir em Inglaterra a edio Portugueza; trabalho difficilimo, porque
a differena das lnguas dos dois paizes obrigou at  fundio de typo,
por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.

Devo-lhes a maior gratido plo interesse que t[~e]m dedicado a esta
publicao, para o mrito da qual, se  que ella tivr algum mrito,
elles de certo concorrram muito.

O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da
sua avanada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do
livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartgrapho, que se encarregou da gravura
das minhas cartas geogrphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou
magnficamente os meus esboctos de viagem nas gravuras que illustram a
obra, concorrram tambem de certo muito para o valor d'ella.

Ahi vai, pois, o livro, e s desejo que elle corresponda e sirva 
curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos
 grande e sublime cruzada do sculo XIX., a cruzada da civilisao do
Continente Ngro.

Londres, 61 Gower Street,
_5 de Dezembro de 1880_.




O TTULO DO LIVRO.


Hje, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a casa,
encontrei sbre a minha msa de trabalho, pregado com um alfinete, um
pedacinho de papel, recortado no sei de que jornal, que dizia assim:

"O _Athenaeum_ diz, que o Major Serpa Pinto, restabelecido da sua
prolongada doena, chegou a Londres, para terminar a publicao do livro
descriptivo da sua jornada atravez d'frica. D-nos grande satisfao o
saber, que o ttulo d'elle foi alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o
de 'Como eu Atravessei frica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um
magnfico ttulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid
ou Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na pgina ttulo de um
livro srio de explorador Africano."

 meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes d'isso no
posso deixar de escrever duas palavras sbre o assumpto.

A considerao tinha e no tinha razo de ser.

As viagens n'frica produzem sempre um romance, e algumas vzes tambem
um livro de sciencia.

A minha, se, como todas,  um verdadeiro romance, no deixa por isso de
conter trabalhos geogrphicos de alguma importancia.

Formei logo o projecto, que hje executo, de misturar em a narrativa
esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham sido
misturados nos sertes Africanos.

A respeito do ttulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.

Sendo salva a expedio, e por isso tdos os trabalhos que a ella se
ligavam, pla Carabina d'El-Rei, pensei em dar aquelle ttulo  obra
tda. No me davam cuidado juizos dos crticos severos. A minha
justificao estaria no correr da narrativa.

Veio porem uma considerao modificar o meu projecto.

Um homem, um nico homem no mundo, incapaz de me increpar em pblico
plo exclusivismo do ttulo, de certo pensaria um momento em que eu
tinha sido injusto para com elle em fazer sobressahir no meu livro o
facto de ter sido salva a expedio pla Carabina d'El-Rei, quando elle
teria igual juz  minha gratido, tendo-me salvo por seu turno.

Pesou-me aquelle primeiro ttulo escolhido, como uma injustia que fazia
a Francisco Coillard, quando esse ttulo me tinha sido dictado smente
por um sentimento de justia, porque sou pouco propenso a expresses de
adulao.

Resolvi immediatamente conservar o ttulo de Carabina d'El-Rei 
primeira parte da minha narrativa, e dar  segunda o nome de Francisco
Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os trabalhos da expedio que
eu dirigia. Cumpria um devr.

Mas desde esse momento, era preciso dar um ttulo geral  obra, e esse
no  nunca difficil de se encontrar quando se tem atravessado um
continente de mar a mar.

Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei frica."

Sei que pouco deve importar ao pblico o ttulo, qualqur, de uma obra
d'estas.  preciso chamar-se-lhe alguma cousa, e eu chamei-lhe assim.

Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim no me
preoccupo com isso a ponto de no me ir deitar j, esperando ter um sono
profundo durante a noite.

Londres, 61 Gower Street,
_12 de Dezembro de 1880,  meia noite_.




CONTEDO.


PRLOGO.


I.--Como eu Fui Exploradr
II.--Como foi Preparada a Expedio


CAPTULO I.


EM BUSCA DE CARREGADRES.

     Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--No ha
     carregadres--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chgo ao Porto da Lenha--Os
     resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley
     a brdo da _Tmega_--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu
     hspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens


CAPTULO II.


AINDA EM BUSCA DE CARREGADRES.

     O Governadr, Alfredo Pereira de Mello--A casa do
     Governadr--Cousas de que no tem culpa o Governo da Metrpoli--O
     que  Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A
     Catumbela--Obtenho carregadres--Chegada de Capello e Ivens--Nova
     alterao de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho
     sertanejo--Apparecem novos obstculos--O Capello vai ao
     Dombe--Partida--O que  o Dombe--Novas difficuldades--Partimos
     emfim


CAPTULO III.


HISTORIA DE UM CARNEIRO.

     Nove dias no deserto--Falta de gua--O ex-chefe de Quillengues--Eu
     perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque eu e
     uma prta--Perde-se um burro--Quillengues emfim--Morte do carneiro


CAPTULO IV.


POR TERRAS AVASSALLADAS.

     Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do caminho--Chegada
     a Caconda--Jos d'Anchieta--Nada de correspondencia--Chegada do
     Chefe--Vamos aos carregadres--Ivens vai ao Cunene e eu vou ao
     Cunene--Volta de casa do Bandeira--Falham os carregadres--O meu
     juizo


CAPTULO V.


VINTE DIAS DE AGONIA.

     Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova Cimbo--40
     carregadres--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho
     Capco--80 carregadres--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo
     avante--Grave questo no Chaca Quimbamba--Os rios Cale, Cahungamua
     e Cunene--Nova e sria questo no Sambo--O Cubango--Chuvas e
     temporaes--Grave doena--Uma aventura horrivel--O Bih finalmente!


CAPTULO VI.


PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.

     No Bih--Doena--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto
     Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedio no
     Bih--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sbre o Bih--Os
     meus trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--At ao
     Cuanza--Escravatura

     Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo


CAPTULO VII.


ENTRE OS GANGUELAS.

     Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e
     Onda--Fetus arbreos--Atribulaes--Escravos--O rio Cuito--Os
     Luchazes--Emigrao de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os
     Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os
     Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi


CAPTULO VIII.


AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.

     O Cuchibi--O sova Ca-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo e
     Capeu--Abundancia--Bondade dos indgenas--Povoaes e costumes--Um
     vao no Cuchibi--O rio Chicului--Caada--Feras--O Rio Chalongo--Uma
     jornada atroz--As Nascentes do Ninda--O tmulo de Luiz Albino--A
     planicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final




LISTA DAS ILLUSTRAES.


FIG.

1.--Mulheres Mundombes, vendedeiras de carvo
2.--Mulheres e Donzellas, Mundombes
3.--Homens Mundombes (_De uma photo. de Monteiro_)
4.--Homem e Mulhr do Huambo
5.--Mulhr do Sambo
6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bih
7.--Ponte de Cassanha sbre o rio Cubango
8.--O Seclo que me deu um Prco
9.--Mulheres Ganguelas das margens do Cubango
10.--Termites na margem do rio Cutato dos Ganguelas
11.--Monte termtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato
dos Ganguelas, coberto de vegetao
12.--Sepultura de Seclo
13.--Ferreiros Caquingues
14.--1. Folles; 2. Bocal de Barro; 3. Bigorna; 4. Martello
15.--Objectos fabricados pelo gentio entre a Costa e o Bih
16.--Casa de Belmonte
17.--Vista exterior da povoao de Belmonte, no Bih
18.--Planta da povoao de Belmonte, no Bih
19.--Mulhr do Bih cavando
20.--Carregador Biheno em marcha
21.--Palissada slta; Palissada amarrada com Casca de rvore; Palissada
travada com Forquilhas
22.--Planta de uma Libata de gentio no Bih
23.--Fora da Porta das Libatas ha isto
24.--Objectos fabricados por Bihenos
25.--Quinda, csta de palha que no deixa passar a gua; Peneiro para
secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Cabaa para
tirar gua  capata
26.--Uma Casquilha do Bih
27.--Mulheres do Bih pisando Milho
28.--Mulheres Ganguelas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam
os Dentes incisivos
29.--Montes termticos, dos terrenos entre a Costa e o Bih
29A.--Viagem ao Cunene
30.--Passagem do Cuanza
31.--Homem e Mulhr Quimbandes
32.--Raparigas Quimbandes
33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos
34.--Esqueleto da Barraca
35.--Barraca concluida em uma hora
35A.--Ganguelas e Quimbandes
36.--O Sova Mavanda vem danar mascarado ao meu Campo
37.--Mulhr Quimbande carregada
38.--1. Cachimbo; 2. Facas; 3. Cactes de guerra
39.--Ditassoa, peixe do rio Onda
40.--Fetus arbreos das margens do rio Onda
41.--Mulhr de Cabango com o ferro de coar a cabea
42.--Homem de Cabango
43.--Homem de Cabango
44.--O Lago Liguri
45.--Luchaze das margens do rio Cuito
46.--Mulhr Luchaze carregada
47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil
48.--Atundo, Planta e Fruto
49.--Povoao de Cambuta, Luchaze
50.--Mulhr Luchaze de Cambuta
51.--Homem Luchaze de Cambuta
52.--Objectos fabricados pelos Luchazes
53.--Mulhr Luchaze do Cutangjo
54.--Cachimbo Luchaze
55.--Capoeira dos Luchazes
56.--Urivi, Armadilha para caa
57.--Luchaze do Cutangjo
58.--Objectos Luchazes
59.--O Cuchibi
60.--Flha e Fruto do Cuchibi
61.--O Mapole, rvore e Flha
62.--Mapole, Fruto e disposio dos Ramos
63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba
64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas do Cangamba
65.--Cachimbo Ambuela
66.--O Quichbo
67.--Oco
68.--Opumbulume
69.--O Rato mencionado
70.--Songue;
70A.--Rasto do Songue
71.--Muene-Ca-eu-hue, Chefe dos Ambuelas
72.--Mulhr Ambuela
73.--Opudo
74.--Capu
75.--Barco e Remo do Cuchibi
76.--Tambor das festas Ambuelas
77.--Ca-eu-hue
78.--O Irmo do Sova
79.--Caador Ambuela
80.--Chinguene
81.--Lincumba
82.--Chipulo ou Nhele
83.--O Vao do Cuchibi
84.--Azagaias dos Ambuelas
85.--Ferros de frechas dos Ambuelas
86.--Malanca
87.--1. Cornos vistos de frente; 2. Rasto da Malanca
88.--O Bfalo Africano
89.--Escudo dos Luinas
90.--O Chefe Cicota
91.--Termites do Nhengo
92.--1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui
93.--Corte vertical de uma Casa Luina da aldea da Tapa

       *       *       *       *       *

MAPPAS NO VOLUME PRIMEIRO.


Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral
   "   "  2.--De Benguella ao Bih
   "   "  3.--Entre Cubango e Cuanza
   "   "  4.--O Paiz dos Quimbandes
   "   "  5.--Disposio da gua em Cangala
   "   "  6.--De Cambuta ao Cubangu
   "   "  7.--Pal da nascente do Cuando
   "   "  8.--De Cangamba ao Cuchibi




COMO EU ATRAVESSEI A FRICA.


Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.




PRLOGO.


I.--Como eu fui Explorador.

No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de operaes que no
baixo Zambeze sustentou cruenta guerra contra os indgenas de
Massangano. O S^{nr.} Jos Maria Latino Coelho, ento Ministro da
Marinha e Ultramar, dera ordem ao Governador de Moambique, para que,
finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer
um detalhado reconhecimento do paiz, to longe quanto me fsse possivel.

A ordem foi dada, mas no foi cumprida; e depois de vs instancias, e de
um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas d'frica Oriental, voltei 
Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior d'aquelle
continente, que mal tinha entrevisto.

Razes particulares de familia fizram adiar, se no aniquilram, os
meus projectos.

Official do exrcito, sempre de guarnio em pequenas terras de
provincia, fazia das minhas horas de cio horas de trabalho; e ainda que
mal antevia a possibilidade de ir  frica, era o estudo das questes
Africanas o meu nico e exclusivo passatempo.

As sublimes questes de astronomia no eram por mim desprezadas, e o
muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o
estudo da frica e do ceo.

Servia em Caadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos
mais intelligentes homens que tenho conhecido, o Capito Daniel Simes
Soares.

Pouco depois de havermos feito conhecimento, ramos ligados por estreita
amizade.

O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da
Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a
viver ali; e quantas vezes, estando um de ns de servio, tve a
companhia do outro! frica, e sempre frica, era o nosso assumpto de
conversao. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazamos
correr velozes, debatendo questes, que eu mal pensava seria chamado a
resolver um dia.

Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti  crtica de Simes
Soares, e de outro meu camarada, o Capito Camacho; memoria filha das
nossas interminaveis palestras Africanas.

Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas
colonias de frica Oriental, e isso com a maior economa para o Estado.

Depois de muito debatida a questo por ns tres, foi a memoria enviada
ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca chegara s mos
do Ministro da Marinha.

A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar  frica, apesar de ser
chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses de subida
importancia.

Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questes Africanas
tinham ali tomado grande interesse com a creao da Commisso Central
Permanente de Geographia, e com a fundao da Sociedade de Geographia de
Lisboa.

Falava-se muito n'uma grande expedio geogrphica ao interior d'frica
Austral.

Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.} Joo
d'Andrade Corvo. Se no  facil explorar a frica, no  menos difficil
falar ao Ministro, e sbre tudo se esse Ministro  o S^{nr.} Joo
d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha
e Estrangeiros, e o tempo no lhe sobejava para falar aos importunos.
Persegui-o uns oito dias, e na vspera da minha partida de Lisboa,
obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros.

Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispr de
pouco tempo, e perguntando-me, o que eu queria?

Travou-se entre ns o seguinte dilogo:--

"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar  frica uma expedio
geogrphica; e sbre isto venho falar."

O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda
afabilidade.

"J estve em frica?" me perguntou elle.

"J estive em frica, conheo um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me
occupado muito em estudar questes Africanas."

"Quer ir fazer uma longa viagem na frica Austral?"

Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir," disse
por fim.

"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande expedio  frica,
bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, no
esqucerei o seu nome."

" verdade"; me disse, quando eu j ia a sahir, "que condies e que
vantagens pede por esse servio?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi.

Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros  Calada da Gloria, N^{o.}
3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Vice-presidente da
Commisso Central Permanente de Geographia. Tivmos larga conferencia, e
o distincto sabio, ento todo entregue a questes geogrphicas,
disse-me, que j tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha
de Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da expedio.

No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizram
arrefcer um pouco o febril enthusiasmo que se apossara de mim em
Lisboa, e pensando maduramente, resolvi no ir explorar em frica.

Minha mulhr e minha filha eram laos difficeis de romper, e cada vez
que a ida de me privar das caricias da meiga criana me passava pela
mente, arrefcia completamente em mim o ardor das exploraes.

De um lado, a familia, e do outro a frica, eram dois poderosos
atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a
questo. Se eu fosse nomeado Governador de um districto, podia ir
estudar uma parte d'frica, sem me separar da familia. Fui collocado no
4 de Caadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em
Lisboa. No se falava mais em expedio exploratoria, e apenas um
enthusiasta, Luciano Cordeiro, no tinha descrido de que ella se faria;
e na sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um
alto brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, j de
idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia
j os primeiros symptomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a
vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores illustraes
Portuguezas do sculo 19.

Eu no conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a quem hoje me
prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.

Todos aquelles a quem falava de explorao, me diziam ser cousa adiada.
Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em Lisboa me compungia,
pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um
impulso harmnico s exploraes Portuguezas em frica; por outro lado,
sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu
compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.

Nutri ento a ida de ir governar, e de me estabelecer em frica, n'essa
frica em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus.

Fui falar ao Ministro.

D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, no se
falando j de exploraes.

"O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o governo de
Quillimane, que est vago." O S^{nr.} Corvo rio-se. "Tenho misso de
maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de si para cousa
differente de governar um districto em frica; e por isso no lhe dou o
governo de Quillimane."--

"Ento V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar a frica? Eu com
franqueza digo, que hoje no creio que a ida se realize."--

"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de
deixar de ser Joo de Andrade Corvo, ou na prxima primavera, uma
expedio organizada como ainda se no organizou expedio alguma na
Europa, ha de partir de Lisboa para a frica Austral."--

"E conta comigo?"--

"Conto comsigo," me disse, "e em breve ter noticias minhas."

Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.

Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "No tenho a honra de o
conhecer, mas preciso falar-lhe, e peo-lhe uma entrevista."
Sbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito Capello--Official de
guarnio a bordo do couraado _Vasco de Gama_."

No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no Caf
Martinho, s 3 horas.--Capello."

s tres horas entrava no Caf Martinho, e vi que as mesas estavam
completamente desertas. S a uma dellas estava sentado um primeiro
tenente de marinha, que eu no conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu
homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabea descoberta.

Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle
sentado. Moreno, de olhar plcido; o cabello raro, e grisalho, o pequeno
bigode j esbranquiado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido
pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude.

" o S^{nr.} Capello?"--

"Sou;  o S^{nr.} Serpa Pinto? j o esperava, e sei que, provavelmente,
vem falar-me d'frica."--

" verdade. Ento est decidido a fazer parte da expedio?"--

"Estou; e j n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio Gomes."--

"Foi elle que me falou no S^{nr.}; que compromissos tem?"--

"Nenhuns. No sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o
D^{or.} Gomes; ainda no vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que,
se for  frica, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na
armada, Roberto Ivens. Conhece-o?"--

"No o conheo. Falei ao Ministro e elle disse-me, que contava comigo
para a expedio."--

"N'esse caso, uma vez que j tem compromissos com o Ministro, eu desisto
de ir."--

"Ora essa!... ento desisto eu."--

"Mesmo, eu no creio que a cousa v a effeito."--

"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, porque no havemos de
ir ambos? No nos conhecemos,  verdade; mas em breve travaremos ntimas
relaes, e creio bem chegaremos a ser amigos."--

"E porque no? Ento, se a expedio for vante, iremos juntos, e
escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--

"Esta dito. Pensa sriamente que o Governo votar uma to grande verba
como a que  precisa para uma empresa d'estas?"--

"No sei, duvido; e agora ltimamente fala-se menos na expedio."

Conversmos largamente, e separmo-nos; tendo a ntima convico de que
a expedio nunca se realizara.

Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois
separmo-nos. Elle seguio viagem no couraado _Vasco da Gama_ para
Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em Caadores 4,
no Algarve.

Com o descano da vida de guarnio, voltei ao estudo, e tive a
felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira,
distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do
trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questes
mathemticas, que elle maneja com intelligencia superior. Foi por seu
intermedio que travei relaes epistolares com Luciano Cordeiro, a quem
depois me devia ligar estreita amizade.

Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de
Luciano Cordeiro chegram s mos do Ministro da Marinha, em que tratava
do modo de organizar uma expedio de explorao na frica Austral.

Passram-se mezes, e no mais me falram de expedio.

Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa
descrena em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria igual
descrena. Na Commisso Permanente de Geographia discutiam-se varios
projectos de expedies; mas tudo ficava em discusses.

Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} Joo d'Andrade Corvo,
apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crdito de 30 contos
para uma expedio em frica; mas, pouco depois, cahio o Ministerio, e
foi o S^{nr.} Jos de Mello Gouvea encarregado da Pasta das Colonias;
quando o projecto ainda no tinha sido votado no parlamento.

Tornava-se a falar da projectada explorao; mas os jornaes davam por
escolhidos exploradores que eu no conhecia, e s vezes apenas falavam
em Capello.

Eu ento estava em Faro, e se me no descurava dos meus estudos
astronmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de Joo Botto, distincto
professor da escola de Pilotos de Faro, no nutria j idas de viajar. O
meu tempo era passado entre as caricias da familia e os meus livros de
estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchgos do lar domstico, para
pensar em trocar a minha vida plcida pelo bulicio e azares das viagens.

Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o nvo
ministro, Jos de Mello Gouvea, havia no parlamento apoiado a proposta
de Joo d'Andrade Corvo, e que fra votada a somma de 30 contos para uma
explorao. A morte de Bernardino Antonio Gomes, vctima, talves, do
muito interesse que dedicou ao estudo das questes Africanas, n'uma
idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de
esprito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um grande vcuo
na Commisso Central de Geographia. Outros,  verdade, tomando grande
interesse nas questes palpitantes, levantavam a voz no seio da
commisso; mas discusses repetidas iam adiando a prctica urgente.

Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, j no via
possibilidade de se levar a effeito a expedio em 1877; e em vista do
que sabia pela imprensa, no pensava que se lembrassem de mim, se
aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer.

O Algarve  um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera oriental, e as
copas elegantes das palmeiras que se inclinam sbre as casas em
terraos, faz-nos, s vezes, esqucer de que vivemos no prosasmo da
Europa. Eu era ali o commandante militar, quer dizer, que afazeres
poucos tinha.

O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus
livros de estudo, e os meus instrumentos de observaes, faziam-me
passar horas bem felizes, d'essa plcida felicidade que a muitos no 
dado conhecer. O lar caseiro, o xambre e os pantufos chegram a ser para
mim o ideal do bem-estar.

Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz
fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o vero; quando, um
dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me apresentar
immediatamente ao General commandante da Diviso; e ali achei uma ordem
para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro das Colonias.

Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e
plcida junto dos meus; ahi vlvo a correr mundo.

Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do
Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns d'culos,
outros sem culos, uns velhos outros nvos, todos conhecidos, ou pelas
sciencias, ou pelas letras, ou pelos seus servios pblicos, tratavam de
questes Africanas. Presida a esta solemne sesso o Ministro Jos de
Mello Gouva.

Eram Secretarios D^{or.} Jos Julio Rodrigues e Luciano Cordeiro. Conde
de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos Testa, Jorge
Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio Teixeira de
Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.

L no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona, estava um homem
de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por entre os
vidros da luneta de tartaruga. Era Joo de Andrade Corvo, que me dizia
com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se havia de fazer."

Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas sahamos d'ali, com
as instruces precisas para a nossa viagem. Tnhamos escolhido um
terceiro socio, e esse era o tenente Roberto Ivens, o amigo de Capello,
que eu no conhecia, e que a esse tempo estava em Loanda a bordo do seu
navio de guerra. Estvamos a 25 de Maio, e tommos o compromisso de
partir a 5 de Julho. Era muito, porque tnhamos que vir preparar a
expedio a Frana e Inglaterra, e s dispnhamos de um mez para isso.

Ento Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a peito
desfazer todos os obstculos que os indispensaveis caminhos burocrticos
nos podiam trazer; e andou de modo, que a 28 de Maio eu e Capello
partamos para Paris e Londres, a comprar o que se nos tornava
necessario. Levvamos um crdito de oito contos de ris.


II.--Como foi Preparada a Expedio.

Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da
Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.

D'elles ouvmos conselhos e recebmos os maiores obsequios.

Infelizmente, no encontrmos no mercado, nem instrumentos, nem armas,
nem artigos de viagem, taes como os desejvamos.

Foi preciso encommendar tudo.

Com uma recommendao especial de M. d'Abbadie, fomos procurar os
constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias, Lorieux, Baudin
e Radiguet trabalhram para ns.

Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage (Faur) das
armas, Tissier do calado, e Ducet jeune da roupa.

Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali comprmos
os chronmetros, em casa de Dent, e alguns instrumentos em casa de
Casella; uma boa proviso de sulfato de quinino, e muitos objectos de
cautchouc na casa Macintosh, entre elles dous barcos e algumas
banheiras.

Procurmos de balde em Londres, como tnhamos de balde procurado em
Paris, um theodolito que tivesse as condies necessarias para uma
viagem de tal ordem qual amos emprehender. Uns, ptimos para
observaes terrestres, no tinham as condies precisas para as
observaes astronmicas; outros, que reuniam as condies requeridas,
eram intransportveis, j pelo peso, j pelo volume.

No havia tempo para fazer construir um de propsito, e de volta a
Paris, tivmos de aceitar aquelle que j antes nos tinha sido offerecido
por M. d'Abbadie.

Recolhmos, em Paris, tudo o que tnhamos encommendado, e que tinha sido
fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho, desembarcvamos
eu e Capello em Lisboa, completamente preparados para a nossa viagem;
podendo assim cumprir o nosso compromisso, de partir para Loanda no
paquete de 5. Tnhamos feito os preparativos em 19 dias.

Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em
frica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens, o modo
porque se haviam preparado outros viajantes.

Em todas as narrativas havia escassez de informaes a esse respeito, e
lembra-me ainda o quanto isso me enfadou.

Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em frica, e se
d'ella escrevesse a narrativa, no ser omisso n'essa parte, e dizendo
quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me prestram
servios reaes, e quaes os que me fram carga inutil.

A historia das exploraes d'frica est no seu como.

Muitos exploradores me succederm em frica, como eu succedi a muitos, e
creio fazer um bom servio quelles que depois de mim se aventurarem no
inhspito continente, apresentando-lhes agora uma relao dos objectos
de que me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou
os inconvenientes que n'elles encontrei.

Segundo as instruces que do Governo tinha recebido, podia demorar-me
tres annos em viagem, e para isso me preparei.

A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me
sbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei aterrado
quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e Londres.

S malas tnhamos 17! todas das mesmas dimenses, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6.

Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia, caixas
para escovas e mais objectos competentes; outra continha um servio de
meza e ch para tres pessas; e uma terceira o trem de cozinha.

Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4
frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte
artificial, um chronmetro, umas tbuas logarthmicas, umas ephemrides,
um aneroide, um hypsmetro, um thermmetro, uma bssola prismtica, uma
bssola simples, um livro em branco, lapis, papl e tinta; 50 cartuxos
para cada arma; um vestuario completo, e tres mudas de roupa branca;
isca, fusil, pederneiras, e alguns pequenos objectos de uso pessal.

Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura,
escrivaninha e logar para papl. Eram pessaes, e pertencia cada uma a
um de ns.

As outras 10 malas continham indistinctamente roupas, calado,
instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras
iguaes e abriam com a mesma chave.

A nossa barraca era uma _tente marquise_ de 3 metros de lado por 2^m, 3
de alto. As camas eram de ferro, fortes e cmmodas. As mesas de tezoura,
os bancos e cadeiras de lona.

Todos estes artigos fram da fbrica de Walker.

Cada um de ns tinha uma carabina magnfica de calibre 16, cujos canos,
forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido cuidadosamente montados por
Faur Lepage.

Uma espingarda do mesmo calibre da fbrica de Devisme, uma Winchester de
8 tiros, um revlver e uma faca de mato completavam o nosso armamento.

Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas,
das mesmas dimenses das malas, contendo, em latas cuidadosamente
soldadas, ch, caf, assucar, hortalias secas, e farinhas substanciaes.
Hoje devo aqui lavrar um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira,
proprietario da mesma fbrica, pelo escrpulo que tve na esclha dos
gneros que nos forneceu, e que muito nos servram no como da viagem.

Os instrumentos que levmos fram os seguintes: 3 sextantes, sendo um de
Casella, de Londres; um de Secretan, e um de Lorieux, verdadeiro primor.
Dois crculos de Pistor, fabricados por Lorieux, com dois horizontes de
espelho, e os competentes nivis. Um horizonte de mercurio de Secretan.
Tres lunetas astronmicas de grande fra, duas de Bardou e uma de
Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella; 4
pedmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6 bssolas de algibeira;
1 bssola Bournier de Secretan; 3 outras azimutaes, duas de Berlin e uma
de Casella; 2 agulhas circulares Duchemin; 6 hypsmetros Baudin, 1 de
Casella, 3 de Celsius de Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12
thermmetros de Baudin, Celsius e Casella; 1 barmetro Marioti-Casella;
1 anemmetro Casella; 2 binculos Bardou; 1 bssola de inclinao, e um
apparelho de fra magntica, que nos fram obsequiosamente emprestados
pelo Capito Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E finalmente, o
theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de _Aba_, e que to
cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor.

Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado o
seguinte letreiro--_Expedio Portugueza ao interior d'frica Austral,
em 1877_.

Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares zoolgicos
e botnicos nos fram enviadas pelos S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de
Ficalho.

Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que
amos deixar Lisboa, para nos internarmos nos sertes desconhecidos da
frica Austral.




CAPTULO I.


EM BUSCA DE CARREGADORES.

     Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--No ha
     carregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da Lenha--Os
     resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley
     a bordo da _Tmega_--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu
     hspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens.


No dia 6 de Agosto de 1877, chegvamos a Loanda, no vapor _Zaire_, do
commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho
affectuoso de muita gratido, pelos favores que me dispensou durante a
viagem.

Desde a minha sada de Lisboa, uma preoccupao constante me perseguia.
A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser ainda muito aumentada, com
fazendas, missangas e outros gneros, que seriam a nossa moeda no
serto.

Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li
eu as difficuldades em que se encontrram muitos exploradores, por no
poderem obter o nmero sufficiente de carregadores para as cargas
indispensaveis. Como os obteria eu? Em Cabo-Verde sube, que uma carta
que eu e Capello tnhamos dirigido ao Ivens no fra por elle recebida;
pois que sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por
isso no podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe
fazamos, de estudar a questo, e ver se nos obtinha em Loanda os
auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas ficou sem
resultado, e apesar do apoio que nos prestou o Capito Tito, nem um s
_keruboy_ podmos ajustar ali.

Chegmos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa do S^{nr.}
Jos Maria do Prado, um dos primeiros proprietrios e capitalistas da
Provincia de Angola, que immediatamente poz  nossa disposio, uma das
muitas casas que possue na cidade; casa com accommodaes bastantes para
receber o enorme trem da expedio.

Do S^{nr.} Prado recebemos innmeros favores. Na noite do dia 6, fomos
procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua Excellncia o
Governador-Geral, que vinha, em nome do S^{nr.} Albuquerque, fazer-nos
os mais cordiaes offerecimentos.

No dia 7, procurmos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu
affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus
trajos, que, ptimos para a vida do mato, eram, a no poder ser mais,
ridculos para uma visita ceremoniosa.

O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior
assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a
impossibilidade de obtermos carregadores.

Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em
frica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe: _No ha carregadores_.

Decid immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por ali os poderia
contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me mandasse
transportar ao Zaire.

O s navio de guerra que podia ser posto  minha disposio andava
cruzando na foz do Zaire; resolvi d'ir procural-o, e no dia 8, parti
n'um escalr, tripulado por 8 prtos cabindas, que me foi fornecido pela
capitana do Porto. Levava ordens do Governo para o commandante da
canhoneira. No ha nada mais desagradavel do-que fazer uma viagem de 120
milhas em um escalr. De Loanda ao Ambriz comi apenas umas sardinhas e
bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no escalr no mesmo dia da
partida, no tive tempo de fazer preparativos.

No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no
planalto de um cmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam cortadas a
prumo sbre o mar.

Fazia as vzes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.} Tavares, que
caprichou em obsequiar-me, assim como tdos os habitantes da villa,
mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem estive hospedado.

Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de conhcer
Avelino Fernandes a bordo do vapor _Zaire_, e relaes ntimas se
estabelecram entre ns.

 filho das margens do Zaire, e tem grande paixo por esse rico solo,
onde as rvores gigantescas da floresta virgem lhe assombrram o bero.
Tem 24 annos. A cr morena e o cabello crespo indicam que nas suas
veias, de envolta com o sangue Europu, gira o sangue Africano. Rico,
dotado de uma esmerada educao, adquirida nos principaes centros da
Europa, e que uma intelligencia superior soube desenvolver,  o
verdadeiro typo do cavalheiro palaciano, que no se pde conhcer sem
que a elle nos prenda logo verdadeira sympatha. As muitas relaes que
elle tinha no Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali
carregadores.

Sube no Ambriz que a canhoneira _Tmega_ devia chegar quelle ponto
dentro de dois dias; e por isso resolvi esperal-a.

A viagem de Loanda no escalr no me tinha deixado recordaes to
fgueiras, para que eu persistisse em continuar para o norte da mesma
forma.

No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois traos vou
narrar o que vi.

Do planalto em que assenta a povoao Europa, desce-se para a praia por
um caminho em zigzag, que estava sendo reconstruido por alguns
grilhetas. Na praia, entre dois soberbos edificios, que sam armazens das
casas commerciaes Franceza e Hollandeza, ostenta-se um albergue,
meio-derrocado pla velhice, meio-em-construco recente no-continuada,
que  a Alfndega; Alfndega sem depsitos, onde as fazendas, arrumadas
 porta sbre o areal, pagam um irrisrio tributo de armazenagem. A
N.N.E. da villa, muitos hectares de terreno sam occupados por um
pntano, inferior de 3 metros e 12 centmetros ao maior preamr; e na
encosta da escarpa que do planalto da villa desce ao pntano, assentam
as cubatas da povoao indgena, nas peiores condies de salubridade.
Ao sul da villa, entre umas moitas de mato virgem,  o cemiterio--onde
os cadveres enterrados de dia, sam pasto das hyenas  noite.

A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, est prestes a
ser inutilizada; porque a oxidao do ferro em contacto com o ar e a
gua, produz-se cdo; e a ponte no foi pintada, no ha verba para sua
conservao, nem alguem que por ella vigie.

A casa do chefe  um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro perigo em
habitar.

O paio ameaava ruina; e isso fz-me impresso, porque elle contm a
plvora do commercio, que no rende menos de duzentos mil ris mensaes
para o Estado.

 bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da minha visita
ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados quella bonita villa, cuja
importancia  patente, sendo um grande centro de commercio.

Um kilmetro ao N. da ponte de desembarque, lana no Atlntico as suas
guas o rio Loge, cuja foz  obstruida por um banco de areia, que lhe d
difficil accesso, mas que depois  navegavel por uns trinta kilmetros.

No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrcula, fundada plo
clebre Jacintho do Ambriz, e hje pertena de seu filho Nicolao. Esta
propriedade representa um dos maiores esfros feitos na provincia de
Angola, para o desenvolvimento da agricultura.

Jacintho do Ambriz foi levado  frica por uma desgraa ntima. Filho do
povo, sem a menor instruco, no sabendo mesmo ler ou escrever (mas
dotado de uma razo clara, de um esprito fino, e de muita felicidade),
chgou a fazer uma grande fortuna. Jacintho casou no Ambriz com uma
mulhr da sua igualha. Era a tia Leonarda, mais conhcida por _tia
Lina_, natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhci eu vestida sempre 
moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar que fala o pvo
d'aquella provincia, como se de l tivsse chgado. Na sua casa comi um
jantar beirense, e por um momento julguei-me transportado a uma das
hospitaleiras casas dos nossos lavradores do Norte. A tia Lina entrou
muito na felicidade que levou Jacintho  riqueza.

Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na frica, obriga a dois
distinctos ramos:

Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e
adquirir dos prtos esses productos, vendendo-lhes as fazendas.

Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os
prtos.

Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vzes vctima da sua
boa f, e das extores de alguns chefes; o que provocava uma phrase 
tia Lina, que eu muitas vzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos
esmagam-te; mas eu esmago os prtos!"

O verbo empregado pla tia Lina no era precisamente o verbo _esmagar_,
mas, por muito enrgico, substituo-lhe outro algo semelhante.

Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criana que
puxava por elle. Comprou terreno, e lanou os fundamentos d'essa
vastissima propriedade que  digna de ser visitada; e  qual dedicou o
seu trabalho e a sua bla, at ao ltimo momento de vida que tve.

Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle
tolices engraadissimas, plo mao emprego de um ou de outro vocbulo que
decorara, mas cuja significao no conhecia bem; com tudo, tinha muito
esprito, e ha d'elle anecdotas engraadas. Esta por exemplo:

J elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que
ao porto chgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer
offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.

Um dia que elle fra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco.
"Quantos quizr?" lhe respondeu Jacintho; "mande manh um escalr,
pelo Loge at minha casa, buscal-os."

No dia seguinte, um escalr, tripulado por seis homens, encostava ao
muro do jardim de Jacintho. Fz elle subir o escalr at dois kilmetros
mais, e chgando  vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em
cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos
marinheiros: "Tdos estes macacos sam meus, vivem c dentro da minha
propriedade; tendes licena de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao
commandante."

Os marinheiros encarram com os cimos elevadissimos das enormes rvores,
cujos troncos, de espantoso dimetro, no lhes permitiam a subida; e
depois de alguns vos esfros, retirram desanimados, perseguidos pla
grita e plas caretas da macacaria.

"Eu dei-lhos; se os no levam, no  culpa minha," dizia o Jacintho,
rindo s gargalhadas.

Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que,
mchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fbrica
Portugueza.

Nada Jacintho admitia que no fsse Portuguez, e, custassem-lhe o dbro,
fazia elle fabricar em Lisboa tdos os seus artigos, j para a
agricultura, j para a industria.

A memoria d'esse homem obscuro--mais conhcido plos disparates que
dizia, do-que plas muitas cousas acertadas que fz--dve ser respeitada
por tdos os que se interessam plo desenvolvimento Africano; porque
elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior servio fz, para
desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua
immensa fortuna, e trabalhando at ao seu ltimo dia.

Na margem esqurda do Loge, assenta outra propriedade agrcula, tambem
importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto Garrido. No tive tempo de a
visitar, porque, no dia que ali passei, no pude esquivar-me aos muitos
favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o
que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito.

No dia seguinte, chgou a canhoneira _Tmega_, e sube, indo a bordo, que
se achava sem mantimentos, e com grande nmero de praas doentes; motivo
por que combinei com o commandante, o S^{nr.} Marques da Silva,
esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar.

Trs dias depois chgou a _Tmega_ de volta de Loanda; indo eu logo para
bordo, com Avelino Fernandes, segumos viagem no mesmo dia para o Zaire.

Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei
logo que comou a viagem.

Submos o Zaire at ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino
Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em
carregadores. Dissram-me, que seria, talvz, possivel obtel-os, se os
chefes indgenas me quizssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim,
era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o servio que eu
exigia.

Repugnou-me a ida de comprar homens, embora fsse para os libertar em
seguida. E depois, quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo
livres?

Resolvi immediatamente no proceder d'este modo, embora no obtivsse um
s carregador ali.

Na casa em que estava sube que tinha chgado a Boma, no dia 9, o grande
explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha
seguido para Cabinda.

Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os
nossos servios ao arrojado viajeiro. Partmos, e logo que ancormos no
porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da
canhoneira.

Foi commovido que apertei a mo de Stanley, homem de pequena estatura,
que a meus olhos assumia propores de vulto colossal.

Offereci-lhe os meus servios, em nome do Governo Portuguez, e
disse-lhe, que se quizsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia
obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia
transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo
Portuguez puz  sua disposio o dinheiro de que carecsse.

Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mo.

Os officiaes da _Tmega_ confirmram os meus offerecimentos em nome do
seu Commandante.

Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira  sua
disposio.

Como bem se pde calcular, eu e Avelino Fernandes no deixvamos
Stanley, e vidos de ouvir a narrao da sua viagem, o tempo que elle
tinha preso, era por ns passado a questionar os seus homens.

No dia 19, os officiaes da _Tmega_ dram um soberbo banqute ao
intrpido explorador, para o qual convidram o Commandante Marques,
Fernandes e a mim.

No dia 20, partmos para Loanda, levando a bordo tda a comitiva de
Stanley, que se compunha de 114 pessas, entre ellas 12 mulhres e
algumas crianas.

Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distinco a que eu
fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que
tve, e com elles commodidades que eu no podia offerecer-lhe, n'uma
casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro.

O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e
offereceu-lhe um banqute, a que assisti. De volta a casa, perguntei a
Stanley, qual a impresso que trazia do S^{nr.} Albuquerque? E elle
disse-me apenas: "_He is a very cold gentleman_." (" um cavalheiro mui
frio.")

O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um almo, e muitos
favores nos dispensou.

Haviam festas e banqutes; mas, a 23 de Agsto, ainda no tnhamos um s
carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley plo Governador,
me repetira sua Excellencia, que no me seria possivel obtel-os, sbre
tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major
Gorjo, que apenas tinha podido obter metade do nmero de homens de que
precisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza.

 tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instruces
do Governo.

O Parlamento votara uma somma de 30 contos de ris para se estudarem as
relaes hydrogrphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes
comprehendidos entre as Colnias Portuguezas de uma e outra costa
d'frica Austral.

Umas instruces subsequentes indicavam mais particularmente o
estudar-se o rio Cuango, nas suas relaes com o Zaire; o estudo dos
paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, at
ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fsse, deveria
estudar-se o curso do Cunene.

O que fra designado na lei do Parlamento, elaborada plo S^{nr.} Corvo,
parece ao principio problema vasto de mais para uma s expedio, e uma
verba de trinta contos de ris; mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.}
Corvo saba, que o viajante em frica, no s nem sempre  senhor dos
seus passos, mas tambem, que no seu caminho pde encontrar um
no-previsto problema, que julgue de importancia superior  do que lhe
foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores.

Quanto s instruces, fram ellas mais restrictas, mas ainda assim,
deixavam bastante largos os movimentos da expedio.

O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde
obtivssemos carregadores, ficou indeterminado.

Tnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, at
encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao
Cassibi, que intentvamos descer at ao Zaire; e finalmente, reconhcer
o Zaire at  sua foz.

Com a chgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que ns
propunhamos fazer, e sbre tudo a impossibilidade de obter carregadores
em Loanda, tivmos de modificar completamente o nosso plano.

Decidmos, que fsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e
que, se ali os obtivsse, entrssemos pla foz do rio Cunene, subindo-o
at s suas nascentes; e depois segussemos com os nossos estudos para
S.E., at ao Zambeze.

Como no podamos ter grande confiana na gente que ajustssemos,
lembrmo-nos de pedir ao Governador um certo nmero de soldados, que
fssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e
mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam
acompanhar; porque, no sendo aquelle servio regular, no podia
compellir os soldados a irem.

Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no
principio de Setembro devia chgar de Lisboa.

N'esse vapor veio o Ivens, que pla primeira vz eu via. Sympthico,
ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado plas
viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrmos-lhe tudo
o que resolvramos fazer, e as difficuldades que tnhamos encontrado at
ento. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a
minha partida para Benguella, no dia 6.

Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.

Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as
bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada
partida da Europa.

Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia
ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros,
differentemente do que o devia fazer.

No dia 5, ao almo, conversvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino
Fernandes, a respeito da escravatura, e mostrvamos a Stanley o esprito
das leis Portuguezas sbre o infame trfico; notando-lhe a falsidade de
asseres de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer
ento escravos onde o Governo tinha fora. Discorramos cerca do
assumpto, quando Capello tve de ir a Palacio falar ao Governador.

Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta
official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, se nas
terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido
mostrar-me a carta, e no menos sorprendidos ficmos eu, os meus
companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversao
ao almo, e aquella carta depois de um de ns ir a Palacio, pareceria
ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada.

Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da _Tmega_, em
minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, no tinha
visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia
muito bem saba, s por informaes nossas poderia falar, convivendo
quasi exclusivamente com-nosco, e no tendo visitado ponto algum do paiz
governado plo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.} Governador
viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um
certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.

Stanley, creio eu, fz-nos a justia de pensar que ramos estranhos
quella carta.

No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.} Jos Maria do
Prado para alguns particulares, e nem uma recommendao para o
Governador do Districto, que eu no conhecia.

Ia outra vz  busca de carregadores, que eu, Portuguez, no tinha
podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um
estrangeiro, o explorador Schutt, que no encontrou as menores
difficuldades, para seguir o primeiro caminho que ns tnhamos
tencionado seguir.

Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns
carregadores em Nvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns
20 ou 30.

Foi j um pouco animado com esta promessa, que chguei a Benguella, no
dia 7  noite; e ainda que levava cartas de recommendao para alguns
negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem.




CAPTULO II.


AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.

     O Governador, Alfredo Pereira de Mello--A casa do
     Governador--Cousas de que no tem culpa o Governo da Metrpoli--O
     que  Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A
     Catumbela--Obtenho carregadores--Chgada de Capello e Ivens--Nva
     alterao de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho
     sertanejo--Apparecem nvos obstculos--O Capello vai ao
     Dombe--Partida--O que  o Dombe--Nvas difficuldades--Partimos
     emfim.


Alfredo Pereira de Mello,[1] Governador de Benguella, ao ouvir o meu
pedido de hospedagem, mostrou um embarao que percebi, e disse-me, que
no tinha meio de me receber em sua casa. Sorprendeu-me o caso, sabendo
eu que o Governador era bizarro de genio e de natureza franco. Tive
convites, logo  minha chegada, j de Antonio Ferreira Marques, j de
Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.

Elle disse-me, que no tinha cama a offerecer-me, e eu mostrei-lhe a
minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa d'elle a minha
bagagem. Disse-me, que no tinha quarto; apontei-lhe para um canto da
sala em que estvamos, onde ficaria ptimamente.

No havia mais que dizer, e fiquei. Aguava-me a curiosidade a
resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas
cdo desvendei o misterio.

Alfredo Pereira de Mello era homem nvo, ainda que tinha j uma patente
superior na armada. Sympthico e intelligente,  estimado por tdos
aquelles que o conhcem de perto; porque a uma finissima educao, reune
grande rectido de caracter, e a energa peculir a tudo bom marinheiro.
Serviu na marinha Ingleza, e tem de viagens larga prtica.

Vio as Amricas, e antes de ir para frica como Ajudante-de-Campo do
Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japo.

O Governador, que j me conhcia de nome, ao ouvir o meu pedido,
esquceu que tinha diante de si o explorador, para s se lembrar do
homem habituado a viver no meio do luxo e das commodidades. Pereira de
Mello tve vergonha de hospedar-me.

Um Governador de Benguella, se  recto e probo, vive mesquinhamente com
a paga que recebe.

A casa do governo  arrendada. A mobilia, um pouco menos de modesta,
guarnece a sala e um quarto.

Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei, o
melhor que tenho visto.

E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas vzes navios de guerra
estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a bordo;
e elle nem um copo d'gua lhes pde offerecer em sua casa, porque a
prta ou o muleque tem de trazer o cpo n'um prato velho. O servio de
mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sbre a caba de
Pereira de Mello, ao ouvir a minha teimoza em ficar. No tinha razo. O
asseio que presida a tudo, suppra o vidrado da loua gasto com o
tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o appetite j
derrancado plos ares Africanos; e no se offenda o cozinheiro do Hotel
Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhr em casa do
Governador de Benguella do que comia dos seus opparos manjares, ainda
que a prta Conceio, cozinheira do Governador, nunca ouvio falar do
heroe das caarolas, o clebre Brillat-Savarin.

Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu
corao, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Trs
officios dirigidos ao Governo da Provincia, em que pedia autorizao
para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta.

Isto no  de estranhar, porque foi sempre assim.

Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo de
Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador de
ento j se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a ellas lhe no dar
remedio o Governador Geral da Provincia, e entre outras cousas que pede
com urgencia, figuram os reparos para duas peas de bronze que designa,
e que ainda hje os carecem.

Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora , que os
reparos j fram encommendados e no podem tardar em chegar; porque,
sendo a encommenda d'elles feita em 1790, dve estar quasi concluida a
sua construco.

Benguella  uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlntico
at ao sop das montanhas que formam o primeiro degrao do planalto da
frica tropical.  cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco,
ainda hoje povoada de feras; e isso no admira, que os Portuguezes, em
geral, de caadores no t[~e]m manhas. As habitaes dos Europos
occupam uma grande rea, porque todas as casas t[~e]m grandes quintaes e
dependencias.

Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortalias da Europa, e
muitos frutos tropicaes.

Vastos pteos cercados de alpendres servem para dar guarida s grandes
caravanas que do serto descem  costa em viagem de trfico, e que
repousam trs dias na casa onde effeituam as permutaes.

Um rio, que na estao esta apenas  larga fita de rea branca, que se
desenrola das montanhas ao mar, a travez da floresta do Cavaco,  ainda
assim a grande fonte de Benguella, que os poos ali cavados dam gua boa
philtrada plas reas calcreas.

Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de rvores,
pela maior parte figueiras sycmoros, de pouco arraigadas, e por isso
ainda pequenas. As praas sam vastas, e em uma ajardinada, crescem
bonitas plantas de vistoso aspecto.

As casas, todas terreas, sam construidas de adbes, e os pavimentos sam,
em umas de tijolos, e de madeira em outras.

A alfndega  bom edificio, recentemente construido, e tem vastos
armazens para as mercadorias do trfico. Esta alfndega, e o largo
ajardinado, como outros melhoramentos de Benguella, fram de um
Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto.

Uma ponte magnfica de architraves de ferro, creio que encommendada plo
mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada plo Governador
Teixeira da Silva,  guarnecida por dois guindastes e carrs, por onde,
em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas  alfndega. Eu
aqui commetti um erro de grammtica, escrevendo o verbo transportar no
presente do indicativo, quando no condicional  que era.

_Transportariam_, se houvesse pessal para isso; mas no _transportam_,
porque o no ha.

Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado.

A povoao Europa  cercada, por todos os lados, de _senzalas_, ou
povoaes de prtos, e mesmo entre a povoao branca ha pequenas
_senzalas_, em quintaes abandonados. O seu aspecto geral  agradavel e
aceiado.

Tem Benguella m fama entre as terras Portuguezas de frica; e supem
muitos, ser aquillo um paiz infecto, que exhala de miasmticos pntanos
a peste, e com a peste a morte.

No  assim. Eu no conhci Benguella como ella fra em tempos passados;
mas hje, no  nem melhor nem peior do que outros muitos pontos
d'frica.

O aceio e as plantaes de arvoredo, de certo t[~e]m. modificado muito
as suas anteriores condies hyginicas, e com uma pouca de boa vontade,
no seria difficil o seu saneamento; o que estou certo se far, porque
no pde deixar de merecer verdadeira atteno um ponto de to subida
importancia commercial, e em facil contacto com to ricas terras nos
sertes.

Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam cra,
marfim, borracha e urzella, que chgam  cidade trazidos plas caravanas
dos sertes. Estas caravanas sam de duas espcies. Umas, dirigidas por
agentes das casas commerciaes, trazem s mesmas casas que os despacham
os productos do seu trfico no interior; outras, exclusivamente
compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor
ganho encontram.

O trfico com o gento faz-se por permutao directa do gnero por
fazenda de algodo, branco, riscado ou pintado. Os outros productos
Europos sam objecto de uma segunda permutao pla fazenda recebida; e
assim, depois da primeira troca do marfim ou cra pelo algodo,  este
trocado por armas, plvora, gua-ardente, missanga, etc.,  vontade do
comprador; porque a fazenda de algodo , por assim dizer, a moeda
corrente n'este trfico.

O commercio est entre mos de Europos e crioulos, e felizmente j ali
encontrmos muitos d'esses rapazes que, aventurosos, deixam patria e
familia, para ir em terras longinquas buscar fortuna.

Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, j por conta
propria, j como empregados de casa alheia.

Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tda a vida, sam
deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali quantidade
de patifes, de que  bom resguardar-se; no os confundindo com a gente
digna e capaz, que a ha.

A policia  confiada  fra militar, que um dos regimentos destaca para
Benguella; sendo que de Benguella ainda sam espalhadas differentes
fras nos conclhos do interior; desfalcando a guarnio da cidade, j
de si pequena.

Ns temos dois exrcitos, um na Metrpoli, outro nas colonias, que
nenhuma relao t[~e]m entre si.

O nosso exrcito da Metrpoli  bom, porque o Portuguez  bom soldado; o
nosso exrcito das colonias  mao, porque o prto  mao soldado; e os
brancos que ali servem de mistura com prtos, sam peiores ainda do que
estes. Deportados por crimes que os excluram da sociedade, fazendo-lhes
perder na Europa o fro de cidados, vam desempenhar em frica o posto
nobre do soldado; sendo a nossa autonoma Africana, e a segurana
pblica e particular, confiada  defeza de homens, que dam por garanta
um detestavel passado.

Dahi as contnuas scenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali.
Durante a minha permanencia em Benguella, houve um grande roubo com
arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior
energa na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados,
sendo muito coadjuvado plo seu Secretario, o Capito Barata, que
conseguio descobrir os ladres, e haver o dinheiro roubado. Fra o roubo
planeado plo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por
elle e alguns soldados!!!

Se o nosso exrcito Metropolitano no se presta  censura do homem mais
pichoso, as nossas fras coloniaes sam vctimas das merecidas chufas de
tdos os estrangeiros, que as observam.

Por mais que tenha cogitado, nunca pde attingir ao prstimo de tal
exrcito em nossas colonias, que para policia no serve; servindo menos
para a guerra, que da minha lembrana tenho visto ser feita por crpos
voluntarios, levantados no reino, e que lm vam servir por certo praso.
Hje mesmo, em Lisboa, trs batalhes estam sempre prontos a marchar
para as colonias, e j l t[~e]m ido; o que prova sabermos ns, que o
ter exrcito no ultramar, tal como elle , no passa de velha
costumeira.

Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhcimento do Juiz de
Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que,
como elle, empregaria tda a sua influencia para que eu no tivsse
vindo de balde a Benguella, e assim o fz.

O Governador convocou os moradores importantes a uma reunio em sua
casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado
itinerario, pediu-lhes que o coadjuvssem na empresa de arranjar
carregadores; para que eu podsse levar a cabo a expedio. Todos assim
o prometram.

O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fram incansaveis, e
no dia 17, dia em que este ltimo se retirou para Lisboa, tinha eu o
nmero de carregadores que pedira, cincoenta, que, com trinta esperados
de Nvo Redondo, prefaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia
julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bih.

O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao
Bih o grsso das bagagens, que ns encontraramos n'aquelle ponto; onde
deveramos contratar mais carregadores para seguir vante.

N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando a
ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa
Ferreira e Gonalves, que porfiavam em obsequiar-me.

No dia seguinte, um prto meu servial furtou-me uns 75 mil ris, e
desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse.

A 19 chegram os meus companheiros na canhoneira _Tmega_, e n'esse
mesmo dia resolveu-se, que no iramos  foz do Cunene, mas sim
entraramos directamente ao Bih.

Esta nva resoluo que tommos, alterava o que havia contratado com os
carregadores, e lm d'isso, a gente de Benguella, que, transportada a
paiz distante, no pensara em desertar, no me inspirava garanta,
viajando logo no como em paiz de que conhcia a lngua e os costumes.

Comou nva campanha. Eu tinha presentes as narraes de Cameron e
Stanley a respeito dos embaraos causados por deseres, e at as do
proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de
Tete com o D^{or.} Kirk.

Logo depois da chgada dos meus companheiros, combinmos em ser o Ivens
encarregado dos trabalhos geogrphicos, o Capello de Meteorologia e
Sciencias Naturaes, e eu do pessal auxiliar da expedio,
coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me pr logo em campo, e
o primeiro passo que dei, foi ir tomar conslho de Silva Porto.

Narrei-lhe a nva deciso que havamos tomado, de seguir directamente ao
Bih, e expuz-lhe o meu embarao. Silva Porto veio a Benguella comigo,
pois que a sua casa da Bemposta dista 6 kilmetros da cidade, e
precorrmos as casas onde haviam caravanas de Bailundos, sem que elles
quizssem annuir a levar as cargas ao Bih.  casa Cauchoix tinha
chgado uma grande caravana, e este cavalheiro chgou a offerecer uma
avultada gratificao ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se
quizssem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguo.

Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros
viajantes d'frica, e nenhum outro pvo estende mais longe as suas
correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os
Bihenos viajam s do Bih para o interior como assalariados; e se de
maravilha v[~e]m  costa,  por conta propria. Os Bailundos alugam os
seus servios entre a costa e o Bih, e no vam ao interior para leste;
mas ao norte estendem suas viagens at ao Dondo e Loanda.

Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias
de Benguella ao Bih por Bailundos, e d'ali aos pontos remotos do
interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao Bih.
D'este ponto  costa tornam a servir-se dos Bailundos.

Depois de informado d'isto, s me restava mandar assalariar Bailundos,
para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva Porto,
despachando logo cinco prtos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho
sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora, porque os
enviados levavam 15 dias a chgar ao paiz, e outro tanto tempo, plo
menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir;
fazendo uma somma de 45 dias; afianando-me elle, que antes no os
teria. Ns estvamos em fins de Setembro, e por isso s poderamos
partir por meado de Novembro.[2]

Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com
elles, resolvmos no perder tanto tempo em Benguella; e entregando as
cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos Bailundos,
partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo esperar no
Bih; tempo que aproveitaramos no arranjar de carregadores ali para
seguir vante.

Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma
confiana para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Nvo Redondo,
faziam um total de 66 homens. Tnhamos, lm d'isso, 14 soldados; os
meus muleques pequenos de servio; uns Cabindas de servio de Capello, e
Ivens; e 2 chefes prtos, um contratado por mim na Catumbella, o prto
Barros, e outro por Capello, em Nvo Redondo, o Cato.

Em tda esta gente no tnhamos um s homem de confiana.

Tratmos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e conhcmos que
eram 87; isto , tnhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de
balde que trabalhei para os haver, no me foi possivel obter um s.

Os prtos, no comprehendendo o que amos fazer, ao serto, estavam
receiosos, e com a sua desconfiana natural, imaginavam loucuras e
recusavam-se.

Chgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.

Resolvi, por conslho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os
Mundombes faram menos difficuldades, do que a gente de Benguella; mas,
sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali fsse por mim.

No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fz. Os
Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho
conhcido d'elles; mas, fora d'isso, no fazem outras viagens; e
recusram as pagas avultadas que lhes offerecamos para irem ao Bih.

Tornava-se necessario tomar uma resoluo, e essa foi logo tomada;
seguiramos sempre para o Bih, mas tomaramos por Quillenges e Caconda.

O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que
tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para
Quillengues.

Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bih, e
eram umas 400.

Poz o Governador  nossa disposio uma lancha, para transportar por mar
ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali deviam ser carregadas at
Quillenges, e alguns carregadores de Benguella que estavam doentes.

No dia 11 de Novembro, estvamos prontos a deixar a costa, e fixmos a
partida para o dia 12. Nesse dia fugram 4 carregadores de Nvo Redondo,
e no seguinte 5 de Benguella.

Emfim, no dia 12 deixvamos a Cidade, depois das mais cordiaes
despedidas dos amigos, que se reunram para nos dizer adeos.

Pouco antes tinha eu ido  praia, e por muito tempo tive os olhos fixos
na vastido do Atlntico, d'esse mar enorme que ia perder de vista; e
mal cogitava ento, que s o volveria a ver dois annos depois, na
Frana, em Bordeos.

No sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida,
senti uma pungente mgoa, uma indefinivel saudade, uma dr profunda, que
me produzram como que uma embriaguez, e confesso que no tenho muito a
consciencia de ter deixado Benguella.

A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao
passo cadenciado da caravana; segu-a.

No dia 13, chegvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64
kilmetros. Tnhamos com-nosco 69 pessas, e seis jumentos, que fram,
homens e burros, alojados na fortaleza. Ns trs, com os nossos muleques
de servio, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio
de Santos Reis, distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.

Dois dias depois, chegram as cargas que tinham vindo por mar, e
inventariando tudo, conhci, que para seu transporte precisava de 100
homens, lm dos effectivos que comigo tinha.

Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a lancha,
mettendo a bordo mais cargas do que tnhamos julgado absolutamente
necessarias.

Decidmos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o
paquete, de costume, est em Benguella a 14; mas a 18 nem o vapor tinha
ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado um s homem.

A 21 chgou a mala, mas de gente s tnhamos a trazida de Benguella. O
chefe declarou-nos, que no dia 26 poderamos partir; mas, precisando ns
de 100 homens, apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia
aparecram mais 27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os
fizesse esperar, despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por
dois soldados dos que comigo tinha.

O chefe declara-me que lhe  impossivel conseguir mais gente. Fao
reunir na fortaleza os trs Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo
tratar com elles. Sam trs typos magnficos.

Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella,
que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro  Batara. Os meus
companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque desde o
dia 24 estam com febre.

O Soba Brito apresenta-se com trs saias de chita, pintada de ramageus,
muito enxovalhadas; veste uma farda de capito de infanteria,
desabotoada, deixando ver o peito n, porque camisa no usa; e na
caba, sbre um barrete de l vermelha, pe nobremente um chapo armado
de estado-mair.

O Bahita traja saias de l de vistosas cres, uma rica farda de Par do
Reino, quasi nva, e na caba, sbre o indispensavel barrete, uma
barretina de caadores 5.

O Batara est literalmente coberto de andrajos, e traz  cinta um
espado enorme.

Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos sculos e altos
dignitarios das suas negras crtes, que tomam assento no cho em torno
da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que
tirava de uma marimba, montona toada.

Esta marimba  formada de dois paos de 1 metro de comprido, ligeiramente
curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas pequenas de
madeira, cada uma das quaes  uma nota da escala. O som  reforado por
uma fila de cabaas collocadas inferiormente, sendo a que corresponde 
nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e  mais alta 3 a 4
decilitros.

Os Sobas portram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem que os
tamava a srio.

Depois de me prometterem carregadores, viram acompanhar-me a casa, que
distava uns dois kilmetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de
gua-ardente a cada um, mandram elles danar a sua fidalgaria, e o
Bahita mandou entrar na dana umas raparigas que haviam ficado de parte.

Eu pedi-lhes que danassem elles; mas respondram-me, que a sua
dignidade lh'o no permittia; sendo isso contra as pragmticas
estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita danando, de saias e
farda de Par; e conhcedor do imperio da gua-ardente nos prtos, mandei
dar outra garrafa aos sobas.

Foi o bastante. Atropelram as suas leis, e eil-os saltando em brutesa
dana no meio do seu pvo, que enthusiasmado por tal honra, redobra de
contorses e momices, que chegam a atingir o delirio. O Bahita 
magnfico, e com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este
molde. Fala continuamente em mandar cortar cabas, sentenas estas que
os seus escutam com a maior submisso, mas de que interiormente se riem,
porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o no consente.

O Dombe Grande  um fertilissimo valle, que se estende primeiro do Sul
ao N., e depois a Oeste, quasi em ngulo recto, at ao mar.  enquadrado
por dois systemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro
por leste, em cujo sop corre o rio _Dombe_, _Coporolo_, ou _Quiporolo_,
e at rio _de S. Francisco_--que todos estes nomes tem.

[Figura 1.--Mulhres Mundombes, vendedeiras de carvo. (De uma
photographia do pharmaceutico Monteiro.)]

 rio que de inverno traz muita gua, mas de vero  sco; sendo que,
mesmo nas maiores estiagens, gua se encontra cavando poos; o que
acontece em tudo o valle do Dombe, onde no  preciso profundar mais de
3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o
valle se estende N. S., ha uma laga, de 50 metros de largo por 1
kilmetro de exteno, e da forma de S. Esta laga  curiosa, porque no
 formada por depsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte
nascente subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir
infiltraes, que, um kilmetro abaixo, vam formar nascentes, que sam
aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre,
tainha e muitos crocodilos.

Tenho-a visitado muitas vzes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas 
certo que os ha, porque m'o afianou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo,
que sam muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade
atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaados
plos seus prtos, tentram na fuga atravessar a nado a laga, no
logrando um s atingir  outra margem, porque tdos fram prsa dos
vorazes amphibios.

Nas montanhas de oeste junto  laga, montanhas formadas de carbonato
calcreo e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quaes
nos afianou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e
parecer, tanto quanto por fra se podia observar, que contm extensas
galerias.

Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e verificmos
no ter ella merecimento.

 um salo prximamente circular, de 14 metros de dimetro, architectado
pla natureza na immensa mole de calcreo, que forma a montanha. Parece
ser guarida habitual de feras, que o d a entender o ar saturado do
fedr almiscarado de certos animaes, bem como as traas de leo
impressas no p impalpavel que cobre o cho, onde encontrmos alguns
espinhos do Hystrix Africano.

No valle do Dombe ha algumas feitorias agrcolas importantes, sendo as
principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro
Santos Reis. Esta ltima conta apenas trs annos de existencia, e produz
cana de aucar de que extrahe para cima de 40 mil litros de
gua-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado
ha s trs annos.  uma feitoria que comea, tudo ali est ainda em
construco; mas plo resultado j obtido se pde aquilatar a riqueza do
solo ali.

Tudo o valle  cultivado de mandioca, plos indgenas, e to fertil ,
que depois de trs annos de falta de chuva, no tem deixado de ter
produco regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por
anno.  o celeiro de Benguella. Os indgenas ali no permutam as
fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor j conhcem.

[Figura 2.--Mulhres e Donzellas, Mundombes. (De uma photo. de
Monteiro.)]

A demora que ali tivmos foi prejudicialissima  ordem, e disciplina da
minha gente.

Tdos os dias apresentavam nvas exigencias, tdos os dias levantavam
querellas entre si; e eu no podia ser demasiado severo, de receio que
me desertassem tdos.

Vendram os pannos para comprar gua-ardente, e chegram a vender as
raes de comida para se embriagarem.

Os soldados eram os peiores. Os sobas no mandram gente, e eu
principiei a ver a repetio das scenas de Benguella. No podamos
seguir.

[Figura 3.--Homens Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)]

No dia 1 de Dezembro, chegram ao Dombe 30 homens mandados de
Quillengues plo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu lancei mo
d'elles, e decidi com os meus companheiros partirmos no dia 4.

Tinha havido mais trs deseres, dois homens de Nvo Redondo e um de
Benguella.

Os nossos burros eram muito manhosos, e no havia ensinal-os; todavia
resolvmos conserval-os.




CAPTULO III.


HISTORIA DE UM CARNEIRO.

     Nove dias no deserto--Falta de gua--O ex-chefe de Quillengues--Eu
     perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e uma
     prta--Perde-se um burro--Quillengues em fim--Morte do carneiro.


A 4 de Dezembro deixei o Dombe, plas 8 horas da manh, e segui para
Quillengues. O Capello e o Ivens ficram ainda, para enviar algumas
cargas; deviam ir encontrar-me  noite. Foi conslho dos guias, que no
tomssemos o caminho das caravanas, mas sim um atalho conhcido d'elles,
para evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que j ento levava muita
gua; dando difficeis vaos, e que aquelle caminho corta em diversos
pontos.

Depois de duas horas de jornada na planicie, chegmos ao sop da serra
da Cangemba, que borda por leste o valle do Dombe. Descanmos um pouco,
e s 11 horas, emprehendmos o subir da serra plo leito de uma
torrente, ento sco. Foi difficil trabalho. Os homens iam muito
carregados; porque, lm das cargas da expedio, do peso de 30
kilogrammas, levavam para si raes para nove dias, em farinha de
mandioca e peixe sco. A differena de nivel era de 500 metros apenas;
mas o leito da torrente, formado de rochas calcreas, offerecia
obstculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos, era preciso
com as mos ajudar o crpo na subida, e o passar ali os seis jumentos,
deu grande canceira. Tnhamos comprado no Dombe dois carneiros, para
matar em caminho; um dos quaes facilmente seguiu a comitiva, mas o outro
deu trabalho, porque se recusava a andar, e a sua teimosa em volver ao
Dombe era constante. Fram trs horas de fadigosa marcha; que tanto
gastmos para transpor um espao que no passava de mil metros, e isto
por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de fadiga. Acampmos logo
junto a um poo cavado no leito arenoso de um ribeiro que ia sco;
ribeiro a que os Mundombes chamam Cabindondo. O logar era rido, e
apenas vegetavam aqui e lm alguns espinheiros brancos, rachticos e
ressequidos plo sol, que n'esta poca do anno queima. O nosso horizonte
era formado plas cumiadas das montanhas que correm norte-sul.

Pla tarde chegram Capello e Ivens, e fomos logo comer; que eu estava
ainda em jejum. No dia 5 de manh, segumos a S.E., e depois de 4 horas
de marcha, em que vencmos um espao de 20 kilmetros, assentmos campo
em um logar que os guias chamram Taramanjamba; valle extenso, cercado
de crros pouco altos. A altitude  de 600 metros; mostrando que apenas
estvamos elevados 100 metros acima do nosso campo de hontem.

A vegetao contina pobre, e a falta de gua  grande.

Para beber e cozinhar, apenas obtivmos pouca, de depsitos fluviaes nas
cavidades das rochas; depsitos que fram logo esgotados pla nossa
sedenta caravana, sendo que  noite j se fazia sentir a sde.

Durante a marcha, se os jumentos continuram a ser incmmodos, no o foi
menos o carneiro, que era bravissimo, e mais teimoso que os burros.
Decidi matal-o, e tendo combinado isso com os meus companheiros, dei as
ordens n'esse sentido aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.

De volta ao campo, vi que os muleques no tinham comprehendido a minha
ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o manso.

No dia seguinte partmos de madrugada, e depois de cinco horas de
marcha, acampmos no logar chamado Tine, onde nos afianram os guias
haver gua.

Contra o que eu esperava, o carneiro, no s deixou de ser teimoso, mas
poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia, j em marcha j no
campo.

A marcha n'esse dia foi difficil; porque, no s a sde abrasava a
gente, mas ainda por uma hora andmos no leito sco do rio Canga,
pedregoso e desnivelado, o que nos fatigou muito.

O terreno  j grantico, e a vegetao arborescente luxuriante.

gua, como na vspera, foi da chuva, recolhida nas cavidades das rochas;
mas era melhor ao paladar e mais lmpida  vista.

Tnhamos alguns homens com feridas nos ps, que s chegavam tarde ao
campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda outros que, por
fracos, se atrazavam, e por preguia muitos.

N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho;
fazendo isso que s tarde comssemos. O Capello, de si pouco
communicativo, no se queixava dos incmmodos que soffria; mas Ivens,
loquaz e de gnio alegre, no se calava e nos fazia rir a cada passo,
com os seus ditos engraados. O appetite era j grande, quando chegram
os carregadores, e elle no desfitava os olhos de uma perna de carneiro
que um muleque volteava junto da fogueira em espeto de pao, e de repente
disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho para aquella carne at
chorava."

Desde o Dombe apenas tnhamos comido uma vz no dia, e assim, a nossa
gente; com a differena, porem, que elles comiam sem interrupo desde o
acampar at dormir: o que me fazia receiar, que as raes distribuidas
para nove dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em
paiz onde era impossivel obter vveres.

Avanmos 25 kilmetros no dia seguinte, a E.S.E., e fomos acampar em
uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso d'esse dia
relativamente melhor, sempre por terrenos granticos, e por entre
vegetao mais vigorosa que at ali.

N'essa floresta encontrmos os primeiros baobabs que desde a costa temos
visto. gua continuava a ser escassa, e sempre de depsitos pluviaes.
Plas trs horas d'esse dia, fomos avisados de que uma caravana se
dirigia ao nosso campo, vindo do interior; e saindo logo ao seu
encontro, soubmos ser o ex-chefe de Quillengues, Capito Roza, que ia
doente para Benguella.

Convidmol-o  nossa barraca, onde jantou; partindo em seguida, depois
de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe offerecmos. Logo que
elle partiu, fui avisado plos muleques, de que em torno do campo se
viam traas frescas de caa; e sahi a ver se a encontrava. Segui um
rasto de grandes antlopes, e to longe me levou elle, que veio a noite,
e com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo.
Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo
nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive ida de subir a ella,
para do cume, vendo o claro dos fgos do meu campo, dirigir ali meus
passos; ida que executei com bom resultado, porque effectivamente
enxerguei ao longe um claro que tratei de alcanar, tendo marcado pla
bssola a sua direco. No se imagina o que seja caminhar em noite
escura por entre as sras de uma floresta virgem, e quanto tempo se
leva a transpor um curto espao; deixando aqui e lm farrapos da roupa,
seno tiras da pelle.

Chguei por fim, j guiado pelo vozear do gentio; mas qual no foi a
minha decepo, vendo, que plo meu tinha tomado o campo do Capito
Roza, que devia estar a 6 kilmetros longe d'elle! Porem, como um
caminho ligava os dois campos, porque uma caravana que passa deixa
trilho, endireitei n'elle, e depois de uma hora de jornada, j ouvia o
som das businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para
guiar meus passos.

Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chguei  minha
tenda, onde Capello e Ivens no estavam livres de cuidados.

Ali tive uma noticia inquietadora, mas que no foi sorpresa.

J se sentia falta de vveres, e sbre tudo os soldados j tinham em 5
dias comido a rao de 9.

No seguinte dia formos a marcha um pouco mais, e percorrmos em 6
horas 30 kilmetros a E.S.E.

O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do Capito Roza. Nas
florestas que atravessmos continuram apparecendo baobabs gigantescos.
Depois de passarmos o rio Calucla, acampmos na sua margem direita.

O rio leva pouca gua, mas esta  lmpida e ba.

Continuvamos a comer s uma vz ao dia, e a hora da refeio variava
entre a 1 e 3, conforme s marchas. Era preciso poupar os vveres.
Ressentido da fadiga da vspera no sahi a caar n'esse dia, e fiquei na
barraca.

O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e
rptiz.

Os soldados terminram as raes, e comeram a queixar-se de fome,
falando em matar o carneiro. Eu tinha-me afeioado ao animal, que de
bravo que era se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas
marchas e no me abandonando um momento. Opuz-me a que fsse morto, e o
Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.

A 9, levantmos campo, s 5 horas, e sustentmos a marcha at  uma;
hora a que acampmos nas faldas da serra da Tama. Das 8 s 9 horas
segumos ao sul, na margem esqurda do rio Chicli Diengui, que vai ao
N., provavelmente ao Coporolo. A vegetao  cada vz mais luxuriante, e
n'esse dia o nosso caminhar foi por entre floresta espssa.

Logo que se estabeleceu o campo, renovram-se as representaes dos
soldados famintos, e com ellas a ida de matar o carneiro. O Ivens deu
nva rao de arroz aos soldados, e isto, ainda que contemporizava, no
era uma positiva salvao para o pobre animal.

Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caar, para salvar a vida do
meu carneiro.

Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e j voltava ao
campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que
pastavam.

Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou
para sbre uma rocha, e d'ali comou a espiar a floresta com a sua
vista experimentada; em quanto a fmea, de orelha  escuta, investigava
os arredores.

Era grande a distancia, mas no hesitei, e atirei ao macho, que vi cair
fulminado para lm do rochdo. A fmea, ouvindo o estampido do tiro,
saltou ligeira sbre o penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro,
vendo-a em seguida pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.

O meu muleque correu logo a buscar o antlope mrto, mas eu vi que, em
logar de parar junto do rochdo, seguiu sempre; eu dirigi-me para ali
com o corao palpitante, porque suppuz que me tinha enganado julgando
ver cair o primeiro antlope. Torneei a rocha, e tive um grande
alvoro. O lindo animal (_Cervicapra bohor_) estava estendido sem vida.

Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque
curvado ao peso de grande carga.

Era o segundo antlope, que elle tinha levantado mrto, a poucos passos
na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao passo que o
macho cahiu sem vida, a fmea pde effeituar uma pequena carreira.

Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devamos chegar a
Quillengues, e ali teramos recursos, estava salvo para sempre.

No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilmetros, e de termos passado
a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na margem
direita do Vambo--que tdos correm ao N., a unir as suas guas (quando
as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui j se chama Calunga, nome que conserva
at  sua nascente.

Na jornada d'esse dia comemos a encontrar gramneas enormes, nas
clareiras do mato. To grandes, que era impossivel ver nada com ellas, e
difficil o caminhar. Durante a marcha desappareceu um meu muleque
pequeno, e uma prta, mulhr do muleque Catraio do Capello; e ainda que
despachei gente a buscal-os, no fram encontrados.

A escaez dos mantimentos era grande, e no eram j s os soldados a
queixarem-se de fome, tdos faziam representaes, e no attendiam
razo. Tivmos de seguir.

No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam
caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do
rio Tui, muito prximo de Quillengues. Dos muleques perdidos no havia
noticia, e faltava desde a vspera um jumento, que no appareceu. Em
quanto se estabelecia o campo, eu segui para a fortaleza de Quillengues
 busca de vveres, com que voltei s 8 da noite. Estava decididamente
salvo o meu carneiro.

N'essa noite apparecram o muleque e a prta perdidos, e isso deu-me um
verdadeiro prazer; porque, frados a marchar, pela fome, no tnhamos
podido demorar-nos a procural-os.

O logar onde acampmos era baixo e pantanoso, fra de recursos, 
isolado; e por isso resolvmos ir acampar na libata do chefe de
Quillengues, onde entrmos no dia 12, pelas 11 horas.

Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados at
ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter outros at Caconda;
o que elle me certificou ser facil, dizendo-me logo, que sabia como os
rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios, e por isso no davam
passagem; o que nos impedia de partir immediatamente.

N'esse dia j commos bem, e tivmos duas comidas, almo e jantar.

Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato,
trazido por um indgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei bem o
prto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca julguei ver mais o
pobre animal, que, se escapasse das feras, no escaparia  ladroagem dos
naturaes, pensava eu.

Quillengues  um valle regado plo Calunga (rio que eu supponho ser o
curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e coberto de povoaes
indgenas.

O estabelecimento Portuguez occupa uma rea de 45,500 metros quadrados;
por ser um rectngulo de 250 metros por 182. Este rectngulo, cercado de
palissada, tem quatro baluartes de alvenaria, a um meio de cada face; e
dentro uns abarracamentos, que sam morada do chefe militar, e quartis
dos soldados.

Algums baobabs e figueiras sycmoros crescem ali, assombrando com seus
ramos gigantescos um terreno coberto de gramneas indgenas, onde pastam
os rebanhos do chefe.

Se a importncia de Quillengues  grande como ponto productivo, e
facilmente colonisavel, no o  menos como posio estratgica; pois que
pde ser considerado uma das chaves do serto interior, com respeito a
Benguella.

Os sobetas do paiz reconhcem a autoridade Portugueza; mas, de natureza
salteadores, atacam sem cessar outros pvos indgenas, para lhes
furtarem o gado.

Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a terra,
que de ubrrima suppre o pouco trato; produzindo milho, massambala, e
mandioca, em quantidade grande.

As suas habitaes sam cubatas circulares, de 3 a 4 metros de dimetro,
construidas de grossos troncos de madeira, revestidas de barro. A porta
 bastante alta, para dar entrada a um homem sem curvar-se.

Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e
guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo
azagaias, ferros de frechas, e machados, j de guerra, j de cortar
madeira.

As enxadas no as forjam, e sam por elles compradas no Dombe, ou em
Benguella.

Os seus curraes sam, como as povoaes, cercados de forte palissada;
sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos, para evitar o
assalto nocturno de feras.

Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque ali
abundam coras pequenas (_Cephalophus mergens_), que das folhas sam
vidas, e causam damno grande s plantaes.

A gua-ardente  gnero muito estimado plos Quillengues, e sam elles
to dados  embriaguez, que, durante trs mezes no anno, tanto quanto
dura o fruto do gongo, fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam
continuamente embriagados; no sendo possivel obter d'elles o menor
servio.

Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente,
que dve ser plo menos de 4 metros de panno da costa, e duas garrafas
de gua-ardente; e logo com o portador vem a noiva e seus parentes
comer, em grande brdio, um boi, que dve offerecer-lhes o noivo. O
adulterio  coisa de grande estimao para os maridos; sendo que por lei
fazem pagar ao amante multa, que se traduz em gado e gua-ardente.

A mulhr que no tem commettido algum adulterio  mal vista do marido,
que no augmenta o seu haver por esse meio.

Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi
seduzida, e entre elles faz prova a accusao da mulhr.

Entre o pvo, os cadveres sam enterrados em logar escolhido, e
conduzidos  cova n'uma pelle de boi, cobertos de panno de algodo
branco. Os dias de njo, sam dias de grande festa em casa do finado. Os
sobetas t[~e]m sepultura reservada, e sam ali conduzidos dentro de uma
pelle de boi preparada em dre, depois de lhe vestirem as melhores
roupas.

Nas festas d'bito ha mortandade enorme de gado, porque o herdeiro tem
obrigao de matar todo o rebanho, para regalar o seu pvo, e contentar
a alma do finado.

No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo.

Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema Pertuisset;
e de companhia com dois outros, decidram repartil-a de modo que a cada
um tocasse seu pedao de chumbo. Armram-se de uma faca, e psta a bala
sbre uma pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois
acocorados para melhor ver a partilha; quando sbito a bala faz
exploso, ficando os trs feridos, e sbre tudo o muleque de Silva Porto
Calomo, que recebeu treze estilhaos, produzindo alguns feridas
profundas.

Mandmos uns prtos reconhcer, se j dariam vao os rios; e por elles
soubmos, que se conservavam altos; o que bem soppnhamos, porque,
durante a nossa estada ali, no cessou de chover. Resolvmos ento
seguir outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de
guas; e por isso, pedmos ao chefe nos tivesse prontos os carregadores;
o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23; mas n'esse dia
senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas, fiquei eu, e os
meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta febre por trs
dias, e no tenho consciencia de ter passado o dia 25; dia duplamente
festivo para mim, porque, sendo o de Natal,  o anniversario de minha
filha.

Tivram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua esposa; e no
dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no 1^{o.} de
Janeiro de 1878, isto , trs dias depois.

A esposa do Tenente Roza fz-me dois presentes, que eu mal sabia ento
estavam destinados a representar um papl, ao diante, na minha viagem.

Fram elles um servio de ch de porcelana de Svres, e uma cabrinha
muito meiga, de raa pequena, a que puz o nome de Cra.

A esse tempo succedeu um desastre, que de vras me contristou. O meu
carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com os
carregadores famintos, foi mrto por uma cadella perdigueira, que eu
levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pla cadella, na fuga
quebrou uma perna ao passar por entre a paliada do campo, e em breve se
finou. Foi o meu primeiro grande desgosto n'esta viagem, to abundante
d'elles.




CAPTULO IV.


POR TERRAS AVASSALLADAS.

     Jornada a Ngola.--O Sova Chimbarandongo.--Belleza do
     caminho.--Chegada a Caconda--Jos d'Anchieta.--Nada de
     correspondencia.--Chegada do Chefe.--Vamos aos carregadores.--Ivens
     vai ao Cunene e eu vou ao Cunene.--Volta de casa do
     Bandeira.--Falham os carregadores.--O meu juizo.


No dia 1^{o.} de Janeiro de 1878, deixmos Quillengues, tendo ali feito
proviso de vveres, e comprado bastante gado para matar, bois e
carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns 7 kilmetros, e
voltou  sua residencia, seguindo ns sempre a S.E., at s faldas da
serra de Quillengues, onde acampmos junto  povoao do Seclo Unguri.
Tnhamos um companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido,
o deixssemos ir at ao Bih em nossa companhia. Era elle Verssimo
Gonalves, filho de um conhcido sertanejo do Bih, mrto havia pouco,
que em Quillengues era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz,
mulato e de mesquinha educao, como era de crpo acanhado, cheio de
vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e era
intelligente.

Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais
particularmente.

Era acanhado e tmido, mas no covarde, e debaixo de uma apparencia
fraca, possuia uma forte organizao e msculos de ferro. Saba apenas
ler e escrever, mas era um soffrivel atirador de segunda ordem, e
manhoso caador.

Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos,
que n'esta nva jornada j me servram de cavalgaduras.

No seguinte dia, logo  sada, comemos a ascenso da serra de
Quillengues, que n'esse ponto se chama Serra Quisscua.

A subida foi difficlima, e durante trs horas lutmos com as agruras da
montanha, elevando-nos a 1740 metros do nivel do mar, ou 836 acima do
planalto que termina em Quillengues.

Em um desfiladeiro da serra passmos um pequeno ribeiro, que os
indgenas chamam _Obaba-tenda_, o que quer dizer gua fria, fomos
acampar na margem de outro chamado _Cuverai_, affluente do Ce. Estes
dois ribeiros sam permanentes, e sam guas que correm ao Cunene.

O terreno contina grantico, mas a vegetao muda completamente de
aspecto--de certo devido isto  altitude. O baobab desappareceu, e j se
encontram fetos  sombra das innmeras e variadas acacias que povam as
matas. A flra apresenta riqueza maior em plantas herbceas, e nas
gramneas sbre tudo nota-se uma fra de vegetao vigorosissima.

Notei que atravessmos regies onde se no encontra uma s ave, e de
repente entra-se em zonas onde milhares de passarinhos fazem uma chiada
enorme. Caa vi ali pouca, mas os rastos anunciam havel-a.

Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa. Estvamos
acampados junto do ribeiro Quice, que corre a S.E., em leito grantico,
e vai, provavelmente, engrossar o Ce; quando sentmos a cadella do
Capello ladrando e arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se
aproximava da barraca. Ao mesmo tempo sentamos um forte ruminar perto
de ns; o que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e
pastavam dentro do campo, que era cercado de abatises espinhosas.
Falmos  cadella e adormecmos. Ao alvorescer ouvmos grande rumor no
campo, e saindo logo, soubmos, que os prtos, que ao principio tinham
julgado, como ns, que os burros andavam  slta, percebram depois que
se enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo.
Fra effectiva menta um bfalo enorme que nos dera a honra da sua
companhia durante a noite.

O caso era notavel e de explicao difficil, a no serem os repetidos
rugidos dos lees que se tinham ouvido; fazendo com que o bfalo viesse
buscar guarida entre ns.

No seguinte dia fomos acampar prximo da povoao de Ngla, e eu fiz
logo annunciar a minha visita ao Sova.

Depois do almo, fui  libata procural-o.

Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e
dois guardases.

O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.

Trajava tanga comprida de panno da costa, e sbre ella uma pelle de
leopardo. Tinha o peito n pendendo-lhe do pesco um sem-nmero de
amuletos. Recebeu-me fra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu
offereci-lhe um guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado;
favor a que elle se mostrou muito grato.

Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle no percebeu
muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe offerecia um
pequeno barril de plvora, 50 pederneiras e uma duzia de guizos de
lato, sem nada lhe pedir em troca--o que sbre modo o espantou.

Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle accedeu
a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes indgenas
sam desconfiados.

Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar
gua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro. Mostrei-me admirado
de que um chefe quizesse to pouco, e convidei-o a procurar vasilha
maior. Mandou ento buscar uma cabaa que levaria o duplo da botija, e
eu pedi-lhe que juntasse outra igual.

O Rgulo no podia dissimular a sua admirao pla minha generosidade.

Partmos a p, acompanhados por trs das mulhres, as filhas, e muito
pvo, tdos sem armas, para me mostrarem a confiana que eu lhes havia
inspirado.

Chegmos ao campo quando Capello fazia observaes meteorolgicas, e o
Sova ficou admirado diante dos thermmetros e dos barmetros.

O Ivens veio logo para junto de ns, e depois de grandes comprimentos,
mostrmos ao Rgulo as armas de Snider e de Winchester, que lhe causram
verdadeiro assombro.

Este _Chimbarandongo_, que tal  o nome do sova de Ngla, 
intelligente, e sabe viver com o seu pvo.

Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licena para o matar, por haver
necessidade de provises, consentio n'isso, pedindo-me para lhe atirar
eu.

O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de ns.
Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei. O boi cahio.

Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria
o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou to
maravilhado, que me deu repetidos abraos no meio do seu enthusiasmo.

Plas 4 horas, formou-se sbre ns tempestade violenta, que se desfez em
raios e copiosa chuva, durando at s 6 horas.

O Sova e as mulhres recolhram-se  nossa barraca, assim como alguns
dos macotas.

Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a provar-lhes,
que ns tnhamos trazido a chuva, e com ella um grande beneficio ao
paiz, ressequido plos calores do esto.

Tentmos explicar-lhe, que no tnhamos to grandes poderes, e que s
Deus governava nos grandes phenmenos da natureza; levando o Ivens a
questo a ponto de lhe explicar como e porque chova. Ouvindo isto, fez
o Sova sair os seus macotas e mais pvo que escutava a lio
meteorolgica.

Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o pvo, elle disse, que se
deixasse de chover, indagaria qual dos seus sbditos tirara a chuva, e o
castigaria de morte. Nvo discurso da nossa parte contra a pena capital;
e nva ordem de despejo da parte d'elle, que, a pesar do meio
embriagado, tinha tino bastante para no comprehender que as nossas
theoras no quadravam ao seu systema governativo.

Ao anoitecer retirou-se do modo o mais cmico, indo acavallo em um dos
seus conselheiros, que levava as mos nos hombros de outro; e como
estivessem tdos embriagados, a cada passo perdiam o equilibrio,
ameaando com a queda partir a caba ao seu soberano.

Este rgulo  sensato e homem de bom juizo. No acredita em feitios;
nem acreditava que ns lhe tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe
apparentar que o cr, para no perder o prestigio entre os seus, que s
assim querem ser governados.

No seguinte dia, vindo elle despedir-se de ns, me disse, que a sua
poltica era ser amigo dos brancos; pois que das bas relaes com elles
provinha a roupa com que se cobria, e as armas e a plvora com que
continha em respeito os seus inimigos.

"Sem os brancos," me disse elle, "ns somos mais pobres que os animaes;
porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e sam bem
loucos os prtos que no cultivam a amizade dos filhos do Puto."

A libata ou povoao de Ngla  fortemente defendida por uma dupla
palissada feita com arte, que tem at uma das faces dentada para
cruzamento de fogos.  to vasta que pde conter tda a povoao do
paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O
ribeiro Cutta corre dentro d'ella, fazendo que possa resistir a longo
assedio sem receiar a sde.

Deixando Ngla, caminhmos por duas horas a N.E., e encontrmos o Ce, o
maior dos rios, que corre entre Quillengues e Caconda. No sitio em que
tentmos a passagem tinha elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo,
no dando por isso vao. A chuva torrencial da vspera, augmentando-lhe o
volume d'gua, tinha tornado impetuosa a corrente.

Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil
passagem aos homens carregados; mas os bis e os jumentos s a nado
podiam passar. Depois de grande trabalho, os bis nadram para a outra
margem; os burros porem recusram seguil-os.

S a grande custo conseguio o prto Barros, ajudado de mais dois,
fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar p na outra
margem; o que era perigoso, que ali abundam crocodilos.

Depois de uma hora de trabalho, avanmos para E.N.E., encontrando o
ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba, onde assentam as
povoaes de Caluqueime. Passmos depois o rio Cacuroce, que corre a
S.S.E. ao Ce; e meia hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e
vai affluir ao Ce; acampando na margem d'este ltimo, plas 4 horas da
tarde, junto da povoao de Catonga, onde tem a sua libata um tal Roque
Teixeira.

A marcha foi de 30 kilmetros, o que muito nos fatigou.

O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude vara apenas entre
1450 e 1500 metros.

A vegetao arbrea apresenta um certo rachitismo; mas a herbcea
contina a ser variada e rica.

No dia 6, segumos sempre a N.E., passando logo o Ce, em ponte feita
plo gento. Este ribeiro tem 5 metros de largo, por 1 de fundo, e corre
a S.E. ao Catpi. Alcanmos o Congi ou Catpi, s 11 e meia, e
acampmos na sua margem esqurda. O Conge, que a montante toma o nome
de Catpi, tinha ali 10 metros de largo por um de fundo, com violenta
corrente, e dirigindo-se a S.E. vai lanar-se no Cunene prximo do
Lucque.

N'esse dia matei uma grande gazella (_Cervicapra bohor_), a maior do
gnero que vi em tda a minha viagem, to grande que fram precisos 4
homens para a transportar ao campo.

Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato;
verificando ns ser contra as hyenas que nos rondavam as barracas, e por
noite fra tivmos msica, em um duto de baixo e contra-baixo, pela voz
clara de um leo, na mata, e pla ronquenha de um hippoptamo, no rio.

O aspecto do paiz contina o mesmo. Nas lombadas matas rachticas, de
uma vegetao que mais se pde chamar arborescente do que arbrea, pla
maior parte. Leguminosas, nas depresses; vastas clareiras, verdadeiros
prados de gramneas diversas, por entre as quaes serpea um ribeiro ou um
rio. O terreno contina grantico, apresentando as rochas aspectos
variados; mas sendo pouco abundantes em mica.

Continumos caminho ao N.E., passando junto da libata de Cuassequera,
fortificada entre enormes rochdos granticos, e rodeada de gigantescos
sycmoros, produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o
ribeiro Lossla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na margem
do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao Catpi, mas
correndo ao N.

O planalto j  mais elevado, e caminhvamos ento n'uma altitude de
1600 metros.

D'esse ponto segumos a Caconda, tendo atravessado trs ribeiros, que
correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o Chitequi, o Jamba, e
o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que corre a O.S.O., e que j
no dia 6 tnhamos atravessado com o nome de Conge.

No ponto em que o passmos tem 10 metros de largo por 1 de fundo, e
pequena corrente.

Algumas das clareiras que n'esse dia atravessmos eram cobertas de
junco, pantanosas e de difficil accesso.

A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros precedram-me na
chegada a Caconda.

Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido  porta plo chefe
interino, mulato e rico proprietario do conslho, sargento da guerra
prta; o qual me disse, que o chefe tinha ido para Benguella,
deixando-lhe a _espiga_ de nos receber (textuaes palavras).

Depois de me ter dito esta amabilidade, o S^{nr.} Matheus convidou-me a
entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das fortificaes, vi
entre os meus companheiros um homem de estatura mais que mediana,
aspecto macilento, testa ampla e elevada, olhar pouco fixo, trajando
casaca e gravata branca, que o Capello me apresentou, dizendo-me, "Aqui
tem Jos d'Anchieta." Estava diante de mim o primeiro explorador
zoologista d'frica, esse homem que tinha passado 11 annos nos sertes
d'Angola, Benguella, e Mossmedes, enchendo as vitrinas do museu de
Lisboa com valiosissimos exemplares. Tive depois occasio de presenciar
o seu viver, que  digno de ser descrito.

Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da
fortaleza.

A casa no interior era em forma de T, e tda cercada de estantes, onde
haviam, de mistura, livros, instrumentos mathemticos, mchinas
photogrphicas, telescopios, microscopios, retortas, pssaros de mil
cres, vidros variados, loua, po, frascos cheios de lquidos
multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos,
cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e carabinas
de differentes systemas. Junto  casa, um cercado, aprisionando umas
vacas e uns porcos.  porta algumas prtas e prtos esfolando pssaros e
preparando mamferos; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado em
velha poltrona, que attesta longos servios.

Sbre a mesa  impossivel dizer o que ha.

Pinas, escalpellos e microscopios ha muitos.

De um lado, um monte de bocados de pssaros mostra que elle acabou de se
entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente d'elle, uma flr
cuidadosamente dissecada, attesta que elle acaba de ler na disposio
das suas ptalas, no nmero de seus estames, na forma do seu
receptculo, no arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia,
do gnero e da especie em que a dve collocar.

De escalpello na mo e microscopio no lho, passa elle as horas que pde
tirar ao trabalho de colleccionador, e  j a planta, j a ave, o ponto
de mira do seu estudo.

A momentos,  interrompido por um doente que chega, a quem elle dispensa
os cuidados de mdico, e ao mesmo tempo os remedios da cura, quando lhe
no d tambem a gallinha da dieta.

Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do
Museu Zoolgico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa amizade que
 difficil encontrar onde no existem estreitos laos do mesmo sangue.

Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos servios que
tem prestado s sciencias zoolgicas, conhce que tem no D^{or.} Bocage
o homem que lhe faz justia, e sabe aquilatar esses servios; o homem
que completa na Europa o trabalho que elle comea em frica; o homem,
emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos incmmodos
custram cada um d'esses exemplares, que descreve, descrevendo com elles
nvas especies.

Jos d'Anchieta  um d'esses nomes que merece o respeito dos homens de
sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas; porque,
trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz, conservando-se
elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da desmoralizao que
lavra nas terras em que vive, e de que poderia tirar proveito se fsse
menos escrupuloso.

Basta de falar d'elle, que no ha elogios que lhe no caibam; falando
mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado para sempre aos
seus trabalhos, que no morrem.

Soubmos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do commando, e fra
nomeado outro official do exrcito de frica para o substituir.

Dois dias depois da nossa chegada, chegram tambem a Caconda o nvo
chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa correspondencia da Europa,
que lemos com avidez.

Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a
acompanhar-me a casa de Jos Duarte Bandeira, o primeiro potentado de
Caconda, onde me disse que se arranjariam, pla grande influencia de que
dispunha o tal Bandeira.

Partmos para Victe no dia 13 de manh, e n'esse mesmo dia o Ivens
seguio para casa de Matheus, a fazer um reconhecimento ao Cunene, no
logar da sua confluencia com o Quando. Eu tambem devia ir fazer uma
visita ao mesmo rio para o sul.

O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue aos
cuidados de Anchieta. Segu a S.S.E., passando logo os rios
Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a O.N.O.,
com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande
contribuio d'gua.

Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, chguei pla noite a Victe,
libata fortificada entre rochas, no cume de um outeiro que domina vasta
planicie.

Fui recebido por Jos Duarte Bandeira, que, depois de ba ceia, me
proporcionou ptima cama, de que bem precisava.

Logo na manh seguinte, o Alferes Castro falou nos carregadores, e
Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram
precisos para seguirmos ao Bih.

Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que partssemos no
seguinte dia.

Caminhmos nove milhas a Leste, e encontrmos o rio no Porto do Fende.

Logo  chegada, matei um grande hippoptamo, que tve a imprudencia de
vir resfolgar a meio rio ao alcance da minha carabina. Passei ali dois
dias. O rio tem ahi 100 metros de largo por 6 a 7 de fundo, com uma
corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no Fende  N.O. a S.E. por
espao de 2 milhas, sendo a montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O.
a jusante inclina-se para S.S.O. por 26 milhas, at ao Luceque. Por
vzes toma uma largura de 200 metros e mais.

Abundam n'elle hippoptamos e crocodilos.

1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns rpidos a que chamam Da
Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e 10
milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete, ltimas que tem no
seu curso superior; sendo depois navegavel at ao Humbe.

A margem direita , nos pontos em que a visitei, montanhosa e coberta de
mato virgem;  esqurda, vasta planicie, de 4 a 5 kilmetros de largo,
que encosta ao sop dos montes, que formam um pouco elevado systema,
correndo N.S.; em cujas vertentes oeste assentam as povoaes do Fende.

Plas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre ns uma tormenta, que
despedio innmeras fascas e copiosa chuva, deixando-nos completamente
molhados.

A 17 voltmos para Caconda, com a promessa de termos os carregadores
dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte, um barril de
gua-ardente para a _convocao_. Nesta parte de frica, a gua-ardente
desempenha para com os homens o mesmo papl, que na Europa o azeite para
com as mchinas. Sem ella no se movem.

O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa, esquceu-se de que
tnhamos a gastar o dia em jornada; e saindo ns ao alvorecer, s 
noite alcanaramos Caconda. Partmos com o alforje vazio, e plo
meio-dia j o appetite degenerava em fome.

Parmos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia ver se
matava caa para comer; mas apenas avistei uma codorniz, que nos servio
a ambos de almo e jantar, cozinhada n'uma marmita de soldado. Confesso
que j tenho almoado e jantado melhor do que n'esse dia.

Os meus prtos, vendo a minha avidez em roer os ossos da codorniz, que a
cadella de balde devorou com os lhos, fazendo-me mil negaas com a
cauda, dram-me uma raiz de mandioca, que partilhei com o Alferes.

Chguei,  noite, a Caconda, e depois de uma ba ceia, dei f que Ivens
ainda no tinha chegado, e que Capello j estava bom.

O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mandmos o tal barril de gua-ardente
ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na convocao dos
carregadores.

No dia 23, chegram de Benguella uns artigos que tinham sido
requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me
offerecia Antonio Ferreira Marques.

N'esse dia despachei outro portador a Victe, pedindo ao Bandeira os
carregadores, que j se demoravam.

No appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe para que fsse
a Victe, e usando da sua influencia como autoridade, visse se dava
pressa ao Bandeira em nos mandar a gente precisa.

O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo j estarem promptos 61
homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os
pagamentos, que ali s querem algodo branco, mas disse serem precisas
mais 50 peas, que ns no tnhamos, mas que o Bandeira ficou de
emprestar.

No dia seguinte, nva carta do chefe, dizendo, que os carregadores iam
ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira carta, dizendo, j
l ter 94 homens; e finalmente, no dia 5 de Fevereiro, outra carta,
dizendo, que no havia nem um carregador, e que nenhum se arranjaria.

Imagine-se o nosso desapontamento.

Eu a esse tempo ainda no tinha formulado e arraigado no meu esprito um
principio, que mais tarde me sugerio a experiencia, e que entrou depois,
de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz resultado da minha viagem.

O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu esprito,
traduzio-se n'esta sentena:--

"Desconfiar, no serto d'frica, de tudo e de tdos, at que provas
repetidas e irrefutaveis nos permittam confiar um pouco em alguma cousa
ou alguem."

Ora, para mim, essas provas sam to difficeis de se apreciarem, como o
sam as de um amor eterno, ou as da slida fortuna do commerciante,
embrulhado em transaces de vulto.

Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de ns
propoz alvitre qual d'elles mais disparatado.

O desapontamento era grande. Socegados os espritos, decidmos ir eu
procurar os carregadores fsse onde fsse, e se longe ou perto os no
podesse encontrar, seguirmos para o Bih, e mandarmos d'ali buscar as
cargas. Julgvamos isso possivel.

O chefe voltou de Victe, e no me deu explicao plausivel do facto.

Acordmos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha
carregadores; porque, no s o Alferes Castro, como o chefe, e Anchieta
mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar mais perto.

Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraos para fazer uma
remessa de productos zoolgicos para Benguella, o que era relativamente
mais facil.

O que nos estava acontecendo  digno de notar-se.

No s Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento Matheus e outros, enviam
grandes caravanas a sertes longnquos; e todos elles no podram obter
um s carregador para ns!

Eu comeava de antever um propsito firme de nos embaraarem o passo, e
mal cuidava ento que esse propsito fsse to longe como infelizmente
tive occasio de experimentar depois.

O correr d'esta narrativa mostrar, quam habilmente me fram levantados
obstculos, que s uma decidida proteco de Deos me fez vencer.

Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que contine com a narrao
das minhas aventuras, que comeam aqui a tomar um caracter mais
extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a respeito de Caconda.

A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hje no districto de
Benguella tremula a bandeira Portugueza,  um quadrado de 100 metros,
cercado de um profundo fosso e de um parapeito, onde aqui e lm se
pdem ver as linhas distinctas de uma fortificao passageira,
construida outrora com arte. Uma palissada forma segunda fortificao no
interior, resguardando umas casas arruinadas, que fram habitao do
chefe, quartis e paiol.

Algumas bas peas de bronze, montadas a barbete, deixam ver por sbre o
plano de tiro, deformado plo tempo, as suas bcas verde-negras e
oxidadas.

A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.

Ao norte, uma reunio de pequenas cubatas, morada dos soldados.

O paiz  agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de febres, 
certo que ellas ali sam mais benignas do que em outros pontos. A
povoao  pouquissima, e tem-se retirado muito da fortaleza.

O solo  ubrrimo, e muitas plantas Europas facilmente se aclimam ali,
produzindo espantosamente. No trigo, feijo e batata vi eu isso, em
pequenissimas plantaes.

O ribeiro Secula-Binza  uma fonte de gua cristallina correndo em leito
de granito.

Junto da fortaleza ha poucas rvores; que as necessidades dos habitantes
t[~e]m despovoado as matas que dvem ter existido outrora, como ainda
hje existem mais longe.

O commercio  pouco, e esse mesmo  feito muito longe no interior.

A mesma pgada de decadencia que se nos revela em Quillengues,  ainda
mais patente aqui.

A importancia de Caconda  igual, seno superior,  de Quillengues; mas
tem menos segurana ainda para o commercio; que o caminho de Benguella 
infestado de salteadores.




CAPTULO V.


VINTE DIAS DE AGONIA.

     Parto de Caconda--O sova Quipembe--Quingolo e o sova Cimbo--40
     carregadores--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho
     Capco--80 carregadores--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo
     avante--Grave questo no Chaca Quimbamba--Os rios Cale,
     Canhungamua e Cunene--Nva e sria questo no Sambo--O
     Cubango--Chuvas e temporaes--Grave doena--Uma aventura horrivel--O
     Bih finalmente!


Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia 10
homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo Gonalves, de quem
j falei, e o chefe de Caconda, o Tenente Aguiar, que quiz por fra
acompanhar-me n'esta expedio, que tinha por nico fim o arranjar
carregadores; querendo mostrar assim a sua ba vontade em nos auxiliar,
e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.

Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar;
porque a esse tempo no tinha ainda arreigado no meu esprito o
principio que formulei no captulo anterior, e hje mesmo creio que elle
foi enganado como eu, apesar da sua muita experiencia dos sertes
avassallados.

Depois de uma jornada de 17 kilmetros a N.E., alcanei a libata de
Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu
hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda; e
depois o Catapi, que ali corre a S.O.

O sova mandou-me logo um porco pequeno, e no tendo eu podido comprar
gallinhas, mandou-me uma.  tarde veio  minha barraca, e depois de
larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus antepassados fram
sempre avassallados a El-Rei de Portugal, elle no o era; porque as
muitas arbitrariedades commettidas plos chefes contra elle e os seus,
tinham quebrado os compromissos antigos; que o _Mueneputo_ ja lhe no
fazia justia, e narrou-me muitos dos acontecimentos em que baseava as
suas accusaes aos chefes, falando com modo muito atilado.

O chefe estava presente  entrevista, e no podia responder s
accusaes dirigidas aos seus antecessores, to claramente eram ellas
formuladas.

Este velho era homem de tino, e falou-me na poltica dos Portuguezes em
Caconda com um juizo difficil de encontrar em prto boal.

Procurei desfazer a m impresso que o soba tinha dos chefes de Caconda,
mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma vz tive occasio
de apreciar o mao resultado dos minguados estipendios que se conferem
aos chefes dos conslhos do interior; causa primordial da decadencia do
nosso poderio e influencia ali.

O sova de Quipembe  muito idoso, e soffre de gota, que lhe embaraa o
caminhar.

A sua libata  vasta, bem fortificada e muito bem situada. Desde a minha
chegada muitas dezenas de prtos e prtas pequenos olhavam pasmados para
mim, fugindo em debandada ao menor movimento que eu fazia. Tentei
fazer-lhes perder o mdo que manifestavam, dando-lhes alguns guisos e
bagos de coral; mas s mui receosos se chegavam a mim, fugindo logo que
recebiam o presente.

Fram objecto de grande admirao, os meus culos e o meu cobertor, em
que se desenhava um enorme leo em fundo vermelho.

No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro
Utapaira, e uma hora depois alcanava o Cuce, affluente do Quando. Este
rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando difficil passagem,
por serem as suas margens escarpadas e lodoso o fundo.

A margem direita  montanha suave e pouco elevada, e a esqurda campina
de 1 kilmetro de largo. Passei ao sul da libata de Banja,
magnificamente situada no tpo de um outeiro, e depois de atravessar
trs ribeiros, o Canata e Chitando, que vam ao Cuce, e o Atuco ao
Quando, alcancei este ltimo rio, um dos grandes affluentes do Cunene.

O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a trs de
fundo.

No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de
massas enormes de granito, para reapparecer um kilmetro a jusante.

Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As
margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante vegetao,
onde as palmeiras elegantes se destacam do verde-negro dos gigantescos
espinheiros. Os rochdos denegridos sobressaem aqui e lm por entre os
tufos de mato, mostrando os cabos pudos do bater das tempestades.

Nuvens de passarinhos chilram nas rvores e innmeras rlas esvoaam
sbre os espinheiros. De quando em quando ouve-se o resfolgar dos
hippoptamos nos pegos do rio.

 a belleza selvagem em tda a sua fora, mas a par d'ella ha ali alguma
cousa de horrivel, que sam venenosissimas serpentes que a cada passo se
arrastam junto de ns.

Matei algumas, que me certificram os prtos serem de mortal peonha.

Apparecram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem da margem
esqurda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma muralha de pedra,
que pla extenso parecem ter sido muro de povoao antiga. Foi este o
primeiro dia na minha viagem em que de noite tive por tecto o ceo
estrellado, mas por isso no foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer
matmos, entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.

Segumos a N.E., e para lm da povoao de Pessange, encontrmos a de
Canjongo, governada por um seclo, que nos offereceu capata e vendeu
algumas gallinhas a trco de panno de algodo ordinario, e depois de
passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E., descanmos
algumas horas na margem esqurda, e caminhando depois a N.N.E.,
chegmos, s 5 horas da tarde,  libata grande de Quingolo.

O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente.

Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos
recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os
chefes de Caconda no faziam caso d'elle, e faziam mal n'isso; que ainda
assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e fsse eu ver
se obtinha os outros ao Huambo.

Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manh, o sova veio
visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que me disse
partiriam no seguinte dia para Caconda.

Quiz fazer algumas compras de vveres, mas nada me quisram vender;
sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um grande porco. Eu fiz-lhe um
presente de 3 peas de riscado e duas garrafas de gua-ardente.

O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro
prazer.

Ao meio dia apparecram os chefes dos carregadores que partiam, para
receberem os pagamentos.

Esta libata grande de Quingolo  situada sbre um outeiro grantico que
domina uma enorme planicie.

Por entre as rochas crecram sycmoros enormes, que lhe dam uma frescura
constante. Estas rochas combinadas com as palissadas formam uma temivel
fortificao, rodeada de um fosso meio obstruido. No tpo do outeiro
dois rochdos enormes de elevadas propores formam uma especie de
mirante, d'onde se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho
visto.

Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez
de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos
Carvoeiro ao Mondego at  beira-mar, apenas interrompida aqui e lm
por verdejantes clareiras, o paiz que se avista do alto de Quingolo 
talvez, mais vasto e grandioso, sendo limitado em trno por um perfil
azulado de longnquas montanhas que de distantes mal se avistam.

No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito
as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui s 8h.
30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem fiquei
nos melhores termos de amizade. Logo  saida passei o ribeiro Luvubo,
que corre ao Calae, e plas 10 horas alcancei a libata do seclo
Palanca, onde pedi agasalho, por me ser impossivel caminhar com febre
que recrescia a cada momento.

Apesar do meu estado de saude, fiz observaes astronmicas, para
determinar a minha posio; e falo n'isso, por ser este o primeiro
d'essa srie de pontos que eu devia determinar atravs d'frica.

Foi a povoao de Palanca o primeiro ponto determinado por mim, n'essa
linha que marca o meu caminho do mar Atlntico ao Indico.

Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia produzram-me
rpidas melhoras que me permitram seguir no dia immediato.

Eu viajava acavallo em um possante bi, e tinha um outro de reserva,
bis muito bem domesticados e que offereciam ba commodidade ao andar,
podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um galope curto.

Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dro, a que chamam das
mulhres, onde foi muito difficil a passagem dos bis, por ser de fundo
lodoso.

O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente, plo que
resolvi deitar-me a descanar um pouco.

No haviam arvores no sitio, e ao sol ardente sbre uma terra ardente
adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que estava fresco
e tinha sombra. Eram os meus prtos que, de motu proprio estavam em
trno de mim segurando um panno para desviar do meu crpo as ardencias
de um sol a prumo. Tocou-me tal prova de cuidado. Segui vante e passei
um riacho--o Dro, a que chamam dos homens, que se une ao primeiro e
corre depois ao Calae, no sei se com o mesmo nome. Duas horas depois
encontrava o rio Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de
fundo, em cuja margem descancei.  affluente do Calae e abunda em peixe
miudo, que muito ali pescmos. Eu sentia-me bastante doente.  febre que
tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que, havia dois
dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.

Aproveitei o descano para mandar fazer um caldo de frango, que no
levou sal, por se me ter acabado a pequena proviso trazida de Caconda.

Depois de duas horas de repouso, segumos sempre a N.E., e meia hora
depois passvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de largo por 1,5 de
fundo, e corre ao Calae.

Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco
elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2
metros, tornram difficil a passagem dos bois.

Trabalhmos ali duas horas. Duas horas depois, j ao cahir da noite,
alcancei a libata do Capco, o poderoso filho do sova do Huambo.

O Capco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para habitar,
offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente mandou-me duas
gallinhas.

Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.

Fiz-lhe um presente de duas peas de riscado e duas garrafas de
gua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que se conhcem
pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem dos artelhos,
trouxeram em cestas abundante comida aos meus prtos. Depois de tomar
alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por ver coroada de
xito a minha excurso.

No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles,
no s a amizade e a companhia dos meus conterraneos, mas ainda os
recursos que j me faltavam completamente.

Adormeci sorrindo. Quam longe estava eu de pensar que adormecia na
vspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por 20 dias!

No dia 14 fui a casa do pai do Capco, o sova das terras do Huambo. A
libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3 kilmetros da do
filho, e est assente na margem esqurda do rio Calae.

Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pvo, trajava soberbamente uma
casaca escarlate, cobrindo-lhe a caba uma barretina de caadores.
Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em 3 peas de riscado
ordinario e duas garrafas de gua-ardente, a que se mostrou muito grato.
Ficou muito sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me
para eu atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas
balas n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um
vo a 50 metros.

Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas est hje reduzido a
dominar apenas em parte d'elle. A sua historia  curta, mas vulgar. Elle
era casado com a filha do sova do Bih, que entretinha relaes amorosas
com um dos seus seclos.

Tremiam os criminosos da clera do rei se viesse a saber a sua falta.
Houve rompimento entre Bilombo e um rgulo vizinho, e a guerra foi
declarada. Bilombo tomou o commando do seu exrcito e partio, ficando a
governar na sua ausencia o amante da sua mulhr. Conspirram ambos e
Capussocsso fz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do
paiz banhada plo Calae, onde o pvo se lhe conservou fiel, e  epocha
da minha passagem, me disse, estar preparando uma terrivel vingana 
adltera e ao seu amante o traidor Capussocsso.

De volta a casa do Capco, despedi os trs guias, que me acompanhram
desde Quinglo, e por elles escrevi a Capello e Ivens, dizendo-lhes, que
os esperava, e que no abandonassem as cargas, por ser o paiz pouco
seguro.

Fui de tarde dar um passeio s margens do Calae, e sorprendeu-me a
quantidade de caa que encontrei, que nunca tanta tinha visto, mas nada
matei por no ir prevenido para isso.

O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande
bi, presente mui valioso, por ser escao o gado bovino n'aquelle paiz.

Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia
immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando
chegram trs portadores do sova de Quinglo, com cartas d'elles, e uma
cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.

Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular,
assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir
ss, e que plos 40 carregadores enviados por mim de Quinglo, me
mandavam 40 cargas, acompanhadas plo guia Barros, para eu as conduzir
ao Bih.

S o pouco ou nenhum conhecimento do serto Africano, que ento tinham
os meus companheiros, podia desculpar um tal proceder. Eu achava-me n'um
paiz hostil, e se at ali tinha sido respeitado, fra s porque o gentio
me julgava a vanguarda de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o
receio das represalias tinha at ento sostido a rapacidade dos
indgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho sertanejo, que
percorrera impunemente os mais longinquos sertes Africanos, tivera de
sustentar cruento combate com um gentio vido de rapina.

Que seria de mim logo que se soubesse que tda a minha fora consistia
em 10 homens? Encarei a minha posio e achei-a um pouco sria. Capello
e Ivens tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade no lhes
consentiria de certo o deixarem-me em tal posio, se elles conhcessem
bem essa posio.

Que fazer? Em trs dias podia alcanar Caconda, e voltar d'ali a
Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma jornada de vinte
dias ao Bih, jornada em que teria de arriscar cada dia e a cada hora a
vida e as bagagens. Que fazer?

A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma agitao febril
indescriptivel.

Devia seguir vante? Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez
homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos junto de mim? Teria o
direito de arriscar a minha propria vida em imprudente passo? Deveria
voltar a Benguella?

Quem comprehenderia na Europa o obstculo quasi insuperavel que me
fazia recuar? Ninguem, a no ser um ou outro explorador infeliz como eu.

Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o cuidado a
augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de p, e havia
momentos que uma phrase estava gravada no meu pensamento e eu repetia
machinalmente aquella phrase.

_Audaces fortuna juvat_. Era a velha sentena dos fortes Romanos, era a
lei que dicta as aces dos aventureiros.

Decidi seguir vante, eu que no tinha ido a frica para s visitar o
paiz do Nano, que, digamos a verdade, no deixa de ser muito
interessante, sbre tudo para ns os Portuguezes.

Descrevi aos meus 10 homens a nossa posio precaria e a resoluo
tomada de caminhar para o Bih; elles protestram-me a sua dedicao e a
inteno de sempre me acompanharem.

D'esses dez homens 3, Verissimo Gonalves, Augusto e Camutombo estivram
em Lisboa depois de terem atravessado comigo a frica; 4 seguram do
Bih Capello e Ivens, por minha ordem; 1, o prto Cossusso, enlouqueceu,
junto ao Quanza, e foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto,
Domingos Chacahanga, para d'elle ter cuidado; e os dois restantes,
Manuel e Catraio grande, cahiram aos meus pes varados plas azagaias
Luinas, e cumprindo a sua promessa formulada rudemente n'este dia,
morrram defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.

Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhcia, e no tivera
at ento logar de experimentar o seu valor.

Eu estava em casa do Capco, que at ento me tinha dispensado os
maiores favores; mas Capco era o clebre salteador do Nano, que chegara
a ir atacar Quillengues, um anno antes. O que faria elle, logo que
conhcesse a minha fraqueza?

D'elle dependia o xito da minha empresa. Capco  homem de vinte e
quatro annos, sympthico e de maneiras agradaveis. Muitas vzes me dizia
Verissimo Gonalves, que lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo
nome era to temido, e que to longe dirigia as suas correrias de
devastao e morte. Entre as suas escravas conhceu Verissimo algumas
raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno anterior. Uma
mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de Quillengues, e
Capco pedia por ella grande resgate.

Capco  intelligente, parco no comer e beber, e ainda que possue grande
nmero de escravas, as que formam o seu harem sam mui poucas.

Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver
e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me
referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas de
pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e
elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capco porque no havia feito
d'ella sua amante? "Porque no dvo," me respondeu elle, " minha
escrava plo direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o
intento de a resgatar, dvo respeital-a e ser respeitada, porque a dvo
entregar como a tomei."

Um dia Capco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado (apontava
para o oeste), o sol passava primeiro plo Huambo antes de ir a
Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber quanto tempo
depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei fazer-lhe
comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um homem leva a
percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque julgava, me
disse, ser o nosso paiz muito mais longe.

Os costumes entre os pvos do Nano e do Huambo sam os mesmos que entre
os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de
que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas no enxadas, que v[~e]m do
norte.

Como j incidentalmente notei, as raparigas, em quanto virgens, usam nos
artelhos de ambas as pernas ou s na esqurda, umas manilhas de verga de
pao, e  grande crime para a familia, conservar as manilhas quellas que
j no t[~e]m direito de as usar.

Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pvos,  haver em tdas as
povoaes uma especie de kiosques para conversao.

[Figura 4.--Homem e Mulhr do Huambo.]

Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de clmo, sam
bastante separados. No meio arde a fogueira, socia constante do gentio
Africano, e em trno tomam assento os habitantes da povoao em toros de
pao.  o sitio da palestra, sbre tudo quando chove; ali narram-se
episodios de guerra ou de caa, fala-se tambem de amor, e muito menos de
vidas alheias do que na Europa.

No paiz do Huambo coma na costa de oeste o grande luxo nos penteados,
tanto em homens como em mulhres, e tenho visto alguns que difficilmente
seriam executados pelos melhores cabelleireiros da Europa.

Ha penteados que levam dois e trs dias a fazer, e que se conservam por
muitos mezes.

Os penteados das mulhres sam profusamente enfeitados com umas contas de
vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral branco ou
encarnado, e  este gnero muito procurado no paiz. Eu infelizmente no
levava nenhum.

A plvora, armas e o sal de cozinha sam ali gneros de grande valia.
Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse dispensar, o que
tornava mais embaraosa a minha posio.

Fui falar ao Capco e expuz-lhe que os meus companheiros tinham seguido
por Gallangue, e que s viriam 50 cargas, no precisando eu por isso
mais de 40 homens e esses s para irem d'ali ao Bih.

Despedmos por isso os 80 carregadores que a essa hora j estavam
reunidos, e que se retirram muito descontentes. Capco prometeu-me que
teria os 40 de que precisava at ao Bih. N'esse dia chegou o prto
Barros com as 40 cargas, e trouxe-me nva carta dos meus companheiros,
confirmando o que diziam as primeiras.

Por elle sube que elles tinham sado de Caconda para o Bih;
acompanhados plo ex-chefe, Alferes Castro, e plo degradado Domingos,
que me tinham mostrado a impossibilidade de obter gente em Caconda, e
que a obtivram no dia em que eu sahi d'aquelle ponto.

A elles, talvez, devia eu a crtica posio em que me achava, porque os
meus companheiros, pouco conhcedores d'frica, e nada d'aquelle paiz,
no podiam julgar das difficuldades que me creavam, ao passo que
aquelles dois senhores, de sobra as conheciam. No os accuso de um
crime, mas culpo-os de uma leviandade.

No lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez depois de se
passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos perigos a
que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me tinha prendido
com garras de ferro a doena, proveniente de 20 dias de cruel agonia, a
que elles dram causa; vi-os entrar, famintos e sem recursos, na casa de
Silva Porto, que eu occupava no Bih; e esqucendo tudo o mal que me
haviam feito; e no me lembrando de que um estava privado dos direitos
de cidado por uma sentena infamante; reparti com elles o pouco de
vveres que eu tinha, dando-lhes os meios de voltarem com relativa
commodidade a Caconda.  que eu vi n'elles, no s dois brancos, dois
Portuguezes, perdidos no j longinquo serto do Bih, mas vi mais os
homens que me fizram ter de mim uma opinio de que me sentia orgulhoso,
os homens que em 20 dias de agonia que me dram, em mil perigos a que me
lanram, com que me fizram lutar e que eu venci, me retemperram a
alma para commettimentos maiores. A elles devia a confiana que tinha em
Deos e em mim mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava
pagar uma dvida de gratido, onde outros, succumbindo ao soffrimento,
s veriam, talvez, um motivo de vingana.

No antecipemos factos.

Capco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens que queria,
mas s at ao Sambo, porque elles se recusavam a ir mais lm; por
estarem despeitados pla despedida dos 80 que se haviam reunido para ir
a Caconda e ao Bih, e que eu tinha dispensado. lm d'isso, elles
exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia contratado por
10 pannos de Caconda ao Bih, e estes exigiam s do Huambo ao Sambo 8
pannos. Acertei tudo, para poder partir.

No dia seguinte de manh, reunram-se os 40 homens; mas de repente
surgio uma nva difficuldade. Quando em Caconda fomos enganados plo
Bandeira, o Ivens tinha tirado a tdos os fardos sortidos o algodo
branco; porque os prtos que espervamos do Bandeira no queriam
pagamento em outro gnero. Esquceu esta circunstancia, e eu, levando
dois fardos sortidos, no levava nem uma s pea de algodo branco. A
gente do Capco declarou-me logo, que no queriam receber seno algodo
branco, e no pegariam nas cargas se eu lho no dsse.

Recusram-se a receber o riscado, e j se iam, quando appareceu o
Capco, e no sem custo os decidio a receberem metade em riscado, metade
em zuarte.

Havia grande descontentamento entre elles quando s 10 horas os fiz
seguir acompanhados plo guia Barros. Eu devia partir dentro de uma
hora; mas fui atacado de to violento accesso de febre, que tive de
deitar-me.

Desde a vspera chovia torrencialmente, e sbre tudo a noite foi
tempestuosa.

A febre comou a declinar s 4 horas da tarde, e a chuva cessou. Plas
5 horas, precisei sahir da libata e fui a um mato prximo, os meus
passos eram vacilantes e apoiava-me pesadamente no meu bordo.

Precavido sempre, disse ao meu prto pequeno Ppca, que me acompanhasse
e trouxesse uma das minhas carabinas.

Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme bfalo
a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.

Tomei das mos do pequeno a espingarda, e qual no  o meu desespro,
vendo que, em logar de carabina, elle tinha trazido uma simples arma de
caa, carregada de chumbo! Senti-me perdido e vi a morte inevitavel,
terrivel caminhando para mim n'aquella fera, que mugia surdamente.

Lembrei-me de Deos, de minha mulhr e de minha filha. A fera avanava
aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam para o ataque. A 8
passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de chumbo, elle parou meio
segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o outro tiro no havia mais
distancia entre a bca da espingarda e a caba do bfalo do que alguns
decmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O bfalo seguio
sempre, passando a tomar uma carreira vertiginosa, e desappareceu no
mato. O meu Ppca ria a bandeiras despregadas, e inconsciente do
perigo, batia as palmas gritando, "O bi fugio, o bi fugio, tve mdo
de ns."

Voltei a casa do Capco; e passei a noite mais socegado. Quiz escrever,
e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma velha caixa
de sardinhas de Nantes.

Era a 21 de Fevereiro de manh. Despedi-me do Capco, e febril ainda,
segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi un bilhete. Era
elle do guia Barros, dizendo-me, que na vspera  noite, os carregadores
tinham fugido tdos, deixando as cargas na libata do seclo Quimbungo,
irmo do sova Bilombo.

Parei, e mandei chamar o Capco. Contei-lhe o occorrido, e elle
disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar. Segui
vante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S. para o Cunene,
tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta corrente.

As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de
gramneas, por entre as quaes surge aqui e lm um solitario dragoeiro.
O solo  de formao animal, que tudo o terreno  coberto por um mundo
infinito de termites, ou antes o cobre.

Uma ponte, construida toscamente de troncos de rvore, une as duas
margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um
affluente importante, o Cuuce, que traz volume d'gua igual ao seu.
Caminhei a E.N.E., e plas 10 horas passei junto  libata do seclo
Chacaquimbamba, em cuja frente havia grande ajuntamento de gentio.
Passei sem nada me dizerem; mas tinha andado uns 50 metros, quando senti
um grande barulho do lado da libata. N'esse momento Verissimo correu a
mim e disse-me, que havia questo com um carregador nosso.

Voltei a traz e vi o prto Jamba, carregador da minha mala, a quem
tinham tirado a espingarda, o que conseguram facilmente, porque elle a
largou com receio de deixar cair a mala, que continha os chronmetros e
outros instrumentos delicados.

lm da arma, elles tinham mettido para a libata uma cabra e um
carneiro, que me tinham sido dados plo Capco. Intimei-os a que me
entregassem o roubo; mas apenas me respondram com um murmurio
ameaador.

Calculei rpidamente as circunstancias, e vi-me com 10 homens, cercado
por 200 que me ameaavam furiosos.

Esquci por um momento tda a prudencia e bom senso, e quiz experimentar
o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de ser meus socios em
perigos maiores, e caminhando para a porta da libata, armei o revlver e
ordenei-lhes que entrassem e me trouxessem o roubo. O meu prto de
Benguella, Manuel, um mo de que eu nunca fizera caso, soffreu uma
transformao sbita, e armando a carabina, de um salto entrou na
libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e Catraio grande. Os
outros seguram, e eu, estudando os meus homens, esquci-me de mim, e
podia ter sido vctima do furor da populaa que me cercava; mas a nossa
audacia espantou-os, e recuram, vendo sahir da libata Verissimo com a
cabra, o Augusto com o carneiro, e os outros de carabina prompta
cobrindo-lhes a retirada.

A arma, mais facil de esconder do que os animaes, no foi encontrada,
mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a primeira; que o
successo desta tinha autorizado.

Os meus prtos, animados pla indeciso dos gentios, s proferiam
palavras de morte, e custou-me a contel-os para que no fizessem fogo
sbre os indgenas.

Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos satisfao
plena.

Eu dizia isto fiado no Capco, em quem j confiava um pouco.

Segumos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio Pe, affluente do
Cale, que tem 5 metros de largo por 1 de fundo, cujo leito lodoso e
molle d difficil passagem.

s 3 horas chegava  libata do seclo Quimbungo, irmo do sova do
Huambo, onde estavam as cargas abandonadas e o prto Barros. O Quimbungo
recebeu-me muito bem, e disse-me que me daria carregadores at ao Sambo,
e sabendo do occorrido de manh, pedio-me que no fizesse mal ao seclo
Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena
satisfao do insulto. Plas 6 horas, chegou ali o Capco, trazendo
alguns carregadores dos que tinham fugido, e as fazendas apprehendidas
aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia feito adiantados.
Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a arma roubada, e poria
 minha disposio o chefe da povoao para eu o castigar.

Que no receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle mesmo, ou o
tio, me acompanhariam at ao Sambo.

Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.

No dia seguinte reunram-se mais carregadores; mas no ainda os
sufficientes.

Capco tinha partido logo de madrugada para casa do Chacaquimbamba, e ao
meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle seclo, a quem
perdoei a offensa da vspera. O delinquente deu-me mil satisfaes, e
melhor do que as satisfaes, dois magnficos carneiros.

Capco, esse homem selvagem e ferz, que  o terror do Nano, esse homem
que eu consegui dominar completamente e que tantos servios me prestou,
despede-se de mim e volta  sua libata, recommendando-me instantemente
ao tio.

De tarde desencadeou-se sbre ns uma horrivel tempestade, e  chuva
torrencial misturava-se o raio e o trovo da tormenta perpendicular.
Recresceu-me a febre.

Durante a noite nva tormenta; mas com chuva moderada. O seclo
Quimbungo, logo de manh cdo, me veio dizer estarem promptos os
carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.

Recusei positivamente, porque, lm da experiencia adquirida com o mao
resultado dos pagamentos adiantados, foi conslho do Capco, nunca fazer
taes pagamentos.

Os homens recusram-se a seguir e fram-se. Quimbungo reune a gente da
sua povoao, e ordena-lhe que sigam comigo; elles obedecram, mas sam
mui poucos e reunidos aos que me trouxe o Capco, deixam ainda 27
cargas, que eu entrego ao Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me
manh para o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.

Parti s 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio Canhungamua,
de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao Sul vai unir
as suas guas s do Cunene.

Uma ponte de troncos de rvore, de construco nva, deu-me facil
passagem e  comitiva, que na margem esqurda do rio se recusou a ir
mais longe n'aquelle dia, sendo-me preciso empregar a maior energia para
os fazer seguir at as 3 horas, hora a que acampei n'uma espssa
floresta de acacias.

O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular
tratamento que eu lhe podia fazer.

Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou
junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.

Levanto campo no dia seguinte s 6 horas, e duas horas depois, passava o
Cunene, em ponte construida, como tdas n'esta parte d'frica, de
troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de largo por 2 de fundo, e
corre ao Sul. As margens sam levemente accidentadas, cobertas de
gramneas, e pouco arborizadas. Duas fileiras de rvores, mui
semelhantes aos salgueiros da Europa, desenham duas linhas tortuosas,
por entre as quaes o rio se deslisa com veloz corrente em leito de areia
branca e fina.

Descancei um pouco, depois de ter feito as observaes precisas para
determinar a altitude, e segui ao meio dia, alcanando, plas 2 horas, a
libata do sova Dumbo, no paiz do Sambo.

Este sovta  vassallo do sova do Sambo,  homem rico e tem muita gente
nas povoaes que governa. Recebeu-me muito bem, e quiz que me
hospedasse na libata, o que aceitei.

Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter eu
chegado em m occasio, por ter muita gente fra em guerra. Paguei e
despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei certo de seguir no dia
immediato.

Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um seclo rico, que mora na
margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o sovta de quem era
amigo. Este Cassoma, com quem no sympathizei, veio fazer-me mil
protestos de amizade, offerecendo-se para me acompanhar ao Bih.

De tarde mandei ao sovta 3 garafas de gua-ardente, e fiz lembrar-lhe
que me no faltassem os carregadores na manh seguinte. Ao contrario dos
usos da hospitalidade do gentio n'estas paragens, o sovta nada me
mandou para comer, e eu e os meus tivmos fome, porque ninguem nos
vendeu farinha.

Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e estmago vazio,
me ia deitar, senti bater  porta e logo entrarem o sovta Dumbo, o tal
Cassoma e um seclo chamado Palanca, amigo e principal conselheiro do
sovta, e cinco das mulhres d'este ltimo.

Conversmos um pouco sbre a minha viagem; mas de repente o Cassoma,
interrompendo a conversa, disse ao sovta, "Ns no vimos aqui para
conversar, queremos gua-ardente, e diga a esse branco que nol-a d j."

O sovta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que lhe desse
gua-ardente a elles e s mulhres. Eu respondi-lhe que j lhe tinha
dado trs garrafas, que elle nada me tinha offerecido, que era esta a
primeira hospedagem que eu recebia de um chefe em que me deitava com
fome, e por isso no lhe daria nem mais uma gota de gua-ardente. O
Cassoma meteu-se logo na questo, animando o sovta contra mim, e entre
ns comou uma controversia que durou mais de uma hora, em que eu fiz
prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por fim elles concluiram
dizendo-me, que pois eu lh'a no queria dar por bem, m'a iam tirar 
fra.

Eu ento, perdendo a paciencia, empurrei com o p o barril, e armando o
revlver, perguntei-lhes qual era o primeiro que bebia.

Elles vacilram um momento, mas o Cassoma disse ao sovta: "Tu es rei,
vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o envolvia,
entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o branco m'o no
furte," e caminhou ao barril.

Eu levantei o revlver  altura da caba do sovta e fiz fogo; mas
Verissimo Gonalves, que estava junto a mim, empurrou-me o brao e a
bala, desviando-se da pontaria, foi cravar-se na parde.

Os trs ngros, transidos de mdo, recuram at  parde, e as 5
mulhres fizram um berreiro horrivel.

Eu ouvi ento junto  porta uma estrepitosa gargalhada que me chamou a
atteno, e devisei na sombra dois homens encostados s carabinas, que
riam como riem prtos. Eram os meus Augusto e Manuel, que se tinham
aproximado, ao ouvirem a discusso, e que, acompanhados dos outros 8
homens, guardavam a porta.

O Verissimo disse ento ao sovta e aos seus companheiros, que se fssem
deitar, e no me dissessem mais nada, porque, se eu me zangasse outra
vez, elle no lhes poderia salvar a vida como ha pouco.

Elles tomram o prudente conslho, e retirram-se, ficando tudo em
silencio.

Sem o empurro que me deu o Verissimo, eu teria mrto um homem, e na
situao em que nos achvamos, estaramos completamente perdidos. Foi
elle que salvou tudo.

Com a excitao que me produziu a clera, recresceu a febre, e cahi sem
fras nas pelles que estendidas no cho me serviam de leito.

Os meus prtos deitram-se atravez da porta, e dissram-me, que dormisse
descanado, que elles velariam por mim.

Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em trs
occasies differentes: 1^o com o bfalo no Huambo, 2^o na libata do
Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.

Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia l
fora.

Pensei nos acontecimentos da noite e no fiquei tranquillo. O que
succederia de manh? Eu estava s com 10 homens, dentro de uma povoao
fortificada, d'onde no era facil sahir; e ainda que se me abrissem as
portas onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto
com o rgulo?

Pde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora.

Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir,
e mandei chamar o sovta, que appareceu logo.

Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sb sua
responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que
o no fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfaes
do occorrido na vspera, disse-me, que o culpado fra o Cassoma, que
elle j tinha posto fra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi
depois.

[Figura 5.--Mulhr do Sambo.]

s 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente no
eram s carregadores, que no grupo devisei 6 raparigas, ainda de
manilhas nos artlhos; tal cuidado poz elle em servir-me, que, para no
me demorar, mandando ir homens das povoaes distantes, me deu os que na
sua tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o
nmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal prova de
cuidado, declarando-lhe logo, que no tinha comigo presente digno, de
offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse
um homem da sua confiana recebel-a no Bih, mostrando-lhe desejos de
que esse homem fsse o seclo Palanca seu conselheiro ntimo. Exultei de
alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido
satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovta Dumbo
entregava nas minhas mos um preciso refem, que me responderia j pla
minha segurana, j pla das cargas que deixei dois dias antes entregues
ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo.

Deixei a povoao s 11 horas,  frente da estranha comitiva, formada
dos meus dez bravos de Benguella, dez salteadores do Sambo, e seis
virgens escravas do sovta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar
d'isso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoao onde
passei to horrivel noite.

Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoao
de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre.

No aceitei a hospitalidade offerecida plo chefe da povoao, porque,
depois do que se passou na vspera, recordei-me de um bom conslho que
me deu Stanley, e protestei no mais em frica pernoitar em casa de
gentio.

[Figura 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bih.]

Viram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e
batatas magnficas, em nada inferiores s da Europa.

A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito
doente.

Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas guas iam a um
ribeiro affluente do Cubango, sam as guas que este ltimo rio recebe
mais de Oeste.

Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 s 5 da manh,
hora em que parou. Ha grande abundancia de ptimo tabaco n'este paiz,
onde me vendram muito e baratissimo. Ali poucos prtos fumam, mas tdos
cheiram tabaco em p, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de
fumo, e reduzindo-o a p no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um
pao, especie de mo-de-almofariz, que a elle anda prso com uma correa
fina.

Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma regio muito cultivada
e muito povoada.

s 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande povoao de Vaneno, e s 10
parei para descanar junto da aldea de Moenacuchimba. Segui s 10 e meia
sempre a N.E., s 11 passei junto da povoao de Chacapombo, muito
populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de
tdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e
offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodo riscado o valor do
porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaas
de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois
fui acampar no mato prximo da povoao do Gongo.

Esta ltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa, porque choveu
muito, e o vento S.O. era rijo e frio.

Pla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoao me
ficava uns 15 kilmetros a N.O., mandando-me pedir alguma cousa, e
dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado  porta do
sova, elle me daria um bi. Agradeci a ba inteno, e resolvi dar-lhe
no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o despedisse
sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria
facil porque j o tinham querido fazer, e foi preciso tda eloquencia do
Verissimo para os convencer a seguirem vante.

O seclo Capuo, chefe da povoao prxima, mandou-me comprimentar por
trs das suas mulhres (tdas feias), e por ellas um presente de uma
gallinha e trs cabaas de capata. Mandei-lhe seis cvados de riscado e
dei algumas missangas s mulhres. Junto  noite viram algumas mulhres
vender farinha, milho e mandioca.

Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha 
enfeitada com coral branco e reluz da grande profuso de oleo de ricino,
que ellas prodigalizam na sua _toilette_. Os homens do sovta Dumbo eram
verdadeiramente insobordinados, querelavam-se com a gente de Benguella,
e durante a noite s houve tranquillidade na barraca onde dormiam as
seis virgens ngras, as minhas gents carregadoras.

A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o seclo Capuo,
veio agradecer os 6 cvados de riscado que lhe dei, e em logar das trs
mulhres feias que me enviou na vspera, trouxe-me um lindo porco e uma
gorda gallinha.

O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e
que foi muito insignificante, sendo como era em trco da inteno de me
dar um bi, se eu passasse junto da libata d'elle.

Segui plas 8 horas, e s 9 passei junto das povoaes de Chachnha,
primeiras da raa (Ganguela) na frica de Oeste.

Passei o riacho Bomba, cuja margem esqurda segui por dois kilmetros,
quando os carregadores pousram as cargas, recusando seguir vante, e
pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois kilmetros do
Cubango, e querendo passar o rio, instei com elles a que andassem mais
aquelle curto espao, e que logo que estivesse na outra margem lhes
daria os seus pagamentos e os despediria.

Recusram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito offendido na
sua libata, plo sovta Dumbo, e por isso no iam para diante, sendo
certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fra do seu
paiz, me vingaria n'elles das offensas recebidas.

Fram baldados os meus esfros e tudo foi eloquencia perdida.
Recusei-me a pagar-lhes se elles no passassem o Cubango; respondero-me
que se retiravam sem pagamento, e logo chamram as seis raparigas e
ordenram-lhes que os seguissem.

Eu estava no desespero; ali perto era a povoao do Cassoma, e eu vi ser
aquillo plano combinado de antemo para me entregarem a elle, que me
havia precedido no caminho.

As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se
com que lhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.

Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas
estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa carabina
atravessada sbre os jolhos.

Era o seclo Palanca, que eu havia esqucido. Saltar sbre elle e
derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de ps e mos, e dei
ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acacia que se
estendia sbre as nossas cabas. Ao ver que a ordem ia ser cumprida,
elle, transido de mdo, gritou-me, "No me mates, os carregadores vam
passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fz reunir os
carregadores j dispersos.

Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles obedecram.

Mandei que lhe desamarrassem os ps, e prometti-lhe um tiro na caba 
menor excitao dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango
n'uma bem construida ponte, e acampava na margem esqurda junto das
povoaes de Chindonga.

[Figura 7.--Ponte de Cassanha sbre o Rio Cubango.]

Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio
extrae abundante minerio.

Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo
e Sambo, de que guardarei eterna memoria.

O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de
fundo. Fiz observaes para determinar a posio e altitude, e logo
corri  barraca, que uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sbre ns
copiosa chuva.

Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois cvados de
riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.

Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as
mulhres tinham obrigao de trabalhar e no mereciam paga. Ellas
retirram-se tristes; mas achando natural o meu modo de proceder, to
aviltada  a mulhr n'aquelles paizes.

Quando j se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo, mandei-as chamar
e dei 4 cvados do mais brilhante zuarte pintado que possuia a cada uma,
e algums fios de missangas differentes.

 impossivel descrever o contentamento d'aquellas desgraadas ao
receberem to valiosa paga. Os homens roiam-se de inveja, e eu
convenci-os de que, se no tivessem querido voltar para casa na outra
margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.

Foi a minha vingana, e ao mesmo tempo proveitosa lio.

[Figura 8.--O Seclo que me deu um Porco.]

N'essa noite veio procurar-me um seclo da povoao de Chindonga, que me
trouxe de presente um porco.

Este seclo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a um cvado de
riscado por dia, dizendo-me, que elles s iriam at ao paiz de
Caquingue, onde eu facilmente obteria gente para o Bih.

A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas
completamente molhado havia trs dias, eu sentia j os primeiros
symptomas do terrivel ataque de rhumatismo que depois ia compromettendo
a minha viagem.

A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.

O seclo veio logo de manh com os carregadores; mas eu tinha resolvido
descanar ali um dia, e por isso convoquei-os para o dia seguinte.
Disse-me elle, que os meus companheiros tinham passado na vspera,
vindos do Sul.

O seclo Palanca, do Sambo, contina bem vigiado, mas livre. Eu na
vspera tinha mandado dizer ao sovta Dumbo, que a caba do seu amigo
me respondia plas cargas que vinham escoltadas plo prto Barros,
resoluo que Palanca achou muito justa e natural, por ser lei do paiz.
Talvez o meu procedimento, que eu confesso francamente, me seja
censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um pouco na posio de
algum, acompanhado s de dez homens, n'um paiz em que tudo lhe  hostil,
desde o clima at ao homem. Se eu no professo o principio de que os
fins justificam os meios, no sou tambem bastante virtuoso para
apresentar uma face  mo que me esbofeteou a outra. Longe das vistas do
mundo civilisado, fra d'esses dois crculos de ferro que apertam a
humanidade culta, a que chamam o cdigo penal e as conveniencias
sociaes, crculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante
latitude ao crime e  infamia; o explorador d'frica, perdido no meio de
pvos ignaros, cujos cdigos differem essencialmente dos nossos; tendo
por nica testemunha dos seus actos a Deos, por nico censor das suas
obras a sua consciencia, precisa ter uma fra sublime para se conservar
honrado e digno, quando muitas vzes as paixes travam no seu ntimo uma
luta infrene. Por mim o digo, que tdas as ovaes que me tem dispensado
o mundo civilisado, pla felicidade que tive de vencer os obstculos
materiaes no meu caminho, seriam talvez mais justamente applicadas, se
se soubesse quantas lutas, e que terriveis lutas sustentei para me
vencer a mim mesmo.

Vencer as suas paixes indmitas, vencer os seus hbitos materiaes e
moraes da vida civilisada, sam os dois grandes trabalhos do explorador.
Aquelle que o conseguiu, attingir o seu fim, cumprir a sua misso.

Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.

Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de
que sahi sempre vencedor. O meu genio indmito tve de ceder  vontade
inquebrantavel, e na falta de tempo para escrever um cdigo, tomei um
que accommodei ao meu uso. Os meus principios fram os do direito
natural; a minha lei, curta mas ptima, resumiu-se nos dez preceitos do
Declogo.

No se julgue que quero fazer jus  canonizao, nem mesmo que pretendo
ter seguido  risca os preceitos gravados no vigsimo captulo do livro
sublime do xodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas fiz o que
pude para no me afastar muito d'elles, e fiz bem.

Esta divagao fica aqui, no como narrativa de guas passadas, mas como
conslho a exploradores futuros, que no sejam missionarios, que a esses
Deos me defenda de falar em materia da sua competencia.

 verdade que eu encontrei alguns em frica que me fizram lembrar o
velho rifo, "Em casa de ferreiro, espeto de pao."

Passemos adiante.

Durante o dia, viram muitas prtas vender alimentos, e entre outras
cousas vulgares, trouxram uma mui extraordinaria.

Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes s do
_Acherontia Atropos_, e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidptero
no seu primeiro estado vive nas gramneas, e  facil ali colher grande
proviso. Os Ganguelas sam vidos de tal manjar, que os meus prtos
recusram.

[Figura 9.--Mulhres Ganguelas das margens do Cubango.]

No dia seguinte logo de manh, viram offerecer-se muitos mais
carregadores, que recusei, por me serem inuteis.

Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da
sahida quebrei os meus culos, que usava desde Lisboa. Andei a N.E., e
cinco horas depois, acampava na margem esqurda do rio Cutato das
Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sbre uma pequena cataracta.

No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente do
Cutato.

O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e depois
plo Leste para o Sul. Este S gigantesco  uma serie de rpidos, em que
o rio se precipita com fragor enorme, pr sbre as rochas de granito que
formam o seu leito.

[Figura 10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.]

No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante e
jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os
naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.

[Figura 11--Monte termtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio
Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetao.]

A margem direita  occupada plas plantaes da povoao de Moma, que
occupam um espao que avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as
maiores que tenho visto em frica. A cultura entre estes pvos consiste
principalmente em milho, feijo e batata, mas o que mais se v sam
campos de milho. Antes de chegar s plantaes, atravessei uma floresta
de acacias enormes, de sorprendente belleza. O aspecto das margens do
Cutato  muito original. Onde termina o granito do leito do rio coma
um solo de formao termtica, e o terreno coberto de milhares de
montculos, uns cultivados, outros cobertos de vegetao silvestre,
tdos ligados, formando como que systemas de montanhas, ferem a vista,
admirada ao contemplar um to estranho systema orogrphico artificial.
Marquei a grande povoao de Moma, trs kilmetros a O.S.O., e depois de
ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me, molhado da incessante
chuva, e atacado de nvo accesso de febre.

Os ameaos de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi
torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta poca do anno,
as gramneas de que cobria a minha barraca improvisada, no tinham mais
comprimento que 50 centimetros, e com herva to curta  difficil, seno
impossivel, vedar a gua em uma barraca.

A chuva s abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de
abrazado em febre, segui s 2 horas, tinha 144 pulsaes.

Caminhei a p, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bi; mas,
depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar.
Acampei. Os meus prtos e os proprios carregadores Ganguelas
dispensavam-me os maiores cuidados.

O logar em que acampei foi junto de umas povoaes a que chamam Lamupas,
por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz t[~e]m o
nome de _Mupas_.

 logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pvos grandes
cultivadores.

Encontrei no caminho algumas sepulturas de seclos, que sam cobertas de
barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam
cobertas por um alpendre de clmo, e sam sempre debaixo de uma rvore
grande.

Sbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos plos
parentes do defunto, como ns depomos nos tmulos das pessas queridas,
as saudades e as perptuas.

De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio.
A febre abrandou muito, mas as dres rheumticas comavam a fazer-se
sentir atrozmente. Segui vante, e meia hora depois de ter deixado o meu
campo, passei junto da grande povoao de Cassequera.

Logo que passei um pequeno riacho que fica para lm da povoao,
deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramneas, que me
prenderam a atteno plo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma
pocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse
desenvolvimento.

[Figura 12.--Sepultura de Seclo.]

O meu muleque Ppca foi atacado de to violento e repentino accesso de
febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar contratar um homem, na
povoao de Cassequera, para o levar s costas. Ao meio dia, passei
junto da libata do Capito do Quingue, primeira povoao do paiz de
Caquingue. Fui hospedar-me em casa de Joo Albino, mestio de Benguella,
filho do antigo sertanejo Portuguez Luiz Albino, mrto por um bfalo nos
sertes do Zambeze.

Joo Albino mora na libata de Camenha, filho do Capito do Quingue.

Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das fras do sova
de Caquingue, que ia fazer a guerra a uns sovtas do Cubango.

O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo
continuava a ameaar-me.

A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.

Fui visitar o velho capito do Quingue, a quem levei de presente uma
pea de lenos. Elle deu-me um bi, que mandei logo matar, porque h
muito que tnhamos s carne de porco para comer. O capito era muito
velho e doente. Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha
viagem, e no comprehendeu o que eu andava fazendo.

Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu s
seclo de Moeneputo, e elle mandou-te ver estas terras e estudar os
caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que no sam bas, e o
Moeneputo hade querer pr termo a isso; peo-te, que quando isso
acontea, te lembres de que eu te dei um bi, e te tratei como meu
irmo; eu pouco viverei, mas ento lembra-te de meus filhos, e no lhes
faas mal." Comovram-me estas palavras do ancio. Os seus seclos
viram acompanhar-me respeitosamente at  libata do filho onde estava
hospedado, e poucos deixram, no correr do dia, de me trazer pequenos
presentes, j gallinhas, j vos e j canna de assucar. Na libata do
capito vi uma pequena plantao de cana de assucar, to viosa como no
vi no litoral, e em que esta enorme gramnea tinha um desenvolvimento
descommunal.

Notei esta circunstancia, por ter julgado at ento, que a uma to
grande altitude, cerca de 1700 metros, no vegetaria tal planta.

De volta  libata, encontrei ali Francisco Gonalves (_o Carique_),
irmo do Verissimo, que, sabendo da minha chegada, vinha visitar-me.

Este _Carique_, filho do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, 
comtudo filho de outra me, e a elle pertence por herana materna o
throno de Caquingue.

Vive junto do sova, seu tio, e  casado com uma filha do futuro sova do
Bih.

Foi educado em Benguella, e possue alguma instruco e bastante
intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns prtos que fram escravos de
seu pai, e que logo se offerecram para me acompanharem na viagem do
Bih para Leste.

Assim, pois, j antes de chegar ao Bih, arranjei alguns carregadores.

Carique, Albino, o filho do Capito, e outros que fazem commercio
sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e Sulatebelle, descendo
o Cubango at ao Ngami, sempre pla margem direita, e vam tambem
negociar ao Cuanhama, paiz a leste do Humbe, na margem esqurda do
Cunene.

O artigo principal do trfico  o escravo, que em caminho trcam por
bis, e estes e fazendas, por cra e marfim.

Resolvi demorar-me ali um dia, no s para descanar e enxugar, mas
tambem para me informar sbre este paiz, cujos usos j differem muito
dos dos povos que tinha encontrado at ali. De tarde, o Carique e Joo
Albino dram-me largas informaes sbre o paiz, das quaes transcrevo do
meu diario as mais curiosas.

O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bih, a oeste com o paiz de Moma,
a leste e ao sul com pvos confederados de raa Ganguela. A raa
Ganguela occupa n'esta parte d'frica um vasto territorio, e est
dividida em 4 grandes grupos, os quaes soffrem ainda subdivises. A
lngua e usos sam os mesmos; mas a sua organizao poltica differente.
No paiz de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam
constituidos em reino, tendo um nico chefe.

Nas suas outras divises formam confederaes, muito vulgares em frica,
sendo cada povoao governada por um chefe independente. Os que demoram
a S.E. de Caquingue chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles
que vivem a leste do Bih, Bundas. D'estes ltimos terei de falar
detidamente no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de
Caquingue, sam cultivadores e negociantes, e sam, de tdos os pvos da
frica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos, em
commettimentos de explorao commercial.

No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre
elles e outros pvos activas relaes de commercio.

No tem a menor idia de uma religio qualquer, e vivem com os seus
feitios, no pensando na existencia de um Ente Supremo que tudo dirija.

[Figura 13.--Ferreiros Caquingues.]

Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as
suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de
ferro, que sam abundantes no paiz.

Para extraco do minerio cavam poos circulares de trs a quatro metros
de dimetro, que no profundam mais de dois metros; de certo por lhe
escacearem os meios de elevarem com facilidade o minerio a maior altura.

[Figura. 14.--1. Folles. 2. Bocal de Barro. 3. Bigorna. 4. Martello.]

Visitei muitos d'esses poos junto ao Cubango. Extraido que  o minerio
que elles julgam sufficiente para o trabalho d'aquelle anno, coma a
separao do ferro, que elles fazem em cvas pouco profundas, misturando
o minerio com carvo vegetal, e elevando a temperatura por meio dos seus
instrumentos de insuflao, que consistem em dois cylindros de pao,
cavados de 10 centmetros, com 30 de dimetro, e recobertos por duas
plles de cabra curtidas, s quaes estam ligados dois paos, de 50
centmetros de comprido por 1 de dimetro.  por meio d'estes paos que
um rpido movimento dado s plles produz a corrente de ar, que 
dirigida sbre o carvo por dois tubos de pao ligados aos cylindros, e
terminados por um bocal de barro.

Depois coma um incessante trabalhar, noite e dia, at que tudo o metal
 transformado em enxadas, machados, machadinhas de guerra, ferros de
frecha, azagaias, pregos, facas e balas para as armas, e at mesmo fuzis
para ellas, de ferro temperado com unha de bi e sal. Vi muitos d'esses
fuzis darem fogo tambem como os do melhor ao fundido.

Durante tudo o tempo que duram os trabalhos  expressamente prohibido a
qualquer mulhr aproximar-se do campo dos ferreiros, porque dizem elles
que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi estabelecido para que
os homens se no distraiam do trabalho, em que empregam, como j disse,
noite e dia.

[Figura. 15.--Objectos fabricados plo gentio entre a Costa e o Bih. 1.
Machado de Trabalho. 2. Ferro de Frecha para a Guerra. 3. Frechas. 4.
Ferro de Frecha para Caar. 5. P das Frechas. 6. Machado de Guerra. 7.
Enxada. 8. Azagaias.]

Findo que  o metal e transformado em obra, voltam os ferreiros a suas
casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida depois de
terem reservado o necessario para seu uso.

Tdos estes pvos no admittem causas naturaes de doena ou de morte.
Sempre que adoece ou morre alguem, ou fram as almas do outro mundo (uma
certa  designada) que produzio o mal, ou ento foi algum vivo que fz
feitio ao doente ou ao mrto. Logo que morre alguem, se os parentes no
estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e no entanto penduram o
cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da porta da povoao, e
esperam que elles venham para fazer o enterro.

Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se
immediatamente  devinhao para saber a causa da morte.

Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens
nas extremidades, levam o crpo ao logar destinado s adevinhaes, onde
o espera o adevinho e o pvo formado em duas alas.

O adevinho tomando na mo direita um coral branco, coma a adevinhao.

Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o mrto,
que o pvo acredita que mexeu sem interveno estranha, o adevinho
declara que foi a alma de fulano ou de fulana que o matou, ou ento que
foi feitio dado por alguem que elle designa.

No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma cva no mato, em
qualquer logar indistinctamente, e lanando n'ella o cadaver que cobrem
de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a pessa designada plo
adevinho como feiticeiro  agarrada, e, ou paga ao mais prximo parente
a vida do mrto, ou lhe cortam ali a caba, indo dar parte do occorrido
ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle escutar o
caso.

Comtudo pde dar-se o caso de um accusado negar firmemente a sua
culpabilidade na morte, e ento tem direito de defesa.

Para isso, vai elle buscar um cirurgio que vem, na presena do pvo
proceder s provas da innocencia ou culpabilidade do accusado.

O cirurgio chega  presena dos parentes e do pvo, e compe uma bebida
venenosa de que tomam quantidades iguaes o accusado e o mais prximo
parente do mrto.

A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e  n'aquelle dos
dois em que ella se manifesta com mais intensidade que recae a culpa da
morte.[3]

Se  no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se  no parente,
tem este de indemnizar o accusado pla accusao feita, dando-lhe logo
um porco para lhe pagar o trabalho de ir buscar um cirurgio, e depois
tem de lhe dar o que o accusado exigir, sejam dois bis, dois escravos,
um fardo de fazenda, etc. etc.

Antes de continuar, dvo fazer sentir uma grande differena que existe
de trs entidades importantes, nos pvos da frica Austral, e que muitas
vzes sam confundidas.

Sam ellas o cirurgio, o adevinho e o feiticeiro. Effectivamente, estas
trs entidades que parecem  primeira vista ter pontos de contacto,
nenhum t[~e]m na realidade.

O cirurgio fica definido pla palavra.  um curandeiro, tem
conhecimento de um certo nmero de plantas e raizes, que empega sempre
empricamente, bem como as ventosas sarjadas, de que faz grande uso;
sendo bem certo que a sciencia de curar est muito em atrazo n'aquelles
paizes. O cirurgio, que nunca faz diagnstico da molestia, faz sempre o
prognstico. A dosagem das plantas medicamentosas  sempre emprica, e
nas suas polypharmacias entram os mais absurdos e inuteis componentes. 
verdade que entre ns ainda no vai longe o uso da Triaga. O cirurgio,
que  ao mesmo tempo pharmacutico, emprega durante a preparao das
suas drogas, um certo nmero de ceremonias e de palavras sem as quaes
ellas perderiam a virtude. Fazem grande segrdo das plantas que
empregam, e dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam
interrogados. O cirurgio  pessa muito importante, e muitos actos
solemnes requerem a sua presena. Elle decide altas questes, porque a
sua opinio prevalece  do adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgio
nunca a emitte sem fazer antes um certo nmero de remedios e ceremonias,
j com plantas, j com sangue do homem ou dos irracionaes, a que chamam,
_fazer os curativos_.

O adevinho s adevinha, e mais nada. No caso de doena, o adevinho 
sempre chamado para adevinhar se sam almas do outro mundo ou feitios, e
s depois d'elle, vem o cirurgio.

Estes dois sujeitos entendem-se sempre.

O adevinho no  s consultado em caso de doena ou morte,  ouvido em
tudo e por tudo, e nada se faz sem que elle adevinhe primeiro.

Para a consulta, coloca-se elle no centro de um crculo formado plo
pvo, que dve estar sentado. Arma-se de uma cabaa e um cesto. A cabaa
contem missanga grossa e milho sco, o cesto  cheio das cousas mais
disparatadas, ossos humanos, legumes scos, pedras, paos, caroos de
frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.

Coma por sacudir frenticamente a cabaa, e durante a chocalhada que
faz invoca os _espritos malignos_, ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos
objectos que vam apparecendo na parte superior, vai lendo o que se quer
saber do passado, do presente, ou do futuro. Este uso encontrei eu desde
a costa, mas no to seguido como aqui.

Falei em _espritos malignos_, e  preciso dizer, que ali os _espritos
malignos_ emparelham em malignidade com as almas do outro mundo
(_Cassumbi_) e com os feiticeiros. s vezes entram no crpo de alguem, e
custa muito fazel-os sahir. Outras vzes, fazem tropelias maiores,
tomando conta de uma povoao, onde durante a noite no deixam socegar
ninguem, sendo preciso que o cirurgio faa grandes _curativos_ para os
expulsar.

Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle.

Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle
grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia.

Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o pvo da
libata, e muito da povoao do capito, para assistirem  adevinhao.

A ceremonia fz-se com grande apparato, e elle comou a ler nas
trapalhadas do cesto as cousas mais lisongeiras a meu respeito. Eu era o
melhor dos brancos, passados, presentes e futuros; a minha viagem seria
feita com grande felicidade, e felizes seriam aquelles que fossem
comigo.

Este vaticinio produzio o melhor effeito, e tve grande influencia no
resultado da minha partida do Bih.

J falei do cirurgio e do adevinho, e vou dizer o que  feiticeiro.
Esta palavra tem uma significao que, tendo alguns pontos de contacto
com a que lhe damos na Europa, no  comtudo a mesma cousa.

Ali qualquer , ou pde ser feiticeiro, e feiticeiro  mais o
envenenador do que homem que governa nos espritos.

Effectivamente, o _feitio_ ali  veneno, e dar _feitio_ a alguem, 
dar veneno, que determine, ou doena, ou morte, ou loucura.

Esta  a rigorosa accepo da palavra, mas ainda assim o feiticeiro pde
causar grandes prejuizos, e como tudo se atribue a _feitio_, a perda de
um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo provem da
sua malevolencia.

No se julgue porem que se pde designar o feiticeiro; no pde. O
feiticeiro apparece como causa do effeito, e como essa causa  logo
destruida, o feiticeiro  como um meteoro que se desvanece logo depois
de apparecer. Esta prtica d logar a terriveis vinganas, como bem se
pde suppor.

lm d'estas trs entidades, duas das quaes sam definidas e uma
indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa importancia entre estes
pvos brbaros.

 elle o homem que d e tira a chuva. Ha um certo nmero de indivduos
que se atribuem o poder de governar nos meteoros aquosos. Possuindo um
esprito observador, attentram em que com taes ventos em certa pocha
do anno chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes,
que sam to vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados por
homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos
animaes, sbre tudo das aves, elles que podem com certa probabilidade
fazer um prognstico do tempo, atribuem a si o poder, de dar e tirar
chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar ou tirar.

Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras
vzes se enganam.

Estas prticas que nos causam estranheza, eram ha dois sculos vulgares
na Europa, e ainda hje existem entre ns no baixo pvo dos campos.

No  preciso ir  idade media para se encontrarem os Reis consultando
os seus astrlogos, e mesmo em Portugal existe um livro, impresso, _com
tdas as licenas necessarias_, em 1712, que o seu autor _Gaspar Cardozo
de Sequeira_, mathemtico da villa de Mura, intitulou Thesouro de
Prudentes, livro acrescentado plo engenheiro Gonalo Gomes Caldeira,
que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas, aos homens cultos
d'essas eras, porque o pvo de ento no sabia ler. Desculpemos pois os
ignaros prtos d'frica Austral.

Uma lei engraada d'aquelle paiz,  a respeito das mulhres que morrem
de parto.

Logo que uma mulhr morre de parto, o marido tem obrigao de a enterrar
elle s, levando o cadaver s costas at  sepultura, e fazendo szinho
o trabalho da inhumao. Em seguida, tem de pagar a vida d'ella aos
parentes, e se no tem com que, constitue-se escravo d'elles.

As sepulturas dos proletarios no t[~e]m signal algum que as indique, e
sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato.

Quando eu falar do Bih, serei mais minucioso em certos costumes que sam
communs a estes paizes, e que tive depois occasio de estudar
detidamente, sbre tudo aquelles que se referem aos sovas e aos grandes.

Um costume que  privativo de Caquingue  o que elles chamam _tratar as
mulhres_. Logo que uma mulhr est grvida, um sujeito pede ao marido
em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo  obrigado a
_tratal-a_, isto , dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de
_toilette_.

Este costume vigora s entre gente rica. Logo que nasce a criana, o
noivo redobra de presentes  me, e tem o dever de vestir a filha at 
pubredade, isto ,  pocha do casamento. Se acontece nascer um varo, a
obrigao de vestir me e filho subsiste, e este, logo que chega a ser
homem, fica para Quissongo do que o _tratou_.

Mais adiante direi o que  um Quissongo.

Este costume no  to extraordinario como parece  primeira vista, e se
em frica s o encontrei no paiz de Caquingue, c na Europa  elle
vulgar, no na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos sales
chama-se a isso, creio eu, _casamentos de conveniencia_.

Amanheceu o dia 5 de Maro, depois de uma noite tormentosa em que a
chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as dres rheumticas
eram mais persistentes e estendiam-se dos joelhos aos artelhos. O meu
Ppca estava melhor, e por isso resolvi partir. Receiando porem do meu
rheumatismo, fui pedindo uma maca e carregadores para ella, que me fram
obsequiosamente cedidos por Francisco Gonalves (_o Carique_). Depois de
cordiaes despedidas, parti s 10 e meia ao N., e uma hora depois, passei
o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi. Tem 6 metros de
largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi cavallo (Bonito)
embaraou-se em umas saras, perdeu o nimo, e foi ao fundo; custou
muito salval-o, e s pude seguir ao meio dia.  1^{h.} e 15^{m.} passei
o riacho Govra, de 3 metros de largo por 50 centmetros de fundo, e  1
e 45 acampava a S.S.O. da povoao de Chinda. Passei no caminho junto
de duas grandes povoaes, a de Cacurura, e a de Cachota. J estava em
terras que prestam obediencia ao sova do Bih. O paiz contina ali a ser
muito povoado e cultivado.

Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha
febre tinha desapparecido completamente, mas as dres rheumticas
recresciam n'uma progresso assustadora, e j ameaavam estender-se a
tudo o crpo. Logo de madrugada, o dono da ponte sbre o Cuchi mandou-me
avisar para passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando
passagem s a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e  lei, que
quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali pde passar sem
terminar a passagem da gente que primeiro chegou, e constava que uma
grande comitiva de gentio se dirigia para ali em sentido inverso ao meu.

Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia
hora depois.

O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul ao
Cubango.

Da ponte avista-se, 2 kilmetros ao N., a grande cataracta do Cuchi, de
sorprendente belleza, cujo ruido chga at ns.

Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a E.N.E.,
passei o pequeno ribeiro Liapra, que crre ao Cuchi, e mudando de rumo
para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que crre a N.E. para o Cuqueima;
indo acampar, plo meio dia, nas matas do Charo, a S.O. da povoao de
Ungundo.

Estes dois pequenos riachos, o Liapra e o Caruci, marcam a separao
das guas para o Cubango e Cuanza.

O seclo Chaquimbaia, chefe da povoao de Ungundo, veio
comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas; retribui o
presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia seguinte.
Durante o dia, no s em caminho encontrei muitos ranchos de gente
armada que vam reunir-se s foras do sova de Caquingue, mas ainda
depois que acampei, passram innmeros prtos armados que levavam o
mesmo destino.

Das 7 s 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E. uma trovada
longinqua; mas, s 9 horas, formram-se trovoadas em muitos pontos do
horizonte, e pareciam tdas convergir sobre o meu campo, que era situado
em um alto. s 10 horas, 5 trovoadas encontravam-se em choque immenso
sbre o campo, e a mais horrivel tormenta que at ento tinha
presenceado se desencadeou sbre mim. Os raios succediam-se com
intervallos de trs a cinco segundos, e o estalar sco dos troves era
incessante.

Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gtas de chuva cahiam aqui
e lm.

O barmetro apenas desceu dois milimetros, e o thermmetro conservava
uma temperatura de 16 graos Cent. As agulhas magnticas desnorteavam, e
conservavam um oscillar constante.

Uma bssola circular Duchemim, chegou a voltear rpidamente.

Durou este estado de cousas at s 11 horas, hora a que soffreu
modificao mais terrivel ainda. Um vento fortissimo, um verdadeiro
tufo, comeou a soprar de leste, e n'um momento correu os quadrantes
plo norte at S.O., onde se fixou com a mesma intensidade. Copiosa
chuva comeou a cahir ento. O vento, no seu passar furioso, soprou aos
ares as barracas do meu campo, e ns ficmos expostos  chuva torrencial
que cahio at s 4 horas, em que a tempestade comeou a abrandar.

Quem o no presenceou no avalia o que seja uma tempestade, de noite, no
meio das florestas d'frica Austral, quando ao rebombar dos troves se
une o grito multsono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com
acordes terriveis.

A chuva apagou os fgos do campo, o vento soprou longe os frageis
abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as
trevas, depois do seu rpido fulgor.

Muitas vzes, ao estalido do raio succede outro estalar medonho. Foi a
rvore, que levou sculos a crescer, e que n'um momento, ferida por
elle, voou em rachas e baqueou no solo.

O espectculo  horrivel, mas grandioso e sublime!

Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos, s
restavam para o lembrar, innmeras rvores derrubadas e um terreno
encharcadissimo.

A mim restava mais alguma cousa!

O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e
estendendo-se a tdas as articulaes, tolhia-me os movimentos. Soffria
muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia esforos enormes para calar na
garganta os gritos arrancados plo soffrimento que infligia o movimento
da maca.

Uma hora depois, envolvi-me em um pntano extenso, onde a gua dava pla
cintura aos homens que me carregavam.

O terreno, encharcado pla chuva da noite, estava transformado em
pntano enorme. Alcanmos um outeiro, quando, s 2 horas, nva
tempestade, vinda de leste, cahio sobre ns. Da maca, onde gemia dres
atrozes, animei a minha gente a seguir sempre, com inteno de alcanar
as povoaes de Bilanga, onde queria pernoitar.

Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o
Verissimo, estar eu n'aquellas povoaes, na libata do Vicente; mas no
tenho a menor idia, nem do caminho andado, nem da noite velada, que me
dissram os prtos ter sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a
febre e o delirio.

A caba estava livre, mas o ataque e as dres recrescram, se era
possivel isso.

No podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges das mos.

Verissimo e os meus prtos dispensavam-me os maiores cuidados.

Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e no dava passagem no
vao; mas, sabendo que existia uma pequena cana a jusante da cataracta,
resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao rio, tratou-se de
calafetar com musgo a cana j muito velha, e que apenas podia soportar
o peso de dois homens. O rio, que trazia uma enorme cheia, ia
caudalosissimo. Resaltando por sbre as rochas da cataracta, divide-se,
formando uma pequena ilha, e logo depois, une as suas guas em um s
canal, largo de 100 metros.

Era ali que amos passar. Eu fui collocado dentro da cana com mil
cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava um grito
doloroso.

Um habil barqueiro tomou o remo e a cana deixou a margem. Tnhamos de
atravessar 100 metros de gua, mas de gua animada de violenta corrente,
e encrespada por ondas furiosas produzidas plos baldes da cataracta. O
barqueiro dirigio a cana para a ilha, e at chegar  junco das guas
tudo foi bem; mas ali o fragil barco preso nos enormes rodomoinhos no
quiz seguir vante, apesar da pericia do habil ngro. Eu via a gua, em
ondas espumantes ainda do salto de ha pouco, referver em volta de mim, e
comecei a comprehender o grande perigo em que estava.

Tentei mover um brao e apenas consegui soltar um grito de dr!
Julguei-me perdido, porque, se a cana afundasse, eu no poderia nadar.
Sempre presa no rodopiar das guas, no seguia vante, e de repente
comeou a rodopiar ella mesma. O prto receiou que nos afundasse-mos, e
decidio saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou.

Alliviada d'aquelle peso, a cana fluctuou melhor, mas no deixou o
sitio em que estava presa plas fras desencontradas da gua.

De repente um baldo entrou na barca e molhou-me. Tive um momento de
verdadeira imbecilidade, e no sei o que se passou; s me lembra, que de
repente me achei nadando com tudo o vigor, s com um brao, sustentando
fra d'gua com o outro um dos chronmetros que trazia comigo, para que
no lhe chegasse a gua.

Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava rpido os remoinhos das
caudalosas guas, o que me era facil a mim, que desde criana aprendi a
lutar com os rpidos do meu patrio Douro.

Os prtos, sempre tendentes a admirar a destreza physica,
prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos.

Tinham desapparecido as dres, a febre cessou de repente, e eu sentia-me
bem disposto e forte. Ao submergir-se a cana, do meio de 100 homens que
assistiam  scena, e que ficram boquiabertos e indecisos, um arrojou-se
valorosamente  gua para me salvar.

Menos perito nadador do que eu, no alcanou a margem seno depois de
mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua dedicao ficou gravada no
meu corao para sempre. Era o meu prto Garanganja, que enlouqueceu
depois, no tendo uma alma asss forte para sopportar as miserias que
experimentmos.

Quando me firmei em terra andei, sem dres, sem febre. Despi-me
immediatamente; mas no tinha roupa para mudar, porque as bagagens
estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um sol
abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia. Voltram as
dres e a febre, e s sei que no outro dia, estava estendido em um leito
na libata da Annunciada, morada que tinha sido do sertanejo Guilherme
Gonalves, pai do Verissimo.

Cheio de dres e ardendo em febre, mas um pouco melhor, decidi partir e
ir encontrar os meus companheiros.

Parti s 11 horas, e durante uma grande parte do caminho, atravessei uma
planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas rvores feridas
do raio. Vi tambem uma planta que ali abunda, e que , ou a nossa urze
das altas montanhas do norte de Portugal, ou a ella mui semelhante.

Os meus lhos, pouco afeitos s subtilezas das observaes que demanda o
estudo do reino vegetal, no sam bastante penetrantes para differenar
especies, gneros e familias, quando ellas no se differenam por si
mesmo.

Chguei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) pla uma hora, e fazendo um
supremo esfro, fui a casa dos meus companheiros.

Elles, confirmando o que me tinham escrito, dissram-me que iam
continuar ss, e que me deixariam uma tera parte de fazendas e
material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O Ivens
offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario estado
de saude, se eu quizesse voltar  Europa.

Manifesto-lhe aqui a minha gratido, por to generosa offerta.




CAPTULO VI.


PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.

     No Bih--Doena--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto
     Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedio no
     Bih--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sbre o Bih--Os
     meus trabalhos--Nvas difficuldades--Deixo Belmonte--At ao
     Cuanza--Escravatura.


Depois de 20 dias de crul agonia e grandes soffrimentos, estava emfim
no Bih, muito doente  verdade, mas cheio de f e contente de mim
mesmo. Logo que falei aos meus companheiros, deixei a casa de Belmonte,
e fui em maca para a libata prxima do Magalhes, onde cahi sem fras
sbre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma meningite
declarram-se, ao passo que redrobravam as dres rheumticas.

No dia seguinte, fram ver-me o Capello e Ivens, que me levram
medicamentos. Peiorei, e veio o delirio.

Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em magnfico leito,
despido e entre lenoes de fina bertanha. O leito era coberto de
elegante cortinado de reps cr-de-rosa e franjado de branco.

Dissram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me mandara
aquella cama; que as havia assim no Bih, em Belmonte, em casa de Silva
Porto.

Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me tirram os
prtos, deixara-me em um estado de fraqueza indescriptivel. As dres
tinham cedido um pouco, mas continuava a febre. De tarde, viram os
prtos de Nvo Redondo procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhes,
Verissimo e Joaquim Guilherme Jos Gonalves, irmo mais velho do
Verissimo. Vinham elles dizer-me, que no queriam seguir com os meus
companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.

Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a
acompanhal-os. Sube ento, que Capello e Ivens estavam construindo um
abarracamento a 5 kilmetros d'ali, e j l tinham as bagagens, devendo
em breve mudarem-se de Belmonte.

Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga
conversa.

Dei-lhe tdas as cartas de recomendao que Silva Porto me havia dado em
Benguella para obter carregadores, e comprometi-me a no pedir gente ao
sova Quilemo, ficando-lhe o campo completamente livre a elles. Ivens
disse-me, que iam mudar para o abarracamento que tinham, e que em casa
de Silva Porto me deixavam o que me pertencia na partilha. Eu
mandara-lhes entregar tdas as cargas que trouxera comigo, e as que
acompanhou o prto Barros, que j tinham chegado. O prto Barros
declarou-me, que no queria continuar a viagem, e por isso despedi-o,
bem como a alguns prtos de Benguella, que manifestram igual inteno.
Escrevi poucas linhas a Pereira de Mello, que o meu estado de saude no
me permitia ser extenso. Quando, fatigado de determinar tanta cousa, eu
ia embrulhar-me nos lenoes e procurar no sono um pouco de descano,
surgio diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de
physionomia enrgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia
olvidado, era o seclo Palanca, o conselheiro ntimo do sova Dumbo do
Sambo.

"J despachaste tda a tua gente, me disse elle, uns despediste-os,
outros ficaste com elles, o que determinas de mim, e qual  a minha
sorte?" "Tu vais voltar a tua casa, lhe respondi, levars ao Dumbo a
espingarda que lhe prometti, e alguma plvora, e para ti terei alguma
cousa tambem. Dvo-te uma indemnizao por aquella corda que tiveste ao
pesco prximo do Cubango, e plos sulcos que te fizram nos pulsos as
cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas
rdens n'esse sentido.

Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o
tinha sido diante da priso e da morte, retirou-se, e deixou logo o
Bih.

Dois homens seguram-se no meu quarto  sahida do seclo do Sambo.
Estava escrito que eu no descanasse no primeiro dia das minhas
melhoras. Estes dois prtos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de
confiana de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella.

Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicao, muitas vzes repetidos,
consegui ficar s. S, no! Junto de mim estava a nica, a grande
dedicao que tive na minha viagem a travez d'frica. Cra, a minha
cabrinha, em p, com as patas pousadas sbre o leito, berrando e
lambendo-me as mos, pedia-me uma caricia, que eu no lhe fazia ha
muito.

No dia seguinte, os meus companheiros avisram-me de que deixavam a casa
de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali. Encontrei 7 cargas de
fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com instrumentos, e trs carabinas
Snider, que elles me haviam deixado.

A libata de Silva Porto, ou povoao de Belmonte, est situada sbre a
parte mais elevada de um outeiro, cuja vertente norte desce suavemente
at ao leito do rio Cuito, que corre a leste para o Cuqueima.

A posio da libata  muito bonita, e forte como ponto estratgico.

[Figura 16.--Casa de Belmonte (Bih).]

Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e
flr, o que no acontece a outras algumas no Bih. O laranjal  cercado
de uma sebe de roseiras, que attingem uma altura de tres metros, e estam
sempre floridas.

[Figura 17.--Vista exterior da povoao de Belmonte, no Bih.]

Sycmoros enormes assombram as ruas e rodeam a povoao, defendida por
uma forte palissada de madeira.

Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol
ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha posio,
e elaborando projectos mais ou menos sensatos!

Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dres, que,
queimado da febre, conceb, e organizei na minha mente o plano que havia
realizar depois.

Se de alguma cousa me orgulheo na minha viagem,  d'esse tempo.

Mais tarde joguei muitas vzes a vida, fui de certo mais de uma vez
temerario, mas era obrigado a isso para me salvar.

Ali no! Estava doente, quasi anmico, e sem recursos. Uma facilidade
relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa. Mil difficuldades,
que provinham da minha separao dos meus companheiros, apresentavam-me
uma barreira quasi impossivel de transpor, para emprehender uma
explorao qualquer. O desnimo reinava na minha pouca gente.

[Figura. 18.--Planta da povoao de Belmonte, no Bih.

* Sycomoros. * Forte palissada de pao. * Palissada da horta coberta de
roseiras sempre floridas. * Romeiras. * Larangeiras. * Hortas. *
Cemiterio. * Casas dos prtos.

1. Entrada da povoao. 2. Entrada da casa de Silva Porto. 3. Casa. 4.
Pateo interior. 5. Cusinha e dispensa. 6. Casas de criados. 7. Armazem.]

Entrvado e sem fras, no pensar um s momento em voltar face ao
desconhecido que se erguia ante mim como um abysmo attrahente; desfazer
uma a uma as difficuldades que surgiriam; reconstruir muitas vzes o
trabalho feito, que se esvaa como cahe um castello de cartas; criar
recursos onde os no havia; conseguir organizar uma expedio sbre as
ruinas de outras que se haviam desmembrado; , aos meus lhos, a parte
mais difficil da minha viagem, e de que mais me orgulheo, se  que me
orgulheo de alguma cousa.

Comecei por contratar Verissimo Gonalves para me acompanhar, e consegui
fazer-me obedecer por elle cgamente.

Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto
Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte
d'frica.

Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da
margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e
Senna.

Os mais prticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que
eu no chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por
tlo.

Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organizao do pessoal e
confeco do material necessario aos meus planos.

No dia 27 de Maro, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao
Governo da Metrpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes
parte do occorrido at ento, e pedia-lhes auxilio e conslho,
submettendo  sua crtica os meus projectos. Despachei portadores para
Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que
em outrem.

A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em
Novembro havia 5 mezes! ainda no tinham chegado.

Apparecram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o
degradado Domingos, que iam para Caconda. Contram-me que, chegados ao
Bih, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o
abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em
Belmonte.

O Alferes Castro voltava sem nenhum confrto, e eu, das 6 caixas de
rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, ch, caf, etc.,
necessario para a viagem.

Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto
soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, no ter motivo de
queixar-se do modo por que o recebi no Bih; se quizr ser justo e
verdadeiro.

Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de
recommendao para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um
favor.

Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizram soffrer em
frica, porque quando dram causa a isso, eu ainda no estava habituado
ao soffrimento.

No principio de Abril, eu j bastante melhor, tinha promptos 60
carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para
receber mais alguma fazenda e partir.

A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um
livro de lembranas, para ter  mo as frmulas que me eram necessarias
para os meus clculos; fazia umas tbuas de raizes quadradas e raizes
cbicas, que calculei para os nmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho
immenso algumas frmulas trigonomtricas, porque na Europa, para tornar
mais portateis as minhas tbuas logarthmicas, as tinha feito
encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel,
n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fram
incluidos os meus livros mathemticos. No se riam os sabios, da
singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bih para
poder ter escritas n'um livrte algumas frmulas vulgares. Quem no 
explicador de mathemtica, v-se muitas vzes embaraado para resolver
uma questo mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a
memoria priguiosa. No Bih faltavam-me tdos os livros, e por isso eu
fazia um, para meu uso, e ou se riam ou no, declaro-lhes que no me foi
facil. Tda a minha bibliotheca consistia em trs almanacs para 1878,
1879, e 1880, as tbuas de logarithmos, como j disse, sem texto, tbuas
somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um
livrinho de Flamarion, _As Maravilhas Celestes_.

Em tudo isto no tinha muito onde refazer a memoria para as questes de
_x_ e _y_.

Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em
muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si.
s vzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das frmulas de Neper
para resolver tringulos esphricos, quando entrava o muleque, e me
exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou
assada (durante a minha estada no Bih, comi cento e sessenta e nove
gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabo para lavar a roupa;
depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do
sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um
inferno, um verdadeiro inferno.

Eu tinha feito e fazia um grande nmero de observaes meteorolgicas.

Os meus chronmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posio
determinada. Algumas excurses que fiz no paiz com a bssola na mo,
permitram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas to aproximada
quanto se pde exigir de um trabalho d'estes em viagem de explorao.
Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava
satisfeito, e mal pensava nas tribulaes porque tinha de passar ainda
nas terras do Bih.

Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um
parenthesis para falar um pouco d'este paiz, to importante e rico
quanto pouco conhecido entre ns, a quem interessa mais o seu
conhecimento do que a ninguem.

O Bih limita ao Norte com o serto do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a
Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e
L. com os pvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima  quasi um limite
natural do Bih por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade
do sova do Bih ainda se exerce para lm d'aquelle rio em alguns
pontos. O paiz  pequeno, mas muito povoado.

Eu avalio grosseiramente a sua rea em 2500 milhas quadradas, e um
clculo ainda mais grosseiro fz-me estimar a sua populao em 95 mil
habitantes; o que nos d apenas 38 habitantes por milha quadrada; e
ainda que este nmero nos parea mui pequeno, por ser menos de um tero
do que se d entre ns,  consideravel para a frica Austral, onde a
populao est muito pouco accumulada.

Em tempo, como se ver, pouco distante, estas terras do Bih eram
povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam
raras povoaes de raa Ganguela.

O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do
Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal
Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.

Este sova Bomba vivia na margem esqurda do rio Loando, affluente do
Cuanza.

A formosa e ngra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas
parentas que eram senhoras da povoao de Ungundo, nica de alguma
importancia no Bih de outrora.

Estando a filha do sova Bomba n'esta povoao de Ungundo a visitar as
parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caador de elefantes
chamado Bih, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha
passado o Cunene e estendido as suas excurses venatorias at quellas
remotas terras. Um dia o selvagem discpulo de Santo Huberto tve fome,
e estando perto da povoao de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer.
Foi ento que vio a formosa Cahanda, e  preciso dizel-o, que vel-a e
amal-a foi obra de um momento. Estas questes de amor em frica sam
muito semelhantes s questes de amor na Europa, e pouco depois do
encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bih plantava a
estacada da grande povoao que ainda hje  a capital do paiz, paiz a
que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus
Ganguelas fram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do
Bih reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigrao do
seu pvo para ali. Ao casamento do sova succedram-se muitos outros
entre as mulhres do norte e os caadores do seu sguito, e esta  a
origem do pvo Biheno.

Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na frica Austral de oeste dam
aos descendentes da raa do Humbe, os quaes no se encontram s no Bih,
mas estam tambem espalhados em outros pontos, sbre tudo frente da costa
entre Mossmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a
verdadeira raa d'aquelle paiz. Hje a verdadeira raa Mohumbe no Bih 
representada pla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos
caadores do primeiro sova, e ainda assim, fra da familia reinante,
est ella misturada com sangue de raas muito differentes; porque, sendo
o Bih desde o seu como um grande emporio de escravatura, e tendo sido
colonizado em grande parte por escravos de raas diversas, o baixo pvo
provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas
bastardias numerosas, tem trazido s suas descendencias sangue dos
paizes mais remotos da frica Austral.

Da unio de Bih e da formosa Cahanda nasceu um nico filho varo, que
tve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi tve
dois filhos, dos quaes o primognito se chamou Giral, e o segundo
Cangombi. Giral herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu
irmo, que tinha grande influencia no pvo, o fez prender secretamente
de noite, e o vendeu como escravo, a um prto que ia levar uma leva de
escravos a Loanda.

Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado plo Governador Geral, de
quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de
Giral fizram-n-o detestado do seu pvo; houve conspirao, e alguns
nobres partram secretamente para Loanda, com muito marfim, para
resgatar seu irmo, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O
governador de Angola de ento, vendo o partido que podia tirar d'esta
questo, para a cora Portugueza, no s entregou Cangombi sem resgate,
mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmo; e
por isso Cangombi se apresentou no Bih com grande comitiva, que veio
por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos
Portuguezes. Declarada a guerra, Giral foi vencido, sendo traido plos
seus, e entregou as redeas do governo a seu irmo mais nvo, que lhe deu
uma povoao e um pequeno dominio para viver.

Quatro annos depois, Giral revoltava-se e vinha pr crco  capital.
Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmo aos
Ganguelas de lm Cuanza para o comerem; no que estes Ganguelas sejam
positivamente canibaes, mas, de vez em quando, no desgostam de comer um
bocado de homem assado.

Eu no pude saber o nome do governador que prestou mo-forte ao filho
segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse
respeito alguma cousa dve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar,
porque um passo d'aquelles no podia deixar de ser communicado ao
governo da Metrpoli.

Cangombi foi grande sova, e tve oito filhos, dos quaes seis fram sovas
do Bih; o que no  para admirar, porque ali herda o poder o mais
prximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os
netos no vam ao poder, e o neto primognito do filho primognito s
toma as rdeas do governo quando no existe nenhum dos seus tios, irmos
mais nvos de seu pai.

Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por
mortes successivas, seus irmos Moma, Banda, Ungulo, Leamla e
Caiangla. Os dois filhos de Cangombi que no fram sovas, fram Calali
e chi, por terem morrido cdo. Este chi era immediato ao mais velho
Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangla,
por no ter deixado filhos o irmo mais velho de seu pai.

Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo
Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este
Muquinda seguia-se outro irmo chamado Quitungo, que morreu quando ia
ser acclamado, j dentro da capital.

De tdos os oito filhos de Cangombi, s existia um descendente legtimo,
filho do sova Banda, que foi acclamado.  elle Quillemo, o actual sova
do Bih.

Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que est
indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarm ao poder, os
filhos d'este ltimo, que sam muitos.

Por este breve resumo da historia do Bih se v, que aquelle paiz  de
fundao recente, e que desde o seu como quasi, existram relaes
ntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pla interveno tomada plo
Governador Geral de Angola, na acclamao do sova Cangombi, av do
actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.

Assim, pois, o Bih, desde a sua fundao tem sido governado por treze
sovas em cinco graes, que vam representadas no seguinte quadro:--


                        Bih (sova fundador)........... 1^a grao.
                          |
                       Jambi (sova).................... 2^a    "
                          |
             +------------+---------+
             |                      |
          Giral (sova)        Cangombi (sova)......... 3^a    "
                                    |
   +----------+---------+--------+--+-------+
   |          |         |        |          |
Caueue     chi        Moma    Banda   Ungulo (sova).. 4^a    "
(sova). (no reinou). (sova).  (sova).  Liambula (sova).
              |         |        |      Caiungula (sova).
              |         |        |      Calali (no reinou).
              |         |        |
          Muquinda   Gutungui   Quillemo   ............ 5^a    "
           (sova).    (sova).  (sova actual).
                     Quilungo
                   (no reinou).


Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, j vem, indicado o Bih, mas a
sua origem no dve ir muito lm da coordenao d'aquella carta.

[Figura 19.--Mulhr do Bih cavando.]

Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o
trabalho  feito plas mulhres, que s ellas cultivam a terra.

Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro
rgulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos remotos sertes
onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando estas disposies,
alguns homens ousados, taes como Silva Porto, Guilherme (o Candimba),
Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros negociantes sertanejos,
comeram a dirigir os Bihenos nas suas excurses, e fizram n'isso um
grande servio ao mundo; porque, abrindo nvos mercados ao commercio,
abrram nvos horizontes  civilisao. No foi s o seu trfico que
veio augmentar o movimento commercial da praa de Benguella, mas, ainda
animado por elles, e perdido o receio dos brancos, o gentio dos mais
remotos paizes, desceu a vir permutar directamente os seus gneros nas
casas commerciaes de Benguella.

[Figura 20.--Carregador Biheno em marcha.]

Nas viagens sertanejas, aos brancos seguram-se os prtos, e obtendo,
primeiro alguns, depois muitos, um certo crdito na praa de Benguella,
fram ao Bih organizar expedies, d'onde partem a procurar a cra e o
marfim nos sertes mais distantes.

Muitos prtos conho eu que negoceiam com um crdito de 4 e 5 contos de
ris, e alguns com mais, como o prto Chaquingunde, que foi escravo de
Silva Porto, que, durante a minha permanencia no Bih, chegou do serto,
onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de ris!

No  difficil no Bih encontrar um branco Portuguez, escapado dos
presidios da costa, secretario de um prto commerciante rico.

Para o Biheno, em questes de viagens de trfico, nada  impossivel, e
tudo lhe parece natural. Se elles soubessem dizer onde t[~e]m estado e
descrever o que t[~e]m visto, os gegraphos da Europa no teriam em
branco grande parte da carta de frica Austral.

O Biheno deixa com o maior desapgo o lar, e carregado com trinta
kilogrammas de fazendas, vai para o serto, onde se demora 2, 3, e 4
annos, voltando em seguida a casa, onde  recebido com a naturalidade de
quem volta de uma viagem de trs dias.

Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava prtos seus em
outras direces, e negociava ao mesmo tempo no Mucusso, na Lunda e no
Luapula.

A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graa quando intentou a viagem
ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.

 mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum fardo; o que
acontece frequentemente com os Zanzibares.

lm d'isso, os Bihenos t[~e]m outra grande vantagem sbre os
Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de escravos, no promovem
elles mesmos no interior guerras para os haverem; comprando-os a quem os
vende, mas nunca tratando de os obter por fra. Isto quando em viagem
de trfico sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem
o que podem, e sam dotados de inaudita crueldade.

Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e hbito de
viajar, possuem grandes defeitos, e no conho em frica pvo mais
profundamente viciado, mais abertamente depravado, mais duramente cruel,
e mais sagazmente hypcrita.

Tem esta gente uma certa emulao entre si como viajantes, e muitos
conho eu que se ufanam de ter ido onde outros no fram, a que elles
chamam _descobrir terras nvas_. Elles sam educados na vida de
caminheiros, e tdas as comitivas levam innmeras crianas, que, com
cargas proporcionaes s suas foras, acompanham os pais ou parentes nas
mais longnquas correrias; e  por isso que no causa estranheza
encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no Matianvo, no
Niangu, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso, se elle viajou desde os 9
annos.

Ao homem que chega ao Bih para seguir em viagem sertaneja, offerecem-se
dois meios de obter carregadores. Um  por meio de presentes ao sova e
aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro  annunciar a viagem, e
esperar que elles se venham offerecer.

O primero  mao, porque, lm do grande dispendio feito com os presentes
que  preciso dar s pessas a quem se pedem os carregadores, estes sam
obrigados a ir, e o que os pedio  responsavel pela vida d'elles para
com as familias ou senhores. lm d'isso, as pessas a quem se pedem,
com o intito de extorquir mais presentes, vam demorando quanto podem a
partida, e quando se est na sua dependencia as exigencias crescem.

O segundo meio  bom, porque os que se v[~e]m offerecer sam prtos
livres, v[~e]m por sua vontade, e se algum morre, segundo a lei do paiz,
como foi elle que se offereceu, no tem o que o aceitou a menor
responsabilidade do facto.

 occasio de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, no s
os Bihenos mas sim tdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do
commando de um d'elles que  chefe do grupo. Este chefe, desde a costa
at a Caquingue chama-se _Quissongo_, e no Bih e Bailundo _Pombeiro_.

Sam estes Pombeiros que se v[~e]m offerecer, trazendo uns 10, outros
mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes
naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolhram um para
Pombeiro, e n'estes sam tdos livres. Outros sam formados por gente
livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo Pombeiro em quem
t[~e]m confiana. Outros ainda, sam grupos de escravos dos Pombeiros que
os commandam.

A obrigao do Pombeiro  vigiar pla sua gente, e responder por ella
ante o chefe da comitiva. Come e dorme com elles,  emfim o cabo de
esquadra da caravana.

O Pombeiro no leva carga, mas, em caso de doena ou morte de algum dos
seus, substitue-o como carregador temporariamente. Durante a marcha o
seu logar  no couce da comitiva, e logo que um seu carregador se
atraza, elle fica para o acompanhar.

O pagamento dos carregadores nunca  feito adiantado, e nas viagens de
trfico regulares  diminutissimo.

Assim, um carregador, para ir do Bih  Garanganja (Luapula), recebe 12
pannos ou valor de 2400 ris, e na volta uma ponta de marfim escravelho,
talvez de 4000 ris, ao tudo 6400 reis, comida  parte, porque o chefe
da comitiva tem obrigao de sustentar tda a sua gente durante a
viagem, excepto nos primeiros trs dias de sahida do Bih, para os quaes
cada um leva de comer.

Esta regra tem ainda uma excepo. Muitos sertanejos, ao sahirem do
Bih, destinam um certo nmero de pombeiros para destacarem em caminho,
ou no termo da sua viagem, para differentes pontos.

A estes Pombeiros dam um certo nmero de fazendas, plas quaes elles
lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos Pombeiros que
vam traficar livremente, chamam-se _banzos_, e d'ellas comem o Pombeiro
e carregadores desde o como da jornada. Afora este caso, em tdos os
mais o chefe sustenta Pombeiros e carregadores.

Os Pombeiros no sahem nunca por tempo determinado, e tanto ganham
demorando-se pouco como muito.  sabido que os ngros em frica no dam
valor ao tempo.

Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o
contacto com brancos no tem trazido o menor adiantamento a essa gente.

No t[~e]m a menor ida de uma religio qualquer, no adoram nem sol,
nem lua, nem dolo, e vivem com os seus feitios e advinhaes.

Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no
desassocego d'ella em quanto no cumprem certos preceitos ou vinganas
em favor do morto.

A forma do governo  monrchica absoluta, e tem muito do feudalismo.

Cada um , muitas vzes, juiz em causa propria, e quando eu falar dos
_mucanos_ direi como ali se faz justia.

Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam aos
sovas, e sbre tudo  sua morte e  acclamao do nvo rgulo. Antes
porem de descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso  falar da
sua crte.

O sova  rodeado de um certo nmero de sujeitos, a que chamam _Macotas_,
que muitos julgam corresponderem aos ministros entre ns, mas que assim
no . Os Macotas formam apenas uma especie de conslho a que o sova
submette sempre as suas deliberaes, mas de cuja opinio poucas vzes
faz caso. Sam seclos e favoritos do sova, e nada mais. Seclo  o
fidalgo, filho de nobre, ou enobrecido plo sova.

Muitos seclos que possuem libatas, dentro d'ellas t[~e]m o tratamento
de sovas, e os seus pvos, quando lhe dirigem a palavra, dizem _N
cco_, o que quer dizer Vossa Magestade.

lm dos Macotas, ha trs prtos que rodeiam o sova, e que, quando elle
d audiencia, se sentam no cho junto d'elle, e apanham da terra os
escarros do reglo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a
cadeira, e o Bbo, figura indispensavel em tdas as crtes de sova, e
mesmo dos seclos ricos e poderosos. O bbo tem obrigao de limpar a
porta da casa do sova e a rua em trno d'ella.

As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi
sempre coberta de sycmoros enormes, e dentro d'ellas uma segunda
palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo recinto
chama-se o _lombe_. Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se
passa pla morte ou acclamao dos rgulos.

Logo que morre o sova, o acontecimento  sabido dos Macotas, que guardam
o maior segrdo. Dam parte ao pvo de que o sova est doente e por isso
no apparece. O cadaver  deitado na cama, na cubata, e coberto com um
panno; isto em Caquingue, porque no Bih,  dependurado plo pesco ao
tecto da cubata.

O crpo ali jaz at que a putrefaco e os insectos deixam a ossada nua,
no paiz de Caquingue; no Bih, at que a caba se separa do corpo.

 ento que anunciam a morte do rgulo, e que se procede ao enterro. Os
ossos sam metidos em uma pelle de boi e enterrados em uma cubata que
existe no Lombe, sarcphago de tdos os sovas. A cubata em que apodreceu
o cadaver  demolida, e tudo o material  transportado fra da libata, e
abandonado no mato. Ser desnecessario dizer, que a morte de um sova 
sempre produzida por feitio, e que um desgraado paga com a vida, no o
feitio, que no fez, mas a vingana particular de um dos Macotas. Logo
que se anunca a morte do sova, o pvo sahe furioso, e durante alguns
dias, sam roubados tdos os que passam prximo da capital, sendo que se
apossam das pessas mesmas, que escravizam para venderem depois.

Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o at  Libata Grande
(capital); mas ali elle no entra no Lombe, e fica vivendo na povoao
como qualquer do seu pvo. Em seguida  entrada do herdeiro na Libata,
sahem dois bandos de caadores, um em busca de uma malanca (_Catoblepas
taurina_), e outro em procura de uma creatura humana.

Do grupo que v o antlope, se adianta um caador que lhe atira, fugindo
logo, e sam os outros que lhe vam cortar a caba, porque, se fr o que
lhe atirou,  logo assassinado, e nunca pde dizer que foi elle que o
matou.

O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que
encontra (homem ou mulhr), e arrastando-a para o mato, cortam-lhe a
cabea, que trazem com tudo o cuidado, abandonando o crpo. Chegados 
libata, esperam plo bando que foi caar o antlope; porque mais facil
sempre  encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma
malanca.

Reunidas em uma cesta as duas cabeas, a do homem e do antlope, vem o
cirurgio, e coma a fazer _os curativos_ precisos para que o nvo sova
possa tomar as redeas do governo, e quando acaba a sua maga, declara
que elle pde entrar no Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no
Lombe, no meio de grande grita e muita fuzilaria.

O primeiro passo que d o sova no seu governo,  escolher entre as suas
amantes uma que apresenta como sua mulhr, a qual fica morando com elle,
e toma o nome de Inclo, e o governo caseiro; as outras ficam vivendo
no Lombe, mas fra do recinto do rgulo.

No Bih, como em tda a frica Austral, est estabelecida a polygamia.

Os crimes no Bih sam sempre julgados em primeira instancia plo lesado,
e s se o culpado se no sujeita ao pagamento da multa,  que, algumas
vzes, sobe a causa ao conhecimento do sova, porque em outras a justia
 feita plo lesado. A palavra terrivel no Bih, o vocbulo _Mucano_,
no exprime simplesmente o crime, mas designa uma ida que involve ao
mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.

Ali tdos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto , ao pagamento de
multas; e no ha penalidades intermediarias entre a multa e a pena de
morte. Se alguem rico sbre quem pesa um mucano, se recusa a pagar, e o
lesado  poderoso, faz presa ao culpado em valor muito superior  multa,
ficando a presa em depsito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao
que a fez.

Aquelle que faz uma presa injusta  obrigado plo sova  restituio, e
a dar um porco ao prejudicado.

Este systema  zado a roubos, e tdos os dias apparecem mucanos os mais
estupendos.

Um dos mais vulgares  o do adulterio das mulhres, a quem os maridos
mandam que se faam seduzir por este ou aquelle homem que possue alguma
cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano. O chefe de uma comitiva 
obrigado a pagar os mucanos dos seus prtos, e responsavel plo
comportamento d'elles.

Quando um branco responsavel plos mucanos dos seus prtos, tem por seu
lado fora bastante e se recusa a pagar, elles esperam, s vzes, annos
at poderem atacar outro branco mais fraco, e fazerem-lhe presas,
dizendo-lhe, que  por causa do outro, e que se entenda com elle.

Se o que tve um mucano  fallecido, o desgraado que vem habitar a sua
povoao paga por elle.

O modo por que se _faz justia_ no Bih,  a causa do grande transtorno
que soffre o commercio, e das grandes perdas das casas de Benguella.

Durante a minha estada em casa do Silva Porto, viram ali uns prtos que
traziam uma gallinha para fazer uns _curativos_, e o hortelo vendo-a
disse, que tinha uma muito parecida com ella. Fram estas palavras
objecto de um mucano, em que o hortelo tve de pagar 16 cvados de
algodo ao dono da gallinha.

Logo que chega alguem ao Bih e traz fazendas, procuram arranjar-lhe
innmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma grande parte d'ellas.

Os sertanejos, quando chegam ao Bih, sam to defraudados pelos mucanos,
que muitas vezes no lhes fica para ir negociar no interior mais do que
a tera-parte das facturas trazidas. Guilherme (o Candimba), pai do
Verissimo, a ltima vez que ali foi em viagem de trfico, foi obrigado a
dar fazendas no valor de 600 mil ris, por um mucano que lhe arranjram,
de um seu prto ter comprado um bocado de carne de carneiro por trs
cartuxos de plvora, e no os ter dado no dia aprasado, mas sim no
seguinte, em que j no fram aceites. Durante a minha estada no Bih,
Silva Porto tve de pagar um mucano de 700 mil ris por uma bagatela
ainda maior.

 o mucano, esse roubo infame, porque  legal e autorizado, a causa
principal do estrvo ao commercio, e da decadencia do Bih.

Foi o mucano que expulsou do Bih a Silva Porto e aos sertanejos
honrados.

Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e
legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco triplicar o
commercio de Benguella, e novas fontes de riqueza, atrofiadas hje pela
pouca segurana, virm alimentar as industrias Europeas.

O pvo do Bih  zado a grandes commettimentos. Esmague-se no seu seio
a vbora da ignorancia que o corre; levantem-se esses brutos ignaros 
altura de homens, d-se-lhes uma direco, e elles caminharm na via do
progresso e chegarm onde difficilmente chegar outro pvo Africano.

Os prtos d'frica sam como os cavallos de fina raa, quanto mais
fogosos e bravos, mais promptamente se tornam doceis e obedientes.

Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se
poderm civilizar; aos outros no ser difficil tarefa trazel-os ao
caminho do bem.

Os Bihenos, como tdos os povos d'esta parte de frica, sam muito dados
 embriaguez.

Ali ainda chega a gua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se muita
capata.

A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes
modos,  uma especie de cerveja feita de milho.

Nas terras onde cultivam o lpulo (_Humulus lupulus_), servem-se das
cnicas sementes d'esta trepadeira para confeccionarem a bebida.

Para isso, reduzem as sementes a p, e misturado este p com fuba de
milho, em uma enorme panella, ferve por espao de oito ou dez horas em
muita gua, e logo, retirada do fgo e fria,  a capata, que se bebe
immediatamente.

N'este preparado a fermentao actica predomina, e  to pequena a
fermentao alcohlica, que no embriaga seno em grande quantidade.
Como a bebida no  filtrada, fica cheia de farinha em suspenso, e 
mais massa muito flida, do que puramente um lquido.  muito
substancial, e ha prtos que passam um e mais dias sem comer, bebendo s
capata.

Nas terras onde no ha lpulo  este substituido por uma farinha feita
de milho em estado de germinao, que elles fazem produzir, j
enterrando o milho, j deitando-o em gua por alguns dias.

No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande fermentao
alcohlica, addicionando-lhe mel, que no fim de alguns dias est em
parte transformado em alcohol.

Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.

Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco,
mas que  agradavel e muito nutriente.

 ella feita com a raiz de uma planta herbcea, que os meus poucos
conhecimentos botnicos no me permitram classificar, a que os prtos
chamam _imbundi_. Uma forte decoco da raiz do imbundi, depois de fria
e de uma ligeira fermentao em uma grande cabaa, e addicionada, a
frio,  fuba fervida como para a capata.

A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina.

Esta bebida chama-se Quissangua.

A alimentao do pvo do Bih  quasi toda vegetal, e tendo elles poucos
gados, que nunca matam para comer, apenas uma ou outra vez comem carne
de prco, animaes estes que abundam ali no estado domstico. Creio que
fram introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a
caa, e a pouca que h sam pequenos antlopes (_Cephalophus mergens_),
difficeis de matar por muito esquivos.

Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de
putrefaco.

O leo, o chacal, a hyena, o crocodilo, e tdos os carnvoros, sam para
elles finos manjares, mas sbre tudo o que mais amam sam os ces, que
engordam para comerem. Isto talvez provenha da falta de alimentao
animal que t[~e]m no seu paiz. Elles no sam positivamente canibaes, mas
comem de tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos,
e um ancio de cabelleira branca  ptimo presente que recebe o sova, ou
algum rico seclo, para um banquete.

Os sovas do Bih fazem repetidas vezes uma festa, na sua libata, a que
chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5 pessas,
sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1 mulhr que faa panellas, 1
do primeiro parto, 1 que tenha papeira ( vulgar ali), 1 cesteira, e 1
caador de cras.

Presas as vctimas, sam degolladas, e as cabeas lanadas no mato. Os
corpos entram de noite para o Lombe da libata grande, onde sam
esquartejados, e morto um boi, a sua carne  cozida com a carne humana,
parte da qual  tambem fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer
no banquete deve levar sangue humano. Logo que est prompta a sinistra e
repugnante ceia, o sova manda participar que vai comear o Quissunge, e
todos os habitantes da povoao correm pressurosos ao festim.

Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas habitaes para
as comerem cruas.

O Biheno  altamente ladro, e furta sempre que pode algum objecto, logo
que est no seu paiz; fra d'elle, no s se abstem de roubar, mas, como
carregador, respeita a carga que lhe confiram.

Quando uma comitiva acampa no mato, no Bih,  preciso logo dar parte
d'isso ao seclo dono da terra, mandando-lhe um pequeno presente; sem o
que, ficam autorizados os prtos da povoao vizinha a roubarem quanto
possam. Logo que se d o presente ao dono da terra,  elle o responsavel
por qualquer roubo que haja.

 tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo, ao sova; ao
que se chama dar a _Quibanda_. Elles nunca ficam satisfeitos, e exigem
sempre mais do que se lhes manda.

As libatas ou povoaes fortificadas (que todas o sam, desde a costa ao
Bih) t[~e]m as mesmas condies, salvo pequenas modificaes, devidas 
disposio do terreno. Sam grupos de cubatas feitas de madeiras e
cobertas de clmo, cercadas por uma palissada, que vara entre 2 a 3,5
metros de altura. Esta palissada  formada por estacas de pao-ferro de
vinte centmetros de dimetro, umas apenas cravadas no terreno, outras
amarradas com travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por
travessas encaixadas em forquilhas enormes.

[Figura 21A.--Palissada Solta.]

[Figura 21B.--Palissada amarrada com Casca de arvore.]

[Figura 21C.--Palissada travada com Forquilhas.]

Outra palissada igual  exterior, seno mais forte, rodea o Lombe, ou
morada do chefe da povoao. Em muitas vi grupos de casas rodeadas de
palissada.

As libatas, e sbre tudo as antigas, sam cobertas de frondosas rvores,
e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em algumas lhes fazem passar
a gua por dentro.

Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ellpticas ou circulares, e
outras formando polygonos irregularissimos. No ha a menor ordem nas
construces, e em geral  a disposio do terreno que as determina.

[Figura 22.--Planta de uma Libata de gentio no Bih.

A. Entrada. B. Cubata onde se enterram os sovas. C. Trophu de cornos.
_c c c_. Casas das amantes do sova. O O. Casa do sova. _a a a_. Lombe ou
morada do sova. _d d d_. Casas dos prtos.]

[Figura 22C.--Trophu de Cornos de caa, em quasi todas as libatas.]

[Figura 23.--Fora da porta das libatas ha isto.]

As povoaes sam fortificadas com o receio dos ataques do homem, que
feras no abundam muito no paiz, e no  mesmo isso necessario para
feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as povoaes sam
abertas.

As guerras dos prtos ali sam, a maior parte das vezes, sem causa, e
basta a riqueza de um pvo para que elle seja atacado.

Sam verdadeiros ataques de salteadores.

Logo que um rgulo decide ir fazer a guerra a outro, ou a um pvo
qualquer, manda emissarios seus aos sovas e seclos circumvizinhos,
convidando-os a tomar parte na campanha, e estes, como na Europa no
tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que
os convoca.

Alguns povos fazem peridica e systemticamente a guerra, e no Nano, por
exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao Mulondo, Camba e
Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para elles, e sam os
seus pastores.

Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de frica,  a
de ser sempre vencedor o que ataca.

Ha excepes, mas muito raras.

Uma das excepes foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do
Bih, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fram derrotados
pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do
sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle no pagassem um
grande resgate Silva Porto e Guilherme Jos Gonalves (o Candimba).

Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um
quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos
de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai
muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As
armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito
compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na
Blgica, e tiram o seu nome de um clebre armeiro Portuguez que viveu na
cidade de Braga, no principio d'este sculo, cujos trabalhos chegram a
adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na
Blgica para os prtos, que sam uma imitao grosseira dos perfeitos
trabalhos do armeiro Portuguez, l-se nos canos o nome
d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.

Os Bihenos no usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito
pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles
fabricam tambem, levam 15 grammas de plvora, e t[~e]m 22 centmetros de
comprido.

As balas de ferro sam de dimetro muito inferior ao adarme, pesando
apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares
do que espheras.

As armas assim carregadas, de nenhuma preciso, como se pode bem julgar,
t[~e]m um alcance de cem metros apenas.

O alcance da frecha  de 50 a 60 metros, mas a grosseira preciso do
tiro de frecha, entre os prtos, no vai lm de 25 a 30 metros. As
azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de
cabra, no sam de arremsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da
mo.

Talvez haja reparo em eu escrever _pello_ de carneiro, mas cabe dizer,
j que falei n'isso, que os carneiros ali no t[~e]m l. Existem no paiz
duas differentes especies, que os prtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omme. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omme,
que tem o pello mais longo, differe muito da l.

Estes carneiros, de raas exticas, degenerram de certo por effeito do
clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de uma raa muito
inferior, e o seu gado bovino  pouco, e de raa muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domsticos no
Bih, de pequeno corpo.

Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a
respeito d'este paiz, cujas posies e condies climatricas se
encontrarm em um captulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de
Abril de 1878.

As ltimas chuvas tinham cahido das 6 s 9 da noite do dia primeiro de
Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'gua, o que mostra terem sido
j muito fracas. O tempo estava esplndido, e alguns cirrus alvissimos
que em seguida s chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura,
desapparecram, para deixar logar a um firmamento lmpido, esclarecido
de dia por um sol brilhante, e  noite constellado d'estrellas, que
dardejavam sbre a terra escura d'frica essa luz melanclica e
scintillante, que ellas s t[~e]m nas regies tropicaes.

Era o bom tempo de viajar, era j o dia 14 de Abril, e eu estava ainda
no Bih!

Eram 14 de Abril, e eu no partia, porque ainda no tinham chegado as
fazendas e as cargas que deixmos em Benguella, em Novembro de 1877,
isto , uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio
de Maro. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete
fardos de fazendas que me deixram Capello e Ivens, quatro tinham sido
gastos, com a sustentao da minha gente de Benguella e com a minha.

Ainda no tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e
comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.

Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas
horas por dia para caar. Na falta de caa grossa, tinha, na margem
esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas
perdizes.

Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas,
no excedendo nunca esse nmero para no destruir a proviso. Semelhante
ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do
vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentao
diaria; assim eu, contendo os instinctos de caador, deixei muitas vezes
a caa que podia matar; fazendo sbre mim supremo esfro, para no
proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munies pouco
abundantes, e a caa necessaria ao meu sustento futuro.

No eram s as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que
forneciam um prato  minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas,
esvoaavam continuamente sbre as rvores das margens do Cuito, e vinham
beber ao rio de manh e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de
armadilhas caavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das
perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em
gua, que me servia de po.

Assim pude reduzir a minha despesa, que era plo menos de quatro jardas
de algodo branco por dia, custo de duas gallinhas.

A demora e com ella o decrescimento rpido dos meus recursos, fez
modificar o meu plano de viajar. O _mucano_ aterrava-me, e se eu tivesse
de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bih. A demora da
minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios
adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada.

O perigo pairava sbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada
sbre a cabea de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me
em circunstancias de ter a fora de meu lado, e de defender a tdo o
trance a minha propriedade.

Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de
munies de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado
Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da
sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. lm d'estas,
possuia umas 20 espingardas de silex, das ltimas d'esse systema usadas
pelos exrcitos na Europa. Para estas no tinha munies. Fiz correr a
noticia de que comprava tdas as armas inutilizadas que me trouxessem.
Principiram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia
concertar, o que me no era difficil, por ter aprendido o officio de
serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que  habil artfice, e que
ainda hje emprega as horas de cio trabalhando na sua officina, mais
bem montada que as d'aquelles que as t[~e]m por profisso. Lembra-me
aqui uma anecdota engraada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um
cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente
n'uma casa prxima  de habitao, dirigio-se para ali. Era uma vasta
forja, onde dois homens, de tamancos nos ps, carapuas vermelhas na
cabea, largos aventaes de couro pendentes do pesco e justos 
cintura, a cara e mos negras do carvo e do ferro, estendiam em enorme
bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direces chispas
ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por
braos nus at ao cotovelo.

O cavalheiro parou  porta e perguntou: "O Senhor Doutor est em casa?"
Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta:
"Que lhe quer o Senhor?"

O cavalheiro, que no era de genio brando, no gostou da pergunta do
ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente,
dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que no admittia que um
ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle.

Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a
mesma pessa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou
lhe juntavam a zombaria  insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter
uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu,
entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas
logo que se convenceu da nossa identidade.

Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de
grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio
dos felizes resultados da minha tentativa.

Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar
de tdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco
espingardas que o gentio julgava inutilizadas.

Faltavam as munies, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto
encontrei uma coleco completa da _Gazeta de Portugal_, e n'ella o
papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella
devia vir muita plvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter
chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado.
Faltava o ferro  verdade, mas esse era possivel obter-se.

Annunciei que comprava tdo o ferro velho que me trouxessem, e no
tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sbre
tudo de arcos de barris de gua-ardente. S suspendi a compra de ferro
quando tinha uns duzentos kilogrammas.

Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indgenas no
pateo interior, com grande escndalo da prta Rosa, administradora da
povoao de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prtos faziam
carvo queimando os restos de uma paliada de pao ferro, de uma libata
abandonada, comeou no pateo um forjar contnuo.

O primeiro trabalho a fazer era reduzir tdo aquelle ferro a varo
cylndrico do dimetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande
destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centmetros de comprido por
4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de
calia e gua. Depois de frios voltavam  forja, e chegados  tempera da
fuso eram facilmente caldeados, tornando-se em massa nica e homognea.
Depois d'isso o trabalho era facil.

A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu
haver.

Eu no possuia missangas, porque um sacco que me mandram os meus
companheiros no tinha curso nos sertes para onde me dirigia. Tratei de
procurar alguma no Bih, e pude comprar aos prtos aqui e lm uma
pequena poro, que me fez a carga de um homem.

Esta compra veio dar um nvo golpe na minha fazenda de algodo, e por 17
de Abril, possuia apenas um fardo.

[Figura 24.--Objectos fabricados por Bihenos.

1. Folle. 2. Folle preparado para servir. 3. Bocal de barro em contacto
com a chama. 4. Tenaz. 5. Martello grante. 6. Um bocado de cano de
espingarda encabado em po que serve ao ferreiro para levar o lume
pequenas peas. 7. Martello pequeno. 8. Panellas de cozinha. 9. Panella
para capata. 10. Tambores dos batques.]

Sentia desde a minha chegada ao Bih uma grande falta, e era ella a de
um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem muitos
incmmodos e algumas febres. Sempre que tinha de fazer observaes
depois da meia noite, tinha de estar acordado at  hora precisa; e
asseguro que  triste passar uma noite a lutar com o sono, sem luz, e
por isso sem nada poder fazer para matar o tempo.

No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impresso o seu
estado.

Estava muito magro, de uma palidez cadavrica, e accusava nas feies um
soffrimento constante. Eu pedi-lhe para vir jantar comigo no dia
immediato, que era o dia dos meus annos. Elle disse-me, que talvez no
podesse vir plo seu estado de saude.

Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a
visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a
posio da nascente do Cuanza.

No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro,
toscamente forjados, com pertenes a terem uma forma esphrica. Era o
que me bastava, e despedi os ferreiros. N'esse dia chegram os primeiros
Bailundos com as cargas de Benguella, e nos seguintes dias fram
apparecendo novas levas com cargas. Estes Bailundos eram insolentes, e
iam fazendo uma grande desordem em Belmonte, que teria tomado srias
propores se eu no interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda,
trs barris de gua-ardente, e dois saccos de caurim.

Faltava-me a plvora e o sal, que tinham ficado atraz.

Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir,
porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou trs dias os
carregaria de plvora. Mandei emissarios a reunir os carregadores, que
tdos estavam justos e promptos.

No dia 29 de Abril, os prtos de Silva Porto fizram-me um pequeno
furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os mandar para
Benguella. Elles, para entrarem nas minhas bas graas, viram
denunciar-me, que sabiam onde estavam 4 espingardas que tinham sido
roubadas  expedio no caminho de Benguella. Uma d'ellas fra furtada
pelo S^{nr.} Magalhes, dono da povoao onde primeiro estive no Bih.

Pude havel-as todas.

[Figura 25A.--Quinda, cesta de palha que no deixa passar a gua.]

[Figura 25B.--Peneiro para seccar a Farinha (fuba).]

[Figura 25C.--Peneiro de peneirar.]

[Figura 25D.--Cabaa para tirar gua a capata.]

A esse tempo eu mal tinha occasio de comer. Arranjava as cargas, e era
preciso estar presente a tudo, para no ser roubado, porque tdos os
prtos, os de Silva Porto e os meus, eram uma quadrilha de ladres.

Havia uma excepo, uma nica. Era o meu prto Augusto, que me deu
sempre prova da maior fidelidade.

Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o
Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se no distinguia dos
outros, a no ser talvez por ser um pouco mais dado a embriaguez.

Na distribuio das armas, os prtos fizram repugnancia em receber as
de Snider, e s o Augusto me pedio logo uma. Foi a primeira vez que
attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz um exercicio ao alvo, e vi que
elle era um soffrivel atirador. Depois, em Quillengues, sube, que elle
dissera entre os prtos, que me no deixaria nunca, e como, pla sua
fora herculea, e pla sua coragem, elle tinha tomado um grande
ascendente sbre os outros prtos, chamei-o a mim.

Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de posio, e de
simples carregador, estava chefe da comitiva.

Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o.

Augusto  o melhor prto que eu tenho encontrado em frica; mas ninguem
 perfeito n'este mundo, e Augusto no quer ser excepo  regra. Entre
os seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo
um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por
virtude.

Augusto  louco plo bello sexo.

Forte como um bfalo, corajoso como um leo, entende que deve proteco
e apoio s creaturas frageis que encontra no seu caminho.

J no tinham conta as suas aventuras galantes desde Benguella ao Bih.
Casado em Benguella, casou de nvo no Dombe, em Quillengues, Caconda, no
Huambo, e desde a sua chegada ao Bih, j tinha feito ali trs ou quatro
casamentos.  um verdadeiro D. Juan de cr prta.

Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas
admoestaes n'esta parte.

Um dia, como as queixas das mulhres fossem muitas, chamei-o e
reprehendi-o severamente, ameaando de o abandonar se elle continuasse.
Chorou muito, lanou-se de jolhos aos meus ps, fez mil protestos de
emenda, e pedio-me para lhe dar uma pea de fazenda, que com isso iria
contentar as mulhres, e s ficaria com Marcolina, a sua mulhr de
Benguella.

Dei-lhe a pea de pano, e fiquei satisfeito de to sincero
arrependimento.

[Figura 26.--Uma Casquilha do Bih.]

Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da povoao, e
cantos e festas que anunciavam um acontecimento desusado.

Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver. Qual no 
o meu espanto, sabendo que o Augusto festejava o seu nvo casamento com
uma rapariga da libata de Jamba!

Vi que o furor de casar-se era superior s suas foras, e decidi no
mais me importar com os seus negocios galantes, mesmo porque elle no
compromettia ninguem, e casava sempre legalmente.

Estvamos a dois de Maio, e ainda no tinha podido reunir os
carregadores, e ainda no tinham chegado do Bailundo, nem a plvora nem
o sal vindos de Benguella.

O Verissimo andava por l reunindo a gente; mas ainda nem um s se tinha
apresentado.

Na manh do dia trs, estando eu em casa, ouvi fora da porta os acordes
de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas, coisa mui
differente da msica montona dos prtos.

Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um prto alto e magro, quasi
nu, de physionomia triste e expressiva.

Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e
fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em
forma s nossas rabecas, era cavado em uma s pea de pao, que formava a
caixa e o brao, sendo o tampo de uma tabua fina da mesma madeira.

Tinha tres cordas de tripa, fabricadas plo msico, e o arco era
guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina.

Era de certo uma imitao das rabecas da Europa, e no um instrumento
primitivo.

A madeira de que era feita chama-se no paiz _Ble_, e abunda nas matas
da frica de Oeste. No seria talvez para desprezar o ensaio d'esta
madeira na fabricao de instrumentos de corda.

O brbaro msico cantou uma aria em meu louvor, a _mezzo petto_, com voz
muito agradavel, acompanhando-se na tsca mas harmoniosa rabeca. Foi
muito applaudido pelos prtos que tinha attraido em volta de si, e eu
mesmo gostei d'aquella msica original.

Chegram  libata uns prtos do serto do Andulo, que vinham vender
tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam em quantidade.  este
tabaco do Andulo que os Bihenos compram e mandam para Benguella,
vendendo-o ali com o nome de tabaco do Bih.

Eu comprei grande proviso, e calculei que me ficou por 500 ris o
kilogramma.

Os preos dos differentes gneros no Bih no sam aquelles que me t[~e]m
forado a pagar, e sam os seguintes:

Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algodo; seis ovos, uma jarda; um
cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas (75 a 90
kilogrammas), uma pea de algodo branco e outra de zuarte; o alqueire
de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de mandioca ou de feijo,
trs jardas. Isto sam jardas de fazendas das mais ordinarias, cujo pro
no Bih no se dve calcular superior a 200 ris.

Uma jarda de fazenda chama-se no Bih um _Pano_, 2 jardas uma _Bca_, 4
jardas um _Lenol_, 8 jardas uma _Quirana_.

As fazendas de negocio proprias para o Bih e sertes explorados pelos
Bihenos, sam, algodo branco, zuarte, zuarte pintado, lenos de zuarte
pintado, lenos finos, lenos cangengos, fazendas de lei e riscados,
tudo da mais inferior qualidade.

As peas de algodo branco tem 28 jardas umas, e outras de melhor
qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os lenos pintados 8
jardas, os lenos cangengos 6, e a fazenda de lei 12 jardas.

As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta
parte de frica, porque, no tendo muito mais importancia para o gentio,
sam consideravelmente mais pesadas.

Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos
quaes continha 624 jardas, e os outros, de algodo fino, t[~e]m apenas
180 jardas, e sam mais pesados.[4]

J se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de ba qualidade, que
lm de ser grande o seu custo,  grande tambem a difficuldade do seu
transporte, pois que trs homens carregam d'ellas tanto quanto um
carrega de fazenda ordinaria.

E sbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda
 em trco de alimento, tantas jardas de fazenda ba tem de dar por um
objecto, como de jardas de m fazenda dar pelo mesmo objecto.

O algodo branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro
que pode levar o viajante n'aquellas paragens.

Nas missangas j se no d o mesmo caso, e a que  moda aqui, no 
recebida lm, s vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo
querem muito a missanga preta, que j no Bih no tem curso.

Ha contudo uma missanga que  quasi geralmente bem recebida em toda a
frica Austral.  ella uma missanga miuda encarnada, de lho branco, a
que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a.

O buzio miudo (caurim) serve lm Cuanza at ao Zambeze, mas o grado
no  recebido.

O arame de lato ou de cobre vermelho  estimado para manilhas; mas,
n'estas paragens, no dve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura.

Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam
frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e seclos,
sam pssima moeda.

Os cobertores, e sbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para
embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiados do gentio; estando
porem no caso das fardas e barretes, que, sendo ptimo presente, no sam
ba moeda.

Os realejos, caixas de msica, e outros objectos d'este gnero, estam no
mesmo caso.

Prestigiaes, sortes de physica e chmica, produzem certa impresso no
gentio, mas no tanta como se julga na Europa. No comprehendendo as
causas que determinam certos phenmenos, lanam a cousa  conta de
feitiaria, com que explicam tudo que no sabem explicar de outro modo.

s vezes at podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as
fizr.

De tudo o que eu vi fazer impresso em pretos, aquillo que mais os
admira  verem um bom atirador.

Mtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo
pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma rvore, mate um
passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior considerao, e ser
objecto das conversaes por muito tempo.

A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um
dia, um cirurgio Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era
preservativo contra as balas, quelle que o tomasse.

Isto  crena geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que
t[~e]m para adquirirem aquelle abenoado remedio, que os torna mais
invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a
possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.

Um mestio civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria
de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a
lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.

Mas vamos ao conto. O cirurgio Biheno trazia uma panellinha de meio
litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o
tomasse seria depois to invulneravel como o era a panella que continha
o lquido, panella a que tdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem
que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pblico uma
prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar  panella; tendo previamente
o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava
ser impossivel acertar em to pequeno alvo.

Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o
precioso licor.

Nunca vi applaudir mais phrenticamente alguem, do que eu fui applaudido
ento plo gentio entusiasmado.

O pobre cirurgio foi completamente corrido no meio de geral assuada.

Este pobre homem foi ali buscar o seu descrdito.

Os melhores atiradores do serto sam grandes mediocridades, e sam bem
mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.

O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com
alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.

N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por
Pereira de Mello e Silva Porto.

Fizram-me uma tal impresso aquellas cartas, que no meu diario escrevi
ento, na cabea do captulo em que falo do Bih, aquelles dous nomes, e
hje ainda os conservo, como preito e homenagem quelles dous
cavalheiros.

Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabo, um
relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim.

No  todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratido para
com o governador de Benguella; foi a sua carta e fram as expresses dos
seus sentimentos a meu respeito.

Dizia-me o Governador, que no hesitasse em seguir a minha viagem, que
contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se
acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o
homem, com Pereira de Mello.

Dizia-me elle, que no tinha recebido de superior autoridade ordem
alguma para no me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se
tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam
promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.

Vinha depois a carta de Silva Porto, que no menos valiosa era.

Dizia-me o velho sertanejo, que no partisse sem recursos. Que
requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se
encarregaria de me fazer chegar ao Bih aquillo que eu pedisse.

Terminava o honrado ancio por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e
forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no serto,
em que a esperana se perde, sustente-se no ponto em que estivr, e d
tudo ao gentio para me fazer chegar s mos uma carta sua. No hesite em
o fazer, e tenha esperana; porque no mais curto espao possivel eu
serei com-sigo, e comigo irm todos os recursos, todos os socorros. Sabe
que eu no uso fazer offerecimentos vos, quando precisar escreva, e eu
irei logo."

A estas palavras no preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui
lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridcula.

Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmo do
Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia
seguinte o resto das cargas da expedio, e com ellas a plvora por que
eu almejava.

Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonalves
trazia-me uma lembrana de Antonio Ferreira Marques.

Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.

Chegou finalmente o 6 de Maio, e comeou logo grande tarefa de encher
cartuxos, porque de manh recebi a plvora.

Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos,
que estavam promptos, e s era deitar-lhes plvora e dobral-os.

Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os
carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuio das
cargas, e dei as ordens para a partida.

Na manh de 12, quando esperava pr-me a caminho, vejo que s tinha uns
trinta homens, tendo fugido todos os outros.

Sube ento, que na tarde da vspera, tinha andado o prto Muene-hombo de
Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu
os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo no
voltariam mais, porque eu os venderia.

O prto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle no havia mais
noticia.

Esta nova deu-me um profundo golpe de desnimo.

Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho
imenso tinha contratado, a quem fra preciso desfazer uma a uma todas as
aprehenses que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de
que eu os ia encaminhar  perdio.

Era um golpe terrivel.

Breve se espalharia no Bih a noticia do facto; breve se arreigaria
entre os pretos aquella convico, mal destruida pelos meus reterados
argumentos, e ento seria impossivel obter um s carregador mais.

Quasi desanimei.

Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador,
entrou no meu nimo o desalento.

Eu sabia que lutar com uma convico de pretos era baldado esfro.

Quem seria aquelle que levou o prto Muene-hombo a trair-me?

Quem seriam os pretos que com elle estivram na libata no dia anterior?

Qual seria a mo occulta que moveu aquella intriga?

Fazia a mim mesmo estas perguntas, s quaes, nem ento nem depois,
encontrei resposta que fosse lm de suspeita muito vaga.

Perdi a esperana, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento.

Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de
repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e
lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"

Porque no aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse
ao Bih elle me obteria carregadores.

Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta ida tranquilizou um pouco o
meu nimo alquebrado.

Com a noute veio a reflexo, e eu escudado no ltimo recurso, o pedir o
auxilio do velho sertanejo, resolvi j forte com aquelle apoio,
trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.

Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiana
do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.

Voltram elles dando-me algumas esperanas, e ento comeou de nvo o
trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil ento do que
antes.

Aconselhram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma
distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos
Bihenos vontade de se alistar n'ella.

A 22 de Maio j eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que
poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente
de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, ida que levei a effeito
indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.

N'esse dia ao escurecer, apparecram uns 11 carregadores trazidos por um
prto Antonio, homem j velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao
servio de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme
Gonalves.

Durante a noute houve muito frio, forando-nos a passar a maior parte
d'ella despertos junto s fogueiras.

O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um prco
de presente, que eu retribui, ficando ns nos melhores termos.

Emprestou-me elle alguns piles, e mandou mulhres para fazerem farinha
de milho.

[Figura 27.--Mulhres do Bih pisando Milho.]

Indo agradecer-lhe  sua povoao, passei pelas plantaes, onde andavam
algumas mulhres cavando, completamente curvadas, empunhando as enxadas
pelos seus dous cabos.

De volta ao acampamento, encontrei um prto dos de Nvo Redondo, que no
tinha podido seguir com Capello e Ivens, plo seu estado de saude. No
se sustinha em p, e uma ardente febre o devorava.

Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle
pedio-me que o no abandonasse, e eu agasalhei-o no campo, entregando-o
aos cuidados do doutor Chacaiombe.

Veio visitar-me Tiberio Jos Coimbra, filho do Coimbra, Major do Bih, o
qual me obtve alguns carregadores de gente da sua povoao.

N'esse dia aparecram mais uns 12 carregadores com que eu j no
contava, e eram capitaneados plo prto Chaquionde, irmo da me de
Verissimo.

Ia renascendo a esperana, e de nvo se ia organizando a nova comitiva.

Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de Jos Alves, com
esperana de completar ali o nmero de gente que carecia. Obtive do
soveta de Cabir alguns homens para me transportarem as cargas que no
tinham carregador, e tambem 4 homens e uma maca para o doente de Nvo
Redondo.

Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na
povoao de Cuionja, de Tiberio Jos Coimbra, onde me esperava um ptimo
almo, com ptimo ch. At havia guardanapos!

Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando 
povoao de Caquenha, com 4 horas de caminho.

Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da povoao.

Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fra o chefe da clebre
expedio que Silva Porto mandou do Bih a Moambique, e que conseguio
alcanar Cabo Delgado, na costa do mar Indico.

 elle o nico dos homens d'aquella expedio que hje vive.

O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.

Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus esforos foi-me
impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma
segurana o seu trajecto.

De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas no me
restou a menor dvida, porque ha trs pontos que elle precisa
perfeitamente.

Um  ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas; outro ter
atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago
Nyassa.

Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas
do commandante, dois kilmetros a S.E. da libata de Jos Alves.

Era j noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte ver este
personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.

Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presena do to falado
sertanejo.

Jos Antonio Alves  um prto (_pur sang_) de Pungo Andongo, que, como
muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever.

No Bih chamam-lhe branco, porque ali todo o prto que usa calas e
sapatos de liga e guardasol,  tratado assim.[5] Em Benguella levam a
condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco escuro; mas a verdade ,
que nas suas veias no ha uma gta de sangue Europeu, e que elle  prto
no s na cr como na ascendencia, e qui na alma.

Veio para o Bih em 1845, onde foi empregado de um sertanejo, e depois
comeou a negociar por conta propria, abonado pela casa Ferramenta de
Benguella, que hje faz avultado commercio sob a firma J. Ferreira
Gonalves.

Jos Alves  homem de 58 annos, j um pouco grisalho, de corpo franzino,
e soffrendo de uma affeco pulmonar.

Vive como prto, tendo todos os costumes e crendices do gentio ignaro.

Quando cheguei a casa de Jos Alves, estava elle decidindo um _mucano_.

Informado da questo, sube que um empregado mulato do Jos Alves
seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz nada tinha de seu, elle
fez-lhe um mucano  familia da me, que possuia alguma cousa, exigindo,
em paga do delicto, um boi, ou uma _cabecinha_, para ficar limpo o seu
corao. Isto me disse elle, passando a palma abranqueada da mo ngra
por sobre a parte da caixa thorcica onde se alberga aquella vcera, nos
que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os seus
movimentos de sstole e distole.

Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um _mucano_,
percebi eu.

Depois de decidido o _mucano_, falei-lhe da minha viagem, que elle
duvidou podesse levar a effeito com os pequenos recursos de que
dispunha.

Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores,
evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam
junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe
quizessem pagar bem, no teria difficuldade em os arranjar. Era o mesmo
que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter.

Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido forado
a tal companhia, por tanto tempo.

Nesta parte do Bih a vegetao arbrea comea a ser mais vigorosa, e
junto ao rio Cuito, apresenta o terreno a mesma disposio termtica que
descrevi na margem do Cutato dos Ganguellas.

Com uns carregadores que me chegram no dia 29, enviados pelo irmo de
Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente sufficiente para seguir
viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o dia 30.

Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo.

Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as
mesmas atoardas de Belmonte, e viram muitos d'elles declarar-me, que
voltavam a suas casas, e no me seguiriam.

Fiz esforos de eloquencia para os convencer a seguirem-me, mas poucos
me escutram.

Era a segunda vez que, em vspera de partida, no Bih, ficava eu sem
gente.

Ali ficram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir de todas as
commodidades, e a abandonar toda a alimentao que levava, com poucos
mais poderia seguir.

Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu no desanimei na empresa.
Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de resultado
feliz a minha esperana.

No Bih andam a monte muitos degradados e desertores, escapados dos
presidios da Costa.

Um d'estes honrados cidados veio procurar-me, e pronunciou uma estudada
arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela
dcima-stima, e repetido emprgo de termos s usados na minha
provincia, me denunciou n'elle um conterraneo.

Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a
alma do orador era sentina de todas as podrides, em decomposio n'um
clima tropical, trascalando fedores em cada phrase evaporada d'aquelle
esprito immundo.

Depois de me aconselhar a dispor das armas e munies que tinha, n'uma
empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar, terminou por
me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim, fsse para o que
fsse, ou elle, empregando manhas que tinha de geito para o gentio,
faria que todos me abandonassem, e me poria na impossibelidade de dar um
passo.

Terminada esta perorao, que o homem julgou ser argumento triumphante
nas minhas decises, exigio immediata resposta.

Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o sujeito,
a quem mandei applicar logo cincoenta aoutes, para fazermos maior
conhecimento; porque, se eu o conheci s primeiras palavras, elle no me
conhecia ainda.

Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que
o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras do
Bih, com rao de comida e de chicote todos os dias.

Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco era
mais ngra do que a pelle d'elles ouvintes.

A nova da minha justia espalhou-se nas povoaes circumvizinhas, e
deu-me crdito entre os pretos, que tinham em m conta o meu
prisioneiro.

No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio viram offerecer-me
carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias.

Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores no chegavam, e a 5
de Junho, j no maior desespro, decidi abandonar muitas cargas e seguir
vante.

Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha deciso.

Tivmos um longo conselho, em que eu sustentei a minha resoluo, dando
ordem para que os carregadores me acompanhassem ao rio Cuito com as
cargas que eu tinha decidido abandonar, para as lanar ao rio.

J se ia executar esta deliberao, quando o doutor Chacaiombe tomou a
palavra, e me pedio para adiar de alguns dias a execuo d'ella,
dizendo-me, que obtivesse nas povoaes vizinhas gente de ganho que
transportasse tudo at ao Cuanza; que elle ia tentar um esfro junto de
um sova seu amigo, e me iria encontrar no Cuanza.

Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza
at 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe, declarando-lhe
positivamente, que no esperaria um s dia mais.

Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicao, e depois de uma
proposta de Miguel (o caador de elefantes), decidram pegar tambem
elles em cargas, ainda que isso seja no s contra os usos, mas tambem
inconveniente em marcha, onde elles t[~e]m o seu servio especial a
desempenhar.

Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato.

N'esse dia morreu o homem de Nvo Redondo que eu tinha recolhido no
Cabir.

Levantei campo s 9 horas do dia 6, tendo muita gente de ganho  razo
de 1 panno por dia.

Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da povoao de
Cassamba.

Fica esta povoao no meio de grande e espessa floresta, onde fui caar,
encontrando apenas algumas _pintadas_ que matei.

Quando, a 7 de Junho, levantei campo, sao-me ao encontro o soveta de
Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de presente.

Desculpei-me de no lhe dar immediatamente um presente, por estarem os
carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua ao meu nvo
acampamento, d'onde lhe enviaria uma lembrana.

Depois de trs horas de marcha, e de ter nas duas ltimas atravessado
grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do rio
Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por trs de
fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.

Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e
cargas com grande morosidade, porque a pequena embarcao no tinha
capacidade para mais de cinco pessas, ainda que o poder de fluctuao
da sua caixa de ar era muito superior.

Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno
apalado, e nu de arvordo, mandei pedir ao sova do Gando, para me dar
algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente.

Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha  minha disposio o
lombe da sua povoao, que aceitei e onde me fui estabelecer.

Chegram uns prtos de mando do soveta de Cassamba, a reclamar o
presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem reconhecer como
vindo da sua parte, traziam a azagaia do sovta, que de manh eu lhe
vira na mo.

 costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e escrita
existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma mensagem,
para que no se duvide que elles vam da parte de quem os envia.

Mandei o promettido presente.

O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo
de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnfico boi, ficando muito
satisfeito com uma pea de algodo riscado e algumas cargas de plvora
que lhe dei.

No dia immediato levantei campo logo de manh, e duas horas depois, fui
acampar 1 kil. a Oeste da povoao de Muzinda.

Antes de partir, mandei soltar, e pr na outra margem, o meu prisioneiro
branco, j impossibilitado de me fazer mal, porque, passando o Cuqueima,
eu estava fora das terras do Bih.

[Figura 28.--Mulhres Ganguellas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam
os Dentes incisivos.]

Viram ao meu acampamento muitas mulhres da povoao de Muzinda,
algumas das quaes traziam a cara pintada de verde, sendo dois riscos
transversaes sbre a testa, de orelha a orelha, e outros dois, descendo
d'esses, cruzando-se entre os olhos, passando aos lados do nariz,
ligados por um sbre o labio superior.

Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa
distancia, arremedam um chapo de dama Europea.

Tdos os homens cortam em tringulo os dois incisivos da frente na
maxila superior, formando uma abertura triangular com o vrtice apoiado
na gengive. Esta operao  feita com uma faca em que vam batendo
pequenas pancadas.

Deu-me um indgena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent. de comprido
por 50 milimetros de dimetro, affirmando-me que a produco d'aquella
rica gramnea  abundante ali.

Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para lm do Cuanza comprar
cra a trco de peixe sco do Cuqueima.

Estes indgenas andam quasi nus, tendo por nico vestuario duas pequenas
pelles, que pendem de um estreito cinto de couro.

As mulhres, essas andam ainda um pouco menos cobertas!

O sovta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que eu retribui
com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.

A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da
povoao de Liuca. N'aquelle ponto o Cuanza  mais modesto do que o
Cuqueima, porque tem 50 metros de largo por 2 de fundo, com uma corrente
de 15 metros por minuto.

O seu leito  de area branca e fina, e notavel a transparencia das suas
guas.

O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a trs kilmetros de largo,
que encosta de um e outro lado a pequena elevao de vertentes dces,
cobertas do arvordo.

Na planicie vegetam gramneas altissimas, to bastas que difficil 
romper por entre ellas.

O terreno da planicie  mais ou menos pantanoso.

Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgio Chacaiombe, tinha, logo
que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do que aquelles
que construia s para uma noute.

Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de
entre Cuqueima e Cuanza, e que  elle mesmo tributario do sova do Bih,
a quem s obedece quando lhe faz conta; porque no teme os seus ataques,
sendo-lhe facil defender a linha do Cuqueima, e sendo a maior parte,
seno tdos, os barcos que navegam ali, das povoaes Ganguelas.

Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me no dar um boi,
por ser a sua povoao muito distante.

Recebi tambem a visita do sovta de Liuca, que me offereceu um boi.

Este sovta, homem de boa feio, frequentou muito o meu campo durante a
minha permanencia na sua vizinhana.

Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza
dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.

Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque Ppca o matasse com
um tiro.

Elle olhou para a criana e aceitou.

O Ppca, sofrivel atirador ensinado por mim, tomou a carabina, e fez
fgo a um boi que ia mais separado dos outros, e que cahio fulminado.
Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o sovta disse-me que
mandasse tomar conta do boi, e lhe desse a pelle, e um bocado de carne
para elle comer, o que eu fiz logo.

Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente raa dos
outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao
Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.

No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que no posso
deixar de narrar aqui.

Andava eu fora, quando alguns dos meus prtos viram encontrar-me com um
mulato, desconhecido para mim, que me dissram ser chefe de uma
comitiva, que me vinha procurar, para me pedir licena de ir comigo at
s margens do rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para
segurana sua.

Consenti no pedido, ainda que no de bom grado.

N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros at tarde, e
sentados  porta da minha barraca, discursvamos sbre as probabilidades
que haveria de ser bem succedido o meu cirurgio Chacaiombe na sua
empresa, quando eu senti para uma parte do campo um tinido singular.

Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que
era aquillo, e mandei l o meu Augusto.

Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas do
pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de
escravos chegados n'essa noute do Bih.

Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto trs ou quatro pombeiros que
estavam junto de mim.

Contive a clera que me dominou por um momento, e mandei chamar o meu
hspede.

Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de
mim.

Perguntei-lhe o que era aquelle bater de ferro? Respondendo-me elle,
que era a acorrentar umas _cabecinhas_ que levava para vender no serto.

No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza,
acorrentava-se uma leva de escravos!

Continuei a fazer um grande esforo para me conter, e disse ao pombeiro,
que fosse soltar tdos aquelles desgraados e m'os trouxesse livres.

Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso
alvar.

Perdi ento a paciencia, e a raiva contida a custo transbordou violenta.

Cego de furor, lancei-me por sbre a fogueira quelle boal mulato, e j
a minha faca o ia ferir de morte, quando vi, que algumas espingardas dos
meus Quimbares lhe ameaavam a cabea, e por um d'esses reviramentos to
vulgares como rpidos no meu esprito, s pensei em salvar-lhe a vida.

Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado tda a
minha gente, e ameaavam exterminar tda a comitiva Bihena.

Eu, que conho a ferocidade dos negros logo que se sentem fortes, tremi
pela vida dos inocentes que podiam ser immolados.

Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e  excepo de 5 dos meus
pombeiros que assistram ao como da scena, tdos ignoravam o que era
aquillo, e s proferiam palavras de morte.

Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir.

Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os  minha presena,
assim como tdas as correntes e prises que encontrassem nas barracas
onde elles estavam.

Mandei lanar ao rio Cuanza as prises de ferro, reservando s aquellas
com que prendi os prtos, guardas da leva.

Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os
seus guardas presos o tempo sufficiente para os no poderem alcanar.
Desapparecram tdos, excepto uma pequena, que quiz ficar comigo, por
no saber onde ir; e s na occasio de deixar o meu acampamento soltei e
dei liberdade aos chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos.

Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgio, e na noute
d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87,
separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha
aquellas que estavam irremediavelmente condenadas.

Declaro que  difficil tal escolha.

Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador, 
escolher entre as cargas, indispensaveis tdas, aquella que hade
dispensar.

Se no  mais difficil,  pelo menos tanto como achar o modo de
determinar uma boa longitude.

Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, tda a alimentao
que para mim levava, e parte da que levava para a minha gente, e algumas
cargas de missanga que os meus companheiros me haviam cedido, e que,
comprada em Loanda, era de valor problemtico nos sertes em que me ia
internar.

Se no dia 14 de manh no tivesse novas do Chacaiombe, as cargas
condenadas seriam destruidas, queimando umas e lanando outras ao
Cuanza.

Para qu? me perguntarm os meus leitores.

Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertes da
frica, onde tivr de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar
inaproveitaveis tdos os objectos que fr forado a abandonar, e isto
por duas razes, uma que diz respeito  sua propria gente, e outra ao
gentio dos paizes que atravessa.

Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa
da carga abandonada, tdos os dias ter carregadores doentes, que o
obrigarm a abandonar cargas, para d'ali retirarem objectos em proveito
proprio; organizando assim um industrioso roubo permanente.

Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por
falta de carregadores, no deixar de ministrar s comitivas futuras, na
muita capata que lhe offerecem, um txico qualquer, que, se no matar,
os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas em seu
favor; o que no fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que
houvr de ser abandonado  inutilizado.

Foi isto lio de Silva Porto, de que sempre fiz uso.

No dia 14 de manh, no tendo noticia do Chacaiombe inutilizei 61
cargas!




RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.


O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bih.

Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de explorao se pode
colher de dados geogrphicos e topogrphicos.

Muitos dos pontos marcados sam determinados astronmicamente, sendo os
intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e projeco
das distancias percorridas, distancias avaliadas pelos pedmetros e pelo
tempo gasto a percorrel-as.

As posies do Benguella, Dombe, Quilengues, Ngola e Caconda, que
empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens, e como eu
apenas tinha os resultados dos clculos, ahi os designo taes como m'os
deu o Ivens, sem as observaes iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as
posies astronmicamente determinadas por mim vam precedidas das
observaes iniciaes.

-------------------------------------------------------------------------
    Resultado das observaes de Capello e Ivens, da Costa a Caconda.
------------+-------------+-------------+----------+----------+----------
Nome dos    |Longitude E. |Latidude Sul.|Declinao|Inclinao|  Altitude
Logares.    |de Greenwich.|             |da Agulha.|da Agulha.|em metros.
------------+-------------+-------------+----------+----------+----------
            |     '  "   |     '  "   |     '   |     '   |
Benguella   |  13 25 20   |  12 34 17   |  23 30 O.|  39 37   |         7
Dombe Grande|  13  7 45   |  12 55 12   |  23 26   |  39 44   |        98
Quilengues  |  14  5  3   |  14  3 10   |  23  3   |  40 40   |       900
Ngola       |  14 39  1   |  14 16 46   |   ---    |   ---    |     1,410
Caconda     |  15  1 51   |  13 44  0   |  22 30   |   ---    |     1,676
------------+-------------+-------------+----------+----------+----------

Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos
trabalhos que tnhamos comeado, no podendo fazer observaes de
inclinmetro e fra magntica, porque os nicos instrumentos que para
isso levvamos ficram em poder de Capello.

Comearei a expor os meus trabalhos pela determinao das coordenadas
geogrphicas de Caconda  margem esquerda do Cuanza, onde pra a minha
narrativa no precedente captulo.

No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se
poderem verificar os resultados que designo.

Todas estas observaes calculadas em frica fram recalculadas em
Londres pelo 1^o tenente calculador da marinha ingleza, Selwyn Sugden.


*Quadro das Observaes Astronmicas feitas pelo Major Serpa Pinto entre
Caconda e o rio Cuanza*.

 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+
 |   Anno de    |       Logares onde        |   Hora dos    | Estado para |
 |    1878.     |         observei.         | Chronmetros. |  Greenwich. |
 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+
 |              |                           |   H.  M.  S.  |  H.  M.  S. |
a| Janeiro   14 | Vicete (junto ao Cunene)  |    8  10  24  |+  1   0  15 |
b|    "       " |         "                 |   10  27  44  |+  3  23   2 |
c|    "      16 | Fende (Cunene)            |    5  10   2  |+  3  23  16 |
d| Fevereiro 12 | Libata do Palanca         |    7  55   0  |-  1   0   0 |
e|    "       " |         "                 |   10  30  56  |+  3  27  18 |
f|    "      13 | Libata do Capco          |    9   3   0  |-  1   0   0 |
g|    "       " |         "                 |    9  57  15  |+  3  27  27 |
h|    "      18 |         "                 |   10  18  14  |+  3  28   8 |
i| Maro     16 | Belmonte (Bih)           |   10  25   0  |-  1   4   0 |
j|    "      18 |         "                 |    5   6  10  |+  3  31  43 |
l|              |                           |  { 5   3   1} |             |
m|    "      22 |         "                 |  {          } |     ---     |
n|              |                           |  { 9  51  41} |             |
o| Abril      2 |         "                 |      ---      |     ---     |
p|    "       3 |         "                 |      ---      |     ---     |
q|    "       4 |         "                 |      ---      |     ---     |
r|    "       5 |         "                 |      ---      |     ---     |
s|    "       " |         "                 |    4  53  40  |+  3  34  29 |
t|    "       6 |         "                 |      ---      |     ---     |
u|    "       7 |         "                 |      ---      |     ---     |
v|    "       " |         "                 |    0   8  32  |-  0  57  43 |
x|    "       " |         "                 |   10  50  54  |     ---     |
z|    "       " |         "                 |   10  55   6  |+  3  34  54 |
0|    "      23 |         "                 |    9   4  25  |     ---     |
1|    "       " |         "                 |    9  38  16  |+  3  37  26 |
2| Maio      24 | Matas do Cabir (Bih)     |      ---      |     ---     |
3|    "       " |         "                 |    9  38  55  |+  3  42  47 |
4|    "      31 | Matas do Commandante      |    9  12   5  |+  3  43  56 |
5| Junho      1 |         "                 |      ---      |     ---     |
6|    "       9 | Liuca (margem do Cuanza) |    6  22  33  |+  3  45  52 |
7|    "       " |         "                 |    6   6  53  |     ---     |
8|    "      10 |         "                 |      ---      |     ---     |
9|    "       " |         "                 |    9  17  21  |+  3  45  57 |
 +--------------+---------------------------+---------------+-------------+


 +----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
 |    Natureza    |   Dupla   |     |     |       |     |                 |
 |       da       | altura do | [A] | [B] |  [C]  | [D] |   Resultados.   |
 |   Observao   |   astro.  |     |     |       |     |                 |
 +----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
 |                |     '  " |   '|H. M.|  '  " |     |            '   |
a| Alt. Mer. [-)] | 101  3  0 | --- | --- |- 3 30 |  1  | Lat.    14  2 S.|
b| Chron.    [*-] | 101  2  0 |14  2| --- |   "   |  1  | Long.   15 14 E.|
c|    "           | 104 31  0 |  "  | --- |   "   |  1  |   "     15 25 E.|
d| Alt. Mer. [-)] |  97  3 10 | --- | --- |- 0 50 |  1  | Lat.    13 20 S.|
e| Chron.    [*-] |  99  6 30 |13 20| --- |   "   |  1  | Long.   15 27 E.|
f| Alt. Mer. [-)] |  98 30 30 | --- | --- |   "   |  1  | Lat.    13  9 S.|
g| Chron.    [*-] | 115  5 30 |13  9| --- |   "   |  1  | Long.   15 30 E.|
h|    "           | 104 15 30 |  "  | --- |   "   |  1  |   "     15 28 E.|
i| Alt. Mer. [-)] | 131 38 30 | --- | --- |   "   |  1  | Lat.    12 22 S.|
j| Chron.    [*-] | 104 58 40 |12 22| --- |   "   |  1  | Long.   16 51 E.|
l|                |           |     |     |       |     |                 |
m| Alt.           | 103 21 10 |  "  | --- |   "   |  2  | Estado          |
 | iguaes         |           |     |     |       |     |   3^h.31^m.54^s.|
n|                |           |     |     |       |     |                 |
o| Alt. Mer. [*-] | 144 49  0 | --- | 1  8|- 3 30 |  1  | Lat.    1223'S.|
p|    "           | 144  4  0 | --- |  "  |   "   |  1  |   "     12 23 S.|
q|    "           | 143 20  0 | --- |  "  |   "   |  1  |   "     12 22 S.|
r|    "           | 142 32  0 | --- |  "  |   "   |  1  |   "     12 23 S.|
s| Azimuth        |  93 34 20 |12 22| --- |- 1  0 |  1  | Variao 21 11  |
 | 266-30    [*-] |           |     |     |       |     |             Oes.|
t| Alt. Mer. [*-] | 141 47  0 | --- | 1  8|- 3 30 |  1  | Lat.    12 22 S.|
u|    "           | 141  3  0 | --- |  "  |   "   |  1  |   "     12 22 S.|
v| Alt. prox.     | 140 14  0 | --- | --- |   "   | --- |   "     12 22 S.|
 | do Mer.   [*-] |           |     |     |       |     |                 |
x| Eclipse do 1^o |    ---    | --- | --- |  ---  |  1  | Long.   16 46 E.|
 | sat. de Jp.   |           |     |     |       |     |                 |
z| Chron.    [*-] |  65 48  0 |12 22| --- |- 1  0 |  1  | Diff p^a o logar|
 |                |           |     |     |       |     |   4^h.42^m.23^s.|
0| Eclipse do 1^o |    ---    |  "  | --- |  ---  |  1  | Long.   1649'E.|
 | sat. de Jp.   |           |     |     |       |     |                 |
1| Chron.    [-)] |  71 31 40 |  "  | --- |- 0 30 |  1  | Atrazado        |
 |                |           |     |     |       |     |   4^h.44^m.56^s.|
2| Alt. Mer. [*-] | 113 10 40 | --- | 1  7|- 1 25 |  1  | Lat.    1222'S.|
3| Chron.    [*-] |  79 22 50 |12 22| --- |   "   |  1  | Long.   16 53 E.|
4|    "           |  86 38 10 |12 28| --- |   "   |  3  |   "     17  9 E.|
5| Alt. Mer. [*-] | 110 26 40 | --- | --- |   "   |  1  | Lat.    12 28 S.|
6| Chron.    [)-] |  63 59 30 |12 35| 1  9|    35 |  1  | Diff p^a o logar|
 |                |           |     |     |       |     |   4^h.54^m.34^s.|
7| Eclipse do 2^o |    ---    | --- | --- |  ---  |  1  | Long.   1725'E.|
 | sat. de Jp.   |           |     |     |       |     |                 |
8| Alt. Mer. [*-] | 108 15 20 | --- | 1  9|- 0 40 |  1  | Lat.    12 35 S.|
9| Chron.    [*-] |  82 43 23 |12 35| --- |   "   |  3  | Long.   17 25 E.|
 +----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+


*Legenda*:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.

[-)] smbolo da lua debaixo da barra
[*-] smbolo do sol por cima da barra
[)-] smbolo da lua por cima da barra



*Trnsito de Mercurio a travs do Sol em 6 de Maio de 1878*.


+------+----------+----------+-----------+--------------+----------------+
|      |  Logar   |          |           |   Hora do    | Altura do Sol. |
| Data |    da    | Latitude | Longitude | Chron. para  |  Erro do sext  |
|      |Observao|          |           | a hora local |    - 1' 25".   |
+------+----------+----------+-----------+--------------+----------------+
|  6   |          |          |           |  Mdia de 4  |   Mdia de 4   |
| Maio |          |    '  " |     '  " |   H.  M.  S. |       '  "    |
| 1878 | Belmonte | 12 22 40 |  16 49 24 |  10   6  50  |    74 36 55    |
+------+----------+----------+-----------+--------------+----------------+

+------+-------------+----------------+------------+
|      |   Estado    |    Hora do     |            |
| Data | atrazado de |  1^o contacto  | Longitude. |
|      |   Greenw.   |    interno.    |            |
+------+-------------+----------------+------------+
|  6   |             | No chronmetro |            |
| Maio |  H.  M.  S. |   H.   M.   S. |     '   " |
| 1878 |  3  39  39  |  11   35   29  | 16  50  15 |
+------+-------------+----------------+------------+

 muito notavel que a primeira longitude que determinei em Belmonte pelo
chronmetro  muito prximo da verdadeira obtida pelo trnsito de
Mercurio. Esta longitude muito pouco differe tambem da obtida pelo
eclipse do 1^o Satlite de Jpiter a 23 de Abril.

No inclui n'este quadro as innmeras observaes feitas para estudar as
marchas dos chronmetros, que publicarei em separado um dia.

Nos estados dos chronmetros a grande differena que se nota entre
alguns provm do pertencerem a differentes chronmetros.

Como se v, o instrumento empregado por mim foi o sextante com o
horizonte artificial de mercurio, que outro no tinha, tendo ficado em
poder dos meus companheiros o Abba, nico theodolito universal que
possuamos.

Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro
de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bssolas azimutaes eram
fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz Baro de Barth.

Os meus chronmetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de algibeira,
e um, que, depois, de Benguella me enviram ao Bih, de marinha, tambem
de Dent.

Este ltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre tudo o que eu
designo com a letra S, nos clculos.

Das altitudes muitas sam determinadas pelo hypsmetro, e outras pelo
aneroide, cotisado com o hypsmetro.

Essas altitudes vam marcadas na carta em metros.

A carta do paiz do Bih, muito grosseira e incompleta de certo, foi
levantada  bssola, nas minhas excurses venatorias; mas, ainda assim,
possue a sufficiente exactido para se julgar do paiz, e prouvera a Deus
que as cartas de pontos muito mais prximos da costa em que dominamos,
estivessem to prximas da verdade como ella.

Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar rpidamente
do paiz que ellas representam.

De Benguella ao Dombe, como se v, costeei o mar, em terreno calcreo,
abundante de minrios diversos.

As guas faltam ali na estao sca, e apenas o valle do Dombe Grande
tem a sufficiente para ser enormemente productivo. A vegetao, sem ser
pobre, no tem, todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes.
Entre Benguella e o Dombe apenas se encontra gua potavel n'um pequeno
charco na Quipupa.

[Mappa 3.--Entre Cubango e Cuanza]

O paiz  abundante de caa, e encontra-se n'elle grande variedade de
antlopes, sendo os mais vulgares o _Strepsiceros kudu_, o _Cephalophus
mergens_, o _Cervicapra bohor_, e o _Oreas canna_. Nas rochas de
carbonato de cal que formam o systema orogrphico do Dombe Grande,
abundam os _hyrax_, e na planicie, entre as grandes e pomposas
plantaes de mandioca, vivem muitos _hystrix_, maiores um pouco do que
os da Europa, e que causam ali grande estrago nas terras cultivadas. O
valle do Dombe Grande  de certo a melhor poro de terreno da provincia
de Angola. As suas condies de salubridade no sam ms, e o solo  de
grande fertilidade. Um porto de mar, o Cio, dista apenas alguns
kilmetros do maior centro de produco.

As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e j tem
estado em explorao, sempre em pequena escala, por falta de capitaes.
Ha ali enxfre e cobre.

A populao indgena  de ba ndole e trabalhadora, tanto quanto o pode
ser um prto abandonado a si mesmo.

Entre o Dombe e Quilengues o paiz  deserto. Pelo caminho que segui h
falta de gua, e a vegetao, pobre ao principio, toma luxuriante
esplendor ao passo que nos approximamos de Quilengues.

Seguindo o curso do rio Coporolo no ha falta de gua, e ouvi dizer, que
se encontra sempre uma vegetao rica. Contudo, o paiz mesmo por ali no
 habitado.

Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um
systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam
elevando gradualmente at atingir 900 metros em Quilengues. No rio Canga
comea o terreno grantico, e com elle uma vegetao mais pomposa. Todos
os rios designados no Mappa at Quilengues sam apenas torrentes na
estao chuvosa, mas em muitos  possivel encontrar gua na estia,
cavando poos nos seus leitos arenosos. O proprio Coporolo est sujeito
a esta condio de pobreza.

Quilengues  um extenso e fertil valle, em condies iguaes ao do Dombe;
tendo por em quanto muito menos valor, por falta de communicaes com a
costa.

A sua populao  densa, e nas suas campinas pastam milhares de cabeas
de gado vaccum de excellente raa.

Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra
os Mundombes sam sempre vencedores; o que os no impede de serem
vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.

Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei de
Portugal, mas no sam to submissos como os Mundombes.

Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis communicaes
o ligarem  costa,  Huila e a Caconda, e quando fr administrado como o
deve ser.

De Quilengues a Caconda o caminho  por Caluqueime, paiz muito povoado;
mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.

Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de
Quilengues, que se eleva rpidamente a 1750 metros, e que eu passei na
parte chamada Monte Quisscua.

Ali comea o grande planalto da frica Austral, e d'ali ao Bih a
planicie enorme conserva aquella altitude, tendo apenas ligeiras
depresses nos leitos dos rios, e um ou outro pequeno systema de
montanhas isoladas.

D'este planalto j correm rios permanentes, sendo o primeiro que
encontrei n'estas condies affluente do Cunene.

A vegetao arbrea no planalto no  j to forte como em Quilengues,
mas a herbcea  mais rica, se  possivel sel-o.

O terreno contina grantico, e comea a apparecer n'elle maior
abundancia de termites. As nicas povoaes que se encontram no caminho
que segui sam Ngola e Catonga, de que ja falei detidamente.

Em Caconda o paiz  um pouco mais accidentado, devendo ser no menos
rico e productivo do que o de Quilengues.

 cortado de rios permanentes, que o regam em todas as direces,
affluindo ao Catapi, affluente do Cunene.

A febre miasmtica  endmica em Caconda, como em Quilengues e como na
costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno, e raras vezes faz
vctimas.

Eu julgo Quilengues nas mesmas condies de salubridade de Caconda.

As condies climatolgicas do paiz de Caconda  que j differem
essencialmente das da costa, e mesmo das de Quilengues.

Apenas 13 e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser ardente,
 temperado pela altitude enorme a que se encontra; mas est por isso
mesmo sujeito s bruscas mudanas que se dam entre o dia e a noite em
todo o planalto. Ha ali uma luta constante entre a altitude e a
latitude, sendo que esta impera de dia quando um sol a prumo dardeja
raios de fogo, e aquella de noute quando uma altura de 1700 metros nos
faz viver n'uma atmosphera to rarefeita.

Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria ptimamente em
Caconda, se uma mchina em contacto com um thermmetro, nos fosse
deitando cobertores na cama  medida que o thermmetro descesse, durante
o somno.

Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute d-se
quando o sol tem declinao Norte, porque durante o tempo em que elle
anda ao sul do Equador  ella muito menor.

Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas
infelizmente no o sei de sciencia propria, que nenhumas ali encontrei;
todavia, creio que se poderm ali aclimatar. A batata  muito boa e
produz muito, no s ali como em todo o planalto; mas  to difficil o
seu transporte para Benguella, que a batata que se consome ali vai de
Lisboa.

Ha muito boa hortalia e legumes da Europa, que se dam bem em todo o
planalto.

Perto da fortaleza, a populao  rara, mas a uma certa distancia est
condensada; sendo governada por chefes independentes.

De Caconda ao Bih o paiz  muito populoso, e, se menos pastores do que
os povos at Caconda, sam um pouco mais agricultores.

Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos,
mais aguerridos e independentes.

Os terrenos, como se v no mappa, sam cortados de rios que dividem as
suas guas para tres grandes arterias, o Cunene, o Cubango e o Cuanza.

Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que
chamam no paiz a _Enhana_ de Ambamba, terreno alagadio onde nascem
cinco rios importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.

Dos que vam ao Norte, um  o Qube, que vai entrar no mar por 10 50' de
Latitude S., junto s Tres Pontas, entre Novo Redondo e Benguella Velha.

Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro  o
Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.

Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos
Ganguelas, que se une ao Cubango.

O maior systema de montanhas que encontrei  uma serra que corre de N.E.
a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o Cale e o
Cuce, que se unem para affluir ao Cunene.

Uma grosseira observao do aneroide indicou-me o seu cume a mais de
2500 metros acima do nivel do mar.

Fazendo excepo  minha regra de no baptizar em frica rios ou montes,
dei a esta serra o nome de Andrade Corvo, por ser designada no paiz
apenas por serra do Huambo.

No encontrei entre os indgenas vestigios de ter o paiz outro minerio
lm do ferro, o que no quer dizer que o no haja.

O terreno  ainda grantico, e o solo pode dizer-se que em muitos pontos
 de formao animal, pois que  construido pelas termites.

lm da disposio especial que encontrei no terreno termtico das
margens do Cutato dos Ganguellas, encontram-se 4 differentes
construces termticas, que suponho pertencerem a 4 differentes
especies.

[Figura 29.--Montes termticos, dos terrenos entre a costa e o Bih. 1 e
2 tem altura entre 2 e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.]

Ha abundancia de caa, sobre tudo nas faldas da serra de Andrade Corvo,
entre o Cale e o Cuce, que nunca vi tanta em frica, a no ser no
Zambeze.

Alem dos antlopes que j citei falando do Dombe, abundam ali o
_Hippotragus equinus_, o _Catoblepas taurina_, e o _Bubalus Caffer_.

As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo
um sem-nmero de especies da Acacia.

Ha muito poucas plantas trepadeiras.

Passamos a linha divisoria das guas entre o Cubango e o Cuanza, e
entramos no paiz do Bih, de certo o mais importante do Sudoeste
d'frica.

O paiz do Bih, de cujos povos falo detidamente no capitulo anterior, 
cortado por dois rios importantes, ainda que innavegaveis, o Cuqueima e
o Cuito. Innmeros riachos sulcam em todas as direces o terreno, e vam
affluir quellas arterias principaes.

O clima  igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas condies
atmosphricas.

O terreno  grantico e de uma admiravel fra productiva. As pastagens
sam ptimas para todos os gados.  pobre de caa; mas, em compensao, 
desinfestado de feras.

No creio muito que seja rico em productos mineralgicos, porque a sua
densa populao no tem encontrado vestigios de minerios ricos, e eu
tenho visto em frica, que os primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o
chumbo e o ferro sam os indgenas.

No Bih o que  verdadeiramente rico  o terreno, e no sei de paiz
Africano que mais podesse prosperar pela agricultura e commercio.

A raa Europea vive ali muito bem, e o producto do cruzamento d'ella com
as raas do paiz  physicamente admiravel.

Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das
condies climatolgicas, e sobre tudo no primeiro mez, em que o
pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de sahir,
observei regularmente o barmetro e o thermmetro de 3 em 3 horas
durante o dia.

Adiante apresento um quadro d'essas observaes, durante trinta dias,
fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota durante o dia
 devida  estao do anno em que fram feitas as observaes, estao
que corresponde ao nosso outono.

As chuvas t[~e]m duas pochas, com uma interrupo de estiagem que se d
em Dezembro e Janeiro. As primeiras chuvas cahem em meado de Outubro, e
duram at principio de Dezembro, sendo mais moderadas do que as segundas
que cahem do fim de Janeiro ao principio de Maro.

Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes
persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na
estao chuvosa as maiores tormentas que observei vinham do
oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas v[~e]m sempre, sobre
tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros elctricos, e cahem no meio
de terriveis trovoadas.

O seguinte quadro apresenta as minhas observaes desde o dia 25 de
Maro ao dia 23 de Abril de 1878.

Por esta serie de observaes se v quo ameno  o clima do Bih n'esta
pocha do anno.

--------------+----------+----------+----------+----------+-----------
 Anno de 1878 | 6 Horas. | 9 Horas. | Meio dia | 3 Horas. | 6 Horas.
-------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
  Mez. | Dia. | [E] | [F]| [E] | [F]| [E] | [F]| [E] | [F]| [E] | [F]
-------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
 Maro |  25  |629.8|19.1|630.5|20.4|629.2|22.4|628.8|23.2|630.0|21.6
   "   |  26  |632.0|20.1|631.9|21.2|630.8|21.6|629.8|21.5|629.5|21.0
   "   |  27  |629.5|19.4|632.0|19.9|629.6|21.0|628.5|21.3|630.0|20.6
   "   |  28  |630.0|19.4|631.6|19.9|629.5|20.4|629.0|22.1|629.0|21.6
   "   |  29  |630.2|20.6|632.3|20.8|630.0|21.6|628.5|22.5|629.2|22.1
   "   |  30  |631.0|18.3|632.0|20.6|631.0|21.9|630.0|22.2|629.9|21.3
   "   |  31  |631.0|19.2|632.3|20.0|631.2|20.9|629.2|21.3|631.0|20.4
 Abril |   1  |630.5|18.6|632.0|19.5|630.6|20.4|630.0|19.9|630.0|19.8
   "   |   2  |631.0|17.5|632.0|18.7|630.0|21.1|629.3|20.2|630.0|20.2
   "   |   3  |630.0|18.8|632.5|20.0|630.5|21.1|630.0|21.2|629.0|20.9
   "   |   4  |632.0|18.6|632.0|20.2|630.0|21.2|629.5|21.6|630.0|20.7
   "   |   5  |630.0|18.8|632.0|20.0|630.3|21.1|630.0|22.0|629.8|20.1
   "   |   6  |630.0|17.2|632.3|19.8|631.0|20.4|630.5|21.7|630.0|20.2
   "   |   7  |630.0|17.8|632.0|19.7|630.5|21.0|629.0|22.7|630.0|21.5
   "   |   8  |629.0|17.6|632.0|19.9|630.0|21.5|629.5|22.8|630.0|21.3
   "   |   9  |629.5|18.4|631.5|20.4|631.0|21.8|629.3|22.6|629.8|21.1
   "   |  10  |631.2|18.1|632.8|20.5|631.5|21.7|629.4|22.4|630.0|21.5
   "   |  11  |630.5|16.6|631.9|20.2|631.0|21.4|629.5|23.0|629.8|21.7
   "   |  12  |629.0|16.4|629.9|20.1|629.0|21.1|627.0|22.6|629.0|21.8
   "   |  13  |628.3|18.2|630.0|20.2|629.6|21.6|629.4|22.3|629.5|21.1
   "   |  14  |629.0|18.6|631.5|20.4|630.6|22.0|629.5|23.1|630.0|21.7
   "   |  15  |631.4|17.2|632.6|19.7|631.0|21.3|630.5|22.4|630.5|20.7
   "   |  16  |630.6|16.1|632.0|19.0|630.3|21.3|629.0|22.8|630.0|20.2
   "   |  17  |632.6|19.4|633.0|20.7|631.0|22.0|630.0|22.2|630.0|20.0
   "   |  18  |631.6|18.0|632.0|20.1|630.0|20.4|629.7|22.7|629.9|19.8
   "   |  19  |631.2|17.8|632.2|20.3|630.6|21.0|630.1|23.0|630.5|19.7
   "   |  20  |630.7|16.5|631.9|20.1|630.4|21.2|630.0|22.7|630.0|20.1
   "   |  21  |631.0|15.6|632.1|17.8|630.3|19.8|629.3|20.6|629.8|19.5
   "   |  22  |630.0|14.6|632.0|17.1|630.0|19.2|628.7|20.4|629.0|19.4
   "   |  23  |630.3|14.9|632.0|17.9|630.5|20.0|629.2|21.3|630.0|20.0
-------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----

*Legenda*:
[E] Barmetro
[F] Thermmetro

 muito notavel a marcha diurna do barmetro, que ali  inalteravel em
presena das mudanas bruscas da atmosphera.

Um boletim meteorolgico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou 1^h. 50^m.
do logar, completa o estudo atmosphrico d'este paiz n'aquella pocha.

Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado
durante toda a viagem, tendo apenas as interrupes provenientes de
doenas ou de estorvos occasionaes.

O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco at ao Cuqueima, na
parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do Cuqueima
eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza.

Na parte leste do paiz reapparece a vegetao arbrea mais rica, e ha
pequenas mas densas florestas.

Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bih e Benguella, no
existe o z-z, esse flagello de muitos pontos da frica Austral, que,
matando o cavallo e o boi, priva o homem de dois dos seus maiores
auxiliares na vida prtica.

Uma especie de epizotia, que no paiz chamam _cahnha_, ataca o gado
bovino e langero; no fazendo ainda assim os estragos que na Europa e
outras partes d'frica produz a epizotia.


*Boletim meteorolgico feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do
Bih*.

--------+---+-----+------+------+----+------------+-----------------------
  Mez.  |Dia| [E] | [F1] | [F2] | [G]|Direco do | Estado da Atmosphera.
        |   |     |      |      |    |   Vento.   |
--------+---+-----+------+------+----+------------+-----------------------
 Maro  | 25|628.7| 22.9 | 20.2 | 40 |S.S.O. fraco|{Durante a noute
        |   |     |      |      |    |            |{trovoada, hje ceo
        |   |     |      |      |    |            |{limpo
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 26|629.6| 22.1 | 20.0 |  2 |O.S.O. fraco|{Nublado de noute,
        |   |     |      |      |    |            |{de dia cirrus.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 27|629.1| 21.0 | 20.1 | 31 |E. forte    |Chuva durante a noute.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 28|628.8| 21.5 | 21.2 |  0 |Calma       |Algumas nuvens, cirrus.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 29|629.0| 22.3 | 21.6 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 30|630.0| 22.0 | 21.0 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 31|629.5| 21.5 | 20.8 |  0 |E. forte    |Nublado.
        |   |     |      |      |    |            |
 Abril  |  1|630.5| 20.2 | 19.4 | 17 |Calma       |{Nublado. De noute
        |   |     |      |      |    |            |{trovoada a N.O.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  2|629.3| 19.8 | 19.1 |  0 |E. forte    |Algumas nuvens, cirrus.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  3|630.0| 20.9 | 19.1 |  0 |E. moderado |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  4|630.3| 21.5 | 20.2 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  5|630.5| 21.8 | 20.6 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  6|630.0| 21.1 | 19.2 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  7|629.3| 21.8 | 19.7 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  8|628.1| 22.5 | 19.8 |  0 |   "        |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    |  9|629.6| 22.2 | 20.6 |  0 |Calma       |  "      "       "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 10|629.0| 21.8 | 19.9 |  0 |   "        |Ceo limpo.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 11|629.8| 21.9 | 19.8 |  0 |   "        |  "      "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 12|627.8| 21.8 | 19.8 |  0 |   "        |Alguns cirrus.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 13|629.5| 22.0 | 20.1 |  0 |   "        |Nublado.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 14|630.0| 22.5 | 20.2 |  0 |   "        |Alguns cirrus.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 15|630.5| 21.6 | 19.6 |  0 |E. forte.   |Ceo limpo.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 16|629.8| 21.6 | 19.7 |  0 |Calma       |Alguns cirrus.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 17|630.0| 22.0 | 18.6 |  0 |E. forte.   |  "      "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 18|630.0| 22.2 | 20.3 |  0 |   "        |  "      "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 19|630.4| 22.5 | 20.1 |  0 |E. moderado |  "      "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 20|630.2| 22.0 | 20.2 |  0 |   "        |  "      "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 21|629.8| 19.9 | 15.5 |  0 |   "        |Ceo limpo.
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 22|629.6| 19.9 | 16.1 |  0 |   "        |  "      "
        |   |     |      |      |    |            |
   "    | 23|630.0| 20.5 | 18.3 |  0 |E. forte    |  "      "
--------+---+-----+------+------+----+------------+-----------------------


*Legenda*:
[E] Barmetro
[F1] Thermmetro seco
[F2] Thermmetro molhado
[G] Chuva em milimetros

No existe ali a molestia que mata tantos cavallos no Transvaal e no
Calari, a que os inglezes chamam _Horse-sickness_. Em toda a parte o
gado suino prospera e desenvolve-se como na Europa, sendo facil a
conservao da carne, o que j no acontece perto da costa.

O paiz at ao Cuanza, e ainda para lm, tem grande carencia de sal,
sendo todo o que ali se gasta proveniente da costa.

No ha minas de sal gemma, e as guas, mesmo as das lagoas, sam
potaveis.

N'este succinto resumo, procurei compendiar o resultado das minhas
observaes, dando uma noticia geral do paiz, e terminarei com um curto
juizo meu cerca d'elle.

Collocado em uma posio geogrphica muito differente da do Transvaal, o
paiz comprehendido entre a costa e o Bih, aproxima-se d'elle pelo
clima, e possue um solo mais fertil. A comparao entre a mesma planta
vegetando nos dois paizes indica isso.

Tem uma populao indgena muito mais condensada do que a do Transvaal e
muito mais agricultora. No  menos abundante em boas pastagens, e 
mais rico em florestas.

O Transvaal possue uma grande riqueza mineralgica, que escaceia ali;
mas eu creio que estar reservado a este paiz um futuro mais prspero do
que quelle, porque o Transvaal est isolado do resto d'frica pelos
desertos ridos e pela mosca z-z, em quanto estes terrenos estam em
facil communicao com um interior qui mais rico.

[Figura 29A.--Viagem ao Cunene.

1. Rpido da Libata Grande. 2. Rpido de Canhacuto. 3. Rpido de
Quiverequete.]




CAPTULO VII.


ENTRE OS GANGUELAS.

     Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e
     Onda--Fetus arbreos--Atribulaes--Escravos--O rio Cuito--Os
     Luchazes--Emigrao de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os
     Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os
     Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi.


No dia 14 de Junho, como eu tinha decidido, levantei campo, e s 10
horas comecei a passagem do Cuanza, que durou duas horas.

[Figura 30.--Passagem do Cuanza.]

Prestou-me valiosos servios o meu barco de cautchuc da casa Macintosh
de Londres; mas ainda assim, o sova de Liuca emprestou-me quatro
canas, que muito me auxiliram.

No houve o menor accidente durante a passagem, e ao meio dia seguia a
leste internando-me no paiz dos Quimbandes. Tendo passado junto das
povoaes de Muzeu e Caiio, fui acampar pelas 2 horas a E.S.E. da
povoao de Mavanda, junto da nascente do riacho Mutango, que corre a
N.O. para o Cuanza. As povoaes ali no sam j to slidamente
fortificadas como as de lm Cuanza. Os Quimbandes formam uma
confederao, sendo o paiz dividido em pequenos estados, que se unem
sempre para proteco mtua. Todas as numerosas povoaes em trno do
meu campo obedecem ao sova Mavanda, que  tributario do sova do Cuio ou
Mucuzo, na mesma margem do Cuanza um pouco ao N. A cousa que primeiro me
ferio a atteno entre os Quimbandes, foi o penteado das mulhres, que
sam as mais extraordinarias que tenho visto. Algumas entranam o cabello
de forma que, depois de ornado com buzio (caurim), assimelha um chapo
de dama Europea.

[Figura 31.--Homem e Mulhr Quimbande.]

Outras dam-lhe tal forma, que parecem trazer na caba um capacete
Romano.

O buzio (caurim)  distribuido ou accumulado com profuso nas cabeas
feminiz, e o coral branco ou encarnado aparece ainda, mas muito mais
raramente, do que entre os povos de Oeste-Cuanza.

O cabello, n'estes penteados estupendos,  fixo com um cosmtico
nauseabundo, massa formada de tacula em p e leo de ricino, que lhe d
uma cr avermelhada. O leo de ricino  preparado em grande quantidade
entre estes povos. Depois de extrahirem as sementes do _Ricinus
communis_, dam-lhe uma ligeira torrefaco e reduzem-n-as a p. Este p
conservado por muitas horas em gua ebulliente, fornece o leo, que a
frio  separado grosseiramente da gua, e guardado em cabaas pequenas.

[Figura 32.--Raparigas Quimbandes.]

Estes povos no o empregam como purgante. Notei logo, que o typo
feminino entre os Quimbandes se approxima um pouco do typo caucasio, e
vi algumas mulhres que se poderiam chamar bonitas se no fossem prtas.

Logo que cheguei, mandei um pequeno presente ao sova Mavanda, que me
agradeceu muito, mandando contudo pedir-me uma camisa.

Igual pedido me tem sido j feito por outros, o que mostra a tendencia
que t[~e]m para se vestirem.

Os homens Quimbandes cobrem a sua nudez com duas pelles de pequenos
antlopes que cahem adiante e atraz de um largo cinto de couro de boi.
S os sovas usam pelles de leopardo. As mulhres andam quasi nuas, e
algum farrapo de pano, ou de liconte, substitue a folha de vinha
clssica.

No dia seguinte logo de manh, viram uns portadores do sova dar-me
parte, de que a gente que eu esperava chegara de noute  outra margem do
Cuanza, onde estavam acampados.

No dei o menor crdito  noticia, porque, j conhecedor das manhas do
gentio, sabia que elles t[~e]m costume de indagar o que mais desejamos,
para nos virem burlar com uma noticia agradavel e pedir alvaras.
Contudo, disse ao indgena que me certificou tel-os visto, que fsse a
elles, e pedisse ao Doutor Chacaiombe, que me mandasse um signal seu
para ficar certo de que vinha a caminho.

Ainda de manh, o sova Mavanda mandou-me uns enviados dizendo, que sahia
n'aquelle dia a combater uma povoao vizinha onde um seu sbdito se
revoltara contra o seu poder, e ao mesmo tempo pedindo-me que o
auxiliasse n'aquella campanha. Recussei dar-lhe auxilio, mas procurei
fazel-o de modo a no me indispor com o sova, o que consegui com bas
razes.

Seria meio-dia, quando passou junto ao meu campo o exrcito de Mavanda.

 frente ia, em pau muito alto, uma bandeira tricolor como a Francesa,
mas com as cores invertidas. Depois seguiam-se dois homens levando a pao
e corda uma enorme caixa de plvora, provavelmente vazia. Seguia-se o
sova rodeado dos seus grandes, e aps este estado maior o exrcito a 1
de fundo. Seriam uns 600 homens armados de arcos e frechas, levando ao
tdo 8 espingardas. Alguns passos  frente da bandeira, dois prtos
tocavam os tambores de guerra, fazendo um barulho infernal.

Ao anoutecer voltou o exrcito sem ter combatido; porque o inimigo
rendeu-se  discrio.

Logo que passram o meu campo, principiram a fazer exercicio, simulando
um ataque  povoao do rgulo.

Estendram em linha de atiradores, tomando a bandeira o centro da linha,
e sempre atraz d'ella a caixa da plvora e o sova.

Esta grande linha singela, porque cada homem estava isolado, comeou a
envolver a povoao, j avanando, j recuando, sempre em accelerado.

A uma vz do sova, precipitram-se sbre a povoao, dando saltos
enormes, e fazendo tda a especie de momices que usam para aterrar os
adversarios, com uma grita infernal.

Quando eu pensava que elles iam direitos a suas casas atacar o jantar,
vejo que voltavam  posio que tinham antes do ataque, e que reunidos 
voz do chefe, entravam na povoao na mesma ordem de marcha em que
tinham sahido.

 noute voltou o Quimbande a dizer-me, que estve com o meu doutor, mas
que elle no lhe quizera dar signal algum para mim. Vi que se
verificavam as minhas previses, e que era tudo falso.

O meu acampamento dava-me serios receios, porque, coberto de erva sca,
podia incendiar-se de um momento a outro, e os meus prtos, transidos de
frio, no calculavam o perigo, e alimentavam dentro das barracas
fogueiras enormes.

Desde o rio Cuqueima at Mavanda, e ainda mais lm, produz
vigorosamente a cana de assucar e o algodoeiro. Os Quimbandes cultivam o
algodo, que fiam para fazer linhas onde enfiar o buzio e a missanga.

No dia seguinte, continuram a asseverar-me, que os carregadores estavam
na margem do Cuanza, e no podiam passar o rio por no lhes emprestarem
as canas as indgenas d'ali.

Decidi-me a mandar l o Augusto, acompanhado de um guia Quimbande.

Pelas 11 horas, chegou um enviado do sova, a participar-me que este
viria visitar-me.

Pouco depois chegava Mavanda, rodeado da sua crte, e se ficou espantado
a olhar para mim; eu no fiquei menos a olhar para elle, porque era o
maior homem que tenho visto em minha vida. A uma altura enorme reunia
uma grossura e gordura verdadeiramente phenomenal. Cobria a cintura com
um panno usado, sobre o qual cahiam trs pelles de leopardo.

Muitos amultos lhe pendiam de um collar de missangas.

Se Mavanda  grande, possue coisas grandes tambem, porque me trazia de
presente o maior boi que vi em frica.

Depois dos extensos comprimentos do costume, elle disse-me ex-abrupto,
que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao rebanho
de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe, prenoitando s
vezes fora do curral, e sendo, nas florestas em que se acoutava, atacado
por feras que lhe causavam grande damno.

Dei-lhe immediatamente o remedio com um conselho, e foi elle, o de ter
um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse
guiado s pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Elle no achou mao
o conselho, e disse-me, que apesar de ser contra os usos do paiz o fazer
vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para evitar as contnuas perdas.

Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante d'elle, e vi-o com
prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito
satisfeito, e nos melhores termos de amizade.

Logo que se retirou o sova, chegram uns enviados do sova Capco com uma
carta para mim. Dava-me noticia do Chacaiombe, e dizia-me, que me
mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir, que fsse comigo
uma comitiva sua, que desejava enviar aos sertes do Zambeze a fazer
negocio.

Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os
carregadores, no contando muito, ainda assim, que elles viessem, e
n'esse sentido respondi ao sova Capco.

Em vista d'aquella deliberao, ordenei a reconstruco do acampamento
para o dia seguinte, mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes,
com receio de um incendio.

[Figura 33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos.]

No dia seguinte, houve grande actividade na reconstruco do campo, que
estava prompto ao meio-dia, apresentando um bonito aspecto.

O campo era formado de barracas cnicas, de troncos de rvore, medindo
trs metros de dimetro na base, por dois e meio de alto.

A minha barraca, feita pelos Bihenos com mais esmero do que as outras,
media cnco metros de dimetro na base, por trs e meio de alto.

[Figura 34.--Esqueleto da Barraca.]

O acampamento era formado por uma linha circular de barracas, ligadas
por uma fileira de abatizes de rvores espinhosas.

A minha barraca occupava o centro, e em frente d'ella as cargas estavam
em pilha. A minha gente de servio estabeleceu o seu campo em trno de
mim, ao alcance da voz.

Tinha finalizado o trabalho do campo, quando me viram avisar de que uns
enviados do sova do Gando me procuravam. Mandei-os vir  minha presena,
e conheci em um d'elles um dos grandes do sova, que tinha visto junto
d'elle no Gando. Traziam-me uma carta, e uma encomenda, que no sei que
sovta lhe tinha enviado para mim.

Abri a carta, e vi ser ella do meu amigo Galvo da Catumbella, que me
enviava um presente, que tinha dirigido ao Bih, julgando que eu
estivesse ainda ali. A ba harmonia que eu tinha guardado com as
povoaes por onde passei, fez com que aquella carta e o presente
chegassem at mim vindo de mo em mo.

Abri a caixa, e encontrei uma poro de passas de Mlaga, que viram a
propsito adoar um pouco a monotonia da minha j bem pobre alimentao.

[Figura 35.--Barraca concluida em uma hora.]

Na carta dava-me elle algumas noticias da Europa, as ltimas que tive
at chegar a Pretoria. Pensei n'isso ento; e, quam profunda no foi a
minha tristeza ao lembrar-me de quanto tempo teria de ficar sem noticias
dos meus, noticias que j me faltavam havia tanto!

Deitei-me debaixo de uma triste impresso de saudade. Ao alvorecer,
viram avisar-me, de que uma pequena comitiva, capitaneada por um prto,
levando cra, se dirigia ao Bih. Mandei chamar o chefe, e pedi-lhe que
me levasse uma carta, que entregaria a alguem no Bih, pedindo-lhe que a
fizesse chegar a Benguella. Elle accedeu, dizendo-me logo, que no se
podia demorar, porque queria ir dormir junto ao Cuqueima.

Tinha pouco tempo; a quem escrever? No podia perder este portador do
accaso para dizer aos meus: Ainda sou vivo.

Peguei na penna, e escrevi algumas linhas ao Doutor Bocage. Na carta
inclui dois pequenos bilhetes, um para minha mulhr, outro para Luciano
Cordeiro.

O chefe da pequena caravana, j impaciente, recebeu a carta e partio.

Hje sei que aquella carta chegou  Europa, e foi recebida pelo seu
destinatrio. Como ella foi do Bih a Benguella no sei.

Era essa proteco que tinha levantado em volta de mim Silva Porto, que
ainda se fazia sentir.

O sova Mavanda passou o dia comigo, e conversmos muito. Eu dei-lhe
alguns pequenos objectos, e entre elles uma caixa de fsforos, com que
ficou maravilhado.

Na occasio de retirar-se, disse elle aos seus macotas estas palavras,
que me impressionram pela figura empregada.

"No vdes de longe um pssaro que va muito alto, e vai pousar em
rvore distante, e dizeis  uma rla; depois caminhaes e abeirais-vos
d'elle, e ficais admirados do tamanho; era uma guia. Assim foi o
Manjro (nome que me davam); passou ao largo da povoao, e ns dissmos
 a rla; agora vivemos com elle e conhecemo-l-o, e dizemos,  a guia."

Nos passeios que dei nas cercanias, perseguindo os antlopes, que sam
escassos, levantei a carta do paiz, ou antes, pude concluir a carta do
paiz comprehendido entre o Cuqueima e Cuanza.

O sova Mavanda mandou-me dizer, que o maior pedido que me podia dirigir
era, o de lhe eu dar um par de calas. Resolvi logo fazer-lhe a vontade,
e chamei o velho Antonio.

Arvorei-o em Alfaiate, cousa que muito o sorprendeu, e enviei-o a tomar
medida s calas do sova. Talhei depois as calas, que fram cosidas
pelo velho Antonio, e levram 5 jardas de algodo largo!! Este rei  um
verdadeiro hippoptamo, mas muito boa pessa.

No dia 20 de manh, veio um enviado do sova dizer-me, que, por ser ento
a pocha em que festejam uma especie de carnaval, o sova, para me fazer
honra, viria ao meu campo mascarado, e danaria diante de mim.

[Figura 35A.--Ganguelas  Quimbandes.]

Pelas 8 horas, chegram os batuques, e juntou-se grande concurso de
pvo.

Meia hora depois, appareceu o sova, com a caba mettida em uma cabaa,
pintada de branco e prto, e o enorme corpo augmentado por uma armao
de varas coberta de liconde, igualmente pintado de prto e branco.

Um saio de clinas e caudas de animaes, completavam o trajo.

Logo que elle chegou, os homens formram em linha, com os batuques a
traz, e as mulhres e rapazis desviram-se para longe. Comeram os
batuques, e os homens immoveis do corpo, cantando as suas montonas
toadas e batendo as palmas.

[Figura 36.--O sova Mavanda vem danar mascarado ao meu campo.]

O sova foi collocar-se a uns trinta passos em frente da linha, e comeou
uma brutesca dana, em que parecia fera enraivecida; conquistando os
maiores applausos da sua e da minha gente. Meia hora depois, correu, e
foi sumir-se na sua povoao, sendo seguido pelos seus. Pouco tempo mais
tarde, voltou ao meu campo, j sem o seu trajo feroz, e andou comigo at
 noute. Decididamente eu tinha-lhe cahido em graa.

Tinha aproveitado tdo o tempo que podia tirar aos meus trabalhos, dando
melhor arrumao s cargas, tendente a diminuir o nmero d'ellas. A
fazenda que tinha era j quasi nenhuma, e tda a minha riqueza monetaria
consistia em um saco de buzio e na missanga comprada ao Jos Alves; mas
o gasto, para sustentar a minha gente, era grande, e eu via com horror a
diminuio do meu pequeno haver. No paiz a caa era pouca e mida, pois
apenas se encontravam algumas gazellas (_Cervicapra bohor_).

[Figura 37.--Mulhr Quimbande carregada.]

Quantas vezes a pobre rima pouco volumosa das fazendas e missangas me
no despertava uma atroz angstia!

Quantas vezes uma dr pungente me no cerrava o corao, fazendo-me
antever um futuro bem sombrio!

Quantas vezes ficavam sem resposta as caricias da minha cabrinha Cora,
e os cantares folgazos do meu meigo papagaio, que voava para o meu
hombro pedindo-me uma meiguice!

Quantas vezes uma f sem limites me invadia o corao, e o desalento
era banido do meu nimo!

A razo queria lutar contra esses raios de infundada esperana que me
alegravam o esprito; mas essa esperana era to tenaz que procurava
argumentos e sophismas para combater a razo.

Sam momentos indescriptiveis, essas lutas do esprito, estando o homem
isolado, sendo elle mesmo o pro e o contra das suas idas, sem um amigo,
ou um inimigo, que lhe adule um pensamento ou lhe combata outro.

Fui joven e tive amores, e com elles as penas dos amores; fui pai, e vi
morrer-me nos braos uma filha que adorava; mas confesso que nunca senti
n'alma to profunda tristeza, to cruel melancolia, como a que por
vezes, em dias aziagos, experimentei em frica.

S! szinho, no meio de uma multido ignara, e estridente, cuja lngua e
falares no comprehendia, tinha momentos horriveis, que se traduziam
logo em febre e doena!

No conto como soffrimento as fomes, as doenas, a miseria. No! que
homem  e deve ser superior  materia bruta, que deve dominar, para se
afastar do irracional.

O soffrimento  a dvida. O soffrimento  no saber como se hade vencer
o abysmo que a razo nos mostra cavado ante os passos que queremos dar.
O soffrimento  ver dezenas de pessas, que nos acompanham cgas,
dizendo: "Elle sabe o que faz;" e que arrastamos com-nosco ao abysmo! O
soffrimento  a responsabilidade tremenda da misso que nos imposmos.
Se me no importava hje muito que os meus detractores experimentassem
um pouco da fome, da sde e das privaes que passei; no lhes desejo,
mesmo a elles, que soffressem a millesima parte do que eu soffri
moralmente.  verdade, que, para soffrer como eu soffri,  preciso ter
alma, corao e uma consciencia.

A carta que de Mavanda escrevi ao D^{or.} Bocage, ressentia-se j do que
eu soffria ento. Foi escrita n'um dos meus dias nebulosos.

Deixemos porem esta divagao, que pouco interessa; e falemos dos
acontecimentos de ento.

Os Quimbandes fabricam alguns objectos de ferro e de madeira, muito mais
perfeitos do que os fabricados no Oeste-Cuanza.

[Figura 38.

1. Cachimbo. 2, 2. Facas. 3, 3. Cacetes de guerra.]

O frio de noute era muito intenso, e j era grande a differena entre as
mximas e as mnimas. Apesar da carta que recebi do sova Capco, no
acreditava muito na promessa dos carregadores, nem na volta do meu
Doutor Chacaiombe; e por isso, ia sempre reduzindo as cargas quanto era
possivel; o que s podia fazer distribuindo o conteudo de uma pelas
outras. Isto tinha um limite, com o limite do peso que podiam carregar
os homens.

Estvamos a 22 de Junho, dia em que expirava o prazo que eu decidira
esperar por os carregadores do sova Capco.

A minha angstia era grande, e s ento avaliei bem o mao bocado porque
t[~e]m passado outros exploradores, tendo de abandonar cargas que lhes
sam absolutamente precisas.

A esclha  cousa sria, quando todas se nos afiguram indispensaveis.

O pouco que de commodidades eu levava j tinha sido abandonado; o resto
de algumas latas de comida dei-as aos muleques.

Os meus carregadores, vendo o meu embarao, pedem-me que os carregue at
ao mximo pso com que podrem caminhar; mas, ainda assim,  impossivel
ir tudo.

Depois de todas as reduces, e de ter distribuido as cargas, ficam 4
sem carregadores.

Sam ellas as duas do meu barco Macintosh, um barril de gua-ardente, e
50 libras de plvora.

Decidi abandonar o barco, com grande pesar, e pedir ao sova Mavanda dois
homens para me levarem a plvora e o barril d'gua-ardente de
acampamento em acampamento, at que dois dos meus carregadores ficassem
sem carga, o que no tardaria a succeder pelo grande gasto que faziamos.

O sova tomou conta do barco, e deu-me os dois homens que lhe pedi,
ficando tudo prompto para seguirmos no dia immediato.

Levantei campo no dia 23 s 8 horas, e depois de trs e meia horas,
cheguei  margem esquerda do rio Varea, que passei sobre uma soffrivel
ponte de madeira.

O sovta de Divindica, povoao que assenta na margem esquerda do Varea,
na confluencia do riacho Moconco, veio pedir-me alguma cousa pela
passagem da ponte, e dando-lhe eu quatro jardas de fazenda, retirou-se
satisfeito.

[Mappa 4.--O Paiz dos Quimbandes]

O rio Varea corre ali ao N., e vai affluir ao Cuime. Tem 25 metros de
largo por 2 de fundo, e pequena corrente, no tendo cataractas a jusante
de Divindica. Marquei a uma milha ao sul as povoaes de Moariro e
Moaringonga.

Segui a leste, indo acampar, pelas 2 horas, na margem esquerda do rio
Onda, em frente  grande povoao de Cabango, capital dos povos
Quimbandes de Leste.

Eu levava duas garrafas de vinho do Porto de 1815, resto de um presente
do meu amigo E. Borges de Castro, e ao chegar ao ponto em que acampei, o
muleque Moero, que as levava, cahio, quebrando-se uma d'ellas, e
entornando-se o precioso nectar, sem que se podesse aproveitar uma gta.

Desde Mavanda at s nascentes do riacho Moconco, cujo curso segui at 
confluencia com o Varea, a vegetao arbrea  esplndida, e no cimo dos
montes que marginam o riacho  tambem pomposa. Para lm do Varea 
ainda mais rica.

Desde que passei o Cuanza ouvia falar no rio Cuime, como o rio maior do
paiz dos Quimbandes, affirmao que me era confirmada pelos grandes
affluentes que lhe ia encontrando, o que me fazia arder em desejos de
lhe ir lanar uma vista d'olhos.

Do Cuanza a leste o planalto apresenta um aspecto muito differente do
que at ali.

As paizagens sam mais pintorescas e no apresentam a monotonia do Bih.
Os rios e ribeiros cavam os seus leitos mais fundos, tornando mais
sensiveis os accidentes do terreno. As margens dos rios e ribeiros lm
dos limites das cheias, j se apresentam cobertas de vigorosa vegetao
arbrea, e a vegetao arborescente forma barreiras impassaveis nas
florestas.

Na parte leste do paiz dos Quimbandes, a populao comea a rarear. O
sova de Cabango  ainda tributario do sova do Cuio ou Mucuzo.

Os costumes d'estes povos sam os mesmos dos Bihenos, salvo na
actividade, que  entre os Quimbandes substituida pela mais vergonhosa
preguia.

Os Quimbandes andam quasi nus, no trabalham, no viajam e no negociam.

Poucos t[~e]m espingardas, por no terem com que as comprar. J apanham
alguma cra, que os Bailundos lhes v[~e]m permutar a buzios e missangas,
mas isto em pequenissima escala.

A terra  cultivada pelas mulhres, e a sua produco  rica. O que mais
tenho visto nas plantaes  mandioca e ginguba.

Este paiz deve merecer particular atteno. Cortado com rios navegaveis
que vam affluir a um grande trao navegavel do Cuanza; tendo um clima
magnfico e ubrrimos terrenos, onde produz bem o algodo, a canna de
assucar, os cereaes e virentes pastagens, occupado por uma populao que
facilmente se submette, est nas melhores condies de um
desenvolvimento rpido.

No dia 24 de Junho passei o rio Onda, e fui acampar na sua margem
direita, trs milhas lm do meu campo anterior.

O rio Onda tem, em Cabango, 15 metros de largo por 5 de fundo, e vindo
de leste corre depois a N.O. a affluir ao Varea.

Depois de ter determinado a posio do meu acampamento, fui passear rio
acima, e encontrei bastante caa. Logo acima de Cabango, o Onda estreita
a 10 metros, mas profunda a 6, tendo uma corrente de 10 metros por
minuto; corrente que se estende at ao fundo; o que me foi denunciado
no s pela sonda, mas tambem pela inclinao que tomam as plantas que
vegetam no fundo; o que se v facilmente, por serem as guas muito
crystallinas e o fundo de area alvissima.

[Figura 39.--Ditassoa, peixe do rio Onda.]

N'este rio no vi outro peixe, a no ser um que os naturaes chamam
_Ditassoa_, e que  soffrivel.

Percorrendo as margens do rio, vi, a distancia, um grupo de rvores que
se destacava da paizagem, e que julguei serem palmeiras; mas
aproximando-me reconheci um lindo grupo de Fetus arboreos, da mais
elegante belleza.

As margens do rio sam cortadas verticalmente, e por isso apresentam
junto  borda a mesma profundidade que no meio.

Retirei do meu passeio, satisfeito com o que vira. O rio Onda era outro
rio navegavel, outra estrada natural, que encontrava n'este soberbo
paiz.

Ao chegar ao meu campo aguardava-me uma agradavel sorpresa.

O Doutor Chacaiombe foi a primeira pessa que veio comprimentar-me.

Eu, que julgava no mais vel-o, saudei-o com o maior jbilo, porque o
seu desapparecimento era uma nuvem ngra na minha viagem.

[Figura 40.--Fetus arbreos das margens do rio Onda.]

J por vezes tenho falado no Doutor Chacaiombe, e no disse quem era.

Este homem foi o adevinho que, em casa do filho do capito do Quingue,
me predisse as cousas mais agradaveis a respeito do meu futuro.

Accumulando as funces de cirurgio com as de adevinho, veio elle
estabelecer-se junto a mim no Bih, e no mais me deixou at que se
encarregou da misso de obter carregadores no Capco, d'onde julguei que
no mais voltaria.

Depois de muitos comprimentos, annunciou-me Chacaiombe que os
carregadores chegariam dentro de dois dias, e eu resolvi esperal-os.

O meu Augusto veio dar-me parte, de que o sova de Cabango viera
visitar-me, e se retirara muito contrariado por me no encontrar.

Mandei logo o pombeiro Chaquionde ao sova, pedir-lhe dois homens para
mandar a Mavanda buscar o barco que ali tinha deixado, com bem pesar meu
e da minha gente, que viram os servios que elle nos prestou nas
passagens do Cuqueima e do Cuanza.

Fui em seguida enxugar-me ao fogo, pois que cheguei do rio muito
molhado, e ainda me lembrava com horror do rheumatismo no Bih.

No dia seguinte, parti de madrugada para a caa, dirigindo-me ao norte,
onde o paiz  coberto de densas florestas. Depois de ter andado oito
milhas, encontrei o rio Cuime, a jusante da sua grande cataracta. Voltei
e j era noute quando alcancei o meu campo, extenuado de fadiga; mas
tendo feito boa caada, e tendo visto o rio que ardia em desejos de ver,
e que effectivamente  uma via importante, sendo como me assegurram os
naturaes, navegavel desde a sua grande cataracta at ao Cuanza.

No seguinte dia, voltei ao rio Onda, e ali sorprendeu-me a vista mais de
uma povoao que divisava ao longe. Ao approximar-me, conheci que eram,
no povoaes de prtos, mas sim de formigas brancas (_termites_), que
juntavam em grandes grupos as suas construces cnicas, cuja cr
alvacenta, devida  da argila que iam buscar ao sub-solo, lhes dava toda
a apparencia de aldeas de indgenas. De volta ao meu campo, encontrei o
sova de Cabango, que ali tinha chegado havia pouco, com uma comitiva de
60 homens e muitas mulhres.

[Figura 41.--Mulhr de Cabango com o ferro de coar a cabea.]

Esta gente, que se apresenta quasi em completa nudez, faz consistir todo
o seu luxo nos penteados. Variam-n-os ao infinito e sam elles
verdadeiras obras d'arte, e t[~e]m technologia propria.

Nas mulhres o cabello, que fica em forma de cimeira de elmo Romano,
chama-se _tronda_, e o que cae em trancinhas, dos lados, _cahengue_.

Os penteados masculinos, que formam tufos encrespados, chamam-se
_sanica_.

O sova offereceu-me um boi, e eu dei-lhe um presente com que elle
pareceu retirar-se satisfeito.

Chegram n'esse dia os carregadores que vinham do Capco e eram apenas
quatro, mas eram os sufficientes, sendo dous para o barco, e outros dous
para alliviar algumas cargas mais pesadas.

 noute os meus prtos e os da terra fizram grande batuque, que durou
at depois das 10 horas.

[Figura 42.--Homem de Cabango.]

O frio de noute continuava intenso, sendo que s 3 e meia horas da manh
d'esse dia, o thermmetro marcara 0C. A desigualdade entre a mxima e a
mnima era j muito extraordinaria, e grande a seccura da atmosphera,
como se ver dos boletins meteorolgicos.

O sova voltou a ver-me, e deu-me alguns esclarecimentos sobre o paiz.
Diz elle, que j no reconhece a soberania do sova do Cuio ou Mucuzo, e
se considera independente.

As matas t[~e]m muita cra, e os Bailundos v[~e]m ali permutal-a a buzio
(caurim) e missangas. Trabalham em ferro, e fazem machados grandes,
balas e facas.

Os machados de guerra, frechas e azagaias, v[~e]m-lhes dos Luchazes, e
as enxadas dos Ganguelas, Nhembas e Gonzellos.

[Figura 43.--Homem de Cabango.]

Este soba, que se chama Chaquiunde,  um pouco falto de probidade, o que
no admira muito. Veio, depois de larga conversa, fazer-me exigencias,
allegando ter-me dado um boi. Vi-me na necessidade de o pr fora do
acampamento; mas elle, vendo a aspreza com que eu o tratava, mostrou-se
contente, e explicou a sua impertinencia, desculpando-se com os seus
macotas, que o tinham aconselhado a fazer grandes exigencias, e que o
que pedia era para elles, pois que a elle eu tinha dado um presente
superior ao valor do boi.

Tendo chegado os dois Quimbandes com o meu barco, resolvi seguir no dia
immediato.

O dia 28 amanheceu frigidissimo, pois que o thermmetro, s 6 horas
marcava apenas dois graos acima de zero; e por isso pude s levantar
campo s 8 horas, indo acampar s 10 e 40 junto da margem do Onda, tendo
andado a E.S.E.

Precisava fazer pequenas marchas, porque os meus carregadores iam muito
pesados.

O terreno desde o rio Varea at ali  coberto de uma camada arenosa,
sendo o sub-solo formado por uma argila de cr cinzenta, variando desde
o branco sujo at ao azul acinzentado.

Junto ao leito do Onda o solo  formado por uma forte camada de humos,
que ainda assim assenta sobre o sub-solo da mesma argila acinzentada.
Junto ao rio vi alguns montes termticos, apresentando a cr azul
cobalto.

O terreno das clareiras  habitado por uma especie de termites
differente d'aquella que habita as florestas. As termites das clareiras
construem montes mamelados, apresentando o aspecto de cones truncados
cobertos por cpulas hemisphricas, tendo de 80 centmetros a um metro
de dimetro na base, por igual altura. Nas florestas formam ellas
verdadeiros cones, tendo de 4 a 6 centmetros de dimetro na base, por
25 a 30 centmetros de altura.

Sam muito approximados, e semelham um eriado de espinhos que parecem
brotar da terra.

Estas termites das florestas vam buscar os materiaes das suas
construces muito perto da superficie da terra, porque nas suas
architecturas figura como materia prima a terra vegetal que forma o solo
dos matos, e estas, apesar do cimento empregado, no t[~e]m a ligao e
dureza das termites das clareiras, que, empregando uma argila
consistente, formam verdadeiras petrificaes. Nas habitaes das
termites das clareiras, apesar do seu interior ser formado de clulas
como as de um favo de abelhas, a bala Snider no penetra n'ellas a mais
de 10 centmetros.

Como j disse, nas encostas que abeiram o Onda, estas formigas accumulam
as suas habitaes em limitados espaos, figurando, a quem de longe as
v, verdadeiras povoaes Quimbandes.

Por espao de uma hora, depois que deixei o acampamento, caminhei na
margem do rio em terreno descoberto; mas depois entrei em uma esplndida
floresta, cortada de riachos affluentes do Onda.

[Figura 44.--O Lago Liguri.]

Por vezes, a floresta tomava o aspecto de um d'esses grandes parques do
norte da Europa, onde uma viosa relva cobria completamente o solo. No
meio da mata os meus passos fram suspensos para contemplar uma das mais
pintorescas paizagens que tenho visto.

Uma vasta clareira era occupada por uma laga de goa crystallina e
fundo arenoso. rvores enormes assombravam o pequeno lago, que reflectia
os seus ramos de um bello verde-escuro, onde chilravam mil pssaros.

A relva descia dos lados at  gua, e s desapparecia para deixar logar
a uma ara alva e fina. Os prtos d'este paiz, que no sam muito poetas,
acham encanto n'este pequeno lago, a que chamam Lago Liguri, e em que ja
me haviam falado.

Tdos os riachos d'este paiz t[~e]m as margens apaladas, e na gua
estagnada ha um depsito de cr vermelha, que ao principio atribui 
presena de ferro; o que conheci ser engano, porque o ch verde feito
com aquella agua no a denunciava ferrea, pela formao do tanato de
ferro. S, talvez, por uma accumulao de animlculos infusorios se
produzam aquelles depsitos vermelhos.

Desde o Bih, observei, que em tdos os pontos onde ha guas estagnadas
abundam sanguesugas, mas n'estes crregos affluentes do Onda sam ellas
em maior nmero.

O rio contina a ter entre 10 e 12 metros de largo, por 4 a 5 de fundo,
tem corrente muito insensivel. Abunda a caa.

No dia seguinte, caminhei a S.E., sempre na margem direita do Onda, por
espao de trs horas, sendo difficil a passagem de uma emmaranhada
floresta, e mais difficil ainda o vadear o ribeiro Cobongo, de 4 metros
de largo por 1 de fundo, e cujo leito lodso embaraava o andar.

Depois de trs horas de caminho, afastei-me do Onda, seguindo a margem
do ribeiro Cangombo, que passei indo acampar na margem esquerda do
ribeiro Bitovo.

A 30 de Junho, segui a leste, aproveitando toda a margem do Bitovo, para
caminhar livre de floresta, e d'ali passei ao valle do ribeiro Chiconde,
cujo curso segui at ao Cuito, onde acampei. Fez-me profunda impresso o
contemplar as aguas do ribeiro Chiconde, correndo velozes para o Cuito.
At ali tinha encontrado guas correndo ao oceano Atlntico, e essas
guas, cujo murmurio acalentava o meu somno, eram como um lao que me
prendia  minha patria, indo cahir no mesmo mar que banhava o meu
Portugal. Se ellas podessem converter o seu murmurio em falas, que de
saudades, que de angstias que viram, podiam ir contar aos meus!

Ao deixar o Bitovo partio-se esse lao que me ligava  costa do Oeste.
Que pungente saudade no foi a minha!

Fazia um anno n'aquelle dia que eu fra dar o abrao de despedida a meu
velho pai, e recordou-me mais do que nunca que elle me deixara com o
presentimento de no mais me ver.

N'aquelle dia j assentava o meu campo no paiz dos Luchazes, tendo
deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo.

Viram alguns homens e mulhres das povoaes da margem direita do Cuito
ao meu campo; mas nada trouxram que vender, e ns precisvamos de
comida. Prometram contudo que no dia seguinte traziam algum Massango,
porque no cultivam milho nem mesmo Massambala.

Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca, feijo fradinho,
ginguba, mamona e algodo, tudo em pequena escala, apenas o necessario
para o consumo do cultivador.

Colhem bastante cra, j apanhada nas florestas, e j de colmeas que
collocam sobre as rvores, e onde os enxames v[~e]m habitar.

A cra  um gnero, que elles permutam por peixe sco do Cuanza, que os
Quimbandes ali vam levar. O rio Cuito ali no tem peixe.

Os povos Luchazes sam pouco viajantes, e apenas deixam as suas povoaes
para fazerem pequenas caadas aos antlopes, afim de obterem pelles para
se vestirem.

A pequena cultura  feita por homens e mulhres.

O sovta que governa as poucas povoaes da margem do rio Cuito  o
Muene-Calengo, que paga tributo a outro sova Muene-Mutemba, cuja
povoao no pude precisar bem onde fica.

[Figura 45.--Luchaze das margens do rio Cuito.]

Estes Luchazes trabalham em ferro e fazem todas as obras de que
precisam. O ferro  encontrado no paiz.

Uma cousa nica que vi entre os povos brbaros que visitei,  usarem os
Luchazes de isqueiros para fazerem fogo, com fusil e pederneira. As
pederneiras sam trazidas pelos Quibcos, ou Quicos, que as v[~e]m
trocar a cra; e os fuzis fabricados por elles sam de ferro forjado e
temperados em gua fria, onde os lanam estando o ferro rubro. A isca 
preparada com algodo misturado com a amendoa, pisada, contida no
endocarpio de um fruto chamado Micha.

As mulhres Luchazes usam cestos differentes dos empregados pelas
Quimbandes, e differentemente os trazem, porque sam suspensos da caba
por uma larga tira de casca de rvore, e caem sbre as costas.

Este modo de trazer os cestos impede-as de trazerem os filhos, como 
uso geral em frica, sobre os rins, trazendo-os ao lado.

No dia seguinte, viram de manh algumas mulhres trazer massango; mas
em to pequena quantidade, que mais fez sentir a fome que j tnhamos.

[Figura 46.--Mulhr Luchaze carregada.]

O rio Cuito tem no ponto em que o passei 7 metros de largo por 1 de
fundo, com uma corrente de 25 metros por minuto.

 affluente do Cubango, e na sua confluencia assenta a grande povoao
de Darico.

Nasce na planicie de Cangaba, onde t[~e]m nascente muito prxima o Cuime
e o Cuiba, affluentes do Cuanza, e o Lungo--ungo, affluente do Zambeze.

[Figura 47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil.]

No podendo obter vveres, resolvi seguir vante, e quando dava ordens
para levantar campo, chegava  margem do rio Cuito uma comitiva de
escravos, capitaneada por trs prtos.

Apoderei-me dos trs prtos, e soltei todas as escravas, pois que na
comitiva no iam escravos. Fiz com que entrassem no meu campo, e
disse-lhes, que eram livres, e se quizessem acompanhar-me eu as fazia
chegar a Benguella.

Disse-lhes, que nada receiassem dos seus guardas, e que se convencessem
de que eram livres. Declarram-me uma a uma, que no queriam a minha
proteco, e que as deixasse ir como tinham vindo.

D'onde eram? No m'-o sabiam dizer. Que fazer? Repugnou-me leval-as
comigo a despeito seu. Depois de algumas instancias, resolvi deixar
aquellas desgraadas seguirem o triste fado a que no queriam
esquivar-se.

Demais, seria elle melhor se me seguissem? No  facil, ainda que isso
se afigure na Europa, libertar uma leva de escravos, quando essa leva 
encontrada longe dos dominios Europeus.

Uma leva de escravos tem gente de naturalidades differentes, e muitas
vezes longinquas.

Se aquelle que os pode libertar os quizr restituir s suas familias,
tem de percorrer uma grande parte d'frica  busca dos lares dos seus
protegidos, o que  prticamente impossivel.

Abandonal-os e dizer-lhes:--_Ide-vos_-- fazel-os novamente escravos dos
primeiros povos que encontrarem.

Muitas vezes, aquelles desgraados, arrancados das povoaes em tenros
annos, perdram da memoria o sitio onde nascram, e falando j uma
lngua differente da que balbuciram crianas, e esqucram longe dos
seus, t[~e]m por sua patria a terra da escravido, e no conhecem outra.

Hje, depois que os navios de guerra, Portuguezes e Inglezes, cruzam no
Atlntico e no ndico, e impedem a exportao do homem, a escravatura 
gnero de permutao apenas no interior, e o seu systema tem-se
modificado.

O escravo apparece em frica por dois modos. Ou  o prisioneiro de
guerra, ou  o gnero de pagamento de dvida pelos parentes.

Outrora fazia-se a guerra expressamente para se fazer o prisioneiro, e
infelizmente ainda hje se faz, posto-que em menor escala.

O ente humano dado, pelo parente proletario, em pagamento da dvida
contrahida, ou da multa decretada,  vulgar.

No caso de guerra, outrora todo prisioneiro servia para escravo, porque
lhe no era facil, adulto que fsse, voltar da Amrica  frica. O
Atlntico era garantia segura.

Os adultos mesmos, podendo logo produzir um trabalho maior, eram
preferidos ao adolescente e  criana.

Hje no  assim. O homem feito foge, e tem sempre na ida o voltar ao
ninho d'onde o arrancram, e essa esperana no o abandona em quanto
pisa o continente onde tem seu paiz.

Disse-me a mim um negreiro:--_sam muito fugitivos_.

A criana, o adolescente e a mulhr, offerecem ao commerciante maior
garantia, porque, espritos mais irresolutos, no ousam encarar o
pensamento de atravessar paizes enormes, para voltar ao seu.

Tem por isso mais valor, hje, na frica Austral, a criana e a mulhr,
e nas levas de desgraados que infelizmente ainda arrastam os duros
grilhes a travez do solo Africano,  raro vermos um homem feito.

Uma vez que falei na escravatura, direi ainda mais algumas palavras
sobre ella.

Portugal, a Inglaterra e a Frana, t[~e]m, nos ltimos tempos, empenhado
uma verdadeira luta contra o commercio da carne humana, e as
modificaes feitas nas antigas praxes Americanas, concorrram para que
esse commercio diminuisse consideravelmente, e se modificasse
essencialmente na frica Austral.

Contudo, eu atrevo-me a dizer, que no ser ainda a gerao que ora
comea, aquella que ver desapparecer o escravo do solo Africano.

O mesmo principio que imperava outrora na Amrica, fazendo colonisar com
os escravos, existe e existir por muito tempo em frica.

Os governos prtos tambem t[~e]m a sua poltica colonisadora, e entre
elles e os logares de procedencia do escravo, falta-nos um Oceano, onde
possamos fazer singrar as nossas esquadras, e proteger os mesquinhos com
as nossas baterias d'ao. S os principios civilisadores poderm fazer
cessar um dia a escravido; mas infelizmente esse dia est longe, porque
os argumentos de que se servem esses principios, sam menos eloquentes e
menos enrgicos do que os projecteis cylindro-cnicos o fram no
Atlntico e no ndico.

Eu tenho para mim, que a abolio da escravatura, no interior da frica
Austral hade existir de facto, quando deixar de existir a polygamia
entre os prtos; porque, ainda que os principios civilisadores faam
desapparecer o escravo, a sensualidade asinina do negro far subsistir a
escrava.

Isto no quer dizer, que eu descreia de que se possam dar alguns rudes
golpes de immediato effeito no reprovado commercio; mas sim que penso na
difficuldade do seu completo exterminio. J vai longa a divagao,
voltemos ao assumpto.

Dizia eu, que as raparigas no quizram ser livres, e seguram os seus
conductores.

Eu preparei-me tambem para partir, forado sobre tudo pelas imperiosas
necessidades dos estmagos, que em viagens de explorao governam tanto
e mais do que as sociedades de Geographia.

Segui quasi a Leste, e depois de marcha de duas horas, avistava uma
povoao, e acampava na margem de um ribeiro perto d'ella. Sube que
ribeiro e povoao se chamavam Bembe.

Quando comeava a faina de cortar madeira para acampar, vi de repente os
meus prtos dispersarem-se em varias direces, fugindo espavoridos. No
atinava eu com a causa de tal terror, e dirigi-me ao sitio onde elles
trabalhavam, a investigar o que seria. No logar onde eu tinha mandado
construir o campo, milhes da terrivel formiga chamada pelos Bihenos
Quissonde, sahiam da terra, e d'ella fugram os meus homens. A formiga
Quissonde  uma das mais temiveis feras do continente Africano. Dizem os
naturaes, que ataca e mata o elephante, introduzindo-se-lhe na tromba e
nos ouvidos.  inimigo que se no pode combater, e atacando aos
milhares, s se lhe pode escapar na fuga. O Quissonde tem entre 6 e 8
milimetros de comprido, cr castanho-clara muito luzida.

As mandbulas d'este feroz hymenptero, sam fortissimas e de grandeza
desproporcionada.

Da sua mordedura no homem sahi logo um jacto de sangue.

Os chefes conduzem as suas phalanges a grandes distancias, e atacam todo
animal que encontram no seu caminho.

Por mais de uma vez, durante a minha viagem, tive de fugir aos ataques
d'este feroz insecto. Algumas vezes vi nos caminhos centenares d'ellas
esfregadas aos ps, levantarem-se, e continuarem a sua marcha, primeiro
lentamente, depois com a sua celeridade ordinaria, tanta  a sua
vitalidade.

Vem a propsito falar aqui de outras formigas mais vulgares do que o
Quissonde.

Uma  pequena, de trs milimetros a quatro de comprido, negra e como o
Quissonde armada de fortes mandbulas. Chamam-lhe os Bihenos Olunginge.
 o maior inimigo das termites, contra as quaes dirige terriveis
ataques, e que vence apesar da desproporo do seu tamanho.

Estas pequenas formigas sam um verdadeiro beneficio, pela enorme
destruio que causam nas larvas, nymphas e ovas das termites.

Em alguns pontos encontrei nas habitaes das termites uma grande
quantidade de formigas enormes, atingindo o comprimento de 20
milimetros, que vivem em communidade com os abundantes nevrpteros da
frica Austral.

Estas formigas, supponho eu, que, pouco dadas ao trabalho de construir
habitaes, vam procurar nas construces termticas, abrigo e morada.

Nenhum d'estes pequenos insectos ataca o homem lm do Quissonde, que o
ataca sempre, e ainda nas margens do rio Bembe fez dispersar os meus
carregadores.

Tive pois de ir longe escolher outro sitio para acampar.

Voltram da povoao do Bembe alguns homens que ali tinha enviado, com a
triste nova, de que o sovta dera ordem para nada me venderem.

A fome j se fazia sentir muito, caa no apparecia, e apenas tivmos
n'esse dia um punhado de massango, que tanto coube a cada um de ns na
diviso que fiz, do pouco que obtivmos na margem do rio Cuito.

Ali o paiz j era completamente desconhecido a todos, e nenhumas
informaes podiamos colher do gentio esquivo.

Reuni os meus pombeiros, e fiz-lhes ver a grande necessidade de
alargarmos a marcha no dia seguinte, at encontrarmos povoaes mais
hospitaleiras.

Elles conviram na imperiosa necessidade, e apesar de muito carregada a
comitiva, e enfraquecida pela falta de alimento, decidram animar a sua
gente para os fazer ir avante. Havia dous dias que encontrava vestigios
de ter sido outrora povoadissimo este paiz, pelas ruinas, j antigas, de
muitas povoaes que encontrei.

O que determinaria este abandono?

Seria a devastao pela escravatura? Seria a insalubridade do clima?
Seria a falta de caa? Seria a m qualidade do terreno?

No o pude saber; mas a primeira hypthese parece-me a mais admissivel.

O facto era, que essa falta de populao inesperada, nos creou o maior
embarao, e eu n'essa noute soffri horrivelmente das torturas da fome.

No dia immediato, tive logo de manh o transtorno de um carregador
doente; mas o meu Doutor Chacaiombe houve-se com toda a bizarria e
offereceu-se para levar a carga.

Na occasio de partir, apparecram uns enviados do sovta do Bembe,
pedindo-me alguma cousa para elle; fiz-lhes ver o mao procedimento do
sovta para comigo, e mandeios pr fora do campo.

Segui s 8 horas e 40 minutos. O rio Bembe, que tinha a vadear, tem dois
metros largo por um de fundo e corre a S.O. para o Cuito.

A sua margem direita  montanha ngreme; mas a esquerda, depois de uma
trincheira quasi vertical, de 10 metros, estende-se, plana e paludosa,
por um kilmetro.

A marcha atravez do pal levou uma hora, e fatigou muito a faminta
caravana.

O terreno em seguida  levemente inclinado e coberto de uma vegetao
arborescente difficil de transpor. Depois de outra hora de fatigante
caminhar, comecei a descer uma encosta, a cujo sop se desenrolava uma
planicie, occulta por densa floresta. Desci uns 50 metros para alcanar
a orla da mata; mas tive logo de alterar o meu rumo. A floresta era
impassavel.

Aprovetei um difficil trilho de caa, que ora me levava a Leste, ora a
Noroeste, e depois a Sueste, at que o terreno me faltou de repente.

Um sulco profundo de cem metros, cavado pelas guas de um ribeiro,
tolhia-me a passagem.

A difficuldade do caminho, o peso das cargas, e a fraqueza dos meus
carregadores, obrigram-me a acampar ali.

A fome j se fazia sentir em todos os seus horrores. Uma esperana
todavia me animava; eu tinha visto vestigios de caa.

Pouco depois de chegarmos, matou-se no campo uma cobra, que me disse o
meu doutor ser muito venenosa; mas haver contraveneno  sua mordedura.
Tinha um metro de comprido, e era cr de telha no dorso, tendo o ventre
um pouco mais claro. Os olhos eram verdes muito brilhantes e a lingua
bipartida.

A bca era armada de quatro dentes dispostos como as presas de um co.
Ahi ficam os signaes d'ella para aquelles que pisarem um dia aquellas
paragens.

Era preciso caar, e eu, logo que fiz as minhas observaes, parti para
um lado, e mandei em outras direces os meus prtos Augusto e Miguel,
os nicos que t[~e]m algumas manhas de caadores na minha comitiva.

Encontrei perto do campo um grande rasto de bfalos e segui-o.

No se faz ida na Europa do que seja caar para comer.  um prazer
horrivel.

Deve ser assim o apontar  banca, do jogador que precisa ganhar uma
certa quantia para pagar uma dvida de honra, e que mistura o febril
prazer do jgo, com a cruciante angstia da incerteza. Os olhos com que
elle devora as cartas que lentamente vam escorregando por entre os dedos
do banqueiro; os olhos que queriam penetrar atravez da carta opaca para
anticipar o desfecho da agonia da dvida, no fim da qual est a salvao
ou a morte suicida; devem ter a mesma expresso dos olhos do caador
faminto, que perscruta a floresta em busca da caa que  para elle
questo de vida ou morte.

Ha contudo uma differena.

 que o caador faminto pode invocar em seu auxilio a Divindade, pode
balbuciar uma spplica a Deus.

Ao passo que o caador por prazer segue descuidoso uma pista, cheio de
felizes emoes ao avistar o gamo que procura; caminha
desassombradamente, sabendo que no sitio ajustado, um cozinheiro prepara
ptimos manjares; que pra aqui e lm para contemplar uma flr mimosa,
uma paizagem agradavel. O caador por necessidade s pensa na caa que,
matando-a, lhe matar a fome.

Ao passo que um caminha curvado para chegar ao alcance do tiro, o outro
deita-se de rastos, no sente os espinhos que lhe razgam as carnes, e
por umas palhas que faz tremer, treme tambem de dar um alarme, e caminha
devagar, devagar, reduzindo a distancia para que o tiro no falhe, com o
corao a palpitar, e com o estmago a bradar em contorses pungentes.

Deve ser assim o caar do tigre e do leo. O rasto que eu segui levou-me
ao fundo do precipicio onde corre o pequeno crrego, e por muito tempo
segui a sua margem direita, passando depois  esquerda, onde vi os
bfalos, que caminhavam pastando na orla de uma densa floresta virgem.

Estavam a 500 metros de mim.

Comeou ento esse fatigante caminhar de rjo, a carabina a tiracollo
como que nadando n'um mar de palha curta. De quando em quando levantava
a caba descoberta para espreitar a minha presa, e prosseguia n'aquelle
caminhar difficil cheio de commoes. Os bfalos pastando, ora
caminhavam ora paravam, sempre na orla da mata. Se paravam que alegria,
se andavam que desespro o meu!

Na mente phantasiava eu chegar ao acampamento e dizer, "vam  margem do
crrego, e l encontrarm caa para matar a fome."

Era uma mistura de prazer e de angstia que me causava a incerteza
horrivel.

De repente os animaes desapparecram na floresta em apressado trotar.

O que seria? Terme-hiam presentido?

Levantei-me e segui o rasto com a maior presteza; mas entrando na
floresta, o meu desespro subio de ponto.

Na mata virgem o solo coberto de musgo espesso no deixa perceber um
rasto ao lho mais experimentado.

Parei desanimado. Tudo o que tinha phantasiado cahio como sonho fgueiro
ao impertinente despertar.

Ainda fui longe sem nada perceber de caa, e perto das 6 horas da tarde
recolhi ao campo, prostrado de fadiga e fome, tendo andado inutilmente
20 kilmetros!

Ao entrar no acampamento, achegou-se a mim o meu Augusto, mostrando-me
radiante de alegria um soberbo antlope que tinha morto! Era uma enorme
Malanca (_Hippotragus equinus_) da corpulencia de um boi.

Fiz immediatamente a partilha pelos meus carregadores e por mim mesmo, e
depois de um longo jejum, que nem Deos me leva em conta por ser
involuntario, tive um opparo jantar, adubado pela fome, que faria
inveja aos mais pichosos gastrnomos.

Miguel, o meu bravo caador de elephantes, tambem veio comprimentar-me;
mas revelava-se-lhe no rosto a mais profunda tristeza.

Logo que sube a causa do desespro do meu valente, no pude deixar de me
consternar muito.

Durante a ausencia de Miguel, a minha cabrinha Cra entrou na sua tenda,
e comera-lhe o grande feitio que elle possuia para matar os elephantes.

Consistia o valioso talisman em um dente humano cahido do tecto de uma
casa velha, embrulhado em palha e trapos por um cirurgio de grande
fama, que lhe tinha incutido as maiores virtudes; sendo facilimo ao
portador de to extraordinario objecto, o encontrar e matar elephantes
sem o menor perigo. Miguel estava inconsolavel; mas eu consegui
tranquelizal-o, promettendo-lhe maior feitio do que o perdido, para o
mesmo fim.

E no o enganava, pois que a boa carabina que tencionava dar-lhe, logo
que chegssemos a paiz de elephantes, valia bem por tdos os dentes
humanos embrulhados em palha e trapos.

Depois de comer, reunram-se em trno da minha fogueira os meus
pombeiros, e contram-me, que durante a minha ausencia, toda a gente
tinha ido ao mato, seguindo uns os _indicators_, haviam colhido bastante
mel, sendo que outros haviam feito larga colheita de uma fruta chamada
pelos Bienos _atundo_, semelhante  goiaba, mas produzida por uma planta
herbacea de pequeno talhe. Os pednculos d'esta fruta partem do caule
junto  terra, e o fruto cresce semi-enterrado. O seu sabor  agradavel,
no julgando eu que seja muito nutriente.

[Figura 48.--Atundo, Planta e Fruto.]

No dia seguinte era preciso seguir avante, e por isso, apesar do frio,
levantmos campo muito mais cdo que do custume.

Segumos a S.E., encontrando, depois de duas horas de marcha, um rio
difficil de transpor. Tinha 4 metros de largo, por 4 de fundo, e
violenta corrente.

Mandei cortar grandes rvores na floresta, e pouco depois estava lanada
uma ponte e a comitiva passava. Pouco a jusante do sitio em que passei o
rio, affluia a elle um riacho vindo de Leste. Segui a margem direita
d'este riacho, e uma hora depois, acampava perto de duas povoaes que
avistava.

Logo que chegmos, viram espreitar-nos alguns gentios, com quem pudmos
falar a pedir provises. Pouco depois, j apparecia no nosso campo algum
massango que pretas quasi nuas vinham vender. Comprando a missanga sem
regatear, em breve tivmos alimentao sufficiente para aquelle dia.

Em breve se estabelecram relaes cordiaes entre aquelle gentio e ns.
Por elles soubmos, que o ribeiro onde acampmos na vspera se chamava
Licctoa, o rio onde n'aquelle dia havamos lanado a ponte
Nhongoaviranda, e o crrego em cujas nascentes estvamos acampados
Cambimbia.

As duas povoaes que ficam na margem esquerda do ribeiro sam Luchazes,
aquella que ficava a N.O. do meu campo era de Quicos ou Quibcos. Fram
estes ltimos que viram ao meu campo e com quem estava em relaes.

Comi mais de um litro de massango cozido em gua, no me foi
desagradavel tal alimento.

Depois de ter saciado o appetite, calculei a posio em que estaria
n'aquella noute o planeta Jpiter, no momento do eclipse do 1^o satlite
que eu precisava observar.

Eu estava acampado n'uma floresta copada, que no me deixava ver os
astros.

Logo que achei pelo clculo a posio do planeta no momento desejado,
escolhi o logar onde assentaria o meu telescopio, e mandei rasgar na
floresta um claro sufficiente para poder fazer a observao.

Houve grande faina; e os meus bravos Bihenos, machado em punho,
conseguram em duas horas razgar uma abertura por onde eu podesse
dirigir o meu culo.

As mulhres dos Quicos ou Quibcos que viram ao meu campo traziam os
filhos ao lado como as Luchazes, suspensos do hombro opposto por uma
faixa de casca de rvore.

lm de massango, trouxram ellas para vender umas raizes tuberculosas
chamadas Genamba, de que os meus pretos gostavam muito e eu nada. No
cultivam o milho, e alimentam-se de massango.

O luxo dos penteados no se encontra entre os Quibcos ou Quicos, e o
seu vestir  mais miseravel do que entre os Quimbandes. As mulhres
andam nuas!

Causar de certo estranheza ao leitor, que eu, estando em pleno paiz dos
Luchazes, lhe esteja falando em Quicos. Se isso o admira, no me
sorprendeu menos a mim o caso de os encontrar ali.

A emigrao constante dos Quicos e a colonizao das terras Luchazes
por elles,  um facto.

O paiz dos Quicos ou Quibcos (que lhes chamam indifferentemente) 
collocado ao norte de Lobar, nas vertentes leste da serra da Mozamba.
Livingstone fal-o cortar pelo parallelo 11 sul, e pelo meridiano 20
leste de Greenwich.

Os Quicos sam viajantes, caadores, e ousados. Alguns, descontentes com
o seu paiz, emigrram para o sul, atravessram o Lobar, e viram
estabelecer-se na margem direita do Lungo--ungo, em paiz Luchaze.

No foram hostilizados, e atraz d'estes seguram-se outros, sendo
constante hje a emigrao. No parram ali, e seguram muitos
emigrantes mais ao sul, indo at ao Cubango. A maior parte da povoao
de Darico  de Quicos.

Perguntando-lhes eu, qual o motivo de abandonarem o seu paiz?
dissram-me, que a doena e a falta de caa os afugentava de l.

Estes Quicos com quem entrei em relaes, estavam estabelecidos ali
havia pouco, e no lhes sobravam as provises para venderem; mas
dissram-me elles, que

[**Nota de editor: No original h um salto da pgina 235  237. Trata-se
de um erro de impresso.]

[**Transcriber's note: In the original book there is a gap between pages
235, 236 and 237... it is a printing error.]

No alto da serra ha um esplndido panorama de N.E. a N.O. V-se tdo o
curso do rio Cuango, affluente do Lungo--ungo pelo sul.

[Mappa 5.--Disposio da gua em Cangala]

Avista-se a bacia d'este desde Cangala at  confluencia do Cuango, e
bem assim as bacias superiores dos rios Cuito, Cuime e Cuiba.

O golpe de vista  sorprendente.

Na vertente de oeste da serra Cassara-Caira a vegetao arbrea 
esplndida, na cumiada enfzada e pobre; na vertente leste a vegetao
arborescente e herbcea verdadeiramente rica.

Esta vertente leste  chamada Bongo-Iacongonzlo.

Fui acampar na nascente do ribeiro Canssampa, affluente do Cuango, e
durante tdo o trajecto d'aquelle dia no encontrei gua.

Junto ao meu campo, na outra margem do ribeiro, ficavam cinco povoaes
Luchazes.

Estas cinco povoaes sam governadas por um sovta que obedece ao soba
Chicto, cuja povoao  na confluencia do Cuango com o Lungo--ungo.

As duas povoaes Luchazes que ficam no Cambimbia obedecem ao
Muene-calengo do Cuito.

O sovta Cassangassanga veio visitar-me, e trouxe-me de presente um
cabrito. Dei-lhe alguma missanga com que se retirou satisfeito,
promettendo mandar-me algum massango n'aquelle dia, e guias no immediato
para me conduzirem a Cambuta, onde me disse eu encontraria muitos
vveres. Cumprio as suas promessas, no s mandando o massango n'aquelle
dia, como os guias no seguinte.

O massango, dividido, deu uma pequena rao a cada um de ns; o cabrito
no era cousa de vulto para tanta gente, e francamente dormmos com
fome.

Ali cultivam massango, pouca mandioca, menos feijo, bastante mamona e
algum lpulo.

Trabalham o ferro com bastante perfeio, sendo o minerio encontrado no
paiz.

No dia 6 de Julho, parti a leste, e depois de trs horas de caminho, na
ltima das quaes segui a margem do ribeiro Andara-canssampoa, acampava
em frente da povoao de Cambuta, junto ao rio Bicque, que corre a N.E.
para unir-se ao Cutangjo, affluente do Lungo--ungo. O paiz tem uma
certa agglomerao de populao, que obedece ao sova de Cambuta. Ali
pude obter bastante massango, nico alimento que cultivam em abundancia,
e por isso nico que me viram vender.

[Figura 49.--Povoao de Cambuta, Luchaze.]

Nunca vi to grande quantidade de rlas como ali, e eu matei muitas,
carregando a arma com pedrinhas midas das margens do ribeiro.
Adoecram-me alguns carregadores com papeira, e outros com gastrites, de
certo provenientes da m alimentao.

Entre as raparigas que viram ao meu campo vender massango, notei
algumas muito galantes e muito esbeltas.

Andam quasi nuas, e mal se lhes percebe, no uma folha de vinha, mas um
pequeno farrapo de casca de rvore.

Ali homens e mulhres sem excepo t[~e]m os dentes incisivos da frente
cortados em tringulo, de modo que estando a dentadura unida, apparece
um lozango vazio, formado por os dois tringulos cortados na frente em
dentes de ambas as maxilas.

O frio continuava a ser intensissimo durante a noute, e s junto de
grandes fogueiras podiamos repousar.

[Figura 50.--Mulhr Luchaze de Cambuta.]

No dia seguinte, continuavam as doenas. Um caso bem para notar era,
serem s atacados os Bihenos, e resistirem os negros de Benguella, no
to habituados como aquelles s vicissitudes da vida sertaneja.

De manh, matou-se perto do acampamento uma ave de rapina, que a minha
vista pouco experimentada no soube collocar em algum dos gneros em que
se divide a familia dos rapaces diurnos, querendo, na minha ignorancia
em tal assumpto, que fosse um Gypeta, ainda que julgo ser nica a
especie do gnero conhecida.

O meu pssaro parecia-se enormemente com o gypeta, excepto nas dimenses
que as tinha muito menores, pois contava apenas, de ponta a ponta de
aza, 1 metro e 75 centmetros.

Fsse o que fsse, foi saboreado pelos Bihenos, que em materia de
gastronomia, desde o homem at ao abutre, passando pelo crocodilo,
leopardo e hyena, de tudo comem sem escrpulo.

[Figura 51.--Homem Luchaze de Cambuta.]

N'esse dia, como na vspera, o tempo que me ficou livre das observaes,
empreguei-o a percorrer os arredores, levantando, como costumo, uma
planta grosseira dos terrenos que avisto, tendo marcado tres milhas ao
sul da nascente do Biceque, a nascente do rio Cuanavare, grande
affluente do Cuito. Junto da nascente do Cuanavare, estive na povoao
de Muenevinde, governada por uma dama, cujo marido que se chama Ungira,
no tem voz activa na governao.

Eu nunca fui amante de feijo-fradinho, mas  noute, de volta ao campo,
tive um pequeno presente d'elle, e comi-o com devorador appetite.

[Figura 52.--Objectos fabricados pelos Luchazes.

1 e 3. Machados. 2. Frecha. 4, 4. Ferros de frecha. 5. Enxada.]

O sova de Cambuta estava ausente em caada, e fizram-me as honras da
casa as suas damas, com quem conservei as mais cordiaes relaes,
obtendo d'ellas, no s boa proviso de massango, mas ainda 12
carregadores para elle, e dois guias para me encaminharem s nascentes
do Cuando e do Cubangui, affluente d'aquelle, rios que me diziam no paiz
serem os _maiores do mundo_.

Permittam-me aqui agora os meus leitores duas palavras, a respeito das
ltimas do perodo anterior que sublinhei.

O rio Cuando, de certo o maior affluente do Zambeze, no foi conhecido
por mim pelas informaes dos Luchazes de Cambuta; e eu, tendo
sustentado a minha marcha do Bih at ali, uma grande parte do caminho
fra e muito ao norte do trilho das caravanas Bihenas, sabia o que
fazia, e onde deveria pouco mais ou menos ir encontrar as nascentes de
to grande arteria. Devia isso s informaes de Silva Porto, que j
tinha descido aquelle rio do Cuchibi at Liniante, levando cargas em
canas.

Silva Porto tinha-me assignalado as nascentes d'aquelle rio, que elle
conhecia nos seus teros medio e inferior, pouco mais ou menos no ponto
em que as encontrei, e isto por informaes colhidas por elle do gentio.

Se Silva Porto podesse dar aos pontos que conhece da frica Austral, as
posies traduzidas em longitudes e latitudes, enchiam-se facilmente os
espaos em branco que ainda existem na carta d'aquelles paizes.

Assim, pois, partindo de Cambuta a buscar as nascentes do Cuando, eu
cumpria o itinerario que havia traado, e ia resolver um dos problemas
que mais desejava resolver.

As noticias detalhadas ia eu colhendo em caminho, as geraes essas j as
tinha aprendido de Silva Porto.

Dissram-me os meus guias, que amos atravessar, para lm do rio
Cutangjo, uma regio despovoada, e por isso era mistr fazer provises
para o caminho. Foi essa informao que me levou a comprar mais
massango, e a pedir 12 homens, s mulhres do sova.

Parti no dia 9 de Julho s 9 da manh, e trs horas depois passava o rio
Cutangjo, e acampava na sua margem direita, junto da povoao de
Chaquissengo. O Cutangjo tem ali 4 metros de largo, por 1 de fundo, e
corre a N.N.E. para o Lungo--ungo. Vi que nas plantaes havia alguma
mandioca e muito massango--o terrivel massango, que tanto me havia de
perseguir em frica!

Algodoeiros e mamona cultivam muito estes Luchazes.

[Mappa 6.--De Cambuta ao Cubangu]

Trabalham o ferro, que tiram das margens do Cassongo, e as suas obras
sam muito perfeitas.

Quasi todos os Luchazes t[~e]m barba por baixo do queixo, e pequeno
bigode. Vai ali desapparecendo o luxo dos penteados extraordinarios que
at ali faziam a minha admirao.

[Figura 53.--Mulhr Luchaze do Cutangjo.]

Os homens usam um largo cinto de couro cru, com fivelas feitas por
elles; cobrem com pelles a sua nudez, e abrigam-se do frio com licondes,
que extrahem de rvores das florestas.

No fabricam panellas, e as que usam vam obtel-as dos Quimbandes.

Fazem manilhas, com cobre, que ali lhes v[~e]m permutar a cra os
Lobares, sendo que estes o obt[~e]m da Lunda.

[Figura 54.--Cachimbo Luchaze.]

Fui ver a povoao de Chaquicengo, que, como todas do paiz,  muito
bonita e de um grande aceio. As casas sam feitas de troncos de rvores,
de 1 metro e 20 centmetros de altura, que tanto  a altura das paredes.
O intervallo da madeira, que  encostada uma  outra,  cheio, em umas
de barro, em outras de palha. Os tectos sam de clmo, e como as armaes
sam feitas de varas muito finas, fazem uma curva, tomando um aspecto de
tectos Chinezes. Os celeiros sam collocados muito altos sobre uma
armao de madeira, todos de palha, e de cobertura movel; pois  preciso
levantal-a para ir dentro buscar os mantimentos. T[~e]m accesso por uma
escada de mo, e no sam mais do que um cesto gigantesco  prova d'gua,
em que  tampa um tecto cnico.

[Figura 55.--Capoeira dos Luchazes.]

As capoeiras sam umas pyrmides quadrangulares de varas d'rvore,
assentes em quatro pes ou estacas muito altas, para as pr ao abrigo dos
pequenos carnvoros.

No centro da povoao ha, como no Huambo, uma especie de kiosque para
conversa.

Ali, em trno de uma fogueira, alguns homens preparavam arcos e frechas.
Recebram-me muito bem, e viram-me offerecer uma bebida preparada com
gua, mel e farinha de Lpulo, que misturam em uma cabaa onde a deixam
fermentar. Chamam-lhe Bingundo, e  a mais alcohlica que tenho
encontrado.

Estes Luchazes usam uma armadilha para apanhar pequenos antlopes e
lebres, que  engenhosa, e bem so comprehende em vista do desenho.
Chama-se Urivi.

[Figura 56.--Urivi, Armadilha para caa.]

Depois de um passeio at s nascentes do Cutangjo, voltei ao meu campo,
acompanhado por grande nmero de homens e mulhres que no cessavam de
me admirar.

Entre esta gente das margens do Cutangjo vi muitos typos masculinos de
uma fealdade repugnante.

Estes povos, no s apanham muita cra nas florestas, mas ainda collocam
nas rvores innmeras colmeas que fabricam com uma grossa casca de
rvore ligada com pinos de pao.

[Figura 57.--Luchaze do Cutandjo.]

[Figura 58.--Objectos Luchazes.

1. Bainha de faca. 2. Cesto. 3. Travesseiro de pao. 4. Cortio
d'abelhas.]

No dia 10 de Julho, parti s 8 da manh, e meia hora depois, apesar dos
guias, andava perdido em uma floresta impassavel, d'onde pudmos a muito
custo sahir s 10 horas. Ento encontrmos terreno limpo de arbustos,
mas coberto de rvores gigantes, que nos abrigavam do sol; prazer que
durou pouco, porque, meia hora depois, j andvamos outra vez mettidos
em mato to emmaranhado que nos deu verdadeiro trabalho a transpor.
Emfim, s 11 e 20 minutos, descia eu a vertente suave de um cmoro, em
cujo sop a gua limosa de uma pequena laga era cercada por um tapte
de verdejantes gramneas.

Ao chegar ali, dei um tiro em um animal que creio se chama _Leopardus
jubatus_, cuja pelle veio augmentar a minha cama felina. Esta pelle, que
foi minha cama at Pretoria, offereci eu ao Doutor Bocage.

Este leopardo jubatus bastante raro, porque em toda a minha viagem vi
apenas dois, v muito pouco de dia, supponho eu, e supponho isto por ter
notado em ambos, que, ao deparar com elles, fitavam as orelhas para o
meu lado, em que sentiam rumor, como querendo perceber o perigo mais
pelos orgos auditivos do que pelos visuaes.

Abeirei-me da laga, e determinei a sua posio, tendo mandado construir
o meu campo uns 100 metros ao sul, sobre a encosta, ficando uns 30
metros sobranceiro ao pal, que mais pal do que laga  o charco onde
nasce o grande affluente do Zambeze.

Quando trabalhava fui acommettido de um repentino e violento accesso de
febre que me prostrou por trs horas. Quando voltei a mim, no pude
deixar de sorrir. Estava coberto de amuletos, tendo ao pesco um
sem-nmero de cornos de pequenos antlopes, cheios das mais virtuosas
medicinas. Uma pulseira de dentes de crocodilo enlaava-me o brao
direito, e dois enormes cornos de malanca pendiam de dois paos espetados
dentro da barraca.

Os meus prtos, durante a febre, no se haviam poupado a cuidados, e
ouvido o doutor Chacaiombe, tinham posto tudo aquillo sobre mim, com a
mais inteira f no resultado.

Uma forte dose de quinino, que tomei, determinando o meu prompto
restabelecimento, veio corrobar mais as virtudes dos amuletos, que tudo
a elles foi attribuido.

Os meus prtos Augusto e Miguel, tinham ido caar; mas voltram sem
nada, tendo encontrado alguns leopardos. Vram contudo muitos rastos de
caa grossa.

No dia seguinte de manh, levantei uma grosseira planta do pal,
rectifiquei a minha posio, e levantei um pequeno padro, construido de
barro, dentro da barraca das observaes, onde enterrei um frasco que
fra de quinino, perfeitamente rolhado, contendo um papl, onde, de um
lado, por baixo do nome d'El-Rei, escrevi os nomes dos membros da
commisso central permanente de geographia, e do outro, as coordenadas
do ponto, e a data.

Depois do meio-dia, os guias Luchazes fram mostrar-me a nascente do rio
Queimbo, affluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes, 6
milhas geogrphicas a S.O. do pal da nascente do Cuando.

Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos de suas casas, e
queixavam-se muito do frio. O paiz  despovoado, e deve ter muita caa,
porque d'ella haviam rastos, continuando a apparecer leopardos, que
d'ella sam tambem indicio certo. Ns no vimos nenhuma. Era preciso
seguir avante, porque os mantimentos desappareciam rpidamente, e
precisvamos alcanar as povoaes Ambuelas, para escapar  fome.

Na manh de 12 de Julho, por um frio de dois graos acima de zero, mandei
levantar campo e preparar para partir; no conseguindo deixar o
acampamento antes das 8 horas.

[Mappa 7.--Pal da nascente do Cuando]

Milhares de periquitos esvoaavam nas matas e faziam uma chiada
infernal.

Segui a margem direita do Cuando por duas horas, e em seguida, por
indicao dos guias, passei  margem esquerda sobre uma ponte que
improvismos de troncos de rvore.

Ali j o rio tinha dois metros de largo por dois de fundo, e violenta
corrente.

Ao passar o rio, avistei uma manada de gnous, a que no pude atirar.

Acampei ali. As margens do Cuando sam montanhosas, e desde a nascente
at quelle ponto t[~e]m uma faxa apalada de 30 a 40 metros, que deita
em toda a extenso muita gua, que vai engrossar o rio.

Este facto d-se com quasi todos os rios d'aquellas regies, que recebem
por aquelle meio enorme quantidade de guas, de modo que, sem a elles
affluirem outros, sam navegaveis a algumas milhas das pequenas
nascentes.

Na margem direita do rio vi aqui e lm algumas barreiras verticaes
estratificadas, apresentando faxas cr-de-rosa, brancas e azues.

No dia seguinte, levantei s 8, e caminhei at ao meio-dia, indo acampar
junto de um crrego affluente do Cuando.

Adoecram-me alguns homens, com papeira, e outros com inflammaes nas
pernas.

Felizmente, as cargas das provises tinham diminuido sensivelmente, e
tinha carregadores de sobrecelente. Nas margens apaladas do Cuando
abundavam sanguesugas, que mandei apanhar, para applicar a alguns
doentes que d'ellas careciam.

As matas que atravessei, e aquella em que estava acampado, eram quasi
exclusivamente formadas de umas rvores enormes, a que os Bihenos chamam
Cuchibi, rvores prestadias ao viajante faminto.

O seu fruto semelha um feijo, onde s um gro de vivo escarlate est
encerrado na casca verde-escura. Este fruto, depois de uma demorada
coco, separa os invlucros escarlates dos cotyldones brancos. Sam
aquelles invlucros escarlates a parte comestivel d'esta semente.

[Figura 59.--O Cuchibi.]

Sam bastante oleaginosos, e os Ambuelas e Luchazes extrahem d'elles um
leo que tempera a comida.

Este fruto  de certo um grande socorro ao viajante faminto; mas no 
para pressas, que a sua coco  demoradissima.

Outro fruto que se encontra ali e que  bastante vulgar em todo o
planalto,  o que os Bihenos chamam Mapole.

 produzido por uma rvore de mediana corpolencia, e semelha pela cr e
tamanho uma laranja madura.

Um pednculo bastante comprido suspende este fruto verticalmente dos
ramos da rvore. O epicarpio e o mesocarpio estreitamente ligados,
formam um invlucro de quatro milimetros de espessura, de dureza cornea.

[Figura 60.--Folha e Fruto do Cuchibi.

(Tamanho natural.)]

S com um forte machado se pode partir. No interior a parte comestivel 
um lquido espesso e coagulado em que se agglomeram umas sementes como
as das ameixas pequenas.

Este lquido, de sabor agro-dce, tomado em quantidade,  bastante
purgativo; mas assegurram-me os Bihenos, que  muito nutritivo e um
homem pode viver d'elle alguns dias.

No dia seguinte, deixei o rio Cuando, que j ali se inclina a S.S.E.; e
por indicao dos guias, caminhei a leste, para ir demandar as nascentes
do Cubangu, rio que elles me diziam ser muito grande.

Depois de uma hora de marcha, passei um ribeiro que corre ao sul, n'um
terreno apalado de 100 metros de largo, que custou a transpor; 4 milhas
lm, outro grande ribeiro corre parallelo ao antecedente.

[Figura 61.--O Mapole, rvore e Folha.]

Entre os leitos d'estes ribeiros, e bem assim entre os dos affluentes do
Cuando, a leste, correm montanhas norte-sul, montanhas que pertencem a
um systema mais importante, que ao norte corre leste-oeste, indo as suas
vertentes N. terminar no valle do Lungo--ungo.

Pelas 11 e meia, cheguei ao alto da serra, d'onde os guias me mostrram,
muito ao longe, as nascentes do rio Cubangu. Marquei aquellas nascentes
perfeitamente a leste; e como receei no poder, chegado que fsse,
determinar a latitude, parei, e ao meio-dia determinei a d'aquelle ponto
em que estava, por ser a mesma das nascentes do rio, estando, como
estavam, leste-oeste com elle.

Pelas 2 horas da tarde, acampei junto s nascentes, que sam em tudo
semelhantes s do Cuando. O pntano que d nascente a este rio tem o seu
eixo norte-sul, e estende-se por um kilmetro, variando a sua largura
entre 80 e 100 metros.

[Figura 62.--Mapole, Fruto e disposio dos Ramos.]

No appareceu caa, mas vimos d'ella muitos rastos, e durante a noute,
os lees fizram um concerto infernal em trno do campo.

J ali se distriburam as ltimas raes, e de nvo tnhamos diante de
ns a fome.

Os guias diziam, estarem perto as povoaes, mas termos de marchar dois
dias para as alcanar; porque os muitos doentes, e sobre tudo o pombeiro
Canhengo, que estava mal, nos impediam de forar as marchas.

O meu cuidado era extremo, e receiava j que o aggravarem-se as doenas
com a fome e com a fadiga me impedisse de alcanar a tempo os recursos
precisos.

No dia seguinte, apesar de todos os meus esforos, no consegui
sustentar a marcha lm de quatro horas, e tive de acampar na margem do
Cubangu, que no deixei desde a sua nascente. No ponto em que acampei
j o rio conta trs metros de largo por um de fundo.

Um gnou, que matei, e algum mel que os prtos colhram na floresta, deu
minguada rao com que passmos um dia.

No dia immediato continuei a seguir a margem direita do Cubangu, e
depois de quatro horas de marcha, acampei junto ao ribeiro Linde, em
frente de trs povoaes Ambuelas. Mandei logo no s quellas
povoaes, mas ainda a outras que ficavam na margem direita, e apenas
pudmos obter uma escassa rao de massango.

Todos nos diziam, que no dia seguinte chegariamos  terra do sova, e que
elle nos daria de comer. Na confluencia do Linde j o rio Cubangu tem 5
metros de largo por 3 de fundo.

Os meus doentes no melhoravam muito, o que no era por falta de dieta.

Foi preciso sustentar marcha de seis horas, para alcanarmos no dia
immediato a povoao do chefe, a quem mandei logo um presente de uma
farda velha de cabo de infanteria 2, que elle muito agradeceu, dando
ordem aos seus povos para me venderem mantimentos. A trco de missanga
obtivmos massango, o maldito massango, que tanto me havia de perseguir.

Despedi os meus guias, e os doze Luchazes que at ali me acompanhram, e
que se retirram satisfeitos com o que lhes dei.

Elles fraternizram com a gente das povoaes Ambuelas, que estam ali um
pouco misturadas com a raa Luchaze.

Em um dos dias seguintes que passei ali, acampou junto de mim uma grande
poro de familias Luchazes que se vinham estabelecer no paiz.

[Figura 63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba.

1. O que elle traz na mo.]

Passou ali tambem um rancho de caadores, que iam para o sul em busca
dos elephantes. Foi a primeira vez que ouvi falar em elephantes, porque
todo o paiz que atravessei desde Benguella at ao Cubangu, no os tem,
nem mesmo d'elles vi rasto antigo.

Ainda assim, os taes caadores dissram-me, que precisavam andar seis
dias para os encontrarem.

Dois dias depois da minha chegada, veio visitar-me o sova de Cangamba,
Muene Cahenda, que me levava um presente de quatro gallinhas e um grande
cesto de massango.

Trajava a farda que eu lhe tinha enviado, e da cinta pendiam-lhe pelles
de leopardo. Na mo trazia elle um objecto formado de caudas de
antlope, com que sacudia as moscas.

A cultura  feita no paiz por homens e mulhres, que, em pequenas
plantaes, cultivam massango, algodo, pouca mandioca, e ainda menos
batata dce.

Trabalham muito em ferro, que extrahem das minas na margem direita do
rio, junto das quaes passei, ao norte de Cangamba.

[Figura 64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas de Cangamba.]

Ao contrario dos outros povos Ganguelas, em Cangamba sam os homens que
fazem as panellas e as mulhres esteiras.

Fiam o algodo, que tecem em teares de occasio, fazendo uns pannos, do
tamanho de toalhas de rosto, muito perfeitos.

Viram vender-me tabaco, que dizem cultivar no paiz, mas que eu no vi
nas plantaes que visitei.

As armas de que usam sam frechas e machadinhas.

O Cubangu tem, junto a Cangamba, 15 metros de largo por 6 de fundo, e
12 metros de corrente por minuto.

Tem peixe, a que no posso assignalar o feitio, porque os que vi eram
scos, e tinham de 40 a 50 centmetros de comprido.

Mandioca e peixe sco; que opparo banqute para quem andava condenado
ao atroz massango!

O rio Cubangu, para no escapar  lei geral d'aquelle Continente, tem
crocodilos, mas sam nada vorazes, e afianram-me os Ambuelas, no haver
exemplo de uma desgraa causada por elles.

[Figura 65.--Cachimbo Ambuela.]

Fui pagar a visita ao sova, que  sujeito distincto e sympthico. Como
me no vendiam seno massango, pedi-lhe, que me desse alguma mandioca e
algumas batatas dces, presente que elle me fez em minguada poro,
escusando-se por no ter mais.

Ainda assim, chegou para trs dias. Trs dias de frias de massango!

Tendo obtido guias, alguns carregadores, e bastante massango, decidi
seguir vante, no dia 22 de Julho, a demandar as povoaes do sova
Ca-eu-hue, no rio Cuchibi, onde passa, o caminho outrora seguido por
Silva Porto, e que eu abandonei no Cuanza, seguindo mais ao norte.

Dissram-me os guias, que teria de jornadear em paiz deserto por espao
de 8 dias, e por isso precisava ir bem provido de raes. Os meus
doentes tinham melhorado com o descano e mais abundante alimentao;
ainda assim, o Muene-Cahenga forneceu-me dez homens para ajudarem a
carregar o massango de que me provi.

Tendo-me dito os guias, que durante dois dias devamos caminhar na
margem do rio, tive a lembrana infeliz de o descer embarcado.

A 22 de manh, mandei transportar o meu barco de cautchuc ao rio, fiz
levantar campo, e tendo entregue o commando da comitiva ao Verissimo,
dirigi-me ao barco, que tripulei com dois muleques pequenos, o meu
Catraio, e outro pequeno de 12 annos, chamado Sinjamba, filho de um
carregador Biheno, que escolhi por falar bem a lngua Ganguela, e poder
servir-me de intrprete, se isso fsse preciso.

Declaro, que no foi sem uma certa commoo que deixei a margem, e me
lancei na corrente de um rio desconhecido, tendo por nicos companheiros
duas crianas, e governando um barco de fragil tela.

O rio, que nasce trinta milhas ao N., j tem ali 15 metros de largo por
6 de fundo, e pouco a jusante, alarga a 40 e 50 metros, e s vezes mais.

O seu fundo, que vara entre 3 e 6 metros,  coberto de area muito alva,
que de certo cobre uma camada de ldo, porque a flora aqutica do rio 
verdadeiramente assombrosa.

Muitas especies de juncos e outras plantas aquticas enraizam no fundo,
atravessam com suas flhas e seus troncos finos, sempre agitados pela
corrente, 6 metros d'gua, e v[~e]m desabrochar  superficie, as suas
flres de variado colorido, e elegantes formas. Por vezes, esta pomposa
vegetao occupa tda a largura do rio, e parece impedir a passagem. A
principio hesitei em lanar o barco sbre aquelle prado aqutico,
julgando encontrar fundo e falta de gua para navegar; mas depois que a
sonda ali me accusou, ora 4 ora 6 metros de gua, no mais duvidei em
deslizar por entre aquelles jardins floridos.

[Mappa 8.--De Cangamba ao Cuchibi]

Nos pontos onde a gua, pela disposio do leito, tem corrente
insensivel,  que esta vegetao submersa se converte em verdadeira mata
virgem, que prende o barco e no o deixa avanar.

Vi muitos peixes nadando ligeiros por entre as saras, sendo alguns de
mais de 60 centmetros de comprido.

Bandos de patos fugiam diante de mim, estranhando de certo o serem
interrompidos n'aquellas regies nunca devassadas por uma cana.

Nos juncaes das margens, milhares de passarinhos chilreavam e saltavam
nos ramos das gramneas, que mal se curvavam ao seu pso ligeiro.

Aqui e lm, um pssaro pescador sustentava a mesma posio no ar com um
rpido bater d'azas, at descer verticalmente com velocidade de frecha a
tomar a prsa que espreitava.

Nos canaviaes da margem, um grande rumorejar na folhagem verde
deixava-me perceber um ou outro crocodilo que desapparecia nas guas.

Outras vezes, aquelle rumor era seguido pelo baque de um crpo que em
leve salto se precipitava no pego, e mal eu tinha tempo de perceber uma
esquiva lontra.

O rio, cuja direco geral  Norte-sul, descreve as mais caprichosas
curvas, que quadruplicam o caminho. A margem direita  um vasto pal de
largura muito variavel, que s vezes alcana 1000 metros. D'ali se esca
um grande volume d'goas que engrossam o rio a olhos vistas.

Trs milhas lm de Cangamba, vi um rancho de 18 mulheres que pescavam
junto  margem, peixes pequenos, com cestos de vime.

Em uma das voltas do rio, percebi trs antlopes desconhecidos para mim,
e quando ia a tomar a carabina para lhes fazer fgo, elles saltram na
gua e desapparecram em profundo mergulho.

Este facto causou-me a maior estranhza, que cresceu de ponto quando, no
correr da viagem, por vezes divisei muitos d'aquelles animaes, j
nadando e mergulhando rpidamente, j conservando sempre a caba
submersa, e deixando ver apenas as pontas dos cornos.

Este animal curioso, que tive depois occasio de matar no Cuchibi, e de
cujos hbitos tive algum conhecimento, obriga-me a suspender por um
momento a minha narrativa, para falar d'elle.

Chamam-lhe os Bihenos Quichbo, e os Ambuelas Buzi. O seu tamanho, no
estado adulto,  o de um bezerro de um anno. O pllo  cinzento escuro,
de 5 a 6 centmetros de comprido, e extremamente maco. Na caba o
pllo  mais curto, e tem sbre as fossas nasaes uma lista esbranquiada
transversal. Os cornos t[~e]m 60 centmetros de comprido, e a sua seco
na base  semicircular, tendo a corda quasi rectilnea. Conserva esta
seco at trs-quartos da sua altura, depois do qu se torna quasi
circular at  ponta. O eixo medio dos cornos  recto, e formam entre si
pequeno ngulo. Sam torcidos em trno do eixo, sem perder a sua forma
rectilnea, apresentando as arestas uma espiral de passo muito largo.

As patas t[~e]m compridas unhas semelhantes s do carneiro, e reviradas
nas pontas.

A disposio das patas e os seus hbitos sedentarios tornam este notavel
ruminante improprio para correr. A sua vida passa-se na gua, e nunca se
afasta muito da margem do rio, onde sahe a pastar, raras vezes de dia, e
muito de noute.

O seu sono e o seu repouso  na gua.

A sua potencia mergulhadora  igual, seno superior,  do Hippoptamo.
Durante o sono aproximam-se da superficie da gua, e deixam ver fora
d'ella metade dos seus cornos.

[Figura 66.--O quichbo.]

 muito tmido, e acoita-se no fundo das guas ao menor signal de
perigo.

 facil de surprender e de matar, sendo que os indgenas lhe dam grande
caa, para se aproveitarem das suas pelles, que sam magnficas, e da sua
carne, que no  muito ba.

Quando sahem a pastar, a sua pouca destrza na carreira, permitte aos
indgenas o apanharem-n-o vivo, no se defendendo no ltimo trance, como
fazem quasi tdos os antlopes.

A fmea, como o macho,  armada de cornos.

Ha muitos pontos de contacto entre a vida d'este extraordinario
ruminante e a dos hippoptamos seus conterrneos.

O rio Cubangu, o rio Cuchibi e o alto Cuando, dam guarida a centenares
de Quichobos, que no apparecem j no baixo Cuando, nem no Zambeze. Eu
explico este facto pela voracidade dos crocodilos no Zambeze e baixo
Cuando, que em pouco tempo dizimariam to tmido animal, se elle se
afoutasse a ir viver nas guas onde reina com absoluta soberania o
carniceiro amphibio.

Em uma entrevista que tive em Pretoria com um notavel caador de
antlopes, Mr. Selous, me disse elle ter ouvido falar do meu antlope,
aos indgenas do alto Cafucue, onde lhe dissram existir um animal
n'aquellas condies de vida.

A minha pouca competencia em materia de zoologia, no me permittio fazer
mais minucioso estudo de um animal, que eu julgo merecer a atteno dos
homens de sciencia pelos seus estranhos hbitos.

Continuando com a minha narrativa, tenho a fazer os maiores elogios ao
meu barco Macintosh, que se portava muito bem nas guas do Cubangu; mas
cuja exiguidade de formas me obrigava a uma posio constrangida, que,
pelas 4 horas da tarde, me produzia dres em tdas as articulaes.

Desde que deixei Cangamba no mais vi signaes da minha comitiva, e plas
4 horas da tarde, s dres de uma posio contrafeita j se unia um vago
cuidado e uma fome bem pronunciada. Os meus pequenos remadres estavam
extenuados de fadiga. Aportei  margem esqurda, e mandei o muleque
Sinjamba subir ao tope de uma rvore a investigar se na outra margem se
erguia o fumo do acampamento.

Elle julgou ver o fumo a N.O., a montante por isso do sitio em que
estvamos.

Tornmos a subir o rio, e eu com muito custo pude saltar no pal da
margem direita e encaminhar-me ao logar onde fram assignalados os
indicios de fumo.

Teria andado um kilmetro, quando percebi vestigios da passagem da minha
comitiva para o sul. Os rastos da minha cabra e dos ces no me podiam
enganar.

Voltei ao barco e tornei a navegar rio abaixo. De vz em quando parava e
mandava o muleque trepar a alguma rvore da margem esqurda, mas esta
manobra repetia-se sem resultado.

Aproximava-se a noute, e eu no estava sem cuidados; porque, lm da
fome que sentia, receiava o dormir fora do campo, por causa dos meus
chronmetros que ficariam sem corda.

Tinha desapparecido o sol, e n'aquellas paragens o crepsculo  curto.
Decidi acampar com os meus dous pequenos na margem esqurda, e quando j
dava execuo ao meu plano, pareceu-me ouvir o estampido de um tiro
muito longe a S.O. Redobrmos de esforos, e pouco depois ouvia outro
tiro, a que respondi.

Ao meu tiro, vi o claro de outro atirado a 200 metros de mim. Dirigi
para ali o barco, e deparei com o meu Augusto mettido em gua at 
cinta no pal de margem direita. Um Biheno estava com elle. Foi grande a
sua alegria ao vrem-me, e logo viram tirar-me do barco e
transportar-me s costas por tdo o pal que era largo ali.

Foi difficil aquelle caminhar que levou meia hora, mas eu cheguei enxuto
 margem.

Os pequenos, depois de prenderem o barco a um canavial, seguram-nos.
Disse-me o Augusto, ser longe o acampamento e termos de atravessar uma
espssa floresta.

Eram profundas as trevas na floresta, e difficil o caminhar por entre as
saras.

Tropear aqui, cahir lm, andar dez metros em dez minutos, rasgando o
vestuario e a carne nos espinhos do matagal, tal  o jornadear  noute
em mata virgem.

Depois de uma hora de violentos esforos, sentmos perto tiros e grande
grita.

Eram os meus, que me buscavam.

Fiz-lhe signal e encontrmo-n-os.

Vinha Verissimo Gonalves  frente de um grupo de Bihenos, que quizram
por fra transportar-me ao campo, em umas andas que ali improvisram
com troncos cortados na mata e folhagem d'arbustos.

Assim entrei no meu acampamento, onde,  meia noute, junto de um bom
fgo, matava a fome de 36 horas.

Demorei-me ali um dia, e no seguinte logo de manh comecei a passagem do
rio, que foi muito demorada, porque dispunha apenas para isso do meu
pequeno barco Macintosh.

Segui s 9 horas na margem esqurda do rio, e uma hora depois,
encontrava um ribeiro nas margens do qual appareceu muita caa; segui
sempre, e pela 1 hora fui acampar junto de outro riacho, que como o
primeiro era tributario do Cubangui.

Aparecram no meu campo dois Ambuelas caadores de cra (como elles
dizem), que prevenram os guias de que era imprudente seguir para o
Cuchibi; porque, tendo morrido um sovta prximo do caminho que devamos
seguir, estvamos expostos aos desatinos que elles costumam praticar em
taes occasies.

Viram prevenir-me d'isso, mas eu, a despeito da morte de tdos os
sovtas possiveis, resolvi seguir vante, e effectivamente no outro dia,
depois de marcha bastante forada de 6 horas, alcancei a margem direita
do rio Cuchibi.

Na minha comitiva havia muita gente com uma molestia que tinha alguma
cousa de ridculo; 18 ou 20 pessas estavam com papeira.




CAPTULO VIII.


AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.

     O Cuchibi--O sova Ca-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo e
     Capeu--Abundancia--Bondade dos indgenas--Povoaes e costumes--Um
     vao no Cuchibi--O rio Chicului--Caada--Feras--O rio Chalongo--Uma
     jornada atroz--As nascentes do Ninda--O tmulo de Luiz Albino--A
     planicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final.


Foi a 25 de Julho que acampei na margem direita do rio Cuchibi.

O terreno que medea entre este rio e o Cubangu,  occupado por floresta
virgem, onde se nota vegetao opulentissima.

Um naturalista botnico encontraria ali vasto assumpto para demorado
estudo; tal  a variedade de plantas que crescem, umas  sombra
d'outras, n'aquella brenha enorme.

Por espaos o caminhar foi difficil, e mais de uma vez as machadas
sahram dos fortes cintures de couro, para tornar transitavel um ou
outro carreiro de feras.

Ao caminhar na mata foi o meu olfato impressionado por um aroma suave e
delicadissimo, emanado da flr de uma rvore abundante ali.

Nenhuma das flres conhecidas tem mais delicado aroma do que o da flr
do _Oco_, que assim chamam os naturaes  primorosa rvore.

A configurao da rvore, a disposio das flhas, as flres, em cachos,
e sbre tudo a minha ignorancia em botnica, fizram-me escrever no meu
diario sem hesitao,  uma Acacia.

Ha tempo, recebendo a visita do boticario da minha aldea, e vendo elle
um dos meus albuns de desenhos, disse-me com tda a franqueza de aldeo:
"O senhor escreveu aqui uma asneira, esta flr no pode ser de uma
acacia, porque tem s duas ptalas e trs estames, e deve saber, que a
acacia produz flres de cinco ptalas, e dez estames; por isso entra na
familia das Papilionceas, e hje entra na classe das Leguminosas, e eu
vou-lhe buscar o meu _de Candolle_..." No v, lhe disse eu, acredito-o
sbre palavra, e como ahi vai representada a flr, no me metterei a
querer classifical-a.

[Figura 67.--Oco.

Flr dez vezes augmentada. As flres formam cachos de 3 cent. de
comprido por 15^{mm.} de dimetro. Ptalas brancas, ovario e estames
castanhos, perfume delicioso.]

Esta rvore, cujas flres cubicei para offerecer s damas da Europa, no
a encontrei antes d'este ponto, e desappareceu no curso superior do rio
Ninda.

Outra rvore que encontrei ali e que chamou a minha atteno, no pelo
aroma das flres, mas pelo gsto dos frutos, foi uma que os naturaes
chamam _Opumbulume_.

O fruto  em tudo semelhante ao Mapole, que j descrevi, sendo o seu
gsto differente, e muito mais differente a rvore que o produz.

O rio Cuchibi apresenta um aspecto differente do dos outros affluentes
do Cuando at ao ponto em que os visitei.

Corre no meio de uma planicie que encosta s vertentes dces de
montanhas cobertas de espsso mato.

[Figura 68.--Opumbulume.]

A planicie completamente enxuta, e no apalada, como quasi tdas as que
fazem margem aos seus congneres da frica de Sudoeste, chga por vezes
a alargar-se em oito kilmetros de extenso.

O rio serpea ali, no em curvas de curto raio como o Cubangu, mas em
pouco ondulada linha, que ao longe faz parecer rectilnea a sua
directriz.

Uma pomposa vegetao herbcea vai terminar nas escarpas do leito, onde
corre uma gua cristallina, deixando perceber o fundo de area branca.
Carece completamente da flora aqutica que abunda no Cubangu, no sendo
inferior a sua fauna, de que falarei mais tarde.

Havia caa e fiz uma ba caada, pois que matei um songue, antlope
vulgar nas margens do Cuando e nas dos seus affluentes.

Aparecram-me n'aquelle dia alguns homens queixando-se de uns tumres
que se desenvolviam nas articulaes das pernas, e os impediam de andar.
Felizmente, o gasto de mantimentos j me deixava livres outros homens,
que tomram as cargas d'aquelles.

Uma grande parte dos meus carregadores tinham feridas sbre as tbias,
sbre a caba do proneo e tendo d'Achilles, que no havia meio de
curar. Debalde esgotei tda a minha sciencia mdica, emprestada do
Chernoviz, e debalde o meu doutor Chacaiombe reunio os seus medicamentos
selvagens, aos mais estupendos processos de feitiaria, ellas a tudo
resistram.

Eu attribui o caso a duas causas, e no sei se atribuia bem. Em primeiro
logar, o constante exercicio de andar, pensei eu ser uma; em segundo
logar, a alimentao seria outra.

No julguem os meus leitores que lhes vou falar contra o innocente
Massango. No, sou muito leal inimigo para atacar na ausencia aquelle
que tanto me perseguio. Deixo em paz o Massango, no  elle offensivo, e
creio mesmo que  ba dieta.

A alimentao a que me refiro, e  conta de quem deito em parte a
inutilisao dos meus esforos e dos do doutor Chacaiombe, em curar os
meus doentes,  outra.

Os Bihenos, como j tive occasio de dizer, comem de tudo e de todas as
carnes em estado de putrefaco.

Ainda que repugne um facto que vou narrar, mostra elle bem a que grao
sobe o gsto do Biheno pela carne.

A minha cadella Traviata tve em caminho oito cachrros mortos.
Mandei-os enterrar pelo meu Augusto, em sitio occulto, para os subtrahir
 voracidade dos meus Bihenos; mas dois d'elles, do acampamento
seguinte, voltram atraz, logrram descobrir o sitio onde elles fram
enterrados, e levram-n-os; fazendo com aquella carne um banqute. As
termites comem elles cruas s mos cheias, e apreciam muito os ratos.

Na ordem dos roedores ha um que elles muito procuram, e  um rato
pequeno de farta cauda sedosa, que vive nas tocas das abelhas, as quaes
no aggride.

[Figura 69.--O Rato mencionado.]

O ponto do rio Cuchibi onde eu estava acampado  despovoado de gente, e
diziam-me os guias, que s depois de quatro dias de marcha lograriamos
alcanar as povoaes.

No dia immediato, segumos viagem rio-abaixo pela margem direita.

A meia jornada, n'esse dia, notei eu que me faltava muita gente. Mandei
fazer alto, e voltei atraz a indagar do caso; quando deparo em um mato
com muitos dos meus, que comprram a uns Ambuelas, carne de Quichbo, a
trco de cartuxos que me tinham furtado.

Fugram, ao ver-se descobertos; mas menos destros pude alcanar o
pombeiro Chaquionde e o meu doutor Chacaiombe. Este lanou-se de
jolhos a pedir perdo, mas o seclo Chaquionde tirou do machado para
me agredir.

Dei-lhe to forte pancada na caba com a coronha da arma, que elle
cahio por terra atordoado, e eu julgei-o mrto; no me causando tanta
impresso ter mrto um homem em defensa propria, como o ter sido isso
por uma insubordinao, a primeira que se dava comigo. Voltei 
comitiva, que mandei acampar, e fiz transportar ao campo o sculo
Chaquionde, que vinha banhado em sangue de larga ferida produzida pela
pancada.

Fiz-lhe um curativo, e reconheci que no era de circunstancia o
ferimento, porque feridas na caba, quando no matam logo, em breve
cicatrizam. Reuni depois os pombeiros, por quem fiz julgar o delicto do
culpado, sendo a maioria de voto, que elle devia ser condenado  morte.
Outros entenderam, que lhe deveria mandar dar muita pancada.

Mandei-o comparecer, fil-o reconhecer a sua culpa, e perdoei-lhe. A
minha generosidade produzio geral assombro.

No dia seguinte, sustentei marcha de seis horas, sempre na margem
direita do rio.

Continuava de apparecer bastante caa muito esquiva. Matei um _songue_.

Este elegante antlope differe bastante d'aquelle a que os Bihenos dam o
mesmo nome entre a Costa e o Bih.

Tem 1 metro e 50 centmetros de altura na agulha, e 1 e 40 da agulha 
raiz da cauda.

O pllo curto  amarello torrado, e de tinta igual. Medi alguns saltos
de 5 metros, e vi-os saltar por sbre um canavial de 2 metros de alto.

No momento do _hallali_ defende-se e ataca raivso. A sua carne 
saborosa, mas, como a de tdos os antlopes, muito sca.

Vive em manadas, sempre na planicie, e tem vigias em quanto pasta.

[Figura 70.--Songue.]

[Figura 70A.--Rasto do Songue.]

S muito perseguido se embrenha nas matas, ou atravessa um rio a nado.

Este antlope desapparece completamente lm do curso superior do rio
Ninda.

Segui no dia immediato.  medida que ia descendo o rio, vi que a
planicie marginal mais e mais se alargava.

N'ella pastam bandos de antlopes, predominando os _songues_.

N'esse dia j se sentia grande falta de vveres, e comram-se as ltimas
raes de massango.

Finalmente, a 29 de Julho, depois de trs horas de marcha, fui acampar
em frente das povoaes de Ca-eu-hue, onde reside o sova do Cuchibi.

Antes de falar dos povos Ambuelas, e d'um rico paiz atravessado pelo
Cuchibi, quero dizer duas palavras do meu modo de viajar, ou antes da
minha vida em frica.

 certo que tdos os meus predecessres t[~e]m tido o seu systema, e
aquelles que me seguirem term o seu, tdos ptimos.

A minha vida, salvas raras excepes, foi a seguinte. Levantava-me s 5
horas, despia-me (porque dormia sempre vestido e armado), e tomava banho
em gua  temperatura de 33 centgrados.

Os Inglezes tomam banho em gua fria, que  mui tnica; eu por mim,
lavo-me por aceio, e no uso da hydropathia; para isso tinha uma
chaleira de ferro que me servia para aqucer a gua. Narrando o meu
viver Africano, falarei de alguns objectos que a elle estavam
estreitamente ligados. O primeiro, depois da chaleira, era a minha
banheira de cautchuc, fabricada pela casa Macintosh de Londres. Era um
traste preciso, que, depois de to aturado servio, ainda se acha hje
em ptimo estado.

Coisa de borracha fabricada em Inglaterra  assim.

Depois do banho, passava ao meu _toilet_. A bacia era cortada em uma
cabaa de 50 centmetros de dimetro. As toalhas eram de finissimo linho
de Guimares.

Escvas, esponjas, sabontes e perfumarias (eu em frica usava muito de
perfumarias), eram de primeira qualidade, fornecidas pelo Carlos
Godefroy, que vende tudo muito caro, mas muito bom. Terminado o meu
_toilet_, a que assistia o meu criado de quarto Catraio, guardava elle
cuidadosamente tdos os objectos de que eu me tinha servido, e vinha
apresentar-me os chronmetros, thermmetros e barmetro.

Dava corda, e comparava os primeiros, registrava as indicaes dos
segundos.

A esse tempo j o meu muleque Ppca tinta feito o ch, e vinha
apresentar-m'-o.

Figura aqui um objecto a que eu ligava a maior importancia. Era uma
chvena de porcelana, chvena que me foi offerecida pela espsa do
tenente Rosa, em Quillengues.

Fina como uma flha de papl, transparente e elegante, aquella chvena
fazia as minhas delicias, tornando mais saborosa a infuso das flhas do
arbusto Chinez.

Depois de tomar trs chvenas de ch vrde, sem assucar, porque o no
tinha, fechava as malas, e dava ordem de partida; partida, que raras
vezes se effeituava antes das 8 horas, por ser impossivel arrancar os
carregadores de junto das fogueiras, onde os prendia um frio intenso.

Partamos pelas 8 horas. Na frente da comitiva o prto Cahinga, de Silva
Porto, levantava a bandeira, e logo aps elle seguiam as caixas de
cartuxos, a pao e corda. Iam aps os outros carregadores
indistinctamente a um de fundo, fechando a marcha eu, o Verissimo, e os
pombeiros.

O carregador que por qualqur motivo tinha de deixar o caminho, pousava
a carga, e era isso signal para junto d'ella parar o pombeiro a quem
elle pertencia, que depois o acompanhava.

Durante o caminho observava os meus rumos, e calculava as minhas
marchas, combinando o pedmetro com o relogio. As marchas regulares eram
entre 8 e 10 milhas geogrphicas, sendo elevadas a muito mais quando as
circunstancias o exigiam. A tempo acampava, e durante uma hora durava a
faina de construir barracas.

Era um cortar de madeira, de ramos e de erva que durava uma hora. Se no
tinha observaes a fazer, estendia-me horizontalmente na erva viosa, e
dormia at me virem prevenir que estava prompta a barraca.

Geralmente a barraca estava prompta  uma hora; tinha pois de esperar
algum tempo para fazer as minhas observaes para o boletim
meteorolgico, que era feito a 0^{h.} 43^{m.} de Greenwich.

Para saber a hora consultava um relogio que o Pereira de Mello me
mandara de Benguella para o Bih, relogio de lato, puro cylindro de
construco helvtica, oito rubins etc., que trabalhava
desembaraadamente.

 hora precisa, chamava o Catraio, que me trazia os instrumentos, e
usando eu de um thermmetro de funda, que pertencra ao infeliz Baro de
Barth, quando eu fazia girar o thermmetro, juntavam-se sempre a
distancia tdos os carregadores Bihenos, que contemplavam pasmados
aquella operao, que eu repetia tdos os dias, e elles tdos os dias
vinham contemplar pasmados.

Logo que registava as observaes, vinha o meu muleque Moero com os
pratos, e a rao, que eu no quero chamar jantar, aquelle punhado de
massango cozido em gua.

Depois da refeio, se a fadiga me impedia de ir caar e percorrer os
arredres, empregava o tempo passando as notas do dia para o diario,
calculando as observaes, desenhando, etc. A tinta que eu empreguei em
tdos os meus trabalhos, foi a dos pequenos tinteiros mgicos, cada um
dos quaes me durava de dois a trs mezes.

Este systema de fazer apontamentos durante as marchas e durante o dia,
que depois passava ao diario, dava em resultado, o ter eu um duplicado
dos meus trabalhos, e de haver sempre a possibilidade de se salvar um,
se o outro se perdesse. Os apontamentos diarios eram feitos a lapis, em
pequenos quadernos, que eu ia lacrando e sellando  medida que os
prehenchia. Nelles, lm dos factos, estavam registradas tdas as
observaes iniciaes, j astronmicas, j meteorolgicas. Estes
cadernos, que ao deixar Durban enviei a Portugal por via de Inglaterra,
chegram a salvo a Lisboa, onde ainda estam por abrir, ao passo que a
copia desenvolvida do que elles cont[~e]m, sempre me acompanhou, e est
servindo de norma ao que estou escrevendo agora.

Foi-me preciso fazer esta viagem, para saber o quanto vale o tempo, e
para quanto elle chga sendo bem aproveitado.

Vinha  noute, e ento crepitava na minha barraca grande fogueira, que
me proporcionava calor e luz. Se eu no tinha observaes a fazer
durante a noute, ou, muitas vezes, se a fadiga obrigava o repouso a
preterir tudo o que houvesse a fazer, ia deitar-me sobre as pelles de
leopardo que formavam a minha cama, tendo por travesseiro a pequena
malinha em que guardava os meus papeis.

Um hbito que adquiri em viagem, de envolta com o frio da ante-manh,
faziam-me regularmente acordar s trs horas. Levantava-me ento e
reaccendia a fogueira amortecida. Vinha  porta da barraca, onde via um
thermmetro deixado fra, e que a essa hora me dava uma mnima muito
approximada. Eu no tinha thermmetros de mxima e mnima, e sam apenas
approximadas estas duas indicaes thermomtricas que v[~e]m nos meus
boletins; sendo a temperatura mxima approximada a que se fazia sentir 
1^{h.} e meia, proximamente  hora do meu boletim a 0^{h.} 43^{m.} do
tempo de Greenwich.

Depois das 3 horas at s 5, o meu tempo era passado junto ao fgo,
fumando ininterrompidamente 10 ou 12 cigarros, e pensando na minha
patria e nos meus.

Quantas vezes a essa hora, hora para mim de meditao e tristeza, no
cogitava eu no futuro do meu emprehendimento!

Estava ento no Cuchibi, 20 graos a leste de Greenwich, e 14 e meio ao
sul do equador. Estava longe de tdo o soccorro que carecsse, onde
iria buscar recursos para seguir vante?

Do Bih at ali ainda tive a pouca fazenda de algodo de que dispunha;
mas as ltimas peas estavam diante de mim. Eram o meu ltimo dinheiro.

Em tdos os povos encontrei mais ou menos facilidade de permutar o
alimento pela fazenda de algodo, sendo a preferida o zuarte, o zuarte
pintado e o algodo branco ordinario.

Raras vezes querem os riscados e a fazenda de lei. O buzio mido
(caurim), que tem muito valor entre os Quimbandes, e muito pouco entre
os Luchazes, recupera no Cuchibi a sua importancia, para emprego bem
diverso d'aquelle que lhe dam os primeiros d'estes povos.

Ali  para ornamentar as cabeas, aqui  para fazer cintures, em que ha
grande luxo.

A missanga Maria 2^a tem grande valor em toda a parte; mas no Cuchibi 
preferida a tudo, excepto  plvora.

Chegando ao Cuchibi, cheguei ao primeiro ponto em que n'esta viagem me
pedram manilhas de cobre e arame para ellas.

Logo depois de ter estabelecido o meu campo, appareceu n'elle um homem
que veio falar-me, dizendo ser Biheno e ter ficado ali doente, deixado
por uma comitiva, havia trs annos.

Foi reconhecido por muitos dos meus carregadores, e engajou-se ao meu
servio.

Eu estava no caminho das comitivas do Bih, e como tencionava demorar-me
alguns dias, mandei um pequeno presente ao sova, e participar-lhe a
minha resoluo.

Sube pelo Biheno que me appareceu, que corria a noticia de ter havido
uma revoluo no Barze, tendo sido expulso o rgulo Manuino, e
acclamado um outro de que no se conhecia por ora o caracter.

No me foi agradavel esta noticia, porque eu sabia que Manuino era
feroz e sanguinario com os seus, mas hospitaleiro para com estranhos.

Estes Ambuelas, entre os quaes estava, sam a pura raa Ambuela, porque
as do Cubangui estam muito misturadas com a raa Luchaze.

Sam os habitantes do Cuchibi inimigos dos Ambuelas de Oeste, e muitas
vezes v[~e]m s mos.

A raa Ambuela occupa tdo o paiz banhado pelo Cuando superior, e est
agglomerada, sbre tudo na parte em que este rio recebe os seus
confluentes, Queimbo, Cubangui, Cuchibi, e Chicului.

As povoaes no rio Cubangui sam construidas, j nas ilhas do rio, j no
mesmo rio sobre estacaria. Sendo estes povos os nicos que possuem
canas, dormem de noute descanados nas suas habitaes aquticas, sem
receio de serem atacados.

O sova mandou-me logo provises e bastante milho. Com que prazer eu
comi um prato de milho cozido!

Estava por algum tempo livre do fatal massango!

Mandou elle dizer, que viria visitar-me no dia immediato.

N'esse dia, logo de manh, sahi a dar um passeio.

O emmaranhado da brenha espinhosa tornava difficil o caminhar na
floresta.

Ainda assim, afastei-me uns trs kilmetros do acampamento, e fui
deparar com uma enorme armadilha de apanhar caa.

Era ella formada por uma sebe que devia ter alguns kilmetros de
extenso, fechando um espao prximamente circular. Este cercado enorme
tinha de 20 em 20 metros, prximamente, umas aberturas, em cada uma das
quaes estava armado um Urivi, armadilha em que a caa, lebres e
antlopes pequenos, sam esmagados por um pesado cpo. Reunida muita
gente fazem uma grande batida no mato, e ento a caa foge espavorida, e
no podendo saltar o cercado, investe com as aberturas, onde vctima 
dos Urivis ali collocados.

De volta ao meu campo, encontrei no mato um acampamento de
Mucassequeres, abandonado de ha pouco.

[Figura 71.--Muene-Ca-eu-hue, Chefe dos Ambuelas.]

Recebi a visita do sova, homem de idade avanada, de typo sympthico,
com um perfil judaico. Vinha bem vestido, trazendo sbre uma farda um
casaco de linho branco, e ao pesco um grande e vistoso leno.

Cubria-lhe a caba um barrte de listas prtas e encarnadas. Na mo
trazia uma concertina de que tirava sons desordenados.

Deu-me nvo presente, de milho, mandioca, feijo e gallinhas, que eu
retribui dando-lhe algumas cargas de plvora, o mais estimado presente
que se pode fazer no Cuchibi.

Retirou-se o velho muito satisfeito, promettendo avistar-nos mais vezes.

Disse-me elle n'esta primeira visita, que os reis do Barze, mandam ali
receber tributos, e que elle, para evitar guerra, lh'os manda pagar,
estando assim estabelecida uma especie de vassalagem; que, havia pouco,
soubera da revoluo do Zambeze, mas no conhecia o nvo potentado, e
nenhumas informaes me podia dar d'elle.

N'essa tarde, os meus prtos prendram no mato dous Mucassequeres que
trouxram  minha presena.

Os dous pobres selvagens tremiam de mdo e julgavam-se perdidos.

Falavam um pouco a lngua Ambuela, e por meio de um intrprete pudmos
entender-nos. Elles julgavam que uma sentena de morte os ia fulminar,
ou ao menos que a escravido iria sujeitar o resto de seus dias.

Mandei que os desamarrassem, e lhes entregassem as suas armas.
Disse-lhes que estavam livres, e que voltariam para a sua tribu, e
dei-lhes alguns fios de missanga para as suas mulheres.

Elles caminhavam de sorpresa em sorpresa, e no podiam crer na verdade
das minhas palavras. Dei-lhes de comer, e pedi-lhes que me levassem a
ver o seu bivac.

Depois de discutirem acaloradamente um com o outro, n'uma lngua
desconhecida a tdos os que ouviam, e completamente differente na
intonao a tudo o que em lnguas Africanas eu tinha ouvido at ali,
decidram que me levariam  sua tribu se eu quisesse ir s. Aceitei, e
parti com os dois horrorosos selvagens.

Apesar do meu muito hbito da floresta, era-me difficil acompanhar os
ageis guias, que mais de uma vez tivram de esperar por mim.

Ao cabo de uma hora de caminho, deparmos, no meio de uma pequena
clareira, com o acampamento da tribu.

Haviam ali mais trs homens, sete mulheres e cinco crianas.

Alguns ramos d'rvore derreados, com outros encostados na frente, sam os
seus nicos abrigos.

No t[~e]m o menor apresto de cozinha. Sustentam-se de raizes, e de
carne que assam em esptos de pao. No conhecem o sal.

Homens e mulheres mal cobriam a sua nudez com pequenas pelles de
macacos.

Arcos e frechas sam as nicas armas de que se servem. Eu estava muito
embaraado, porque no os entendia nem podia fazer-me entender d'elles.
Dirigi-me s mulheres, a quem dei alguns fios de missangas que tinha
levado para isso. Ellas recebram-n-os sem darem mostra de nenhum
sentimento de agrado.

A miseria d'aquelles desgraados compungia-me. O seu rsto  feissimo,
olhos pequenos e um pouco inclinados nas rbitas, ossos molares muito
distanciados e salientes, nariz achatado, com as fossas nasaes
desmesuradas.

T[~e]m o cabello encarapinhado e pouco, crescendo em montes separados,
mais basto no alto da caba.

Alguns bocados de pelle de animaes atados nos pulsos e nos artelhos sam
o seu ornamento, ou talvez amuleto milagroso.

Procurei fazer comprehender aos meus guias que ia voltar, e elles
precedram-me no caminho, deixando-me, j noute, na orla do bosque
d'onde eu ouvia o vozear do meu campo e alegres cantares.

Durante a minha permanencia no Cuchibi, pude recolher algumas
informaes, ainda que escaas, a respeito de to estranhas gentes.

Os Mucassequeres partilham com os Ambuelas os territorios de entre
Cubango e Cuando, sendo que estes vivem sbre os rios e aquelles nas
florestas, estes sam brbaros, aquelles selvagens.

No convivem, mas no se hostilizam.

Se a fome os obriga, os Mucassequeres v[~e]m aos Ambuelas permutar
marfim e cra por alimentos.

As tribus Mucassequeres sam independentes, e no obedecem a chefe
commum.

Guerreiam-se mesmo e os escravos que fazem uns aos outros v[~e]m elles
vender aos Ambuelas, que os permutam depois s comitivas do Bih.

Os Mucassequeres sam os verdadeiros selvagens da frica tropical do sul,
os outros povos podem ser chamados brbaros.

O Mucassequer nunca tve casa ou simulacro d'ella. Nasceu sob a rvore
da floresta, viveu e morreu sob a rvore da floresta.

Despreza a chuva e o sol, e soporta as intemperies como qualqur fera
dos matagaes.

Ainda o leo e o tigre t[~e]m um antro onde se escondem; o Mucassequer
precisa que plo crpo despido lhe sopre a briza do mato.

No conhece a enxada, porque nunca cultivou a terra. Raizes, mel e caa
sam o seu alimento, e cada tribu vagueia sem cessar em busca de raizes,
mel e caa.

Nunca dormem hje onde ficram hontem. A frecha  a sua arma, e to
destros sam no seu manejo, que caa apontada  caa morta.

O proprio elefante cahi traspassado pelas suas setas lanadas por
musculosos braos.

As duas raas que habitam este paiz, sam to differentes no crpo como
nos hbitos.

O Ambuela  prto e tem o typo da raa caucsica; o Mucassequer  branco
e tem o typo da raa hotenttica em tda a sua hediondez.

O nosso marinheiro crestado pelo sol e pelo vento dos temporaes  mais
escuro do que o Mucassequer. Ha contudo n'aquella cr branca alguma
cousa de amarello terroso, que os torna hediondos.

Tive o maior pesar de no poder recolher dados mais precisos sbre esta
curiosa raa, que me parece dever merecer atteno especial dos
anthropologistas e dos ethngraphos.

 minha opinio, que este ramo da raa Ethope, pode ser collocado no
grupo da diviso Hotenttia. Tem na forma muito dos seus caracteres, e
ns vemos n'essa raa uma variao sensivel na cr da pelle. O _bushman_
do sul do Calari  de cr mui clara, e alguns tenho visto quasi
brancos. Sam de estatura pequena, e de crpo franzino, mas t[~e]m tdos
os caracteres do typo Hotenttio. No norte do mesmo deserto, sbre tudo
junto aos lagos salgados, formiga outra raa nmada, os Massaruas,
fortes e de estatura elevada, de cr ngra carregada, possuindo o mesmo
typo Hotentote, e indubitavelmente pertencendo ao mesmo grupo.
Dissram-me no Cuchibi, que ainda entre o Cubango e Cuando, mas muito ao
sul, existia outra raa em tudo semelhante aos Mucassequeres, em typo e
hbitos, mas muito prtos.

Assim, pois, em vista da affinidade dos caracteres, no me repugna
admittir, que o grupo Hotenttico da raa Ethope, se estenda ao N. do
Cabo at entre Cubango e Cuando, passando por diversas modificaes de
cr e de estatura, devidas qui aos meios em que vivem,  altitude, 
grande differena de latitudes, ou ainda a outras causas menos
apreciaveis.

Por muito tempo as subdivises da raa Ethope na frica tropical, serm
mal conhecidas na Europa, por no ser facil colligir os dados para o seu
estudo.

Qual  o indgena d'essas tribus brbaras que deixa moldar o seu crpo?

Caso deixasse, como pode o anthropologista levar a materia para fazer
os moldes, e reconduzir depois esses moldes at  costa?

Como colleccionar esqueltos, crneos mesmo smente, em paizes onde a
profanao de uma sepultura pode ser caso da perda de uma expedio?

Como occultar da sua propria comitiva, dos seus proprios carregadores,
esses despojos humanos, que seriam olhados como uma fonte de maleficios?

A photographia, de tdos o meio mais incompleto de fazer esses estudos,
apresenta, ainda assim, difficuldades insuperaveis.

Em primeiro logar,  difficil empregal-a em viagem de explorao, onde
nem sempre d os resultados que d'ella se esperam; sendo quasi
impossivel o transporte de um laboratorio, em frascos de vidro  caba
de um carregador, que tropea e cahi dez vezes por dia. Eu sei-o de
experiencia propria, e que o digam Capello e Ivens.

Suppondo porem que se podiam mais ou menos facilmente empregar os meios
photogrphicos, qual era o indgena do interior que deixava apontar uma
mchina, e estava um momento firme diante da objectiva da cmara escura?

No correr da minha narrativa terei occasio de narrar uma anecdota
acontecida comigo e com o photgrapho Suisso M. Gross, em que eu
consegui obter um grupo de Betjuanas, j meio-civilizadas, com uma
paciencia e uma despesa incalculaveis.

Com os Mucassequeres, aconteceu-me, de nem mesmo lhes poder apanhar o
typo com o lapis e papl!

Voltemos  minha narrativa.

Ao deixarem-me na orla da floresta, j noute, os meus Mucassequeres
dissram-me umas palavras, que provavelmente queriam dizer ba noute, e
fram-se. A claridade espalhada na atmosphera pelas fogueiras do meu
campo, e o som de alegres cantares guiavam meus passos, e pouco depois
entrava eu no recinto do acampamento, onde, ao som da msica brbara dos
Ambuelas, havia um danar phrentico.

[Figura 72.--Mulhr Ambuela.]

Muitas raparigas Ambuelas danavam com os meus carregadores, fazendo
soar as manilhas dos braos em compassado tinir.

Impressionou-me o typo d'aquellas raparigas, que era perfeitamente
Europeo, e algumas vi que, com a mudana de cr, fariam inveja a muitas
formosas Europeas, a quem igualariam em belleza, e excederiam em formas
e elegancias naturaes.

Ali sube um caso nvo para mim.

Estes Ambuelas, quando chga ao paiz uma comitiva, v[~e]m tocar e danar
ao seu campo, e  medida que a noute se adianta, vam pouco a pouco
retirando, e deixando ali mulheres, irms e filhas.  costume de
hospitalidade d'esta gente, offerecerem companheiras aos foragidos que
apparecem. No dia seguinte, muito cdo, ellas retiram para as suas
povoaes, e pouco depois voltam, a trazer presentes ao amante de uma
noite.

[Figura 73.--Opudo.]

Comigo deu-se uma estranha aventura.

Moene-Ca-eu-hue, o velho sova, mandou-me as suas duas filhas, Opudo e
Capu.

Opudo teria uns vinte annos, Capu dezaseis.

A mais velha era feia, e tinha um modo altivo; a mais nova, sympthica,
tinha um rsto cndido e ingnuo.

Desde que me internei em frica, decidi ter uma vida austera, o que me
deu sempre grande influencia sbre os meus prtos, que, no me vendo
beber seno gua, e no me conhecendo uma s aventura galante, me
julgram sempre um ente superior e privilegiado.

Apesar da minha fra de vontade, tive de sustentar uma luta atroz
comigo mesmo para resistir  tentao da filha mais nova do sova
Ca-eu-hue.

Capu s fala o Ganguela, que eu no entendia, mas Opudo falava o
Hambundo.

[Figura 74.--Capu.]

"Porque nos desprezas?" me perguntou ella com modo altivo.

"Por ventura na tua terra tens mulheres mais bonitas do que minha
irm?"

"Ns dormirmos aqui; porque eu no quero que se diga, que as filhas do
chefe dos Ambuelas fram expulsas por um branco."

Imagine-se a ridcula situao em que eu estava collocado! Era tal a
atribulao do meu esprito, que no sabia que responder.

 verdade que a nica resposta a dar, era aquella que eu no queria dar.

Na minha barraca estavam sentadas duas mulheres, sbre pelles de
leopardo; entre mim e ellas a vasta fogueira deitava uma luz plida, que
era inda amortecida pelo verde escuro da folhagem que forrava o interior
da cabana.

Os lampejos da fogueira alumiavam a caba cndida, e collo n de uma
mulhr de dezaseis annos, que me fitava com um olhar lnguido, tmido de
desejos, inebriante de lascivas promessas.

Eu via o arfar d'aquelle peito nu, de belleza esculptural, e no podia
desviar os meus olhos d'elle.

L fra, ao ruidoso som dos batuques, havia um cantar mais brando, e o
danar mais compassado indicava a lassido dos membros.

Os meus bravos carregadores escolhiam as companheiras da noute.

Eu estava s com as duas raparigas, mais s do que se estivesse muito
longe de gente.

"Ns ficarmos aqui, me disse a orgulhosa Ambuela; no quero expor minha
irm aos chascos das mulheres velhas das povoaes, e s te digo,
branco, que se tu s seclo do Muene-Puto, eu sou filha do sova."

O ridculo da minha posio augmentava; eu sustentava uma luta comigo
mesmo para no ceder aos atractivos da joven selvagem, e no tinha uma
palavra a dizer, porque no sabia o que fazer.

Aquella situao picaresca no podia continuar, e eu no sabia como
terminal-a.

Preferia mil vezes estar em luta com o guerreiro pai, que em tal
colloquio com a amante filha.

De repente levantou-se a pelle que fechava a porta da barraca, e alguem
entrou.

Era a pequena Mariana, que tinha escutado tudo o que se disse na tenda.

Entrou e foi acocorar-se junto  fogueira que atiou. Depois
comprimentou as Ambuelas batendo repetidas vesses as palmas, como  uso
no paiz, e repetindo a palavra _C-q-t_--_c-q-t_, e disse-lhes:
"O branco no as depreza; se as no deixa dormir aqui,  porque aqui s
eu durmo, o branco  meu. Junto d'esta est a minha barraca, podem ir
dormir ali." As filhas do sova Ca-eu-hue levantram-se e sahram com a
pequena, a quem eu daria tudo para pagar tal servio; mas, momentos
depois, voltava Opudo, e dizia-me baixo, "Hje durmimos fra, mas tu has
de ser amante de minha irm." Confesso que me metteu mdo aquella
mulhr, a mim que nunca temi as feras!

Deitei-me pensando na estranha aventura, e vindo-me vivamente 
lembrana a bblica historia da capa de Jos no Egypto.

No dia immediato, as filhas do rgulo viram como as outras trazer-me
presentes; eu dei-lhes alguma missanga, e ellas retirram, sem fazer a
menor alluso  scena da noute.

Pouco depois, um portador do sova veio prevenir-me, de que elle me
esperava essa tarde, e me mandaria um barco para eu ir  sua povoao.
No acampamento apparecram algumas cobras que os prtos diziam serem
venenosas, e muitos escorpies ngros de 10 a 12 centmetros de
comprido. Alguns dos meus prtos fram picados por estes repugnantes
archnides, cujo veneno no produzio outro accidente lm de violenta
dr e tumefaco dos tecidos prximos.

Os Ambuelas sam os primeiros povos que se encontram no meu caminho, que
no vam occultar nas florestas as suas plantaes.

 na grande planicie por onde corre o rio que a cultura  feita; por
isso a abundancia de produco que tem afamado estes povos como
cultivadores.

As cheias alagam a campina; e o nateiro que ali deixam as guas 
ubrrimo adubo que lhe avigora a cultura.

Se no regam o terreno, como no vi fazer a pvo algum Africano, fazem
irrigaes, e observei em volta das plantaes fundos sulcos, por onde
se produz a secagem dos terrenos que cercam.

Estive trabalhando, e s tarde me lembrei de ir procurar a cana que o
sova me prevenio estaria  minha disposio junto ao rio, para ir  sua
povoao.

Ao chegar ao ponto designado, qual no foi a minha sorpresa ao ver a
ligeira barca tripulada por Opudo e Capu, as duas filhas do rgulo! Eu,
que me julgo pouco medroso, confesso que sempre tive muito mdo de
mulheres.

Todavia no quiz deixar perceber receios, e saltei para a estreita
piroga, que equilibrei, dizendo-lhes: "Vamos." Ellas com immensa
destreza, com extrema elegancia, manobrram a cana, correndo por um
canalte que conduz ao rio.

O sol estava no occaso. O ligeiro barco deslisava por entre uma
vegetao aqutica riquissima, que vinha expor as suas bellezas 
superficie d'gua do canal. As victoria-regias e muitas espcies de
Nenuphar, prendiam s vezes o andar da cana.

[Figura 75.--Barco e Remo do Cuchibi.]

Eu s pensava n'aquellas mulheres. Via j a cana voltada, e eu presa de
um crocodilo.

De repente, por uma habil manobra dos remos, a cana estacou, e Opudo
disse-me: "J  muito tarde para irmos a casa de meu pai, eu esperei-te
muito tempo, volvamos para a terra, e manh voltars."

Pouco depois atracvamos, e ellas acompanhram-me ao campo.

Veio a noute, e l fora no acampamento, as danas e os cantares, e na
minha barraca as filhas do rgulo conversando de cousas indifferentes.

Levantram-se quando cessou o ruido das festas, e fram deitar-se 
porta da barraca junto de uma fogueira que accendram.

Quiz que ellas fssem para a barraca da pequena Mariana, mas Opudo
respondeu-me, que "era bicho do mato e estava acostumada a tudo."

[Figura 76--Tambor das Festas Ambuelas.]

N'esse dia o meu Augusto, que foi ao mato caar, encontrou um bando de
macacos pequenos, os primeiros que aparecram no meu caminho desde a
costa de Oeste.

No dia immediato, fui logo de manh visitar o sova, mas, querendo evitar
aventuras, armei o meu barco de cautchuc e fui n'elle.

O canal que segui vai desembocar n'um brao do rio que tem 20 metros de
largo por 6 de fundo, com corrente rpida de 50 metros por minuto.

O rio divide-se, formando ilhotas baixas e encharcadas, onde cresce um
canavial espsso.  n'estas ilhotas, ainda cortadas por pequenos canaes,
formando um verdadeiro labyrintho, que assentam as povoaes Ambuelas
n'um solo pantanoso, ao nivel do rio. As casas sam meio-encobertas pelo
canavial basto. As pardes sam construidas de canios, assentes sbre
estacaria, e as coberturas sam de clmo.

[Figura 77.--Ca-eu-hue (Cidade do Cuchibi).]

Casas, como tudo o que fazem estes Ambuelas, sam pssimamente
construidas, e pouco abrigam. Fora das portas, pendem de grandes estacas
enormes cabaas, onde elles guardam a cra, e outros objectos.

As proprias casas estam atulhadas de cabaas. Entre os Ambuelas, a
cabaa  mala,  cofre,  o seu principal traste de mobilia.

Os depsitos de mantimentos, s differem das casas de habitao em
estarem dois metros elevados do solo, sbre estacas, e por isso livres
das inundaes do rio.

N'uma das ilhotas mora o sova Moene-Ca-eu-hue. Ha ali a sua casa de
habitao, quatro mais, de quatro mulheres, e alguns depsitos de
mantimentos.

Junto da casa do rgulo estam misturados em tropho rstico, cveiras,
cornos e outros despojos de caa.

Moene-Ca-eu-hue recebeu-me tendo a seu lado dois dos seus favoritos.

Logo que me sentei, o meu intrprete e um dos favoritos comeram um
estridente bater de palmas, e apanhando uma pouca de terra, esfregram
com ella o peito, e repetram muitas vezes apressadamente as palavras
_Bamba_ e _Calunga_, terminando por nvo bater de palmas muito rpido
mas pouco forte. Estavam os comprimentos feitos.

O rgulo quiz ver o meu barco, e fez n'elle uma pequena excurso pelo
rio.

O seu espanto, ao ver o poder de fluctuao do barco portatil, no tinha
limites, e muitas vezes me repetio, que no vendesse d'aquelles barcos
aos Ambuelas do Cubangui, seno estavam perdidos.

Tranquillizei-o dizendo-lhe, que os brancos no queriam guerra entre
elles, e por isso teriam tdo o cuidado em no lhes dar os meios de a
fazerem.

De volta  ilha, mandou elle vir uma cabaa de _Bingundo_, e um copo de
folha de flandres, lata troncocnica de marmelada de Lisboa, deixada ali
por algum sertanejo Biheno, em viagem de commercio.

Cheio o copo, entornou o sova algumas gtas do lquido fermentado no
solo, e cobrio de terra hmida o sitio, bebendo em seguida tdo o seu
contedo.

Tendo-lhe dito o intrprete, que eu s bebia gua, elle passou a cabaa
aos seus favoritos, que a esgotram em um momento. Ao meio dia estava de
volta ao meu acampamento.

Estive n'esse dia com um indgena, irmo do sova, que me disse, ter
descido d'ali ao Zambeze embarcado pelo Cuchibi e Cuando.

[Figura 78.--O Irmo do Sova.]

Este prto  intelligente, e fala bem o Portuguez, por ter sido soldado
em Loanda, para onde fra vendido no tempo da escravatura.  um grande
caador, e muitas vezes percorreu, nas suas excurses cynegticas, as
margens do Guando at Linianti.

Disse-me, ser o Guando completamente navegavel, sem rpidos, mas por
vezes alargar tanto que adquire pouco fundo, e ser to poderosa a
vegetao aqutica, que prende os barcos, tornando em alguns pontos
difficil a navegao.

Affirmou-me, e depois tive occasio de verificar nas localidades, que o
rio Cuando se chama sempre Cuando at Linianti, e d'ali ao Zambe ainda
Cuando ou rio de Linianti, e nunca Chobe, ou Tchobe, como vem designado
nas cartas.

A raa Ambuela contina no Cuando o mesmo systema de vida que tem no
Cuchibi, e as ilhas sam ainda o local onde edificam as suas povoaes.

Nas margens do Cuchibi reapparece o luxo dos penteados, que tinha
desapparecido com a raa Quimbande. O bzio mido, _caurim_,  de nvo
muito apreciado ali, no para enfeitar as cabas, mas para fazer largos
cintos adornados com elle.

No fim do canal onde embarquei para ir a casa do sova, notei dois molhos
de grossos paos espetados verticalmente e distanciados de alguns metros.
D'estes paos pendiam bocados de esteiras j meio-apodrecidas do tempo.
Indagando o que era aquillo, sube que junto quelles paos se praticava a
circunciso s crianas msculas de 6 a 7 annos, e depois as mandavam
para o mato completamente despidas, at completa cura, sendo-lhes
ministrada a alimentao pelos operados do anno antecedente. Elles no
mato teciam esteiras para cobrirem a sua nudez, e ao re-entrarem nas
povoaes, deixavam-n-as penduradas nos paos em que haviam sido
operados.

Mostrram-me ali tambem outra engenhoca muito curiosa.

Sbre duas forquilhas tscas elevadas meio metro da terra, descana um
pao cylndrico de um metro de comprido com 30 milimetros de dimetro,
envolvido em palha fortemente amarrada, que lhe d um aspecto fusiforme.

Este apparlho  feito por um cirurgio de fama, que lhe incute um poder
extraordinario. Logo que um marido suspeita sua mulhr de esterilidade,
manda chamar o cirurgio, que a conduz junto ao _curativo_.

No meio de palavras cabalsticas, -lhe esfregado o peito e as costas
com o precioso pao envlto em palha, e afianou-me o sova, que o
resultado apenas se fazia esperar nove luas.

Apesar da muita f que os Ambuelas t[~e]m n'este systema de terminar a
esterilidade, eu no me atrvo a aconselhal-o na Europa.

As minhas relaes com os indgenas eram as mais cordiaes e affaveis.

As filhas do rgulo continuavam a trazer-me presentes, e s ellas
proviam  minha alimentao e  dos meus muleques de servio.

Cousa que eu desejava era logo procurada e a minha vontade satisfeita,
querendo ellas fazer acreditar s outras, que entre ns existiam
relaes mais ntimas do que as de uma leal amizade. Eu sabia que era
uma vergonha para ellas o serem repudiadas pelo forasteiro a quem se
dam, e deixava-as apparentar a meu respeito o que realmente no eram.

Vivamos assim nos termos da melhor amizade, sendo verdadeiramente
importante a coadjuvao que ellas me prestavam, para obter os
carregadores e mantimentos de que eu precisava, para atravessar uma
larga zona despovoada e falta de recursos.

Pude obter larga proviso de milho e algum feijo, sendo a maior parte
presente das filhas do rgulo.

Os meus haveres tocavam o seu fim, e salvo uma grande poro de plvora
encartuxada, alguma missanga e pouco cobre para manilhas, j nada mais
possuia. Dois dos meus carregadores levavam o presente que eu destinava
ao rgulo do Barze, no qual figurava um realejo, em cuja tampa dois
bonecos automticos, que danavam ao som do monho de msica, faziam
divertir enormemente o gentio. O meu Augusto aproveitava a curiosidade
dos indgenas, explorando-a em meu favor, e fazendo ver o realejo em
aco, a trco de ovos de gallinha, que elle tinha o cuidado prvio de
deitar em gua para ver se estavam em bom estado, porque mais de uma vez
no principio, foi enganado pelo gentio manhozo, que vido de satisfazer
a curiosidade, no hesitava em ir aos ninheiros tirar s gallinhas os
ovos incubados.

Moene-Ca-eu-hue, de certo a instancias das filhas, resolvia todas as
difficuldades que se apresentavam, e preparava-me rpidamente a partida.

Ellas tinham resolvido acompanhar-me at onde fssem os Ambuelas,
devendo ser Opudo quem dirigisse a horda dos seus sbditos.

Antes de seguir os acontecimentos da minha viagem, direi mais algumas
palavras do paiz e dos Ambuelas, que to hospitaleiros fram para mim.

A lngua Ambuela no  mais do que a lngua Ganguela, a mesma que se
comea a falar a leste do rio Cuqueima.

Como o Hambundo, de que  um dialecto,  pobrssima, muito irregular nos
verbos e falta de tdos os vocbulos que exprimem um sentimento nobre e
generoso.

Serm to infelizes estes povos que no sintam a necessidade de
exprimir esses sentimentos pela palavra, por serem elles estranhos  sua
existencia?

Impossivel me foi averigual-o, mas no me repugna crel-o.

N'este ponto, onde fui recebido como amigo, e por isso livre de qualquer
influencia que predisposesse o meu esprito contra o gentio Africano,
no pude ler ainda nos arcanos da alma do ngro, mais do que srdida
cupidez, a material lascvia, a cobardia em presena do forte, a ousadia
contra o fraco.

Os povos Ambuelas sam, de tdos os que encontrei no meu caminho, os que
em maior escala cultivam a terra, que lhes paga o trabalho que elles lhe
dispensam com prodigalidade admiravel.

O feijo, a abbora, a batata dce, a ginguba, o rcino e o algodo, sam
cultivados entre as enormes searas de milho de ptima qualidade. Tambem
cultivam estes povos a mandioca, mas pouca pude obter, por terem sido
n'aquelle anno destruidas as plantaes d'ella por uma cheia do rio
extempornea.

As gallinhas sam o nico dos animaes domsticos que possuem os Ambuelas.
O seu viver, sempre em receio dos ataques dos vizinhos, faz com que
estes povos no sejam pastres, deixando ao abandono as extensas
planicies cobertas de vioso pasto, onde poderiam apascentar enormes
rebanhos.

O gado bovino deixa de apparecer onde desapparecem os Quimbandes.

O caprino apparece, ainda que raro, entre os Luchazes, entre os quaes
apparece mais raro ainda o prco domstico, que abunda no Bih e entre o
Bih e a Costa Oeste.

Em paizes cobertos de ubrrimas pastagens, livres da terrivel msca
z-z, em todas as condies desejaveis para largas criaes de gados,
porque faltarm elles?

No  talvez difficil encontrar a explicao. O gado  a riqueza maior
dos povos Africanos, e excita sempre a cupidez dos vizinhos, sendo como
eu j tive occasio de dizer, a causa permanente das guerras entre os
povos que demoram da Costa Oeste ao Bih.

O receio de ser rico, e por isso de ser atacado e roubado, no 
estranho talvez  falta de gados que se encontra do Cuanza ao Zambeze.
Entre estas brbaras gentes os paradoxos sam vulgares, e ha ali
principios estabelecidos e arraigados que difficilmente podem ser
comprehendidos na Europa.

O co, esse fiel e dedicado amigo do homem, no desmente junto do prto
o seu mistr de companheiro desvelado, e vigia ladino, encontrando-se
entre tdos os povos das raas Ganguelas.  verdade que uma variedade de
gozos e alguns podengos degenerados, sam apenas os espcimens que se
encontram da raa canina n'esta parte de frica. Entre os Quimbandes e
os Bihenos sam os ces desveladamente tratados, porque sam destinados a
serem comidos, e sam apreciado manjar.

Os Ambuelas, como disse, com elementos para serem dos primeiros povos
pastores de frica Austral, nenhum gado possuem, e apenas fazem criao
de uma variedade de gallinhas muito pequenas.

Entre os habitantes do rio Cuchibi no ha logares destinados para
cemiterios. Os sovas sam enterrados no mato em logar separado, mas o
pvo  indistinctamente sepultado no ldo do rio.

Os Ambuelas t[~e]m costumes brandos, e  mais franca a sua
hospitalidade.

Sam bastante caadores, e apanham muita cra nos matos.

[Figura 79.--Caador Ambuela.]

A mulhr tem mais alguma considerao entre elles do que entre os outros
povos que at ali visitei, onde  apenas escrava ignobil.

Estes indgenas sam muito pescadores, o que no admira vivendo no meio
de um rio cuja fauna aqutica  variadissima.

Effectivamente, de tdos os rios que at ali encontrei, nenhum vi to
piscoso.

Pude obter dos indgenas, durante a minha estada ali, 18 variedades de
peixes, assegurando-me elles haverem outras ainda.

[Figura 80.--Chingune.

1/4 do natural. Pelle molle e desprovida de escamas. Dorso castanho com
manchas mais escuras; forma triangular, sendo o ventre um lado e o dorso
o vrtice; 3 barbatanas ventraes, 2 subdorsaes e duas dorsaes. Dois fios
musculares sobre a boca e dois na maxilla inferior.  especie de um
gnero muito vulgar em frica e que conta muitas especies.]

quelles que pude ver dam elles os nomes seguintes:--


Peixes pequenos, menores de 20 centmetros.

 1. Mussouzi     peixe de pelle.
 2. Mango        idem.
 3. Chinguene    idem.
 4. Chibembe     idem.
 5. Limbumbo     idem.
 6. Dipa         peixe de escamas.
 7. Chitungulo   idem.
 8. Lincumba     idem.
 9. Nhele        idem.
10. Lingumoeno   idem.

[Figura 81.--Lincumba.

Tamanho natural. Escama dura e larga; dorso cinzento azulado; ventre
branco prateado; 5 barbatanas ventraes, 1 lombar. Barbatanas moles.]


Peixes grandes, entre 20 e 50 centmetros.

11. Ch          peixe de pelle.
12. Mucunga      peixe de escamas.
13. Undo         idem.
14. Chinganja    idem.
15. Nassi        idem.
16. Bula         idem.
17. Ganzi        idem.
18. Boei-ie      idem.

[Figura 82.--Chipulo ou Nhele.

Tamanho natural. Escama dura e miuda; dorso cinzento avermelhado; ventre
branco avermelhado; 3 barbatanas veutraes, duas sobreventraes, e 1
lombar percorrendo tdo e dorso, armada de espinhos.]


Seis diferentes grandes Mamiferos habitam o rio Cuchibi.

1. O Hippoptamo.
2. O Quichbo ou Buzi (antlope).
3. O Nhundo (Lontra commum).
4. Libao (Grande Lontra malhada de branco).
5. Chitoto (pequena Lontra completamente prta).
6. Dima (herbvoro do tamanho de uma cabra pequena, desarmado de cornos,
vivendo nas mesmas condies do Quichbo ou Buzi).

Ainda os reptis que habitam as guas do rio sam numerosos, sendo que os
crocodilos sam pequenos e pouco vorazes, e as cobras umas sam, outras
no venenosas.

Tem uma grande variedade de batrchios, que os Ambuelas no distinguem,
dando a tdos indistinctamente o nome de Manjunda.

Nos canaes e sitios onde a gua  estagnada, vivem milhares de
sanguesugas, como em tdos os rios d'esta parte de frica.

Tinha feito larga proviso de milho, e para elle muitos carregadores,
sob o commando das filhas do sova; decidi-me pois a partir, e depois das
mais cordiaes despedidas, segui, a 4 de Agosto, continuando a descer o
rio na margem direita.

Duas horas depois de ter deixado Ca-eu-hue foi-me indicado pelos guias
um vao onde seria possivel a passagem. Passram elles para me mostrarem
o caminho, e eu vi, que a um homem de estatura regular, dava a gua pelo
pesco durante uns 20 metros.

O rio tem ali de 70 a 80 metros de largo. Despi-me e fui estudar o vao.
Vi que era estreito, e logo a montante e a jusante profundava de 3 a 4
metros, mas o fundo era de areia muito resistente. A corrente do rio era
sbre o vao de 60 metros por minuto. N'estas condies a passagem 
sempre difficil a uma comitiva carregada.

Dei ordem de comear a passagem, que levou duas horas, conservando-me eu
sempre dentro de gua, com o Verissimo e Augusto, os nicos que sabamos
nadar, promptos a acudir a algum que perdsse o p. No houve porem o
menor incidente, e nem uma carga se molhou, tal cuidado tivmos tdos.

Passado o rio, como estivssemos bastante fatigados, apenas ganhmos a
povoao de Lionzi, onde acampmos.

Houve grande affluencia de gentio no meu campo, e chovram presentes e
offertas de venda de mantimentos. Nunca vi em frica tantas gallinhas
como n'esse dia trouxram os Ambuelas a meu campo. No houve carregador
ou muleque que no comsse gallinha assada.

Notei entre aquelle gentio uma moderao e brandura verdadeiramente
admiraveis em pvo Africano.

Tdos os homens vinham armados de arco e frechas; alguns traziam
azagaias, e muitos, lm das armas gentlicas, compridas carabinas de
silex, de fbrica Belga.

[Figura 83.--O vao do cuchibi.]

Entre os Ambuelas, homens e mulheres cortam um tringulo nos dois dentes
incisivos da frente, mas em ngulo muito mais aberto do que entre os
Quimbandes.

As suas armas sam fabricadas por elles, sendo muito imperfeito o
trabalho do ferro, que extrahem em minas a jusante da confluencia do
Cuchibi e Cuando.

Os Ambuelas que usam espingardas s querem, como eu j disse, as armas
lazarinas hje fabricadas na Blgica, e a cada pea de caa que matam,
enrolam em trno do cano um bocado de pelle do animal, o que d logar,
pela simples inspeco da arma, a saber quantas vctimas ella tem feito.

Isto deforma a arma, e impede de apontar; mas, como elles s arriscam um
tiro a dez passos, acontece matarem.

O caador que vi ali tendo morto mais caa tinha dez bocados de pelle em
trno do cano da espingarda.

Aquella pobre gente, sem as armadilhas do mato, no teria pelles para
cobrir a sua nudez.

Plvora  rara ali, onde apenas de annos a annos apparece um sertanejo
Biheno, que lhe vende pouca, e por isso tem subido valor.

[Figura 84.--Azagaias dos Ambuelas.]

Entre os Ambuelas que viram ao meu campo appareceu um muito engraado,
que por tdos os modos procurava convencer-me a dar-lhe uma carga de
plvora por um gallo grande que trazia. Divertio-me muito com o modo
engraado por que tentava convencer-me a fazer a transaco, at que eu
lhe disse, que faria o negocio, se elle matasse o gallo a cincoenta
passos com uma frecha.

Elle aceitou, e eu medi a distancia.

[Figura 85.--Ferros de frechas dos Ambuelas.]

Collocado o gallo convenientemente disparou-lhe oito frechas que trazia,
fazendo pssimos tiros.

Outros indgenas enthusiasmram-se com o divertimento, e comeou um
chuveiro de frechas em trno do pobre animal, e ainda que alguns se
acercram a quarenta passos, foi de meio metro distante do alvo o tiro
mais certeiro. Eu ento disse aos Bihenos que dava o gallo a quem o
matase. Viram os melhores atiradores de frecha da comitiva, e quem
melhores tiros fez foi o prto Jamba, de Silva Porto, que chegou a
cravar uma seta a cinco centmetros do gallo, que ficaria vivo, se eu o
no matasse com um tiro da minha carabina Winchester.

No mato em que estava acampado havia uma enorme quantidade de aranhas
brancas, com o crpo volumoso como uma ervilha, que mordiam, causando
uma dr violenta mas passageira.

O acampamento estve sempre cheio de mulheres, talvez por estarem ali
comigo as filhas do rgulo. Usam ellas grande nmero de manilhas de
ferro da espessura de dois a trs millimetros de seco quadrangular,
tendo as duas arestas exteriores picadas.

Quando danam (e danam muito as Ambuelas), s o tinir das manilhas 
uma msica.

Ellas comprimentam-se umas s outras batendo repetidas vezes com as mos
abertas nos peitos ns.

Um costume que encontrei entre tdos os povos Ganguelas, mas mais
rigorosamente cumprido no Cuchibi,  o modo de falar aos sovas ou
sovtas.

A pessa que fala, diz o que quer dizer ao sova, a um dos prtos que
elle tem a seu lado; este repete o recado a um segundo prto, que o
transmitte ao sova. A resposta segue pelas mesmas vias.

A explicao que me dram d'isto foi a seguinte:--A pessa que d o
recado, ouvindo repetir depois duas vezes o que disse, pode corrigir
alguma interpretao errnea que houvesse da sua ida, e o mesmo se d
com quem responde.

Eu supponho, porem, que ha ali mais alguma cousa, e que os sovas
estabelceram o uso, para durante a repetio trplice da arenga, terem
tempo de preparar a resposta.

De Lionzi fui dar um passeio de caa pelo rio at  sua confluencia com
o Cuando, cuja posio marquei grosseiramente, por no ter podido fazer
observaes, mas que, ainda assim, no deve ter grande erro, por haver
eu determinado perfeitamente a posio de Lionzi.

Junto  confluencia do Cuchibi, encontrei duas grandes povoaes
Ambuelas, Linhonzi e Maramo, e entre ellas e Lionzi, uma grande
povoao, Chimbambo.

Na confluencia do rio Queimbo est situada a povoao de Catiba,
governada por um prto da povoao de Ca-eu-hue, e sujeito ao sova do
Cuchibi.

De volta ao meu campo, vim encontrar a minha gente de tal modo entregue
s delicias de Cpua, que no havia fra para os arrancar dos braos
das formosas filhas desta nova Ninive Africana.

A embriaguez do _Bingundo_ e a embriaguez do amor, tornavam surdos os
meus homens a rogos e a ameaas.

O sovta do Lionzi veio ao meu campo, e trouxe comsigo um Mucassequer,
seu hspede. Eu entendi-me logo com o Mucassequer, para elle ser guia
at s nascentes do rio Ninda, que eu queria ir demandar; e estando
n'esse dia de muito bom humor, chamei os pombeiros e disse-lhes, que ia
seguir com os Ambuelas e os meus muleques, e que ficassem elles se
quizessem, mas que eu lhes levava tdos os mantimentos.

Puz-me logo a caminho, guiado pelo Mucassequer e acompanhado das filhas
do sova e sua gente.

Os meus Quimbares, vendo-me partir, deixram tambem o campo, e
seguram-me, ficando tdos os Quimbundos e os muleques do Verssimo.

Depois de uma difficil marcha de seis horas a travez de floresta
emmaranhada, e onde se no encontra gua, alcanmos a margem direita do
rio Chicului, abrasados de sde.

Este rio corre em uma planicie deserta e apalada, de 1600 a 2000 metros
de largo, e a floresta sempre espssa vem terminar onde comea o pal.

Durante a noute os lees e leopardos rondram sem cessar o meu
acampamento, rugindo em cro infernal.

No dia immediato, decido logo de manh passar  outra margem.

Passei o rio n'uma ponte, de certo construida outrora, por comitivas
Bihenas, que eu reconstrui, e que me deu facil passagem; mas no foi
igualmente facil alcanar a floresta da margem esquerda, porque havia a
atravessar a planicie lodosa, onde nos enterrvamos at por cima da
cintura.

O meu Ppca por vezes ficou s com a caba de fra, e deu trabalho a
desenterrar.

Fram 1500 metros de travessia difficil e fatigante.

O rio tem 15 metros de largo por 4 a 5 de fundo, com uma corrente de 40
a 45 metros por minuto. Vi n'elle muito peixe grande e pequeno, e alguns
crocodilos de pequeno talhe.

Depois de passar o rio, vi a um kilmetro jusante, uma grande manada de
songue, e indo logo ali encoberto pelo mato, consegui matar trs.

A minha cabrinha Cra no se separa um momento de mim, e anda em
contnuo sobresalto desde que sentio os lees.

Os meus prtos apanhram muitas aves, variedade de codornizes, com uma
poupa branca, e pernas brancas.

Pela uma hora n'esse dia, chegram os meus Quimbundos, e os pombeiros,
de orlha baixa, viram pedir-me mil perdes de no terem seguido na
vspera.

Eu andava ento de tal modo satisfeito, que tudo perdoei, indo em
seguida pescar com um enorme tresmalho que levava, e com o qual apanhei
innmeros peixes muito semelhantes aos mugens ou tanhas dos nossos
rios.

Esta rde, tresmalho ou barbal, como lhe chamam os pescadores do rio
Douro, foi um presente que me fez meu pai, e que, em muitas
circunstancias, foi o nico recurso que tivmos para matar a fome.

A doena grave de um dos meus prtos fez-me demorar dois dias n'aquelle
ponto; o que me contrariou em extremo, porque, tendo comigo numerosos
Ambuelas, as provises que eu tinha trazido do Cuchibi desappareciam
rpidamente, e eu tinha diante de mim um enorme paiz a atravessar at ao
Zambeze, onde nenhum recurso encontraria, lm da caa, sempre
problemtica em frica.

Em um dos dias, os Ambuelas fram  floresta em busca de mel, guiados
pelos _indicators_ ("indicadores"), e d'elle fizram grande colheita.

Muitos naturalistas notaveis, desde Sparmann e Leveillant, os primeiros
que estudram esta curiosa ave, at os mais modernos exploradores que
t[~e]m descripto os seus hbitos, que me perdoem ainda aqui falar
d'ella, e lhes diga, na minha humildade, o que conclu do muito que
observei os seus costumes em frica.

Que o _indicator_ seja ou no um cco  coisa de que no fao questo,
deixando isso  autoridade dos Bocages e dos Gnthers.

Que elle se dva chamar _Cuculus albirostris_, como queria Temminck, ou
smente indictor, como querem outros,  nova questo, em que no entro.
Descrevel-o, sendo profano em ornithologia, seria pedantismo; e por isso
limitar-me-hei a contar o que lhe vi fazer, e a tirar uma concluso
minha.

Logo que o homem penetra em uma floresta dos sertes d'Africa Austral,
apparece-lhe o _indicator_ saltitando de ramo em ramo, e chegando a
aproximar-se, sempre com o seu chilrear montono. Logo que lhe damos
atteno, levanta elle o seu vo pesado, e vai pousar mais longe,
vigiando se o seguimos.

Se o desprezamos, volta elle para junto de ns, e continua a saltar e a
chilrar, voando outra vez, e formulando muito pronunciadamente o convite
de o seguirmos. Cedemos a final e acompanhamos a vezinha, que de ramo
em ramo, com vos curtos para nos no perder de vista, nos vai guiando a
travez da floresta, a maior parte das vezes at junto de um ninho de
abelhas.

Este caso  o mais vulgar, e  sempre aproveitado pelos indgenas
buscadores de cra.

Alguns exploradores, e entre elles o nosso Gamito, dizem, que elle
conduz tambem o homem junto do antro da fera. Esse caso nunca se deu
comigo, que segui dezenas de _indicators_, e nunca encontrei indgena
que m'-o affirmasse.

Conduzir-me junto do cadaver de caa j em putrefaco, a um acampamento
abandonado de ha pouco, a uma laga, junto de outra gente, isso me
aconteceu a mim, e acontece a tdos os que seguem o bulioso passarinho.
E contudo elle nada lucra em guiar os passos do homem para ali.

O que  facto , que elle leva o homem quasi sempre ao mel, e eu
supponho que o quer levar sempre, e que sam occasionaes os outros
encontros, que t[~e]m feito impresso a muitos viajantes; encontros nada
de estranhar em florestas Africanas.

 mesmo possivel, que no caminho para o enxame encontremos o leo, sem
que a inteno do pssaro seja a de nos fazer devorar pela fera.

Se porem a regra geral, de ir indicar as abelhas, tem excepes, sam
ellas tantas e to variadas, que eu atrevo-me a dizer, que o _indicator_
 o verdadeiro apodador da humanidade.

Encontrei junto ao rio Chicului uma pelle de cobra de sete metros de
comprido por 40 centmetros de largo, affirmando-me os indgenas que as
ha ali maiores.

Pude finalmente seguir a 9 de Agosto, j desejoso que as filhas do sova
do Cuchibi voltassem com a sua gente, porque os mantimentos que
trazamos desappareciam a olhos vistos, e j no era pequeno o meu
cuidado pensando no futuro.

Depois de marcha de trs horas, encontrei um ribeiro, correndo a S.S.E.,
e depois de atravessarmos a vao, encontrmos uma laga de duzentos
metros, que tivmos de vadear com gua pela cintura.

Este ribeiro, que entra no Chicului perto da sua foz,  o Chalongo,
provavelmente o que nas cartas apparece com o nome de Longo, e que, por
uma errada informao, os cartgraphos t[~e]m feito correr ao Zambeze.

Durante a passagem da laga, vimos alguns abutres descendo com
persistencia em um mesmo logar, a meio kilmetro de ns. Fui ver o que
atrahia ali os repugnantes rapaces, e ao longe vi uma nuvem d'elles
esvoaando sbre um corpo volumoso cercado de hyenas, que fugram sem
que eu lhes podesse atirar. Aproximei-me, e encontrei uma enorme Malanca
(_Hippotragus equinus_) recentemente morta pelo leo.

[Figura 86.--Malanca.]

A pelle do soberbo antlope estava rasgada em tiras pelas garras da
fera, e, cousa notavel, que eu no pude explicar, as unhas das patas
estavam completamente rodas.

Os olhos tinham sido arrancados das rbitas, de certo pelas aves
rapaces.

Os meus Quimbundos, logo que vram a Malanca, corrram sobre ella, e com
unhas e dentes disputram uns aos outros os restos d'aquella carne
bafejada pelas hyenas, em mais repugnante espectculo do que, minutos
antes, me tinham offerecido as proprias hyenas e abutres. Mais pareciam
feras do que homens.

E note-se, que ento no havia necessidade, porque eu tinha mrto caa,
e as provises feitas no Cuchibi nos tinham em abundancia.

Os meus proprios Quimbares no resistiram  tentao, e juntram-se aos
Quimbundos no repugnante espectculo.

Metti em ordem a caravana, e fiz seguir vante. Pelo caminho fui
pensando no poder que tem a vida selvagem sbre o prto.

[Figura 87--1. Cornos vistos de frente.

2. Rasto da Malanca]

Os meus Quimbares, gente meio-civilizada de Benguella, j igualam os
Quimbundos em selvageria e embrutecimento.

Eu s vezes penso, que isto, que se afigura possivel a muita gente na
Europa, de civilizar o prto em frica,  simplesmente absurdo.

O elemento civilizador ser por ora to pequeno junto do elemento
selvagem, que este predominar em quanto aquelle no tomar propores
enormes.

 preciso que em frica haja por cada prto um branco para se realizar
esse sonho de muitos espritos elevados do velho mundo; porque s ento
o elemento civilizador equilibrar com o selvagem, e poder vencel-o.

Temos at um exemplo d'isto com os Bers do Transvaal, que, Europos de
origem, em um sculo apenas, perdram tudo que de civilizao trouxram
da Europa, fram vencidos pelo elemento selvagem do meio em que viviam,
e hje, se sam Europos pela cr e pela religio de Christo que
professam, sam brbaros pelos costumes que tirram do paiz.

O notavel era, ter eu atravessado tantos povos brbaros, onde nunca
chegou o menor elemento civilizador, e no ter encontrado pvo algum
peir do que o Biheno, que est em contacto com a civilizao da Costa
de Oeste.

Ao caminhar pensava eu n'isso, e repetia a phrase que tantas vezes me
tinha repetido o meu amigo Silva Porto: "Olhe que os melhores Bihenos
sam incorrigiveis, firme-se n'este principio e marche com elles."

Depois que eu entendia o Hambundo  que bem podia avaliar o que elles
eram.

s vezes,  noute, na minha barraca, eu escutava as conversas que se
falavam em trno de mim, e no se calcula o que eu ouvia.

Uma noute, escutava eu episodios de uma guerra que um anno antes tinha
havido no Bih, contra gente Bihena que no reconhecia a autoridade do
sova Quilemo, e entre outros ouvi o seguinte, no meio das gargalhadas e
dos signaes de approvao que os ouvintes dispensavam ao narrador:--

Contava elle, que uma noute fizera dois prisioneiros, um muleque e uma
rapariga pequena, e que, como a pequena chorasse e gritasse por elle lhe
ter amarrado fortemente os braos, elle cortou-lhe uma orlha com o
machado, e depois deu-lhe com o mesmo machado no pesco, mas de vagar
para a no matar logo. Elle descrevia ao auditorio as contores e
gritos da vctima, com grande applauso dos companheiros, at que narrou
o modo porque a tinha morto; coisa de que depois se arrepndera muito,
porque a familia d'ella, que no sabia do occorrido, veio offerecer-lhe
em resgate trs escravos, com que elle poderia ter comeado um pequeno
negocio.

No quero narrar mais d'estas scenas repugnantes, e direi apenas, que se
deve avaliar bem, como o chefe de bandidos na Europa no precisa, para
sustentar a disciplina em sua orda de rprobos, ter mais energia do que
o Europeo que em frica tem de commandar tal gente.

Fui acampar  nascente de um crrego chamado Combule, que, a uma milha
da sua fonte, vai lanar, para o Oeste, no rio Chicului, as suas guas,
que ainda ali no seriam sufficientes para mover uma azenha.

Convenci as filhas do sova a voltarem aos seus lares, e fizemos as mais
cordiaes despedidas. Ainda Opudo arriscou com timidez o pedido, de eu
voltar para o Cuchibi, e ir viver entre elles, e Capu fez-me, mais
eloquente ainda, a splica, com um olhar de mulhr, um d'esses olhares
que sam a verdadeira fora d'ellas, porque sam espontaneos, e no
aprendidos na escola da garridice.

No foi sem pesar que vi partir aquellas duas bas raparigas, as duas
nicas amizades que percebi em indgenas Africanos.

Ao separarmo-nos, chegou-se a mim o meu guia Mucassequer, e disse-me:--

"Eu tenho passado a minha vida no caminho que vais seguir d'aqui ao
Limbai, e por isso conho bem o paiz. Leva sempre prompta a tua melhor
espingarda, e desconfia de tudo no mato, porque vais viver muitos dias
entre feras. Toma cautela sbre tudo com os bfalos do Ninda, no caminho
has de ver sepulturas de gente morta por elles, e mesmo de brancos. Eu
sou teu amigo, porque no me fizeste mal, e deste-me plvora e
missangas, por isso te previno."

Depois da partida dos Ambuelas, fiquei s com a minha gente, e
verifiquei, no sem algum sobresalto, que tinha havido uma reduco
enorme nos vveres.

No dia immediato, embrenhei-me em uma enorme floresta espinhosa, e onde
era a mido preciso abrir caminho para seguir vante.

Depois de uma fatigante marcha de 5 horas, a mais difficil e atroz que
fiz em frica, acampei  nascente do rio Ninda, tendo deixado uma grande
parte do fato nos espinhos da floresta. Meia hora depois de chegar,
estava convertido em verdadeira caricatura, porque estava coberto de
bocados de tafet inglez, onde os espinhos me haviam rasgado as carnes.

Estava pois  nascente do rio Ninda, afamado pela ferocidade dos
habitantes das suas margens. Os lees ainda me no tinham devorado; mas
cheguei a pensar, que se o quizessem fazer tinham de se apressar, para
encontrarem alguns restos do que deixassem milhares de insectos que
dirigiam um ataque encarniado contra mim.

Ao cahir da tarde, uma nuvem de mscas, to pequenas que no tinham mais
de um milimetro, cahio sbre o acampamento, e n'um louco esvoaar,
entravam pelo nariz, pela bca, pelos ouvidos, e enchiam-nos os olhos,
dando-nos um verdadeiro supplicio, verdadeira praga.

O acampamento foi rodeado de fortes palissadas e enormes abatizes,
tomando-se todas as precaues para que ficssemos ao abrigo de um
ataque das feras.

Eu fui acommettido por um violento accesso de febre, o que no impedio
que, durante a noute, por mais de uma vez sahisse da minha tenda a
investigar porque ladravam os ces.

Os lees rugram toda a noute em volta do campo, e sbre a madrugada, um
cro de hyenas veio completar aquella msica infernal.

No posso deixar de declarar aqui, quelles que no enthusiasmo de uma
coragem temeraria se fazem illuses sbre as bellezas da vida das
selvas, que a vida entre feras  positivamente desagradavel.

[Figura 88.--O bfalo africano.]

No dia immediato, demorei-me at  tarde, para poder determinar aquella
posio, e mudei o meu acampamento para uma milha mais a leste.

Junto do sitio onde acampei ficava a sepultura de um Portuguez, o
sertanejo Luiz Albino, morto n'aquelle ponto por um bfalo. Na minha
comitiva estava o prto de confiana de Luiz Albino, o velho Antonio de
Pungo Andongo, aquelle que eu fiz alfayate do sova Mavanda.

Luiz Albino sahira do Bih com uma grande factura que vinha negociar ao
Zambeze, e em uma das suas etapes, veio acampar no mesmo ponto onde eu
estava acampado n'aquelle dia. Sahio a caar, e deu um tiro em um
bfalo, ferindo-o na articulao de um p. J se v que atirava mal,
porque no se fere um bfalo em um p.

Voltou ao acampamento, e chamou o velho Antonio (que ento era nvo),
dizendo-lhe, que tinha ferido um bfalo mortalmente, e que chamasse
gente para o irem buscar.

Os Bihenos, sempre cautelosos, no quizram ir, e elle, chamando-lhes
cobardes, foi s com o prto Antonio. Chegado ao mato, o bfalo, que,
como tdos os bfalos feridos, queria vingana e o esperava, correu
sbre elle. Luiz Albino disparou-lhe os dous tiros da espingarda sem lhe
acertar, e foi em seguida colhido pela fera, que com uma cornada lhe
rasgou o baixo ventre.

Antonio disparou contra o feroz ruminante, e o cadaver da fera foi cahir
sbre o cadaver do branco.

Hje, uma forte estacada de madeira, cercando um quadrado de cinco
metros de lado, fcha um recinto, onde se levanta uma cruz tsca de
madeira; e lembra ao caminhante, que  preciso ter prompta a carabina e
lho  mira para viajar ali.

Tinha chegado ao primeiro ponto da minha viajem onde apparecem
elephantes, e por isso mandei alguns homens  descoberta, mas os
exploradores voltram tendo apenas encontrado alguns rastos antigos. Eu
fui dar uma volta pelo mato, mas nada vi em que podesse dar um tiro.

No dia immediato, segui viagem, sempre na margem direita do Ninda, sem
que algum facto extraordinario viesse perturbar a marcha.

A 13 de Agosto, fui estabelecer um nvo acampamento dez milhas para
leste do da vspera. Um vago receio j me perturbava o esprito. Os
vveres diminuiam rpidamente, e eu estava ainda longe de paiz de
recursos. Tentei caar, mas sem resultado percorri a floresta, ainda que
vi muitos rastos frescos e cheguei mesmo a perceber caa, mas to longe
e esquiva que nada fiz.

No dia 14, tinha eu, szinho com o meu Ppca, tomado a dianteira 
caravana, quando, ao chegar ao sitio onde resolvi terminar a marcha
d'aquelle dia, percebi um enorme bfalo que pastava tranquillamente.

Pude, ao abrigo do mato, aproximar-me d'elle, e atirei-lhe a trinta
metros, apontando  espdua, porque me ficava atravessado. O animal
cahio fulminado, com grande espanto meu, porque o sitio onde atirei era
para fazer uma ferida mortal, mas no produzir morte to rpida como a
que eu vi produzir. Abeirei-me d'elle, e como no fiquei espantado,
vendo que a bala, em logar de ferir o ponto a que a dirigi, subio perto
de vinte centmetros na mesma vertical, indo cortar-lhe as vrtebras, e
produzindo a morte instantanea, pela soluo de continuidade da espinal
medula!

Este caso fez-me profunda impresso, porque um tal desvio da bala podia,
em qualquer circunstancia, ser causa da minha perda; e logo que
estabeleci o meu campo, tratei de alvejar a carabina a 25 metros.

O desvio vertical revelado no tiro ao bfalo continuava a manifestar-se.

Era a minha carabina Lepage, de grande calibre e balas d'ao.

Sendo a sua trajectoria muito curva, o armeiro calculou a ltima ranhura
da ala para 80 metros; e como eu no tinha ainda com aquella arma
atirado a menor distancia, no tinha ainda advertido no perigo que
corria fazendo um tiro de 20 a 30 metros. Assim, pois, a estas
distancias, ainda que eu pela ranhura mal percebsse o ponto culminante
da mira, o desvio vertical era constante.

Cuidei logo de remediar o defeito, e por tentativas, fui profundando a
ranhura da ala, at que obtive a maior preciso  pequena distancia
requerida.

Este episodio, que registei no meu diario e que hje descrvo aqui,
ainda que seja de interesse nullo para a maioria dos meus leitores, 
uma preveno quelles que me seguirem em frica, preveno que lhes
pode ser de subida utilidade.

O rio Ninda corre n'uma planicie levemente inclinada a leste, e que me
afirmam se estende ao sul at  junco do Cuando e Zambeze.

At ao ponto em que eu estava acampado, a floresta desce espssa at 
margem do rio; mas d'ali em diante forma apenas tufos de rvores,
semeados aqui e lm n'uma planicie enorme.

Ali o Ouco  rvore corpulenta, e to abundante, que por espao de horas
o caminhante vive n'uma atmosphera embalsamada pelo suave perfume das
suas flores.

No dia immediato, sustentei marcha de seis horas, e desviei-me um pouco
da margem do rio, cujo canavial espsso era obstculo ao caminhar; indo
acampar junto de uma laga de ba gua, no longe da pequena povoao de
Calombeu, psto avanado do rgulo do Barze.

Nada nos quizram vender, e j comeavam a escacear os mantimentos.

No achando ba a minha posio, e no podendo seguir no dia immediato,
por ter muitos doentes, mudei o campo para uma milha mais a leste,
continuando a tirar gua da mesma laga, ou antes pal, que melhor lhe
cabe este nome.

Estava na enorme planicie do Nhengo, planicie elevada mil e doze metros
ao nivel do mar, que se estende a leste at ao Zambeze, e ao sul at 
confluencia do Cuando.

O terreno enxuto na apparencia,  encharcado e esponjoso, e cede
lentamente  presso do crpo, deixando infiltrar gua do seu seio
alagado.

Nas noutes que ali dormi, deitei-me em leito sco de ervas cobertas de
pelles, para acordar n'un charco.

Comeava ali para mim uma nova vida de tormentos, porque nem  noute um
sono reparador podia vir mitigar as fadigas do crpo, e adormecer as
aprehenses do esprito.

A falta de vveres, que no tardaria a chegar; a difficuldade que me
apresentava o paiz; a minha saude que eu sentia profundamente afectada;
e a minha propria comitiva que comeava a dar signaes de insobordinao,
traziam o meu esprito perturbado, perturbao que se traduzia por um
mao-humor contnuo.

No dia 16 de Agosto, tive um momento de desespro. Estavia s,
completamente s.

No havia um homem na minha comitiva que tivesse um pouco de energia.

lm das difficuldades que se erguiam diante de mim, tdos me creavam
difficuldades. Eu tinha de decidir, de intervir em tudo, at nas mais
pequenas cousas de que nunca me deveria occupar.

Algumas dedicaes me rodeavam, no o duvidava, mas dedicaes sem
energia, em gente capaz de cumprir uma ordem, mas incapaz de fazer
cumprir a outros as que lhe transmittia.

O Verissimo no  cobarde, mas esprito acanhadissimo, sem vontade
propria, e irresoluto, no tinha a fra sufficiente para se impor no
commando. lm d'isso, aparentado com alguns dos pombeiros, era por
elles desattendido.

Via-me forado at a fazer cumprir as ordens que dava!

No meu diario escrevi ento alguns perodos, que vou transcrever aqui
textualmente, e que traduzem o meu soffrimento de ento.

"Isto desnortea-me, e traz-me de pssimo humor. Meu Deos! quanta
vontade, quanta persistencia, quanta energia  precisa a um homem que
s, rodeado de difficuldades, rios proprios que o cercam as encontra,
para proseguir na misso que se impoz! Hje szinho no meio d'frica,
tendo uma misso a cumprir, e tendo de sustentar a honra da bandeira da
minha ptria, quanto eu soffro! e quanto eu tremo por ella! Preciso de
ser um anjo ou um demonio, e chgo a crer que sou s vezes uma e outra
cousa."

N'este dia j tive de dar comida  rao, e s milho j havia.

Sentado  porta da minha barraca, ao cahir da tarde, terminava a minha
parca refeio, e olhava em roda os meus carregadores, que comiam em
silencio.

Parecia que uma tristeza profunda havia cahido sbre o meu campo,
apossando-se de tdos os espritos.

De repente os meus ces levantram-se e corrram ao mato ladrando
furiosos.

Um homem desconhecido, seguido por uma mulhr e dois rapazes, sahio do
mato, e sem fazer caso dos ces, entrou no acampamento, que percorreu
com um rpido olhar, vindo sentar-se a meus ps.

Era um prto coberto de andrajos. Um panno esfarrapado mal encobria a
sua nudez. Um casaco completamente despedaado pendia-lhe dos hombros
ns. Na caba uma cousa que muito esfro de imaginao faria suppor os
restos de um chapo braguez, e na mo um pao.

As suas armas eram trazidas pelos dois muleques que o seguiam.

A physionomia enrgica, o olhar, andar e os modos decididos, do
indgena, prendram logo a minha atteno.

Perguntei-lhe quem era, e o que queria.

Elle respondeu-me em Hambundo: "Eu sou Caiumbuca, e venho procural-o."

Ao ouvir o nome de Caiumbuca, no pude conter a minha emoo.

Tinha diante de mim o mais audaz dos sertanejos do Bih. Do Nyangue ao
Lago Ngami  conhecido o nome de Caiumbuca, o antigo pombeiro de Silva
Porto.

Em Benguella dissera-me Silva Porto: "Chame para junto de si a
Caiumbuca, e ter o melhor immediato que pode encontrar em tda a frica
Austral."

Procurei-o debalde no Bih, onde no me soubram dar noticias d'elle.

"Anda no serto, e nunca se sabe bem onde elle anda--" foi a resposta
que obtive de tdos.

Caiumbuca estava no Cuando abaixo da confluencia do Cuchibi, e sabendo
da minha passagem, viera, s com uma mulhr e dois muleques,
procurar-me.

Conversei a ss com elle por espao de uma hora, li-lhe mesmo uma carta
que Silva Porto me tinha dado em Benguella para elle, fiz-lhe as minhas
propostas, e ao cahir da noute, reuni os meus carregadores e
apresentei-lhes o meu immediato.

A 17 de Agosto, forcei marcha de seis horas, porque os vveres estavam
no fim, e era preciso alcanar as povoaes.

Acampei na margem direita do rio Nhengo, que  o Ninda depois de receber
do norte um affluente volumoso, o Loati.

O Nhengo tem de 80 a 100 metros de largo, por 4 e mais de fundo, com uma
corrente quasi insensivel. s vzes parece uma comprida laga, onde
vegetam milhares de plantas aquticas. Nas suas margens ha uma forte
vegetao arbrea, vegetao que por vzes estende os seus ramos
vigorosos por sbre as guas, e de uma e outra margem v[~e]m dar um
abrao fraternal a meio-rio.

Este grande affluente do Zambeze corre na enorme planicie de que j
disse duas palavras, a planicie que d'elle toma o nome, planicie hmida,
onde no  encharcada ou verdadeiro pal. Ali milhares de moluscos
terrestres arrastam a sua casa espiral por entre a herva curta e
rachtica.

Alguns cgados e muitas tartarugas de laga (_Emydes_), vivem na
campina, onde j, aqui e lm, algumas palmeiras, as primeiras que
encontrava desde Benguella, balanam ao vento as suas copas elegantes.

Os meus prtos fizram colheita de tartarugas (_Emydes_), que a fome
lhes fez devorar, a pesar do repugnante cheiro que rescendem estes
pequenos Cheloneas carnvoros.

Tendo-me dito Caiumbuca, que, a pequena distancia do acapamento, haviam
algunas povoaes, decidi demorar-me ali um dia, para obter vveres.

Foi debalde que, no dia immediato, enviei gente s povoaes a pedir
mantimentos; o gentio muito esquivo fugia, e no attendia razo nem
offertas.

A nossa posio tornava-se muito sria, porque j nada havia que comer
para sse dia, e as tentativas de caa e pesca no dram o menor
resultado.

Um pequeno bando capitaneado pelo meu Augusto, entrou no campo,
perseguido por um bando de lees, que s retirram ao perceber o ruido
do acampamento.

Conferenciei com Caiumbuca, e decidmos fazer, no dia seguinte, marcha
grande, para alcanar umas povoaes a que elle chamava Cacapa, e onde
me disse que poderamos obter vveres.

Segumos pois no dia 19, tendo comido pela ltima vez a 17 de manh.

A marcha foi sustentada por oito horas, indo acampar perto de uma laga,
porque tnhamos deixado a margem do rio, para nos aproximarmos das
povoaes.

Apesar da fadiga da jornada e da fraqueza produzida pela fome, enviei
gente a procurar vveres, indo entre elles o proprio Caiumbuca. Voltram
ao anoutecer com as mos vazias. Nada, absolutamente, o gentio lhes
quizera ceder, mostrando-se at hostil!

A nossa posio era grave. Tentar outra marcha, no estado de fraqueza em
que estvamos, era arriscrmo-nos a ficar tdos mortos de inanio.

Reuni os pombeiros, a quem expuz as circunstancias precrias da
caravana, e de tal modo os encontrei desalentados, que nenhum alvitre me
foi propsto.

Chamei alguns dos prtos que tinham ido s povoaes e perguntei-lhe,
se effectivamente ali haveria mantimentos? e tendo-me elles respondido
afirmativamente, eu tomei uma resoluo immediata. Disse aos pombeiros,
que fssem animar a sua gente, porque no dia immediato de manh teramos
de comer em abundancia.

Ficando s com Caiumbuca, communiquei-lhe a resoluo que tinha tomado,
de ir no dia immediato fazer proviso de alimentos ou por bem ou por
mal.

Na madrugada de 20, mandei de nvo o Augusto com alguns prtos s
povoaes, pedir que me vendssem milho ou mandioca, e expor as
circunstancias em que nos encontrvamos.

A nica resposta que obtivram os meus enviados foi uma aggresso
inslita.

Ento reuni tdos aquelles a quem a fome no tinha completamente
prostrado, e pude ter oitenta homens, semi-vlidos.

Puz-me  sua frente, e assaltei a povoao do chefe, que, depois de um
curto tiroteio sem consequencias, se rendeu  discrio.

Corri logo aos celeiros, que estavam cheios de batata dce, e tirei
tanta quanta me era precisa para matar a fome da minha gente,
regressando ao campo, com o chefe e mais alguns prtos prisioneiros. Dei
a estes o valor das batatas em missanga e plvora, e pul-os em
liberdade, fazendo-lhes ver, que era melhor tratar as cousas por bem
d'ali em diante. Elles agradecram muito a minha generosidade, e
prometram fornecer-me aquillo que tivessem logo que eu lh'-o mandasse
pedir.

N'esse dia,  1 hora e meia, estando o ceo limpo, apenas com espssa
barra no horizonte, cahio um tufo vindo do N., que, depois correu a
S.O., o foco passou um kilmetro a O. de mim, arrancando rvores e
destruindo tudo na sua passagem.

No meu campo, o vento soprou to rijo, que tivmos de nos deitar por
terra em quanto durou a sua maior intensidade.

O thermmetro subio de 20 a 32 graos, e o barmetro desceu de 667^{mm.}
a 663. Foi esta a mais violenta oscillao baromtrica que observei na
frica tropical.

s duas horas e meia, o vento acalmou de repente, ficando a atmosphera
completamente coberta de um nevoeiro denso.

As povoaes que me ficavam um kilmetro ao sul chamam-se Lutu; mas
Caiumbuca disse-me, que entre os Bihenos sam conhecidas apenas pelo nome
de Cacpa, por serem ricas em batata dce, que na lngua Hambunda se
chama _cpa_.

As gentes d'estas povoaes, como a de tdas da planicie do Nhengo, sam
de raa Ganguela, submettidas pela fra aos Luinas ou Barzes. Sam
povos miseraveis e intrataveis.

Pla tarde, chegou ao meu campo uma tropa de Luinas, que andavam
rondando no paiz, e que, sabendo que eu chegara ali na vspera, me
viram ver.

Era commandada por trs chefes, dos quaes o maioral se chamava Cicta.

Os chefes viram comprimentar-me e offerecer-me os seus servios, e
pedindo-lhes eu logo, que me obtivessem de comer, elles respondram, que
tambem estavam lutando com falta de vveres, mas que no dia seguinte me
acompanhariam at umas povoaes onde acharamos recursos. Dissram-me,
que me iriam conduzir at junto do rei do Lui, e que nada me faltaria
plo caminho logo que chegssemos s povoaes Luinas, j pouco
distantes.

[Figura 89.--Escudo dos Luinas.]

Estes Luinas t[~e]m uma ba presena, sam altos e robustos. Uma pelle de
antlope primorosamente curtida, passada entre as pernas e prsa no
cinto de couro na frente e nas costas, e um amplo capote de pelles,  o
seu vestuario. Os trs chefes traziam carabinas raiadas de grande
calibre, de fbrica Ingleza. Os outros sobraavam grandes escudos de
forma ogival, de um metro e 40 cent. de comprido por 60 cent. de largo,
e estavam armados de um feixe de azagaias de arremsso. O peito e os
braos cheios de amultos. Os pulsos sam ornados de manilhas de cobre,
lato e marfim, e por baixo dos jolhos trazem de 3 a 5 manilhas muito
finas de lato. O que n'elles e admiravel sam as cabas, no plo
cabllo, que  cortado curto, mas plos enfeites que lhe pem.

A do chefe Cicta est coberta de uma enorme cabelleira, feita da juba
de um leo. Os outros traziam penachos de plumas multicolores
verdadeiramente assombrosos.

Durante a noute apparecram entre ns innmeros escorpies, sendo
mordidos por elles alguns dos meus homens.

[Figura 90.--O Chefe Cicta.]

O terreno contina esponjoso e hmido, sendo um tormento viver em tal
paiz.

Multiplicam-se ali as palmeiras, e j vam apparecendo algumas rvores no
campo.

As termites apresentam aqui j um nvo aspecto nas suas curiosas
construces.

A 22 de Agsto, levantei campo, e cinco horas depois, ia de nvo acampar
junto da povoao de Canhete, a primeira povoao de raa Luina. Durante
a manh houve um denso nevoeiro.

Algumas matas que passei eram formadas de rvores enormes, e limpas de
arbustos, sendo facil o caminhar ali.

Logo que acampei, por preveno de Cicta, viram muitas raparigas ao
campo trazer-me gallinhas, mandioca, massambala e ginguba.

Durante tda a tarde continuram a trazer-me presentes, que eu retribuia
o melhor que podia. Tinha j que comer em abundancia!

[Figura 91.--Termites do Nhengo.]

Pedi tabaco, de que eu trazia ainda ba proviso, e sal, sal que eu no
provava havia tantos mezes!

Respondram-me, que tinham o maior pesar de no poderem satisfazer ao
meu desejo, mas que o tabaco e o sal s se davam ou se vendiam por uma
licena especial do rgulo.

Eis uma terra Africana onde ha dois artigos de contrabando! Felizmente
no ha alfndegas.

Fui visitar as povoaes de Canhete. Cresce ali nos quintaes o tabaco e
a cana de assucar com um desenvolvimento enorme.

As casas sam feitas de canio revestido de clmo, e t[~e]m umas a forma
de um semicylindro de 1,5 metro de raio, outras sam ogivaes, no tendo
mais altura do que aquellas.

Os celeiros sam como os das povoaes Ambuelas, mas de menores
dimenses.

Os Luinas viram ao meu campo, e fizram ali uma dana guerreira, muito
pintoresca, em que havia um mascarado que fazia o papl de truo.

N'essa noute chegou o prto Cainga, que eu tinha mandado, dois dias
antes, ao rgulo, a participar-lhe a minha chegada.

[Figura 92.

1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura. 3. Celeiro. 4, 4. Enxada do
Lui.]

Viram com elle alguns chefes com presentes do rei para mim, e entre
elles seis bois.

Carne de vacca! tinha carne de vacca para comer!

Disse-me o Cainga, que elle se mostrou ufano por eu vir falar com elle
de mando do Mueneputo, e que me esperava uma recepo esplndida.

Eu estava sempre desconfiado, porque conhecia bem os ngros, e sabia
quantas traies encerram as suas zumbaias, mas no deixei de ficar
satisfeito.

Elle mandou reunir muitos barcos, de modo que podesse passar a minha
comitiva de uma s vez, para mostrar a sua grandeza.

Disse-me o Cainga, que elle era rapaz de 20 annos, e que, sabendo que eu
era nvo, dissera, que seriamos amigos.

Comi tanta carne e tanta batata, j temperadas com sal, condimento que
obtive por contrabando, que me senti muito incommodado, e passei uma
pssima noute.

Os chefes Luinas que viram da parte do rgulo, trouxram ordem s
povoaes para me fornecerem o que eu pedisse sem retribuio. Esta
ordem foi acertada, porque eu no tinha com que retribuir.

Quando ia a levantar campo, chegram novos enviados do rei com sal e
tabaco para mim, e com o recado, de eu no seguir o caminho directo da
embocadura do Nhengo, porque elle queria castigar as povoaes
privando-as da minha visita.

Mandei dizer-lhe, que eu no seguiria outro caminho, por ser este o que
mais me convinha. Que eu no servia para elle castigar comigo os seus
povos delinquentes; e que, se elle me no mandasse barcos ao sitio do
Zambeze que eu havia designado, eu passaria o rio sem o auxilio d'elle.

Logo  sahida de Canhete, encontrei um pal horrivel, que tendo apenas
500 metros de largo, levou 1 hora a transpor. Caminhei a leste, e trs
horas depois alcancei as povoaes da Tapa, onde aceitei uma casa
offerecida plo chefe, por no ser possivel acampar fra da povoao em
terreno pantanoso.

As casas ali sam formadas por uma pyrmide troncocnica de canio,
coberto interna e externamente de barro. A porta tem 60 centmetros de
alto por 50 de largo.

Esta casa  cercada por outra s de granito, concntrica quella, e que
tem de raio um metro mais. O tecto abrange as duas casas e  feito de
canio coberto de clmo.

O chefe levou-me um presente de gallinhas e batata dce.

Marquei, duas milhas ao sul, a grande povoao de Aruchico.

[Figura 93.--Corte vertical de uma Casa Luin da aldea da Tapa.

a. Casa interior. b. Intervallo entre as duas pardes. c. Porta
interior, 50^{c.} por 40^{c.} d. D^{a.} exterior 1^m. por 50^{c.} e.
Ventilador. f. Parde, canio e barro. g. D^{a.} canio, 2^{m.} h.
Armao de canio. k. Cobertura de clmo.]

No dia 24 de Agosto, parti s 8 horas da manh, e depois de atravessar
um pal como na vspera, alcancei a margem direita do rio Nhengo s 9
horas, descendo at ao Zambeze que encontrei s 10 e meia.

Com que enthusiasmo eu saudei o grande rio! Alguns hippoptamos vinham
resfolgar  tna d'gua a 30 metros de mim, e dois fram vctimas da sua
imprudencia.

Um crocodilo enorme foi tambem infeliz em se conservar ao sol n'uma ilha
prxima.

Tinha saudado devidamente o Liambai! Tinha-o saudado tingindo-o de
prpura com o sangue das feras.

No meio do maior enthusiasmo dos meus e dos muitos Luinas que me
acompanhavam, alcancei as canas, e passei, ao meio-dia, para a margem
esqurda do rio.

Segui sempre a leste, e s 2 horas, encontrei outro brao do Liambai,
que se separa d'elle junto a Nariere. Andei por isso em uma grande ilha
onde ha povoaes, sendo a principal Liondo.

Aquelle brao do rio, ainda que tem 150 metros de largo,  pouco fundo,
e foi transposto a vao. Na outra margem havia mais gente mandada pelo
rgulo.

Segui sempre, e s 3 horas, encontrei uma grande laga junto  povoao
de Liara, que passei embarcado. Este lago, formado plas guas que o
Zambeze lhe introduz no tempo das chuvas, chama-se Norco.

Segui sempre a leste, por entre um labyrintho de pequenas lagas, que
era preciso evitar, e s 5 horas cheguei a Lialui, grande cidade,
capital do Barze, ou reino do Lui.

O rei tinha feito programma.

Tive em poucos dias duas grandes sorpresas, para mim j meio selvagem e
esquecido dos costumes Europeus. O contrabando de tabaco, de sal, e o
programma do rei do Lui.

Uns mil e duzentos guerreiros formram alas at  casa que eu devia
provisoriamente ir occupar, e um dos grandes da crte, acompanhado de
uns trinta figures, formram o meu squito.

Chegado  casa, que tinha um grande pteo cercado de canial, estava um
estrado, onde eu me devia sentar, para receber os comprimentos da crte.

Logo em seguida, chegram os quatro conselheiros do rei, dos quaes 
presidente Gambela. Com elles vinham tdos os grandes que formavam a
crte do rei Lobossi.

Sentram-se, e comeou, da parte d'elles e da minha, uma troca de
comprimentos e saudaes, com mil protestos de amizade.

Por fim retirram-se gravemente, e fram substituidos por outros
massadores, que s me deixram  noute fechada.

Retirei-me para a casa que me destinavam, que era um d'esses
semicilindros de que j falei, e tive uma noite de insomnia, pensando no
futuro da minha empresa.

Estava sem recursos, e se o rei no protegesse enrgicamente a minha
viagem, que poderia fazer?

Sem a generosidade d'elle, nem mesmo teria que comer ali.

Elle mandara-me dizer, que me falaria no dia immediato. Como nos
entenderamos? Aquelle Gambela, o presidente do Conslho, que acabava de
estar comigo, o homem que tdos me diziam ser o verdadeiro rei, que
seria elle para mim?

O captulo seguinte mostrar, que no era sem razo que um presentimento
mal definido me produzio uma noite de insomnia em 24 de Agosto de 1878.




INDICE.


Abbadie, M. d'., 10, 11

Abutres, 308

Acacias, 57
  soberba floresta de, 103

Adulterio, sanccionado, 54

Adevinho, indigena dos sertes d'frica, 112, 113
  consulta a meu respeito, 114

Agua, escassa, 48

gua-ardente como incentivo, 67

Algodo, produco, 198, 210-242

Ambriz, 17, 18
  ponte de desembarque, 18

Ambuellas, povoaes, 248
  descripo do paiz, 265-277
  seu chefe, 278
  danas, costumes do paiz, etc., 284, 285
  aperfeioamento agricola entre elles, 288, 289
  o paiz, 290-292
  reino animal e vegetal, etc., 293-301

Anchieta, Jos de, 63
  seu tracto pessoal, laboratorio, etc., 64, 65

Andara-canssampoa, ribeiro, 238

Angola, chegada a, 15
  recepo pelo governador, 16

Antlopes, 48-50, 220-232
  amphibios abundantes no rio Cuchibi, e outros, 261, 262
  songue, 268-270

 prova de balla: incidente, 165, 166

Armas, geralmente usadas, 151
  fao-me aprovisionar de, 154
  fabrico ballas, 156

Aruchico, grande povoao, 327
  deso o Nhengo at ao Zambeze

Associaes, obsequios recebidos de, xii

Atuco, ribeiro, 73

Atundo, sorte de goiaba, 233

Augusto, prto fiel, 160
  um Don Juan de cr prta, 161


Banja, libata de, 73

Baobabs, 48
  gigantscos, 49

Barze, revoluo no, 277-315

Barracas, construco de, 200, 201

Batatas, 94

Belmonte, povoao de, 127
  planta da povoao, 128

Bembe, sovta do, 229
  rio Bembe, 229

Benguella, sigo de Loanda para, 26
  descripo, 29-31
  sou hospede do governador, 28
  produco e commercio, 31, 32
  obtenho carregadores, 34
  partida de, 38

Bernardino Antonio Gomes, vii, 4-6

Biceque, rio, 240

Bih, resolvemos ir directamente ao Bih, 35
  descripo do paiz, seu trafico, etc., 36
  deliberao de seguir eu szinho para o Bih, 80
  descripo ethnogrfica, 132
  historica, 133
  suas differentes raas, 134
  quadro genealogico de sovas, 136
  figuras, 136, 137
  commercio em larga escala, 138
  fidelidade de carregadores, 138
  qualidades moraes, 139
  julgamento de crimes, 144
  adulterio, 144
  futuro commercial, 146-151
  carneiros e cabras, 152
  uma elegante, 161
  sempre demora  espera de carregadores e cargas, etc., 162
  modo de commerciar, 163
  preparo munies, 168
  prompto a deixar o Bih, 170
  episodio com um degradado, 174
  descripo do paiz, 190-193

Bihenos, semi-carnivoros, 147
  solemnidades barbaras com sacrificio de carne humana, 148
  comendo carne putrefacta, 268, 269
  sam incorrigveis, 310
  barbarismo, 310, 311

Bilanga, povoao do, 120

Bilombo, sova do Huambo, 77
  presentes do, 78

Bingundo, bebida dos Luchazes, 245-304

Bitovo, ribeiro, 219

Bocage (D^{or.} J.V.B. de), 9, 65
  carta ao D^{or.}, 203

Bois servindo de cavalgadura, 75, 76

Bomba, riacho, 96

Bongo-Tacongonzlo, vertente, 237

Bfalos, 58
  encontro com, 85, 231, 313, 314

Burundoa, povoao, 94

Buzi, antlope amphibio, 260


Cabango, sova de, 214
  descripo do paiz e seus costumes, 214-217

Cabindondo, ribeiro, 46

Caa, 48-50
  abundancia, 78
  no Bih, 153, 189, 231

Cacapa, povoaes, 320
  marcha forada, 321
  mantimentos tomados  fora, 321
  tufo, 321
  descripo de raas, 322

Cachota, povoao, 117

Caconda, seguimos para, 63, 69
  fertilidade, 188

Cacuroce, rio, atravessmos, 61

Cacurura, povoao, 117

Caiumbuca, sertanejo audaz do Bih, 318
  fica ao meu servio, 318

Calombeu, povoao no Baroze, 315

Calucla, acampmos, 49

Caluqueime, povoaes de, 61

Cambimbia, crrego, 234
  serra, 236, 237

Cambuta, povoao, 238
  abundancia de rlas, 238
  raas, costumes, etc., 239, 240
  recepo pelas mulheres do sova, 241

Cameron, Commander Verney Lovett, xii

Cana de assucar, 42, 198, 210

Canata, ribeiro, 73

Cangala, 237

Cangamba, Muene-Cahenda, sova de, 255
  descripo do paiz e costumes, 256

Cangemba, serra do, 45

Cangombo, ribeiro, 219

Canhete, povoao da raa Luina, 324
  traffico, costumes do paiz, etc., 325

Canhungamua, rio, 89

Canjongo, povoao de, 74

Canssampa, ribeiro, 237

Capata, 94, 146

Capllo e Ivens, 5, 7, 10, 25
  encontrmo-nos em Benguella, 35
  combinao de trabalhos scientificos, 35
  apreciao humorstica, 47
  escrevem-me, resolvendo seguir ss, 78
  resolvo-me, a meu turno, a seguir s, 79-80
  Ivens offerece-se a acompanhar-me do Bih a Benguella, em
    consequencia do meu estado de saude, 123
  separao entre mim e meus companheiros, 124, 125
  visita trocada entre Ivens e mim, 158

Capco, poderoso filho do sova do Huambo, 77
  minha visita a elle, 77
  sua audacia, 80
  ida de pundonor, 81
  presta bom servio, 88, 89
  mensagem do sova, 200

Capuo, seclo, manda-me presentes, 96

Caquingue, paiz do, 105
  descripo do paiz e raas, 107
  figuras, 108
  trabalho principalmente o ferro, 109, 110
  superstio, 111

Carabina d'El-Rei, significao, xx

Caravana de Quilengues, 48

Carbonato calcareo, 42

Carregadores, falta de, 15, 22, 23
  falta de confiana em, 25, 27
  em procura de, 26
  obtenho a final, 34, 37
  novas difficuldades, 37, 40, 66, 67, 83, 85
  fujida de, 86
  ladres em geral, 150

Caruci, ribeiro, 118

Casamentos contractados antes da noiva nascer, 116

Cassamba, acampo perto de, 176

Cassra-Caira, serra, 236

Cassma, seclo rico, imposio arrogante delle a seu sequito, 91
  repulsa, 91

Cassongue, ribeiro, 117

Catapi, rio, 65
  affluente do Cunene, 188

Catonga, povoao de, 61

Ca-eu-hue, sova, 257

Cra, 220

Chacahanga, conversa com o velho, 172

Chacahonha, povoao da raa Ganguela, 96

Chacaiombe, D^{or.}
  o adevinho, 212
  pretende curar-me por meio de feitios, 248

Chacapombo, povoao, 95

Chacaquimbamba, libata, 86
  roubo e resgate, 87

Chalongo, ribeiro, por outra, Longo, 307

Chalussinga, floresta, 48

Chaquicengo, povoao, 243
  costumes e industrias, 244-246

Chaquionde, seclo, investe contra mim e  repellido, 270

Chaquimbaia, seclo chefe da povoao de Ungundo, 118
  extraordinaria temporal, tufo, etc., 119

Charo, matas do, 118

Chiconde, ribeiro, 219
  guas correndo para o Cuito, 219

Chicto, soba, 237

Chicului, rio, 304
  passagem do rio, 305

Chicli-Diengin, rio, 50

Chimbarandongo, sova de Ngla, 59
  discurso de superstio, 60
  a cavallo em um de seu sequito, 60
  amigo dos brancos, 61

Chimbuicoque, ribeiro, affluente do Cutato, 102

Chindonga, seclo de, traz-me um presente, 99

Chinda, povoao, 117

Chinguene, peixe, 298

Chipulo, peixe, 299

Chitando, ribeiro, 73

Chitequi, ribeiro, 63

Circumciso, 293

Cirurgio, indigena dos sertes d'frica, 112

Cobongo, ribeiro, 219

Cobras, venenosas, 74, 229, 230, 288

Coillard, referencias  familia, x, xx

Combule, crrego, desaguando no Chicului, 311

Comitiva, ordem da minha comitiva em viagem, 273

Comooluena, rio, 51

Cra, cabrinha de leite, dada de presente, 55, 126, 232, 305

Crpo diplomtico, estrangeiro em Lisboa, xii

Crte ou sequito no Dombe, 40

Crvo, Joo de Andrade, homenagem a, v, 5, 10, 24
  serra de And^{e.} Corvo, 189

Coungi ou Catpi, rio, 62

Crocodilos, 42, 327

Cuanavare, rio, 240

Cuando, o maior affluente do Zambeze, 241
  suas nascentes, 242
  descripo, 249, 293
  correco de nomes porque  designado, 293

Cuango, affluente do Lungo--Ungo, 237

Cuanza, nascente do, 158, 179
  diviso entre o Cubando e Cuanza, 190
  passagem do, 194
  o paiz entre o Cuqueima e o Cuanza, 209

Cuassequera, libata de, 62

Cubango, perto do, 96
  a minha gente recusa-se a passar o, 97
  passagem do, 28
  ponte sobre o, 98
  observaes, 98
  mulhres, 102
  diviso entre o Cubango e Cuanza, 190

Cubangui, affluente do Cuando, 241
  nascentes, 252
  descripo, 257

Cuchi, 117
  atravessei a ponte sobre o, 117
  descripo, observaes, etc., 118

Cuchibi, produzindo fruto alimenticio, 249, 251
  atravesso no meu barco de cautchuc, 258
  descripo do rio, perigos de, 259
  em procura da minha comitiva, 262
  aviso de perigos, 264
  suas margens, 267, 289

Cu, rio, travessia do, 61

Cuena, rio, 76

Cuiba, 237

Cuime, rio, 209, 213, 237

Cuionja, povoao de, 171

Cuito, rio, affluente do Cubango, 222, 237

Cumbambi, rio, 51

Cunene, rio, resoluo de no ir  foz do Cunene, mas directamente ao
    Bih, 35
  reconhecimento ao, 65, 73
  travessia do, 90

Cuqueima, rio, travessia perigosissima, 121
  canoa submergida salvando-me eu por milagre, 122
  chego a Belmonte, 118, 123
  atravessei-o por meio de um barco Macintosh, 177, 178

Cutangjo, rio, 242

Cutato, rio, 102, 103


Danas, indigenas, 40, 205

Desastres, exploso de uma balla Pertuisset, 54

Desero de serventes, 51, 52

Doenas, eu doente, 55
  Capello, 65, 104
  muleque Ppca, 105
  tolhido de dores rheumaticas, 119
  durante jornada, peiorei, 120
  grave, no Bih, 124
  endmicas, 188
  acho-me envolto em feitios de curandeiro, 247, 254, 268

Dombe Grande, chegada ao, 31, 40
  Dombe, tem outros nomes, 41
  sua descripo, 42
  partida do, 45, 186, 187

Donzellas, 77

Dro, rio, chamado das mulhres, 76

Droma, rio, affluente do Calae, 74

Dumbo, soveta, 90, 91, 93


Elephantes, caador de, 232
  feitio contra, 232, 313

Enterros, 54
  da mulhr que morre de parto, 116
  de um sova, 142, 143

Entrevistas com o Ministro das Colonias, 3, 5, 9

Escravos resgatados para servirem de carregadores, 22, 107
  libertei uma leva de, 181, 222, 223
  escravatura, 224-226

Expedio, preparos, 11
  instrumentos, armamento, barracas, etc., de, 12-14
  subsidio votado, 24

Explorador, como eu fui, 1

Extravio, jumento fugido,  entregue por um indigena, 52


Feiticeiro, indigena dos sertes d'frica, 112, 115

Foras colonias, compostas de maos elementos, 33

Frederico Youle, xii


Gando, sova Tumbi, do, 177, 202

Ganguelas, mulheres, 178, 180
  o paiz, 124
  mappa, 204

Gazellas, grande, 62

Gongo, povoao, 95

Govra, riacho, 117

Guandoassiva, rio, 76


Hippoptamos, 62, 66, 327

Homenagem a Andrade Crvo, v, 9

Huambo, descripo, 81
  penteados, 83
  figuras, 82

Hyenas, 62, 308

Hyrax, 73

Hystrix Africano, 42


"Indicator." Como indicador, ou no, da existencia do mel nas
  florestas, 306, 307

Instruces do Governo concernentes  explorao, 21

Instrumentos de msica, 40;
  rebeca, 163


Jacintho, do Ambriz, 19

Jamba, ribeiro, 63

Jos Antonio Alves, 172, 173

Jos Maria do Prado, hospede de, 16


Lagartas como alimento, 102

Lamupas (ou Mupas), 105

Lees, 62, 253, 304, 312, 319

Leopardo, morto por mim, 247, 248, 304

Lialui, capital do Barze, 328
  sou recebido pomposamente pela crte, etc., 328
  o rei promette receber-me no dia immediato, 329

Libatas, 142, 149
  planta de uma libata, 150

Licctoa, ribeiro, 234

Liguri, lago, 219

Limbai, preveno contra perigos no caminho para o, 311, 328

Lincumba, peixe, 298

Linica, povoao, 179, 180

Linde, ribeiro, 254

Liondo, povoao de uma Ilha, 328

Lionzi, povoao, 300
  seus costumes, etc., 301-304

Livro. Seu pensamento e fim, xv
  seu titulo, xix

Loge, rio, 18

Lossla, ribeiro, 62

Luceque, rio, 66

Luchazes, paiz dos, 220
  raas, 221
  o paiz, costumes, etc., 221-3, 237, 243, 255

Luciano Cordeiro, viii
  escrevo a, 203

Luinas, commandados por Cicota, vem ao meu acampamento, 322
  o paiz, 323

Luiz Albino, sertanejo Portuguez morto por um bfalo, 313

Lungo--Ungo, rio, 237, 242

Luvubo, ribeiro, 75


Macacos, episodio de offerta de, 20, 290

Macotas, conselheiros do sova, 141

Malanca, 308, 309

Mandioca, 43

Mapole, arvore e folha, 252, 253

Mappas, meu caminho de Benguella ao Bih, 181

Massango como alimento, 234, 237

Massonge, riacho caudaloso, 51

Mavando, sova, 196
  seu exercito, 196-197
  visita do sova e sua crte, 199

Mel, 306

Milho, 94

Minha vida diaria, hygiene, costumes, etc.; 272
  trabalhos, 273-274

Missionarios, referencia a, 101

Moenacuchimba, aldea, 95

Mma, povoao de, plantaes enormes, 103

Mucano, crime sujeito a multa, 144, 145
  receio de incorrer nelle, 155

Mucassequeres, acampamento de, 278
  verdadeiros selvagens, sua descripo, etc., 280-284
  differena entre elles e os Ambuellas, 281

Muene-Calengo, sovta, 221, 237

Muene-Ca-eu-hue, chefe dos Ambuellas, 278
  sua visita, 279
  episodio: duas filhas do Rei dos Ambuellas offerecem-se como
    concubinas, 285, 288-290, 294
  separo-se da minha comitiva, 311

Muenevindo, povoao governada por uma mulhr, 240

Mundombes, figuras, 43, 44

Muzinda, povoao, 177
  costumes, 178, 179


Nano, povos do, 81

Nariere, 328

Ngla, visita ao sova de, 58
  troca de presentes, 59

Nhengo, planicie, 316
  acampei, 318
  grande affluente do Zambeze, sua descripo, 319

Nhongoaviranda, rio, 234

Ninda, rio, acampado em suas margens, 312
  enxame de insectos, e perigo de feras, 312, 313

Nondumba, racho, 62

Norco, lago formado pelas aguas do Zambeze, 328


Observaes scientificas. Systema por mim seguido, 130, 131
  astronmicas, 185, 191, 192
  outras, de Benguella ao Bih, 186-193
  em Cambuta, 240

Obstculos, 69

Onda, rio, 209, 211
  peixe "Ditassa," 211
  fetus arbreos, 212, 217, 218

Opumbulume, rvore, 267

Oco, produzindo uma flr odorosissima 266, 315


Palanca, libata, 75
  primeiro ponto determinado por mim, 75
  o seclo Palanca amarrado, 97
  precaues contra elle, 100

Peacock, D^{or.}, meu mdico assistente em Londres, xii

Pereira de Mello, ix
  servio penhorante de, 166

Permutao, commercio de, 43

Pessange, povoao de, 74

Pe, rio, 88

Pombeiro, chefe de carregadores, 140, 141

Pontes, sobre o Calae, 86
  id. Canhungamua, 89

Porto de Fende, rio, sua descripo, 66

Provises, falta de, 49, 50, 74, 228, 272
  longe de soccorros, 276, 317
  tomadas  fora, 321


Quando, rio, 65, 73

Queimbo, nascente do, 248

Quiaia, povoao, 95

Quiassa, bebida, 147

Quichbo, antlope amphibio, 260

Quillengues, descripo, 52, 53
  casamento, 53
  embriaguez, 54
  sahida de, 56, 187

Quimbandes, paiz, 195
  raas e costumes, 195, 196
  industrias, 207, 208
  o paiz, 210

Quimbungo, libata, 88

Quingolo, libata, 74

Quingue, velho capito do, seus protestos, etc., 107

Quiocos, ou Quibocos, 234
  descripo do paiz, seus costumes, etc., 234, 235

Quipembe, chegada a, e recepo pelo sova de, 71
  queixas contra Portugal, 72
  visita e presente do sova de, 179

Quissangua, bebida, 147

Quisscua, serra de, sua elevao, asceno, etc., 57

Quissengo, rio, 61

Quissonde, formiga destruidora, 226, 227

Quissonge, festa selvagem com sacrificio de carne humana, 148

Quissongo, 116
  chefe de carregadores, 140

Quitaqui, riacho, caudaloso, 51


Rpidos, da libata grande, 66
  mupas de Canhacuto, 66
  cataractas de Quiverequete, 66


Sambo, libata do sova no paiz do, 90
  mulhr do Sambo, 93
  acampamento entre Sambo e o Bih, 94
  um enviado do sova, 95
  a "Enhana" de Ambamba, 189

Sanguesugas, 218, 249, 299

Secula-Binza, rio, 65, 70

Sculo, fidalgo, 142

Sepulturas de seclos, 104, 105

Silva Porto, ix, 34
  chego a Belmonte, 122
  meus companheiros deixo a residencia de Silva Porto, que eu ento
    occupo, 126
  casa de Silva Porto, 128
  servios penhorantissimos de, 166, 242

Sociedades geogrphicas e outras, referencias a, xi, xii, xiv

Songue, especie de antlope, 270, 271, 305

Sovas do Dombe, descripo, nomes, etc., 39
  cerimonias selvagens na acclamao do novo sova, 143
  as mulheres do sova, 144

Stanley, ix, 22
  offerecimentos feitos em nome do Governo Portuguez a, 22, 23
  sua estada em Loanda, 23

Sulphato de cal, 42

Superstio
  esterilidade de mulheres, 293, 294


Tama, serra da, 50

"Tamega", corveta, ix
  passageiro da corveta, 21

Taramanjamba, valle extenso, 46
  falta d'gua, 46, 47

Tartarugas, 319

Termites, como alimento dos Bihnos, 148, 189, 213, 217, 218, 323
  do Nhengo, 324
  nas margens do Cutato, 103

Tia Leonarda, ou Tia Lina, do Ambriz, 19

Tributo a El-Rei, iii

Tributo de gratido, em geral, vii


Uba, monte, 61

Umpuro, rio, 51

Upanga, ribeiro, 63

Urivi, armadilha dos Luchazes, para caa, 245, 278

Usserem, ribeiro, 61

Ussongue, rio, 66


Vambo, acampmos em suas margens, 51

Vaneno, povoao, 95

Varea, rio, affluente do Cuime, 209

Verissimo Gonalves, 56
  reconhece algumas raparigas roubadas em Quillengues, 81

Victe, libata fortificada entre rochas, 66


Zaire, subi o, 21

Zambeze, resolvo ir direito ao alto Zambeze, 129


Fim do Volume primeiro.

LONDRES: NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA
LIMITADA), STAMFORD STREET E CHARING CROSS.

Notas:

[1] Alfredo Pereira de Mello, capito-tenente, e Governador de
Benguella, era o mesmo Tenente Mello de que fala Cameron no _Across
Africa_, e que era ento Ajudante-de-Campo do Governador da Provincia
d'Andrade.

[2] Parte d'estes carregadores, 200, s chegram a Benguella a 27 de
Dezembro, e outros 200 por fins de Fevereiro.

[3] Isto  quasi a prtica seguida entre os Maraves, a prova do Muave.
(Gamito, e Muata Cazembe.)

[4] Eu chamo fardo a carga de um homem, proximamente trinta kilogrammas.

[5] Lembra-me aqui do que me dizia o Ivens, com aquella graa que nunca
perdeu nos transes mais dolorosos. Dizia elle, "Em eu vendo entrar no
meu campo prto de sapatos de liga e guardasol, j sei que  branco, e
estou logo a tremer."





End of the Project Gutenberg EBook of Como atravessei frica (Volume I), by 
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI FRICA (VOLUME I) ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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