The Project Gutenberg EBook of Os Bravos do Mindello, by Faustino da Fonseca

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Title: Os Bravos do Mindello
       Romance Histrico

Author: Faustino da Fonseca

Release Date: May 4, 2007 [EBook #21290]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS BRAVOS DO MINDELLO ***




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[Nota do transcritor: Esta obra apresenta algumas inconsistncias
ortogrficas.]




Obras de Faustino da Fonseca


  _Lyra da Mocidade_ (primeiros versos) 1892. Exgotado          1 vol.

  _Tres mezes no Limoeiro_, 1896, 1.{a} edio com illustraes
  de Leal da Camara. Exgotado                                   1 vol.

  Segunda edio (popular)                                      1 vol.

  _O descobrimento do caminho maritimo para a India_            1 vol.

  _A descoberta da India_ (Drama historico em 5 actos)
  1898                                                          1 vol.

  _O escandalo dos dramas do concurso do centenario
  da India_, 1898                                               1 vol.

  _Regresso ao Lar_, romance, 1896, com illustraes
  de Roque Gameiro (folhetim em _O Seculo_.)

  _A descoberta do Brasil_, 1900, com illustraes de
  Roque Gameiro, cartas, mappas, fac-similes de documentos.
  Exgotado                                                      1 vol.

  _Pedro Alvares Cabral_, 1900                                  1 vol.

  _Ignez de Castro_ romance historico, 1900. 1.{a} edio
  com illustraes de D. Virginia da Fonseca, Augusto Pina,
  Bemvindo Ceia. Exgotado                                       4 vol.

  Segunda edio (popular) com illustraes de Alfredo
  de Moraes                                                     2 vol.

  _Escravos_, romance, 1901 (folhetim em _A Folha do Povo_.)

  _Padeira de Aljubarrota_, romance historico, 1901, com
  illustraes de Bemvindo Ceia                                 2 vol.

  _As mulheres portugusas na Restaurao de Portugal_,
  romance historico, 1902, com illustraes de Roque Gameiro    3 vol.

  _El-rei D. Miguel_ (chronica popular do absolutismo)
  1905. Illustrado com retratos e monumentos                    1 vol.

  _Os filhos de Ignez de Castro_, romance historico, em
  collaborao com Joaquim Leito, 1905                         1 vol.

  _Anedoctas de reis, principes e outras personagens
  portugusas e estrangeiras_, extrahidas, traduzidas,
  compiladas e prefaciadas, 1905                                1 vol.

  _Bons ditos de reis, principes e outras personagens
  portugusas e estrangeiras_, extrahidas, traduzidas,
  compiladas e prefaciadas, 1906                                1 vol.

  _Beijos por lagrimas_, romance historico. 1906 (folhetim
  em _A Lucta_).




                         FAUSTINO DA FONSECA


                        OS BRAVOS DO MINDELLO


                          ROMANCE HISTORICO



                               LISBOA
               Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso
                       _5--Largo de Cames--6_
                                1906




I


Ao tiro de pea acordou Joo de um inquieto somno de namorado e,
apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja,
prestou atteno.

Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as
aprehenses dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao
caloroso enlace dos seus braos, e um subito quebranto o
impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do
ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?

No se repetiram detonaes que o tranquilisassem e, no brando rumor
cantante e alegre, reconheceu o romper d'alva. Deitou pelos hombros
um capote azul de cabeo, e fechos de prata, apagou a candeia de
ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava,
desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de
cedro da janella de peitoril.

Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa
luz da manhan.

Ento destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso
cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial,
puchou para si os dois pesados batentes e debruou-se com avidez.

--Muito madrugaste hoje--disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada 
celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de
dormir apanhando os cabellos brancos.

Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de
Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o
focinho bronco farejando por cima da cancella.

--No ouviu uma pea, tia?

--Ha de ser navio de Lisboa.

Em passo miudinho, muito activa, a arregaada cheia de milho, acudia
ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os
visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito,
misturado ao chapinhar na agua de semeas.

Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim
dando o signal do batalho, e o terno de cornetas atacou as notas
baixas, at se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.

Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do
Piso.

Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva,
p descalo, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa
no pescoo por botes de oiro, carapucinha preta com orelhas
vermelhas, pequena como a palma da mo, posta  banda n'um elegante
equilibrio, batendo o bordo com rendilhados na ponteira; rolhas de
pasto no bico negro das cabaas defumadas, com pontos a cordel em
fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao
hombro esquerdo.

Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores,
anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto.

Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos
latidos os ces das quintas.

Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse
toque de sino, impregnado ao pr do sol pela melancholia da tarde;
seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na S  missa das
almas.

Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se
devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia
Pulcheria.

Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais
gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque,
onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia
de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando vio aos
cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros,  madresilva da
janella,  abobora do telhado do forno, ao p de vinha nascido de
encontro  pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da
arquinha onde se espetava a bica de ferro.

Recolheu-se, para o no verem faltar  orao matinal e, assim de p,
varejava-lhe o olhar o brao d'agua que dera o nome d'Angra  sua
cidade.

Mas no avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro
alarmante vinha findar-lhe os devaneios.

Saam  pesca barcos  vela, avivando o azul n'um recorte de gara;
vogavam outros em cadencia, como buzios deitando por banda as curvas
pernas a fugirem no calhau.

Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo
Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador
de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha.

Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas
montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas
flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos,
cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da
Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse
el-rei D. Sebastio no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a
que arrastra os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes
sem fim, at ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, 
inextricavel vegetao de sargaos d'esse mar de inferno.

Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros
povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso
oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a
Colombo; tambem queria saber o que haveria para lem da curva do mar
largo, essas terras onde tudo se decidia: a Frana, me da liberdade,
regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o
que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as instituies de
Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalra a revoluo de 24
de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisio; a
Inglaterra, que apoira a carta constitucional doada por D. Pedro, e
decerto auxiliaria a revoluo de 18 de maio contra a usurpao de D.
Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda no havia um mez; o
Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos;
Lisboa, de onde uma embarcao traria um primo para lhe arrebatar a
mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.

Annullado na absorpo do mar largo e das terras aonde conduzia,
surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo
detraz do Monte Brasil, a fragata _Princesa Real_, mostrando no
balano a bateria rasa, cintada de peas negras em carretas vermelhas
abocadas s portinholas.

Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da
antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem
lanchas e escaleres.

Tudo acabaria assim?

Sentia-se ligado quelle navio, dependente da sua rota, do porto de
onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que
trazia no forte bojo, e espicaava-o o impeto de sair d'essa
dependencia,  merc do que vinha de fra, elle como a terra; de
reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas
esperanas, por frma a terem que contar com elle.

Havia de ficar quella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma,
adivinhando, no palpitar de um leno, a noiva perdida para sempre?

Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte
Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, at s recortadas
negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.

Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos
e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo,
verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde
ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casaro
onde um pae lha defendia.

Como que via j o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes
bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e
o carroo de coiro bolorento, baloiando-se nas grossas correias, de
largas fivellas areiadas, arrastado  fora da aguilhada por duas
juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando
ferrugentas ferragens.

Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte
apoiada na mo esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado,
anediando o ligeiro buo, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes,
pensando no que devia fazer.

Ao tocarem matinas na S, comeou a preparar-se para sar.

Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.

Estava prompto o almoo, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem
para Lisboa.

Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro
do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da loua da
India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado
armario de madeira do Brasil, com guarnies tremidas e remates
arrendados.

Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se
sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o av presidiam 
grande meza oval, de ps torneados e parafusos de prata, cujas abas se
fechavam para sempre  medida que a familia se reduzia,
esmoreceram-lhe os impetos, esvau-se-lhe a energia.

Amolentara-o a educao mulherenga, creado entre rabos de saias,
adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.

Pobres velhas! Morreriam de dr se lhes faltasse.

E as ambies de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se
no resignado aniquilamento, na tendencia para a meditao, de que o
haviam adoecido os dias abafadios e humidos.

--J saes?--perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de
tartaruga.

Dorotheia accrescentou que no era dia de lio, e o dominio das
velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os
passos, vigiando-lhe as sadas e entradas, fazendo-lhe scenas de
lagrimas quando voltava tarde do caminho da perdio!

No resistia, no se insurgia, no protestava, mas nem por isso
deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de
liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros
da sua edade, ao recolherem fra d'horas.

--Nem que fosse dia de lio irias hoje ao padre Jeronymo.

Pulcheria, magra e scca, nervosa, solteirona, alludia  chegada do
navio de Lisboa, sublinhando com inteno.

E Dorotheia, viuva, mais prompta  lagrima, supplicou-lhe:

--No te vs meter em trabalhos.

--No se fala seno de vinganas, de prises, credo!--apoiou
Pulcheria.

Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado
economico das perturbaes:

--Tudo mais caro. Os ovos j esto a quatro por um vintem, e querem
uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de
entrar na cidade, e no passam do Desterro onde aambarcam a manteiga,
os ovos e as gallinhas os revendilhes, que pem tudo pela hora da
morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada
m noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os
preos. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que
veiu para ahi de tamancos! J no se pagam fros, ha que tempos no
entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capito Toledo das
Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que no se
acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em chco, mas logo na noite
da revolta, com os tiros dos soldados do Lobo contra os milicianos,
foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que
pem duas vezes por dia!  o que se ganha com essas faanhas dos
constitucionaes.

-- tia!...--interveiu sorrindo.

--Se no has-de defendel-os, no fosses todo do Juvencio!--commentou
Pulcheria, mais directamente ferida pelo gro.

Dorotheia censurou, muito sentida:

--Ests sempre metido na botica a lr as gazetas, e decerto l vaes
encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e
Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como prga, acceso em santas
iras, fr. Angelico da Immaculada Conceio de Maria.

--Quando o vinho do morgado lhe sobe  cabea.

Pulcheria reprimiu Joo n'um olhar.

--No te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico  muito
de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles so
do senhor D. Miguel.

--Esto no seu direito.

Dorotheia acudiu com a questo do dinheiro:

--Lembra-te que elle te d quatro patacas por mez pela escripturao
dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanas
manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de
damasco. Teu pae e teu av foram muito d'aquella casa, e tu mesmo s
tratado como amigo.

E reparando na distraco d'elle:

--No comes nada? Grande coisa tens hoje!

Pulcheria observou-o tambem:

--Naturalmente os pedreiros livres esto falados para a chegada do
navio de Lisboa.

Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos
contos, e Joo surprehendeu a creada, a velha Maria da Assumpo do
Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos braos inchados de
veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a
testa encarquilhada, o nariz acavallado, os beios pendentes, mascando
a sua maneira especial de se benzer:

          Eu me benzo c'os tres cravos
          Abraados n'uma cruz
          Para que possa dizer
          Santo nome de Jesus:

          A cruz desa do ceu
          E se deite sobre mim
          O Deus que n'ella padeceu
          Elle responda por mim.

Por fim o dedo pollegar da mo direita, tornado bento pela tarefa
redemptora, foi beijado devotamente, e s depois a serva se virou para
o lar.

Dorotheia commentou, compadecida:

--Do com ella em doida as innovaes dos constitucionaes. Demora-se
toda a manhan nas compras, porque vae para a S pr-se de empada, a
rezar, a rezar, em desaggravo s heresias, aos desacatos.

Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos:

-- para o que servem os pedreiros livres!

Elle riu n'uma exploso juvenil.

--Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem graa!

A tia confirmou:

--A senhora Joaquinina do  v-te sempre no falatorio da botica, e
toda a gente sabe que  ali o coio dos que beijam o diabo  meia
noite.

--Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o
cordo de So Francisco  cinta, no diga que tambem l v, a jogarem
o gamo, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre
Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do
bispado.

--Esses so pedreires dos grandes!

--Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da
Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do .

Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que
escolhia a pelle torriscada, o _affonso_ de lapas em que o marisco
guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sabr do mar; e
tomra, j levantado, o caf com leite, esse delicioso caf vindo
directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se
entretinham as tias.

De olhos no tecto e mos postas, repetiam tres vezes as velhas, junto
da meza Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer,
notando desgostosas que Joo se esquivava ultimamente  aco de
graas, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o
Demonio.

Despediu-se, saiu, passou s Monicas lanando um olhar irritado ao
convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme
Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando
comprometter-se para com o morgado, no entrou a perguntar novidades
de Lisboa.

Voltou  rua do Convento da Esperana, e passou por diante do collegio
dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a
frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a
fachada com dois grandes braos cruzando-se de punhos fechados contra
a cidade--as armas de S. Francisco.

Virando a esquina entrou na praa, e foi direito  botica, ao canto do
Passo onde parava a procisso e se cantavam motetes.

Para ir ali tinha a justificao de falar ao mestre, e trazia-a
engatilhada para alguma pergunta do morgado.

Esbravejava o boticario, tornando a loja em club:

--Aqui no se recebem ordens do Miguel! Isto no  terra de burros nem
de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos  cara o decreto,
o capito general, mas para c vem de carrinho! O presidente da
camara convocou uma reunio extraordinaria, a que concorreram as
principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e
resolveram no cumprir as cartas regias por falta das formulas da
carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou no
sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma _Princesa
Real_!

No iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe
importava.

Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a lio, e no ficaria
sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o.
Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da
lio de latim do conego Penedo, um alto vermelhao, de cabello branco
com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos
occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e
outros por bstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a mo
fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes
brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os rres.

Como no momento de libertao em que a garrida chamava os conegos 
S, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira
do cro, cabeceando, a remoer o ripano em voz roufenha, ia Joo na
doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto.

Sentia-se to livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando
corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua
da S acima, at ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam
cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas,
portes de S. Pedro em fra, at s quintas do Caminho do Meio, a
admirarem as vinhas, n'um culto pago mais sincero do que aquelle em
que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro.

Tinha o desejo infantil de vr, com os proprios olhos, sair o navio,
para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua
situao para com Maria, antes que surgisse outra ameaa.

Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a questo
politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destroos de
naufragios, pranches crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre
onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham
colonias de pequenos seres; depois abandonou o carreiro do areal
batido pelo constante perpassar, onde j plantas desafiavam o beijo da
resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra.

Passou o Portinho Novo e foi at aos penedos do caes da Figueirinha,
onde pescadores, perna pendente, pescavam  canna, aproveitando a
fundura da rocha viva.

Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, at aos pedregulhos
do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas
sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia
coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e
vermelhos de peixes-reis e bodees. Acudiam engodados, vinham em
cardume  aga de um barco que recolhia, andavam  babugem dos navios
arrastada pelo mar para o recanto da angra.

 picada no anzol correspondia a saccada lesta do canio; saltava um
peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador
adentanhando a guelra; lanava-o ao cesto, onde a frescura dos mais
emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia.

Mas o cao voltava para o mar degolado, com um escarro de desprezo
no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados.

Subiu a Rocha at ao Relvo.

Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de pra dos
barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a
bordo da fragata, alando os ferros.

Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. Joo Baptista,
encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os
pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo
da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como
protegido pela poderosa fortaleza que a obrigra a retirar, por esse
castello que fra o symbolo da oppresso hespanhola e se tornra a
unica esperana da liberdade portuguesa!




II


Com alegre surpreza das tias, Joo entrou  hora do jantar, ao meio
dia em ponto; mas em breve lhes tirou toda a illuso de que no o
interessassem os acontecimentos cujo echo j chegava  Pereira.

Comeu  pressa, foi aperaltar-se para vr Maria, e saiu logo, de
chapeo alto de aba direita, casaca de briche nacional cr de castanha
de quatro botes nas abas, collete de grande gola, alta gravata em
volta ao collarinho, cala branca e botas altas de canho amarello.

Merendaria na quinta, no contassem com elle.

E d'ahi a pouco estava na botica, sabendo os ultimos boatos,
occultando-se da Joaquinina do  e de outras beatas bisbilhoteiras,
que rondavam o Juvencio, embiocadas no manto negro dos ps  cabea,
saia de merino preto, o capuz envolvendo-as do taboleiro de carto at
 cintura, onde passava pregueando-se, estreitamente cingido; os
braos apanhando os extremos do involucro e rebuando-o na frente, por
frma a s ficar aberto um pequeno oculo, no extremo do canudo de
carto, que se movia como um bico de passaro, apontando-se
sinistramente no faro da curiosidade, permittindo-lhes verem sem serem
vistas, para irem delatar no confessionario.

D'ahi a pouco caminhava pelo campo, ao longo de muros de pedra solta,
evitando a poeirada, contrariando n'uma marcha de automato o seu
incorrigivel acanhamento.

Lembrava saudoso a infancia em que, fugindo  escola de primeiras
lettras, saltava paredes  cata de ninhos, de gafanhotos, de cigarras;
revolvia os restolhos  procura de grillos, que levava no leno para
casa, para os ter a cantar dentro de um copo.

Puzera termo a essas esturdias a preoccupao absorvente de Maria.

Ao principio, quando de tarde ia trabalhar na escripta, por ter presa
a manhan pelos estudos, lamentava essa priso, impedido de retoiar
no areal, deitar-se  agua, nadar, apanhar conchas, enxugar-se
rebolando na areia quente, e ir depois, noite fechada, para a praia
das mulheres, no recanto do Castellinho, vel-as metterem-se na agua
aos gritinhos, compondo as saias enfunadas pelo mar.

Despertra-lhe novas impresses a intimidade de Maria, e os passeios
com ella sob as arvores substituiram d'ahi em diante todos os
entretimentos de rapaz.

Escutava-a encantado, admirava-lhe os movimentos, esquecia-se a
contemplal-a e, quando retirava ao pr do sol, voltava-se para traz a
vr se ainda a descobria.

Ia j perto da quinta, mas sempre na mesma indeciso, ora desejando
no chegar nunca, ora querendo precipitar o termo da anciedade que o
torturava.

Avistou por fim a vivenda dos Folhadaes, os altos telhados em
pyramide, a fachada ennegrecida pelo tempo, as janellas com grades de
convento, o escudo de armas por cima do grande porto de carro, o
extenso muro torredo por mirantes e caramanches.

Entrou pelo postigo aberto no grande porto de cedro, pesado de
trancas e tranquetas, ferrolhos, corredias e argoles, e o corao
batia-lhe descompassado.

Saccudiu o p na banqueta de pedra, de onde subiam as senhoras para as
andilhas, e trepou a escada exterior, que comeava na parede do fundo
e cortava em angulo para a da esquerda, receiando uma vertigem,
sentindo fugir-lhe a luz dos olhos.

Sentou-se no poial do alpendre, a descanar um momento, a dominar o
tremor nervoso, e descobriu Maria ao fim da cerca, com a prima D.
Josepha da Esperana e o primo Jorge.

Inclinou-se, descobriu-se, ella correspondeu n'uma venia exagerada,
curvando-se muito, no que foi imitada pelos primos, e depois
arrancando o chapeu de palha, rustico, de grandes abas, enfeitado de
espigas, papoilas e malmequeres colhidos pela quinta, imitou-o
cumprimentando como um homem.

Repetiram as raparigas as zumbaias, e o primo deitava-lhes as tranas
para a frente, ao que, irritadas, respondiam com palmadas e belisces.

E quando a creada, de dentro da casa, o convidou a entrar, elle tornou
a saudal-as, e as raparigas responderam rindo s gargalhadas,
fazendo-lhe figas.

Transpoz humilhado a porta de imponentes almofadas; nunca lhe
parecera to triste o casaro onde passava horas enfadonhas, junto de
um frade tresandando a vinho.

Sabendo os cantos  casa ia encafuar-se no escriptorio, quando a
creada lhe disse que o senhor ainda estava  meza, e o guiou  casa de
jantar.

--Entra, entra, pequeno--convidou em voz entaramelada o morgado--tu s
como se fosses da familia, aqui como o mestre Jacintho, por parte de
teu av. Aquillo  que era um homem, o capito Silveira! Gente de
outro tempo! Hoje s ha fedelhos como tu.

Ergueu pesadamente o corpanzil obeso, cambaleando nas grossas pernas a
estoirarem os cales de ganga amarella, copiados de D. Joo VI, que
usava com meia branca e sapatos de fivella de prata.

J pelos bofes da camisa, pelo collete e pela casaca, nodoas de vinho
affirmavam o abuso da bebida, e a mo tremula derramou-lhe o copo, que
empunhava de p, virado para Joo.

-- tua, em memoria de teu av!

Bebeu e tornou a sentar-se, pesadamente, apoiando-se  borda da meza e
 grande cadeira de braos, de coiro negro e pregaria amarella, em que
presidia  cabeceira, na velha tradio senhorial.

--Grande homem que elle era!--apoiou mestre Jacintho--sem desfazer em
quem est presente.

Endireitou o corpo alquebrado, illuminou-se-lhe o olhar, e o velho
soldado denunciou-se no cabello  escovinha, na colleira de coiro
negro que no pescoo escanzelado saia da camisola de linho de pastor,
na marca das bexigas que lhe favava a cara encorreada, como passada ao
lustre das mochilas.

Tomou com toda a confiana um copo, bebeu e, sempre de p,
disciplinado at a escravido, voltou-se para Martinho Vasques:

--O que ns fizemos n'aquelle Russillo!

Attingia a phase piegas a embriaguez do morgado, tremia-lhe o beio
inferior, descahido e inchado, tornavam-se-lhe muito pequeninos os
olhos duros, de um azul frio, raiados de vermelho, e o nariz
destacava-se-lhe rubro, da cr de telha do rosto apopletico, onde as
sobrancelhas asperas, espessas, unindo-se carrancudas, os longos
pellos das ventas e dos ouvidos, punham em occasies normaes a marca
da rudeza, da selvageria.

--Se no fosse teu av no estava eu aqui! Se no me tivesse deitado a
mo quando eu ca ferido na retirada da Montanha Negra! Devo-lhe a
vida a elle e a este velho!

Mas a lingua emperrava-se-lhe, a sensibilidade engasgava-o de todo.

Ancioso sempre de contar faanhas, no orgulho profissional, o
ex-soldado do Roussillon ergueu as mos  altura dos ouvidos, como a
pedir que o escutassem, e comeou n'um bom ar de velhinho,
tremendo-lhe o bigode branco em escova:

--Quando aquelles malditos franceses caram sobre ns, eu, mais o meu
capito e mais vossa excellencia, senhor morgado, fomos para cima
d'elles como lees, e eram cutilladas de alto a baixo, golpes de
rachar de meio a meio...

Ganhava-o pouco a pouco a furia de assassino profissional:
passavam-lhe no olhar relampagos sinistros; arregaavam-se-lhe os
beios, mostrando os dentes pdres ainda promptos a morder;
crispava-se-lhe a mo esquerda em frma de garra, o pollegar muito
desenvolvido, erguido acima dos outros dedos, na ameaa de premir a
guela do inimigo; e na mo direita brilhava-lhe uma faca de meza,
brandida com furr, como nos assaltos  arma branca, em que, com as
mos a escorrer em sangue, degolava soldados agarrados s peas,
apertados uns contra os outros, sem espao para se defenderem no
recanto de uma trincheira. Tinham s vezes que abrir-lhe a mo  fora
para lhe tirarem a poda de jardineiro, a que se soldavam os dedos
quando brigava com os cavadores, e renovava-se a lio do mal; ou
quando o vinho lhe obliterava a consciencia de homem grato, generoso,
humilde at  servido.

Sobresaltado frei Angelico na languidez da digesto, arrotando
empanturrado, flatulento, ergueu-se, arredou o habito pardo de
franciscano n'um meneio feminil, adquirido em menino do cro; o que
ainda parecia, apezar dos quarenta annos, pelo effeminado dos ademanes
de aprendiz de clerigo, pelo tom rosado da face gorda e oleosa, a que
a larga tonsura dava uma frescura de novo; e desapertando o cordo de
ns, clamou na voz de canna rachada, em que outr'ora cantava de
falsete, limpando o suor ao leno de Alcobaa sujo de rap:

--Veja e aprenda, Joosinho, como se pratca a verdadeira egualdade,
no a d'esses malditos clubs, mas a que  agradavel ao ceu! Aprenda,
que est em edade. N'esta velha casa fidalga fraternisam, libando o
vinho de Deus, dando graas ao Altissimo pelas suas obras, a nobreza
representada no excellentissimo senhor Martinho Vasques de Linhares
Soeiro, morgado dos Folhadaes, o clero n'este humilde servo do Senhor,
e o povo n'esse villo, esse ninguem, esse bicho da terra, esse p da
estrada!--e apontava mestre Jacintho.--Exemplos d'estes, s na
educao religiosa se encontram. E para isto no  preciso ser
jacobino, nem republicano, nem pedreiro livre, nem cuspir na hostia
consagrada!

Benzeu-se horrorisado e, sem transio, desceu do tom de prgador:

--Mas o Joosinho no bebeu nada. V l. Um s no faz mal.

Encheu-lhe um copo, derramando vinho pela toalha, e deitou outro para
si.

--Beba  saude do senhor morgado, e vamos para o terrao, que se abafa
de calr.

Habituado quellas scenas, bebeu satisfeito Joo. Talvez lhe dsse o
vinho o animo preciso.

Saram, o morgado  frente, equilibrando-se ao bordo de marmeleiro
polido, no apparato de uma vara de juiz, em gravidade processional;
depois o frade, arrastando as sandalias, conchegando a proeminente
barriga, levando no regao o cordo e o rosario, que desapertara; Joo
pisando respeitoso, ao de leve; e por fim o mestre Jacintho, muito
curvado, rindo e falando comsigo mesmo.

Assentaram-se a nobreza e o clero na banqueta de azulejo, que corria
ao longo da empna da casa, no terrao voltado para S. Matheus.
Sentou-se Joo sem esperar convite, por direito proprio,
considerando-se tanto ou quanto nobre, pelos fros de fidalguia da
espada do av; e n'essa deciso j reconhecia o effeito do vinho
fazendo-lhe perder a usual timidez, e j acariciava a proxima
entrevista com Maria. Disciplinado como soldado, e to firme quanto
lhe era possivel, conservava-se mestre Jacintho de p ante os seus
superiores hierarchicos, chalaceando, contando historias de caserna,
as mos perto dos ouvidos, o rosto expandindo-se n'um sorriso de bom
velhote.

Depois sau Martinho Vasques com o jardineiro, a vrem os trabalhos da
quinta, e frei Angelico e Joo foram para o escriptorio.

Dobrado para a meza de saia de baeta vermelha, limpando no cabello a
penna de pato, olhava a furto, pela janella fronteira, a varanda de
pedra do fundo da quinta, onde passeavam  sombra da parreira, Maria,
a prima que ia jantar com ella e passar a tarde, e Jorge da Feteira,
namorado de D. Josepha da Esperana, que apparecia para a merenda.

Tinha ciumes do fidalgote que levava a confiana de primo a beijar
Maria  entrada e  sada, e invejava-lhe a liberdade em que andava
com as duas raparigas ao fresco da tarde, pela recatada vastido do
pomar.

Afastavam-se, mas elle espionava o quadro recortado pela janella na
parede nua, e tornava a vl-os notando a impaciencia com que o
observavam.

Orgulhava-o esse interesse. Sabia que o estimavam, que o esperavam
para a merenda, mas no deixava de reconhecer, por parte dos primos
reunidos para falarem, o motivo d'essa espectativa, poderem afastar-se
deixando Maria entretida com elle.

Deitado em cima da papeleira encetra o frade diversas folhas de
papel, mas a penna de pato, rangendo muito, fazia-lhe uma lettra
incerta, incomprehensivel, e a mo tremula deixava cair borres que
impossibilitavam a continuao. Deitava-lhe areia, encanudava a folha
e despejava-a no recipiente de chumbo, mas os pingos de tinta l
ficavam. E na atarantao de poupar meia folha de garatujas
despejou-lhe por cima o proprio tinteiro, borrando o leno, as mos,
todos os papeis do alapo.

Rendeu-se ento  evidencia, reconheceu-se incapaz de escrever, e
lanando-se para o hirto canap de palhinha, tomou rascunhos de cartas
e poz-se a ditar a Joo.

Entretido com a janella, elle escrevia machinalmente, repetia
distrahido, errando o ditado; e fr. Angelico, sentindo a cabea
pesada, crendo seu o engano, envergonhou-se do rapaz e deu por findo
esse to pouco proveitoso trabalho.

Ia emfim desabafar!

Mas o acanhamento assaltava-o de novo, e ainda pensava adiar para mais
tarde essa urgente expanso.

Desceu ao pateo de entrada, abriu a cancella que dava para as
trazeiras da casa, onde as gallinhas debicavam montes de estrume, e os
filhos do quinteiro pulavam nos picos de matto roado para o lume;
passou por entre os chiqueiros, atravessou o jardim, rodeiou o
repucho, contornou os taboleiros de onde vinha o cheiro penetrante dos
cravos; e ao fim das ruas de buxo, abriu outro portal, e internou-se
na quinta, por debaixo da latada que em pilares de pedra a dividia ao
meio, deixava dois grandes rectangulos destinados a alfobres e 
horta, e continuava contra os altos muros negros de pedra solta
ensombrando os passeios lateraes.

Reuniam-se todas as tardes no pomar, ao fim das larangeiras, das
nespereiras, por baixo das quaes nascia silvestre a hortense, e
conversavam at ao escurecer.

S encontrou D. Josepha da Esperana e Jorge da Feteira sentados muito
juntos, de mos dadas, indolentemente reclinados no grande banco de
pedra, com recosto de azulejos onde caadores, de chapeo tricorne,
perseguiam lebres, acompanhados de ces, quasi de p como pessoas.

A falta d'ella permittiu-lhe serenar, confirmar-se no proposito de
dizer-lhe tudo, de sair por uma vez do equivoco em que vivia.

N'uma aspereza que a tornava mais apetecivel, entrou Maria, saltando
irrequieta, o chapeo deliciosamente deitado para os olhos, n'um
simples vestido vermelho inteiro, de cintura alta, o collo a
descoberto, de tres folhos na saia um tanto curta, deixando vr o
sapato branco, atado por fitas brancas, sobre a meia branca, no
tornozlo.

A sua simplicidade contrastava com o requinte de secia de Josepha, a
opulenta juventude trasbordando de um rico vestido verde, de cinco
folhos, com capoteira de renda em bicos, sapatos de duraque preto,
cabello penteado atraz em cuia, apartado ao meio na frente, grandes
tufos nas fontes, um fio de perolas na testa, desvelos de toucador
destinados ao primo Jorge, que por sua parte caprichava em vestir
grosseiramente  D. Miguel, jaqueta de alamares, cinta, calo, botas
de prateleira, bn azul, cabello puchado para as fontes, cara rapada,
porque o bigode denotava  legua constitucional.

Andava pela edade de Joo, mas parecia mais nova. As doenas da
meninice, as convulses com que a dotra o alcoolismo paterno, as
impurezas do sangue azul dos casamentos consanguineos tinham-lhe dado
a fragilidade ainda transparente na pallidez, nas fundas olheiras, no
descorado dos labios. Por volta dos onze reagira, ganhra foras,
merc do longo tratamento com que o pae gastra muito, na teima de
assegurar emfim um herdeiro  casa, depois de tantos morgados e
morgadas, cheios de pustulasinhas, mortos no bero.

Eram d'elle os olhos azues, desmaiados, o cabello castanho, e a
expresso de aspereza que as sobrancelhas, contrahindo-se, s vezes
denotavam. Mas na boca pairava-lhe a terna brandura com que a me
outrora se resignava aos beijos roubados por infindaveis legies de
primos.

Afogueada pela pressa com que viera, Maria falou a Joo, e sentaram-se
todos, encruzados, na relva, a comerem mas e marmelos assados no
forno, trespassados de assucar, que ella trouxera no regao.

Falou-se da imprevista partida do navio, dos actos do governo da ilha,
dando elle noticias com simulada indifferena.

Finda a merenda foram beber agua  pequena cascata do recanto da
quinta onde se abrigavam a estufa de ananazes, e as largas folhas das
bananeiras; amadureciam maracujs do tamanho de ovos cr de chocolate;
desenrolavam-se fetos de entre as pedras negras e vermelhas, fundidas
pela lava em filigranas, em lagrimas; abriam em guarda sol as largas
folhas ovaes do inhame por cima da valla onde escoava o regueiro,
empoado em nodoas de agrio.

Satisfeita a gulodice, que j lhe ameaava de pontos negros os dentes
miudos e mal implantados, Maria lanou-se para a rde, que pendia
indolente da ramada dos castanheiros, e juntando as mos sob a cabea,
fez d'ellas e dos braos, a sairem ns da manga arregaada, o
travesseiro em que se reclinou indolente, cerrando os olhos, sorrindo
a Joo.

Elle puchou uma cadeira de vimes e poz-se a baloial-a brandamente.

Ganhava-os o odr estonteante das magnolias, o morno perfume adocicado
recendente da estufa.

De mos dadas afastavam-se pouco a pouco, os primos namorados at,
como de costume, desapparecerem de todo.

Correspondia Joo ao infantil sorriso de Maria, e ha dois annos que
no passavam d'ahi.

Estiveram muito tempo sem falar, no prazer mudo de se contemplarem,
at que Joo estremeceu  ideia de a perder.

--Teve noticias do primo?--perguntou-lhe de repente, indo direito ao
assumpto, sem preparao.

Ella respondeu indifferente, transportada no brando oscillar da rede:

--Sim. Est bem.

Apparentou desinteresse, mas insistiu:

--Sempre casam?

N'um movimento de contrariedade, que o animou a ir mais longe, disse
Maria:

--Bem sabe que sim.

Ficaria outra vez interrompida a conversao, se elle, animado pelo
que crra adivinhar, no se arriscasse mais:

--E gosta?

--De qu?

--De casar.

N'um visivel enfado murmurou:

--Sei l!

Muito nervoso, repetiu:

--Quero dizer se gosta de casar com elle.

Tirou-se da rede que, preoccupado, Joo deixra parar e n'um encolher
de hombros:

--Se nunca o vi.

Foi lanar-se descontente no banco de pedra, a fronte ensombrada, no
gesto do pae.

Ficou Joo um momento indeciso, e depois approximou-se vagaroso,
offendido:

--Vejo que no  minha amiga.

--Porqu?

--Fala-me com mau modo...

--Eu?

--Com frieza, com indifferena...

--Para o que te havia de dar hoje!

E como elle se sentasse, succumbido, soltou uma risada, n'um impeto
de volubilidade, e beliscou-o, no seu agreste feitio infantil.

--Isto ento  mau modo?

Ergueu-se elle corando, e supplicou:

--Por amor de Deus no brinque commigo!

--Ests amuado?

--Pelo menos agora no graceje, e diga-me s: Gostava de ir para
Lisboa?

Abrangeu n'um olhar a casa, o campo, a vida que levava enclausurada, e
respondeu:

--Isso gostava.

Retorquiu Joo em voz estrangulada:

--No se importava ento de me deixar?

Irritada pelo interrogatorio, Maria exclamou, sem o fitar:

--Que pergunta essa!

Elle approximou-se, muito commovido:

--Era uma separao para sempre! para sempre!

--Sim, talvez!

E d'olhos no cho encarava agora as consequencias.

Vendo-a impressionada, Joo aqueceu:

--E no levava pena nenhuma?

N'um repente de sinceridade, Maria accudiu ingenuamente:

--De me separar de ti, sim.

--Mas no tinha ainda pensado em mim!--queixou-se elle, muito sentido.

--Realmente ainda no pensra.

Comeava a sentir-se compromettida, olhava em torno a procurar os
primos.

Joo deixara-se arrastar pela arrebatadora emoo d'esse momento tanta
vez sonhado, e tanta vez crido impossivel:

-- porque nunca me quiz bem!

Ella via embaciarem-se-lhe os olhos, tremerem-lhe os labios.

Desculpou-se para no o affligir mais:

--Como querias que pensasse em ti, se isto tem sido uma coisa no ar?

--Mas esto preparados para o embarque...

-- certo que o pae anda com isso ha muito. Mas elle faz e diz tantas
coisas sem fundamento, que eu nunca o tive por decidido.

--Nem mesmo o casamento?

--No pensei a serio em coisa alguma.

E n'um arremesso de creana que os mimos tornaram voluntariosa:

--Mesmo isso do casamento com o primo ha de ser se me agradar.

Joo estremeceu, desiludido:

--Ah! Ento ainda  possivel?

--S Deus o sabe. Mas se no sympathisar com elle, no ha foras
humanas que me obriguem.

--Quer dizer que ainda pde vir a agradar-se?

--Quem sabe!

Cria-o ento possivel?  que nunca sentira por elle nenhuma affeio?
E a custo Joo comprimiu um soluo, que no lhe passou despercebido.

--Que tens tu?

Bailando-lhe lagrimas nas pestanas, desabafou:

--Ando como um doido! Perco as noites a pensar que no nos tornamos
mais a vr. Toda a minha vida hei de chorar esta casa...

--Coitado! Faz-te falta o que o pae te d a ganhar.

Magoou-o a apreciao. Pois no presentia n'elle outro sentimento? No
interpretra nunca o verdadeiro culto que lhe votava, olhando-a
absorto, como s imagens.

Pensou ainda em manter-se incomprehendido, em calar essa revelao.
Vinha muito tarde! No o comprehendera em dois annos de intimidade,
no ia agora corresponder-lhe de repente. Mas revoltou-o vr
accentuada a situao de dependente.

--No ia ali por interesse--protestou.--Os seus deixaram-lhe alguma
coisa. Tinha com qu. Era s por ella, para estar ao seu lado, que
acceitava o sacrificio do escriptorio.

Impressionou-a a paixo com que falava.

Ainda em tom de gracejo, mas com a voz um tanto abafada, disse sem o
fitar:

--Querem ver que te deu para me namorares?

Ficou olhando para a areia vermelha. E como elle permanecesse calado,
insistiu, evitando-o sempre:

--No respondes?

--Fica zangada commigo?--perguntou a medo.

--No.

--Isso  que fica.

Ella virou-se de repente, e fitou-o com franqueza:

--Zangada porqu?

Intimidou-o essa expresso, que no comprehendia; mas era tarde para
recuar. Muito envergonhado, rendeu-se:

--Pois  verdade.

Maria ergueu-se n'um riso forado:

--Tu, namorado de mim? Tu, meu fedelho! Ora! No sabes o que dizes.

Ia afastar-se, mas Joo supplicou:

--J que me no ama, diga ao menos que me perda!

--Tens medo? Descana, no fao queixa ao pae?

--No se ria de mim, quero-lhe muito, muito!--soluou elle.--E quando
soube que a pretendiam casar em Lisboa, chorei de desespero, porque me
costumra a pensar que havia de ser minha mulher.

Ella encarou-o, franzindo as sobrancelhas, como irritada pelo
atrevimento do plebeu, do insignificante, irrespeitoso para com o
idolo que para todos julgava ser.

--Ests brincando!  l possivel!

Elle enxugou as lagrimas, conteve se:

--Sinto-o agora, pelo desdem com que me trata.

-- uma creancice.

--Sim. Mas que me perdeu para sempre.

Irritada procurou convencel-o:

--Pois tu no vs que o pae nem quer que eu fale com o primo Antonio,
nem com o primo Sebastio desde que se lhes metteu em cabea
pretenderem-me, porque so pobres? E que s tu ao p d'elles, quasi
to fidalgos como ns? O que diria o pae se soubesse d'isto!

--E a menina que diz?

--Que digo? No me ests ouvindo?

--Se me estima.

--Bem sabes que sim.

--Muito?

--V l se me entretenho com mais alguem do que comtigo e com a prima
Josepha da Esperana.

--E agora, depois do que lhe disse?

Animava-se momentaneamente, olhava-a transportado, n'um lampejo de
esperana.

Ella sorriu, bondosa, infantil:

--J me viste por ventura algum namorado? Todas as raparigas os tm,
aos dois e aos tres, e eu nunca achei graa a essas tolices. So
brincadeiras estupidas. Mas se gostasse de um homem, muito c de
dentro...

Transfigurou-se, dominou-a uma expresso de alegria, mas conteve-se e
exclamou abruptamente:

--Olha, falemos de outra coisa.

Comprehendeu que era preciso acabar:

--Vejo que no quer saber de mim.

--s doido. Ento no temos sido to amigos?

--Oh! Como eu esperava ... no!

--Sabes que mais? s um doido,  o que te digo!

E afastou-se com mau modo.

--Um momento, senhora D. Maria, esquea esta falta de respeito, antes
que me retire para nunca mais voltar.

--O qu? No ests bom de cabea rapaz. Ento  que o pae desconfia. E
o que sers tu nas suas mos, meu franganito!

--Virei despedir-me com qualquer pretexto ... e nunca mais me tornar
a vr!

Ia seguindo Maria, que se esquivava a novas lagrimas, procurando os
primos, aninhados n'algum caramancho.

Ao descobrirem-os, disse Joo precipitadamente:

--Obrigado pela feliz illuso em que tanto tempo me manteve, e adeus
para sempre!

--Vae com Deus--redarguiu ella, muito saccudida--e pede a Santa
Catharina que te d juizo.

Despediu-se Joo cerimoniosamente de Jorge da Feteira, de D. Josepha,
e retirou-se corrido.

No se atreveu a sair pela porta principal,  vista de todos.

Atravessou o cannavial, passou s terras lavradias, sau pelo porto
de ferro que abria para o cerrado, e seguiu ao longo do muro da
quinta, encoberto pelas faias e caniados.

Ao passar debaixo do mirante onde a deixara, surprehendeu pedaos de
conversao a seu respeito.

Josepha da Esperana reprehendia a prima:

--No o devias ter deixado tomar tanta confiana, desde que no o
querias. Vocs pareciam mesmo dois namorados, e sempre os tive por
isso. Andastes muito mal.

Indignou-se Maria:

--E tu, e as outras? Vocs teem licena para tudo? E se me desse para
o namorar? Que tens que vr com isso? Olha, talvez venha a gostar do
entretenimento.

--Com este?

--Com este ou com outro. Parece que  tudo o mesmo,  maneira como
vejo variar.

--Isso  commigo, prima?

-- com todas.

--Deu-lhe volta ao miolo! Pois veja se tem mais juizo.

--Olhe, prima, no a chamei para mestra, e no me venha dar lies sem
que a tome ao meu servio.

Voltou-lhe as costas e afastou-se.

Josepha da Esperana ameaou, despeitada:

--O que tu merecias era que eu fosse contar tudo ao tio.

--Pois experimenta, e vers que te pico os olhos com uma agulha.

Ao perceber o tom das referencias, Joo apressava o passo, corrido,
humilhado, occultando se com os silvados, para que nunca mais o
vissem.




III


Passra Joo interminaveis dias de angustia, e agora apenas ia  lio
de latim, ficando a estudar noite e dia para poder entrar mais
depressa na universidade.

Manter-se-ia em Coimbra com a pequena legitima paterna que, para se
formar, conservava intacta, sustentado pelas tias, a quem auxiliava
com os ganhos de escrevente.

Para supprir as quatro patacas pedira ao Juvencio, e ao doutor Ferraz,
que o apreciava das conversas politicas da botica, alguns trabalhos de
expediente da junta provisoria, que podesse fazer de tarde e  noite.

Mas a subitas abandonava o buffete, chegava  janella, e sentava-se a
contemplar a quinta dos Folhadaes, evocando a derradeira visita.

Resentia-se da frieza de Maria, do desdem transparente nas censuras de
D. Josepha da Esperana, do olhar sobranceiro de Jorge da Feteira ao
corresponder friamente ao seu cumprimento.

E avaliava que tal devia ser o primo de Lisboa a quem a destinavam,
por esse arrogante analphabeto, cheirando a estrebaria, orgulhoso de
pegar toiros  unha  sada do curro, de picar a p  vara larga, de
farpear de dentro do caixo a meio da praa, falando com desprezo da
liberdade que no comprehendia, odiando a letra redonda que nem
soletrava, copiando D. Miguel por fra e por dentro, dizendo-se, por
bravata, capaz de defender de armas na mo o passado, que lhe dava
direito de primasia sobre a parte intellectual da nao.

Como fra ridiculo no seu acanhamento!

Porque no rompera n'um rasgo soberbo, lanando-lhes em rosto alguma
dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquilao fatal da
fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo
plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta,
indolente, corroida no sangue por heranas de miserias e de vicios?

Precisava desafrontar-se, lanar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos
da Carta que confirmavam a Constituio na extinco dos privilegios,
no estabelecimento da egualdade.

Mas teria offendido gravemente Maria...

Fra melhor assim!

Ella no podia pensar como o pae, como o primo.

Tratara-o sempre como um egual e, se manifestra aquella grande
estranheza, fra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso
proposito, sem que uma gradual preparao a habilitasse a encarar
aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam.

Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os
preconceitos?

Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio,
previam a declarao da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse
deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para
escolherem o melhor, e um corao para estalar de dr; e se fosse
poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um
formidavel protesto, os versos de Gil Vicente:

          Que el amor que aqui me trajo
          Aunque yo fuese villano,
          El no lo es.

J no havia porm villes e fidalgos; perante a lei eram todos
cidados!

Maria agora sabia tudo e, n'esses longos dias em que se no viam,
tinha tempo de meditar.

Julgal-o-ia no seu intimo, evocaria, talvez saudosamente, a
jovialidade d'essas tardes!

Que pensaria o fidalgo em no o vendo?

Era foroso ir l dar-lhe qualquer desculpa. No podia desapparecer
como um criminoso.

Precisava mesmo mostrar-lhe, e a todos, que no tinha medo.

N'esse dia despedir-se-hia d'ella cerimoniosamente.

J no era dependente e, se o acolhesse, tratar-se-iam de egual para
egual.

Voltaria como visita, ou falar-lhe-ia da canada, e havia de
inspirar-lhe confiana, fazendo-lhe vr como as medidas liberaes,
extinguindo distinces, lhe permittiam elevar-se at aspirar  sua
mo.

E assim caa de novo na preoccupao politica, sentindo ainda mal
seguro esse estado de coisas que provocava um desdenhoso riso a
Martinho Vasques, e avinhados raptos oratorios ao frade.

Como sempre que o intimidavam a tranquilla segurana dos adversarios,
as ms noticias que por toda a parte espalhavam, decidiu ir  botica
avigorar a f na convico enthusiastica do velho clubista.

Fra to forte o abalo soffrido que adiou de dia para dia a visita ao
Juvencio e, sem sar mais que para a aula do padre Jeronymo, continuou
agarrado aos livros, vendo n'elles, no curso para que o preparavam, a
sua melhor desforra.

Alarmou-o uma manh o boato trazido de fra pela creada, quando
estavam almoando, de que se ia embora o batalho, e voltava a ilha 
obediencia do senhor D. Miguel. A junta reunia gente armada para
impedir o embarque, mas todos diziam que os caadores eram levados do
demonio, e nenhum caso fariam da paisanada.

No poude encobrir o desgosto, mas no respondeu s tias, no lhes
contestou os commentarios.

D'ahi a pouco saa, muito enfiado, disposto a tudo.

--Que ha de novo, senhor Fulgencio?

Veiu do interior da loja o boticario, um velho alto, secco, ainda
robusto, s divergindo dos constitucionaes na cara rapada, olhar
inquieto, ardente, bocca energicamente accentuada, expresso decidida,
barretinho de clerigo tapando-lhe a calva, muito correcto n'um velho
traje de gala, repassado aqui e ali, casaca de seda preta, calo e
meia, chinelos em vez dos sapatos de fivela, por causa dos callos.

Aproximou-se n'um ar mysterioso, occultando-se das beatas que iam
vigial-o de manto, e disse-lhe baixinho:

--Est reunido o conselho militar. A coisa no ha de ir assim, estejam
descanados.

E retirou-se, muito activo, n'um passo miudo.

Seguiu-o Joo, angustiado.

--Vieram ms novas?

Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas:

--No vieram das melhores, no. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas,
chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu
avio a gente _do monte_, para ficar com as mos livres, se tivermos
dana.

Era domingo e, conforme o uso, viera s compras muito povo do campo.
Estava a botica cheia de cabaas, de alforges, de sacos de estopa. Em
cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em
punho, ia despejando boies de unguento.

Devorava Joo as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e
tera de alto, a duas columnas, encimada pela cora portugueza, entre
_Gazeta_ e _de Lisboa_, do titulo.

Vinham cheias de saudaes a D. Miguel pela exaltao ao throno dos
seus maiores; da lista dos donativos voluntarios, extorquidos pela
policia e pelos caceteiros sob a ameaa da denuncia por liberal; de
congratulaes officiaes pela victoria das tropas fieis contra as
rebeldes.

Na ultima pagina do n.{o} 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do
retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rap a
40 ris a duzia, em preto, a 240 _illuminado_; para medalhas mais
pequenas respectivamente a 30 e 160 ris; para anneis e alfinetes a 20
e 120 ris.

Publicava a _Gazeta_ n.{o} 182, de 2 de agosto, o Assento dos tres
estados, em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de
haver jurado falso com essa interpretao do juramento, que Joo lia
assombrado: irrito ou nullo quando cae sobre materia illicita,
quando  extorquido pela violencia, quando da sua observancia
resultaria necessariamente violao de direitos das pessoas e dos
povos, e sobretudo a completa ruina da nao.

E os jornaes continuavam a bater a nota das felicitaes a D. Miguel e
s tropas.

Que significava aquillo?

No podia deprehendel-o das _Gazetas_, alheio como estava ha muitos
dias ao movimento politico.

Mais aliviado de freguezes, veiu Fulgencio esclarecel-o:

--Sim, foi-se tudo por agua abaixo. J o sabiamos desde o dia 5, mas
a cara era a mesma, para que esses patifes dos miguelistas no se nos
rissem nas barbas...

--E as noticias que o doutor Antonio da Silveira foi procurar ao
Porto...

--J nos deram a diviso liberal em retirada para a Galliza ... mas
ns: moita, carrasco!

--Pois no poderam manter-se todas essas tropas da junta do Porto?

--Perdeu-os a sua ingenuidade! Tu bem sabes que ns no queremos
sangue, nem aladas, nem perseguies, nem confiscos. Paz e egualdade
para todos! Eis como foram at cerca de Condeixa tres mil soldados
liberaes, por assim dizer como chamariz a deseres. Mandaram-se
proclamaes para o campo inimigo, e ao alarme pela aproximao de uma
fora adversa romperam as bandas o hymno constitucional, para a
arrastarem  adheso. Contava-se vencer sem disparar um tiro, sem
derramar o sangue de irmos!

--Como em Vinte!--exclamou Joo enthusiasmado.

--Eram os principios! Mas as foras do Miguel, seis a oito mil homens,
no quizeram abraar os irmos d'armas, e atacaram na Cruz dos
Moroios, no momento em que todos os chefes, de major para cima,
tinham ido assistir ao conselho militar em Coimbra. Foi a aco dos
capites e, como tal, as foras sem commando que reunisse os seus
esforos, defenderam com valentia as posies occupadas, mas no
limparam de inimigos o caminho de Lisboa. Depois o nosso general
Refoios, receando que Povoas passasse o Mondego, ordenou a retirada
para o Porto.

--E ahi?

--No se poderam manter. Quando chegaram de Inglaterra os chefes
emigrados j era tarde, e voltaram no mesmo vapor que os levra,
emquanto a diviso retirava para a Galliza.

--Que desgraa!

--Ou antes, que inepcia. Essa fuga dos chefes no _Belfast_ no me
passa d'aqui!

E levou a mo  garganta n'um gesto nervoso.

Sentiu Joo as lagrimas nos olhos, e fez exforos para no chorar.

Assim ruia n'um momento o futuro em que tanto confira.

--Ento acabou-se tudo?--exclamou em voz estrangulada.

--Qual! Outros viro! Ha de estalar nova revolta, e o Miguel no
levar a melhor! E agora que aprendemos  nossa custa, nada de hymnos
nem de proclamaes. Ha de ser  m cara!

Dava grandes pernadas pela botica, olhando inquieto a praa, onde se
juntava muito povo defronte da camara.

Continuou para Joo, que ficra aturdido:

--Assim o querem, assim o tenham! O exemplo do sangue veiu d'elles. J
comeou a trabalhar a forca, mas os estudantes de Coimbra, longe de se
intimidarem com o assassinio dos collegas condemnados pela morte dos
lentes em Condeixa...

Olhou Joo fixamente, crendo que a sua pallidez provinha da referencia
ao attentado e s execues.

--Ouve l. Tu que te fazes to liberal, se te coubesse em sorte
executares um tyranno, um inimigo de liberdade...

--No me tremia a mo, tenha a certeza!

E Joo ergueu-se, vibrando de enthusiasmo, na esperana de poder tomar
parte na lucta contra a casta dominante cuja oppresso tanto o
magora.

Parecia-lhe ha muito que o experimentavam os frequentadores da botica,
e sentia-se attrahido pelo maravilhoso, pelo mysterio do subterraneo
onde constava funccionar uma associao secreta.

Mostrava agora uma firmeza de homem feito, sentindo-se honrado por
esse convite indirecto a entrar em aco.

Juvencio fitava n'elle o olhar prescrutador.

--Todos sero precisos!--disse-lhe por fim--e os rapazes mais do que
os velhos. So vocs que teem a lucrar com a liberdade. Eu no
chegarei a gosal-a em paz.

Commoveu-se n'uma saudade do periodo constitucional, das humanitarias
illuses em que tinham considerado a nao livre e feliz para sempre.

Mas o gesto de amargura cedeu ante a impulso do inquebrantavel
espirito de combatividade, e proseguiu:

--Como te ia dizendo, a estudantada no se intimidou, e adheriu 
revoluo, formando o batalho academico, que l retirou com os
emigrados.

Eram um novo contratempo para Joo as perturbaes da universidade.

E na obsecao do projecto que por esses dias o absorvera, perguntou:

--Ento assim, talvez no possa matricular-me este anno?

Sorriu da ingenuidade o boticario.

--s um creanola! Pois no vs que no torna a haver paz sem que
elles nos enforquem at ao ultimo, ou ns os desarmemos e ponhamos o
Miguel pela barra fra?

--No sou to inexperiente como julga. Mas pelo que vejo na _Gazeta_,
D. Miguel foi proclamado rei, e tudo so felicitaes e offertas...

--Isso no quer dizer nada.  a gente d'elle, s a d'elle, porque os
nossos esto presos ou emigrados. Mas olha que os embaixadores
cortaram todas as relaes diplomaticas, em protesto contra a infamia
dos juramentos falsos com que nos illudiu, com que enganou as naes
estrangeiras.

Puxou triunfante d'uma carta:

--Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer no. Os tres estados, como
tu j ahi lstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica
do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra frma,
dizendo que elle, ante o parlamento, no jurou com a mo nos
evangelhos, mas em cima dos _Burros_ d'esse bandalho do Jos Agostinho
de Macedo. Tu sabes as minhas opinies, para mim tanto vale um como o
outro,  tudo palavreado de frades. O crime est na m f de bandido
com que abusou da confiana attribuida  palavra de honra de qualquer
homem de bem, quanto mais de um principe!

Joo indicou-lhe o artigo da _Gazeta_.

--Dizem que elle foi coagido a jurar.

--Patife! Estava coacto, sim,  a desculpa d'esses homens que para
vergonha nossa ainda governam cidados livres como rebanhos de
carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. Joo sexto e D. Miguel
declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as
traies e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua
sciencia certa e o seu poder absoluto guardam-os esses ungidos do
Senhor para prem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros.

Amarrotou a _Gazeta_ furioso, batendo com as costas da mo no artigo
dos tres estados, emquanto passeiava, declamando:

--Isto que ele fez agora, deitar a mo  cora, j o tentou por duas
vezes em vida d'esse pobre diabo de D. Joo VI, combinado com a porca
da me. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na
Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o
extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor
D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno
portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar
d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a
cora  nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condio de D.
Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e at
enviou ao irmo regente um manifesto negando a authoridade do seu nome
a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de
Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas
instituies, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar
a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um s
liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os
juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos
em que a applicava. E quando pz o exercito da sua mo, mudou a
officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente
seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a
questo da legitimidade, que nunca at hoje fra apresentada, e fez
trabalhar o cacete e a frca.

--E est realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a
_Gazeta_?--perguntou Joo intimidado.

Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo:

--Mas no o est na ilha Terceira!

Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal:

--Fala-se aqui de uma expedio em que vem a nau _D. Joo VI_, e mais
dez navios, contra a Madeira e as outras possesses revoltadas...

--Bem sei. E j fizeram exercicio de desembarque diante do seu anjo.
Pois que venham c, e vero a lio que levam!

Deslumbrava-o o orgulho patriotico:

--Tinha melhores dentes o Demonio do Meio-Dia, e por duas vezes lhe
corremos com a sorte. O que a nossa terra fez ento, pde repetil-o
agora. At os toiros dos nossos mattos se lhe deitaram na Salga, e
Vadez fugiu, apezar dos seus dois mil soldados cobertos de ferro! Para
se metterem c tiveram os hespanhoes que mandar oitenta navios e
dezaseis mil homens. Onde tem o Miguel gente para isso? Pois tomra eu
que mandasse muita, para que, livres d'ella, o puzessem os liberaes
mais rasos do que um chinelo.

Ardia Joo na impaciencia de saber toda a verdade:

--Por tr mdo da esquadra o batalho quer sar, como corre?

--Com mdo, dizes bem. Eis o que valem fanfarronadas de caserna!
Lingua tm elles para se darem como autores de tudo, dadores da
liberdade, mantenedores da independencia. Mas v l se alguem os viu
quando entraram os francezes! Nem raa de um. Foram as guerrilhas,
paisanada como eu e como tu, que lhes puzeram as uvas em pisa. E
quando mataram o grande general Gomes Freire? Se foram elles proprios
que o fuzilaram! Havia officiaes inglezes n'esse tempo, mas s meia
duzia. A soldadesca e os agaloados eram todos de c. Que prendas! Em
Vinte sahiu tudo para a rua, que duvida, se a coisa no cheirava a
esturro. Apenas vivas e palmas! Quando se conspirava contra a
Constituio, ainda juraram defendel-a at  ultima gota do seu
sangue. Mas assim que os franceses entraram por Hespanha, e o Miguel
se levantou, puzeram-se no seguro, e trahiram todos os juramentos,
choramingando que a liberdade era m porque lhes deixava os soldos em
atrazo, quer dizer, porque no lhes dava em promoes e augmentos de
soldo tudo o que pagava o pobre povo. L conheceram para que serviam
ao atrelarem-se ao carro de D. Joo VI, que puxaram como bstas,
organisando at a relao dos nomes, e disputando aos fidalgos a honra
da preferencia!

-- ento certo que retira?

--O major Jos Quintino Dias apenou os navios da laranja para o
levarem a Inglaterra, onde devem ir ter os emigrados. Queria embarcar
hoje mesmo, 24 de agosto! Escolheu bem a data, no haja duvida, quando
faz oito annos que rebentou a revoluo constitucional no Porto!

Considerou tristemente:

--Oito annos! Como o tempo corre! E estamos peior do que ao comeo.

Nada porm abatia a sua f inabalavel:

--Mas havemos de restaurar a liberdade, embora s vocs gosem d'ella!

Joo commentou ainda:

--Mas caadores cinco foi sempre um corpo liberal!

--Pois  isso mesmo o que mais me doe. O bravo cinco! Um batalho
degredado para aqui pela sua firmeza, quando at o famoso dezoito de
infanteria, unico que no fra  Villafrancada, se bandeou, depois de
ter recebido, n'essa hora tragica, um exemplar da constituio
confiado  sua guarda, e de ter jurado morrer pela liberdade! O cinco,
o bravo cinco!

E reconsiderando:

--Mas ouve l, rapaz, se em geral a tropa no merece confiana, e s
pensa no venha a ns, tem tido verdadeiros heroes liberaes, embora por
excepo! Esses que emigraram, sem acceitarem as concesses do Miguel,
so portugueses de antes quebrar que torcer! Bem viste como se portou
o nosso cinco em vinte e dois de junho. Agora  que lhe deu para
desmanchar-se ... Ainda tenho para mim que ha de reconsiderar.

--Tambem creio que se no vae.

Juvencio exclamou exaltado:

--L isso  que no vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou
ao mal. No  s meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme.
Vae por ahi uma gritaria, um desespero que  de cortar o corao. Bem
se sabe o que o Miguel far se entrar aqui. So mortes, confiscos,
donzellas violentadas, creanas insultadas nos seus lindos olhos
azues, a maldita cr constitucional. A elles pde no importar isso,
mas ns no queremos a desgraa na nossa querida terra. Se teimarem em
fugir, abandonando ao carrasco mulheres e creanas, ensinar-lhe-emos 
fora o seu dever!

Como sempre, fra avassallado Joo pela f do velho liberal:

--Sim! Sim! Diz muito bem.

E no rosto lia-se-lhe uma formal deciso.

Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua:

--Quando fres pae, Joosinho, comprehenders a minha dr. Tenho aqui
em cima tres filhas, e j um neto, cujos cabellos loiros so o meu
encanto! A minha familia  a minha religio. Tudo quanto sou, me
tornei por causa d'elles! A minha alegria  o reflexo da sua alegria,
a minha vida  o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha
e n'elles se perpeta. A mulher  to velha como eu, mas ellas so
novas e lindas. Queres saber o que os padres prgam do pulpito abaixo?
Que  preciso matar as _malhadas_, as filhas de liberaes como as
minhas, de preferencia as gravidas, porque as creanas j trazem no
ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada est para dar-me
outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues
do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! No! No ha de ser
assim!

--Na nossa terra no entram esses barbaros!

Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio
continuou:

-- preciso que no entrem! Toda a esperana da liberdade portuguesa
depende de ns. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a
parte.  o que agora diro no conselho ao major Quintino. O futuro de
Portugal est-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira pde
defender-se, e ha-de defender-se!  to bravia a costa do mar, que faz
por si s uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos as do
castello. A nossa terra  to insignificante, estar dizendo Quintino,
que n'um dia se corre toda em volta a p. Pois quanto mais pequena
fr, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um
degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para c o
refugo dos funccionarios, o que lhes no serve de nada. Pois se o mal
vem de l, ha-de ir-lhe de c a lio! Aqui foi o reino do Prior do
Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente,
vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario
da liberdade, que depois reviver em Portugal!

Observou a praa, e ficou descontente:

--Ein? Tudo na mesma. Mau signal. J tiveram tempo de decidir qualquer
coisa. Pois vamos at l a vr se espertam.

Desappareceu no interior da loja.

Estremecia Joo n'um fremito de independencia.

Sim, resistir aos de fra, acabar com essa escravido, o navio cujas
noticias o ameaavam, o primo do continente a quem estava destinada a
mulher amada. Queria-a para si, e havia de defendel-a com o ardor com
que Juvencio pretendia bater-se pela familia.

E assim como para o velho constitucional se identificavam os dois
amores, tornando-se um a ampliao do outro, sendo o lar o mais
sentido representante do maior, assim Maria se lhe tornava o symbolo
da sua terra, ameaada pelos de longe, dominada, como parte da sua
populao, pelo preconceito, pelo fanatismo.

Percorria-o um fremito de bravura, manifestava-se-lhe, ao influxo da
occasio, a hereditariedade guerreira; e sentia-se prompto a combater
por ella e pela liberdade, j sem o triste acanhamento em que se
humilhra ante a frieza do seu olhar altivo, ante o desdem de um boal
marialva.

Veiu de dentro Juvencio, de chapeu alto, vendo-se-lhe o barretinho por
baixo, emquanto, de costas, pretendia fechar a porta interior; trazia
o capote preso nos fechos de prata, e debaixo d'elle um volume que lhe
tolhia os movimentos.

Voltou-se, sorriu ao encarar com Joo, e pediu-lhe que encostasse a
porta da rua.

Desembaraou-se, poz em cima da meza uma espingarda de pederneira e o
cinto de cartuchos.

Fechou ento a porta, metteu a grande chave n'uma gaveta, foi depois
verificar a escorva, e por fim desembainhando a espada posta  cinta,
mostrou a Joo, que assistia n'uma impassivel gravidade de homem
feito, a lamina onde se lia: Constituio ou Morte.

Tivera-a muito bem escondida como uma reliquia, e nem as perseguies
do maldito Stokler lh'a poderam arrancar.

Cingiu o cinto da polvora, enfiou no hombro a bandoleira da espingarda
e deitou por cima o capote azul, encobrindo as armas.

N'uma ternura paternal poz a mo no hombro do rapaz, ao despedir-se:

--Adeus, e mette-te em casa, Joosinho. Temol-a tramada!

--Em casa, eu?--protestou quasi offendido pelo conselho.--Olhe tambem
para isto, senhor Juvencio.

E da alta bengala de madeira preta e casto de marfim, arrancou um
agudo estoque, e sacou das amplas algibeiras do casaco duas pistolas
de pederneira.

--Esto carregadas!

Enternecera-se o velho:

--Pois tambem tu, pequeno! Oh! Com rapazes assim a victoria  nossa.

Muito orgulhoso, Joo gracejava:

--Ento o senhor, ssinho,  que havia de defender esta terra toda, l
por ella ser to pequena? Eu tambem sou terceirense, tambem tenho
direito ao meu pedao!




IV


Saram para a praa, repleta de gente.

No queriam voltar para as freguesias ruraes, sem saberem a deciso,
os _homens do monte_, as mulheres com o cabello de risca ao meio a
luzir de unto, saia pela cabea, entufadas de saias sobre saias, os
ps metidos em galochas de cedro, com plas de coiro verde, avivadas a
vermelho, luzentes de ilhs, cravejadas de pregos de ao.

Nos grupos da gente da cidade graves artistas independentes,
carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, marceneiros, alfaiates,
trabalhando na propria casa, e para si, auxiliados pelos filhos, ou
por apprendizes e officiaes, que sentavam  sua meza.

Esperavam n'um grande ar de solemnidade, orgulhosos dos capotes de bom
panno azul ou castanho, presos por fechos trabalhados de lato ou de
prata.

Commerciantes de chapeu alto, grande casaca, no rigor do trajo
constitucional, ostentando bigodes, afadigavam-se por entre os grupos
de artifices e camponezes, achando todo o apoio n'aquelles, e n'estes
uma desconfiana hostil.

Sentia nas novas leis o seu advento a burguesia liberal, e defrontava
por toda a parte o fidalgo e o convento, senhores da terra, parasitas
do trabalho, e queria oppor aos monopolios a liberdade commercial.

Mulheres do povo, de capote berneo, n'uma exploso de escarlate;
burguesas e fidalgas de manto negro, reunidas em pequenos grupos,
parentas, amigas; viravam incessantes os bicos mal saa uma pessoa da
camara, e atravessava a praa illaqueada pela anciedade da deciso.

A dentro dos capotes e dos mantos, por sob as pregas apparentemente
uniformes, adivinhavam-se no esguio, no flexivel da cintura, no
irrequieto do bico de passaro, no adejar de vo dos largos pannos, as
noivas do batalho, as apaixonadas d'essa juventude que, no prestigio
da farda, na vivacidade de lisboetas, no seu falar cantado, endoidecia
as raparigas, com grave ciume dos patricios offuscados.

Reconhecia-se o abandono das quarentonas sem futuro, gordanchudas,
afogadas em seios j inuteis, semeadas por entre os grupos como
escolhos, em torno dos quaes esvoaavam os bandos de garas.

Havia vendedeiras de capello deitado para traz, suffocadas pelo calor
e pelo medo de perderem o rosario de dividas deixadas pelas tropas ao
levantarem campo.

Tapavam rebuos os rostos lacrimosos das namoradas e amantes dos
soldados, dos officiaes e dos sargentos; mas carpiam-se, por todas as
saudosas, as _mulheres da Rocha_, leno de seda na cuia, chaile
terado, rosetas de vermelho nas faces, labios pintados,
arrepelando-se, bradando contra a sada d'esses divertidos rapazes,
cujas guitarras trinavam melhor que as enfadonhas violas de arame da
terra, d'esses bons fregueses, to generosos e to pandegos.

Capitaneado pela Joaquinina do , estava o rancho das beatas encoberto
com o canto da rua da S.

De atalaya  botica, destacava alviareiras para o convento dos
franciscanos; era um constante borboletear de mantos pela ladeira de
So Francisco, e as que voltavam falavam s que iam, encostando n'um
tremelicar nervoso os bicos, como antenas de formigas.

Traziam medalhas com o retrato de D. Miguel, bentas pelos frades, e
que elles proprios lhes tinham posto ao peito, para ostentarem
victoriosamente, mal houvesse a certeza de que retiravam os caadores.

 appario do boticario, afadigou-se nova emissaria ladeira acima, e
foi adejando o enxame atraz do velho e de Joo, seguindo-os por entre
os grupos at junto da escada de pedra, que subia exteriormente 
fachada do edificio, encimado pela torre do sino onde se tocava a
recolher.

Para os lados da rua do Gallo reunia-se o grupo dos mais influentes
constitucionaes, que no tinham assento no conselho.

Por vezes distrahia a espectativa o borborinho, gritos, risadas,
vindas dos arcos da cadeia.

Davam para as arcadas que sustentavam a varanda de pedra da fachada,
as janellas das enxovias, onde havia cestos arvorados em canas, como
apparelhos de pesca armados  compaixo.

Ia a gente do monte agarrar-se s grades, uns a comprarem pentes e
grosas de botes de chifre, enfiados em agulhas de feno; outros a
mirarem com olhos compassivos a nudez da priso, a bilha de agua, o
immundo boio dos dejectos, a tarimba de madeira onde se mantinha
acocorado o _Marmanjo_, meditabundo, envolto em pedaos de colcha
esfarrapada, offendido por essa profanadora curiosidade, elle, o
santinho, como lhe chamavam os frades que o tinham de olho para
carrasco; muito temente a Deus, notavel pela frequencia com que se
confessava e commungava, e indigitado para a nobre misso de executor
pela limpeza com que em S. Bartholomeu demolira com uma s paulada o
homemzarro de um vizinho.

Regateava em voz fanhosa gaiolas de cana com melros pretos de bico
amarelo, grandes cantores, o _Mujinha_, baixo, olhinhos de bisnau,
pondo um trao de intrigante na cara rugosa; gatuno, fachina da cadeia
e afilhado de chrisma do carcereiro que lhe levava caridosamente 
porta as gaiolas, em ademanes de sacristo.

Com a pronunciada queda commercial d'esse, contrastava a do seu
visinho de janela, o _Zica_, muito correcto e limpo, cantarolando 
moda da ilha de S. Miguel, vendendo pentes de baleia, cumprindo
resignado a pena imposta por uma desforra tirada  m cara, n'uma
noitada de vinho.

Este era constitucional, e arvorva sempre, provocadoramente, as guias
do grande bigode, sem sequer as deitar abaixo, apesar das denuncias do
santarro pretendente a carrasco, e das intrigas do gaioleiro, durante
o tempo em que a ilha acatra a usurpao.

Logo na grade contigua outro miguelista, o _Roseiro_, um velhinho sem
dentes, deprimido como uma fava escoada, alegrava os curiosos com
inexgotaveis historias de toiradas, em que era uma auctoridade, e
recebia em troca pedaos de po de milho, e algum grande pataco com a
effigie do senhor D. Joo VI, em premio  fidelidade e  coragem com
que descrevia o senhor D. Miguel rejoneando toiros desembolados, e o
seu confessor, fr. Jos da Rocha, saltando  praa e pegando  unha.

Apoiado aos fortes vares que de seculos de afflictivas despedidas
tinham as quinas amolgadas, como que derretidas pela ardencia em que
se lhes crispavam as mos dos desgraados, falava com a familia e os
visinhos do Raminho, um camponez alto, magro, rosto ossudo, enorme
nariz, gago, dentes pdres, grandes ps descalos espalmados, por
alcunha o _Lindinho_, condemnado por morte d'homem s Pedras Negras.

Contava com esse a fradaria para ajudante de carrasco, pois a faina
promettia, e s lamentava que no houvesse n'elle a necessaria unco
do _Marmanjo_, e que ambos, apesar de j afeitos, no tivessem a
comprovada pericia de carrasco de officio, nem o aspecto, que s por
si fazia chorar as creanas, obrigadas por lei a presencearem as
execues, de um celebre preto a quem fra commutada em priso
perpetua a pena de morte, para fazer pernear condemnados na forca, de
saco pela cabea, ante a bandeira da misericordia.

Que falta lhes fazia ali, para a restaurao do governo do throno e do
altar, um patriota como o _Cambaas_, que se offerecera para enforcar
os liberaes; ou um preso como o _Fitas_, ladro celebre, grande
partidista de D. Miguel; que at os ladres eram por el-rei contra a
immunda canalha jacobina!

Sentado de lado, contra a grade, sem encarar os ouvintes, o
_Ferrabrs_, faquista, contava historias, que no provocavam
gargalhadas como as do _Roseiro_. Eram de bruxas, de almas do outro
mundo, e o olhar em extasis, e a barba inculta na cara descarnada,
impressionavam, tornando mais horrorosas as apparies de phantasmas
de incorrigiveis constitucionaes, como o illustre general Araujo, o
_diabo_, assassinado pelos reaccionarios, com repiques e illuminaes
das freiras de S. Gonalo, e que ao bater da ultima badalada da meia
noite arrastava correntes pelo Caminho Novo, vendo-se-lhe pelas costas
abertas o fogo do inferno que o consummia.

Abaladas pelos medonhos pavores caiam mulheres com faniquitos, e ento
descia uma ordenana tinindo ferros, a prohibir os choros de uns e as
berratas torreiras de outros.

Puxava o carcereiro os presos para dentro, n'um ar compungido, mas
severo; obediente s ordens, mas doendo-se da sua execuo; injuriando
os renitentes entre abundancias de valha-me Deus; e s no levava o
seu rigor ao ponto de fechar as janelas, porque no tinham portas,
bastando  justia o gradeamento para que no fugissem os presos, e
convindo-lhe que a chuva molhasse o lagedo, afim de que ao sarem os
condemnados, expiada a pena, se tornasse mais salutar o seu exemplo
por irem tolhidos para o trabalho.

Cumprida a ordem, ia entregar-se Benicio ao formal desempenho da sua
misso de chaveiro, vigiar a porta chapeada de ferro; e sentava-se
junto d'ella a untar de azeite as chaves do postigo, dos cadeados, do
segredo, do alapo por onde se despejava cal para aplacar as
desordens, fechando por calculo os olhos ao negocio e os ouvidos ao
falatorio, para que os pobres de Christo, coitados, podessem fazer o
seu vintem, tanta gente juntra o Senhor n'aquella praa; que elles
afinal no eram maus rapazes no seu fadario, valha-os Deus, so
sortes, e at no fundo eram generosos, recompensando-lhe a caridade
com que os deixava fazer pela vida.

Voltavam os presos pouco a pouco s grades, metia-se  formiga o
povoleu pelas arcarias, e recomeava a cantilena do eu te requeiro da
parte de Deus e da Virgem Maria, efficaz para desembruxar almas
penadas; o pittoresco do e vae o senhor D. Miguel ferra-lhe com o
rojo mesmo no sitio; a Chamarrita, chamarrita, chamarrita, chama
Rosa das cantigas do baleeiro; e a giria commercial do _Mujinha_ 
meu rico freguez, perco n'esta gaiola metade do que dei ao homem que
me foi apanhar os canios, o chamariz com que ganhava perdendo
sempre.

N'aquella mesma praa, com essa mesma gente, recordava Joo, fra
celebrado ha dois mezes, em 22 de junho, o triumpho da liberdade e da
Carta, a revoluo liberal do Porto de 18 de maio.

Agora, em vez da alegria d'essa manifestao, o receio de que tudo se
desfizesse n'um momento. Estremeceu ao lembrar-se como ento, de
subito, ficra o cho regado de sangue do povo, no tumulto provocado
pela malvadez de um padre, e em que a cobardia da soldadesca,
disparando para intimidar, matara quatro indefesos homens.

Mas tranquilisou-se observando melhor. No se via nem padres nem
soldados: no havia perigo.

Fez a impaciencia de Juvencio extravasar a dos mais.

Se por si s o conselho no tinha fora para demover o commandante,
era tempo de intervirem.

Acharam-lhe razo, e do grupo separou-se logo, sem dizer palavra,
Cypriano da Costa Pessoa, um negociante alquebrado pela doena e pela
edade.

Subiu alguns degraus da escada de pedra, amparou-se ao corrimo, e
voltando-se para o povo descobriu a cabea embranqueida e dispoz-se a
falar:

Concidados!

Custou a fazer silencio e, apesar de restabelecida a ordem nos grupos
mais proximos, ainda da arcada dos carceres, de onde se no via o
orador, vinham echos desencontrados, provocando um sussurro de
protesto.

Concidados!

E a voz cava de Cypriano repetiu a invocao, procurando o volume
preciso para se fazer ouvir at ao extremo.

Que queria ali aquelle homem?

Cravavam-lhe olhos esbugalhados os camponezes, pasmados de que alguem
se atrevesse a levantar a voz em publico, sem ser um clerigo, sem ter
que contar milagres de santos.

N'um grande esforo, conseguira o orador fazer retumbar at ao canto
da praa, onde costumavam juntar-se os marilas, como um grito de
alarme:

Nas actuaes circumstancias mais vale morrer com as armas na mo do
que soffrer os insultos dos satlites do usurpador!

A convico das suas palavras fez estremecer os proprios que
estranhavam esse secular imitando padres, fazendo pulpito da escadaria
municipal.

Continuava trovejando a voz de Cypriano, modelada pela entoao dos
prgadores, pois no tivera a lio civica da oratoria constitucional.

N'um fremito de terror echoava aos ouvintes a ameaa, correspondente 
absoluta verdade:

No tardar o massacre de quantos liberaes elles puderem colher s
mos!

Ante os olhos apavorados dos que se viam, d'um momento para o outro,
sob a alada do carrasco, passava o rosario de crimes absolutistas, as
perseguies de Stokler ali na ilha, a priso e deportao dos
deputados s crtes constitucionaes, a captura em massa operada
pessoalmente por D. Miguel, de aguilhada em punho, os nove estudantes
enforcados no Caes do Tojo, as covas abertas em Portalegre  porta dos
liberaes, a tortura de Renduffe, o envenenamento de D. Joo VI, o
assassinio de Loul.

Iam ficar sujeitos a taes horrores se caadores 5 abandonasse a ilha.

E nas faces consternadas reappareceram as lagrimas.

Mas nem Cypriano da Costa, nem os liberaes do seu grupo se mostravam
desanimados.

Cheios de f, queriam luctar e appellavam para o auxilio de todos.

Por essa praa, to divertida em tardes de toiros e cavalhadas,
resoava a mesma voz grave, sentida:

Para desviar este mal to imminente, poupar a ns e a nossas
familias, amigos e parentes, convm que j, j, os amantes da patria e
da boa ordem vo offerecer-se ao governo, alistando-se voluntariamente
para servirem debaixo das armas!

Ficou abalada a concorrencia, e a ideia emittida do alto agitou por
camadas a turba, enthusiasmou os liberaes mais proximos, perturbou os
mestres de officios, entonteceu as cabecinhas de capuz escarlate,
revoluteiou as dos amplos capellos, e por fim saccudiu em tardas
negativas os barretinhos de borla, de malha amarela e vermelha, e as
carapucinhas de panno preto, em forma de tijela, talhadas em quartos
como barretes de clerigo, dos camponios.

Insistiu no convite:

N'esse momento, e desde j, no cuidava mais de outros negocios, nem
entendia haver occasio mais conveniente de prestar melhor servio 
sua patria e a tantas familias,--e aqui a voz vibrava vergastadas--sob
pena de serem considerados como pusilanimes e ingratos!

S lhe restavam foras para offerecer o exemplo do seu sacrificio:

Emfim, no ha tempo a perder! Todos os que quizerem seguir to brioso
partido que me sigam a mim!

Agitando o chapeu, abrangendo a praa n'um olhar de convite, subiu com
firmeza as escadas, at ao alto da varanda de pedra.

Foi Juvencio o primeiro a seguil-o, agitando o chapeu alto e erguendo
vivas  Carta e a D. Pedro.

Responderam acclamaes, agitou-se a praa inteira, e  medida que se
aplacou o vozear, perceberam-se gritos, brados de afflico.

Das janelas por cima da botica, adivinhando-lhe a inteno, gritavam
as filhas de Juvencio, mas elle, na embriaguez do rasgo, continuava a
subir.

Arrancando-se aos braos de mulheres que se estorcem, debatem-se
homens enthusiasmados, olhos fitos nos voluntarios que, do alto da
varanda, agradecem as palmas e saudaes.

E correm por fim, vencendo a resistencia das que choram desgrenhadas,
indo sacrificar-se para lhes pouparem mais amargas lagrimas.

So j quarenta, dos mais distinctos, os voluntarios, mal cabendo na
varanda de pedra, e Joo encontra-se entre elles, sem ter raciocinado,
sem se lembrar das velhas, do estudo, nem da ida para Coimbra, na
impulso geral, na ancia de defender a liberdade, na ambio de
apparecer aos olhos de Maria como um homem, aos de Jorge e do frade
como um altivo adversario, aos do morgado como um convicto de que 
egual a elle, e de que vae affirmar, com risco da propria vida, o
direito a erguer os olhos para as pompas do seu brazo.

No impeto em que se haviam manifestado, logo outro negociante, Joo
Antonio Bacellar, entrou  frente dos companheiros na sala do conselho
e, offerecendo o servio voluntario de todos, falou em termos taes que
obrigou o governo a declarar mantidos os principios de legalidade
contra a usurpao de D. Miguel.

Manifestaram-se no mesmo sentido o secretario da junta Manuel Joaquim
Nogueira, o tenente Lobo, o doutor Antonio da Silveira e Theotonio de
Ornellas que, no enthusiasmo pela obra de 22 de junho, para que tanto
concorrera, chegou a precipitar-se de espada em punho contra o juiz
Calheiros, contrario ao movimento.

Accede por fim a correr a sorte da ilha o commandante do batalho, e
na emoo d'essa boa nova o ajudante de ordens vem agradecer e
acceitar, em nome do governo, a offerta dos terceirenses, que ficam
constituindo a companhia de voluntarios reaes, sob o commando do
capito de milicianos Theotonio de Ornellas, devendo eleger entre si
os outros officiaes.

Ento saem todos para, como em 22 de junho, irem ao castello. No
desafogo do perigo afastado sauda o povo o governo e os voluntarios. O
velho dr. Joo Jos da Cunha Ferraz, provisor do bispado,
thesoureiro-mr da S, e presidente do cabido, o melhor advogado da
ilha, palpita, apesar dos setenta e tantos, no delirio da juventude, e
vae atirando o barrete ao ar e correspondendo aos vivas na voz
tremula, emperrada pela gaguez.

Arrebanham-se as beatas, corridas, pela ladeira de S. Francisco,
atravancando-a, alastram pela escadaria do adro, e somem-se pelas tres
grandes portas da egreja do convento, vidas de consolarem as almas
to opprimidas, com os exercicios espirituaes dos santos frades, que
no deixaro, decerto, de dar-lhes o prazer de um retumbante sermo de
desabafo, de protesto ao ceu, e de algum desaggravo lithurgico 
affronta feita quella hora ao seu querido rei, essa encarnao do
archanjo S. Miguel.

E ali dentro, na proteco do templo, poderiam ostentar as medalhas
dos retratos, em que o rosto do rei apparecia crado, n'uma
vermelhido de sangue, ostentando-o sem medo nos abundantes peitos de
amas de clerigos.

Seguiam triumphantes o cortejo as que choravam pelos militares, mas
tanta gente corria s adufas e acudia s portas, que o novo bando,
escarlate e negro, escoava-se pela rua de S. Joo, para se adiantar
pela rua da Rosa, Quatro Cantos e Ba Nova, indo esperal-o s alturas
do Relvo, aonde j a curiosidade no macularia de suspeitas o seu
enthusiasmo.

Assentadas no muro do campo de manobras da fortaleza, entre esse mar
de relva requeimado do sol, onde a primavera semeia papoulas,
borboletas e malmequeres; em face  viosa explanada que, com as
baterias e banquetas, mascara os caminhos cobertos e os fossos;
deitaram para traz os capellos, offegantes da correria, n'uma
exposio de lindas caras que confirmava aos militares o credito de
invenciveis nas mais frequentes das suas campanhas.

Transfundira-se na mais pura raa portuguesa do seculo XV o sangue
flamengo que dera o typo esbelto, a frescura de tez, a transparencia
do olhar s delicadas louras; dotra-a o Brasil da exhuberancia
dolente das creoulas, cabello de azeviche, dentes miudinhos, fundas
olheiras; trouxera-lhe a dominao hespanhola o galante requebro da
andaluza e o preto dos seus olhos seductores; e o dos hebreus fugidos
dra,  sadia carnao das morenas, olhos apaixonados de judia onde
esvoaa a nuvem da saudade.

Amando-as olvidaram emigrados penas do exilio, e finda a guerra
voltaram, a tornar definitiva a patria em que os adoptara a meiga
ternura.

Ouvia-se j perto o vivorio; vinha passando o cortejo por baixo das
gelosias do convento de S. Gonalo, de onde as freiras constitucionaes
acenavam com lenos, gritando no falsete do cro: Ou Constituio ou
morte!, transportadas pelo fremito de liberdade, acclamando os que
haviam de arrancal-as a essas grades, profanadoras da sua virgindade,
asphyxiantes da sua juventude, e restituil-as  vida, ao amor a que
tinham sido sequestradas.

Mal as raparigas casadoiras avistaram lenos de cres de mulheres do
fado voejando entre o povo, escabrearam ladeira acima, para entrarem
pelo porto dos carros, seguidas a custo pelas mes e tias que as
pastoreavam, lingua de fra.

J dominavam a praa do castello, da rua que d para as baterias,
quando resoou na tropeada a ponte de pedra, por sobre o fosso.

Sentiu-se ranger a ponte levadia, nos seus engenhos de correntes e
contrapesos de pedra, ao echoarem as passadas na madeira; retiniu
n'uma brilhante extenso de voz um alegre brado de s armas; e sob o
abobadado das portas bateram as pancadas seccas das bandoleiras ao
apresentar armas.

Nos quarteis vibravam toques de corneta, vozes de commando: Caadores
cinco que reunia na sua parada, e avanou depois at  praa do
castello.

Atraz das companhias vinha de dentro, com ranchadas de filhos, outro
grupo de mulheres que as lindas raparigas e as gastas rameiras olhavam
com respeito e compaixo.

Ficaram-se entre a egreja e o palacio as companheiras do batalho,
fieis como ces, inconscientes no perigo como os soldados, firmes como
se as sujeitasse a mesma disciplina; lavadeiras das esquadras,
mulheres ou amantes de soldados, seguindo como vivandeiras a tropa;
lisboetas baixinhas, pescoo curto, sombras de buo, de uma viva
petulancia no leno engomado, em pontas, que usavam na cabea, com o
capote, com grave offensa dos capellos ilheus; airosas varinas, leves,
saia curta, p descalo, collete affirmando-lhe o busto e
erguendo-lhe o seio, chapeu de velludo, corao de ouro e grandes
argolas.

Tinham atada a minguada roupa, promptas a partirem, como as escunas
inglezas que por baixo das muralhas se baloiavam nas ancoras, sem um
protesto, como ao virem por mar com os seus degredados; na mesma
firmeza de outras bravas mulheres, que de trouxa  cabea acompanharam
pela Galliza a diviso emigrada, e de l seguiram com ella para as
miserias de Inglaterra.

Desembrulhavam os trapos ao tempo em que os navios, desimpedidos, se
abarrotavam de caixas de laranja, e agora desabafavam contra o
Miguel, em gestos de regateiras, em palavradas de tarimba.

Formra Theotonio d'Ornellas a companhia de voluntarios  esquerda dos
caadores, e Joo, que ficara entre Juvencio e o seu professor de
latinidade, aprumava-se como um verdadeiro soldado.

Da escadaria do palacio do governador do castello, que servira de
priso a Affonso VI, discursou o secretario do governo affirmando a
deliberao de se manter a causa.

Respondeu-lhe o major Quintino Dias declarando-se, elle e todo o
batalho, dispostos a derramarem a ultima gota de sangue.

Avanou a bandeira at  frente dos Reaes Voluntarios, e estes,
estendendo a mo direita, juraram guardar e fazer guardar a
constituio politica da monarchia portugueza.

Tocou a banda o hymno constitucional composto pelo imperador em 21,
ergueram-se os vivas da praxe  Santa Religio,  Carta, e a D. Pedro,
e n'essa fraternisao de povo e tropa, gente da terra e de fra, viu
Joo estabelecer-se a unidade do sentimento nacional na aspirao de
liberdade, e sentiu-se para sempre ligado ao destino da causa, at ao
triumpho da nova ideia, ou at  morte pelo ideal.

Dissipara-se-lhe, como a todos, o terror de pela manh.

Tinham trepidado alguns, mas eram bem melhores do que os fugidos no
_Belfast_.

Havia uma consciente deciso n'aquelles dos militares que sempre
tinham querido ficar, communicando-se agora aos que a fraqueza
dominra por um momento.

S a aspirao liberal reunia todas as classes da nao.

Estavam ali, ao abrigo das muralhas, ligando-se nos mesmos protestos,
a nobreza, o clero, a burguezia, o operariado; profissionaes da guerra
como os officiaes, os sargentos e os velhos soldados readmittidos;
populares trazidos  fora para a fileira pelo Joaquim agarrador;
antigos voluntarios alistados em 23, ao perigar a causa liberal; os
que se offereciam agora; e todos, fardados e  paisana, e os proprios
que ainda no se tinham deixado arrastar, formavam uma phalange,
invencivel porque era realmente a nao armada, e offereciam-se ao
sacrificio no momento em que bordejava contra elles uma forte
esquadra, com o bojo cheio de juizes, de carrascos e de forcas!




V


J reconciliadas do arrufo, debruaram-se as primas no mirante da
quinta dos Folhadaes, devorando com os olhos o caminho da cidade.

--E nunca mais c veiu?--perguntava Josepha da Esperana.

--Nunca mais. Como se tornou esse rapaz! To orgulhoso como se fosse
fidalgo, to brioso como ns!

-- o que elles dizem, que valem tanto como os nobres, que somos todos
eguaes. Que te parece, prima?

--No percebo nem quero perceber d'isso.  bom para as caturreiras de
fr. Angelico e do pae.

--Que elle  melhor que o primo Jorge, l isso  que .

--Achas?

--Est feito um homem. Diz coisas graves como nenhum dos nossos primos
seria capaz.

--Deu-lhe para tomar a serio o que no devia passar de uma
brincadeira.

--Mas tu no desgostavas d'elle.

--No desgostava, no.

-- muito sympathico.

-- um bonito rapaz, confesso.

--Aquelle lindo buosinho... E a covinha do queixo, e as das faces,
quando se ri.  um amr!

--Engraas muito com elle.

--No fiques com ciumes.

--Eu? Toma-o para ti, que t'o agradeo.

--Isso agradecias tu. No gosto de sobejos, mas l por falta de mulher
no deixa elle de casar.

--Como tu s! E o primo?

--No lhe chega aos calcanhares.

--Olha, o teu genio  que eu nunca hei de comprehender.

--Ento, filha, so feitios. Cada um  como Nosso Senhor o fez. Mas ao
menos eu confesso a minha fraqueza, gosto muito, muito, de um bonito
rapaz, e no quero meter-me a freira. E as que dizem que lhe atiram
com pedras, esto pregadas nos mirantes a vigial-os...

--J lhe disse, prima, que no quero o Joo para namorado.

--Mas para que passa agora todas as tardes aqui, de alcateia...

-- que me irrita o procedimento d'elle. Dito e feito! Que nunca mais
vinha, e nunca mais appareceu.

--E isso d-lhe pena?

--No. Mas exaspera-me pelo seu atrevimento. Queria vl-o mais uma
vez, descompol-o muito, dar-lhe muita bofetada, muita bofetada,
puchar-lhe pelas orelhas, e depois dizer-lhe: Pe-te fra, fedelho, e
v l para quem te atreves a levantar os olhos.

--Pois caiste, prima, e no foi sem tempo. J no pdes passar sem
elle.

--No me diga isso, que at me mete raiva.

--Essas furias j passaram por mim.

--A prima  muito experiente.

--Pois sou, e por isso sinto que lhe ests nas mos, ou nunca mais
pensavas nas suas palavras.

Maria no lhe respondeu, e continuou a observar a estrada, na
irritao em que ficra desde a sada de Joo.

N'uma crise nervosa passra os primeiros dias fechada no quarto, sem
vr ninguem, depois fatigara-se em pertinazes passeios ao longo das
varandas de pedra, para c e para l, olhos fitos na direco que elle
costumava trazer.

Abandonada pelo pae, sem intimidade com a me, que passava o tempo na
cozinha fazendo doces, ou em exercicios espirituaes com fr. Angelico,
vira-se forada a mandar chamar a prima Josepha, para ter com quem
desabafar.

E apezar do que ella lhe dizia, no cuidava amar Joo. Nutria contra
elle, ao contrario, um sentimento de hostilidade, de revolta. Sentia
uma insurreio de todo o seu ser contra essa creana que de repente,
sem lh'o ter deixado suspeitar, entendera dispr absolutamente do seu
futuro, querendo-a para sua mulher.

Continuava Maria amuada, ria  socapa Josepha da Esperana, quando
passou o jardineiro, com um braado de flores e a poda na mo.

--Ora tenham muito bas tardes, minhas meninas. Ento j sabem a
grande novidade? Vem c hoje o nosso homensinho.

--Quem, tio Jacintho?--perguntou Josepha, para acirrar Maria.

--Quem ha de ser? O senhor Joosinho.

--Ouves? Temol-o por ahi.

--Que me importa!--protestou Maria, muito crada.

--Vi-o hontem na cidade, j anda fardado de voluntario, e a farda
fica-lhe a matar. Est uma flr! At se parece com o av, o capito
Silveira, que eu vi assentar praa da mesma edade. E ha de ir longe
como elle, ha de ir longe!

--No lhe disse nada?--perguntou a prima.

--No sejas inconveniente, Josepha, ou ficamos de mal.

E para impedir alguma inconfidencia do velho:

--V com Deus, tio Jacintho, e obrigada.

Mas a prima ainda o deteve:

--Diga-me c, elle agora pde chegar a official?

--At a brigadeiro, que  muito capaz d'isso, e as meninas ainda o ho
de vr a cavallo a commandar batalhes e regimentos. Eu j hei de
estar debaixo da terra, mas vou consolado por deixal-o bem
encaminhado, que lhe quero como se fosse meu filho.

Muito maldosa, Josepha virou-se para Maria:

--Casars quando elle fr brigadeiro, muito velhote como o tio
Vicente.

--Quando deixars de meter-te na minha vida, prima?

--Quando tu m'a contares como ba amiga. Comea l, e confessa que te
pllas pelo Joo.

--Se assim fosse no fazia mysterio, no tinha de qu. Mas no 
verdade, no  verdade!

E sentou-se pensativa na banqueta, fronte apoiada  mo, a olhar ao
longe.

Retiraram-se porm subitamente, e foram ambas esconder-se no jardim,
ao avistarem fr. Angelico. Enfadava-as a sua apologia da vida
conventual, no interesse de obter para a ordem os dotes e os bens que,
como ricas herdeiras, lhe trariam; repugnavam-lhes as pretendidas
caricias paternaes em que o seu instinto de mulheres adivinhava
desejos lubricos.

O frade, que reparara na subita desappario, passou rosnando ameaas
por debaixo do mirante, e entrou, mesmo sem bater.

Bufando, limpando o suor, afrontado da caminhada, s deu com Martinho
Vasques na adega, desabotoado, sentado em cima de um barril,
observando o alambique, e provando a aguardente de vinho que mandra
queimar.

Offereceu-lhe logo uma caneca cheia, que fr. Angelico esvasiou,
limpando a bocca  manga do habito, e explodindo logo na sentena que
viera preparando pelo caminho.

--Malditos tempos, senhor morgado, malditos tempos!

Martinho escorropichou gulosamente, e concordou:

--No sei como tanta impiedade no provocou j um tremendo castigo!
Deus porm compadeceu-se de ns, e as vinhas continuam, como nos dias
de f, a dar este saboroso nectar ... Outro, fr. Angelico, outro
copinho...

Offereceu-lhe, na ancia de propaganda dos alcoolicos.

Saboreou o frade aos goles, defendendo-se:

--Senhor, preciso foras para falar.

Acabando de beber, tornou a bradar em tom de sermo:

--Tempo de desgraa! Tempo perverso!

Mirou-o o morgado, surprehendido por essa gravidade, s usada quando
havia gente de fra.

--Voc tem coisa,  Angelico!

--E grave, meu senhor.

--Pois desembuche.

--Tenha V. Ex.{a} a bondade de subir ao escriptorio...

--Homem, subir ... essa agora!

E olhava apavorado a escada de mo, encostada ao alapo que da casa
de jantar dava para a adega.

--No pde abrir o bico ahi mesmo?

--Trata-se de um assumpto to grave ... to grave...

Pelo ar mysterioso, ficou Martinho desconfiado:

--Se  mais dinheiro para guerrilhas acabou-se ... Quero dizer, os
tempos vo maus, os rendeiros pouco pagam ... E voc bem sabe que a
estas horas no estou em casa para taes coisas...

Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha
muito o morgado que de tarde no fazia bons negocios, e antes de
jantar fechava as gavetas do dinheiro e saa sem cinco ris, para que
no lh'o extorquissem, com intimidaes do inferno, para missas; para
que no lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas,
invocando as complacencias de solteiras em favr dos maridos, dos
filhos, dos netos.

--No se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba que a sua
generosa bolsa est sempre aberta para a defeza da ba causa.

E falando-lhe ao ouvido, insinuou:

--Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro!

Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos
na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada expresso de
gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das
situaes extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos
que no bebem por habito, e s excepcionalmente se transtornam.

--Siga-me!--ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar
compungido.

Encaminhou-se para a escada de mo, segurou-se-lhe, poz o p no
primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair.

Offegante do exforo, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e
pairou-lhe nos labios uma contraco de vergonha, de nojo de si mesmo.
Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo!

Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal.

Ento abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os punhos, arranjou
as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixra contra as
pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo,
rastejante.

Pesadamente, no mesmo aprumo, entrou no escriptorio, foi sentar-se na
solida cadeira negra, de alto espaldar, encimada pelo folhado de uma
concha, e agora parecia-se com os retratos dos antepassados da sala
nobre, a grave cabea apoiada nos hombros largos; a meza, as pennas de
pato de que nem sabia usar, a gravidade do conjuncto dando lhe o ar de
um ministro, de um desembargador.

--Explique-se!--ordenou-lhe, como um juiz a um reu.

De p, nos gestos dos grandes dias, comeou fr. Angelico:

--Senhor, esta casa acaba de ser duplamente enxovalhada. Sentou praa
de voluntario, em reforo ao infame batalho que  a vergonha e o
grilho d'esta terra, esse rapaz que V. Ex.{a} protegeu, e que recebia
em sua casa como a um filho...

--O Joo? J tinha reparado na sua falta.

--Ho de dizer que so os nossos exemplos!

--Meteram-lhe isso em cabea, patifes! A culpa  de quem perverte a
juventude, e a arrasta para os abysmos da impiedade.

--Talvez V. Ex.{a} no leve a sua generosidade a ponto de perdoar-lhe,
quando o vir logo entrar fardado aqui.

--Aqui?

--Sim senhor, a titulo de pedir desculpa de no poder continuar com a
escripturao, mas para nos afrontar com o maldito uniforme
constitucional, porque bem sabe quaes so as opinies de V. Ex.{a} e
minhas.

--Bom  que venha, que lhe quero dizer algumas verdades, e dar-lhe
puxes de orelhas, que  o que merece.

--Perde-me V. Ex.{a} mas nem devia consentir que viesse...

--Isso  commigo.

E dirigindo ao frade um olhar severo:

--Mas que tem que vr isso com a minha honra, a que voc se atreveu a
alludir?

Curvou-se mais o frade, e respondeu na voz lagrimejante dos sermes
quaresmaes:

--J l vamos, senhor morgado, j l vamos, embora o que me pesa ...
s Deus o saiba!

Aproximou-se da meza, e quasi ao ouvido de Martinho:

--Perde V. Ex.{a}, mas diz-se  bcca pequena que o miseravel ousa
levantar os olhos para a senhora D. Maria.

--Para minha filha?

Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cachao rubro,
abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um
turbilho de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de
vingana, e os labios mexiam-se-lhe convulsos.

Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura:

--Isso pde no passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me
avisar.

--Desculpe V. Ex.{a}--insistiu o frade--mas no se trata da
infantilidade que julga. So os conselhos da botica,  a lio da
liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lanar mo
das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam!

Meditou o morgado, a cabea apoiada entre as mos, e depois disse
gravemente, em phrase arrastada:

--Basta, fr. Angelico. Isso pde ser um calculo d'elle, mas no
alcana minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem
fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem  do nosso sangue
no desce! Vena quem vencer, ns continuaremos a ser o que smos, e
elles o que so. Vossa reverendissima no pde comprehender isto,
porque  plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve
sentir.

Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar.

--Pde retirar-se. O que tenho a fazer  commigo, juiz e executor em
minha casa, na minha familia e na minha raa, como chefe de linhagem
que sou!

E correspondendo s subservientes reverencias de fr. Angelico:

--De caminho mande-me o quinteiro, faa favr.

Sau pouco satisfeito o franciscano, procurou o quinteiro, mandou o 
presena do fidalgo; depois chegou ao porto da quinta, observou para
fra antes de o transpr, e em seguida, muito cosido com o muro,
partiu para os lados de S. Carlos, para voltar  cidade sem se
encontrar com Joo.

Notaram-lhe as manobras Maria e Josepha da Esperana, que tinham
voltado ao mirante mal elle entrara.

Satisfeitas, por se verem livres d'elle, continuaram a observar
impacientes o caminho da cidade.

Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar.

Era Joo, vestido de guarda nacional, farda curta de saragoa
portugueza, com botes brancos, golla azul claro, lao azul e branco
no chapu redondo.

Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pateo, em face ao
alpendre da escada, ia vl-o entrar e, talvez como antigamente, elle
viesse falar-lhe, arrependido da imprudencia.

Pensando assim, seguia-o Maria n'um olhar de anciedade, encobrindo-se
com as trepadeiras do caniado, para no lhe dar a confiana de
mostrar que o esperava.

Vinha j perto, quando notaram dentro movimento desusado.

Corria o quinteiro, e meia duzia de cavadores de enxada, batendo os
ps descalos na terra endurecida pelo calr, varapaus ao hombro,
falando alto.

Desacorrentra o creado dois grandes ces de fila, amarelos, rabo
cortado, focinho negro, fauces ameaadoras, que de noite rondavam
ganindo e uivando.

Ao chegarem ao pateo, occultaram-se na cocheira homens e ces, e o
quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quizesse
fechal-o mal entrasse Joo.

--Que  isto, Jos?--perguntou Maria, suspeitando uma violencia.

--Ordens do senhor morgado--respondeu elle, rindo alvarmente--no
quero saber!

Mas Josepha da Esperana, muito nervosa, nem lhe dera tempo 
resposta, e ao vr Joo em frente do mirante, avisou-o:

--No entre, que lhe querem bater!

Maria, correndo ao muro, bradou-lhe tambem:

--Foge, foge!

N'uma grande excitao, gritava a prima:

--Aqui d'el-rei! Aqui d'el-rei!

Elle recura ao ouvir os gritos e, vendo apparecer ao postigo a cabea
lanzuda, comprehendeu que lhe faziam uma espera.

Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avanou muito pallido
para a porta, que de dentro fecharam com estrondo.

Sentiu ento Maria que o amava, vendo-o encarnar o typo glorioso,
cavalheiresco, da imaginao das raparigas, geralmente fixado nos que
teem por ferramenta a espada e a lana do cavalleiro andante de outras
eras.

Dirigia-se-lhe com o corao nas mos, como elle no pomar, n'um rubor
de sangue, lavada em lagrimas, pondo as mos:

--Joo, Joo, no te percas por minha causa!

Sem a attender, batia exasperado no porto com o punho da baioneta,
bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques.

Ouvindo ladrar ameaadores os ces de guarda, virou-se Maria para o
pateo.

Aos gritos de soccorro de D. Josepha, correra de dentro o jardineiro
com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta  altura dos
olhos, fortemente cingido ao corpo.

--Querem bater no Joosinho!--explicou-lhe ao vl-o.

Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros
que se fossem embora.

--Quem manda aqui  o fidalgo!--respingou o quinteiro, fazendo-se
forte  frente do bando.

Mas os camponeses, receiando as furias do velho, mantinham-se
indifferentes, apoiados aos bordes, n'um riso estupido.

--Deixe-me abrir a porta!--insistia o Jos da Quinta, querendo deitar
os ces, segundo as ordens do amo.

--Primeiro te racho de meio a meio!--ameaou mestre Jacintho,
encostando-se ao postigo.

--Avem-te com estes!--casquinou o quinteiro, abrindo com um pontap a
porta da estrebaria.

Saram ladrando excitados _Marujo_ e _Sulto_, mas conhecendo o
jardineiro, no lhe pegaram.

--s peior que os ces, que os animaes no teem entendimento e no
fazem mal s porque os mandam!

E o velho rilhando o dente, na furia que o tornava terrivel, avanou,
crendo-se em plena batalha, e fez recuar o capataz e o rancho,
levando-os de roldo at ao fundo do pateo.

Ahi, metido em brios, tentou defender-se o mandatario do morgado, mas
cau, lavado em sangue, com uma cacetada na cabea.

Appareceu no alpendre da escada D. Perpetua entre as creadas,
attrahida pelo alarido.

Chamou a filha para casa.

--Vamos para dentro, Maria. Que vergonha!

E como ella no a attendesse, deu a volta e foi obrigal-a a sar do
mirante.

--Isto  alguma tarde de toiros? Gostas de vr no que do as
bebedeiras de teu pae?

Arrastada pela me, envolvida no berreiro das creadas, Maria, com a
cabea perdida, no viu que mestre Jacintho abrira a porta e, dando
conta a Joo do que se passava, aconselhara-o a ir-se embora. Depois
falariam.

Ao passar no pateo, para entrar em casa, afastou a cabea para no vr
a torva lividez do ferido, os olhos vidrados, a testa gotejando, os
cabellos empastados em sangue, a mulher ajoelhada ao p, clamando que
o morgado lhe metera o homem em trabalhos.

Ao entrar em casa ainda poude Maria olhar para fra, e ficou
descanada vendo Joo j muito longe, a caminho da cidade, salvo de
todo o risco.

Veiu do fim da quinta Martinho Vasques a vr como tinham sido
executadas as suas ordens. Ao conhecer o procedimento do veterano,
partiu exasperado em busca d'elle, depois de ter mandado chamar o
barbeiro para curar o ferido.

--Tu  que dste a pancada no quinteiro?--perguntou-lhe colerico, ao
vl-o deitado n'um molho de rapa, a resfolegar, muito canado.

Ergueu-se logo o velho, empertigou-se na rigidez do habito militar
ante o superior, mas respondeu, orgulhoso da faanha:

--Pois quem havra de ser? Quem ha ahi com alma para tirar fumaas a
pimpes?

--Mas tu sabias que era ordem minha!

--E que me importava isso a mim?

--Ento, refinadissimo tratante, comes o meu po para me
desobedeceres?

--Sabe que mais, patro, no venha tirar palha commigo.

Mas o morgado, que via n'elle o culpado da vergonhosa scena em que
fra desrespeitado, e de que o rapaz sara triumphante, irritava-se
cada vez mais.

--Aquella pancada  como se fosse dada em mim mesmo.

O ex-soldado virou-se para elle, mediu-o de alto a baixo, e de
esguelha, disse-lhe decidido, teimoso:

--Se o senhor se tivesse ido metter com o menino...

Arremetteu com elle Martinho Vasques. Porm a reputao do soldado,
apesar da mesquinha attitude em que ia a retirar-se, sem fazer caso,
dobrado ao meio, as mos pacificamente atraz das costas, o pescoo
magro sando da colleira negra, descarapuado, bastou para conter n'um
prudente respeito o morgado, alto, foroso, sanguineo, armado do rijo
varapau.

--Esquecestes quem sou eu?

--E o fidalgo no se esqueceu do que lhe deve ao av, do que me deve a
mim, para vir para aqui, vermelho como uma lagosta, impar de raiva
mansa?

--Se no tivesse que descer a medir-me comtigo, fazia-te engulir tudo
isso com os dentes que te restam.

Tremia apertando nervosamente o bordo.

--Com bem passe, senhor Martinho--e o velho dizia-lhe adeus com a mo,
sem se voltar.--Fale-me manh em jejum.

-- bandalho, tu chamas-me bebedo?

--O patro  que se est chamando, nanja eu.

--Olha que eu mando-te fazer uma montaria como a lobo!

--Pois vamos a isso. Coza-a commigo, que tenho o coiro duro, mas l
com o menino, cautela! Olhe que lhe sae do plo, senhor morgado.

--Pois atreves-te a ameaar-me? A mim?

--Hoje em dia, meu amo, j no se pde mandar matar um homem sem se
bailar n'uma forca, porque se acabaram os fidalgos e as suas
patifarias.

--At a isto se pegou a sarna jacobina!--exclamou com desdem, com
desgosto.--No falavas assim se eu no te dsse licena para te ires
emborrachar com a choldra do castello.

--Aqui, senhor morgado, aqui  que ellas se apanham de caixo  cova.

Perdendo a cabea, o morgado poz o p atraz, empunhou o cacete, mas
envergonhando-se, atirou com elle, e deixou-se cahir no banco de pedra
como aniquilado.

Ficou para ali vendo anoitecer, no querendo passar pelo pateo onde a
quinteira se arrepelava, bradando que lhe desgrara o marido.

Tinha ainda nos ouvidos os gritos de Maria, as injuriosas referencias
da esposa.

Acabava de insultal-o um creado!

Sentia inteiramente desfeito o poder, a autoridade de que fra to
cioso.

Todos se voltavam contra elle, todos pareciam ter razo contra a sua
razo, a unica authentica, a unica verdadeira.

Perdera se a obediencia, quebrara-se o respeito, e em sua casa todos
queriam mandar tanto como elle.

Estaria ento a sociedade to profundamente minada pelo mal, como
dizia fr. Angelico, que a filha, uma fidalga, descesse at um misero
plebeu, e todos se conspirassem contra elle, tomando partido pelo
insignificante?

E atreviam-se a falar-lhe cara a cara, a elle, morgado, senhor de
terras, nas novas leis que impediam a nobreza de desafrontar a sua
honra a dentro do seu solar?

Invadia-o uma amarga dr, um triste desanimo, como se a sua
integridade physica fosse attingida, como se lhe tivesse quebrado a
cabea a cacetada, como se lhe mordessem os proprios ces.

E n'essa hora de abandono assaltava-o o remorso de muita injustia.

Mas pouco a pouco reconquistou-o a f absoluta na verdade das suas
ideias.

Reanimou-se, decidiu-se.

O mal crescera, chegra a invadir-lhe a casa! Pois bem, collocar-se-ia
d'ahi em diante ao lado dos que mantinham a verdade do passado, a
honra incorruptivel da fidalguia, a f religiosa intransigente!

E levantou-se aprumado, disposto  lucta que a todos reclamava, e a
que at ahi o subtrara a indolencia do seu viver.




VI


Segundo o costume, mal se levantra, fra logo o morgado para a casa
de jantar e, com a cabea apoiada entre as mos, os olhos fitos nos
montes de rapa, nos picos de esterco do pateo interior, onde fossavam
porcos e depenicavam gallinhas, reconstituia por partes a scena da
vespera, illuminando se-lhe successivamente zonas da memoria, mas sem
continuidade nos acontecimentos, como se uma palavra do frade lhe
ficasse menos gravada, como se um insulto do veterano se marcasse mais
fundo; e depois colligiu tudo, e poz-se a ligar os factos aos
antecedentes e a preparar-lhes, por sua iniciativa, a necessaria
concluso.

Batiam alto na cosinha as galochas de sola de cedro da morgada, ao
passar na parte do lagedo raspada pelo rachar da lenha; em sons
abafados, surdos, ao calcar as crstas de lama negra e luzente, terra
da horta, caldeada s escorrencias da amassaria.

Comeou a chiar a frigideira na trempe, ao fogo das achas atiadas
pelo borralho do forno, onde acabava de cozer o po da semana.

Ao cheiro da gordura e da linguia com ovos, desabaram moscas do tecto
de maceira, onde jaziam mortas geraes e geraes, o ventre inchado,
avivado de cintas brancas, presas umas nas bambinelas de teias de
aranha, suspensas outras pela tromba  cal do forro, que sustentava a
telha, apoiando-se s pernas de asna, firmadas por sua vez no friso
onde amadureciam mas, e nas grandes traves em que curavam aboboras.

Esbarraram algumas, desvairadas, nos vidros poeirentos, grudados aqui
e ali por miolo de po, no centro das rachas estrelladas; mas depois
precipitaram-se todas na cosinha, d'onde d'ali a pouco vieram pairando
por cima da pratada, quando os ps descalos da creada batiam pancadas
seccas nos degraus de pedra, da cosinha para a casa de jantar.

Entraram zumbindo pelas janellas as varejeiras dos chiqueiros e da
esterqueira, cujas emanaes azedas azotadas e amoniacaes, abafavam o
cheiro da linguia temperada a oregos e da banha de vinha d'alhos.

Distrau-o momentaneamente a lucta com os insectos, muitos dos quaes
iam morrer na fervente gordura em que boiava a fritada.

Para comer em socego mandou fechar as janelas, e cessou a baforada da
estrumeira, onde se enthesoiravam os despejos da casa, para riqueza
das terras; mas pela do pateo da entrada, aberta para arejar, veiu o
fedr a bsta das estrebarias que ficavam por baixo dos quartos de
cama, onde pelas gretas do sobrado insinuavam ninhadas de pulgas.

Coube a vez s moscas de cavallo, tardas, pegajosas, expulsas s
rabanadas pelas alimarias que, n'um luctar irritante, continuo,
escarvavam o cho calado de pedra rolia como amendoa, boleada pelo
rolar das mars, pelo limar da areia.

Postos diante d'elle os torresmos frios, conservados em banha, e o po
de cabea ainda quente, levantou-se o morgado e, tomando o cangiro de
barro, de aza partida, cintado por dentro de sarro, foi-se ao barril
cuidadosamente encanteirado, tirou-lhe o espicho e o vinho esguichou
alourado, espumante, tornando a tapar por suas mos, tanto cuidado lhe
merecia o trato, tanta habilidade considerava necessaria para saber
encher, sem deixar turvar.

Atestou o grande copo de crystal floreado de meia canada, difficil de
abarcar na grande mo, ergueu-o  altura dos olhos, observou o vinho
contra a luz, sorriu vendo mosquitos sepultos no fundo pelo jacto, e
sobrenadando em redemoinho, prova de que continuava excellente o
verdelho.

Esvasiou-o, excedendo a receita da sabedoria conventual antes da sopa
molha-se a bocca, depois da sopa lava-se a bocca; e quedou-se a
admirar o vidro, seu unico luxo, a que ligava o valor estimativo dos
reis testando em especial a taa porque bebiam; por onde s elle
bebia, e bebia sempre, a no ser o vinho novo que, como entendedor,
tomava por tijelinhas de barro.

Subiu da cosinha, afadigada, D. Perpetua, batendo nos degraus as
galochas.

Volumosa pelas muitas saias de estopa e de panno da terra, como as
creadas e as camponezas, trazia  cinta a bolsa de velludo preto,
bordada a vidrilhos, onde tiniam grossos patacos de bronze e mlhos
de chaves, pura ostentao, ante a dispensa escancarada, com a
esbeiada bexiga da gordura, onde se espetava a colher de pau.

Baixa, grossa, trigueira, olhar lubrico, beios carnudos, olheiras em
papos, pelle encarquilhada nas fontes, grandes rugas atravessando a
testa de lado a lado, despenteada ainda como sara da cama, as mos
sujas, de unhas negras como olhos de fava, desinteressava-se de tudo
que no fosse fazer dces, como aprendera no convento, e entregar-se a
exercicios espirituaes com fr. Angelico, a cuja intimidade se agarrara
n'um desespero de abandonada.

Era o symbolo da desordem que Joo sentia pairar n'essa casa,
orgulhando-se de que a sua valia mais, porque n'ella transparecia a
solida unio que os elevra, emquanto a embriaguez, a preguia, o
desmazelo dissolviam aquella.

Sentou-se perto da cabeceira occupada pelo marido, e os dois pareciam
degredados no isolamento da grande meza deserta, onde nos grandes dias
se ostentava a baixella de prata guardada no fundo da arca e se
alinhavam os grandes beberres dos primos dando-lhe cresta na adega,
por dias de annos, pelas festas; onde em quinta-feira santa jantava a
creadagem com os amos, celebrando a ceia dos apostolos.

Faltava Maria, e a me perguntou  creada:

--A menina?

--Mandou ir o almoo ao quarto.

--Estar doente?

Interpoz-se o morgado:

--No sabe o que ella tem? Sei eu.  que vae saindo  senhora,
herda-lhe as boas prendas, porque no tem outras que herdar.

Respondeu em furia de hysterica D. Perpetua, envidraando os olhos que
s para o frade se enterneciam:

--Vejo que o senhor ainda est com os destemperos de hontem. J nem
sequer o dormir lh'as coze.

No se escandalisou o morgado, acostumado a essas violencias, e
continuou:

--Por causa de sua filha houve hontem n'esta casa um escandalo. No
quero que se repitam, nem que ella faa o que a senhora toda a sua
vida fez.

--O que eu fiz? Mas o que  que eu fiz, seno car nas bocas do mundo
por causa dos atrevidos do seu jaez. Por ter sido sua victima sou
culpada? E ento que nome merece o senhor, que com a sua brutalidade
abusou da minha innocencia?

Riu Martinho estrondosamente:

--A innocencia de uma menina de vinte e quatro annos, creada n'um
convento de freiras, acostumada s denguices das grades,  intimidade
dos primos, sabida em poucas vergonhas de namoros. Innocente, a
senhora!

--Ria-se, ria-se. Mas no se riu quando o pae que Deus tem, que o
conhecia por dentro e por fra, o agarrou pelas orelhas: Has-de
casar, maroto, ou mato-te como a co damnado, porque me enxovalhastes
a filha. E o senhor tudo eram escrupulos do que se dizia, porque
torna porque deixa, s por eu ser filha segunda, e andar  cata de
herdeiras ricas. Quando viu sacos de cruzados no quiz saber de famas,
de ditos nem mexericos. Meteu-me aqui dentro, tratou-me sempre como
uma escrava, fez de mim esta desgraada, mas plantou novas cepas para
se emborrachar  vontade, e concertou este pardieiro onde chovia como
na rua.

E n'um gesto longo abrangeu as paredes de cantaria de onde a cal
despegava, o forro do tecto embarrigado pelo peso da telha, com
lstras de amarelo sujo, escuras ao centro, esbatidas para os bordos,
da agua da chuva represada pelos coiceis, nascidos nas toias de
terra entre os regos; vertida pelas telhas rachadas por garotos que
varejavam  funda os altos alamos,  caa de melros.

--Mente!--protestou o morgado contra a insinuao de
interesseiro.--Cumpri apenas um dever de honra.

Riu convulsamente D. Perpetua, tendo perdido na intimidade o respeito
 importancia que elle se arrogava ante os estranhos, impressionados
pelo traje de crte,  antiga, que o marcava como homem de outros
tempos, tornado respeitavel  fora de velho.

--A sua honra! Deixa-me rir! Quando o chamaram a Lisboa para a guerra
com os franceses, o senhor, apesar da sua patente de capito, no quiz
saber de palavras bonitas, e deixou-se ficar no quartel de saude, como
diz mestre Jacintho.

Iam comendo e insultando-se, na rotina de trinta annos de rancor.

--Como ha-de comprehender escrupulos de honra quem nunca os
teve!--commentou o morgado.

Insistia D. Perpetua, muito teimosa, desabafando o odio ao longo
captiveiro em que a mantivera:

--A sua honra, a sua embofia de fidalgo, que no o impediu de explorar
como um judeu o primo Chico, pondo-o ao descimento da cruz com os
seus contractos de avarento.

--Se a senhora no havia de defender esse reles picador de toiros!

--Que quer dizer com isso?

--Bem sabe o que fez, mesmo depois de casada, sua descaradona!

--No tem seno lingua! No lhe dar um estupr que lh'a puzesse lesa!

--Tambem tenho mos!--explodiu elle n'uma ameaa, dando um murro na
meza, mostrando o punho fechado.--No queira tornar a conhecel-as!

Sentindo reviver a offensa dos bofetes que a atiravam ao cho,
replicou arripiando-se como uma gata:

--Conheo-lhe as mos, covarde, mas o primo conhece-lhe a cara. Ainda
o estou a vr, quando c veiu, muito enfiado, por causa da quinta do
Pico da Urze: Tu ficaste-me com as terras, pois ento fica-me l
tambem com esta. E traz! Emplastou-lhe os cinco dedos nas bochechas!

Terminra o almoo, e ambos se ergueram de mos postas, dando graas a
Deus.

Vendo ainda vinho no fundo do jarro, deitou-o Martinho no copazio,
atirou-o  bocca e chamou a mulher:

--Oia as minhas ordens.

Voltou-se D. Perpetua no habito de servido adquirido n'uma vida
inteira de obediencia, em que apenas havia a revolta das ms palavras,
que para o isolamento de ambos se tornra n'uma necessidade.

Ditava o morgado, sobrancelhas contrahidas, carrancudo, como absoluto
senhor:

--Maria no tornar a sar do quarto sem minha ordem!

--Ah! Ento fica encarcerada?

--Cale-se e obedea!

--No, que me sbe uma coisa  garganta, e rebento se no lhe digo as
verdades! Quer fazer-lhe o que me fez a mim, que me fechou como a um
co, para se meter com as creadas e com as mulheres do monte, vindas
de proposito pagar as rendas em vez dos homens, para levarem sua
pataca amarrada na ponta do leno!

--J acabou? Ento oia, e veja se tem a imprudencia de me
desobedecer. J sabe o que lhe custa!

--Quere-a para freira?

--D'aqui em deante no a deixe s, no lhe consinta cartas. No a
perca de vista, tome cautella. Eu vigiarei ambas.

E confirmando a ordem n'um gesto de ameaa, sau em passos largos,
bordo em punho, caminho da adega, a visitar o alambique.

Muito irritada, porque a vigilancia da filha ia alterar-lhe os
habitos, entrou-lhe D. Perpetua com mau modo pelo quarto dentro:

--Venho aqui esfogueteada por sua causa. Ouvi a seu pae o bom e o
bonito! A menina precisa ter muito juizo. Lembre-se de quem ! Seu pae
no quer que saia do quarto sem licena, e olhe que se ateima no
namoro,  capaz de lhe pregar as janelas.

Recebeu Maria com indifferena a reprimenda, levantou-se e
encaminhou-se para a porta.

--Que faz?!

--Que tenho eu que se ponham a disputar  meza, e depois queiram
exercitar o genio commigo? No fiz mal nenhum, no quero ficar presa!
No quero! No quero!

--A menina est doida!

E sando para o corredor, apezar da me lhe querer tomar a porta:

--Vou mandar chamar a prima Josepha e o primo Jorge. Com gente de fra
ho de ter mais vergonha.

--Olhe, eu  que no estou para me incommodar. Prso muito o meu
socego. Vou fazer queixa a seu pae, vou pr-lhe tudo em pratos limpos.

--Pois v, que no tenho medo do papo.

Embrenhou-se na quinta, e foi para o sitio onde ouvira o que tinha
alterado o seu viver.

Longe de todos, repetia as suas palavras, recordava como ellas o iam
transformando.

Ao principio era ainda o pequeno de escola com quem brincava; o
humilde dependente d'esse frade, que viam passear ao longo da janela
do escriptorio, cr de papoila, dedo no ar, ditando com voz de sermo.

Ao affirmar que a amava no parecia o mesmo; grave, offendido, dizendo
retirar-se para sempre, decidido talvez a morrer n'essas luctas onde
tantos caam crivados de balas.

Na sua imaginao de rapariga apparecia Joo envolto no prestigio do
sacrificio, via-o galhardamente na estrada brandindo uma lamina,
arrostando com as ameaas, to differente do tempo em que crava ao
fingir-se ella convencida de que fr. Angelico lhe dava puches de
orelhas.

Parecia outro, mais esbelto, mais homem assim fardado; e agora
lembrava com desvanecimento que elle lhe chamra bonita e dissera ter
o futuro nos seus bellos olhos, a esperana de felicidade nos seus
labios.

Queria-a para mulher. E poderia ser? Elle no era nobre, o que diziam
no ser j preciso para nada. Mas o pae, s por uma desconfiana
fizera o que fizera! No quereria ouvir falar em semelhante casamento.
Que haviam de fazer?

Joo o diria. Decidido como se mostrra, levaria tudo a bom caminho.

E se casassem?

Era bem differente do pae; delicado, fino! No seria desgraada como a
me.

Que alegria a d'elle se a escutasse. Ah! mas teria vergonha de lh'o
confessar. Da sua bocca nunca o ouviria. Dar-lho ia a saber pela
prima. Oh! pela prima no. Achava-o to lindo, era capaz de
roubar-lho. Mas Joo amava-a muito para fazer caso de outra mulher.
Portanto no lho mandaria dizer por pessoa nenhuma, havia de
repetir-lho ella propria.

Habituar-se-ia, pouco a pouco, um bocadinho de cada vez, dando-lhe a
perceber nos olhos...

Pois se casassem haviam de ter segredos?

Affligia-a o remorso. Porque no lhe falara assim quando elle, to
pallido, se arriscra a desabafar? No sentaria praa, no passaria
pelo desgosto de o quererem espancar, e ella no estaria agora
ameaada pelo pae e pela me. Sempre o estimra,  certo, mas
deixara-a fria esse inesperado desabafo, tanto estava longe de pensar
n'elle para marido, quando desdenhava morgados, e julgava tudo
merecer.

Elevara-o a deliberao, a coragem, o firme bem querer manifestado no
rompimento com a situao de inferior.

Agora sim! Agora comprehendia-o e queria-lhe bem.

No enlevo d'essa commoo, no pensou mais nas ameaas, e
apresentou-se  hora do jantar, como se nada tivesse havido.

Quando D. Perpetua lhe foi participar a desobediencia da filha, ficou
muito offendido o morgado, mas no se ergueu do barril, no desamparou
a destillao, nem sequer deu por entendido o recado.

Reconhecendo a mulher, em intima alegria, quanto o pungia essa
noticia, voltou-lhe costas e foi-se.

Quando ao jantar, Maria lhe tomou a beno, estremeceu Martinho
Vasques. Crera-a mimosa, votra-lhe certa affeio, embora o seu
genio scco no o deixasse transparecer.

Ante o seu ar alegre, de desafio, no se atreveu a censural-a, e
durante o jantar no se trocou palavra a respeito da vespera.

Saram as mulheres aps as graas a Deus, e ficcou o morgado,
meditando e bebendo, at  chegada de fr. Angelico.

No libaram n'esse dia.

Tomando a serio o papel de dono de casa, de senhor absoluto,
desfechou-lhe o morgado,  queima roupa, a ordem de fazer contas ao
jardineiro, e de o pr fra immediatamente:

--No lhe consinta lamurias nem alcovitices.

Partiu o frade, humilhado da seccura e passando pelo escriptorio para
levar a pataca do mez, foi procurar mestre Jacintho ao casinhoto.

Voltou  adega o morgado, encarando com mais clareza a situao. Livre
do veterano, no poderia a filha corresponder-se com Joo, e
esquecer-lhe-ia a perrice.

E na primeira aberta que lhe permittissem as questes da ilha, toca
para Lisboa!

Tencionava o frade descarregar no velho o despeito pelo tom imperioso
do fidalgo, quando o viu sar, muito escovada a antiga farda; posto 
banda o bon, n'uma reminiscencia da passada elegancia; cala de
linho, de pastor, de onde rompiam, pesados e bolorentos, os butes do
uniforme; saco de chita debaixo do brao; cacetinho na mo.

Disse-lhe n'um amargo sorriso:

--Bem v que j estava em ordem de marcha. Ao que houve, no contava
com outra coisa.

Olhou em torno, e como no visse o fidalgo:

--Admira-me que o senhor morgado no venha pr-se a arrotar contra
mim.

E n'um risinho de triumpho:

--Tem mdo c do ginja! Pois no lhe comia nenhum bocado. Palavra que
tenho pena, queria dizer-lhe duas verdades. E d'ahi, no. Aquillo no
tem emenda.  falar s paredes.

Ouvia-se rir, ao longe, Maria com a prima Josepha da Esperana.

-- aquella sim, tenho pena! Andei com ella s cavallotas, quando me
saltava nos canteiros atraz das borboletas, estragando-me as flres, a
traquinas.

Abrangeu a casa e a quinta n'um olhar de saudade:

--C fica, a pobre, para ter a sorte da me! Mas ella, que ri tanto,
 porque no tem mdo das parlapatices d'aquella ba alma do pae. Faz
bem rir,  uma creana!

E dando uma palmada irrespeitosa no ventre de fr. Angelico:

--Por mais ameaas que lhe faa, ha de o morgado ir adiante d'ella, 
lei do mundo! Por mais intrigas que forge vossa reverendissima, tambem
ir comer hervas pela raiz, e ella ha de c ficar, e gostar de quem
lhe der na veneta. At eu, que no sou nenhum rato de sacristia, hei
de ir  missa de costas, e ella ainda estar em edade de casar com o
menino Joo.

--Vocemec nada mais tem que fazer aqui. Est pago e satisfeito...

--Pe-me na rua? No quer que me despea da D. Mariquinhas? Pois 
melhor para me no saltarem as lagrimas, e vossa reverendissima no se
rir depois  minha custa, quando fr  lambujem do alambique.

--Avie-se, que eu tenho mais que fazer.

--Pois v-se embora, que no lhe pego. Ah! Fica de sentinella a mim!
Quem tal havia de dizer! Fr. Angelico da Immaculada Conceio de Maria
a governar esta casa! Olhe que eu nunca lhe gosei da carantonha, e
agora comprehendo que vocemec, e os outros da sucia, como os
mosquitos de roda do vinho bom, andam  espreita das casas ricas, para
apanharem freiras com bons dotes, e quintas onde se refocillem. Mas
esta no apanham, juro-lh'o eu, porque a minha menina no  para
graas. No vae com cantigas. Aquella ha de fazer sempre o que muito
bem quizer, que a isso a costumaram desde pequena. Era o nosso
Sant'antoninho, onde te porei!

Limpou uma lagrima ao canho vermelho da jaleca, e virou-se contra o
frade, que j no estava nada satisfeito:

--Ha de se lhe acabar o governo aqui dentro, como j se lhe acabou l
fra!

Deu alguns passos para a porta, mas ainda se voltou para traz:

--Vou para o castello. Ho de precisar l de soldados velhos para
ensinar a recruta  galuchada.

Passou o postigo que o frade lhe fechou nas costas, de pancada, indo
depois vigial-o para o alpendre.

Voltara-se mestre Jacintho ao estoiro, e no poude represar as
lagrimas vendo-se expulso d'essa casa, que considerava como a sua.

Deu alguns passos, vergado ao peso do saco, penosamente apoiado ao
bordo, mas tirara-lhe as pernas a sensibilidade e veiu sentar-se na
banqueta, a refazer-se.

Descendo para as bandas de S. Jorge, illuminava o sol as vidraas dos
quarteis da fortaleza.

Abrangeu o velho toda a cortina que vem da bateria de So Diogo,
cintando  beira-mar o Monte Brasil, varejando a bahia do Fanal;
depois os grandes pannos da muralha do Caminho Novo, o torreo e a
ponte levadia.

Estava agora ali dentro Joo, o seu derradeiro affecto, e a velha
espingarda com que fizera a campanha, e que tanto chorara ao abandonar
ao quarteleiro.

Tinha a proteger essa creana, a reivindicar essa arma, a punir os
aggravos do morgado e do frade.

Meteu-o em brios o espirito da classe. Ergueu-se, poz o saco no poial,
abaixou-se-lhe, passou os cordes aos hombros e atou-os atraz das
costas,  laia de mochila. Levantou-se com elle e o peso, puxando-o
para traz, fez lhe perder a curvatura senil.

Deu uns passos amparando-se ao bordo, mas desempenou-o o automatismo
profissional. Pl-o ao hombro  guisa de espingarda, deu a si proprio
uma voz de commando:

--Ordinario, marche!

E a passo cadenciado avanou estrada fra, rejuvenescido pela
esperana.




VII


Na melancholia do entardecer, em que as trindades pem o echo de um
soluo, impregnado da tristeza do esmorecer do sol, fitava Joo o
mirante da quinta, quasi totalmente esbatido na folhagem dos pomares.

Representava-se-lhe a scena da emboscada, revia-se na galharda atitude
em que provocra os adversarios, baioneta em punho; fixra na retina o
rosto transformado de Maria, a ardencia refulgindo-lhe no olhar; e
vibrava-lhe ainda nos ouvidos a commoo dos gritos afflictivos.

Amava-o! Denunciara-a a surpreza.

Se estivesse contra elle, riria ao vl-o corrido pelos ces, ou
ter-se-ia retirado indignada pela sua audacia.

Mas no! Manifestra-se claramente a seu favr, e s  fora deixra o
torreo.

Amava-o pois! Era o essencial.

Sempre contra como hostil o pae. Haviam de vencer com persistencia,
confiando um no outro, certos da mutua fidelidade. E, to novos,
pertencia-lhes o futuro.

Como haviam de entender-se? Precisavam apoiar-se, trocar esperanas,
animar-se na penosa separao.

Iria pela quinta a cavallo, para vr para dentro, onde o muro era mais
baixo, e poder resistir melhor s ciladas. Levaria pistolas nos
coldres, e ai de quem se lhe atrevesse!

Turbavam-o impetos de vingana, deslumbramentos de sangue, ferido pelo
insulto.

Como concretizar a desforra?

Indicavam os preparativos que era esperado. Mas quem o denuncira?

Ao lusco-fusco assoprou a creada o borralho para o corno da isca,
accendeu a candeia da cozinha, e foi levar-lhe, com as bas noites, o
candieiro de lato de tres bicos, e a branda luz do azeite alagou o
polido do bufete, projectada pelo reflector.

Illuminado o quarto, deixou de vr na penumbra o tenue esboo dos
Folhadaes, mas quedou-se no mesmo sitio, esperando que o pontear de
luzes lhe fsse dando referencias para o reencontrar.

Gritou lhe de baixo a tia Dorotheia:

--Ahi vae uma visita.

Descontente por irem perturbal-o, no acertava com quem fsse, nem
conhecia os passos pesados, vagarosos e tropegos, subindo para a
torre.

--D licena, camarada?--disseram da porta.

Era a voz do veterano, rouca da bronchite chronica adquirida nas
noites ao relento.

--Vocemec por aqui, mestre Jacintho?

E mandou-o sentar, no alvoroo de noticias.

--Como tem passado? Como vae a menina Mariquinhas?

Acanhou-se, sob o olhar magano do velho.

--No se faa vermelho, senhor Joosinho.

E batendo palmadas nos joelhos:

--Ento logo a uma morgada, hein? Sim senhor, sim senhor!

Joo sentia o sangue rebentar-lhe pela cara, mas a anciedade
impelliu-o:

--Conte-me que se passou depois que a me a levou para dentro.

--Que se havia de passar? Mais era com ella!

--Reprehenderam-a?

--No  para graas, no tem mdo.

--Ento o morgado...

--Commigo, commigo  que foi o bom e o bonito!

--Coitado! Comprometter-se por minha causa.

--No me coite, que no me fui abaixo das pernas.

--Na sua edade!...

Ergueu-se o veterano, desvanecido pelo rasgo:

--Foi-se pr o morgado a crescer para mim, mas eu, como quem diz,
fingi que no era commigo, que aquillo no tem seno lingua, mas
tambem  como um lavadoiro!

--Perde-me ter sido a causa de tal desgosto.

--Espere, que elle no se foi sem resposta.

E possuindo-se da paixo com que falra:

--Disse-lhe tudo que me veiu  bcca, deitei-lhe  cara a negra
ingratido com que nos pagou termos-lhe salvo a pelle, eu e seu av; e
o matreiro embuchou e ficou-se a assoprar, a roer...

Joo pediu-lhe, compungido:

--No tome mais o meu partido, no se inquiete por mim...

--A bas horas. Hoje o intriguista do frade poz-me na rua.

--O qu? Pois est despedido?

--No se assuste, menino, no hei de morrer  mingua. Aveso algumas
patacas para po de milho, e n'aquelle castello cabe muita gente. J
l fui pr os trapicalhos e marcar poleiro.

--Tem a nossa casa, mestre Jacintho.

--Bem sei, mas obrigado. Se mesmo o menino  escolheu aquella, queria
que eu ficasse a rezar n'umas contas?

--Vocemec precisa de socego.

--Depois, depois. Agora ninguem  de mais ali dentro, que c por fra
os patifes so muitos.

--Desarrumar-se dos seus commodos por mr das minhas creancices!

--No se afflija, que eu por mim no tenho pena nenhuma. S me custa
no ter dado uma afogao em fr. Angelico, que me tratou como a um
negro.

Mostrava o punho cerrado:

--Mas no as perde. So favas contadas!

--Socegue, deixe-o l. Essa agitao faz-lhe mal.

--Hei de escalal-o, como a um chicharro, para lhe enforcar o Miguel
nas tripas.

E como Joo sorrisse:

--Ah! Sim? Pois elle chegou muito estugado  quinta antes do menino, e
no se me tira da cabea que foi armar a tratantada.

--Elle?

--Sim senhor. E depois vi arrebentar muito depressa pela porta fra
aquella cra de condemnado, com estes dois que a terra ha de comer.
Tenho para mim que ia com ella fisgada.

--No seria simples coincidencia?

-- m rez, como todo o homem que veste saias. Sucia de mandries!

--E Maria?

--No ha mal que lhe chegue.

--Viu-a hoje?

--O patife do frade no me deixou, e eu no teimei porque a ouvi rir a
bom rir.

--Pois ella estava alegre?

--Eu lhe conto. A senhora D. Perpetua foi muito prognostica dar-lhe o
recado do pae, que ao almoo esteve como uma bicha, ouvia-se-lhe ao
longe a prgao. Mas ella o caso que fez das prohibies foi
escapulir-se logo para a quinta. Rapariga de uma cana!

Reparou que Joo entristecera.

--No se me ponha a malucar, que se ella estava de risota com a
senhora D. Josepha da Esperana era decerto para no dar o brao a
torcer.

Depois de luctar comsigo mesmo, aventurou-se a perguntar:

--Manda-me dizer alguma coisa?

Riu-se muito Jacintho, meneou a cabea, e respondeu:

--Estou velho, mas no ando de capote e capello.

Arrependeu-se Joo:

--Desculpe, no foi por menos considerao.

--Desculpar o qu? Tivesse falado com ella, que eu mesmo lhe
perguntava se queria alguma coisa para o menino.

--Como lhe hei de agradecer tanta dedicao!

-- vicio velho em mim, no me caam os parentes em deshonra.

E vigiando que no fsse ouvido:

--J n'esse particular servi de muito ao seu avsinho.

Bateu-lhe familiarmente nas costas:

--Ainda assim, elle no comeou to cdo, verdade seja dita.

Desvaneceu-se o rapaz pela admirao implicita n'aquellas palavras, e
animou-se a aproveitar a ba vontade:

--Preciso falar-lhe, ou escrever-lhe, comprehende bem. Tenho muito que
lhe dizer, e quero saber o que ella pensa de mim.

--O que ahi vae, o que ahi vae.

--Aconselhe-me, mestre Jacintho. Como ha de ser?

--D tempo ao tempo!

--Hei de desamparal-a quando todos a ameaam?

--No tenha mdo, que aquillo  taboa que no joga. Teimosa! Que o
diga eu, que muito lhe soffri em mais pequena.

--Que quer dizer na sua?

--Espere, espere, que ha de chegar-lhe tempo para tudo.

--Esperar? Isso no. Quero entender me francamente com ella, por
palavra ou por escripto. E se me quizer como eu lhe quero, como hontem
me pareceu...

--Casa immediatamente, no  verdade?

-- claro.

Recreiou-se o veterano com a resposta:

--E havia de casar n'essa edade, com dezaseis annos?

--Que tem que vr a edade com o amr?

--Ora v-se crear, menino. Isso at lhe fazia mal  saude.

Crou Joo at s orelhas.

--No me fique amuado, que isto  brincar.

--Bem. Ento falemos a serio.

--No se zangue. Que geniosinho!

Joo fra respirar  janella, a cabea em fogo, e puzera-se a olhar ao
longe, na direco das raras luzes das casas de campo, em meio das
quaes reconhecia a d'ella.

Chegou o velho  janela, abrangendo n'um gesto a cidade e o castello:

--Sabe que mais? Ponhamos as coisas a direito, que ella lhe ha de ir
parar s mos.

--No pde ser. E d'aqui at l ha de ficar abandonada ao pae e  me,
sem contar commigo, sem me sentir a seu lado?

--Tem razo, nanja que eu lha tire. Mas deixe acabar a desconfiana do
morgado, que agora anda tudo de olho em cima d'ella...

--Ser assim, mas no posso esperar.

--Largos dias tem cem annos.

Entendeu Joo pr-lhe termo aos conselhos, e proceder por sua conta.

--Pois mestre Jacintho, muito obrigado pelo que por mim fez. E no o
incommodarei mais por esta causa, que agora j no  como no seu
tempo, que s pela altura dos trinta annos  que se julgava uma
senhora em edade casar. Agora vae tudo muito mais depressa. Se at ha
barcos que andam a fogo!

Queixou-se amargamente o veterano:

--Foi sempre assim. A mocidade no quer saber da velhice para cousa
nenhuma.

--No diga isso. Sabe como o estimo. S me refiro a estas coisas de
amr, de que mostra no perceber nada, pois quer que um namorado se
cale, depois de acontecimentos como os de hontem.

N'uma saudade do passado, da juventude, do amr, do prazer,
remoou-lhe o rosto engelhado:

--Isso  que percebo! L por me vr agora um velho, olhe que j
passei pela sua edade, e at fui de mama!  o que lhe digo, no se me
ponha a rir nas minhas barbas. No seu tempo, porm, ainda me
entretinha a deitar o pio, no sabia o que fosse o bicho mulher. Mais
tarde, sim; fui desempenado, bonitte, e antes de me darem as
bexigas, pellavam-se bas moas por mim. J v que percebo, e tive bom
mestre, ol se tive.

Aproximou-se muito o veterano, e num ar de confidencia, um sorriso
bonacheiro, disse-lhe baixinho:

--Lies de seu av, que foi das pontas! Elle atirava-se s patras, e
eu s creadas. Uma vez...

Mas arrependeu-se.

--Nada. Nada. Suas tias podem desconfiar de que estou para aqui a
perdel-o...

--Ellas no ouvem. Conte, conte.

--Uma vez que elle foi de castigo para a Graciosa ... No digo nada,
seno que muitos primos fidalgos tem por ahi, sem imaginar.

--Quem? Quem?

--Ora. Vo l saber.

Deliciava-se na evocao:

--S se atirava ao fino, o maroto. Deus lhe fale n'alma!

Entristeceu-o a ideia da morte, mas desanuviou-se rapidamente:

--O menino vae pelo mesmo caminho. Atirou-se logo a uma rica
herdeira...

--Oh! No julgue que foi por isso.

Continuou o velho, sem dar tento na interrupo:

--Fidalga como as melhores, bonita sem seno, os olhos de todos
n'aquelle palminho de cara, e o morgado crente de que nenhum a valia,
a ponto de a querer levar a um primo do reino.

--Fosse ella uma pobre de Christo, queria-lhe da mesma maneira,
acredite-me.

--Pois sim, pois sim; mas ella  o que eu disse, isso  que  a
verdade. Se fsse uma pobre sem eira, nem beira, nem ramo de figueira,
no lhe aulavam os ces. Tratavam logo de o encambulhar com ella ...
Agora sendo o que , no espere conseguir d'ali nada ao bem. Ha de ser
 m cara, e  se fr.

--Estou resolvido a tudo.

--No digo menos d'isso. Quem sae aos seus no degenera.

--Maria ha de ser minha mulher, ao bem ou ao mal!

--Que a coisa comea torta, bem vejo eu. O menino j tem chorado
lagrima gorda por causa d'ella. Mas no deve desanimar. A farda sempre
deu sorte em coisas de mulheres. L por ella ser morgada, no  mais
do que a imperatriz da Russia, que dava o cavaquinho pelo general
Gomes Freire, com quem andmos no Russilho. Pois eu no conheci um
corneta, um rapago como um turco, o menino bonito da rainha nossa
senhora que se perdia a ouvir-lhe repetir os toques? E no vieram
todos desvanecidos os soldados do dezaseis de infantaria de um
destacamento em Queluz quando a Senhora D. Carlota Joaquina estava
presa? At um granadeiro, alto como uma torre, valha a verdade, trazia
duas cartas de pessa de dentro!

E reparando na surpreza de Joo:

--O menino ficou vermelho como uma malagueta. Mas olhe que  tudo
verdade. Pergunte l no castello, que lh'o ho de trocar em miudos.

Concentrou-se Joo, e depois perguntou:

--Em resumo, mestre Jacintho. Est, ou no disposto a auxiliar-me?

--Com alma e vida.

--No podia esperar de si outra coisa. Muito obrigado. Agora diga-me
l, que lhe parece: devo procural-a ou escrever-lhe?

--Por emquanto no se podem levar as coisas s do cabo. O menino ainda
est com os dentes com que mamou, e j quer casar. Valha-o Deus!

--L volta aos gracejos.

--Mas no torno mais. Olhe, por agora basta que lhe escreva.

--Tambem me parece.

--Se a sua firmeza fr tal como diz, o tempo que levarem separados ha
de fazel-os quererem-se mais um ao outro.

--Juro-te que .

--Ninguem lucra mais com o seu casamento do que eu. Voltar aos meus
canteiros, ao meu buraquinho, fazer de enxota ces quando l fr fr.
Angelico ou os collegas, a vr se pilham alguma coisa.

--Como lhe hei de mandar a carta, sem a comprometter?

Meditou um pouco o soldado, e respondeu:

--O melhor, e o mais seguro de tudo,  falar  senhora D. Josepha. 
muito capaz d'isso, porque gosta muito do menino. At parecia uma gata
assanhada quando foi da patifaria do quinteiro, que por signal l anda
com a cabea amarrada, para no cair n'outra.

--E como ha de ser para lhe falar?

--Descance. Eu sei de uns atalhos, por entre as terras, que vo l
sair mesmo ao p do canavial ao fim do pomar.

--Tem a certeza de que no nos podem vr?

--Conto que no.

--Pois ento vamos l amanh mesmo, visto que no ha nada a receiar.

--Amanh? Deus te livre! Andam  espreita d'ella para ganharem o dce.
Davam-nos logo com o rasto, e o morgado mandava alevantar o muro.
Nada! Nada! Deixe ao meu cuidado saber o que se passa l dentro, e em
elles andando desprevenidos, damos-lhe a saltada.

Joo, por fim, rendeu-se  evidencia:

--Pois seja assim. Mas v l o que promettes.

--Descance, que no me esquecerei. No tenho menos vontade n'isso,
creia, para o vr feliz, e para ajustar as minhas contas. Onde se
fazem, l se pagam. Ali aonde me desfeitearam  que quero entrar de
cabea levantada, a deitar foguetes, no dia do casamento.

--Oxal!

--E com esta me vou, senhor Joosinho.

J de p, sacou do mlhinho de folhas de milho, das mais tenues
camisas que na sca protegem o gro tenro, leitoso; alisou-a com a
navalha, acamou-lhe o picado de tabaco negro, da terra, accendeu ao
candieiro o cigarro grosso e despediu-se:

--Com bem passe.

Ainda Joo tentou retel-o:

--Porque no quer ficar? A casa  grande, cabemos todos.

--Obrigado, menino. Ali  que  o meu poiso. Antes eu de l nunca
houvesse sado, para ver o que tenho visto.

E j na escada recommendou ainda, muito baixinho, o dedo na bocca:

--Deixe esquecer a coisa por estes dias, olhe que o morgado anda com a
pedra no sapato.

       *       *       *       *       *

Ao ficar s, sentou-se ao bufete e poz-se a escrever. No se recusaria
D. Josepha a pl-os em relaes.

Acceitava esse alvitre do velho, mas l deixar de vl-a, isso  que
no.

Perguntava-lhe a melhor maneira de o fazerem, e se mestre Jacintho no
accedesse, iria ssinho.

Com espanto, sentiu perdida, ao escrever-lhe, a timidez em que s por
meias palavras se lhe declarra. Enthusiasmava-se como se a tivesse
diante de si, mas dirigia-se-lhe em termos que, face a face, nunca
arriscaria.

Era o seu primeiro amor. Sentira bem como  ameaa de um ciume, ao
receiar que a entregassem a outro homem, a amisade de irmos se
transformra na paixo em que esquecera a sua inferioridade ante a
riqueza e a nobreza da mulher para quem se atrevera a levantar os
olhos. Mas n'estes tempos de liberdade podia aspirar a ella, erguer-se
at  sua grandeza, porque d'ora vante as posies, os cargos, a
considerao publica ganhar-se-iam com o trabalho, no se obteriam s
por herana.

E n'uma grande ternura comparava o viver de ambos, to semelhante;
elle sem pae nem me, ella como se os no tivesse, isolada no ermo
casaro onde pairava a sombra da tristeza.

       *       *       *       *       *

Restituiu essa carta a Maria a tranquillidade que lhe roubra o
conflicto, e quando esperava alegremente a prima, e se perdia com ella
pela quinta, nas travessuras de outros tempos, chegava o pae a
suspeitar que recebesse noticias d'elle.

No desconfiava, porm, de D. Josepha da Esperana, e toda a
vigilancia era na porta e nos muros, receiando temeridades do veterano
ou algum arrojo de Joo.

Tendo como militares garantida a impunidade, cria-os capazes de irem
l, com algum bando de camaradas, a desforrarem-se da cilada da sua
gente.

Passaram-se dias, e parecia completamente esquecido o caso. Era,
porm, caprichosa de mais a filha para no querer, ao menos por
despeito, entender-se com Joo.

No seu tempo j teria liquidado tudo  valentona. Hoje usava-se de
astucia, e n'esse terreno reconhecia-se inhabil.

Eram assumptos mais para fr. Angelico, manhoso como frade, batido em
argucias de confessor habituado a lr no intimo das almas.

Deixra de apparecer, e fazia lhe falta. Offendera-o a sua
sobranceria. Puzera-se nas suas tamanquinhas, e mandar chamal-o era
uma satisfao. Mas antes dar o brao a torcer, que deixar fazer o
ninho atraz da orelha. S o frade seria capaz de desenredar a meada, e
de trazer Maria a bom caminho.

       *       *       *       *       *

Resfolegou triumphante fr. Angelico ao receber o recado do morgado.

Dar-lhe ordens como a um feitor? Era l coisa que lhe permittisse?
Agora o passado, passado; mas faria render a reconciliao. No
voltaria da quinta sem grosso donativo a pretexto do levantamento de
guerrilhas; sem algumas das peas que D. Perpetua, na inteno de
salvar a alma, forrava, em demencias de usura, s despezas da casa, e
escondia no colcho.

Servia-lhe de pretexto a atitude do fidalgo para acabar com a
intimidade da dona da casa. Fatigava-o j a paixo senil a que ella se
apegra durante vinte annos, desde que succedera na capellania da casa
ao seu mestre, de quem decerto herdra a affectuosidade da morgada, a
sua predileco pelo lubrico contacto do aspero burel.

Parecendo-lhe nos primeiros tempos uma antecipao do paraiso,
tornra-se depois o automatismo de um habito, e liquidra por fim nas
repugnancias da obrigao.

Ia todos os dias a creada saber da saude de sua reverendissima e
falava-lhe da afflico da senhora, to sequiosa das suas bemfeitorias
espirituaes.

Mostrava-se elle theatralmente, no seu palco, ao fundo do sanctuario
onde se armazenavam as imagens sem capella propria, cujos olhos de
vidro brilhavam nas meias tintas do escuro armazem.

Os grandes ps descalos no lagedo, sem habito, a camisa desabotoada,
empunhando disciplinas de grossa corda e ns nas pontas, simulava fr.
Angelico o soffrimento de terriveis expiaes.

Respondia n'uma voz sumida:

--Diga a sua ama a grande penitencia que estou cumprindo, a po e
agua. Que rese por este pobre peccador, para que lhe sejam perdoadas
as fraquezas.

Regressou um dia a creada com a nova de que reappareceria o frade
chamado do senhor; e D. Perpetua no desamparou o mirante e a varanda,
passeando inquieta, aconchegando ao peito o embrulhinho com que faria
esquecer ao penitente as vises do inferno.

Mal transpuzra a porta da saleta, puxou-o para um canto, e meteu-lhe
na mo o saquinho de sda carmezim, onde elle pelo tacto reconhecia as
peas de oiro.

--Angelicosinho da minha alma, para que me deixaste, ingrato? Que mal
te fez a tua Perpetua?

Elle simulava um terror sagrado:

--Deixa-me, filha, tenho esta alma mais negra que um tio. J estou a
arder nas penas do inferno, sinto o fogo aqui dentro.

E comprimia o estomago, onde as penosas digestes de toucinho e
presunto, servido em grandes postas no refeitorio, fermentavam em
dolorosas azias, que afogava a ba aguardente do fidalgo.

-- assim que me pagas os sacrificios que tenho feito por ti? So
desculpas como das outras vezes. Nova confessada, descarado. Ha de ser
a tal Joaquinina do , de quem me chegaram uns zum-zuns.

Elle erguia o olhar ao tecto, n'um ar compungido:

--Ai filha, que perdeste a minha rica alminha! E no ha remisso para
o peccado da carne, de si mesmo mortal, aggravado ainda em cima com o
disfarce de coisas de religio.

Forcejava por desprender-se:

--Nunca mais! Acabou-se!

Perpetua agarrou-o na angustia do desamparo. Ia-se com elle o ultimo
vislumbre de mocidade, o sonho em que se emancipava da trivialidade do
seu viver. Era a morte aquelle rompimento!

N'um desespero articulou surdamente:

--Assim  que se perde a minha alma!

--Tem paciencia, irm. Procura a consolao espiritual na penitencia.
Vers como  bom, que gosos celestiaes do os cilicios e as
disciplinas. Pede  Senhora da Rocha que te ajude a conformar. Tem
dado vista aos cegos e movimento aos paralyticos, far o milagre de
te dar resignao.

E aproveitando o desanimo em que ella se amparava ao archibanco,
enfiou pelo corredor em demanda de Martinho.

Lavando na aguardente o mau sabr dos beios de D. Perpetua,
desculpou-se fr. Angelico da Immaculada Conceio de Maria com a
doena, que o impedira de ir receber as ordens do seu bemfeitor.

E emquanto passavam da casa de jantar  adega, sumindo-se um atraz do
outro pelo alapo, ia o frade lamentando a incredulidade dos tempos,
e a audacia do governo provisorio.

Assentado no tampo do barril, o dorso apoiado s frescas aduelas das
pipas cheias, emquanto l fra escaldava o sol, desabafava o morgado,
sentindo-se sem testemunhas:

--Estou muito isolado, fr. Angelico, desconfio de todos. Hoje s conto
com a sua amisade sincera e desinteressada.

Agarrou logo o frade a occasio, que vinha preparando:

--E desinteressada, senhor Martinho Vasques! Permitta-me v. ex.{a} que
accentue essa palavra, ao ser forado a appellar mais uma vez para a
sua inexgotavel caridade, para a sua nunca desmentida dedicao ao
throno e ao altar!

Simulava no reparar nos gestos de contrariedade do morgado:

--N'estes perversos tempos retraem-se os donativos, e o nosso convento
quasi no tem para a sua pobre meza. Peo, pois, uma esmolinha para os
frades de So Francisco, certo de que no recorro em vo  boa e
generosa alma de v. ex.{a}

Tartamudeou o morgado:

--manh, manh...

Continuava, porm, infatigavel o frade:

--Tudo se prepara para nos vermos livres d'essa liberdade de m morte.
Apparecero guerrilhas no concelho da Praia, para restabelecerem os
inauferiveis direitos do nosso legitimo rei, e auxiliarem o
desembarque da esquadra que se espera a todo o momento. Ha muitos
fieis alistados, mas faltam armas e polvora. Todos os defensores da
ordem tem auxiliado a boa causa. Espera-se que v. ex.{a} no deixe de
concorrer...

--manh, manh...

-- de tamanha urgencia...

--Bem sabe o costume. S mexo em dinheiro antes do jantar. E cada vez
me sinto peior para contractos, porque o desgosto de minha filha
poz-me muito fraca esta pobre cabea.

--Isto no  negocio, senhor D. Martinho, ou antes, grande negocio 
que elle . Quem d aos pobres empresta a Deus, recebendo-se no ceu o
principal e os juros. Emquanto  esmola para meus irmos em Christo.
Que do auxilio aos partidarios do senhor D. Miguel tira logo v. ex.{a}
o lucro, em no ter a sua casa ameaada de confiscos...

Tocado na corda sensivel, sobresaltou-se o morgado:

--E elles iro de vez a terra?

--Quem o pde duvidar? Em todo o Portugal governa sua magestade. Falta
s este palmo de terra, por vergonha de todos ns! D-se a mo aos que
vem pelo mar, e acaba-se com elles n'um instante.

--Deus o permitta, que no posso ir descanado para Lisboa deixando-os
em cima. So capazes de me darem cabo de tudo.

--Haja com que comprar espingardas, polvora e bala, e nem tero tempo
de dizer Jesus! Com quanto pde concorrer v. ex.{a}?

--J lhe disse que manh. Venha jantar, e antes de nos sentarmos 
meza...

--Muito obrigado, senhor Martinho Vasques. Vou j annunciar o valioso
auxilio de v. ex.{a} aos amigos da religio.

--Preciso-o c, e at o tomaria para sempre como commensal, para
alivio da sua pobre meza, se lh'o consentissem os seus labores.

--Que honra, senhor morgado.

--E sabe porque? Preciso da sua influencia junto de minha filha. Se
podesse ganhar n'ella o ascendente que tem em minha mulher...

--Quizesse-o ella--respondeu o frade n'um suspiro--e eu seria o mais
feliz dos homens!

Continuou n'um arroubo ascetico:

--Trazel-a ao bom caminho! Afastal-a d'esses herejes que lhe ho-de
perder a alma!

--Era isso mesmo que queria que lhe dissesse, porque eu no sou capaz
de a levar ao bem, e no usarei da fora seno na ultima extremidade.
Faa o possivel por demovel-a, fr. Angelico.

E n'uma ameaa, para o lado do pomar, onde a sabia em colloquio com a
prima:

--Mas ai d'ella se no obedecer!




VIII


--Alviaras, senhor morgado, alviaras! Deus amerceiou-se de ns, e
deu por terminada a expiao com que quiz provar os seus servos!

Olhou-o um tanto desconfiado Martinho, pela falta de fundamento de
semelhantes boatos.

Mas o frade confirmou, enthusiasmado:

--Victoria! Victoria! E graas sejam dadas ao ceu!

-- ento verdade o que para ahi dizem?

--Esto reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados
por Joo Moniz Crte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de
outras freguesias, e vo acclamar el-rei na villa da Praia, e
facilitar ali o desembarque  esquadra do senhor D. Miguel, que sau
contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra!

--E a tropa que marchou hontem contra elles?

--Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram
derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados
liberaes. Que vergonha para esses fanfarres!

--E que vergonha para mim, fr. Angelico--exclamou o morgado, n'um
impeto guerreiro.--Devia estar ao lado d'elles, como me impe o nome,
a linhagem, o servio do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se
dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles.

--No posso, senhor Martinho Vasques; a minha misso  toda de paz!

--Sei de muitos frades que se teem batido pela ba causa.

--Sempre houve meus irmos em Christo que usassem a cruz e a espada.
Eu porm sou mais destro no manejo das armas espirituaes...

--Pois irei eu s. No quero que notem a minha falta...

--Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias que tanto o tem
impossibilitado. O melhor servio que pde prestar ao senhor D. Miguel
 dar mais alguma quantia...

--Tem razo, estou j muito velho para essas danas--concordou o
morgado, procurando eximir-se  nova contribuio.

--Ser tido na devida conta o seu soccorro, e Deus reconhecer n'elle
a sua ba vontade.

--Se venceram, como diz, para que precisam elles mais dinheiro?

--Sempre so mil e quinhentas bcas a comer...

--Tomem  fora o que precisarem, como fizmos no Roussillon.

--No diria o mesmo V. Ex.{a} se esses valentes realistas andassem c
pelas visinhanas.

--Tem razo, tem. Mas que isto se decida por uma vez. Acabe-se com a
choldra, para que eu possa embarcar descansado.

--Ainda persiste em ir para Lisboa?

--E conto que vossa reverendissima prepare o espirito de minha filha,
para que de todo esquea esse disparatado namorico, e se disponha a
desposar o primo D. Luiz de Sousa, que dar  minha casa a to
desejada successo.

--Perde V. Ex.{a} a minha extranheza. Depois do que se tem passado
ainda pensa em to honrosa alliana?

--E porque no?

--Pde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa
peccaminosa aventura...

--Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance
d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por
ventura alguma coisa?

--Sei o bastante, senhor morgado. Elle  um perverso, um hereje, um
liberal; em concluso: um depravado capaz de tudo.

--Mas minha filha  uma fidalga, e as fidalgas esto muito acima
d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa.

--Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, -me
permitido manifestar as indicaes que faz o Creador s creaturas
servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei
que uma voz occulta brada em meu peito: Quero-a para mim! Quero-a
para mim! Significa isto que est indicada a clausura como penitencia
da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes que se
arrojaram a cubiar os bens de V. Ex.{a} para as suas obras de Satanaz.

--Se fsse uma filha segunda j l estava. Mas  uma morgada, no a
hei de meter freira.

--No digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que
a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como
resposta  seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a
vocao, ver-se-ia. A verdade  que fazendo-a passar pelo claustro,
ficava quite V. Ex.{a} para com seu genro. Creio que a senhora D. Maria
s foi attingida na sua ba fama. De mais graves estragos, porm, tem
ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou
isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos.

Meditou um pouco o morgado, e respondeu:

--No posso deshabituar-me da ideia de que hei de vr um neto varo,
j que Deus no me deixou vingar um filho, que succedesse no meu
appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, no tenha receio. Minha
filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficar bem. O primo,
que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande
nome, ter toda a conveniencia em no dar ouvidos s intrigas.

--E a senhora D. Maria querer casar com elle?

--Cumprir o que lhe ordenar, como deve.

--Assim  em theoria, meu senhor, mas lembro que n'estes malditos
tempos nem fica incolume a propria obediencia filial. Foram por certo
os conselhos d'esse perverso que a fizeram m filha, como a ho-de
fazer m esposa.

--Entregue-a eu ao marido, e o mais  com elle. Bem sabe a fama de
leviandade que minha mulher teve, e a seriedade com que tem procedido
desde casada. Feche-a, como eu fao, tire-lhe as occasies, e ser
esposa exemplar como as outras.

--Como a senhora D. Perpetua--exclamou fr. Angelico, pondo a mo no
peito--apesar das ms linguas a quem irrita o exemplo da virtude! Que
at em demasia pratca a minha senhora os seus deveres religiosos.
Appelle V. Ex.{a} para a sua autoridade de marido, e faa-a limitar a
frequencia ao tribunal da penitencia. Ella  insaciavel de
mortificaes, e receio que acabe por lhe fazer mal. Imponha-lhe
parcimonia, porque o meu ministerio no  o mais proprio para a
arrancar a excessos de devoo.

--No se lhe preste vossa reverendissima s rabujices de beata. Agora
todo o seu tempo ser para corrigir minha filha. Sou o primeiro a
sentir a sua desobediencia e a reconhecer a culpa que n'ella tenho,
pelo mimo de que a rodeei. Por isso recorro s suas luzes. Repita-lhe
as confisses, meta-lhe medo com o inferno e fale-me,  meza, dos
sacrilegios d'esses patifes.

--Cumprirei a minha misso de pastor, chamando ao redil a desgarrada
ovelha ... Mas o mais seguro de tudo  a caa aos lobos.  preciso
offerecer a esta nossa terra o espectaculo do desaggravo da religio e
de el-rei, encher as casamatas do castello e dar que fazer  forca!

--Sim, diz bem.

--Pois lembre-se V. Ex.{a} dos nossos amigos que j comearam a batida.

Receioso da incerteza dos tempos, precavia-se d'essa frma fr.
Angelico, enchendo o seu p de meia antes que o morgado abalasse para
Lisboa.

Deu-lhe Martinho, voltando a cara, novo saquitel de dinheiro, fechando
cuidadosamente o contador e, sem mais palavras, foram para a meza.

Tirou o morgado o vinho, examinaram-o, provaram-o e aguardaram o
comer.

Para affligir Maria, repetiu o frade ao jantar as noticias da revolta
miguelista, dirigindo-se a D. Perpetua, grande partidaria de Carlota
Joaquina, hostil aos liberaes pelo seu odio aos conventos.

--Pois minha querida senhora D. Perpetua, vae V. Ex.{a} sentir
desafogada a sua alma pela grande desafronta que na nossa terra vae
haver. Teremos carne fresca, salutares espectaculos a este povo to
offendido, e estou certo que o senhor morgado no deixar de mandar
pr o seu carroo para dar s festas o prestigio da sua presena, e 
menina Mariquinhas, como  de lei, a lio do castigo dos criminosos.

Muito nervosa, cravou Maria os olhos no prato, no respondeu s
solicitaes directas do frade, e sempre conseguiu reprimir os impetos
de o descompr.

Impacientava-a a demora d'esse jantar interminavel.

Aterrada pelo perigo de vida em que se encontravam os constitucionaes,
anciava vr Josepha da Esperana que lhe devia contar a verdade.

Procurava convencer-se de que eram tudo exageros do frade, encommenda
do pae para a fazer abandonar Joo.

Contava agora fr. Angelico os desacatos dos liberaes, o desabafo do
povo de Lisboa em 1820, invadindo o palacio da inquisio, e
despedaando a estatua da F, da frontaria; e as invenes fradescas
de Christos servindo de alvo, de imagens arrastadas pelos cabellos em
procisses maonicas.

Assustavam esses horrores a inconsciente credulidade de Maria, e
quando o frade lhe falou do milagre de Setubal, dois anjos a cavallo
n'uma nuvem, com a legenda de vivas a D. Miguel, temeu viver em
peccado mortal pela affeio votada a um adepto de Satanaz.

Mas chocava-a a inverosimilhana de que esse pobre rapazinho, to
meigo, to ingenuo, to respeitador, bebesse vinho por caveiras, e
escarrasse nas cruzes, como o frade ia insinuando, cada vez mais
excitado pelo verdelho.

Mal se levantou a me, ergueu-se logo, e foi para o mirante esperar a
prima, deixando o frade no relato dos castigos celestes, provocados
pelo peccado da liberdade, os tremores de terra, as perdas de
colheitas, a febre amarela que flagellra a Hespanha por causa das
suas crtes constitucionaes.

Confirmou-lhe Josepha a appario da guerrilha, e a derrota dos dois
destacamentos, mas tranquillisou-a, que aquillo no tinha importancia
nenhuma.

Fra pedir-lhe Joo que a animasse.

N'essa mesma tarde estaria a revolta acabada, porque sara toda a
tropa do castello para ir afugentar os miguelistas.

--Por isso ouvi tantos toques de cornetas, que o vento estava de l.

--Passaram-me pela porta. Olha que ia bonito! Nunca vi tanta
soldadesca junta, carretas com peas, officiaes a cavallo, a musica a
tocar o hymno constitucional, a garotada danando  frente, e povo
como bichos atraz. Ao passar, o Joo abaixou-me a cabea...

--Pois elle tambem foi?

E Maria abraou-se  prima a chorar.

--Elle, Josepha, uma creana, metido n'isso por minha causa. Sim,
porque se no fosse dar lhe para gostar de mim, no tinha ido sentar
praa, no se via agora envolvido n'essas guerras, em risco de l
ficar.

--Ento, filha, aquillo no vale nada. Se tu visses como elle ia
contente, risonho! Parecia um passeio. Se prenderam as outras foras 
porque eram s de vinte homens, e foi cada qual por seu caminho.

--Mas ho de dar tiros, e se algum acerta n'elle?  capaz d'isso, que
eu sou muito desgraada, e nunca vae por diante aquillo a que quero
bem. Elle  as flores da minha estima, os canarios das minhas gaiolas.
Credo! Credo!

--Acredita que no tem perigo. O mestre Jacintho, que l ia sentado
n'uma carreta, porque percebe muito de peas, a rir-se como um
tolinho, disse ao meu creado que ao primeiro tiro fugiro como bando
de estorninhos.

--A minha desgraa, Josepha!--continuava Maria, inconsolavel-- como
se j o visse morto! Ao que eu ouvi a fr. Angelico, elles teem tudo
como feito, e j falam de enforcar os liberaes. No que se vae vr
aquelle pobrinho!

--Agora vejo que te esteve a meter mdo, o sujo. No sei o que me
contem, que no diga um dia ao tio porque vem elle aqui tanta vez, a
exercicios espirituaes. Mas se o maldito continua a fazer-te chorar,
ol se o desmascaro. Hypocrita!  tudo mentira, filha, acredita-me.

Maria encarou-a mais esperanada.

--Olha, se o visses, em vez de chorar, rias-te como eu me ri. Elle ia
de mochila, capote, bornal, correias por cima de correias, espingarda
ao hombro, to carregado de coisas que nem sei como se podia mecher.
Pois apezar d'isso andava to depressa que desapparecia. Os caadores
vo desesperados por causa dos paisanos lhe terem prendido os
camaradas. Olha que elles so soldados de fama! Onde chegam, vencem
tudo.

--Estou mais descanada por ir o mestre Jacintho, que ha de tomar
conta n'elle.

--Ora v l esse velhote, o que tem passado, as guerras em que entrou,
e como ahi est so e escorreito. Teu pae mesmo por l andou, o av do
Joo veiu morrer  sua cama, e quantos e quantos! At me parece que
elles inventam os perigos, para se darem ares, e que no fundo  tudo
uma santa historia.

--Deus te oia, Josepha!

--O que te posso dizer  que elles iam to assustados que encaravam
com todas as janelas. E que olhares, filha, parece que queimavam,
tanto calor me subia  cara! Era to bonito vl-os marchar, os
officiaes muito empertigados, a retorcerem o bigode, que se me foram
os olhos n'elles.

Desanuviou-a um pouco a vivacidade de Josepha:

--Ainda vens a namorar um militar.

--Cuidas que todas gostam de soldados, como tu?

Maria acabou por sorrir, e enxugou as ultimas lagrimas.

--Sabes quem  para ter d?--continuou Josepha.-- o primo Jorge. Anda
com os guerrilhas, o grande maluco. Foi-se-me mostrar, todo pimpo,
com uma aguilhada de carreiro para imitar o senhor D. Miguel. No que
elle se engana  que aqui os liberaes esto armados, e em Lisboa
andavam com as mos a abanar, por isso el-rei os perseguia a pampilho.
O que vale  que, como anda a cavallo, e ha-de ser dos primeiros a
fugir, antes que o apanhe alguma bala, pe-se a salvo.

--Que malditas questes!--suspirou Maria, tornando a
commover-se.--Succeda o que succeder, pelo menos uma de ns ha-de
chorar, se no chorarmos ambas.

--L d'elle vir corrido no me importa nada. At gosto, se queres que
te diga, porque o Joo deu-me volta ao miolo. Se isto  ser
constitucional e fica feio, no sei nem quero saber, mas l em querer
acabar com os conventos teem elles carradas de razo. Para que 
aquillo bom? Para fazer dces? Pois em nossa casa fazem-se muito
melhores, e no so lambidos por aquellas fufias, crdo, que at me
repugnam os seus beijos repenicados.

Por fim, ao despedirem-se, combinou Josepha como havia de dar-lhe
noticia certa do que se passasse. Mandaria pelo creado pedir-lhe
qualquer coisa, e isso seria o signal de que Joo estava inclume.

Ficando s, entregue ao seu desgosto, poz-se Maria a contemplar as
grandes serras do interior da ilha, a querer descortinar o que atraz
d'ellas se estava passando.

       *       *       *       *       *

Para alm das escuras cumeadas marchava Joo entre as cento e
cincoenta praas da columna, pensando amargamente na abominavel
escravido mental em que jazia o povo, a ponto de reunir-se em armas
hostilisando os libertadores.

Tinham que levar pela violencia os proprios a quem emancipavam,
erguendo-os  concepo de uma patria,  realisao de um pais
independente, entregando-lhes a posse dos seus destinos.

Eram forados a armarem-se de espingardas contra esses cujo
soffrimento interpretavam, emancipando o individuo, o trabalho, a
terra; abrangendo na mesma redempo o campons dobrado sobre a
enxada, o plebeu asphyxiado pelo preconceito do nascimento, a mulher
escravisada na clausura.

Reclamavam para si o logar a que lhes davam direito as faculdades
intellectuaes, mas no esqueciam o cavador, o pescador, o artifice,
formulando as reclamaes que elles eram incapazes de conceber,
analphabetos, desmoralisados por castigos corporaes, intimidados pelo
inferno, esperando apenas a felicidade depois de mortos a troco da
completa submisso.

Por si e por esses que pretendiam elevar pelo ensino obrigatorio, pela
suppresso do direito dos senhores ao producto do trabalho,
expropriaram as classes privilegiadas: funccionarios monopolisadores
das rendas publicas; desembargadores vendilhes da justia; militares
insaciaveis de promoo e de soldos; capites-mres que dispensavam de
soldado a troco da honra das mulheres, da virgindade das raparigas;
fidalgos possuidores da terra, do exclusivo dos altos cargos, do
privilegio da venda do vinho, dos moinhos, dos lagares de azeite, da
agua para regas, das pescas nos rios e no mar, das coutadas que por si
ss eram a ruina da agricultura; padres, frades e freiras que, como
proprietarios, usufruiam todos os privilegios da nobreza e exerciam a
maior industria, quasi a unica industria, a explorao da credulidade
publica, pesando terrivelmente, pelas communidades ricas e pelas
ordens mendicantes sobre todo o trabalho nacional.

E mais uma vez a inconsciencia dos opprimidos, guiada pelos semeadores
do mal, desejava-lhes a morte, e reclamava-a cantando, em cros de
vozes avinhadas:

                    Rebenta mao
                    Remoe liberal,
                    Livre  Portugal
                    Da constituio.

                Virgem da Ba Morte,
               Senhora dae-lhes consumo
               Para que os _pedreiros_ levem
               A volta que leva o fumo.

               A frca em bolandas
               Andando apressada
               Da atroz _pedreirada_
               Acabe as demandas.

Estavam convencidos os desgraados populares, arrancados  familia
para derramarem sangue pelos seus parasitas, de que se batiam pela
religio, de que, combatendo os soldados de D. Pedro, esse rei
estrangeiro, liberal e pedreiro livre, que declarra guerra a
Portugal, e lhe arrancra o Brasil, calcando aos ps emblemas
nacionaes, obedeciam aos designios de Deus, que mandara  terra o
archanjo S. Miguel, incarnado no infante, para restabelecer no seu
antigo explendor a f catholica.

Tinham-o ante os olhos, resplandecente, prestigioso, n'esses retratos
postos nos altares, como os de santos, ante os quaes se rezava e se
diziam missas; n'essas gravuras que o mostravam pujante de juventude,
na sympathia dos vinte annos, no vigor dos amplos gestos, na rijeza da
musculatura, largo de hombros, amplo arcaboio, expresso de firmeza
no rosto comprido e trigueiro, lampejos de energia no olhar vivo, a
figura dominadora a cavallo, chapo de dois bicos vistoso de
plumagens, esmaltado de crachs, espada em punho mandando avanar.

E murmuravam na unco de oraes, as cantigas em que elle apparecia
como representante do ceu:

          Senhora da Conceio
          Madrinha de D. Miguel.

          D. Miguel vae p'r' altar
          Com dois palmitos aos lados.

           Miguel anjo de paz
          Que Deus tem por general.

Chegra  villa da Praia, onde celebrou a acclamao de D. Miguel,
lavrando o respectivo auto na camara, a grande guerrilha que j reunia
cinco mil homens, mas retrocedeu ao Pico do Selleiro a esperar a
columna liberal, e ahi rompeu o combate, avanando os soldados em
atiradores at duzentos metros da elevao onde tomara posies.

Empallideceu Joo ao vr esses homens em attitude aggressiva,
apontando-lhe espingardas.

Jurra morrer pela liberdade, mas estremecia  ideia de ter de matar
em nome d'ella.

Para que a nova ideia triumphasse era preciso reduzir a um monto de
mortos e de feridos aquelles homens, seus patricios, seus irmos ante
a noo da fraternidade.

Era a ignorancia o seu unico crime, e por isso iam ser dizimados pelas
peas, pelas espingardas dos caadores, pela sua propria arma, que
d'essa frma ia estrear.

Mas se at para o bem d'elles era preciso!

E  voz de fogo, na passividade da disciplina que o tornava uma
simples pea d'essa machina de morte, poz a espingarda  cara e,
fechando os olhos, disparou.

Atordoou-o a descarga geral, a seca detonao da fuzilaria, o sonoro
estampido dos canhes e, cambaleante do coice, os olhos a arderem da
exploso da carga, a face magoada pela pancada da coronha, alagado em
suor frio, mais morto que vivo, sentiu-se agarrado pelo veterano que,
mal pudra, fra reunir-se a elle.

--Ento, menino, isto no vale nada! Anime-se, que at parece mal.
Est amarelo como um defunto!

--Ah! s tu, meu amigo!

Recobrando-se, explicou:

--O tiro rebentou-me mesmo na cara, ia-me deitando ao cho.

E segurou a espingarda pela bandoleira:

--Escalda, nem sei por onde lhe hei-de pegar.

--No tiveram tempo para lhe ensinar o officio. Pois bem fiz eu em vir
ser seu padrinho no baptismo de fogo, como seu av foi para mim. Olhe,
pegue-lhe por aqui, pelo delgado do fuste, agarre-a bem, no a
encoste  cara, e no lhe succede mal nenhum.

Emquanto lhe explicava os manejos d'arma, continuava o combate;
estremecia Joo ao vr car gente do seu lado, sem que parecesse
attingida, e baixava instinctivamente a cabea ao tiroteio do inimigo.

--Deixe-os l--continuou mestre Jacintho--estenderem-se no cho para
fazerem fogo deitado. No me faa cortesias, menino, que no serve de
nada, e olhe bem direito para a frente, se quer vr o enxame de moscas
azues e vermelhas que andam a zumbir por entre a gente.

Fez ajoelhar Joo, collocou-se ao lado, e poz-se tambem a fazer fogo.

--L vae uma para aquelle patife de desertor do Cinco, que por l anda
envergonhando a farda Pum! Prompto! Ah! J fostes escutar a
cavallaria? Ande com elles, Joosinho, aponte aos fardados, que so
quem nos faz mal, e nos mandam cada _ameixa_! A paizanada, estar ali
ou no estar,  tudo o mesmo. Mire os que andam a cavallo, que so os
chefes, e ferre-me com elles em terra.

Aqueceu Joo, enthusiasmou-se, agora carregava a arma febrilmente e,
to sereno como se no o visassem as duzentas espingardas da
guerrilha, apontava segundo as indicaes do veterano, e disparava, de
olhos bem abertos, observando se attingia o alvo.

--Agora sim! Est um homem, um bravo como seu av! Pode servir de
exemplo aos mais velhos! Vejam este camarada, rapazes, vocs que
andaram na guerra, mas que so galuchos  minha vista!

E abraou-o entre os applausos da sua esquadra.

--C o deixo, j no precisa de mim. Filho de peixe sabe nadar! Temos
homem para ir longe. E agora deixe-me chegar at s peas, a vr se me
deixam apontar uma  minha vontade, que j  tempo de varrer aquella
malta.

Partiu, fazendo-se muito baixinho, dobrado ao meio, descendo aos regos
do terreno para offerecer menos alvo, occultando-se com pedregulhos,
arvores, restos de paredes derrubadas, como soldado afeito  guerra.

E Joo continuou muito senhor de si, lembrando-se de que a illuso da
fraternidade perdera o governo constitucional, e depois a revoluo do
Porto.

S pela violencia se dissolveriam as castas; s pelas armas se
imporiam as medidas liberaes; nunca o progresso se realisaria sem
sangue!

Aps hora e meia de fogo, flanqueou uma fora liberal a posio
miguelista, e a guerrilha debandou ao vr despedaar pela metralha o
_caador_, do Porto Judeu.

--Victoria! Victoria!

E o veterano voltou a abraal-o, e pegou-lhe ao collo, como se fosse a
criana que amimra, envaidecendo-se do seu recruta, recordando
enternecido a bravura do seu antigo official.

Respirava Joo amplamente, na alegria dos vivas, no orgulho do
triumpho, e queria apparecer por encanto na quinta, mostrar a Maria
que ficra illeso, beijal-a, chorar e rir abraado a ella,
affirmar-lhe que estava salva a causa, garantida a ventura de ambos.

--Pois havemos de l ir, que o mereceu, galucho de uma cana! Que
sustos no tero pregado  pobre menina!

E a essa evocao do receio dos que ficaram, lembrou-se da afflio
das pobres tias, que tinham ido logo ajoelhar diante do oratorio, a
pedirem por elle s imagens da sua devoo: Santa Rita, dos
impossiveis; S. Jos, que tinha ao lado uma palma benta em dia de
Ramos, maior do que elle; o Christo de prata n'uma cruz de bano; um
corao com tampa de vidro, e dentro um menino entre flres; um outro
menino Jesus barrigudo, crado, vestido de boneca, com a bola do mundo
na mo; e ainda outro n'um bero cr de rosa, com uma almofadinha
bordada: menino Jesus nusinho para os beijos devotos, em que as beatas
bemdiziam a sua santa virilidade.

Na manh seguinte recebeu Maria o recado de Josepha. Mandava pedir
flres. E ao ir ao jardim dal-as ao creado, soube da bcca d'elle que
os liberaes tinham vencido facilmente; que Joo no soffrera nem uma
arranhadura, e que as flres eram para as visinhas deitarem por cima
dos soldados, que n'essa tarde entrariam triumphantes.

N'uma exploso de jubilo colheu quanto havia e ao deitar para o cesto
o pouco que lhe dava outubro: rosas do Japo vermelhas e brancas,
esporas de cavalleiro azul escuras, cheirosas baunilhas, a vermelha
flr do lao, a cora de rei azul-claro, misturadas com ramos de
alecrim, era como se das janellas tambem as atirasse para cima de
Joo, inebriada pela sua victoria.

Foi o jantar a antithese da vespera; desabafando o frade em
improperios contra os liberaes que vira passar ao som de repiques, com
ramos de louro nas espingardas, sob uma chuva de petalas, e Maria
finava-se de rir pela parte que tivera na festa.

Veiu  tarde Josepha da Esperana, e contou-lhe que o vira radiante.
Dissera-lhe at logo, e era capaz de apparecer.

Foram ambas, alvoroadas, esperal-o do lado da canada, aonde vinham
dar os atalhos.

       *       *       *       *       *

Mal debandou a fora no quartel, correu Joo a casa, a socegar as
velhas.

Ao vel-o a creada, a _tia_ Maria da Assumpo, persignou se de uma
maneira especial:

          Eu me benzo
          Co'o sangue de Christo
          Co'o o leite da Virgem
          Co'o a flr da luz
          Para sempre amen Jesus.

Foram mostrar-lhe a tia Dorotheia e a tia Pulcheria o oratorio a que
ardiam velas em promessa. Proclamavam o milagre, e esperavam que elle
se rendesse, cando de joelhos, agradecendo o dom do ceu. Mas s a
ellas se mostrou grato, beijando-as, tornando-se de novo a creancinha
em que no podiam adivinhar o rude soldado da vespera.

Debatiam-se agora as tres velhas n'um grave caso de consciencia.

Para que tinham forado ao milagre a senhora Santa Rita dos
Impossiveis? Fra um pedido sacrilego! Vinha Joo mais hereje do que
fra, sem sequer agradecer aos santinhos que se amerceiaram d'elle.
Salvando-o d'essa forma, talvez se tivessem perdido com elle!

       *       *       *       *       *

O mal disfarado riso com que Maria offendera  meza o seu despeito,
encolerizra o morgado e o frade.

A indifferena da vespera, a certeza com que ella n'esse dia se
mostrava ao facto da victoria, aggravou a Martinho as suspeitas de que
se correspondia com Joo.

E depois da indispensavel visita ao alambique, foram emboscar-se a
vigial-a.

Avistaram-os ellas, e reconheceram-se alvo da sua vigilancia, mas por
coisa alguma se resignava Maria a deixar de vr o namorado. Far-lhe-ia
signal para que no parasse, e defender-se-ia do pae mostrando-se
extranha a essa mera coincidencia.

Avistaram por fim ao longe o veterano e Joo, cosendo-se com as
paredes dos cerrados.

Ao reconhecel-os, quiz o morgado lanar-se n'um impeto, mas
conteve-lhe o frade o mau genio.

Esperava o momento compromettedor, em que a filha no podesse negar a
leviandade e, confundida, ao vr-se descoberta, pedisse perdo da
afronta, e se entregasse a um sincero arrependimento.

Cedeu no sem custo, e quando tornou a olhar por entre as faias, notou
com surpreza que j tinham desapparecido.

Percebendo os signaes para se afastarem, tinham os dois saltado 
canada.

Rente com o muro, correra Joo a atirar-lhe para cima, enrolado a uma
pedra, o bilhete que levava para a hypothese de no poder falar-lhe, e
indo ter com mestre Jacintho saram ao Caminho de Cima, por entre
quintas.

Desconfiados, precipitaram-se fr. Angelico e o morgado, ao tempo que
Maria devorava as quatro palavras de Joo.

--D-me essa carta, senhora!--bradou o frade, que chegra primeiro.

Sem responder, amarrotou o papel, e com elle fechado na mo,
voltou-lhe as costas n'um olhar de desprezo, e afastou-se de brao com
a prima.

Deteve-a o pae, exigindo-lhe o bilhete, que Josepha j occultra no
seio, e Maria respondeu que nada tinha.

--Vi-lh'a eu, senhor, a carta d'esse hereje, d'esse pedreiro livre,
que para deshonra de V. Ex.{a} perdeu a alma da senhora D. Maria!

E fr. Angelico apoiou a denuncia agarrando-lhe a mo em que a
amarrotra.

Soltou-se ella violentamente, e o frade, cambaleando com a sacudidela
de Maria e um indignado empurro de Josepha, cau contra um renque de
vasos, esfarrapando-se e partindo-os.

Ento o pae cresceu para ella:

--A menina estava esperando um homem, a quem eu repelli da minha
porta. Alm de me desobedecer, offendeu-me agora, resistindo a uma
ordem minha. Repare bem, sou eu quem lh'o exijo! D-me a carta.

--No tenho carta nenhuma, senhor. Deixe-me passar.

--Isso  que no. Iria escondel-a.

E detendo-a:

--D-me esse papel ao bem, ou arrepende-se!

--Senhor, j lhe disse que no tenho. E se tivese no devia dal-o, nem
o pae m'o devia pedir.

--Ah! No tem?  o que vamos vr.

E segurando-a, o morgado apalpou-lhe o corpete, rebuscou-lhe a
algibeira da saia, apertando-lhe brutalmente os pulsos emquanto ella
se debatia, e como tudo fosse inutil, atirou-a rudemente contra o
muro.

--A menina ha-de ficar sabendo que no se zomba d'um pae, e no se
emporcalha um nome fidalgo namorando soldados.

N'um choro convulso Maria bradava, cada na banqueta:

--O pae bateu-me! Mas foi a ultima vez. Est enganado commigo. No
quero ter a sorte da me!

E para Josepha da Esperana, que os dois levavam adiante de si,
tratando-a de encobridora, de enredeadeira:

--No me desampares, Josepha! Conta o que vistes, e no te esqueas de
que me bateram, e de que esse frade me magoou!  preciso que elle o
saiba!

       *       *       *       *       *

Tornara-se Joo tudo para ella!




IX


Bloqueado por temporaes de inverno, dias de chuva torrencial, grandes
frios, installra-se fr. Angelico da Immaculada Conceio de Maria na
quinta dos Folhadaes, mandando como senhor, dirigindo a casa, cujo
governo D. Perpetua abandonra, para se refugiar no quarto de Maria,
horrorisada por adivinhal-o catechizando creadas pelo escuro dos
grandes corredores.

Enclausurada voluntariamente com a filha, prohibida de sahir do
quarto, comiam ali ambas depois de prvia revista do morgado ou do
frade ao que recebiam, no fossem cartas escondidas.

S os dois homens pois iam  meza, e ali passavam quasi de uma 
outra refeio, no se decidindo a arrostar a frieza da adega, nem o
chavascal do campo.

Aparada em alguidares e em celhas pingava agua do tecto, alastrado de
bolr; pelas frinchas das janellas empenadas soprava um vento cortante
que os fazia tiritar sob os capotes.

Desforravam-se a bebericar aguardente, quando a criada foi annunciar o
senhor juiz corregedor.

--Justia em minha casa!--exclamou o morgado, pondo-se de p.

Chegou  janela e olhou para fra. No cessra de chover.

--Com um tempo d'estes! Deve ser coisa grave.

Voltou-se para o frade:

--Descobriria a alada que eu dei dinheiro para os guerrilhas?

Tranquillisou-o logo fr. Angelico:

--Quanto a isso descance v. ex.{a} No invoquei o seu nome, por causa
das secretas vinganas que os pedreiros livres costumam tirar de quem
os guerreia. Lembre-se dos lentes de Condeixa.

--Sim, sim, fez bem. M gente. Mas se no  por isso, que querem de
mim?

--O mesmo que pretendem dos outros. Intimidar os partidarios do
throno e do altar. E como as suas opinies so bem conhecidas...

--Mas eu nunca as manifestei, no saio de casa, no me saliento...

Voltou-se para a criada:

--Elle vem s?

--Saber v. ex.{a} que sim senhor.

--Se eu fugisse, fr. Angelico?

--No me parece que haja razo para isso.

-- exactamente por no saber o motivo que receio.

--Agora! Agora!--accudiu o frade, j desanuviado.--Imaginam que est
por ahi alguem escondido, e como andam  procura do Joo Moniz e do
Joaquim d'Almeida...

--Pois lembra bem, deve ser isso--concordou o morgado.--Que hei de
fazer n'esse caso?

--Recebel-o s bas, deixal-o dar busca  sua vontade, e ficaremos
livres d'elle.

--Pois hei de franquear-lhe minha casa?

--Que remedio, se pode entrar  fora. Esto de cima.  aguentar e
cara alegre, emquanto no chegam melhores dias.

--V ento recebel-o em meu nome, e desculpe-me. Diga que estou
doente.

--Eu, senhor! No sabe v. ex.{a} o odio que nos votam esses adeptos de
Satanaz! O pobre de mim at foi na lista que elles mandaram ao nosso
provincial, intimando-o a prohibir os franciscanos de defenderem a
causa do throno e do altar.

--No posso ver gente de justia, e demais a mais justia d'esta!

--Tenha paciencia, que nos havemos de vingar de tudo. V attendel-o v.
ex.{a}, ponha-se s bas, trate-o o melhor que puder, para no dar
logar a que exhorbite, e tenho para mim que o ha de confundir a sua
respeitabilidade. Eu ficarei rogando a Deus...

--Isso  que no. Ou me acompanha, ou no o recebo, e faa o que
melhor lhe parecer.

Olhou irritado para os campos innundados de agua:

--Tivesse c a gente de trabalho, e outro gallo lhe cantra. Mas
assim, no ha com que lhe dar uma lio, que elle com certeza no vem
s, nem com as mos a abanar.

E como visse retrahir-se o frade:

--Ande d'ahi, j lhe disse.

Apavorado, pediu fr. Angelico, de mos postas:

--S se v. ex.{a} me promette ser conciliador. Disse o Divino Mestre,
que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a
direita.

--Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos no!--respondeu
irritado Martinho.

--Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda.

--O melhor  falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas
permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro
que no me incommodem.

-- Deus que o illumina, senhor morgado. Assim ver que fica tudo em
bem.

--Mande-o entrar para a sala dos retratos--disse o morgado 
criada--pea desculpa da demora, e que j l vamos.

Estremeceu o frade de novo:

--Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o
esbirro j estar como uma bicha. Que carantonha que no vae fazer!

Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os
bofes, puchou os punhos de rendas, e lanou a fr. Angelico um olhar de
desdem:

--Voc j no conheceu o homem de crte. Pois fique sabendo que me vi
muita vez nos regios paos de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas.
Ver como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles esto de
cima, lhe farei sentir a differena que vae de um fidalgo a um
traficante de sentenas. Basta o logar onde o recebo para o
envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao
correr do pello...

--No me perca v. ex.{a}, por amor de Deus! Deixe-me ficar no meu
cantinho!

--No, que voc  manhoso como os que o so e, se eu me desmanchar,
meter a sua colherada. Beba uma pinga para cobrar animo, e vamos
dar-lhe uma lio mestra j que c veiu meter o nariz.

Tomou novo alento ao beber, o frade, mas ainda aconselhou:

--Lembre-se v. ex.{a} que os demonios teem o poder na mo, e por algum
tempo. Alm da victoria do Pico do Selleiro, ainda foi por elles o
temporal que destroou a esquadra de sua magestade, depois de tomar a
Madeira, quando vinha fazer o mesmo a esta desgraada terra. Primeiro
que se arme em Lisboa outra frota para vir at c ... No se esquea
v. ex.{a} d'isto. Agora so elles quem manda.

Ao entrar na sala, empertigou-se mais o morgado em respeito ao
scenario aonde ultimamente s raras vezes se mostrava, tlas
escurecidas pelo tempo destacando nas paredes caiadas, o cadeirado de
coiro e pregaria amarela, o grande buffete carregado de finos buzios
rosados, de amplas conchas de madreperola, os reposteiros vermelhos
onde pompeava o seu brazo, com longes de capoeira.

Saudou o juiz n'uma pirueta cortez:

--Desculpe v. s.{a} a involuntaria demora. A justia  como se entrasse
em minha casa el-rei, que vossa senhoria j representou, e em nome de
quem continuar um dia a exercer o mando, como  timbre de homens
d'ordem.

Mordeu os labios o magistrado ao tratamento e ao remoque, mas,
contando com peior acolhimento, saudou por sua vez o morgado:

--Est v. s.{a} em sua casa, e sou eu que tenho de escusar-me de o vir
incommodar.

Crou Martinho Vasques  falta de excellencia, e o frade, que o
percebeu, muito animado pelo tom ordeiro do juiz, interveiu:

--Permitta-me v. ex.{a}, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro,
que aponte a sua senhoria os achaques...

Mas o corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo
golpe  prosapia de fidalgo:

--No julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes
perturbaes fomentadas pelos mal intencionados que exploram as
disenes de irmos. Calcula decerto o grave motivo que me traz por
semelhante tempo...

Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo
a lio projectada, e forando um sorriso que o tornava mais feio,
respondeu:

--Quem no deve, no teme, e se eu tivesse que receiar das justias,
ou no estaria  merc d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada,
com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar.

Apontou para fra o juiz, n'um gesto amavel:

--Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brigo, o que,
para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me forou a vir
convenientemente acompanhado, no por causa de v. s.{a}, mas por via
d'elle.

Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo
uma priso. E a referencia  cilada fazia-lhe receiar que Joo ou o
veterano o tivessem denunciado como conspirador.

Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mdo, e o frade
adiantou-se, muito curvado:

--Perde v. ex.{a}, senhor corregedor, no lhe ter offerecido j alguma
coisa quente, uma chavena de caf, uma magnifica aguardente da lavra
do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira...

Sorriu muito lhano o magistrado:

--Lembrou bem vossa reverendissima, e acceito de ba vontade, com o
que provo os meus amigaveis intuitos.

Sau por um momento, muito lpido, o frade a dar ordens; e o morgado,
fazendo um exforo, recalcou as offensas, e submeteu-se ao receio da
escolta:

--Vejo que v. ex.{a} no me conhece, por attribuir  minha atitude
intuitos diversos da justificadissima surpreza...

--Oh! De modo algum.

--E como v. ex.{a} no  da ilha, permitta-me que me apresente,
fazendo-o tomar relaes com os meus antepassados, que no lhe podia
ter dado melhor companhia, pois no a ha mais escolhida n'esta terra,
nem l fra  frequente a que se lhe possa comparar.

--J os estive admirando assim que entrei, e conheo-os por tradico,
como conheo a v. ex.{a} mais do que imagina.

Envaideceu Martinho a homenagem do tratamento e, attribuindo-o ao
effeito d'essa berrante linhagem, insistiu no proposito de desenrolar
os pergaminhos.

--Perde-se a minha gerao na noite dos tempos, entroncando-se por
muitas vezes no ramo da dynastia, mas a mais proxima representante 
esta minha trisav, que morreu em Odivellas em cheiro de santidade.

Apontou um retrato de moldura oval, que to bem ia ao rostinho envolto
na toalha:

-- soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula,
senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pela _Melrinha_,
ao que allude o segundo quartel do meu brazo, tres melrinhos de oiro
sobre purpura. Era j fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos,
representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo
azul, mas el-rei o senhor D. Joo V--e curvou-se como se estivesse na
presena do monarcha--houve por bem, ao conceder-lhe o alvar de
legitimao do filho, dar a meu bisav o titulo de moo fidalgo da
casa real, com servio no pao.

Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarro em corpo inteiro,
grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do brao:

-- meu visav, D. Francisco, com quem, dizem, me pareo muito.
Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro
prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular
predileco que sempre nutriu el-rei por minha visav, as doaes com
que se creou o nosso morgado.

Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo:

--Este  meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III,
que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosmos no
pao, deve minha irm, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da
rainha senhora D. Carlota Joaquina.

Era a dama que enchia outra grande tla, em trajo de crte, vestida a
azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a
tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama.

Por sua vez, indicou o juiz um retrato:

--Este, que como os meninos postos de castigo est voltado para a
parede, brilha para mim atravez da tela. Conheo-o,  D. Bernardo, o
amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra
cumprir a ordem de expulso dos jesuitas. Porque no honra v. ex.{a} as
nobres tradies d'este seu av? Porque no reconhece que as nossas
ideias teem raizes bem fundadas, e que j foram defendidas por bons
fidalgos, como v. ex.{a} classifica os da sua gerao?

Respondeu gravemente Martinho Vasques:

--Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua
alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda
assim por levar em seu favr os servios que filhos e netos teem
prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha
familia so os religiosos; nasceu e creou-se meu visav no convento;
auxiliou meu pae a restaurao religiosa da senhora rainha D. Maria,
que santa gloria haja, e foi minha irm uma das fundadoras do culto da
Senhora da Rocha.

Voltra o frade,  frente da creada com a bandeja de dces, a chicara
do Japo com o caf, e a garrafinha dourada com aguardente, a tempo
de auxiliar a defeza dos bons principios:

--O timbre e lustre da linhagem, excellentissimo senhor,  D.
Francisco, que em servio d'el-rei e gloria do reino, andou no
cruzeiro d'Angola defendendo para a nao os rebanhos de escravos de
que os malditos estrangeiros queriam lanar mo. Perseguido um dia por
um negreiro hollandez refugiou-se na costa, e com tanta felicidade que
poude dar auxilio a um barco portuguez que carregava _bano_ para o
Brasil. No queriam obedecer os malditos pretos, e elle, n'uma
patriotica deciso, desembarcou com uma manga de arcabuzeiros. No
intimidaram aos ferozes selvagens os elmos, as couraas, nem as
grandes armas apoiadas nas forquilhas. E quando D. Francisco, ao
cravar no slo a nossa gloriosa bandeira, viu que no se deitavam por
terra, curvando-se ante o lbaro sagrado que levra  Africa a
religio de Christo, mandou-lhes dar uma surriada de arcabuzes,
emquanto o navio os varejava de metralha. E de toda essa multido
bravia que nutrira a louca ideia de, com settas de cana, emplumadas de
pennas de gallinha, defender mulheres e filhos, no ficou um para
amostra. Dos nossos apenas foi ferido esse bravo dos bravos, com uma
azagaiada na nadega, que toda a vida o fez sentar de banda.

Muito ancho, accrescentou o morgado:

-- o feito que commemora aquella cabea de negro, em fundo de prata,
do meu brazo; e a esse alto tropheu de familia corresponde aquelle
outro emblema, as mos de ouro em vermelho, como fartando-se d'esse
sangue derramado em prol da nao.

Muito risonho commentou o juiz, que tomra o caf e provra um calice
da justamente celebrada aguardente:

--Pois conheo-o to bem, D. Martinho, que me admiro no vr-lhe sobre
as armas o distinctivo dos bastardos reaes.

--V. ex.{a} confunde-me!

-- um direito que s lhe contestam os primos do Alemtejo, dizendo que
n'esse tempo entrava em Odivellas o sequito do rei, at ao ultimo
lacaio, que todas as freiras reclamavam os mesmos prazeres que a madre
Paula, que as santas monjas no recusavam a esmola das graas
corporaes, e que vibrava o mosteiro em alegres risos de muitas
creanas.

--Sei que meus primos falam por inveja--retorquiu o morgado--mas no
deixam de reconhecer a superioridade do meu ramo, tanto que requestam
para seu filho a mo de minha filha.

Aproveitou o juiz o ensejo:

--Desculpe v. ex.{a} o meu involuntario esquecimento. Como est sua
excellentissima filha?

--Bem, muito obrigado a v. ex.{a}

--J que me deu o prazer de conhecer os seus antepassados, desejava
ter a honra de ser apresentado  senhora D. Maria, cujos dotes de
espirito tanto me elogiam.

Trocaram novo olhar o morgado e o frade, e acudiu fr. Angelico ao amo:

--Sua excellencia disse bem, porque felizmente no  coisa de
gravidade, mas a pobre menina no se pde levantar da cama, constipada
por esta frialdade...

Estranhou o juiz n'uma inflexo grave:

--Parece que o contrariou o meu desejo.

--De modo algum.

--No m'o recuse pois. O seu ligeiro incommodo no a impedir de certo
de vir  sala.

Interveiu de novo o frade:

--Trata-se de um caso de certa gravidade, que s para no assustar o
senhor morgado, fingimos considerar sem importancia.

--Acho conveniente--retorquiu o juiz--que se no meta onde no 
chamado. Dirigia-me ao senhor Soeiro, e creio que elle, que tanto se
orgulha da sua nobreza, no ignora que os fidalgos dizem timbrar em
no mentir.

--E no mentem, senhor!--protestou o morgado.

--Mantenha ento a primeira resposta, de que sua filha se encontrava
de perfeita saude.

Encolhera-se o frade, e Martinho Vasques dirigiu-se ao juiz, mudando
de tom:

--Antes de mais nada: Que significa semelhante insistencia?

--Sabe-o to bem como eu.

--Sinto apenas uma certa estranheza...

--Tratando de sua filha, calcula decerto ao que venho. V, um bom
movimento! Ponha de parte os seus escrupulos e torne felizes aquelles
que uma honesta inclinao destinaram um ao outro.

Passou no olhar do morgado um lampejo de rancor; mordeu furioso os
labios, mas conteve-se ante o receio de ser dado por cumplice dos
revoltosos, e de vr confiscados os bens.

Ainda assim entendeu dar por finda a visita:

--Se v. ex.{a} no tem outro assumpto a tratar...

Redarguiu energicamente o magistrado:

--Vejo que comprehendeu o sentido das minhas palavras. Tenho pois todo
o direito a uma resposta.

Fazendo esforos para se no exceder, respondeu o morgado:

--Minha filha casar com o primo D. Luiz de Sousa, a quem est
prometida ha muito.

-- essa a sua ultima palavra?

--Naturalmente.

--Desejava conhecer a resposta da senhora D. Maria.

--L vem outra vez com minha filha!

Accorreu de novo fr. Angelico:

--As filhas s podem ter a vontade dos paes.

Tornou a pedir o juiz:

--Satisfaa v. ex.{a} o meu pedido, e retirar-me-hei com a resposta da
senhora D. Maria, seja qual fr.

--Senhor, a sua insistencia!

--No se exalte. Quero estabelecer a harmonia e no desejo usar de
outros processos.

--Ameaa-me?

--No. Lembro-lhe apenas quem sou, e o respeito que me  devido.

--Pois lembre-se tambem em casa de quem est, diante d'estas nobres
figuras, e reconhea que, em vez da atitude pacifica em que se
disfara, levou a sua audacia, apoiada na escolta, a ponto de me
tratar como um igual quando eu sou um fidalgo, e o senhor, apezar do
seu cargo no passa de um plebeu.

--Assim . Na minha familia no ha femeas que tivessem servido de cano
de esgto para a transfuso do sangue real. No me orgulho do que
envergonha gente de bem. Quanto a esses mostrengos de narizes
coloridos pela aguardente, s podem interessar a Lavater, que teria
muito que estudar n'aquellas physionomias. Quanto a mim nada me
importam, e de grande paciencia dei provas ouvindo-lhe as historietas
do brazo.

E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que
bufava, apopletico:

--Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justia uma queixa
de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a
senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a
confirma a queixa. Ora nem v. ex.{a} nem pessoa alguma pde encarcerar
por seu arbitrio quem quer que seja.

Martinho Vasques desabafou:

--Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma
escaramua, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na
barriga, e se lanam em desenfreadas vinganas. Agora trazem a
anarchia ao seio da familia! J nem respeitam a santidade do lar!

--O despotismo familiar no o respeitamos, nem o consentimos.  da
lei, que temos obrigao de cumprir.

--Essas malditas leis constitucionaes...

--J as ordenaes do reino o prohibiam, mas eram letra morta as
medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os
poderosos como v. ex.{a}. Hoje a lei  egual para todos, quer premeie
quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado
se me exceder. So regalias que custaram muito sangue, e ho de custar
ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou
para sempre!

--Se quer que o respeite--bradou o morgado--no alluda mais s
intrigas tecidas por um atrevido que fui forado a expulsar d'esta
casa.

--Saiba, senhor, que a justia no se rebaixa a intrigas. Ha uma
queixa em frma, com testemunhas, contra o seu procedimento.

--Uma queixa d'esses reles soldados...

--Foi apresentada por uma fidalga, sua parenta, a sr.{a} D. Victoria,
digna portanto de todo o credito.

--Ah! Espertezas da menina Josepha da Esperana! Essa namoradeira 
outra que tal! Se eu lhe tivesse arrancado as orelhas no era ella que
ia enredar-me...

--Vem dos mesmos illustres avs que v. ex.{a}, essa dama que maltrata.
Mas no me pertence apreciar se o seu procedimento  ou no de
fidalgo.

Fazia esforos fr. Angelico por conter Martinho.

O juiz dirigiu-se a elle:

--Queira vossa reverendissima aconselhar o seu amigo.  conveniente
evitar aparatos incommodos. No desejo chamar a minha gente para
testemunhar o encarceramento da senhora D. Maria, o que redundaria
n'um processo crime, com pena de cadeia. Basta-me que lhe possa falar
livremente, e esquecerei tudo o que desagradavel se tem passado.

Arrastando-o para um canto, tentava o frade convencer o morgado,
falando-lhe em voz baixa, acaloradamente mas, no conseguindo
decidil-o a apresentar Maria, ainda pretendeu abrandar o juiz:

--Se  necessario o testemunho do ministro do Senhor, aqui estou eu
prompto a jurar, pelo santo nome de Deus, que s. ex.{a}  incapaz de
opprimir sua filha, sendo, pelo contrario, o modelo dos Paes.

J enfadado, retorquiu-lhe o corregedor:

--V vossa reverendissima buscar a senhora D. Maria, ou obrigam-me a
praticar uma violencia, em que tambem ser envolvido.

Desculpou-se o frade para com o fidalgo, indicando-lhe o magistrado
n'um gesto:

--Deus  contra o escandalo.

Dirigiu-se  porta, para ir chamal-a.

--Seja assim--disse Martinho Vasques--v buscal-a, e este senhor
reconhecer a sem razo das accusaes dirigidas contra mim.

Depois de a vir intimidando pelo corredor, apresentou Maria fr.
Angelico:

--Aqui a tem, senhor.

Occupada com a pacificao da ilha, a captura dos guerrilheiros, a
investigao das cumplicidades, no pudera a justia intervir mais
cedo.

Estava Maria ao corrente dos seus esforos. Apezar da continua
vigilancia, recebia cartas que o moo de cavallaria lhe metia da
cocheira por uma greta do sobrado, onde introduzia as respostas,
depois de bater devagarinho para baixo.

Durante mezes interminaveis ambicionra esse momento, mas agora
sentia-se fraquejar ao ter de queixar-se do pae, ao quebrar, ante o
novo amor, a linha de obediencia, o respeito de filha, o periodo de
submisso.

Compadeceu-se do velho, cujo rosto transtornado vira de soslaio, e
sentia-se sem foras para realisar o que planera no seu desespero.

Mas horrorisava-a o que a me soffrera, captiva d'esse homem que, por
se dizer seu progenitor, por um direito que era alheio ao seu
consentimento, a maltratra de palavras, a magora brutalmente, e a
fechra  chave no quarto, prohibindo-lhe os passeios, os
entretenimentos, a correspondencia, o convivio.

No absoluto isolamento dos primeiros dias horrorisara-se ante a
annulao da individualidade, a suppresso da consciencia, que era a
educao preconisada pelo pae. Ao visitar d'antes a prima Josepha
envergonhava-se de no saber tocar cravo, de no conhecer os livros
em que ella lhe falava, e que s a furto podia devorar, porque, no
entender do morgado, a leitura pervertia a mulher. No sabia bordar
como ella, nem fazer os pequeninos enfeites que por toda a casa lhe
denotavam a educao e o gosto.

Depois, quando o frade lhe foi aconselhar uma submisso ainda mais
completa, no s nos actos externos, mas nos seus sentimentos mais
intimos, revoltou-se energicamente. E sau corrido fr. Angelico,
queixando se de que o demonio, por intermedio do jacobino, se apossra
inteiramente d'ella.

Por fim a me, exasperada pelo abandono, vendo o frade senhor da casa,
pastoreando o rebanho das creadas, passou a odial-o, como odiava o
esposo, comprehendendo o baixo interesse que o ligra a ella, emquanto
do sacco das despezas lhe podia ir dando suas peas, e tornra-se
cumplice da filha, protegendo-lhe a correspondencia, avisando-a do que
elles projectavam, animando-a a insurgir-se, a libertar-se d'elles.

E n'esses dias enfadonhos, n'essas infindaveis noites de inverno,
contava lhe insulto a insulto, offensa a offensa, grosseria a
grosseria, o seu martyrio de trinta annos.

Prohibira-lhe o marido as idas  egreja, sua unica distrao, mandando
dizer missa na capella da quinta, para lhe tirar esse pretexto de
sar; impedira-a de fazer visitas; negra-a s pessoas que a
procuravam; afastra-lhe os derradeiros parentes, que ainda arrostavam
com o seu mau modo para no a desampararem; offendera-a, humilhra-a
em intimidades suspeitas com serviaes, com rendeiras, e fizera d'ella
aquelle trapo, envelhecera-a aos cincoenta annos, moera-a, tornra-a
negra por dentro, matra-a lentamente: que sem punhal ou veneno tambem
se mata!

Seguia o pae j com ella o systema; nunca vira com bons olhos Josepha,
e por fim expulsra-a; queria entregal-a a um homem a quem
recommendaria os seus processos, e tornal-a-ia uma escrava por sua
vez.

Oh! Antes morrer!

Esperava dia a dia a promettida interveno da autoridade, e tinha-a
antecipadamente como o momento em que passaria a pertencer a Joo.

Como elle era differente! Como seria ditosa ao seu lado, no
enthusiasmo d'esse amor juvenil, na meiguice do olhar, na delicadeza
do seu trato, na suavidade das suas falas. Com que direito pois lhe
prohibiam a sua parte de felicidade n'este mundo, se tivera a suprema
ventura de a poder realisar?

Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justia, adivinhando-a em
todos os vultos que divisava ao longe, nos carroes que denunciava o
estrepito distante, e s n'essa manh tivera a fortuna de a vr
chegar.

Tremendo, abraada  me, a quem n'esses dias de dr quizera mais que
em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem
buscar.

Parecia-lhe de mau agouro a demora.

Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente to
aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato.

Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para
a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio.

Revoltou-se o juiz ao vr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces
pallidas, cavadas, a agitao em que tremia.

Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido
maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communicao.

Acobardou-se ella ante o tom grave da pergunta, e levando o leno aos
olhos, rompeu a chorar, sem responder.

--No preciso melhor confirmao--disse o juiz erguendo-se, e
dirigindo-se a Martinho Vasques-- o caso da lei, abuso do poder
paternal. Sou pois forado a cumprir o que se me requer, o deposito
judicial em casa do mais proximo parente.

--Protesto contra semelhante violencia, e juro que lavarei esta
afronta com sangue!--bradou o morgado.

E increpou violentamente a filha:

--Basta de comedia, menina. Diga claramente se lhe fiz algum mal.

--Nenhum, senhor!--respondeu ella, abandonada de toda a energia,
aniquilada pela commoo que, sobre a longa espectativa, lhe esgotava
a resistencia.

Mas D. Perpetua, que ficra entre portas a vigiar, desconfiada, entrou
bradando como louca:

--Senhor juiz, minha filha tem mdo da fera! Este perverso bateu-lhe,
como me bate em mim, e a pobre ainda tem os braos cheios de nodoas
negras.  verdade que a tem fechada como a um co, e manda ameaal-a
todos os dias por esse frade, que j se atreveu a levantar a mo para
ella.

Por unica resposta, disse o juiz:

--Tenha a bondade, minha senhora, de mandar a sua filha o necessario
para que me acompanhe immediatamente.

Sau promptamente a velha, dirigindo a fr. Angelico um olhar de
triumpho.

Olhar injectado de sangue, labios tremulos, ergueu-se o morgado em
passo mal seguro, e dirigiu-se a Maria, que instinctivamente se
refugiou por traz do magistrado.

Este interpoz-se, na energia da sua figurinha secca, nervosa, fronte
avincada, bcca accentuada com firmeza, olhar vivo de argumentador, o
ar decidido de homem novo, habituado aos grandes lances:

--Que faz, senhor?

--Quero despedir-me de minha filha!--tartamudeou Martinho--No me
assiste esse direito?

Replicou o corregedor com repugnancia:

--Esta senhora no o evitaria, se fosse um movimento sincero. Est
n'essa repulso o seu maior castigo.

Atirou-se o fidalgo, esmagado, para uma cadeira, os olhos queimados de
lagrimas de desespero, fechando os punhos em crispaes nervosas:

--Ah! Que se eu a abraasse, ia esta noite ceiar com Christo!

Entrou D. Perpetua, j de manto, o rebuo deitado para traz, ajudou-a
a vestir a saia de merino, atou-lhe o capuz  cintura e deitou-lh'o
pela cabea, emquanto ella se despedia, abraando-a e beijando-a:

--Perde-me o passo que vou dar, e pea a Deus que me faa feliz.

--No o sers!--exclamou o pae--porque eu te amaldio! Permitta o
Senhor, filha desnaturada, que caias to baixo que ainda venhas aqui
de rastos, coberta de bichos, pedir uma cdea  porta d'esta casa que
deshonraste. Deus te amaldie, como eu te amaldio!

--Vamos, minha senhora, tenha coragem!--disse o juiz, dando o brao a
Maria, e encaminhando-se para a porta, sem se despedir, indignado por
semelhantes palavras.

--Eu vou comtigo, no fico nem mais um dia n'esta casa--murmurou-lhe
ao ouvido D. Perpetua.

E cobrindo-se poz-se ao lado da filha.

De um salto, o fidalgo tomou a porta, e deteve-a, emquanto o juiz e
Maria se afastavam.

--Onde vaes?

--Sigo minha filha.

--Isso  que no. A ti governo eu! Has de obedecer-me cegamente, has
de ficar onde eu quizer, entendes bem, onde eu quizer!

Fechou a porta violentamente, e empurrou-a para dentro.

De joelhos, mos postas, ella supplicava:

--Por amr de Deus! Deixa-me acompanhal-a!

--No! Has de pagar por ella.

       *       *       *       *       *

J na sge, para onde se deixra arrastar atordoada, reparou Maria na
falta da me, e pelos gritos comprehendeu o que se passava.

Pediu ao juiz que a fosse buscar, mas elle desculpou-se com a lei, que
no o autorizava a tanto.

N'uma grande amargura, Maria exclamou sentidamente:

--Ento, senhor juiz, para que serve a liberdade, se ainda se pode
opprimir uma mulher!




X


Agora viam-se, falavam-se, estavam ali juntos um do outro, no vo da
janela, um degrau acima do sobrado, como n'um nicho, sentados nos
poiaes de pedra, os joelhos tocando-se, as mos dadas, to perto os
labios, que s os impedia de passarem a tarde n'um longo beijo o olhar
vigilante da tia Victorina, a me de Josepha da Esperana, enterrada
na poltrona, roca  cinta, fiando massarocas para a Francisca da Bica,
grande tecedeira, que as lanava no tear em guardanapos, lenoes e
colchas, a trinta reis a vara.

Para impedir o escandalo de se falarem da janela abaixo,
permittia-lhes, aos domingos, a dona da casa, esse curto
desabafo em que pesava com a sua presidencia, impassivel, entre a
commoda negra, de ps recurvos, e a porta de vidraa da escura alcova
onde dormiam as raparigas.

Nos outros dias, ao passar para o castello e para casa, via-a Joo ao
postigo do grande ralo, de riscas em diagonal pintadas a verde, com
remates de pinhas nos rectangulos divididos pelos columnellos, manchas
rubras de cravos nos recantos, no alto gaiolas de cana onde saltitavam
canarios.

Dominava-os a tristeza da casa, em que pairava a viuvez de D.
Victoria, entristecendo a propria filha a quem faltava a distrao das
tardes na quinta, para onde, mal acabava de jantar, partia sentada na
burrinha, que o moo tangia, escudeirando-a.

Maria, olheirenta, emmagrecida, definhada pela vida to differente que
ali levava, fechada n'uma casa pequena, acostumada como estava a
passar ao ar livre o dia inteiro, queixou-se, dominada por uma
inconsolavel melancholia:

--Joo, desde que sa de casa s tenho chorado. Foi praga que me
rogaram. Ha de ser a maldio do pae!

Em vo pretendia elle reagir contra o desanimo que tambem o
ganhra:

--No penses n'isso. Temos que passar por este tributo. A nossa
felicidade far esquecer estas horas amargas, e at teu pae se canar
da sua teima, e ha de abenoar-te e querer-te ditosa.

--Oh! O pae! No o conheces bem. Mas ainda elle me queira sempre mal,
paciencia. O que mais me custa  a me.

--Est costumada, no soffre tanto como tu.

--Deu-lhe volta ao juizo a minha sada, ficou a emprehender n'aquillo,
e como lhe fechassem as portas atirou-se da janella abaixo para me vir
vr.

--Coitada.

--Tem estado  morte, e eu receio que morra sem a tornar a vr.

Sobresaltou-se Joo:

--Acautela-te! Pde ser um estratagema para te obrigarem a voltar a
casa.

--No. Infelizmente  verdade.

--E como o soubeste?

--Est por ahi tudo cheio.

--Sim. Eu tambem o ouvi, mas tive-o por maroteira de fr. Angelico.

Encarou-o Maria aterrada:

--Foi a tua funesta hostilidade  religio que te inspirou
esse falso testemunho, pois o frade nunca mais voltou  quinta desde
que eu vim para aqui.

Elle ficou mais receioso ainda:

--Pois tu defendes esse homem, que tanto mal nos fez, que denunciou a
minha visita, para que me espancassem, e se atreveu a pr-te as mos?

--No o defendo, no; mas temo por mim e por ti essa tua inclinao
contra tudo o que respeita  egreja. Ainda te pde dar de rosto.

--Agora, Maria,  que tenho razo para estar triste porque j me no
pareces a mesma!

--No sei porqu--retorquiu offendida.

Atalhou Joo, para no a desgostar mais:

--Mas o que ha de tua me?

--Assim que soube que o Malaquias, o mulato, moo do sineiro da S,
fra encanelar-lhe a perna, mandei-o chamar, e s depois de lhe acenar
com uma pataca  que aquelle recancha se decidiu a vir coxeando at
c, pois tinha ordem de no dizer nada.

--Era ento verdade?

--Sim. Esteve mais de um mez sem se virar, abandonada de todos, e at
foi despedida uma creada porque a tratava caridosamente.

--Pobre senhora!

--Essa veiu c, e contou-me horrores. Vive no meu quarto, fechada como
eu, arrastando-se pegada a um pausinho. E do-lhe convulses que fica
de bca  banda, tomada de um lado. Para ali vive como um mcho, a
penar, a penar, que antes o Senhor se lembrasse d'ella, Deus me
perde!

Elle tomou uma deciso:

--Pois meu amr, em vez de a lamentarmos, o que no lhe serve de nada,
tratemos de a arrancar d'essa maldita casa. Requer-se uma aco de
separao, prova-se com o testemunho da creada e do mulato o carcere
privado, vae l a justia, e...

--Exactamente como a mim. Mas de que me serviu, se sou to infeliz
como d'antes ... talvez ainda mais? De que servem essas leis, de que
vocs fazem tantos escarceus, se me tiraram de uma priso para me
meterem n'outra, no nos deixando casar, como desejamos, seno quando
eu tiver vinte e cinco annos; se permittem que uma pobre mulher esteja
encerrada, pela vontade do marido, embora um juiz ouvisse que ella no
queria viver em casa? No, a felicidade no depende da alada das
leis, nem da vontade dos homens; a felicidade est na mo de Deus, e
os que, como ns, o teem offendido, no a podem esperar nem
n'este mundo, nem no outro!

Encarou-a Joo, como a lr-lhe no olhar, e depois respondeu commovido:

--Dizes bem, dizes, no depende das leis a felicidade, nem de ns
proprios, mas dos que nos educaram, dos que nos formaram o espirito, e
que governam sempre dentro em ns. O que os principios porque nos
batemos ho-de impedir d'aqui em diante,  a sementeira do mal, o
obscurecimento dos cerebros, a aniquilao das consciencias.

E sobresaltado por uma desconfiana, que como um relampago o
esclareceu:

--Por mais que negues, anda frade n'isto! No  assim?

Accentuou-lhe a suspeita a confuso d'ella:

--Dize-me tudo. No pdes ter segredos para mim! Sou como teu marido,
desde que por minha causa abandonaste teu pae. Falaste com algum
religioso?

Negou ella, frouxamente:

--No, no falei.

--Perda, mas no te acredito. Veiu aqui alguma d'essas aves de mau
agouro!

--Como me custa ouvir-te falar assim!

--Mas veiu ou no veiu algum santo ministro do Senhor?

--O padre mestre, confessor de minha tia, sim. Vem c muitas vezes
esse santo homem: que eu distingo bem fr. Angelico d'elle, mas nem me
falou, nem eu ouvi o que diziam.

--Ento  intriga tecida por elle! Tem c entrada. Mas que admirao,
se em cada rua ha um convento, se a cidade  d'elles mais que dos
moradores!

E aproximando-se muito, tomando-lhe as mos, n'uma voz grave, mas
baixa como um murmurio, para que no o ouvisse D. Victoria:

--Ah, minha querida Maria, que te querem roubar-me! Por amor de Deus
desvia-te d'elles, no lhes ds ouvidos, considera antecipadamente
como envenenadas as suas palavras! Querem separar-te de mim, pretendem
desforrar-se do meu triumpho. E se ainda me queres bem, como o
provaste, recusa-te a ouvil-os, quer falem em nome de tua me, que
desgraaram, porque foram elles que a inutilisaram, pergunta-lh'o um
dia, se puderes; quer te falem em nome de Deus, que trazem sempre nos
labios, tendo o demonio no corao!

Maria respondeu com lagrimas na voz:

--Pois pdes duvidar de mim, ao passo que dei! Eu, uma
morgada, esquecer-me do respeito que devo ao meu nome, por amor de ti!
Eu, uma fidalga, expr-me a commentarios vergonhosos...

E no poude mais. Afogada n'um choro convulso, que disfarava tapando
a bocca com o leno, virando para as gelosias os olhos requeimados.

Ento confessou-lhe tudo.

A convite do padre mestre, resolvera ir D. Victoria a uma festa em S.
Francisco. Quizera leval-a comsigo, e aos favores que lhe devia no se
pudera recusar. Como ia de manto, ninguem a conheceria. No tencionava
confessar-lh'o, para o no desgostar.

Houve missa cantada, distrahiu-se com a cantoria e com as ceremonias,
que no via ha tantos annos, mas ao sermo cuidou morrer de vergonha.

Bradra um frade contra os desacatos, falra de Christo crivado de
tiros, calices profanados em orgias, altares escolhidos para sentinas;
indicra horriveis castigos para os constitucionaes e para as mulheres
que os seguissem, alvejando intencionalmente as desgraadas que
abandonavam os paes para seguirem soldados, arrastadas por baixos
apetites, tratando-as a todas por furias e prostitutas,
indignas de se aproximarem da msa da communho.

Chorra a dentro do bico, parecendo-lhe que, como bofetadas, a
escaldavam esses insultos, e que todos se voltavam para ella, como se
o seu peccado fosse visivel atravs do manto, e a fulminassem os
crentes em piedosa indignao.

--Trahiram-te, meu pobre amor! Ah! que cobardes! Pois no comprehendes
que tudo isso foi forjado para te intimidar! Tua prima decerto no
chorou, tenho a certeza.

--At se levantou para se ir embora em meio do sermo, e j se zangou
com o padre mestre pela linda festa para que nos convidra. Elle
desculpou-se, coitado, que todos os sermes eram assim, que se tornava
necessario combater o erro, responder com a guerra aos inimigos da f!

--Hypocrita! Mas Christo prgou uma religio de paz e de amr, e elles
querem o odio e a vingana! Christo foi o primeiro liberal, apontando
a egualdade e a fraternidade. Christo prgou a pobreza e a humildade,
e elles so ricos e poderosos. Acredita-me, os verdadeiros christos
somos ns!

Pelo bem que lhe queria, dava-lhe Joo a ingenua interpretao
do tempo, porque s gradualmente a poderia emancipar.

Ella sentia-se desafogada com as explicaes, porque tambem a chocra
a grossaria, o baixo espirito interesseiro dos industriaes da f.

--Mas se vocs so assim, e eu acredito que, pelo menos tu, s como
dizes, para que horrorisam os crentes com esses aggravos?

--Que lucravamos com isso, tontinha! So elles que os inventam e
praticam, e mostram depois as cruzes derrubadas, para incitarem contra
ns esse pobre povo que queremos emancipar.

Por fim Maria resignou-se. Tinha de ser d'elle. Estava escripto que
para o conseguir haveria de passar todos aquelles tragos. Pois que
remedio. E Joo confiava mais n'aquelle fatalismo, na teimosia d'ella
em levar a sua vante, que em a ter convencido das artimanhas
fradescas.

Parecia-lhe que mal tinham comeado a falar, e j os interrompia a
tosse pontual de D. Victoria.

--Josepha, fecha-me aquella janela, filha. Em cando a tarde, comea a
peitogueira s voltas commigo.

Era da praxe n'esta altura interessar-se Joo pela saude d'ella, no o
fazendo ao principio para no cercear o tempo da entrevista,
e poder demorar-se depois, um pouco mais, junto de Maria.

Deixara-se sempre illudir a velha.

--Aquelle peito era uma panela a ferver, a referver,  tardinha
principalmente. Bastante gastra em promessas a S. Braz e Santa
Margarida, advogados contra o mal da garganta, e a S. Tude, protector
contra a tosse, mas cada vez se sentia peior.

Trazia Joo engatilhado um repertorio de drogas e esvasiava as
algibeiras de uma proviso de papeis e embrulhinhos.

--Aquella era a receita de um xarope, inveno da tia Pulcheria, que
lhe tirra uma tosse convulsa, depois de j ter sido chamado o Craca
para lhe tomar medida do caixo; estas pastilhas fizera-as o senhor
Juvencio de encommenda, com tudo quanto havia de melhor e mais
approvado.

E emquanto se prolongava o colloquio, deliciando-se D. Victoria em
queixar se de todos os seus males, Maria e Josepha, como na quinta,
riam enlaadas ao fim do corredor, desafiando Joo.

Pingavam trindades, erguia-se a velha com esforo e benzia-se
unctuosamente, murmurando as ave-marias e a gloria-patri; e Joo,
emancipado em casa, transigia ali, imitando-lhe os gestos e mexendo
os labios em furtadelas de olhos para o corredor, no que
Maria julgava, enternecida, vr uma satisfao aos seus escrupulos,
embora a maldosa Josepha a desiludisse, elogiando as inexgotaveis
manhas do namorado.

Forava-o o lusco-fusco a despedir-se, e ento seguia pelo corredor,
j escuro, emquanto Josepha avanava  sala a fazer-lhes costas,
entretendo a me, e a sua verdadeira entrevista era quando elle a
beijava apaixonadamente, ao propositado ruido de abrir a porta da rua.

Dissipavam-se os receios de Maria, defendendo-se inhabilmente dos
beijos:

--Mas como tu ests atrevido.  da farda! Olha que te fica a matar! E
porque  que nunca me beijaste quando estavamos juntos?

--No sabia se gostavas de mim.

--E agora sabes?

--Percebe-se.

--E porque no percebias ento?

--Nem tu mesmo o sabias.

--Isso sabia. Mas que fosse tanto, no; confesso!

Echoavam estrondos de catarrho. Descia elle, corrido, e ella
voltava de olhos baixos, para ir ao ralo vl-o sahir.

Ento D. Victoria chamava pela filha, que era o mesmo que chamar por
ella:

--Venha para dentro, menina, no seja janeleira, que no foi essa a
sua creao.  uma maia, sempre impeirada  janela. Muito perdeu a
menina em seu pae, Deus lhe fale n'alma, que a havia de sopear.

Meteram-se para dentro, fechou-se a casa, e no escuro da alcova o
terror reconquistou Maria.

Queria desfazer-lhe Josepha a impresso das reprimendas da me:

--No faas caso,  genio. Sempre assim foi, mas no julgues que te
quer mal. Olha que foi ella quem, a meu pedido, requereu o teu
deposito e fez a queixa.

--Antes o no fizesse.

--Porque? No ests contente em minha casa? Ligas importancia a
rabugices?

--No  a tua casa, filha,  a minha situao que me afflige. Se
soubesse que havia de estar tanto tempo  espera de edade, no saa de
casa, no desgostava a me, no offendia o pae.

-- o que dizes agora. Mas no podias aturar aquella vida.

--Nem posso supportar esta! Se tivesse casado, tapava a bca a essa m
gente. Mas assim, fra de casa, vendo Joo, recebendo-o,  ser
esbandalhada por essas linguas perversas. E hei-de passar cinco annos
assim? Oh! no posso, no posso!

-- filha, mas se tu no casas com elle  porque no queres. Vo
juntos  missa, e quando o padre estiver quasi quasi a deitar a beno
digam, de mos dadas, as palavras sacramentaes, que se recebem por
marido e mulher, e o padre, que no pode parar a reza por nada d'este
mundo, tem por fora de deitar a beno, deita-a, est deitada, vocs
casados, com toda a egreja por testemunha, e salta logo para casa
d'elle. E se teu pae quizer melhor que se ponha s bas e faa boda de
estado. E at o Joo pode combinar-se com o padre, que os ha muito
constitucionaes, e  dito e feito.

--Uma mulher como eu no d semelhante passo--protestou Maria--Por ter
sado de casa no deixo de ser quem sou, e nunca praticarei um acto de
que se possa fazer pouco.

--Ento queixa-te de ti.

--Hei de casar com elle, espere quanto tempo esperar, que
no sou das que se esquecem, nem das que se canam. Mas ou hade ser
como deve ser, ou nunca; ainda que estale de saudade. Se eu sou assim!

--Mas no vejo que te resignes, te disponhas a esperar com paciencia.
Afinal que queres tu?

--O que quero? Nem eu sei, Josepha, nem eu sei!

       *       *       *       *       *

Assim passaram longos dias, at que a assustaram boatos de nova
esquadra.

Falavam com orgulho os miguelistas do seu grande poder: vinte e um
navios, com trezentas e quarenta peas e seis mil homens, entre
soldados e marinheiros; uma alada para julgar summariamente os
constitucionaes, e um carrasco para os despachar com promptido.

Bem sabiam os liberaes o que succederia se fosse tomada a ilha.

Figuravam-se-lhes os autos de f do miguelismo: procisses de
condemnados, descalos, entre frades, levando horas da cadeia  forca,
a entoar o _miserere_ deante das capellas do percurso; depois
enforcados no longo ceremonial que com cada um absorvia uma hora,
aggravando a tortura moral dos que esperavam, e divertindo mais damas
e frades que davam vivas a D. Miguel e  religio, acenando com
lenos, applaudindo as execues.

Estremeciam de horror ao recordar a viuva de um enforcado morrendo de
afflio; o pae de um rapaz, assassinado pela lei, suicidando-se de
desespero; uma pobre me affrontada pela exposio da cabea do filho,
espetada n'um poste deante da vidraa!

Era uma perseguio em massa que degradra mil e seiscentas pessoas,
forra a esconderem-se cinco mil, arrastra  emigrao treze mil e
setecentas, mantinha vinte mil sob a vigilancia de suspeitos, tinha a
dentro dos carceres mais de vinte e seis mil pessoas de ambos os
sexos, e sequestrra os bens de oitenta e duas mil familias!

Longe de os acobardar, incitavam-os esses terriveis exemplos a
combaterem com desespero.

O conego Ferraz, sabendo bem o que o esperava se triumphassem os
miguelistas, trazia comsigo um frasquinho de veneno, para no car
vivo em poder do carrasco.

Joo procurava tranquilisar Maria, crca dos resultados da lucta.
Assim como se tornra a ilha, agora elevada  cathegoria de reino, o
alvo do odio absolutista, tambem fra o ponto de concentrao dos
liberaes, e assim j tinham para se oppr s foras inimigas alguns
reforos de emigrados, armas e munies vindas de Inglaterra, e um
general como Villa-Flr para dirigir a defeza.

Todo o littoral estava defendido, nos poucos pontos onde a costa
permittia a abordagem.

Uma manh foi Joo precipitadamente despedir-se, porque ia para a
villa da Praia com os Voluntarios da Rainha.

       *       *       *       *       *

Enthusiasmado com a vinda da esquadra, contando como certa a victoria,
to grandes os recursos accumulados, arrancou-se o morgado do
isolamento da quinta, onde cada vez bebia mais, para esquecer a
offensa de Maria, para no ouvir os gritos da mulher, e montando a
cavallo dirigiu-se ao convento de So Francisco.

Ha muito que fr. Angelico no ia  quinta.

Quando l fra a justia, ao sentir o chocalhar de ferragens da
traquitana, voltra-se desesperada D. Perpetua para o frade:

--Se no me defendes, Angelico, eu confesso-me a meu marido e ento
acabou-se tudo!

No permittiam illuses o rosto congestionado, a bca espumante, o
olhar desvairado, de louca. Fra logo despedir-se de Martinho Vasques
o franciscano, pretextando o receio da denuncia do juiz e das queixas
de Maria.

Era bom que n'esse mesmo dia o vissem no templo, votado ao culto, para
desmentir a accusao tanto de temer.

E sem consentir que o morgado mandasse pr o carroo, arregaou o
habito, deitou o capuz pela cabea, e fugiu debaixo d'agua s
pernadas, at se abrigar n'um portal.

Que lhe quereria o morgado? perguntava a si proprio, ao ir recebel-o.

Dissipou-lhe porm todo o receio a attitude de Martinho, ainda na
grande paixo da desfeita recebida:

--Deixe-me desabafar, fr. Angelico, que ha tanto tempo no o fao. J
no ha religio, j no ha respeito filial, j no ha Deus!

Mos postas, olhos em alvo, voz de cana rachada, exclamou o frade,
simulando um devoto horror:

--No blasfemes, creatura, contra o teu Creador! Curva-te  vontade do
Altissimo, que a tua expiao est terminada!

E mudando de tom:

--Alegrar, senhor morgado, que ha grandes novas!

--Por isso vim, fr. Angelico.  ento certo que voltaremos aos bons
tempos?

--S podiam duvidar gentes de pouca f.

--Pois eu julguei-me abandonado do co!

--Espere em Deus, que  pae da misericordia! Sempre ha de haver
frades, sempre ha de haver religio! Vae em dezanove seculos! Havia de
acabar assim, quando j resistiu ao proprio demonio, na pessoa de
Luthero; ao anti-christo encarnado em Bonaparte? Estes pandilhas no
valem nem um nem outro.

--E agora?

--Ser forada  obediencia paterna sua infeliz filha...

--J no tenho filha!

Era essa a phrase feita que desde ento tivera para todos, mas no
correspondia sinceramente ao seu sentir.

Queria-a em casa, como desaggravo, como affirmao do poder paternal,
como homenagem  sua categoria.

--Responde v. ex.{a} como quem , mas eu procedi como devia, de que lhe
peo perdo, caso no appoie os meus passos.

--Que quer dizer?

--Nunca abandonei a sua causa, comquanto os deveres do meu ministerio,
que me impe a cega obediencia ao poder constituido, me impedissem de
ir receber as suas ordens...

E aqui, j seguro de que no fra descoberto, perguntou:

--Como est a senhora D. Perpetua, depois d'aquella triste fatalidade?
Pobre senhora!

--No sei nem quero saber. Nunca mais verei nem uma nem outra.

Tinha porm, curiosidade de conhecer o que fizera o frade:

--Ia dizendo...

--Que no me dei por vencido pelos inimigos de Deus. Pratiquei n'esta
egreja uma das obras de caridade, ensinando os ignorantes, castigando
os que erram, e a filha desobediente ouviu n'um terrivel sermo...

--J sei.

--Mas no foi s isso! Os miseraveis julgam que com garatujas n'um
pedao de papel governam tudo, e afinal somos ns quem governamos e
havemos de governar sempre. O nosso reino no  d'este mundo, as
nossas armas so espirituaes, e as crenas religiosas ligam-nos para
sempre os cordeirinhos embora desgarrados, promptos a voltarem ao
aprisco mal os ameaa o lobo da heresia.

--Acabe!--pedia o morgado impaciente.

--Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas,
o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o
peccado que commetteu. Ella, que  uma mulher de vergonha...

--Uma descarada!--protestou Martinho Vasques--Fazer-me o que me fez!
Mas no admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de
frades...

Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico:

--Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz.
No ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que no
tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. At
sei pelas suas creadas que a senhora D. Perpetua, n'aquellas
terriveis convulses em que parece possessa do inimigo, diz contra mim
coisas de se abrir o cho, decerto inspiradas pelo proprio demonio,
como vingana contra o varo forte que por tanto tempo lh'a defendeu
das garras.

E n'um suspiro, como no obtivesse resposta, voltou a D. Victoria:

--Ella tem feito todo o possivel para a desgostar, e no se oppor a
que lh'a tirem d'ali.

Atraioou-se o morgado, pondo de parte a rigidez apparente:

--Dava metade do que possuo para a fazer voltar a casa, sem que, pelo
triumpho dos nossos, a forassemos, por forma a fazer rebentar a
castanha na bca aos que se regosijavam com a minha vergonha.

--Pois d v. ex.{a} com que eu possa mover o ceu a nosso favor, e
tentarei o milagre.

Sabendo-lhe as manhas, ia Martinho Vasques prevenido de dinheiro, a
vr se, a troco de alguma esmola para o convento, lhe deixavam levar o
indispensavel commensal.

--Pois aqui tem para principio. E quanto mais depressa, melhor.

-- agora propicia a occasio. Est o seductor seguro na Praia. Mas
pretendem recolher-se ao castello, com as familias, se forem
derrotados  beira-mar, e se l a metem, ento, meu senhor,  que 
fazer-lhe uma cruz. Ficaria perdida a senhora D. Maria, entre
semelhante malta. Da mesma sorte se os nossos desembarcarem
rapidamente, como ha de permtir o ceu, tomando-a por liberal,
violental-a-ho, e  prima, como  do seu dever, para exemplo das
malditas mulheres que preferem as creaturas de Satanaz aos amigos da
religio. Portanto, se podermos recolher desde j a filha prodiga,
teremos mais socego para os ver esganar, pois vir por ahi quem saiba
da pda.

--Que tenciona fazer?

--O que Deus me inspirar.

--Mas quando, quando?

--Elle o determinar em sua divina sabedoria.

E como o morgado, apesar de devoto, no ficasse muito satisfeito:

--Olhe, v v. ex.{a} a p por essa cidade, mande a besta esperal-o fra
dos portes, e a todos que lhe perguntarem por sua esposa d-a como
perdida, que poucos dias lhe restam de vida, para que a senhora D.
Maria o saiba. Ensinarei o recado ao padre mestre, para dizer a D.
Victoria que  um caso de consciencia encobrir por mais tempo a uma
filha a agonia da me. Depois eu darei conta de mim.

       *       *       *       *       *

Uma tarde, tendo ensaiado fr. Angelico um ar compungido, certo da
afflico de Maria pelas ms noticias da me, foi a casa de D.
Victoria.

Mal o viu, atirou-lhe Josepha com a porta, mas o frade insistiu,
percebendo que a me a reprehendia, ao saber quem era.

Em voz de prdica, perguntou da escada se a senhora D. Maria estava em
carcere privado, e se era contra a Carta Constitucional levar a uma
filha noticias de sua me.

Foram abrir-lhe, e Maria, apezar dos exforos de Josepha para a fechar
na alcova, pediu por amor de Deus novas de D. Joanna.

Elle, n'uma suavidade melada, ergueu os olhos, e declamou:

--Deus manda perdoar as injurias, esquecer as fraquezas do proximo, e
consolar os afflictos! Fiz ideia como estaria a sua alma, e
arrisquei-me a este passo, que pode ser to mal apreciado...

--Diga-me a verdade!--implorou Maria, atterrada pelo exordio.

--Peo-lhe que no se assuste. A senhora D. Perpetua est gravemente
doente, mas ainda ha esperanas de a salvar.

Maria recriminou a prima:

--Ou haver ou no! Eu bem t'o dizia, Josepha, eu bem t'o dizia.

Mas ella continuava a disputal-a:

--No te deixes enredar!

--E com isto no enfado mais--disse o frade, cumprimentando muito
correcto, um ar de beatitude a escorrer-lhe pela face alvar--Vim s
trazer esta palavra de consolao, como  dever do meu ministerio. Sua
me no est na agonia, como para ahi espalharam, o que me forou a
vir tranquilisal-a. Eu ainda confio n'um milagre!

Quiz demoral-o D. Victoria:

--Ento, nem sequer se senta! Faa-me um bocadinho de companhia...

--Muito obrigado, minha querida senhora, mas a minha presena no
agrada...

--Peo-lhe perdo pelo que toca a minha filha. Se ella tivesse um pae
que a castigasse...

Aproveitou o frade o pretexto, e pegaram-se n'uma interminavel
palestra, emquanto Josepha conseguia arrastar a prima para dentro.

Mas ahi Maria respondeu-lhe frenetica:

--Que mau sestro tomaram todos de me governar. Foi o pae, a me,
depois o Joo, tua me, e agora tu! Pois eu tenho mais juizo que vocs
todos, no preciso de tutres.

--Ests sendo muito enganada!--repetiu Josepha.

--Deixa-me! Deixa-me!

E refugiou-se na torre, a meditar, sentada n'um bahu, a cabea apoiada
nas mos, os olhos vidrados muito abertos, as fontes latejando.

Depois ergueu-se, enxugou os olhos, e foi direita  sala.

--Que vaes fazer!--perguntou Josepha, interpondo-se:

--O que devo! Larga-me.

E arrependendo-se:

--Bem sei que me queres bem, mas perda. Oh! Ninguem se veja como eu
me vejo!

No estoicismo da resoluo, dirigiu-se a fr. Angelico da Immaculada:

--Muito obrigada a vossa reverendissima pelas suas noticias. O meu
desejo era ver a me...

--No esperava menos do seu corao de filha!--exclamou radiante o
frade-- esse effectivamente o seu dever.

--Ai, Maria, que caiste no lao!--bradou Josepha,--Ests doida? Ests
doida?

Mas ella, sem a attender, dizia ao frade:

--Se pudesse ser...

--Hei de fazer o possivel, alma santa!--respondia fr. Angelico,
revirando os olhos.

--O pae no ha de querer ...--continuava Maria, emquanto D. Victoria
continha a filha.

--Oh! No conhece a grandeza do seu corao! Foi muito offendido,
realmente, mas  pae,  pae!

--Aconselhe-me ento o que devo fazer.

--Foi Deus que a inspirou. Faa o que disse. Venha vr sua me. Eu
acompanho-a, e respondo pela licena do senhor morgado.

--E quando? quando?

--Quanto mais depressa melhor, que a vida e a morte esto nas mos de
Deus!

Josepha ainda irrompeu, avanando para o frade:

--O que falta aqui  um homem para o esbofatear!

Mas nada poude demover Maria, muito tremula, batendo os dentes,
convulsa,  ideia de ir vr a me.

Ao sar, com a tia e o frade, ainda Josepha a puchou para dentro:

-- doida! E ao Joo, que lhe hei de dizer?

E como ella balbuciasse que ia s vl-a, e que voltava, tapando a
bcca, abafando-se no bico do manto para no a ouvirem soluar,
gritou-lhe do alto da escada:

--Mal empregado rapaz! Tu no o mereces!




XI


Pelo caminho, baloiada na traquitana que tomaram no alto das Covas,
ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha:

No o merecia.

E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante
lhe custra a conseguir? Era capaz de descrer d'ella.

Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle?

Mas no havia de deixar morrer a me  mingua. Deus no lh'o
perdoaria, e para sempre esse peccado ameaaria a sua felicidade.
Joo, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia.

E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar
na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida,
davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima.

Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo
aquillo por causa d'ella!

Dominava-a, porm, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada
a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida
em trapos! Desgraada!

Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma
grande scena de reconciliao, o pae abraando-a quando se lhe
deitasse aos ps a pedir perdo, e fr. Angelico abenoando-a em nome
de Deus, limpando uma lagrima.

Agora no lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido.

E crendo possivel pr tudo em bem, ainda esperava falar a Joo na
propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela
submisso, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por
consentimento d'elle.

Esfarrapava n'um momento a suave viso o echo dos gritos de Josepha,
a lembrana das indignaes de Joo quando soubera do desagravo de S.
Francisco.

Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali,
vr a me, tranquilisar-se a respeito do seu estado.

Chegaram, e, como se j contassem com elles, ninguem appareceu.

Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado.

Recordou-se da cilada armada a Joo, dos maus tratos a que s a
justia a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a
emancipra a sada da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria
individualidade.

Alarmou-a um grito da me, um grito de desespero, rouco, abafado pela
porta, vindo do interior.

Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu
ento que perdera o direito de entrar como d'antes.

Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando
vir offegante como de uma grande discusso.

Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles,
disse  pressa fr. Angelico:

--Accusou-me de desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui.
Diz que a senhora s pde entrar n'esta casa como filha arrependida e
submissa, e at sem esperana de um perdo, que s a sua conducta
poder merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos
por minhas mos!

Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da me
pregavam-a ao sobrado.

Fez-se luz no seu espirito, no duvidou que o frade fra expressamente
preparar-lhe aquella situao.

E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder
vr Joo, seno vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem
poder desabafar.

Ali, tratando da me, parecer-lhe-ia menos penosa a espera.

Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitaes. Tinha
por melhor esperar ali.

E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que
o pae no duvidava acceital-a.

Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vr livre
d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabea erguida, caminhou aps o
frade em direco ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua.

Ento fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos,
reprehendeu-a severamente:

--Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraa a
esta casa, e que a doena de sua me  o justo castigo de Deus.

--Representou bem o seu papel--respondeu-lhe Maria--mas no julgue que
me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim.

Abriu a porta, fechada por fra, e tirou a chave. No leito soltava a
me phrases incomprehensiveis.

Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que no
ficasse, para que no tornasse a car nas mos dos seus algozes.

O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever
cumprido.

Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo
como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono.

Ia ao pae para reclamar um medico, e dar ento ordem  casa.

Mas D. Perpetua, temendo ficar s, chamou-a afflicta para junto de si:

--Filha, no sei se tornarei a vr-te, que elles so capazes de te
fechar, ou at de te estrangularem, como j me teem querido fazer.

E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinao:

--Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de
ser a ti, filha, que no creio no fr. Angelico nem nos outros
malditos!

Sacudia-a a convulso, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca
arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria
limpava compadecida.

--Quero confessar-me a ti, sim, filha--voltava ella n'uma insistencia
pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber--Tenho
um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que ests uma mulher,
pdes comprehender-me e perdoar-me.

Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:

--Fui rapariga como tu, e no tive a felicidade de encontrar um rapaz
como o que amas, que  o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha
tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! So
destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui
ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor.

N'uma exploso de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse,
contou-lhe a torpe ligao ao frade, a maneira como elle a explorra e
como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.

Ento Maria comprehendeu o sentido das alluses de Joo e Josepha,
certos sorrisos surprehendidos em beios de creadas.

Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria,
sau Maria, cada vez mais resoluta.

Encontrou o frade no escriptorio:

--Fez-me minha me certas revelaes, creio que me comprehende...

E a perturbao de fr. Angelico mostrava-lhe que sim.

--No voltar a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar sar.
Desculpe-se como puder. Aos seus processos, no lhe ser difficil.

Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a
escripta como estava, compoz o habito, desejando vr-se muito longe
d'ali.

Encontrou o morgado  meza, e no teve meio de esquivar-se
immediatamente.

Podia levantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a
acompanhal-o ao jantar, no supplicio de no poder comer.

Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques:

--A sua beno, pae.

Tomou-lhe a mo e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse
retirar-lh'a.

Sempre de p, declarou n'uma voz sumida:

--Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdo tratando
da me.

Pz o morgado os olhos no prato, e no respondeu palavra.

Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o
frade:

--Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a
bondade de sentar-se--e offereceu-lhe uma cadeira--que eu tenho de
levar at ao fim a misso de que me encarreguei.

Chamou a creada, mandou pr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que
continuava comendo, como se nada fosse com elle:

--O senhor morgado perdoar, porque Deus tambem perdoou!

--Com licena, pae!--disse Maria sentando-se.

E emquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza,
mais sangue frio.

Reapossava-se do seu logar, succedia  me como dona da casa, para
depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo.

Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se.

--Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que no se
pde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a me.

Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e
agarrou-se ao franciscano:

--Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho.

Sentiu-os afastar, discutindo, e ento chamou as creadas,
reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si,
tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se
riam da velha.

No dia seguinte, depois de almoarem sem trocar palavra, veiu o
medico, que observou demoradamente D. Perpetua.

Levou-o Maria  presena do pae, a quem elle expoz a situao da
doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha
podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo.

Ouviu-o o fidalgo com m sombra, sem responder.

No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella
situao, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo
d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando Joo
voltasse da Praia e comeasse a rondar por ali.

Animava-o, porm, a confiana de que triumphasse a esquadra
miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino
liberal.

Ento recolhel-a-ia a um convento, at a levar para Lisboa, ou a casar
com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a
professar.

Descanava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com Joo,
pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar:

--Venha vr, menina, venha vr que coisa to linda.  a esquadra do
senhor D. Miguel.

Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pgo do mar, vinda de
oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando
enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira,
tinham ido reunir s ilhas de baixo para o desembarque. Rindo
inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntza de
lanchas.

Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu
noivo, a sua ventura.

No torreo, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as
corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus.

At ao pr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas
ao romper da manh, quando Maria os procurava inquieta, j no os
avistou.

Por volta das onze horas comearam a ouvir-se estampidos muito
distantes. Estava travado o combate, mas no era contra o castello,
cujas muralhas se avistavam da quinta.

S podia ser na villa da Praia, onde estava Joo!

E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas,
como a do Pico do Selleiro.

Ao comeo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do
trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando
as noticias da batalha.

Gritavam viva a nau encalhada, mas essa phrase nada lhe fazia
comprehender.

Chamou o pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passra.

Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou
que a nau _D. Joo VI_ estava perdida.

--Isso pde l ser, homem de Deus--contestou Martinho--Uma nau de tres
pontes, que  a flr da nossa marinha!

Insistiram, e accrescentaram:

--A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados!

Afastaram se repetindo o grito de alegria viva a nau encalhada!

--Tinham vencido!  porque Deus os protegia--pensava ella--to poucos,
to fracos, creanas como Joo, e os academicos que tinham ido para a
villa! E elle? Saria a salvo? Teria ficado ferido ou morto?

Logo de manh o creado da prima appareceu com um aafate  cabea, a
pedir flres.

Era o signal da outra vez, querida Josepha!

Agora sim, agora confiava no futuro.

Escoltando carros de bois, cheios de _pescados_, vinha Joo entre
camaradas, enfarruscados de polvora, espingardas enramadas de louros,
cantando na musica do toque da alvorada:

               Ai, meu Deus,
               Isto  que  rir!
               Vr os caipiras
               Da Praia a fugir.

Ainda lhe parecia mentira!

Quando ao desfazer-se o nevoeiro vira a bahia cheia de grandes navios
ameaadores de portinholas, onde apontavam guelas de canhes, creu
tudo perdido, porque o grosso das foras liberaes estava a quatro
leguas, no castello, e ali s havia quinhentos homens, e onze velhas
peas montadas em ruinas de fortes, com simples soldados por
commandantes!

Ribombou a artilharia da esquadra, guarnecida de trezentas e quarenta
bcas de fogo, e ensurdecido pelo estrondear, cego do fumo, da
terraceira projectada pelas balas, julgou tudo fulminado, vencido de
vez.

Mas ao subir a nuvem azulada, reappareceram os exiguos fortes
liberaes, e os artilheiros, imperturbaveis, n'essa indifferena do
habito que, mais do que tudo, o surprehendia, apontavam agora, e
alguns tiros insignificantes, um como brinco de creanas, responderam
quella unanimidade de canhonadas.

Cau logo uma retranca  nau, e a confuso da tolda demonstrou que os
de terra no tinham perdido a serenidade.

No forte de S. Jos, o velho ilheu Manoel Caetano acompanhava os
filhos, artilheiros da costa, para os ensinar a fazerem as pontarias.

--Senhor governador--dissera ao sargento commandante--feche a porta e
guarde a chave, porque estes mancebos so muito bisonhos, e ainda no
ouviram zunir pelouros.

Ao cahir um d'elles, dirigiu-se ao que lhe restava:

--Desvia teu irmo que j pagou a sua divida  patria, e tratemos de o
vingar!

E s assim, dedicaes firmes, convices inabalaveis, poderam
resistir a esse infernal canhoneio de cinco horas.

Avanaram ao desembarque mil e tantos homens, o dobro dos que
guarneciam meia legua de areal, e a vantagem do numero e da
concentrao, deu-lhes logo o alto do Facho e o forte do Espirito
Santo.

Mas os liberaes voluntarios correram-os  bayoneta, varejaram-os com
penedos rolados  fora de braos, e ao verem-os vencidos, luctando
com as ondas e a braveza dos rochedos, gritavam-lhes que no fizessem
mais fogo, porque os desgraados, que tinham ordem de no dar quartel,
contavam ser tratados de egual frma, e ainda disparavam loucos de
desespero.

Desceram a rocha os constitucionaes, meteram-se ao mar para salval-os,
e Joo, entre outros, com agua pelos peitos, tirava a braos os
feridos, os estropiados, que a mar dentro em pouco afogaria.

As victimas da tyrannia miguelista, que at ali os arrastra, olhavam
pasmados esses homens que, para os salvar, arriscavam a vida, e no
comprehendiam a sua fraternidade.

Poz termo ao combate a chegada da columna de Villa-Flr, voltando a
tiro as lanchas do segundo desembarque, e obrigando a frota a cortar
amarras e a fazer-se ao largo, podendo agora safar-se com a enchente a
nau, que logo ao comeo da aco tocra o fundo.

Vinha Joo calculando o decisivo alcance da victoria, que devia
despertar echo em Portugal, levar as potencias a reconhecerem o unico
governo portugus legitimo, permittir a reunio de recursos para o
desembarque no continente.

Ao chegar  cidade soube que Maria voltara a casa, perdendo assim a
vantagem a tanto custo conquistada, exactamente quando era a seu favor
essa absoluta consolidao da ilha.

Conseguira mais o trama de um frade que a natural inclinao dos dois
coraes; tivera mais fora n'ella a intimidao do inferno que o
enthusiasmo da mocidade a impellil-a para elle.

Oh! quanto custaria emancipar os espiritos acorrentados ao erro, na
treva da oppresso!

Pedia-lhe perdo a carta d'ella por no o haver consultado, mas
davam-lhe a me agonisante, e a pobre estava realmente mal. Tanto
fazia esperar ali como em outra parte, j que no podiam casar to
cedo. No receiasse que a opprimissem, porque o soffrimento fizera-a
mulher. Tivera ensejo de conhecer a hypocrisia que dictava o
procedimento dos frades, e perdera o escrupulo religioso que tanto a
affligia. Concluia affirmando a sua absoluta fidelidade. Nunca fra
tanto sua como agora.

No lhe importavam, porm, as palavras.

Cara na anterior situao, estando de novo sob a alada do frade, que
continuaria a governal-a apesar dos seus ingenuos protestos.

Escreveu-lhe desesperado, queixando-se da falta de confiana que
denotava a sua precipitao.

Andava como louco. Que havia de fazer para a arrancar novamente d'ali?

Tinha a certeza de que ella, s por orgulho, se no reconhecia victima
de uma perfidia, mas que devia anciar por se vr livre da tyrannia
paterna, a que tanto custra arrancal-a.

Appellou para Fulgencio, mas o boticario desilludiu-o:

--Agora? Era pegar-lhe com um trapo quente. Ella quebrra o deposito,
recolhera a casa por _motu proprio_, j a justia no podia ir
reclamal-a, houvesse o que houvesse. Sim, que isso de tirar uma filha
a um pae no era brincadeira, nem devia ser.

Enternecido pelas supplicas sahiu a pedir por elle, mas voltou com ms
novas.

--Pdes dizer-lhe adeus. Pensa n'outra, que  o menos que falta. No
tarda o velho pela barra fra, que est na lista dos suspeitos, dos
que tramam na sombra e ajudam as guerrilhas por baixo de mo. O
Villa-Flor  tso, faz elle muito bem; ainda no bebeu agua das Covas,
nem bebe, honra lhe seja; no se amolda, pois, aos costumes da terra,
e no quer saber se o Martinho  muito ou pouco fidalgo, se vem de
reis ou de lacaios. Isso  bom para ns, que na nossa insignificancia
ainda camos de cocoras diante d'esses paparrotes, s porque teem
quatro avoengos, embora os renegassem como esse refinadissimo
corcunda, tornado em lacaio dos sotainas, quando o av ajudou a
expulsal-os, cumprindo as medidas de Pombal. Agora que a victoria de
11 de agosto poz isto na ordem,  preciso limpar a terra das hervas
damninhas, porque, meu rapaz, ainda ha muito e muito que fazer.

Ouvia-o Joo, transtornado, sem comprehender bem.

--Quer dizer que Maria se vae embora?

--No se trata d'ella, meu rapaz. O nome do pae  que eu vi na lista
dos deportados.

Foi procurar emigrados, rapazes que o podiam comprehender melhor do
que o velho, e cuja deliberao no combate lhe ganhara a sympathia.

--Mas afinal que queres tu?--dizia um academico--A rapariga gosta de
ti, no  verdade? Pois muito bem, vamos l uma noite, tira-se para
fra, d-se uma sova nos migueis que se fizerem finos, metel-a em tua
casa, e no queiras mais saber de deposito. Em teres andado tanto
tempo ao rabo da saia d'ella, e deixal-a assim levantar o vo, bem
mostras que foste educado por padres e te tornaste um maricas. Havia
de ser commigo!

--Ella  que no quer fugir. Que ha-de casar, e no sae d'ali.

--Pois tira-se mesmo contra vontade, que quem governa somos ns, e
como tu s das caras direitas que estiveram na batalha da Praia,
fecha-se os olhos  rapaziada.

--Preciso consultal-a primeiro...

--O que tens  medo d'ella. Pois deixa-a ir para o primo, que em
chegando a Lisboa no se lembra mais de ti. Aquillo  que  terra!

--No durmas sobre o caso--lembraram-lhe--olha que elles no tardam a
ser corridos, que isto agora  dito e feito.

Escreveu-lhe, pintando o horror d'essa separao. Estava preparado
para a ir buscar, acompanhado por amigos. No havia perigo, e no caso
de fora maior tinha ella completa justificao aos olhos de todos. E
que importava que os censurassem, se a sua felicidade os faria
esquecer tudo? Se no acceitasse  porque nunca lhe quizera bem,
porque cedera apenas a um capricho.

       *       *       *       *       *

Quando viu o pae exultando pela ordem de deportao, arrependeu-se
amargamente Maria de ter voltado a casa.

S ento o morgado quebrra o teimoso silencio, para se dar como
disposto a tratar a mulher, mas procurando prender assim a filha 
esperana de salvar a me.

Levando Maria para Lisboa, realisaria completamente o seu velho plano.

Mas comprehendia bem que Joo devia tentar retl-a, e queria influir
n'ella astuciosamente, j que pela fora nada poderia contra os que se
firmavam em duas victorias, e esmagavam os adversarios.

Para estar precavido, augmentra o numero de homens de trabalho, a
pretexto das vindimas, e tinha ali muitos dos guerrilhas do Pico do
Selleiro, com armas  mo.

Sentia ella os olhares dos guardas, mas no duvidava que, se quizesse,
Joo a viria buscar n'um momento.

Ainda a carta d'elle a exaltou por instantes, na seduco da aventura,
mas repugnava-lhe o coxixar dos mantos apontando-a em mancebia; as
invejosas, as rivaes voltando-lhe a cara indignadas, e mais uma vez
impoz-se-lhe o orgulho.

Respondeu-lhe com serenidade, meditando muito as palavras.

Devia continuar como enfermeira da me, que adoecera por sua causa, e
agora ia procurar a cura. Demais, viver com elle, sem casarem,
tornava-se indigno d'ambos. Era descer, abandalhar-se aos olhos de
todos, e talvez at aos d'elle proprio. Haviam de unir-se dignamente,
como mereciam. De outra maneira, no. S Deus sabia o que lhe custava
separarem-se, mas, como sua mulher, havia de ser a guarda da sua
honra, e no podia comear por sacrificar-lhe o bom nome. Se era
differente das outras, por isso mesmo lhe devia querer mais. Concluia
insistindo que, da mesma forma, ficariam separados quando elle
embarcasse na expedio liberal ao continente, e ella ficasse na ilha
 sua espera. Assim at era melhor, porque iriam encontrar-se em
Portugal. At l, pois, e ou seria d'elle, ou de ninguem.

E como n'essa madrugada em que a chegada do navio, que a devia levar,
o decidira a declarar-se, Joo, depois de a ter visto embarcar
desfallecida, olhos vermelhos, ao lado da cadeirinha da entrevada, foi
pr-se  janela.

Viu o barco largar d'entre as escunas da laranja, que baloiavam como
beros o leve bojo, finas, veleiras, atrevidas; que fugiam debaixo de
tempo, antes que o suste as dsse  costa; ou redemoinhavam como
pedaos de cortia, quando os inglezes, reconhecendo se impotentes
para arcarem com a tormenta, fechavam escotilhas e emborrachavam-se na
coberta, para no darem pelo naufragio.

Oh! Mas d'esta vez iria aps ella, como ento resolvera, sentindo se
homem ante o risco de a perder; iria aps ella, a essas terras onde
tudo se decidia, j sem a emulao de outr'ra, integrado nas mesmas
aspiraes dos emigrados, tendo como elles ideias a affirmar, victimas
a remir.

       *       *       *       *       *

Desde ento s tem um fito a sua vida, partir como ella, e essa ideia
fixa mantem-o atravez dos momentos de desanimo que tiram o caracter de
decisivo ao combate da Praia; a falta de dinheiro, a intriga
diplomatica, as rivalidades da familia liberal.

E essa obsesso leva-o a consagrar-se como um fanatico  conquista do
archipelago, com um navio adquirido por subscripo.

Empolga-o a figura prestigiosa de D. Pedro, indo  ilha organisar a
expedio liberal, pr-se  frente d'ella; e n'esse imperador de
trinta annos, que abdicra duas coras, assignra duas constituies,
proclamra a independencia de um imperio, fra gro-mestre da
maonaria, e interpretra em dois hymnos a sua ingenua crena liberal;
n'esse principe, hostilisado em Portugal por ter emancipado o Brasil,
guerreado no Brasil por se preocupar com Portugal, via agora o
desenlace do conflicto, pela garantia de ordem que dava  Europa a
cathegoria do novo general dos que, desde Vinte, se batiam pela
liberdade.

Todos queriam partir, e os officiaes emigrados, que no cabiam nos
quadros das foras, constituiram o Batalho Sagrado, para terem a
honra de fazer parte do exercito libertador, aonde aos veteranos do
Rousillon, aos soldados da guerra da peninsula e da legio portugusa
ao servio de Napoleo, se juntavam os voluntarios de 23, os
academicos, os alistados agora, os pescados  esquadra, estrangeiros
vibrantes da indignao que agitava a Europa contra a oppresso
portugueza, toda a juventude sangrada aos Aores para a libertao de
Portugal.

Ao partirem da ilha de S. Miguel, onde se concentrra a expedio,
cantavam enthusiasmados o novo hymno constitucional, que D. Pedro
escrevera ao vir lanar-se na lucta pela carta outhorgada, pelo throno
da filha:

               Da rainha e da carta o pendo
               J nos mares se v tremular,
               Nobre esforo que a honra dirige,
               Vae de Lysia a desgraa acabar.

               D'entre a noite no carcere horrendo,
               Resurgidos ao dia fatal,
               Inda vertem heroes portuguses
               No patibulo o sangue leal.

               Nas entranhas da escura masmorra
               Onde reina da morte o terror,
               Outros mil inda esperam constantes
               Igual sorte c'o mesmo valor.

               Mesta Lysia em gemidos implora
               Que as algemas lhes vamos quebrar;
               J nas praias as mes lagrimosas
               Pelos filhos se escutam bradar.

A cada quadra repetia-se o estribilho:

               Foge, foge,  tyranno e no tentes
               Ferreo sceptro mais tempo suster;
               Que nas aras da patria juramos
               Viver livres, ou livres morrer.

Como um signal de que o ceu respondia ao appello do hymno

               Nossos votos so carta e rainha;
               Nosso guia quem ambas nos deu;
               Defendemos a causa do mundo;
                por ns a justia do ceu.

appareceu azul o sol, velado por tons de anil, pondo em tudo reflexos
ceruleos, casando se s cres da nova bandeira azul e branca, as cres
do lao liberal de Vinte, o branco da espuma da onda, o puro azul do
ceu de Portugal.

Fez-se ao largo temerariamente, em velhos transportes comboiados por
uma esquadrilha, esse punhado de homens, cerca de sete mil e
quinhentos, o numero que a tradico para sempre fixou, n'uma
commovida gratido.

Realisava-se emfim o longo sonho do exilio, e, ao saltarem no
Mindello, prostravam-se os expatriados, beijando o querido solo, cujas
poas de sangue reflectiam as rubras tintas d'uma nova aurora.

Apertando convulsos as armas fraticidas, com que eram forados a
apoiar os gritos de liberdade, os votos de egualdade e fraternisao,
pediam novas foras a essa terra que ainda defenderiam cobrindo-a com
o retalho do seu corpo, osculando a na crispao da ultima agonia;
sentiam-se felizes ao tocarem-a, embora para morrerem n'ella,
ameaados por oitenta mil soldados, e pelo fanatismo catholico mantido
por frades e jesuitas entre as populaes a libertar.

Na patria ensanguentada, apunhalada pelos ps das forcas, oscilavam
garrotados, como pendulos sinistros, marcando  tyrannia a hora fatal.




XII


Observava Maria atravs das grades.

Iam as ruas d'Evora coalhadas de soldados miguelistas, e ao convento
chegavam novas da retirada de Santarem.

-- o fim da guerra, descana--dizia-lhe uma freira de meia edade,
amarela de cera, vislumbres de juventude no olhar vivo, que tambem
observava para fra.

--De quantas batalhas o tem dito--respondeu Maria com desanimo.

E lanou um olhar de desesperana  fria cella, nua, sem conforto, 
cama,  arca, a essa cruz negra que era o sllo do captiveiro.

--A guerra prolongar-se-ha como os pesadlos que me endoidecem n'este
carcere.

--Para que has de descorooar?

Ouvia-a, muito abatida, sem desfitar os bandos.

--O peior est passado--continuou a freira.

E n'um suspiro:

--s nova, tens vida para tudo.

--Ha quanto tempo que m'o diz!

--Desde que viestes.

--No podia ser mais feliz, encontrando to bom corao.

--Podias, se me tivesses conhecido mais cedo. Aconselhar-te-ia de
outra forma, e decerto no estarias aqui.

--Agora no tem remedio!

Continuavam a olhar para fra.

--Admira-me no avistar o pae.

--No deve ter muita vontade de ver-te, nem suppe que ters grande
gosto em o encontrar--disse a freira com amargura.

--O mal que elle me tem feito!--murmurou Maria.

--Conheo muito bem o senhor meu primo! Era outro que tal o senhor meu
pae, Deus lhe perde. Tinham mulheres e filhas por escravas, e
serviam-se d'estas prises para se desfazerem das filhas segundas,
para imporem casamentos s morgadas como ns. Infelizes tempos!
Desgraadas que somos!

Fixou Maria novos grupos, e perguntou:

--Se o pae continua a acompanhar D. Miguel, como desde que saiu
desesperado d'aqui, deve ter vindo com elle.

--Sim. Ha de estar na cidade.

--S se lhe succedeu alguma coisa...

--Quanto a isso est descanada. O infante viu a guerra de longe, no
 como o senhor D. Pedro, que acode s baterias debaixo de fogo,
aponta as peas como um artilheiro, e apparece no ardr da peleja a
animar os seus.

--A no ser da vez que foi ao Porto para incitar o cerco...

--Que por signal andou abandalhando-se em Braga, com mulheres de m
nota, fazendo flostrias a cavallo para lhes agradar, emquanto que
outros morriam pela sua teimosia de ter cadeias atulhadas de
innocentes, e conventos cheios de desgraadas como ns.

Na preocupao da rua, Maria respondeu:

--Ento  porque no quer ser visto.

--Sabe os sentimentos que inspira.

E encarando com ella.

--No  por lhe querer bem que pensas n'elle, no  verdade?

Maria titubeou:

--Apesar de me pretender enterrar em vida, apesar do que fez  me...

--Se elle tivesse vergonha nem voltava a esta terra, onde veiu deixar
os ossos da desgraada. Soube-se dos seus maus tratos, e todos lh'o
levaram a mal, acredita. Olha que muitos que se dizem realistas, e o
applaudem e a outros que taes,  s por medo d'essas viboras, que se
vingam nos inermes, e fogem a sete ps dos que esto armados.

Maria abraou-se a ella, chorando:

--Perde-me, D. Anna, mas como lhe hei de querer, se me tem tratado
cruelmente, se torturou a desgraadinha, se lanou Joo no horrr da
guerra...

--Deixa-o, filha, no penses mais n'elle.  como se tivesse morrido. E
pede a Deus que ainda lhe possas pagar em caridade, nos seus ultimos
dias, que os ha de ter bem negros!

--O mal que lhe desejo me venha a mim.

--Elle no pensa mais em ti, descana. Ha que tempos no me escreve,
no me fora a responder-lhe n'essas cartas em que te dou a caminho
da profisso, n'uma vida de penitencia.

--Tem sido to ba para mim.

--O que mais me custa, Maria,  conter-me, lanar ao papel essas
mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece!

--Ninguem o convence.

--E elle tirava-te logo d'aqui.

--Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim!

--No ha remedio seno dissimular, que felizmente ha de ser por pouco
tempo.

--Agradeo lhe a ba inteno, D. Anna, mas j no espero ver fim a
isto.

--Pois no vs que a falta das cartas em que elle teimava para que
professasses, no querendo que um dia viesses a casar, mostra que j
no tem cabea para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de
terreno, apertava-me elle para que te lanassem o habito. Agora no
tuge nem muge. Que mais queres?

--Talvez desconfie da sua amizade por mim.

--Como? se s tu a conheces, e no ha muito tempo, porque ao principio
fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando
me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus,
que, como tens visto, serve para as mais torpes devassides, no me
desmoralisaram como ao geral das que c veem parar. Fizeram-me
conservar  parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes
na cella ou na grade, sem dar confiana a nenhuma. Segui sempre com
sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as
pobres enclausuradas. Mas no me manifestei aqui dentro, porque de
nada servia, como as freiras constitucionaes postas a po e agua no
carcere, foradas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade
de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas
trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via
de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas,
para que no os roubem e assassinem.

--Pois tem feito isso?

--Tenho. Mas ai de mim se o suspeitassem!

--Ah! D. Anna, que tem sido a minha verdadeira me!

--No quiz que soffresses o que eu soffri. E tenho o gosto de te haver
salvo de vez. Sem mim, ao teu genio assomado, caas nos enganos que te
armaram, professavas, e adeus para sempre.

--E se elle morrer, fao-o, tia!

--Est a acabar a guerra, foste feliz!

--Quantas vezes o tenho acreditado, e quantas a realidade me
entristeceu!

Recordou a sua longa espectativa, passando por alternativas dolorosas,
ora esperando Joo no dia seguinte, ora julgando nunca mais o vr.

Acompanhara-o em espirito, no desembarque no Mindello, e tivera a
mesma desilluso que elles, ao appellarem para os manifestos, na
repugnancia de derramar sangue, contando mais com a adheso em massa
do que com a dolorosa guerra civil.

Exultra na recepo do Porto, a cidade em delirio, damas de azul e
branco, lanando mais flores a esses queridos soldados, por entre a
tempestade dos vivas aos libertadores.

Mas em breve tornaram-se em lagrimas os risos, em crepes os laos
bicolores, em chuva de granadas as de rosas, e em bravas vivandeiras
as donzellas, que os realistas offereciam em pasto  soldadesca, como
premio do assalto.

Como desejaria estar entre ellas, correr animosa s trincheiras,
servir polvora e bala aos luctadores, accudir aos feridos, estar ao
lado de Joo quando o trouxeram n'uma maca, exangue!

Logo sobre as noticias da entrada triumphal viera a sangueira, a
chacina dos combates, investidas ferozes contra o Porto, e a cidade em
risco de invaso, laos constitucionaes deitados fra, gente prestes a
fugir pela barra, militares rapando os guerreiros bigodes.

To pouco estavel era ainda a causa, que d'um momento para o outro se
receiava a priso, o supplicio; e os que, como Joo, luctavam, tinham
agora a dupla certeza da morte, ou no campo, ou na forca.

Que desditosa influencia a sua n'esse rapaz, arrancado ao socego da
terra, ao conforto da casa, para dormir ao relento, passar a fome do
cerco, tremer inquieto sob esse maldito bombardeamento, usado pelos
miguelistas em requintes de tortura, em tiros descompassados, para
maior sobresalto,  hora do jantar para tirar o socego da meza, em
pontaria aos hospitaes para augmentar o horror.

Tremia aos symptomas do cannibalismo da lucta, o prazer do pormenor em
que um general communicava terem ficado os bravos officiaes do
Batalho Sagrado com as cabeas abertas de meio a meio, pelos celebres
drages de Chaves que depois se passaram para os liberaes; o auto de
f planeado pelos frades de S. Francisco, deitando fogo ao convento
para queimarem o batalho de caadores 5, quando os soldados dormiam
fatigados da batalha de Ponte Ferreira!

Para a fazerem professar, no interesse do dote, na avidez de dadivas
do morgado, no odio ao noivo liberal, aggravavam-lhe as freiras as ms
novas, dando os constitucionaes como perdidos, e mostrando o evidente
castigo do ceu na morte de certos voluntarios academicos, a quem
attribuiam profanaes no convento de Santo Antonio do Livramento, de
Angra, accusando-os, como outr'ora aos Templarios e aos Judeus, de
fazerem alvo da imagem do santo no nicho da frontaria.

A todos os momentos receiava a noticia de que Joo morrera, e um dia
as freiras, qual mais havia de arreliar a do malhado, foram dar-lhe
hypocritas condolencias porque elle recolhera ao hospital, gravemente
ferido n'uma d'essas teimosas sortidas que dizimavam a guarnio.

Tivera-o por morto, como lhe insinuavam, negando frouxamente, mas
falando-lhe das consolaes que a egreja reservava a todas as dres,
insistindo em que se votasse ao divino esposo, j que to
misericordiosamente a libertra dos laos do mundo.

Tomra ento a tia, para com a abbadessa e as mais ferozes madres, o
compromisso de a decidir, e, recolhendo se a catechisal-a, abrira-se
com ella.

Comera por uma reprehenso, em que o olhar brilhra apaixonado, e o
rosto pallido, enrugado, se fra animando gradualmente, at dar longes
de outros tempos, da juventude impetuosa e ardente, do momento em que
amra e fra amada, em que se tornra mulher e devia ser me.

--Que mal que fizeste em resistir! Como desperdiaste a mocidade. Em
nome d'umas formulas vasias sacrificou-te, e a elle, o teu orgulho! E
se te morrer? Que recordao te fica para evocares o breve tempo que
no volta mais?

Insistira, ao vl-a debulhar-se em lagrimas:

--Chora, desabafa, que deves sentir um mortal remorso; chora as duas
vidas que despedaaste, e convence-te de que nunca o amaste, porque o
verdadeiro amor no raciocina, porque  a suprema lei da vida, tudo se
lhe amolda, e elle no!

--Que hei-de fazer agora, seno professar--bradava ella,
arrepelando-se.

--O teu orgulho ainda! Cala-te, vaidosa, que darias mais uma pessima
freira. Vive para elle,  o teu dever.

--Para elle? E se morreu?

--Vive para a memoria d'elle, mas nunca a dentro d'um mosteiro, porque
deves lembrar o mal que d'estas casas te adveiu.

--Ento que hei-de fazer?

--Porque no pensaste em fugir d'aqui, em ires acudir-lhe, pr-te 
sua cabeceira, tratal-o, acarinhal-o, cerrar-lhe os olhos se Deus o
levar, como fazem as fortes mulheres que esto velando o leito
d'outros feridos, as que no desampararam os maridos na retirada e na
emigrao?

E como ella a olhasse como pasmada:

-- que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor
que lhes dedicam, so afinal as que menos o merecem!

--Tenha d de mim, no me trate d'essa frma!--supplicava ella.

Ento compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom:

--No tornas mais a falar em profisso, haja o que houver?

--No, no torno.

--Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que
estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber
exactamente o seu estado, mas no ds credito seno ao que eu te
disser, e cala-te com isto.

Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez
usual:

--Que elle viva ou morra, os liberaes ho de triumphar, pois ao que se
tem soffrido no  possivel vencel-os, pelo desespero com que se
batem. Os conventos acabaram, e temos de sar todas d'estes logares de
maldio. Mas os votos ninguem os tira, os padres no casaro as que
os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, j nada do mundo lh'a
pde restituir!

Ento afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era:

--Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o,
mas tenho vivido desde ento evocando as horas em que me pertenceu. E
esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religio, porque a
outra perdi-a pouco a pouco, ao vr da parte de dentro os ministros do
Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os
intermediarios da sua graa, do seu perdo!

Conseguiu D. Anna saber d'elle, e pl-os em relaes. Melhorra
depressa, era j alferes, e a Torre e Espada assignalara-lhe a ferida.

Depois tivera-o a dois passos, na diviso do duque da Terceira que
atravessou n'um relampago do Algarve a Lisboa, levando adiante de si
os miguelistas, que fugiram espavoridos d'esses dois mil homens,
incitando em desforra as populaes a tratarem-os como lobos.

E o fanatismo catholico dos soldados e das tropas apunhalou no
Algarve, queimou vivos e arrastou  cauda dos cavallos os prisioneiros
liberaes; martyrisou em Beja portadores de ordens; queimou dois
constitucionaes forando as irms a assistirem  execuo; despedaou
 machadada trinta e cinco presos politicos no castello de Extremz,
incluindo uma creana de seis annos!

Atravessra Telles Jordo o Tejo para fulminar os liberaes, como
esmagava os presos de S. Julio da Barra, mas ao vl-os armados,
decididos, o valento que esbofeteava os miseros encarcerados, lhes
sujava a comida e os obrigava a rezar o Tero, fugiu covardemente, at
que o alcanaram em Cacilhas, vingando os camaradas torturados.

E fugiram de Lisboa os miguelistas que ainda na vespera, em requintes
de barbaridade, tinham enforcado um liberal, para o impedirem de gosar
o triumpho dos seus, j na Outra Banda; que haviam ensanguentado a
cidade em barbaras represses.

Mas nem d'essa vez findra a guerra!

Os miguelistas, que haviam recusado salvar a esquadra, aprisionada no
Tejo pelos franceses, dando em troca a liberdade aos afflictos
prisioneiros voltaram  carga e encheram de cadaveres, de ruinas, os
arredores da capital.

Saldanha descercra Lisboa, e D. Pedro, em homenagem, mandou collocar
no pedestal da estatua de D. Jos o medalho do av, o marquez de
Pombal, que os jesuitas haviam arrancado. E assim a epopeia liberal,
ligada  obra de Vinte,  tentativa patriotica de 1817, mostrou se o
logico desenvolvimento da obra de Pombal, que se desenvolvia,
alargando a todas as ordens religiosas, fautras do retrocesso,
incitadoras dos morticinios, a extinco dos jesuitas.

Arrastara-se a lucta sanguinaria, e de retirada em retirada tinham
vindo parar ali as foras, ainda importantes, que os mais teimosos
pretendiam levar ao campo, a uma derradeira tentativa.

Olhavam Maria e D. Anna os grupos de soldados, querendo lr-lhes no
rosto as decises d'essa hora suprema, em que as divises de Saldanha
e Terceira avanavam contra Evora para os esmagar, ou reduzir 
rendio.

De dentro chegavam-lhes successivas noticias, andavam j em
negociaes, decidira capitular o conselho de guerra, e estava
assignada a paz.

Ouviram ao longe o hymno constitucional, confirmando a noticia, e ao
som da musica, ao ruido atroador dos vivas que se approximavam,
desappareceram, cabisbaixos, os soldados de D. Miguel, e a rua ficou
deserta, emquanto ao longe avanava a onda libertadora.

--E Joo viria com esses?--exclamava Maria, em lagrimas de jubilo,
abraada  freira.

Ganhra o enthusiasmo a cidade opprimida, dos carceres do convento
irrompiam freiras desgrenhadas a saudarem das grades a victoria.

Chamaram Maria ao parlatorio, e as duas mulheres desceram logo.

Em vez de Joo, esperava-as o morgado.

Por excepo no se embrigara, na dr do derruir das ultimas
esperanas, e parecia ebrio, cambaleando, pallido, coberto de suor
frio, o olhar pasmado, as palpebres cerrando-se a meudo.

Custava-lhe a encarar a luz, como se o deslumbrasse a evidencia do
triumpho.

Depois de saudar ligeiramente a prima, dirigiu-se  filha:

--Menina, prepare-se para me acompanhar.

Maria recuou attnita. Dava-se o que receira. Tentava o pae
reapossar-se d'ella.

--Aonde, senhor?--perguntou afflicta.

Fazendo-se forte no ultimo poder que lhe restava, retorquiu o morgado:

--No aprendeu a ser obediente? Pois ainda est em edade de se tornar
bem ensinada. Obedea-me!

D. Anna falou n'uma voz grave:

--Senhor, no lhe basta o mal que tem causado? No se d por
satisfeito?

Descarregou Martinho Vasques a colera que para ellas reservara,
reduzido  impotencia pela conveno de Evora Monte:

--Que significam essas palavras, prima?

--Que felizmente j posso desabafar e dizer-lhe tudo o que sinto, sem
receio de que Maria soffra por minha causa.

--A prima sempre foi uma doida!--explodiu elle--Vejo que fiz mal em
confiar-lhe minha filha. Mas estou a tempo de emendar o erro.

E voltando-se para Maria:

--Porque espera? No ouviu o que lhe mandei?

--Escusa exaltar-se, senhor--respondeu a freira--Esta menina est sob
a guarda do mosteiro, e s pde sar por ordem superior.

--Reclamo-a eu, seu pae, com o mesmo direito com que a entreguei.

--Mas felizmente os seus j no governam, e agora j no se entregam
victimas aos algozes.

--Tia!--interveiu Maria--pelo amor de Deus no o offenda. Bem lhe
basta o seu desgosto.

--Ainda no ests pervertida, filha. Pois bem, vamos, que a dignidade
do teu nome impe-te o dever de seguires teu pae, embora vencido.

-- tarde, pae!

--Que significa isso!

--J me sacrifiquei bastante. No posso mais.

--Ento recusas te a acompanhar-me?

--O senhor j nada representa para ella. No quiz sepultal-a viva
n'uma tumba? Faa de contas que a matou, como  me, e retire-se. Quem
procede como o senhor, perde o direito a ser tratado como pae. E v
esconder-se, para no passar pela vergonha de ter a sorte que merece.

Tiniram esporas na portaria, arrastaram-se espadas, e passos d'homem
subiram a escada do locutorio.

Era Joo.

Tendo ouvido as ultimas palavras, dirigiu-se respeitoso ao morgado:

--Senhor, tanto reconheo os seus sagrados direitos, que peo
respeitosamente a v. ex.{a} a mo de sua filha.

Elle recuou um passo:

--Vem zombar dos meus cabellos brancos?

Levou a mo ao lado, para arrancar da espada, mas deixou pender os
braos, desanimado.

--Quebrei-a na esquina da rua a minha velha companheira para no a
entregar aos seus. Estou desarmado. Pde insultar-me!

Tinham as duas mulheres abandonado a grade e, correndo  sala das
visitas, metiam-se de permeio.

Joo respondeu commovido:

--Senhor, acolhemos a todos com o perdo, abrimos os braos aos
camaradas a quem a sorte das armas foi adversa, e n'esta hora solemne
no ha logar para rancores. Fraternisam os filhos da mesma terra. Pois
perde-nos tambem v. ex.{a}, e a nossa alegria lhe far esquecer os
seus desgostos.

Dava as mos a Maria, devorando-lhe com os olhos o rosto muito branco,
onde as olheiras pareciam mais fundas, e a dentro d'ellas maiores os
bellos olhos claros, que a melancolia enriquecera de ternura.

Embevecia-se ella no tostado rosto de Joo, envolto na fina barba,
bebendo a vida n'esse firme olhar que adquirira lampejos de energia
varonil.

--O vosso perdo no passa de uma caridade de phariseus!--atirra-lhe
o morgado em resposta.

Debalde procurava D. Anna convencel-o, emquanto Joo e Maria se
contemplavam, anciosos por se abraarem.

Ainda ella teve corao para sentir o desespero do pae:

--Fique comnosco, senhor! Na nossa ventura ha logar para si.

--No! No!--retorquiu teimoso o velho--J no tenho filha, j no
tenho familia! O meu logar  junto do principe proscripto.

Revia D. Miguel na commoo da retirada, abotoado na sobrecasaca azul,
de chapu  Napoleo; dando a mo a beijar ao povo fanatisado, com
cuja ignorancia se identificava, merecendo o mesmo perdo pela
inconsciencia em que viviam; alheio s transformaes do tempo,
contando ainda com o milagre; victima tambem, elle o chefe dos
algozes, victima da me quo o incitra, do anterior estado social que
o educra, o tornra a sua bandeira, o seu symbolo, e agora o
arrastava comsigo.

Joo tambem lhe pediu.

--No! No!--insistia o morgado--Somos o passado, que no transige!
Tambem ha de chegar o nosso dia, e S. Miguel Archanjo ha de voltar!
Adeus, filha desventurada. O meu logar  junto d'elle.

Ainda correram  janella.

Afastava-se aniquilado, braos pendentes, sem o bordo que lhe dava o
ar magestoso, sem a espada a que se apoiava, desempenando-se;
irreconciliavel como o passado que ia afogar na sombra do tumulo a sua
amarga desesperana.

       *       *       *       *       *

--S tu me restas, Joo!--e Maria deitou-se-lhe ao pescoo.

--Ha quanto tempo que podia ser!--queixou-se elle, ainda cioso da
felicidade esperdiada.

--No te amava tanto como agora! Sinto-o hoje, porque s sabe amar
quem soffreu muito!


FIM




INDICE DOS CAPITULOS


     I                            5
    II                           25
   III                           51
    IV                           75
     V                           97
    VI                          121
   VII                          141
  VIII                          167
    IX                          197
     X                          227
    XI                          255
   XII                          281





End of Project Gutenberg's Os Bravos do Mindello, by Faustino da Fonseca

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS BRAVOS DO MINDELLO ***

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