The Project Gutenberg EBook of Tratado das Ilhas Novas, by Francisco de Souza

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Title: Tratado das Ilhas Novas

Author: Francisco de Souza

Release Date: April 8, 2007 [EBook #21011]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRATADO DAS ILHAS NOVAS ***




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TRATADO DAS ILHAS NOVAS

POR

*FRANCISCO DE SOUZA*




*TRATADO DAS ILHAS NOVAS*

E DESCOBRIMENTO DELLAS E OUTRAS COUZAS,


FEITO POR

FRANCISCO DE SOUZA,

FEITOR D'ELREI NOSSO SENHOR NA CAPITANIA DA CIDADE DO FUNCHAL DA ILHA DA
MADEIRA E NATURAL DA DITA ILHA

_ assym sobre a gente de nao Portugueza, que est em huma grande
Ilha, que n'ella foro ter no tempo da perdio das Espanhas, que ha
trezentos[1] e tantos annos, em que reinava ElRei Dom Rodrigo._

     *     *     *     *     *


DOS PORTUGUEZES QUE FORO DE

*Viana e das Ilhas dos Aores*

A POVOAR A TERRA NOVA DO BACALHO, VAY EM SESSENTA[2] ANNOS, DO QUE SUCEDEO
O QUE ADIANTE SE TRATA

ANNO DO SENHOR DE 1570

     *     *     *     *     *

Ponta Delgada--S. Miguel

AORES

1877




N.^o 11

Imprimiram-se unicamente *cem* exemplares, e todos levam n'esta
pagina o competente numero, os quaes sero distribuidos gratuitamente
pelas principaes Bibliothecas da Europa e America.


PONTA DELGADA

Typ. Minerva Insulana

39--rua do Valverde (1.^o andar)--39

1877




DUAS PALAVRAS DE PREFAO


As legendas, bem cedo formadas, sobre a existencia de importantes ilhas
no vasto mar fronteiro s costas do seu paiz, foram o mais poderoso
incentivo que determinou os portuguezes, durante todo o seculo decimo
quinto e j desde o anterior, a fazerem exploraes no Atlantico
septentrional.

Foram essas exploraes a mais ampla e proficua escola de navegao que
tiveram.

Uma das suas mais proximas consequencias, foi o reconhecimento dos
Aores, que ficaram servindo de estao para ulteriores investigaes ao
occidente do seu meridiano.

A lista dos emprehendedores n'esta direco no  muito escassa.

Annos antes da primeira viagem de Colombo s Antilhas, j em Portugal
havia conhecimento da existencia de parte das costas da America do Norte.

Os Cortes Reaes, ultimos d'aquelles emprehendedores, tornaram apenas mais
positivo e extensivo esse conhecimento.

Os factos, porem, de serem essas navegaes filhas de iniciativa
particular, de serem seus resultados reaes sempre inferiores  espectativa
e aos que offerecia a costa occidental d'Africa e promettia a passagem por
longo d'ella, para o Oriente, tornaram quasi ignorados e deturpados por
uma historia official os esforos dos portuguezes n'aquella direco.

Por outra parte, a grandeza epica da empreza de Colombo, o explorador das
regions da America Central por elle descobertas, as riquezas immediatas
d'ellas auferidas pelas conquistas de opulentos imperios, a solidariedade
reconhecida do novo continente fiseram quasi obliterar a memoria das
nossas exploraes no sentido indicado, e referir ao grande navegador
genovez a gloria exclusiva da descoberta do Novo Mundo.

Desviado o genio portuguez por uma direco suprema e systematica para as
navegaes e conquistas do Oriente, quando o cyclo da sua actividade ali
estava quasi fechada, elle volta de novo a sua atteno para o campo em
que por tanto tempo o detiveram as suas crenas legendarias; embora j
ento perlustrado por outros povos e sem fundamento para taes crenas.

Foi n'estas circunstancias que foi escripto o presente opusculo, cujo
pomposo titulo, d idea d'um trabalho muito mais importante do que na
realidade .

Uma noticia contem elle importantissima, qual  a do estabelecimento de
uma colonia portugueza na ilha do Cabo-Breto, nos fins do primeiro
quartel do seculo decimo sexto.

Conhecido apenas pelo que d'elle diz a Bibliotheca Lusitana, era
julgado perdido desde o terremoto de Lisboa.

Felizmente, porem, havia mais exemplares nas bibliothecas das Provincias.

No deposito de livros provenientes das livrarias de alguns dos extinctos
conventos, e hoje encorporados na Bibliotheca da Universidade, appareceram
dois. Nos papeis politicos e historicos, ms., n.^o 620 da actual numerao,
e 175 do antigo deposito; e tambem na Miscellanea, ms. n.^o 135 do antigo
deposito.

Tendo conhecimento deste facto, o nosso fallecido amigo e illustre
aoriano, Jos de Torres, fez-nos d'elle communicao em maio de 1865.

Logo nos dirigimos ao nosso conterraneo, ento estudante em Coimbra, o
sr. doutor Manuel Ignacio da Silveira Borges, pedindo-lhe uma copia
d'elle; em breve nol-a remetteu tirada pela sua propria mo.

Destinava-mos effectuar a sua publicao, como annotao, na Memoria
sobre Gaspar Corte Real, que pertendemos dr  luz; porem tendo-se
casualmente sabido da sua existencia na nossa mo, fasemol-o agora em
separado para satisfaser-mos a certa espectao e instancias d'amigos.




ILHAS DE SANTA CRUZ DOS REIS MAGOS

SO THOM, BOM JESUS, S. BRANDO, SANTA CLARA, DA GRAA, E A DE
S. FRANCISCO OU DAS SETE CIDADES.


A oeste da Ilha da Madeira 65 ou 70 legoas, est uma grande Ilha que se
chama Santa Cruz dos Reis-magos, que tem de comprido trinta legoas, e de
largo no mais estreito quinze legoas, e pola banda do sul est em 32
graos, e corre ath 34 ao norte, e corre-se noroeste susueste, e tem por
todas as faces grandes Bahias e enseadas, grandes arvoredos, e Ribeiras,
e boas agoas, como d'isto mais largamente tenho informaes dos antigos,
e se arruma pola maneira aquy posta em uma carta Franceza, que tenho onde
est aluminada, e presumesse que tem gado.

Allem della a oeste, obra de 45--50 legoas, em 32 graos pouco mais ou
menos, est outra Ilha que se chama So Thom, que tem de Leste Oeste,
de comprido, passante de doze legoas, e largo cinco, uma formoza Bahia
ao Sul com um Ilheo, e na face do Norte uma Roca de Baxio, como me
constou das ditas informaes, e aluminao da dita Carta Franceza.

Allem mais a oeste 75--80 legoas est outra Ilha que se chama o bom Jhus,
em altura de 33 graos, pouco mais ou menos, e tem de Leste Oeste, de
comprido, quinze legoas, e de largo melhor de 7, com formozas Bahias por
todas as faces e pola banda do Sul sobre a bahia dous Ilheos, e da banda
do Sudueste, afastado della, um grande Ilheo, como me constou das
informaes, e da dita carta aluminada.

No meridiano da Ilha do Porto Santo, pola banda do norte, em 35 est uma
Ilha que se chama So Brando, to larga como comprida, redonda, que tem
uma legoa e meia para duas, e arriba della em 35 graos e dous teros est
outra ilha, que se chama Sancta Clara, que tem de comprido para o Norte
quatro legoas, e de largo de Noroeste--Sueste tres legoas, e esto assim
enfiadas uma na outra com o Porto Santo pelo Ilheo da Fonte da Ara ou do
ferro, e abaixo d'ellas em 33 2/3 de gro est uma ilha debaixo d'agoa
com baixio em redor, que algumas vezes se v da Ilha do Porto Santo a
arrebentao do mar n'ella, segundo as informaes que tenho e aluminao
da dita carta, e pola maneira aqui posta; a qual a lugares tem 6, 7 braas
na cr'oa; e p'ra credito das informaes que tenho fui sobre ella, e tem
grande roda com muito baixio, a lugares grande musgo do mar, onde vi
muitas diversidades de peixe, e a sondei por minha mo, e fui na Barca
de Manoel Bayo, que Deus tem, e est a Noroeste--Sueste pela banda do
Ilheo da fonte d'ara, que est ao longo do dito Porto Santo, e est
afastada d'ella duas legoas pouco menos.

     *     *     *     *     *

A oeste das Ilhas dos Aores est uma Ilhta que se chama a Ilha da Graa,
e desta Ilhta indo a oeste dusentas legoas e outras dusentas da ilha das
onze mil virgens em altura de 39, 40 e 41 gros, pouco mais ou menos est
uma grande Ilha que se chama So Francisco, que tem melhor de quarenta
legoas de comprido de Norte--Sul, e de largo vinte e tantas, com grandes
Bahias, Ribeiras d'agoas e arvoredos, segundo as informaes que tenho
d'ella e por via de Frana tive as mais das informaes por os francezes
continuarem  Terra Nova  pescaria, e  Costa do Brazil e Guin, e
navegam por fra das nossas derrotas por causa das nossas armadas; e
estas ilhas esto em partes donde os Portuguezes no navegam se no fr
algum _esgarrado_, de que tambem ouvi informao, porque os
navegantes se vigiam disso muito pelos rumos porque navegam de no darem
guinadas; quanto mais irem por rumos fra de seus caminhos donde estas
ilhas estam, e principalmente Ilhas que estam cobertas de nevoas grossas
por causa dos arvoredos e humidades do vio d'elles e vontade de Nosso
Senhor.

     *     *     *     *     *

No tempo que se perderam as Espanhas, que reinava El-Rei Dom Rodrigo, que
vai para quatro centos annos[1] que com as scas se despovoaram as gentes,
e pereceram com a grande esterilidade e da entrada dos Mouros, como mais
largamente se trata nas Escripturas antigas, por a qual causa do Porto de
Portugal os mareantes e homens Fidalgos tendo noticia que para o Ponente
havia terra que at ento no fora descoberta, smente pelas informaes
dos antigos e dos _Espiritos_ tinham d'ella informao, determinaro
de se embarcarem em sete nos com toda sua familia, e de hirem correndo
ao Ponente confiados na misericordia de Nosso Senhor navegaro; e pela
altura do Porto que est em 41 gros correro tanto que foro por
barla-vento das Ilhas dos Aores, que inda no ero descobertas, e foro
aportar na Ilha de S. Francisco que est pela dita altura, onde dizem as
informaes que tenho, que foram n'ella dar: e eu por raso da nevegao
acho ser sua derrota assim; queira Nosso Senhor permittir se descubra
esta Ilha como atraz fica dito onde ella demora; e por irem em sete nos
disem as informaes que cada capito com sua no, tanto que aportaro, se
repartiro cada um em sua parte da Ilha, e os antigos lhe chamo a esta
Ilha as sete Cidades; mas outros por via de Frana lhe chamo a Ilha de
S. Francisco, o qual, por quem , queira rogar a nosso Senhor dmos com
ella para valermos  salvao da gente que n'ella est, pois procede de
Christos: e achei mais que  terra de boa habitao por ser grande e de
muito proveito; e por raso da virtude dos climas acho est situada no
5.^o clima, que dado que seja mais frio que as Ilhas dos Aores no o 
tanto como Frana, Inglaterra, porque  Ilha do mar a que o mar aquenta,
e mais, que nas faces do sul  habitavel os dois teros d'ella debaixo de
boas zonas.

     *     *     *     *     *

Haver 45 annos ou 50[3] que de Vianna[4] se ajuntaro certos homens
fidalgos, e pela informao que tiveram da terra Nova do Bacalho se
determinaram a ir povoar alguma parte d'ella, como de feito foram em uma
no e uma caravella, e, por acharem a terra muito fria, donde io
determinados, correram para a costa de Leste Oeste t darem na de
Nordeste--Sudoeste, e ahi habitaram, e por se lhe perderem os Navios no
houve mais noticia d'elles, smente por via de Biscainhos, que continuam
na dita Costa a buscar e a resgatar muitas coisas que na dita Costa h,
do destes homens informao e dizem que lhe pedem digam c a ns outros
como esto ali, e que lhe levem sacerdotes, porque o gentio  domestico e
a terra muito farta e boa, como mais largamente tenho as informaes, e 
notorio aos homens que l navegam; e isto  no cabo do Brito[5] logo na
entrada da costa que corre ao Norte em uma formoza de Bahia donde tem
grande povoao; e ha na terra coisas de muito preo e muita nz,
castanha, uvas, e outros fructos, por onde parece ser a terra boa e assim
nesta companhia foram alguns casais das Ilhas dos Aores,[6] que de
caminho tomaram como  notorio: Nosso Senhor queira por sua misericordia
abrir caminho como lhe v soccorro, e minha teno  hir  dita costa de
caminho quando fr  Ilha de S. Francisco, que tudo se pde fazer d'uma
viagem.

Porque ao tempo que os antigos do informao d'estas ilhas a navegao
ainda no era apurada como agora e, deve-se de buscar nas ditas partes, ou
por mais um gro ao Norte ou ao Sul, e para oeste e Leste, resolvendo-se,
como os mariantes melhor o sabero fazer, se Nosso Senhor no for servido
que eu o faa, porque alem de saber a navegao tenho outras regras das
sciencias Mathematicas e bom engenho para todo o necessario ao dito
descobrimento; e Nosso Senhor ordene o que for mais ao seu Santo servio.
E escrevi isto, e o mais que em meus papeis tenho escripto, porque no sei
o que o Senhor Deus far de mim; e por tanto se isto a alguem prestar,
peo rogue a Deus por minh'alma como eu fao pelas dos que fizeram as
informaes que tenho; porque esta  a obrigao do bom proximo e dos
meus; e tudo pde ser assim como foi e  o mais que est habitado.




ROTEIRO DO DESCOBRIMENTO DAS ILHAS NOVAS,

feito por Joo Affonso, francez[7] o qual esteve n'ellas e em uma
emmastreou uma no sua, e tomou altura e fez roteiro


A oeste da Ilha que se chama da Madeira, 60 ou 70 legoas, est uma grande
Ilha que se chama--Santa Cruz dos reis Magos, que tem de comprido 30
legoas, e de largo no mais estreito 15 legoas; e da banda do sul est em
32 gros e 3/3;--_sic_--e corre-se 34 ao Norte, e corre-se Noroeste
Soeste, e tem por todas as faces grandes Bahias e enseadas, e grandes
Ribeiras de boas agoas, e arvoredos, e tudo isto affirmo como quem esteve
n'ella, e tenho uma carta, aonde est por mim aluminada com outras que
aqui direi; e esta primeira, de que fao meno segundo signaes que vi
n'ella, tem muito gado.

A oeste, alem d'ella obra de 45 legoas, em 32 gros pouco mais ou menos,
est outra Ilha que se chama S. Thom, que tem de Leste Oeste passante de
12 legoas de comprido e de largo 5, e tem uma formoza Bahia da banda do
Sul com um Ilheo, e na face do Norte uma roca de Baixio, como est
aluminada na dita carta por mim feita.

Alem mais a oeste 75 legoas d'esta Ilha So Thom est outra Ilha que se
chama o Bom Jhus, os quaes nomes foram postos por mim mesmo por serem os
mesmos dias em que as descobria em altura de 33 gros; e tem de Leste a
oeste ou Sueste de comprido 15 legoas, e de largo mais de 7 conforme as
alturas que para isso tomei, e com formozas Bahias por todas as faces, e
pela banda do Sudoeste afastado d'ella um Ilheo grande como consta da
aluminao da carta que tenho feito, em que se achar tudo isto que digo
muito certo.


FIM




NOTAS


[1] Frontespicio linha 11 e pagina 4 linha 3.

*Oito centos e tantos*, deveria o autor dizer.


[2] Frontespicio linha 16.

*Sessenta*--Barbosa na Bibliotheca Lusitana diz--*setenta*.


[3] pagina 5 linha 10.

A chronologia indicada no titulo do presente opusculo  clara e positiva,
mas como concilial-a com esta do texto? Como explicar tal divergencia em
obra de to pequeno folego? Em todo o caso, esta  a preferivel por mais
explicita e naturalmente mais pensada. Assim teremos para data da
colonisao referida o anno de 1525, aproximadamente.


[4] pagina 5 linha 10.

O padre Antonio de Carvalho na sua Corographia portugueza, tom. 1.^o
pag. 182, (2.^a edic. Braga 1868) e tom. 1.^o pag. 205 da 1.^a edio
tratando da Comarca de Viana, diz, a proposito da freguezia de S. Julio
de Moreyra, concelho de Ponte de Lima, o seguinte:

N'esta freguezia  a casa do Outeiro, solar dos Fagundes, cuja familia
tem dado pessoas grandes de que descendem muitos fidalgos, e foram os
primeiros que com gente de Viana descobriram a Terra Nova, e que n'ella
tiveram fortificao de que eram senhores, e por sua conta corria a pesca
do bacalhau em quanto Inglatterra a nao tomou. Conforme o mesmo autor,
os Fagundes alliaram-se com os Pereiras Pintos de Bretiandos. A pag. 14
do Theatro Geneologico de D. Tivisco Nazo Zarco etc. igualmente se diz
Joo Alvares Fagundes, Capito da Terra Nova.

A representao d'estas familias est hoje no senhor conde de Bretiandos.

Existiro ainda no archivo d'esta casa memorias ou documentos relativos
aos factos que aponta o autor supracitado?


[5] pagina 6 linha 1.

Sem pertender-mos alterar a denominao actual d'esta ilha, nem a esta
indicar nova origem, lembraremos comtudo a proposito da palavra
_brito_ a seguinte passagem da Azurara, na Chronica de Guin,
pag. 304:

E porque em terra eram tantos d'aquelles Guineus, que por nenhum modo
podiam sahir em terra de dia nem de noite, quiz Gomes Pires mostrar que
queria sahir entre elles por bem; e poz na terra um bollo e um espelho
e um folha de papel no qual debuxou uma cruz. E elles quando vieram, e
acharam alli aquellas cousas _britaram_ o bollo e lanaram-no a
longe, o com as azagaias atiraram ao espelho at que o _britaram_
em muitas peas e romperam o papel, mostrando que de nenhuma d'estas
cousas no curavam.


[6] pagina 6 linha 6.

Ainda que o autor s genericamente diz que reforaram a colonia alguns
casaes tomados de passagem nas ilhas dos Aores, parece-nos que o seriam
unicamente na ilha Terceira, pelas estreitas relaes de familia e de
commercio que ento havia entre ella e Viana.

A provincia do Minho foi das que mais concorreram para a colonisao
d'aquella ilha. Sam diversas as antigas familias terceirenses procedidas
e ligadas com familias de Viana. D'ali veio Rodrigo Affonso Fagundes, da
propria casa do Outeiro, e delle procedeu larga e mui distincta
posteridade. Sua terceira neta Beatriz Fernandes de Carvalho, casou em
1546, com Pedro Pinto, de Viana; casa depois ali denominada da
_Carreira_, e hoje representada pela exm.^a senr.^a D. Maria Izabel
Freire d'Andrade, de Lisboa, que por via d'aquella alliana ainda hoje
possue n'aquella ilha e na de S. Jorge uma grande casa.

O mesmo sr. conde de Bretiandos ainda hoje possue casa na Terceira,
procedida de D. Maria de Souza mulher de Damio de Souza de Menezes, irm
de Gonalo Vaz de Souza instituidor sem gerao filhos ambos de Antonio
de Souza Alcoforado e de Cecilia de Miranda da Ilha Terceira.


[7] pagina 7 linha 3.

Joo Affonso.  este nome bem conhecido na historia maritima de Frana,
como marinheiro, hydrographo e geographo. Deixou uma Hydrographia
_ms._, hoje existente na Bibliotheca Nacional de Paris. D'ella se
publicou um extracto em 1559, tempo em que j era morto o autor, com o
titulo de--_Voyages aventureux du capitaine Jean Alphonse,
Saintongeois._--Foi em Saintonge, perto de Cognac, que elle estabeleceu
o seu domicilio; d'ahi o appellido de _Saintongeois_ com que o vemos
tratado depois de sua morte, qualificao que ficou servindo de titulo 
perteno franceza de o haverem por seu conterraneo.

Lon Gurin, tratando de Joo Affonso no seu livro intitulado--Les
Navigateurs Franais,--no occulta que Charlevoix por falta de estudo
a este respeito, e depois d'elle muitos autores francezes, dizem ser
nascido em Portugal ou na Galliza, assero esta, de que os estrangeiros
e em particular os portuguezes, altivos por sua antiga gloria maritima, se
assenhorearam para juntar este navegador aos que illustraram o seu paiz.

Charlevoix viveu nos annos que decorreram de 1682 a 1761. As suas obras
sobre as colonias e marinha de Frana demonstram bem que lhe no faltou
estudo sobre a historia maritima do seu paiz. No era elle homem que
ignorasse a publicao das Viagens aventureiras de Joo Affonso, nem o
tratamento de _Saintongeois_ que no titulo d'ellas lhe deu o editor,
e que de leve privasse a sua patria da maternidade de to illustre filho.

Um escriptor mais recente, o sr. Pierre Margry, no seu trabalhado
livro--Les navigations franaises--consagra a este navegador uma boa
parte da sua obra. Nem um palavra, porm diz sobre a questo da sua
nacionalidade. Para o autor, Joo Affonso  seu e todo seu.

Teve, porm, o sr. Pierre Margry o cuidado de informar de espao os seus
leitores da Hydrographia de Joo Affonso, exhibindo extratos e offerecendo
juizos, que acceitamos, sobre os logares que Joo Affonso descreveu por
observao propria. Por ali vemos que quanto diz respeito ao Mar Roxo,
costas do Malabar e de Malaca, e mesmo alm d'esta, foi felizmente
percorrido, examinado, e descripto por Joo Affonso.

Ora,  de notar que Joo Affonso escreveu o seu livro nos annos de 1544
e 1545.

At quelles annos os nossos escriptores das cousas da India apenas
mencionam a ida quelles mares e regies de tres navios francezes, no
anno de 1527, procedidos de Dieppe; um aportou na ilha de S. Loureno
(Madagascar); outro commandado por Estevo Dias, o _Brigas_ de
alcunha, portuguez, que por travessuras que havia feito no Reino se havia
lanado em Frana, chegou a Diu na entrada de junho d'aquelle anno, onde
depois de obter seguro do mouro capito da cidade, foi com todos os seus
prezo e mandado ao Sulto Badur, acabando ali miseravelmente, como contam
Barros, e Mendes Pinto na sua immortal Peregrinao, cap. 16 e 20.

A terceira, commandada por outro portuguez, o Rozado, natural de villa do
Conde, foi perder-se na costa occidental de amatra em uma bahia perto de
Panaaj, cidade do rei dos Batas, que d'elle houve alguma artilharia.

Nota a historia de Frana ainda, no anno de 1529, uma segunda expedio
quellas regies, a qual sahida de Dieppe tambem, tinha por termo as
Molucas, e por commandante Joo Parmentier que foi morrer na mesma costa
do sul de amatra, pelo que ficou mallograda a expedio e o navio voltou
d'ali a Frana.

Se a historia da nossa dominao no Oriente no fosse bastante,
apontariamos o occorrido em Diu ao _Brigas_, para mostrar o perigo
de qualquer navegao europea isolada e trato com os povos d'aquellas
regies, por aquelles tempos.

Por outra parte o zelo e vigilancia do Governo Portuguez em repellir
d'ali o concurso de qualquer outra nao da Europa no podio ento ser
excedidos; as instruces secretas e verbaes dadas a Nuno da Cunha ao ir
governar a India asss provam o que levamos dito. Veja-se Sousa, nos Annaes
de D. Joo III.

A passagem de Portuguezes conhecedores das nossas navegaes e conquistas
ao servio de Frana era ento mui frequente, uns por despeitados e mal
premiados se passavam; outros captivos por corsarios francezes, que desde
o reinado de D. Joo II, e por todo o de D. Manuel e D. Joo III
infestaram as costas do reino e os mares dos Aores.

O governo Francez (em nome da liberdade dos mares!!) favorecia
desfaadamente taes actos.

O caso occorrido com D. Pedro Castello Branco e com Francisco I de Frana,
narrado por Couto, mostra bem as ideas d'este monarca sobre taes actos.
D. Pedro roubado por corsarios francezes ao voltar da India, foi a Frana
reclamar a sua fazenda. Francisco I no teve pejo de uzar  vista d'elle
d'umas estribeiras e d'uns anneis pertencentes  fazenda que fra roubada.
D. Pedro  vista das negativas e despejo d'el-rei, o teve tambem de lhe
dizer que aquellas estribeiras de que elle usara no dia anterior, e
aquelles anneis que elle tinha nos dedos, os mandara elle D. Pedro fazer
e eram fazenda sua.

Por estes meios foram os francezes, desde o comeo das nossas navegaes
longiquas, senhores dos nossos roteiros, cartas e diarios maritimos,
marinheiros e pilotos.

Como dissemos, o sr. Pierre Margry reconhece que Joo Affonso descrevera
por observao propria, o que o mesmo Joo Affonso confessa nos extractos
offerecidos por aquelle sr., o Mar Roxo, as costas do Malabar e de Malaca.

Ora, perguntaremos em boa consciencia ao sr. Pierre Margry, fez Joo
Affonso esses exames n'aquelles mares e regies ao servio de Frana?
O que o levaria ao Mar Roxo, onde os nossos capites s ento iam com fins
puramente militares? Acaso j teria ento o seu Governo vistas sobre o
crte do Suez e a navigabilidade d'aquelle mar?!!

Quem lhe daria a audacia de examinar no servio de Frana, as costas do
Malabar e as de Malaca, ento os logares mais frequentados pelos
portuguezes?

Ns no hesitamos, nem comnosco os que tiveram alguma ida da nossa
dominao na India por aquelles tempos, em affirmar que as navegaes de
Joo Affonso por aquellas regies s poderiam ter logar ao servio do
Portugal, sua patria, e nunca jamais ao de Frana, onde depois se lanou.
To longa, minuciosa, feliz e ento ignorada e no sabida navegao ao
servio de Frana  inadmissivel e insustentavel.

Joo Affonso foi um portuguez lanado em Frana; asss o temos demonstrado.

A historia vem ainda em auxilio da nossa argumentao, mas a historia
irrefragavel.

No  nenhum escriptor vaidoso das nossas glorias maritimas que se
aproveitasse da sinceridade de Charlevoix, quem nol-o affirma. , nem
mais, nem menos, o nosso querido frei Luiz de Sousa, escriptor muito
anterior a Charlevoix, quem nol-o diz nas seguintes palavras, fallando,
em suas memorias e documentos para os Annaes de D. Joo III, ao anno de
1533. Por carta de Elrey, de 3 de fevereiro de 1533, consta de um Joo
Affonso que andava levantado com francezes; e que no mesmo tempo andava
Duarte Coelho com armada na costa da Malagueta, e que el-rei lhe mandava
que viesse a esperar as naus da India.

Por aqui vemos mais que Joo Affonso se tinha ao servio de Frana
tornado respeitavel a Portugal. Na verdade as queixas do nosso Governo
contra elle, chegaram a obrigar o Governo Francez a tel-o por algum tempo
preso em Poitiers.

Fique, pois, Joo Affonso d'hoje em diante havido por portuguez, porm
no na lealdade, e sirva a qualificao de _Saintongeois_, que elle
jmais usou, mas que lhe foi dada depois de morto, apenas para indicar
que elle tomra por patria adoptiva Saintonge; ou ento sirva para mostrar
o quanto os francezes de ento, como os d'hoje, o ambicionavam seu, e o
pouco escrupulo em forjar os meios de prova com que podessem sustentar suas
aereas pertenes.

Terminando este artigo da presente carta, lembraremos a grande
possibilidade de encontrar na propria Hydrographia _manuscripta_
de Joo Affonso a confisso da sua qualidade de portuguez.

O silencio do sr. Pierre Margry, no extracto que d'ella offerece,  cerca
dos portos e costas de Portugal, confessamos que nos parece bem suspeitoso.

     *     *     *     *     *

_Extracto da carta ao ex.^mo redactor do--Jornal do Commercio--Jos
Maria Latino Coelho, por Joo Teixeira Soares. Sobre a qualidade de
portuguezes de tres grandes navegadores do seculo XVI; Joo Affonso ao
servio de Frana, Joo Fernandes e Pedro Fernandes de Queiroz, ao de
Hespanha. Publicado nos folhetins do--Jorgense--n.^os 90 e 91 de 1875._






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*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
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with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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