The Project Gutenberg EBook of As Minas de Salomo, by Rider Haggard

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Title: As Minas de Salomo

Author: Rider Haggard

Translator: Ea Queirs

Release Date: July 7, 2007 [EBook #22015]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS MINAS DE SALOMO ***




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AS MINAS DE SALOMO




Porto--Typ. de A. J. da Silva Teixeira

Rua da Cancella Velha, 70




RIDER HAGGARD


AS MINAS DE SALOMO


Traduco revista

POR

EA DE QUEIROZ


PORTO
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON
Casa editora
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1891

Todos os direitos reservados




INTRODUCO


Agora que este livro est impresso, e em vesperas de correr o mundo
largo, comea a pesar fortemente sobre mim a desconfiana de que, para
elle ser aceitavel, muito lhe falta como Estylo e como Historia.

Emquanto  Historia, realmente, no pretendi, nem tentei, metter n'estas
paginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem  terra
dos Kakuanas. Ha todavia n'esse estranho povo coisas que mereciam exame
detalhado e lento:--a sua Fauna, a sua Flora, os seus costumes, o seu
dialecto (to aparentado com a lingua dos Zuls), o magnifico systema da
sua organisao militar, a sua arte subtil em trabalhar os metaes... Que
interessante estudo se faria, alm d'isso, com as lendas que ouvi e
colleccionei cerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha
de L! Que curiosa, tambem, a tradio que entre elles se tem perpetuado
sobre os _Silenciosos_, os dois colossos que jazem  entrada das
cavernas de Salomo! No emtanto pareceu-me (e assim pensaram o baro
Curtis e o capito John) que seria mais efficaz contar a historia a
direito, e sccamente, deixando todas estas particularidades sobre a
regio e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, n'um tomo
especial, com minudencia e largueza.

Resta-me pois implorar benevolencia para a minha tosca maneira de
escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a penna--e
sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios litterarios.
Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: no sei, nem
possuo auctoridade para o decidir: mas, na minha barbara ida, as coisas
simples so as mais impressionadoras--e mais facilmente se deve
acreditar e estimar o livro, que venha escripto com sria e honesta
singeleza. _Lana aguda no precisa brilho_, diz um proverbio dos
Kakuanas: e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a
apresentar a minha historia, na, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem
lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados gales da
Eloquencia.

Allo Quartelmar.




AS MINAS DE SALOMO




CAPITULO I

ENCONTRO COM OS MEUS CAMARADAS


 bem estranho que n'esta minha idade, aos cincoenta e seis annos
feitos, esteja eu aqui, de penna na mo, preparando-me a redigir uma
historia!

Nunca imaginei que to prodigiosa occorrencia se podesse dar na minha
vida--vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa...
Sem duvida, por a ter comeado to cedo! Com effeito, na idade em que os
outros rapazes ainda soletram nos bancos da escla, j eu andava
agenciando o meu po por esta velha colonia do Cabo. E por aqui fiquei
desde ento, mettido em negocios, em servios, em travessias, em
guerras, em trabalhos--e n'essa dura profisso, que  a minha, a caa ao
elephante e ao marfim. Pois, com toda esta diligencia, s ultimamente,
ha oito mezes, _arredondei o meu sacco_.  um bom sacco.  um sacco
grado, louvado Deus. Creio mesmo que  um tremendo sacco! E apesar
d'isso, juro, que para o sentir assim, redondo e soante entre as mos,
no me arriscava a passar outra vez os transes d'este terrivel anno que
l vai. No! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pelle intacta e
com o sacco cheio. Mas eu no fundo sou um timido, detesto violencias, e
ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia pois,  coisa estranhissima que assim me lance a escrever um
livro. No est nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras--ainda
que, como outro qualquer, aprecio as bellezas da Santa Biblia e gzo com
a _Historia do Rei Arthur e da sua Tavola Redonda_. No emtanto tenho
razes, e razes consideraveis, para tomar a penna com esta mo inhabil
que ha quasi cincoenta annos maneja a carabina. Em primeiro logar, os
meus companheiros, o baro Curtis e o digno capito da Armada Real John
Good (a quem chamo por habito o capito John) pediram-me para relatar
e publicar a nossa jornada ao Reino dos Kakuanas. Em segundo logar,
estou aqui em Durban, estirado n'uma cadeira, inutilisado para umas
semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquelle infernal leo
me traou a cxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os
annos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que
apanhei a trincadella.  duro que depois de um homem matar, no decurso
da sua honrada carreira, quarenta e cinco lees, seja justamente o
ultimo, o quadragesimo sexto que o file e use d'elle como de tabaco que
se masca.  duro! Quebra a rotina, a estimavel rotina--e para mim,
pessoa d'ordem, qualquer surpreza me sabe peor do que fel). Em terceiro
logar, alm d'encher os meus ocios, componho esta historia para meu
filho Henrique, que est em Londres, interno no hospital de S.
Bartholomeu, estudando Medicina.  uma maneira de lhe mandar uma
longuissima carta que o entretenha e que o prenda. Servio de doentes,
n'uma enfermaria abafada e lobrega, deve pesar intoleravelmente. Mesmo o
retalhar cadaveres termina por ser uma rotina, rica em monotonia e
tedio:--e assim esta historia, onde tudo ha menos tedio, vai por uns
dias levar ao meu rapaz uma saudavel e alegre sensao de aventuras, de
viagens, de fora e de vida livre. E emfim, como ultima razo, escrevo
esta chronica, por ser, sem duvida, a mais extraordinaria que
conheo--na Realidade ou na Fabula. Digo extraordinaria mesmo para os
Leitores profissionaes de Romances--apesar de n'ella no haver mulheres,
alm da pobre Fulata. Ha Gagula, sim. Mas esse monstro tinha cem annos,
pouca frma humana, e no sensibilisa. Em todas estas duzentas paginas,
realmente, no passa uma _saia_. E todavia, assim escasso como  nas
graas do Feminino, no creio que exista um caso mais raro e mais
captivante.

A unica vez que tive de fazer publicamente uma narrao foi diante dos
Magistrados, no Natal, quando depuz como testemunha sobre a morte dos
nossos serviaes Khiva e Vanvogel. Por essa occasio comecei assim,
muito dignamente, com approvao de todos, com louvores do periodico de
Durban:--Eu, Allo Quartelmar, residente em Durban, no Natal,
_gentleman_, declaro e juro que...--No me parece porm que seja esta a
adequada maneira de principiar um livro. Alm d'isso posso eu affirmar,
em typo de imprensa, que sou um _gentleman_? O que  um _gentleman_? O
que  ser _gentleman_? Conheo aqui Cafres ns que _o so_: e conheo
cavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e anneis
d'armas nos dedos, que _o no so_. Eu, pelo menos, nasci
_gentleman_--apesar de me ter volvido depois n'um pobre e simples
caador de elephantes. Ora, se n'essa carreira e nos acasos que ella me
trouxe, permaneci sempre _gentleman_, no me compete a mim avaliar. Deus
sabe que com valente esforo procurei conservar-me _gentleman_--como
nascera. Tenho morto,  certo, muito homem: mas estas duas mos, bem
haja a minha fortuna, esto puras de sangue inutil. Matei para que me
no matassem. O Senhor deu-nos as nossas vidas, como sagrados depositos
que lhe pertencem e que devemos defender. Guiei-me sempre por este
principio: e conto que o bom Deus, um dia, me dir l em cima--_Fizeste
bem, Quartelmar_! Este mundo, meus amigos,  aspero de atravessar: e os
destinos violentos impem-se por vezes com uma logica inexoravel. Aqui
estou eu, homem ordeiro, timido, bonacheiro, que, constantemente, desde
creana, me acho envolvido em carnificinas! Felizmente nunca roubei. Uma
occasio,  verdade, abalei com quatro vaccas que pertenciam a um Cafre.
Mas o Cafre tinha-me rapinado sordidamente--e desde ento essas quatro
vaccas trago-as sempre na consciencia. S quatro vaccas. Pois tm-me
pesado mais que uma manada de gado!

       *       *       *       *       *

Foi ha dezoito mezes, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens
que deviam ser meus companheiros n'esta aventura singular  terra dos
Kakuanas. N'esse outono, eu andra n'uma grande batida aos elephantes,
para l do districto de Bamanguato. Tudo n'essa expedio me correu mal,
e por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas, larguei para as
minas de Diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei
o carro e o gado, debandei os caadores, e tomei a diligencia para o
Cabo. Ao fim d'uma semana, no Cabo, descobri que o Hotel me roubava
infamemente: alm d'isso j vira todas as curiosidades, desde o novo
Jardim Botanico que ha de certamente conferir grandes beneficios 
cidade, at ao novo Palacio do Parlamento que, tenho a certeza, no ha
de conferir beneficios nenhuns: de sorte que decidi voltar para o Natal
pelo _Dunkeld_, pequeno vapor costeiro que estava nas docas  espera do
paquete de Inglaterra, o _Edinburgh Castle_. Tomei passagem, e fui para
bordo. N'essa tarde chegou o _Edinburgh Castle_: os passageiros que
trazia para o Natal transbordaram para o _Dunkeld_, e levantamos ferro
ao pr do sol.

Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o _Dunkeld_, havia
dois que me despertaram logo certo interesse. Um d'elles, um homemzarro
de perto de trinta e cinco annos, tinha os hombros mais cheios e os
braos mais musculosos que eu at ahi encontrra, mesmo em estatuas.
Alm d'isso cabellos ondeados e cr d'ouro; barbas ondeadas e cr
d'ouro; feies aquilinas e de crte altivo; olhos pardos, cheios de
firmeza e de honestidade. Varo esplendido que me fez pensar nos antigos
Dinamarquezes. Para dizer a verdade, Dinamarquezes s conheci um,
moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras: mas lembro-me
de ter admirado um quadro, os _Antigos Dinamarquezes_, em que havia
homens assim, de grandes barbas amarellas e olhos claros, bebendo n'um
bosque de carvalhos por grandes cornos que empinavam  bca. Este
cavalheiro (vim a saber depois) era um Inglez, um fidalgo, um _baronet_.
Chamava-se Curtis--o baro Curtis. E o que me feriu mais foi elle
parecer-se extremamente com alguem, que eu encontrra no interior, para
alm de Bamanguato. Quem?... No me podia lembrar.

O sujeito que vinha com elle pertencia a um typo absolutamente
differente, baixo, reforado, trigueiro, e todo rapado. Calculei logo
pelas suas maneiras que tinhamos alli um official de marinha; e
verifiquei depois, com effeito, que era um primeiro tenente da Armada
Real, reformado em capito-tenente, e por nome John Good. Esse
impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguem mais escarolado, mais
escanhoado, mais engommado, mais envernizado! Usava no olho direito um
vidro, sem aro, sem cordel, e to fixo que parecia natural como a
palpebra. Nem um s momento o surprehendi sem aquelle vidro, e cheguei
mesmo a pensar que dormia com elle cravado na orbita. S muito tarde
descobri que  noite o mettia no bolso das calas--no mesmo bolso em que
guardava a dentadura postia, a mais bella, a mais perfeita dentadura
que me recordo de ter contemplado, mesmo em annuncios de dentistas. E o
capito, d'estas, possuia duas!

Apenas nos fizemos ao largo, comeou o mau tempo. Brisa forte, nevoa
humida e fria. Depois cada solavanco (o _Dunkeld_, barco de fundo chato,
no levava carga) que no se podia arriscar uma passada confortavel na
tolda. De sorte que me recolhi para junto da machina, onde fazia um
calorzinho sereno, e alli fiquei olhando para o pendulo, que marcava,
com desvios largos, o angulo de balano do _Dunkeld_.

--Pendulo errado, rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra da
noite que cahia.

Olhei. Era o official de marinha.

--Errado, hein?... Acha? perguntei.

--Acho o que?... Se o vapor se inclinasse quanto marca o pendulo, no se
tornava mais a levantar... Aqui est o que eu acho. Mas  sempre assim,
com estes capites de marinha mercante...

Felizmente, n'esse instante, tocou a sineta ao jantar, com immenso
allivio meu--porque se ha, sob a cupula dos cos, uma coisa temerosa, 
a loquacidade d'um official da marinha de guerra, desabafando sobre a
inepcia dos officiaes da marinha mercante. Peor do que essa coisa
temerosa--s a coisa inversa!

O capito John e eu descemos juntos para o salo. O baro Curtis j l
estava, no topo da mesa,  direita do commandante do _Dunkeld_. John
accommodou-se ao lado do seu companheiro: eu defronte, onde havia dois
talheres desoccupados. Logo depois da sopa o commandante, com a
lamentavel mania dos homens de mar, comeou a fallar de caa.
Primeiramente de caa miuda, de condores e de abutres. Depois passou a
elephantes.

--Ah! commandante (exclamou ao lado um patricio meu, de Durban), para
elephantes temos presente uma grande auctoridade... Se ha homem em
Africa que entenda de elephantes  aqui o nosso companheiro e amigo
Allo Quartelmar.

Por acaso, n'esse momento, eu pousra os olhos no baro Curtis; e notei
que o meu nome, assim pregoado com a minha profisso, lhe causra emoo
e surpreza. John cravou tambem em mim o seu vidro, com uma curiosidade
que faiscava. Por fim o baro inclinou-se, atravs da mesa, e n'uma voz
grave e funda, bem propria do robusto peito d'onde sahia:

--Peo perdo, disse, mas  porventura ao snr. Allo Quartelmar que me
estou agora dirigindo?

--A elle proprio.

O homemzarro passou a mo pelas barbas,--e distinctamente, muito
distinctamente, o ouvi murmurar: Ainda bem!

No se passou mais nada at ao dce. Mas fiquei ruminando aquelle
espanto e aquelle ainda bem!

Depois do caf, enchia o meu cachimbo para subir  tolda, quando o
baro, com os seus modos srios e lentos, se adiantou para mim, e me
convidou a passar ao seu beliche, tomar um grog, e conversar...
Aceitei. O baro occupava um camarote de tolda, o melhor do _Dunkeld_,
espaoso, arejado, com um sof, espelhos, e duas largas cadeiras de
verga. O capito John viera tambem. Todos tres nos sentamos, accendendo
os cachimbos, emquanto o moo corria pelos grogs.

Houve primeiramente um silencio. Outro creado entrou, a accender o
candieiro. Por fim appareceram os grogs.

O baro Curtis ento passou a mo pelas barbas, n'esse geito que lhe era
costumado, e voltando-se bruscamente:

--Diga-me uma coisa, snr. Quartelmar... Aqui ha dois annos, por este
tempo, esteve n'um sitio chamado Bamanguato, ao norte do Transwaal. No
 verdade?

--Perfeitamente, respondi eu, pasmado de que aquelle cavalheiro se
achasse, no seu condado, em Inglaterra, to bem informado das jornadas
que eu fazia no sul d'Africa!

--A negocio, hein? acudiu o capito John.

--Sim, senhor, a negocio. Levei uma carregao de fazendas, acampei fra
da feitoria, e l fiquei at liquidar.

O baro conservou durante um momento pregados em mim os seus olhos
cinzentos e largos. Pareceu-me que havia n'elles anciedade e temor.

--E diga-me, encontrou ahi, em Bamanguato, um homem chamado Neville?

--Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a
descanar o gado antes de metter para o norte. Aqui ha mezes recebi eu
uma carta d'um procurador, perguntando-me se sabia o que era feito
d'esse sujeito... Respondi como pude...

--Bem sei! atalhou o baro. Li a sua resposta. Dizia o snr. Quartelmar
que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no principio de maio,
n'um carro, com um servial e um caador cafre chamado Jim, tencionando
puxar at Inyati, ultima estao na terra dos Matabeles, para de l
seguir a p, depois de vender o carro. O snr. Quartelmar accrescentava
que o carro decerto o vendera elle, porque seis mezes depois vira-o em
poder d'um portuguez. Esse portuguez no se lembrava bem do nome do
homem a quem o comprra. Sabia s que era um branco, e que se mettera
para o matto com um Cafre...

-- verdade, murmurei eu.

Houve outro silencio, que eu enchi com um sorvo ao grog. Por fim o baro
proseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes e anciosos:

--O snr. Quartelmar no sabe quaes fossem as razes que levavam assim
esse sujeito Neville para o norte?... No sabe qual era o fim da
jornada?

--Ouvi alguma coisa a esse respeito, murmurei.

E calei-me prudentemente, porque nos iamos avisinhando d'um ponto em
que, por motivos antigos e graves, eu no desejava bolir.

O baro voltou-se para o seu companheiro, como para o consultar. O
outro, por entre a fumaraa do cachimbo, baixou a cabea, n'um _sim_
mudo. Ento o meu homemzarro, decidido, abriu os braos, desabafou:

--Snr. Quartelmar, vou-lhe fazer uma confidencia! Vou-lhe mesmo pedir o
seu conselho, e talvez o seu auxilio... O agente que me remetteu a sua
carta afianou-me que eu podia confiar absolutamente no snr. Quartelmar,
que  um homem de bem, discreto como poucos, e respeitado como nenhum em
toda a colonia do Natal.

Dei um sorvo tremendo ao cognac, para esconder o meu embarao--porque
sou extremamente modesto.

--Snr. Quartelmar, concluiu o baro, esse sujeito chamado Neville era
meu irmo.

--Ah! exclamei.

Com effeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o baro se parecia!
Era com esse Neville. Smente o outro tinha menos corpo, e a barba
escura. Mas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma deciso.

--Era meu irmo, continuou o baro. Meu irmo mais novo, e unico. At
aqui ha cinco annos, vivemos sempre juntos. Depois um dia,
desgraadamente, tivemos uma questo, uma terrivel questo. E, para lhe
dizer a verdade toda, snr. Quartelmar, eu comportei-me para com meu
irmo da maneira mais injusta! Foi sob o impulso do despeito, da clera,
 certo... Mas em summa comportei-me injustamente.

--Cruelmente, murmurou do lado o capito John, que fumava com os olhos
cerrados.

--Cruelmente, com effeito. Como o snr. Quartelmar sabe, em Inglaterra,
quando um homem morre sem testamento e no tem seno bens de raiz, tudo
passa para o filho mais velho. Ora succedeu que meu pai morreu
exactamente quando meu irmo Jorge e eu estavamos assim de mal. Herdei
tudo; e meu irmo, que no tinha profisso, nem habilitaes, ficou sem
real. O meu dever, est claro, era crear-lhe uma situao independente.
 o que todos os dias se faz em Inglaterra, n'esses casos. Mas por esse
tempo a nossa questo estava em carne viva. Eu no lhe offereci nada.
Elle tambem, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu. Assim ficmos, de
longe, eu rico e elle pobre... Peo perdo de o fatigar com estes
detalhes, snr. Quartelmar, mas preciso pr as coisas bem claras... No 
verdade, John?

--Escrupulosamente claras! acudiu o outro. De resto o nosso amigo
Quartelmar guarda para si esta historia...

--Pudera! exclamei.

--Pois bem, continuou o baro, meu irmo possuia de seu, n'essa poca,
umas duzentas ou trezentas libras. Um bello dia, agarra n'esta miseria,
toma o nome de Neville, e abala para Africa a tentar fortuna! Eu s o
soube tarde, mezes depois d'elle ter embarcado. Passaram tres annos.
Noticias d'elle, nenhumas. Comecei a andar inquieto. Escrevi-lhe.
Naturalmente as minhas cartas no lhe chegaram. E eu cada dia mais
afflicto! Para o snr. Quartelmar comprehender tudo bem, deve saber que,
desde pequeno, desde o bero, meu irmo foi a forte e grande affeio da
minha vida. E por outro lado a nossa questo, assim amarga e aspera por
sermos ambos muito novos e muito exaltados, nasceu de qu? D'uma mulher.
D'uma mulher cujo nome j quasi me esqueceu. E meu pobre irmo, coitado,
se ainda  vivo, no se lembrar mais que eu. Ora aqui tem! E j por
isto o snr. Quartelmar comprehende...

--Perfeitamente, perfeitamente...

--Pois bem, descobrir meu irmo passou a ser a minha ida constante, dia
e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquizas. Um dos
resultados, o mais importante, foi a sua carta, snr. Quartelmar.
Importante porque me dava a certeza que, mezes antes, meu irmo estava
na Africa, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, pessoalmente,
continuar as pesquizas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, no
tm o interesse de corao:  com o corao justamente que eu conto, com
a perspicacia, a inspirao especial que elle s vezes possue. De resto
sempre tencionei visitar as nossas colonias d'Africa... E aqui tem o
snr. Quartelmar a minha historia. O mais extraordinario,  que o
tivessemos encontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu irmo
vivo, a pessoa justamente a quem eu me ia a dirigir apenas chegasse ao
Natal. Quer que lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou,
prompto para tudo, com o meu velho amigo, o capito John, companheiro
fiel de muitos annos, que teve a dedicao de me acompanhar.

O outro encolheu os hombros, sorrindo, com a sua esplendida dentadura.

--No havia n'este momento nada interessante a fazer na velha Europa!...
Gasta, insipidissima, a velha Europa!

Depois, reenchendo o cachimbo, accrescentou muito srio:

--E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece os motivos que nos trazem
 Africa, e o interesse que nos prende a esse homem chamado Neville,
espero da sua lealdade que no ter duvida em nos dizer tudo o que sabe,
ou tudo que ouviu, a respeito d'elle. Hein?

Impressionado, respondi:

--No tenho duvida, por ser questo de sentimento.




CAPITULO II

PRIMEIRA NOTICIA DAS MINAS DE SALOMO


Sacudi a cinza do cachimbo na palma da mo, e comecei, muito devagar,
para tudo pr bem claro e bem exacto:

--Aqui est o que ouvi a respeito d'esse cavalheiro Neville. E isto, que
me lembre, nunca, at ao dia d'hoje, o disse a ninguem. Ouvi que esse
cavalheiro fra para o interior  busca das minas de Salomo.

Os dois homens olharam para mim, com assombro:

--As minas de Salomo!? Que minas?... Onde so?

--Onde so, no sei. Sei apenas onde _dizem que esto_. Aqui ha annos vi
de longe os dois picos dos montes que, segundo corre, lhes servem de
muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas milhas
de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ninguem (quero
dizer, homem branco) que o atravessasse, a no ser um, n'outras ras.
Porque toda esta historia vem muito de traz, de ha seculos! Eu no tenho
duvida em a contar, mas com uma condio:  que os cavalheiros no a ho
de transmittir sem minha auctorisao. Tenho para isso razes, e fortes.
Esto os cavalheiros de accrdo?

--Com certeza!

Narrei ento longamente tudo o que sabia, historia ou fabula, sobre as
minas de Salomo. Foi ha trinta annos que pela primeira vez ouvi fallar
d'estas minas a um caador d'elephantes, um homem muito srio, muito
indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas atravs d'Africa,
tradies e lendas singularmente curiosas. Tinha-me eu encontrado com
elle na terra dos Matabeles, n'uma das minhas primeiras expedies ao
interior,  busca do elephante e do marfim. Chamava-se Evans. Era um dos
melhores caadores d'Africa. Foi estupidamente morto por um bufalo, e
est enterrado junto s quedas do Zambeze.

Pois uma noite, sentados  fogueira, no matto, succedeu mencionar eu a
esse Evans umas construces extraordinarias com que casualmente dera,
andando  caa do _koodoo_ por aquella regio que frma hoje o districto
de Lydenburg no Transwaal. Essas obras foram depois encontradas, e
aproveitadas at, pela gente que veio trabalhar as minas d'ouro. Mas
ninguem (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto antes de mim. Era
uma estrada enorme, magnifica, cortada na rocha viva, levando a uma
galeria sem fim, mettida pela terra dentro, toda de tijolo, e com
grandes pedregulhos de minerio d'ouro empilhados  entrada. Obra
extraordinaria! E a raa que a fizera--desapparecera, sem deixar um
nome, nem outro vestigio de si, alm d'aquella estrada e d'aquella
galeria, que revelavam um grande saber, uma grande industria e uma
grande fora!

--Curioso! murmurou Evans. Mas conheo melhor!

E contou-me ento que no interior, muito no interior, descobrira elle
uma cidade antiquissima, toda em ruinas, que tinha a certeza de ser
Ophir, a famosa Ophir da Biblia. Lembro-me bem a impresso e o assombro
com que eu escutei a historia d'essa cidade phenicia perdida no serto
d'Africa, com os seus restos de palacios, de piscinas, templos, de
columnas derrocadas!... Mas depois Evans ficra calado, scismando. De
repente diz:

--Tu j ouviste fallar das serras de Suliman, umas grandes serras que
ficam para alm do territorio de Machukulumbe, a noroeste?

--No, nunca ouvi.

--Pois, meu rapaz, ahi  que Salomo verdadeiramente tinha as suas
minas, as suas minas de diamantes!

--Como se sabe?

--Como se sabe!? Tem graa! Sabe-se perfeitamente. O que  _Suliman_
seno uma corrupo de _Salomo_? O nome das serras, realmente, sempre
foi _serras de Salomo_. Alm d'isso, uma feiticeira do districto de
Manica, uma velha de mais de cem annos, contou-me tudo... Isto ,
contou-me que para l das serras vive um povo que  da raa dos Zuls, e
falla um dialecto zul: mas como fora, e corpulencia, e coragem, vale
mais que os Zuls. Pois n'esse povo ha videntes, grandes feiticeiros,
que de gerao em gerao tm trazido o segredo d'uma mina prodigiosa,
que foi d'um rei branco, muito antigo, e que ainda hoje est cheia de
pedras brancas que reluzem... De sorte que no ha duvida nenhuma.

Para mim havia toda a duvida. As minas d'Ophir interessavam-me, como da
nossa crena e da Biblia: mas das minas de _pedras brancas que reluzem_,
conhecidas em segredo por feiticeiros zuls, teria certamente rido se
no fra o respeito devido a um caador to digno como Evans. De
madrugada Evans partiu, a acabar tristemente nas pontas d'um bufalo. E
no pensei mais em Salomo, nem nas suas minas de diamantes.

Aqui ha vinte annos porm, n'um encontro muito singular que tive no
districto de Manica, de novo ouvi fallar das minas de Salomo, e d'um
modo que para sempre me devia impressionar. Era n'um sitio chamado a
aringa de Sitanda. No ha peor em toda a Africa. Fructa nenhuma, caa
nenhuma, tudo scco, tudo triste--e os pretos vendem os ossos d'um
frango por fazenda que vale uma vacca.

Apanhei l um ataque de febre, e estava fraquissimo, enfastiadissimo,
quando me appareceu um dia um portuguez de Loureno Marques, acompanhado
por um servial mestio. Entre os portuguezes de Loureno Marques--ha
soffrivel e ha pessimo. Mas este era dos melhores que eu vira--um homem
muito alto e muito magro, de bellos olhos negros, os bigodes j
grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves que me fizeram pensar
nos velhos fidalgos portuguezes que aqui vieram ha seculos e de que
tanto se l nas historias. Conversmos bastante n'essa noite, porque
elle fallava um bocado de mau inglez, eu um bocado de mau portuguez; e
soube que se chamava Jos Silveira, e que possuia uma fazenda ao p da
cidade, em Loureno Marques.

Na manh seguinte, cedo, antes de partir com o mestio acordou-me para
se despedir, de chapo na mo, cortez e grave como os antigos, os que
tinham _Dom_.

--At mais vr, camarada!

--Boa viagem! at mais vr!

O homem conservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que
rebrilhavam. Depois accrescentou muito srio:

--Se nos tornarmos outra vez a encontrar, hei de ser a pessoa mais rica
d'este mundo! E pde contar, camarada, que no me hei de esquecer de si!

Nem ri. Estava muito debilitado para rir. Fiquei estirado na manta
olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a cabea alta
e cheia de esperana, se mettia pelo matto dentro.

Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no
cho defronte da barraca, rilhando a ultima perna d'um d'esses frangos
que os pretos me vendiam por chita do valor d'uma vacca, e pasmando para
o enorme disco do sol que descia ao fundo do deserto--quando de repente
avistei, escura sobre a vermelhido do poente, n'uma elevao de
terreno, a figura d'um homem que era certamente europeu porque trazia um
casaco comprido. No momento mesmo em que eu dera com os olhos n'elle, o
homem oscilla, cae de bruos e comea a arrastar-se pelo cho,
lentamente! Com um esforo desesperado, ainda se ergueu, e tentou pelo
comoro abaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e
ficou estirado, como morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um dos
meus caadores que acudisse. E quando elle voltou, amparando o homem nos
braos--quem hei de eu vr? O Jos Silveira!

Jos Silveira--ou antes o seu miseravel esqueleto, com todos os ossos
rompendo para fra da pelle, mais scca que pergaminho e amarella como
gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe da cara,  maneira de dois bugalhos
de sangue. E o cabello que eu lhe vira grisalho, vinha branco, todo
branco como uma bella estriga de linho.

--Agua! gemeu elle. Agua, pelas cinco chagas de Christo!

O infeliz tinha os beios horrivelmente estalados, e entre elles a
lingua pendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe agua com leite, de
que bebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi
necessario arrancar-lhe a vasilha. Depois cahiu de costas, rompeu a
delirar. Ora gemia, ora gritava. E era sempre sobre as serras de
Suliman, os diamantes e o deserto!

Levei-o para dentro da tenda: e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que
podia. O homem estava perdido. Rente da meia noite socegou. Eu,
esfalfado, adormeci. Acordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz,
dou com elle (frma sinistra!) de joelhos,  porta da barraca, de olhos
cravados para o longe, para o deserto! N'esse instante, um raio de sol
que nascia frechou atravs do vasto descampado, e foi bater ao fundo, a
cem milhas de ns, o pico mais alto das serras de Suliman. O homem
soltou um grito, atirou desesperadamente para diante os dois braos de
esqueleto:

--L esto ellas, Santo Deus, l esto ellas!... E dizer que no pude l
chegar! Parecem to perto! Logo alli, uns passos mais... E agora
acabou-se, estou perdido, ninguem mais pde l ir!

De repente emmudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, a face
livida e como esgazeada por uma ida brusca.

-- camarada, onde est voss?... J o no distingo, vai-me a fugir a
vista!

--Estou aqui; socegue, homem.

--Tenho tempo para socegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a
morrer. Voss tem sido bom commigo, camarada... E para que havia eu de
levar o segredo para debaixo da terra? Ao menos alguem se aproveita!
Talvez voss l possa chegar, se conseguir atravessar esse deserto que
matou o meu pobre creado, que me est a matar a mim...

Comeou ento a procurar tremulamente dentro do peito da camisa. Tirou
por fim uma especie de bolsa de tabaco, j velha, apertada com uma
correia. Estava to fraco que as suas pobres mos nem puderam desfazer o
n. Fez-me um gesto, um gesto exhausto, para que eu o desatasse. Dentro
havia um farrapo de linho amarellado, com linhas escriptas, n'um tom
antiquissimo, de cr de ferrugem. E dentro do farrapo estava um papel
dobrado.

--O papel, murmurou elle n'uma voz que se extinguia,  a cpia do que
est escripto no trapo. Levou-me annos a decifrar, a entender... Foi um
antepassado meu, um dos primeiros portuguezes que vieram a Loureno
Marques, que escreveu isso, quando estava para morrer acol n'aquellas
serras. Chamava-se D. Jos da Silveira, e j l vo trezentos annos...
Um escravo que ia com elle, e que ficra a esperar, do lado de c do
monte, vendo que o amo no voltava procurou-o, foi dar com elle morto, e
trouxe para Loureno Marques o bocado de linho que tinha letras. Desde
ento ficou guardado na nossa familia. Ha trezentos annos! E ninguem
pensou em o decifrar at que eu me metti n'isso... Custou-me a vida. Mas
talvez outro consiga. Talvez outro chegue l, s malditas serras! Ser
ento o homem mais rico d'este mundo! O mais rico, o mais rico! Tente
voss, camarada... No d o papel a ninguem! V voss!

As ultimas palavras sahiram como um debil sopro. Cahiu de costas,
recomeou a delirar. D'ahi a uma hora tudo acabou, Deus tenha a sua alma
em descano! Morreu serenamente, sem esforo e sem dr. Por minhas mos
o enterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do
peito. Ao menos assim no daro com elle os chacaes.

Foi ao p da cova, onde o desgraado jazia, que examinei o documento.
Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado d'uma fralda de camisa e
do tamanho d'um palmo. No topo tinha os traos de um mappa, ou de um
roteiro, rapidamente e toscamente lanados. Era pouco mais ou menos
isto:

[Figura]

Por baixo vinham linhas escriptas, n'uma letra muito antiga e cr de
ferrugem. Para mim eram inintelligiveis. Mas o papel continha a
decifrao, e dizia assim:

Estou morrendo de fome, n'uma cova da banda norte d'um d'estes montes a
que dei o nome de Seios de Sab, no que fica mais a sul. Sou D. Jos
da Silveira, e escrevo isto no anno de 1590, com um pedao d'osso, n'um
farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui
voltar, reparar n'este escripto, e o levar para Loureno Marques, que o
meu amigo [_aqui um nome illegivel_], logo pela primeira nau que passar
para o Reino, mande estas coisas ao conhecimento d'El-Rei, para que Elle
remetta uma armada a Loureno Marques, com um troo de gente, que se
conseguir atravessar o deserto, vencer os Kakuanas que so valentes, e
desfazer os seus feitios (devem vir muitos missionarios) tornaro Sua
Alteza o mais rico Rei da Christandade. Com meus proprios olhos vi os
diamantes sem conto amontoados n'um subterraneo que era o deposito dos
thesouros de Salomo, e que fica por traz d'uma figura da Morte. Mas por
traio de Gagula, a feiticeira dos Kakuanas, nada pude trazer, apenas a
vida! Quem vier siga o mappa que tracei, e trepe pelas neves que cobrem
o Seio de Sab, o esquerdo, at chegar ao cimo, d'onde ver logo, para o
lado norte, a grande calada feita por Salomo. D'ahi siga sempre, e em
tres dias de marcha encontrar a aringa do rei. Quem quer que venha que
mate Gagula. Rezem pelo descano da minha alma. Que El-Rei Nosso Senhor
seja logo avisado. Adeus a todos n'esta vida!

Tal era o extraordinario documento que textualmente li ao baro Curtis e
ao capito, porque trazia sempre commigo (e ainda trago) uma traduco
d'elle, em inglez, na carteira.

Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por
fim o capito, com o leve suspiro de quem repousa d'uma prolongada
emoo, bebeu um trago de grog--e mais sereno:

--O nosso amigo o snr. Quartelmar no nos tem estado a intrujar?

Metti com fora o papel na algibeira, e, erguendo-me, repliquei
sccamente:

--Se os cavalheiros assim pensam, no me resta mais nada seno
desejar-lhes muito boas noites!

O baro acudiu, pousando-me no hombro a sua larga mo:

--Pelo amor de Deus, snr. Quartelmar! Nem John, nem eu duvidamos da sua
veracidade. Mas, emfim, tenho ouvido dizer que aqui na colonia  coisa
corrente e bem aceita troar um pouco os que chegam, os _novatos_
d'Africa... E depois essa historia  to extraordinaria!

Insisti, ainda offendido:

--O original escripto pelo velho fidalgo no farrapo de camisa, tenho-o
em Durban! Ser a primeira coisa que lhes hei de mostrar em chegando!...
No ha uma palavra...

O baro atalhou gravemente:

--Toda a palavra do snr. Quartelmar  coisa sria, e como tal a tomamos.

Durante um momento ficmos calados. Eu serenei. Por fim o baro, que
dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante de
mim:

--E meu irmo? Como soube o snr. Quartelmar que meu irmo tentou tambem
essa jornada s minas?

Narrei ento o que me succedera com esse sujeito Neville, quando
estavamos acampando, lado a lado, em Bamanguato. Eu no o conhecia; nem
ento comemos relaes, apesar de termos o gado junto. Mas conhecia
perfeitamente o servial que o acompanhava, um chamado Jim. Era um
Bechuana, excellente caador--e, para Bechuana, esperto,
consideravelmente esperto! Na manh em que Neville devia metter-se para
o serto, vi Jim, ao p do meu carro, cortando folhas de tabaco.

--Para onde  essa jornada, Jim? perguntei eu, sem curiosidade, s para
mostrar interesse ao rapaz. Ides a elephantes?

Jim mostrou os dentes todos, n'um riso vivo:

--No, patro. Vamos a coisa melhor que marfim.

--Melhor que marfim!? Ouro?

--Melhor que ouro! murmurou elle, arreganhando mais a dentua.

Calei-me, porque no convinha  minha dignidade de patro e de branco
revelar curiosidade diante d'um Bechuana. Confesso, porm, que fiquei
intrigado. D'ahi a pouco Jim acabou de cortar o tabaco. Mas por alli se
quedou, rondando, coando devagar os cotovlos,  espera, com os olhos
em mim. No dei atteno.

-- patro! murmurou elle, n'uma ancia de desabafar.

Permaneci indifferente, por dignidade. Elle tornou:

-- patro!

--Que , homem?

--Vamos  procura de diamantes, patro! atirou-me elle ao ouvido.

--Diamantes!? Boa! Ento ides para o lado opposto. Devieis metter
direito ao sul, para as Diamanteiras.

O Bechuana baixou mais a voz:

-- patro! J ouviu fallar das serras de Suliman? Pois l  que esto
os diamantes. O patro nunca ouviu?

--Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim.

--No  tolice, patro. Eu conheci uma mulher que veio de l, com um
filho, e que vivia no Natal. Morreu ha annos, o filho por l anda. E foi
ella que me disse tudo. Ha l diamantes!

--Olha, Jim, o que te digo  que teu amo vai dar de comer aos abutres,
que andam por l esfomeados. E tu, essa pouca carne que tens nos ossos,
tambem vai d'aqui direitinha aos abutres!

O homem teve outro riso fino:

--A gente tem de morrer, e eu no desgsto de experimentar terras novas.
O elephante por aqui j no rende. O Bechuana c vai para os diamantes,
e o Bechuana vai cantando!

--Pois quando a morte te agarrar pelas guelas, veremos ento se ainda
canta o Bechuana!

Jim abalou. D'ahi a meia hora o carro do snr. Neville poz-se em marcha
para o norte. Mas no rodra ainda dez jardas, quando Jim voltou para
traz, a correr.

--Adeus, patro! exclamou. No me quiz ir de todo sem lhe dizer adeus,
porque me parece que o patro tem razo, e que nunca mais c voltamos!

--Ouve c, Jim, teu amo vai com effeito s serras de Suliman, ou tudo
isso  patranha?

O Bechuana jurou que no contava patranhas. O amo ia realmente em
demanda das serras e das minas que estavam para alm. Ainda na vespera o
amo dissera que, para tentar fortuna na Africa, tanto montava ir em cata
de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque
no torro tudo havia. Assim elle ia aos diamantes, que era o mais rapido
para enriquecer--ou para morrer.

Reflecti um momento.

--Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas has de
prometter que no lh'as entregas seno em chegando a Inyati!

Inyati ficava d'ahi a umas quarenta leguas. O Bechuana prometteu.

Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a lapis estas linhas:
Quem vier... trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sab, o esquerdo,
at chegar ao cimo, d'onde ver logo, para o lado norte, a grande
calada feita por Salomo.

--Bem! Ora agora, Jim, quando deres este papel a teu amo dize-lhe que
lh'o manda quem sabe, e que siga bem a indicao! Mas ouviste? S lh'o
ds quando chegares a Inyati; que eu no quero que elle me volte para
traz e me venha fazer perguntas! Entendeste? Ento abala, madrao, que o
carro come caminho!

Jim agarrou o bilhete e largou a correr. D'ahi a pouco o carro sumiu-se
por traz das collinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a
respeito d'esse sujeito Neville.

Mal eu acabra, o baro, sem hesitar, e com perfeita simplicidade,
disse:

--Snr. Quartelmar, vim  Africa procurar meu irmo. Desde que alguem o
viu pondo-se em marcha para as serras de Suliman, o que devo a mim mesmo
 marchar tambem para esse lado. Pde ser que o encontre; ou que venha a
saber que morreu; ou que volte sem nada saber, na antiga incerteza; ou
que no volte, como o velho fidalgo. Em todo o caso o meu dever, desde
que me impuz esta tarefa,  tomar o caminho que meu irmo tomou. E agora
pergunto eu: quer o snr. Quartelmar vir commigo?

Tambem no hesitei. Foi logo, de golpe:

--Muitissimo obrigado, snr. baro! Se tentassemos atravessar as
cordilheiras de Suliman, ficavamos l como os dois Silveiras. Eis a
minha candida convico. Ora ha em Londres um pobre rapaz que anda nos
seus estudos, que  meu filho, e que me no tem seno a mim n'este
mundo. E por elle, se no j por mim, no me convm por ora morrer. Em
todo o caso agradeo a sua lembrana.  de amigo!

O baro voltou-se para o seu companheiro, com um ar profundamente
desconsolado, e que quasi commovia n'aquelle homem to robusto e to
nobre. O outro murmurou:-- pena, grande pena!

--Snr. Quartelmar! exclamou ento o baro. Quando eu me metto n'uma
empreza, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho fortuna, uma
grande fortuna, e necessito do seu auxilio. O snr. Quartelmar pde
portanto pedir-me o que quizer pelos seus servios, j no digo dentro
do razoavel, mas dentro do possivel. Alm d'isso, apenas chegarmos a
Durban, vamos a um tabellio, e eu obrigo-me por uma escriptura a
continuar a educao de seu filho, no caso de lhe acontecer a si um
desastre, ou a deixar-lhe uma independencia, no caso de eu estourar
tambem. V que estou prompto a tudo. Ainda mais. Se por acaso
descobrissemos os diamantes, metade d'elles ficariam pertencendo ao snr.
Quartelmar, outra metade ao capito John.  verdade que nenhum de ns
acredita nos diamantes, e portanto esta vantagem conta como zero. Mas
podemos applicar a mesma regra a ouro ou marfim, qualquer fazenda que
encontrarmos. Finalmente escuso de dizer que todas as despezas da
expedio correm por minha conta. Creio que no posso fazer mais.

Eu olhava para elle, deslumbrado:

--Baro, essa proposta  a mais generosa que tenho recebido na minha
vida! Mas tambem, que diabo, a empreza seria a mais arriscada em que me
tenho mettido... Preciso pensar. E antes de chegar a Durban eu lhe darei
a resposta. Por hoje ficamos aqui.

--Ficamos aqui por hoje! acudiu o capito, erguendo-se, e respirando com
allivio.

Com effeito era tarde. Dei as boas-noites aos dois cavalheiros; e no meu
beliche, at de madrugada, sonhei com o antigo D. Jos da Silveira, com
El-Rei Salomo, e com montes de pedras que reluziam no fundo d'uma
caverna.




CAPITULO III

O HOMEM CHAMADO UMBOPA


Durante o resto da jornada pensei constantemente na proposta do baro.
Mas nem eu nem elle voltamos a fallar de Neville ou da travessia para as
minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre
caa, sobre aventuras de caa na Africa. Os dois, homens de grande
_sport_, no se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de
memorias e j anecdotico, no me fartava de contar.

Finalmente, n'uma esplendida tarde de janeiro (que  aqui o mez mais
quente do anno) avistmos a costa de Natal--com a esperana de dobrar a
ponta de Durban ao sol-posto. Toda esta costa  adoravel, com as suas
longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as alegres
aringas dos Cafres espalhadas aqui e alm, e a orla espumosa e alva do
mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a regio
toma uma incomparavel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas
enxurradas de seculos, faiscam riachos innumeraveis: o verde do matto 
mais intenso: os outros verdes de jardins entremeiam-se com as
plantaes d'assucar: e a espaos uma casa muito branca, sorrindo para a
azul placidez do mar, pe uma linda nota, humana e domestica, na
vastido da paizagem.

Como disse, contavamos dobrar, antes do sol-posto, a ponta de Durban.
Mas quando deitmos ancora j era crepusculo cerrado, tarde de mais para
entrar a barra. Tinhamos ainda essa noite a bordo: e descemos ao salo,
para um jantar quieto em aguas serenas, depois de vr o salva-vidas
remar para terra com as malas do correio.

Quando voltmos  tolda, a lua ia alta, e to brilhante sobre mar e
praia, que quasi offuscava os lampejos largos do pharol. De terra
vinham, atravs do ar calmo, aquelles picantes e dces aromas de
especiarias, que, no sei por qu, me fazem sempre lembrar hymnos de
egreja e missionarios. O bairro de Berea parecia em festa, com todas as
varandas alumiadas. N'um grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros
estavam cantando, ao som do _banjo_. Era uma noite d'encanto, como s as
ha n'este abenoado sul d'Africa, que lanava sobre a alma uma infinita
paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. At o
bull-dog d'um passageiro irlandez, que no cessra de rosnar ferozmente
durante toda a jornada, cedera emfim s pacificadoras influencias do
sul, e dormia, estirado no convs, com um ar de tregoa e de perdo aos
homens.

O baro, o capito John e eu, estavamos sentados junto  roda do leme,
olhando e fumando em silencio.

--Ento, snr. Quartelmar? exclamou de repente o baro, sorrindo. Aqui
estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas?

--Vamos ou no vamos de companhia  busca do snr. Neville? echoou do
lado o amigo John.

No tugi. Mas ergui-me, e fui devagar sacudir para fra da amurada a
cinza do meu cachimbo. A verdade  que, depois de muito matutar, eu
ainda no tomra uma resoluo,--ou antes a minha resoluo permanecia
vaga, informe, mal assente, necessitando um pequeno impulso exterior que
a definisse e a fixasse. E foi justamente aquella exclamao risonha dos
dois, o movimento de me erguer e de me abeirar da amurada, que tudo
fixou e definiu no meu animo. Ainda a cinza no cahira na agua e j eu
estava resolvido a partir.

--Pensei e vou! declarei, voltando a sentar-me. E se os cavalheiros me
do licena, direi as razes por qu, e as condies com qu.

Expuz logo as condies, muito claramente:

O baro, em primeiro logar, corria com todas as despezas; e qualquer
achado de valor, diamantes, ouro ou marfim, feito durante a expedio,
seria irmmente dividido entre mim e o capito John. Em segundo logar, o
baro pagar-me-hia em dinheiro de contado, antes de partirmos,
quinhentas libras, compromettendo-me eu a acompanhal-o e fielmente
servil-o at que a jornada terminasse ou por um triumpho, ou por um
desastre, ou simplesmente por se reconhecer a sua inutilidade. Em
terceiro logar, o baro obrigar-se-hia por uma escriptura a dar
annualmente a meu filho, emquanto durassem os seus estudos, uma penso
de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar inutilisado...

Ainda eu no findra, j o baro aceitra tudo, largamente, alegremente!
O que eu quero, seja por que preo fr (dizia elle),  a sua companhia,
snr. Quartelmar,  o soccorro da sua experiencia!

--Muito bem. Pois agora, depois de dizer as condies em que vou, quero
dizer as razes por que vou.  porque se ns tentarmos atravessar as
serras de Suliman, no voltamos de l vivos! O que succedeu ao velho
Silveira, ao que tinha _Dom_, ha trezentos annos; o que succedeu ao
outro, ao que no tinha _Dom_, aqui ha vinte; o que succedeu
naturalmente ao snr. Neville,  o que nos vai succeder a ns! No
sahimos de l vivos.

Olhei attentamente para os dois homens. O amigo John arripiou um bocado
a face. O baro ficou impassivel, murmurando apenas:--Corremos-lhe o
risco!

Eu prosegui:

--Agora diro os cavalheiros: Se julgas que no sahes de l vivo, para
que vaes l? Em primeiro logar, porque sou fatalista. Se Deus j
decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de Suliman, nas montanhas de
Suliman hei de morrer ainda que l no v. E se Deus decidiu j o
contrario, posso l ir impunemente e de cara alegre. Isto  claro. Em
segundo logar, estou velho, e j vivi tres vezes mais do que costuma
viver na Africa um caador de elephantes. De sorte que, continuando
n'esta carreira, e desgraadamente no tenho outra, que posso eu durar
ainda? Uns annos. Ora se morresse agora, com as dividas que me pesam em
cima, o meu pobre rapaz ficava n'uma situao m, coitado d'elle!
Emquanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dividas; e
se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por anno para
acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui tm os cavalheiros a
coisa em duas palavras.

O baro ergueu-se, excellente homem! e apertou-me as mos com effuso.

--Essas razes, a ultima sobretudo, fazem-lhe immensa honra, snr.
Quartelmar. Immensa honra! Emquanto a sahirmos vivos ou no da aventura,
o tempo dir. Eu por mim estou decidido a ir at ao cabo, seja qual fr,
triumpho ou morte! Em todo o caso se temos assim de morrer to cedo, no
me parecia mau que antes d'isso, pelo caminho, arranjassemos uma batida
aos elephantes. Sempre desejei caar o elephante, e com a perspectiva de
deixar assim os ossos nas serras de Suliman,  prudente que me
apresse... No  verdade, John?

--Com certeza!... De resto, todos ns vimos j muitas vezes a morte
diante dos olhos.  um detalhe; para que se ha de insistir n'elle?
Viemos  Africa com certo fim. Ha perigos? Acabou-se. Deus  grande.

--Est tudo portanto decidido, conclui eu, e parece-me que chegou a
occasio d'um grog.

Fomos ao grog.

No dia seguinte desembarcmos. Alojei os meus amigos n'uma barraca que
possuo na Berea, e a que chamo em dias d'orgulho a minha casa. 
construida de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tres quartos e
uma cozinha. Em redor, porm, est plantado um bom jardim, com
esplendidas arvores e flres, que um dos meus caadores, chamado Jack,
traz lindamente tratadas.  um pobre homem a quem um bufalo esmigalhou a
perna na terra dos Sikukunes. J no pde seguir a caa; mas na sua
qualidade de Griqua, jardina bem--coisa que um Zul nunca faria
decentemente. O Zul tem horror s artes da paz.

O baro e o seu amigo dormiram n'uma tenda que lhes armei no jardim
(dentro de casa no havia espao), no meio do laranjal. Aqui em Durban
as laranjeiras tm ao mesmo tempo a flr e o fructo: de sorte que com o
perfume todo em torno, e o brilho das laranjas cr d'ouro, e o murmurio
d'aguas correntes, o sitio era aprazivel e grato. Ha peor na Europa.

Logo no dia seguinte, sem mais tardana, comemos os preparativos.
Antes de tudo fomos ao tabellio lavrar a escriptura em que o baro se
obrigava a pensionar o meu rapaz: houve difficuldade por jazerem em
Inglaterra as propriedades do baro: mas arranjou-se uma tangente, e
segura, graas s artes de um Advogado, que pelos seus servios
apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque de
quinhentas libras. Satisfeita assim a prudencia, passmos a comprar o
carro e as juntas de bois. Descobrimos um carro excellente, com eixos
de ferro, solido e leve, que j fizera uma excurso a Loureno
Marques--o que garantia a firmeza e resistencia das madeiras. Era um
carro dos que chamamos de _meia-tenda_--isto , toldado smente at ao
meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofades
onde podiam dormir bem duas pessoas: alm d'isso suspenses para as
espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco
libras, e sahiu barato. As juntas de bois eram dez, magnificas.
Ordinariamente para uma jornada atrellam-se oito juntas: mas para uma
aventura d'estas, vinte bois no vo de mais. Todos eram de raa zul, a
mais pequena d'Africa, mas a melhor; e todos elles _salgados_. Chamamos
aqui _salgados_ aos bois j muito jornadeados pelo sul d'Africa, e 
prova portanto da agua vermelha--que destroe s vezes todas as juntas
d'um carro. Alm d'isso, todos tinham sido vaccinados contra a _maleita
de pulmes_, frma horrivel de pneumonia, que  n'estas terras um
flagello para o gado.

Em seguida organismos provises e remedios. Este detalhe demandava
sciencia e cuidado, porque convinha, n'uma empreza to accidentada, que
nem faltasse o necessario, nem o carro partisse abarrotado e carregado
em demasia. Para os remedios foi-nos de grande utilidade o capito John,
que em tempos estudra para medico da Armada, e que (alm de possuir,
muito a proposito para ns, um estojo de cirurgia e uma pharmacia de
viagem) conservra conhecimentos genericos e uma toleravel pratica.
Durante a nossa estada em Durban cortou elle o dedo pollegar a um Cafre
com uma maestria--que fazia appetite vr! O que o perturbou foi o Cafre
(que observra a operao em perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois
para lhe pr _outro dedo novo_.

Restava emfim a importante questo de creados e armas. Armas tinhamos
por onde as escolher--entre as que eu possuia e a colleco esplendida
que o baro trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dois canos para
differentes cargas e differentes caas, tres carabinas Winchester, tres
rewolvers Colts--assim ficou constituido o nosso armamento. Emquanto a
creados, depois de muita consulta e reflexo, decidimos limitar o numero
a cinco--um guia, um boieiro, e tres serviaes. Boieiro e guia achmos
ns facilmente em dois Zuls, que se chamavam--um Goza e outro Tom. Mas
os serviaes eram de mais difficil e delicada escolha. Da paciencia, da
fidelidade, da coragem dos serviaes poderiam muitas vezes depender as
nossas pobres vidas n'esta aventura sem igual.

Finalmente arranjei dois, um Hottentote chamado Venvogel, e um rapazito
zul, de nome Khiva, que tinha o merito (consideravel para os meus
companheiros) de fallar inglez com fluencia. O Hottentote j eu
conhecia. Era um dos melhores farejadores de caa de toda a Africa.
Ninguem mais rijo nem mais resistente. O seu defeito srio consistia na
_bebida_. Mas como iamos para regio onde no ha aguas-ardentes nem
quasi aguas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno
Venvogel.

Tinhamos pois dois serviaes. O terceiro parecia impossivel descortinar.
Tentei, tentei--at que resolvemos partir sem elle, esperando encontrar,
antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre Inyati
e Zukanga. Na vespera porm da nossa partida estavamos jantando, quando
Khiva, o rapaz zul, veio annunciar que um homem se viera sentar no meu
portal,  minha espera. Mandei entrar. Appareceu um rapago muito
esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais
para Zul. Floreou no ar o cajado  maneira de saudao, encruzou-se
sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. No
lhe dei logo atteno. Assim se deve proceder com os Zuls. Se o branco
lhes falla com promptido e agrado o Zul conclue immediatamente que
est tratando com pessoa _de pouco commando_. Observei no emtanto que
este homem era um _Keslha_, um _homem-de-annel_--isto , que trazia na
cabea aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda lustrosa de
sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma _idade
de respeito_ ou attingem nas suas aringas uma posio superior. Tambem
me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella.

--Bem, disse por fim, como te chamas?

--Umbopa, respondeu o homem n'uma voz lenta e grave.

--Estou a pensar que j te vi algures.

--J, Makumazan!

_Makumazan_  o meu nome cafre--e significa aquelle que se levanta pelo
meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os
olhos bem abertos.

--Makumazan, continuou o Zul, viu-me em Izand-luana, na vespera da
batalha...

Lembrei-me ento completamente. Eu fui um dos guias de Lord Chelmsford,
na desgraada guerra com os Zuls. Por acaso, na vespera da batalha de
Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando
levar para fra do acampamento uns poucos de carres de bagagens. Quando
se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um troo de
Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o
acampamento no estava seguro, que era certa uma surpreza, e que o vento
_trazia cheiro de inimigo_. Respondi-lhe que dobrasse a lingua, e
deixasse a segurana do acampamento a melhores cabeas que a d'elle.
Pois grande razo tinha o Zul! Logo n'essa noite o acampamento foi
terrivelmente assaltado... Tudo isso porm vem na Historia.

--Que queres tu? perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que
queres.

--Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, n'uma
grande expedio, com os chefes brancos que vieram d'alm do mar. 
verdadeira a voz?

--Verdadeira.

--Correu aqui tambem voz que Makumazan e os chefes iam para o rio
Lukanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do districto de
Manica.  verdade?

Franzi o sobr'olho, descontente de vr assim to conhecido o roteiro da
nossa expedio.

--Para que queres tu saber? que tens com isso?

--Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para to longe, eu quereria
ir comvosco.

Havia uma altivez nas maneiras d'este homem, e especialmente no seu
emprego da expresso _oh brancos_ em logar de _oh inkosis_ (chefes),
que me surprehendeu grandemente.

--Ests esquecendo a quem fallas! repliquei. As palavras sahem-te
demasiadas e imprudentes. Como  o teu nome? onde  a tua aringa? 
necessario saber quem temos diante de ns!

--O meu nome  Umbopa. Sou da raa dos Zuls, mas no sou Zul. O sitio
da minha tribu  muito longe, para o norte: os meus ficaram l quando os
Zuls desceram para aqui, ha muito, ha mais de mil annos, antes de Chaka
ser rei. No tenho aringa. Muitos annos vo que ando errante. Quando vim
do norte era creana. Depois fui dos homens de Cetewayo no regimento de
Nomabakosi. Por fim fugi dos Zuls, e vim para o Natal para vr as artes
dos brancos. Foi ento que servi na guerra contra Cetewayo, e que te
encontrei, Makumazan! Agora tenho trabalhado no Natal. Mas estou farto,
quero ir para o norte. O meu logar no  aqui. No peo soldada, mas sou
valente, e valho bem o po que comer. Eis as palavras que tinha a dizer.

Este homem e a sua grande maneira de fallar--intrigavam-me
singularmente. Era certo para mim que s dissera a verdade: mas na cr,
nos modos, differia muito do Zul ordinario; e a sua offerta de vir
comnosco sem soldada, extraordinaria n'um Africano, enchia-me de
desconfiana.

Na duvida traduzi as estranhas fallas aos meus amigos, solicitei-lhes
conselho. O baro pediu-me que mandasse pr o homem de p. Umbopa
ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto casaco militar
que o envolvia, e ficou diante de ns, mudo, erecto, soberbo, todo n,
com um simples pedao de pano em torno dos rins e um fio de garras de
leo enrolado ao pescoo. Era, realmente, um esplendido homem! Tinha
mais de dois metros de altura, e largo em proporo, agil, admiravel de
frmas. Na luz da sala em que estavamos, a pelle parecia apenas muito
trigueira, como a d'um arabe. Aqui e alm, pelo corpo, conservava
cicatrizes terriveis de antigos golpes de zagaia.

O baro foi direito a elle, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se no
baixaram, e que rebrilharam:

--Gsto de ti, Umbopa, disse em inglez, e tomo-te ao meu servio.

Umbopa evidentemente comprehendeu, porque murmurou em zul:

--Est bem.

Depois, atirando um olhar para a grande estatura e fora do branco,
accrescentou:

--Somos dois homens, tu e eu!




CAPITULO IV

OS ELEPHANTES


Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas leguas
que vo d'aqui ao sitio em que se juntam os rios Lukanga e Kalukue,
chegmos, pelos meados de maio, a Inyati, no longe da aringa de
Sitanda, onde acampmos. Durante a jornada tivemos aventuras varias, mas
d'aquellas que so usuaes em todas as travessias d'Africa e j muito
contadas nos livros. Em Inyati, ultima estao mercante da terra dos
Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!)  rei, separmo-nos, com
fundas saudades, do nosso confortavel carro. Dos vinte bois que
trouxeramos de Durban, s doze restavam. Um morrera da mordedura da
cobra, tres da falta d'agua; um perdeu-se; os outros tres comeram uma
herva venenosa, chamada _tulipa_. Os restantes deixmol-os com o wagon
ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno
Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos
vigiasse o carro, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados
por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que arranjmos
em Inyati, largmos para o deserto, a p, em seguimento da nossa
temeraria aventura.

Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos prmos em marcha
estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo,
decerto, se jmais tornaria a vr o carro, os bois e o Missionario. Eu
por mim levava a certeza _que no_. Os primeiros passos foram lentos,
dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente,
rompeu n'um grande canto--uma cano zul, dizendo d'uns homens que,
cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao
deserto, para achar occupao ou morrer, e que, para alm dos sertes,
subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas moas, de gado,
de caa, e de inimigos para matar! Esta cano pareceu-nos de boa
promessa.

A quinze dias de marcha de Inyati comemos a atravessar uma regio
arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas
de matto que os indigenas chamam _idaro_: e por toda a parte se
estendiam bosques de _machabelas_, arvores que do um fructo amarello,
enorme, quasi todo caroo, mas deliciosamente fresco e dce. As folhas e
fructos d'estas arvores so o alimento querido dos elephantes; e decerto
os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos
arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo,
vai assolando.

Uma tarde, depois d'uma caminhada fatigante, chegmos a um sitio
particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro
todo vestido d'arvoredo. Ao p serpeava o leito scco d'um rio,
conservando ainda aqui e alm poas de agua crystallina e fria,
espesinhadas em redor pelas largas pgadas de feras. Em frente verdejava
um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e
cheias de flr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, denso,
impenetravel.

Decidimos ficar alli e construir um _scherm_, a pouca distancia d'uma
das poas d'agua. O _scherm_  uma especie de acampamento
entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto espinhoso
e armando-o circularmente n'uma vasta e rude sebe que frma defeza. Todo
o espao interior se aplaina como uma arena: ao centro amonta-se herva
scca, um capim chamado _tambouki_, que serve de divan e de cama; aqui e
alm, em volta, accendem-se alegres fogueiras.

Quando acabmos de arranjar o _scherm_--vinha nascendo a lua. O jantar
estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos d'uma
girafa, que n'essa tarde, ao fim da ssta, fra morta pelo capito John
com um tiro providencial. Mas depois de corao de elephante (a mais
fina delicia que se pde ter), tutano e lombo de girafa so os petiscos
superiores d'Africa, e grandemente os saboremos sob o esplendor da lua
cheia, que ia alta nos cos. Depois accendemos os cachimbos, e
conversmos no vasto silencio em roda do lume.

Os meus companheiros no se fartavam de contemplar aquella scena de
serto, familiar para mim, com os meus quarenta annos d'Africa, mas que
a elles s offerecia estranhezas--at na maneira por que as claridades
alumiam, at na maneira por que a noite  silenciosa. Eu por mim,
confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capito John. Alli
estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em
cima d'um sacco de couro,--to apurado, to correcto, to bem pregado,
como se viesse de passear n'um parque luxuoso de castello inglez, em dia
de caa ao faiso. Tinha um facto completo de cheviote castanho, com
chapo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas amarellas de
pelle de co, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes postios
rebrilhando em gloria! Nunca o serto africano vira decerto um homem
mais catita. At trazia collarinhos altos (collarinhos de gutta-percha),
de que emmalra na mochila uma escandalosa poro--por serem leves
(dizia elle), faceis de lavar, e dar logo  gente um ar de asseio e
distinco.

Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e
observando os Cafres, que chupavam a _dacca_ nos seus longos cachimbos
feitos de cornos de _eland_, e que, um por um, se iam enrolando nas
mantas e estirando  beira do lume. S Umbopa por fim ficou acordado,
longe dos Cafres (a quem geralmente no admittia familiaridades), com o
queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n'uma d'aquellas
abstraces em que por vezes eu o surprehendera desde o comeo da nossa
jornada.

De repente, da profundidade do matto, por traz de ns, subiu no ar um
longo e rouco rugido.  um leo! exclamei. Todos nos erguemos, a
escutar. Quasi immediatamente, junto  poa d'agua pura, visinha do
nosso _scherm_, resoou como em resposta a estridente trompa d'um
elephante. _Unkungunlovo_! _Unkungunlovo_![1], murmuram  uma os Cafres,
levantando as cabeas das mantas:--e momentos depois avistmos uma fila
de enormes e escuras frmas, movendo-se devagar da beira da agua para o
matto. O capito, com um salto, agarrra a espingarda. Tive de o segurar
pelo brao:

-- inutil, no se faz nada. Nada de barulho. Deixal-os ir.

--Em todo o caso, disse o baro excitado, este sitio para um caador 
um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?...

Estranhei: porque at ahi o baro, impaciente, viera-nos sempre
apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo
Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera
alli o carro em que viera de Bamanguato e se internra no serto com um
Cafre por servial. Mas ouvira o leo, ouvira o elephante--e os seus
instinctos de caador dominavam, irresistivelmente.

--Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado
de divertimento, ter-se-ha; mas manh. Por agora  tratar de dormir, e
erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes
que elle v aos seus negocios. Toca pois a accommodar.

O capito John (extraordinario homem!) tirou o fato, sacudiu-o, metteu o
monoculo e os dentes postios dentro do bolso das calas, dobrou tudo
cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu
_makintosh_, alisou o cabello, tomou um bochecho d'agua, e estirou-se de
lado para dormir, com correco e conforto. O baro e eu, depois de
contemplar, rindo, estes requintes, embrulhmo-nos simplesmente n'um
cobertor:--e d'ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno profundo,
absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que  a recompensa e a consolao
de quem moureja por estas terras negras.

Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a p, preparando para a
aco. Tommos as carabinas, munies abundantes, cantis cheios de ch
frio (que  a melhor bebida, a unica, quando se caa), e partimos,
depois de engolir de p um almoo breve, acompanhados de Umbopa, de
Khiva e de Venvogel.

No tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos
elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou
trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastra-se
durante a noite; e eram quasi nove horas, j o calor ardia em co e
terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas d'arvores
esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos
andavam cerca--e seguros. D'ahi a instantes, effectivamente, avistmos o
rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel calculra),
parados n'uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro
repasto, e sacudindo com lentido e magestade as suas immensas orelhas.
Era uma vista soberba! S as ha assim na Africa!

Estavamos separados d'elles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de
capim e atirei-o ao ar para tomar a direco do vento:--porque se um
elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos pr as
carabinas  cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria,
soprava para ns do lado dos bichos: de sorte que rastejmos
cuidadosamente atravs do matto, mudos, sem respirar, at nos
aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de ns,
e de ilharga para ns, estacionavam tres magnificos elephantes machos,
um d'elles com enormes dentes e o ar supremo de um Patriarcha. Avisei,
baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o baro
apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capito ao Patriarcha.

--Agora! murmurei.

Bum! bum! bum! O elephante do baro tombou redondo, varado no corao. O
meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar
para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando
por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. 
pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e
findei-lhe misericordiosamente a agonia.

Voltei-me ento para vr o que se passra com o elephante do capito, o
Patriarcha, que eu ouvira por traz de mim bramando de dr e furia.
Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas ferido,
rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um
salto), e seguira, furioso e sem vr, para a banda do nosso acampamento.
O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado,
atravs da espessura.

Durante um momento ficmos indecisos entre seguir o Patriarcha ferido
ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. Seguil-os
era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma
estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de
primavera. Achal-os, porm, era mais complicado: e tivemos, durante duas
infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os
avistarmos. L estavam todos outra vez muito juntos (excepto um dos
machos): e pela inquietao com que se mexiam, pelo constante erguer das
trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam
outro ataque. Um dos machos afastado,  laia de sentinella, vigiava para
o nosso lado, de tromba ameaadora e alta. Entre elle e ns mediavam
umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e
o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e
homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe apontmos,
todos tres lhe atirmos. Bum! bum! bum! Morto! Mas os outros partiram,
n'uma desfilada, como collinas rolando.

Infelizmente para elles, logo adiante havia um _nullah_, isto , uma
ribeira scca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e quasi a pique
do lado fronteiro (sitio parecido quelle em que o Principe Imperial foi
morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em
tropel. Quando chegmos  borda, dmos com elles em medonha confuso,
esforando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta),
empurrando-se uns aos outros, n'um furor e egoismo verdadeiramente
humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era
escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando to depressa
como carregavamos, dmos cabo de cinco elephantes; e teriamos dizimado o
rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de
galgar a ribanceira, no largassem a fugir ao comprido do leito scco
que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os
perseguir, enjoados tambem d'essa vasta mortandade. Oito elephantes
n'uma manh, antes do _lunch_,  decente.

De sorte que, depois de descansarmos e vrmos os Cafres cortar os
coraes a dois dos elephantes para servir  ceia, voltmos
vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a
proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os
carregadores viriam serrar.

Ao passar no sitio em que o capito tinha ferido o Patriarcha,
encontrmos um rebanho de _elands_. No lhe atirmos, porque no ha nada
no _eland_ que valha dinheiro, e mantimentos j traziamos, deliciosos e
abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois,
adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flr, parou; e todos a um
tempo se voltaram, a olhar para ns, espantados.

O capito nunca vira um _eland_. Quiz aproveitar a occasio, deu a
carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito,
para o tufo de arbustos em flr. O baro e eu sentmo-nos  espera,
n'uma pedra.

O sol ia justamente descendo, n'um grande esplendor de vermelho e ouro.
O baro e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de co e luz,
quando de repente ouvimos o bramido d'um elephante e vimos, escura sobre
a vermelhido do poente, uma vasta frma avanando a galope, de tromba
erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa
horrivel:--o capito, e Khiva, o servial zul, fugindo para ns n'uma
carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho ferido,
o Patriarcha que alli ficra, errando. Agarrmos n'um impeto as
carabinas. Mas qu! Fera e homens, correndo para ns, vinham juntos! Se
disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim ficmos
n'esta indeciso, com o corao a tremer, quando o pobre capito
escorrega n'aquelles infames botins de bezerro com que teimava em
trilhar o serto--e cae, estatelado, de face na terra, diante mesmo do
enorme elephante que chegava bramindo!

Fugiu-nos a respirao! O pobre camarada estava perdido! Largmos ainda
a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com
effeito--mas d'um modo bem differente. Khiva, o Zul (valente, heroico
rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia a
toda a fora contra a tromba do elephante. A fera lana um uivo de dr,
arrebata o desgraado Zul, bate com elle no cho, pe-lhe uma immensa
pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito,
rasga-o--litteralmente _o rasga em dois_.

Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez,
furiosamente--at que o elephante se abateu como um monte sobre os
pedaos sangrentos do Zul.

Foi um instante de indizivel consternao. Apesar de endurecido por
quarenta annos de caa e carnificinas, eu proprio sentia um n na
garganta, e creio que me fiz pallido. O baro tremia todo. E o pobre
capito torcia as mos, na dr de vr assim despedaado o servo valente
que dera a vida por elle.

S Umbopa teve a palavra serena que convinha  disciplina. Veio, com os
seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, n'uma poa
de sangue, junto  massa enorme do elephante, moveu a mo no ar e disse:

--Morreu. Bem d'elle, que morreu como um homem!




CAPITULO V

A NOSSA ENTRADA NO DESERTO


Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levmos a serrar-lhe os
dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d'uma arvore enorme, que
destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um signal
inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! S os dentes do
Patriarcha pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta
arrateis!

O pobre Khiva, esse, sepultmol-o ao p da collina, com uma azagaia ao
lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada
para o Paraiso zul. Ao romper do terceiro dia levantmos o
acampamento--todos ns fazendo votos no silencio da nossa alma para que
nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--voltar e
desenterrar este rico marfim!

Depois d'uma fatigante marcha, cortada d'esses episodios africanos que
todos os Africanistas experimentam, chegmos emfim  aringa de Sitanda,
ao p do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso ponto de
partida. Ahi comeariam as nossas miserias.

Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita
descia, transmalhada, uma pequena povoao de negros, com curraes de
gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da
agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva
alta, onde a caa abundante esvoaava. E para a esquerda era o escuro,
silencioso, infindavel deserto.

O nosso acampamento ficou junto d'esse riacho alegre que corria entre
arbustos em flr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas
erguemos as tendas, subi l com o baro. Era aquelle o sitio, aquelle o
outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n'uma tarde como esta, a figura
do pobre Silveira, com o seu grande casaco comprido, apparecer
cambaleando, toda escura na vermelhido do poente. Como ento, o globo
do sol afogueado descia j rente da terra--e os seus raios flexavam
obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua,
sem vida, terrivelmente mudo, que matra o pobre portuguez, que nos ia
talvez matar a ns. Ficmos olhando para elle em silencio. O ar era
d'uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe,
podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com
laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu
companheiro:

--A entrada das minas de Salomo l est... Chegaremos ns l?

N'esse instante senti alguem por traz de ns respirando: era Umbopa, que
trepra tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa
gravidade. Vendo que eu reparra n'elle, deu um passo lento, depois
outro mais lento. E dirigindo-se ao baro (a quem parecia ter-se
affeioado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes:

-- para aquella terra alm que tu vaes, Incub?

_Incub_  uma palavra do dialecto zul, que significa elephante, e
que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a
audacia d'Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa
de fallar a seu amo... Que o negro d uma alcunha negra ao patro, por
lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--v! Que a um como eu,
pobre caador que ganha o seu po, o negro se dirija sempre pela alcunha
negra--v ainda! Mas que a atire  face d'um senhor, d'um fidalgo--isso
no!

--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo
comem da mesma gamella!

O Zul teve uma risadinha dce que me enfureceu.

--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu no sou igual ao amo que sirvo?
Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se v logo: mas talvez eu
pertena a uma casta maior! Pelo menos sou to forte como elle, e posso
com elle repartir o que tenho no corao. S pois a minha bca, oh
Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incub meu amo! E attende-as tu
tambem, porque em mim s ha verdade!

Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallra n'aquelle
tremendo tom! Mas, no sei porque, o maldito Zul tinha a arte de me
impressionar. Alm d'isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que
lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia
impudente e ousada.

O baro, porm, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o
Zul:

-- para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d'um
homem da minha raa, d'um irmo meu, que atravessou este deserto, e que
eu supponho estar alm!

O Zul moveu lentamente a cabea:

--Assim , assim ... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha
dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como ns, levando
um s servial... Nunca mais voltaram...

--Quem te disse? perguntei, vivamente. Porque te sahem s agora essas
palavras? Onde te disseram?

Antes de Inyati, um homem que elle encontrra no caminho. Contra-lhe
que o branco se parecia com o chefe Incub, mas tinha a barba escura: e
que ia seguido por um caador bechuana chamado Jim.

--So elles! exclamei. No ha duvida! so elles! Jim conhecia eu bem....

O baro ficou pensativo.

--Se meu irmo tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou
o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito no era da tempera
d'elle. Ou no vive, ou est para l das serras.

O Zul, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes,
tornou muito gravemente:

-- uma longa jornada, Incub.

--Quartelmar, diga-lhe que no ha jornada que o homem no possa
emprehender, replicou o baro (que evidentemente estimava e considerava
aquelle singular Zul). Nada ha que o homem no possa fazer; nem
desertos que no possa atravessar, nem montanhas que no possa subir, se
puzer n'isso alma e vontade. O essencial  contarmos a vida por coisa
nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus
ordenar.

Quando o Zul comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:

--Grandes palavras, meu pai Incub! Grandes, soberbas palavras que
enchem bem a bca d'um forte! Que  a vida, na verdade?  a semente da
herva que o vento sopra aqui e alm. s vezes cae em boa terra e
fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para
morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa?  sempre a morte. Eu por
mim irei comtigo, Incub! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei
sempre fiel...

Parou. E subitamente rompeu n'uma d'essas rajadas de poesia, frequentes
nos Zuls, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as
testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de
gerao em gerao, mostram que se a raa no  intelligente,  pelo
menos imaginativa.

--Que  a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braos, n'aquelle tom
cantado que os Zuls tomam n'esses momentos de exaltao). Que  a vida?
Dizei-me, oh brancos, vs que sabeis os segredos d'este mundo, e do
mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que est para
alm das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida!
D'onde vem ella, para onde vai?... No podeis, no sabeis! Escutai
ento! Ns sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro
acossado pela tormenta, ns sahimos do fundo da escurido: durante um
momento passamos, e as azas brilham-nos  luz das fogueiras: depois, de
novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida  o pyrilampo que
fulgura de noite e de dia  negro!  o halito dos rebanhos no ar de
inverno!  a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao
poente!...

Calra-se, com os braos ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.

--s um homem bem singular, Umbopa! exclamou o baro, que o escutra
assombrado.

O outro pareceu acordar, sorriu:

--Creio que nos assemelhamos, Incub. Talvez eu tambem v procurando um
irmo entre as gentes que esto para l das montanhas.

Olhei para Umbopa, com o sobr'olho franzido.

--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para l das montanhas?

--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para alm uma terra de feitios, de
jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda
de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem l chegar, l ver!

Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que no queria revelar.
Elle decerto percebeu a minha desconfiana--porque acudiu, espalmando as
mos:

--No te arreceies, Macumazan! No te arreceies! No abro covas para que
tu cias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o
que sei. Mas a Morte est l com uma lana,  nossa espera. Melhor te
fra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a
fallar.

E meneando a azagaia  maneira de saudao, desceu o comoro, recolheu ao
acampamento--onde d'ahi a instantes o encontrmos limpando uma carabina,
attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e
vontade.

--Homem extraordinario! murmurou o baro.

--Extraordinario de mais! No gsto nada d'aquelles mysterios... Mas,
emfim, ns estamos mettidos n'uma aventura phantastica, e um Zul
mysterioso de mais ou de menos--no tira nem pe!

Na manh seguinte comemos os preparativos para a marcha. Era
impossivel naturalmente levar comnosco, atravs do deserto, todo o
pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forados (depois de
debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz
sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era
abandonar as nossas magnificas armas  merc d'aquelle velho
malandro--cujos olhos se fixavam j nos nossos bens com um fulgor de
cubia e rapina. Tomei por isso as minhas precaues.

Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n'um
tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiados--e que se elle lhes
tocasse alli (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro
despedindo um _raio_! Immediatamente (como eu calculra), o Cafre puxou
o gatilho a uma carabina Express. E o _raio_ partiu. Partiu, com tanta
felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, 
beira d'agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada fora
do reco. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em
volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a
impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o co, olhava para o
cho... Por fim rompeu aos berros:

--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os l em cima, sobre o
colmo!... Ai, que no fica vivo um de ns!

Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com
olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma s arma d'aquellas
faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a
toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se ns
morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em
espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos ps, tornar-lhe o gado
bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e
fazer a vida na aringa to dura e terrivel que seus proprios filhos o
amaldioariam... Emfim, dei-lhe uma ida razoavel do Inferno, com
horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas
nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife
infinitamente supersticioso.

Em seguida combinmos o que ns cinco--o baro, o capito John, eu,
Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco atravs do deserto. Muito
calculmos, muito experimentmos. No logrmos chegar a um peso menor de
quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui
o que conduziamos:

Cinco espingardas--com a competente munio (quatrocentas cargas);

Tres rewolvers;

Cinco cantis d'agua, de cinco quartilhos cada um;

Cinco mantas;

Vinte e cinco arrateis de _biltong_--que  uma especie de carne scca;

Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas;

Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d'algibeira, uma enx, uma
garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo.

Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n'uma semelhante
empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem,
por um sol terrivel, atravs d'um deserto esteril!

Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a
acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um s costas uma
larga cabaa d'agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os
cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na
frescura da noite). Os negros, a quem eu contra que iamos caar o
abestruz, no acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sde e de
fome no grande serto: elles proprios temiam a morte e os demonios que
vagam no deserto: e s consentiram em nos seguir, a troco de tres facas
de matto e d'uma manta vermelha.

Durante todo esse dia descanmos e dormimos. Ao pr do sol celebrmos
um grandioso jantar, de caa, de carne fresca e de ch--o ultimo ch,
observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e
longos mezes. Depois, apetrechadas as mochilas, espermos que nascesse
a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa
gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que
parecia to mudo, solemne, impenetravel e virgem de pgadas humanas como
o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia
nos erguemos ns tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na
mo:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre
perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de ns alguns passos,
Umbopa, de azagaia na mo, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente
para o deserto: atraz de ns, n'um grupo, Venvogel, com os tres negros
que levavam as cabaas d'agua, esperavam, direitos e mudos: e ns tres,
os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o corao.

De repente, o baro tirou devagar o chapo. E com profunda emoo:

--Amigos, vamos comear uma das mais estranhas jornadas que homens tm
ousado tentar. O que ser de ns, no sei: mas, para bem ou para mal,
juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de
partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo pde!

Escondeu a face entre as mos, ficou immovel. O capito John e eu
baixmos tambem a cabea, com reverencia, com humildade. Eu por mim,
confesso, nunca fui homem de oraes. Caadores de elephantes, na dura
vida d'Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso,
n'aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais
alegre e mais leve. Creio que o capito (religioso no fundo, apesar de
praguejar medonhamente) tambem rezou. O baro esse era homem de piedade
e crena... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o brao,--e
com um bello ar de resoluo e de esperana:

--Prompto?... Larga!

Os bordes resoaram na terra dura,--e largmos.

Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de
Suliman, e o roteiro que o velho D. Jos da Silveira trara no pedao
de camisa. Cada um de ns trazia na algibeira uma cpia d'esse mappa
rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um
homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A
nossa salvao, n'aquella jornada, seria encontrar a laga, ou poa de
agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcra a meio caminho entre
a aldeia d'onde partiramos e as serras de Suliman. Se a no achassemos,
tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sde. E, para
mim, as probabilidades de descobrir uma laga de tres ou quatro metros
n'aquella vastido de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima.
Mesmo suppondo que o Portuguez a marcra com exactido--quem nos
afianava que n'esses trezentos annos ella no seccra ou no fra
coberta pelas areias movedias?

Era n'isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos
marchando sob o luar silencioso. O caminho no era facil: o tojo denso e
espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada
meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite no estar
quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que
amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solido, o
silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma
cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de _teus
dces olhos_, parecia lugubre n'aquella severa immensidade. O engraado
homem emmudeceu. E seguimos n'uma fila muda atravs do matto mudo.

Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois
nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e
marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John
desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de ns uma balburdia medonha
de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos frmas, como
garupas, galopando atravs do tojo, entre rolos d'areia. Os negros
atiraram-se ao cho, gritando que eram demonios acordados! Eu proprio
e o baro ficmos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando
avistmos John, apparentemente montado n'um potro, fugindo aos gales
para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento
mais--e vmol-o sacudir os braos no ar, e de novo desapparecer, no
matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o
caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d'um rebanho de zebras
adormecidas: John estatelra-se exactamente sobre as costas d'uma,
enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalra com o nosso amigo nas
ancas. Felizmente no se magora no tombo final: fomos dar com elle
sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido,
indignado--mas intacto de pelle e osso.

Depois d'isto marchmos socegadamente at perto das duas horas da noite.
Fizemos ento uma paragem, bebemos uns goles d'agua (no muitos, nem
largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta
minutos de descano recomemos a caminhar para diante, para diante
sempre, at que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as
estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do
horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz
varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d'uma
tremula refraco d'ouro--e ser dia!

No parmos apesar de j cansados--pela certeza de que bem cedo o sol,
nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido
esplendor. Com effeito, s seis horas j ardia! Por felicidade avistmos
ento na planicie um monto de rochas. Para l nos arrastmos,
exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada
sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um
pedao d'areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhmos: e, depois
de beber alguns goles d'agua bem contados e de comer uma lasca de
_biltong_, adormecemos deliciosamente.

s tres horas acordmos. Os carregadores que tinham trazido as cabaas
j se preparavam para voltar  sua aringa. De sorte que absorvemos uma
farta tarraada d'agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos
homens as facas de matto promettidas. D'ahi a instantes vimol-os (no
sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para
o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!

s quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor
se parecia alargar em silencio e desolao. Ao principio ainda
avistavamos, aqui e alm, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo
reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a
mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em
qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a
mosca l est. Foi este decerto o primeiro dos sres vivos que surgiu
sobre a terra. J havia moscas para pousar no nariz de Ado. O
derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno 
face. E talvez haja moscas no Paraiso.

Ao sol-posto parmos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena
que nunca surgiu ella s dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e
pensativo brilho, na mudez da vastido, caminhmos, caminhmos... O sol
nado pz um termo  valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d'agua
dos cantis, atirmo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a
todos quatro simultaneamente. No havia necessidade que um velasse. Nada
tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n'aquella immensidade
despovoada. D'esta vez porm nenhuma rocha nos abrigava--e s sete horas
acordmos sob o sol faiscante, com a sensao que deve experimentar um
bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo _fritos_! O sol
por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos
erguemos, de salto, quasi sem respirao.

--Santo Deus! murmurou o baro, sacudindo os enxames de moscas.

--Pde-se chamar a isto calor! gemeu do lado o capito, que arquejava.

Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta
extenso nem um abrigo! S matto rasteiro--e por cima uma vibrao
radiante, to viva e intensa que viamos tremer o ar.

--Que se ha de fazer? exclamou o baro.  impossivel aguentar isto!

Olhmos uns para os outros, estupidamente.

--Se abrissemos uma cova? lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e
cobrir-nos com tojo...  uma ida.

No brilhante! Mas era a unica:--de modo que, j com a enx, j com as
mos, passmos a abrir uma cova do tamanho aproximado d'uma larga cama.
Cortmos uma poro de matto; e alli nos sepultmos, collados como
sardinhas n'uma caixa, todos quatro, o baro, John, eu e Umbopa,--porque
Venvogel, como Hottentote, no sentia os ardores do sol. Foi elle que
nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios
perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d'aquella fossa, em
que cada torro, junto do corpo, era como uma braza viva! No
comprehendo como nos desenterrmos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos
estendidos, hirtos, sem ter j que suar, quasi cortidos, arquejando
anciosamente. S possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os
beios com uma gota d'agua muito medida! Esta avara medio da agua era
o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa
tentao de sorver d'um s trago os quatro cantis. Mas qu! se a agua
faltasse--breve viria a morte!

Tudo tem um fim n'este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se
possa esperar. Espermos: a horrivel, interminavel manh passou: e pelas
tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de
vir) a ser por ella lentamente envolvidos n'aquelle infame buraco.
Reconfortmo-nos com um curto sorvo  nossa agua,--que diminuia
terrivelmente, e subira j  temperatura do sangue. E com um esforo
rompemos de novo atravs da planicie flammejante.

Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do
velho D. Jos da Silveira, a total extenso do deserto estava fixada em
quarenta leguas; e a famosa poa de agua salobra vinha marcada a meio do
deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da
agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porm, fizemos pouco mais
d'uma milha por hora. Ao pr do sol parmos  espera da lua. Deixei-me
cahir para o cho, como um morto, cerrei os olhos. Mas d'ahi a um
instante Umbopa fez-me erguer e notar,  distancia de oito ou nove
milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente
na planicie rasa. No parecia uma elevao natural de terreno, na sua
semelhana estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar
adormeci logo, murmurando: Que ser?...

Ao romper da lua de novo partimos, j alquebrados de cansao e de sde.
O andar franco e firme acabra para ns. Era agora um arrastar de passos
quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que
cahiamos para cima da areia, sem fora, de corao desmaiado. Nem animo
nos restava para conversar. At ahi ainda gracejavamos, heroicamente.
John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer!

Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d'alma, chegmos
ao p do comoro estranho. Era uma especie de duna d'areia, escura, lisa,
atarracada, da altura d'uns trinta metros, e cobrindo na base duas
geiras de terreno. Parmos. E desesperados com a sde, sorvemos o resto
da agua. Tinhamos meio quartilho por bca! Podiamos ter emborcado um
almude!

Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos,
resvalava j dcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao
meu lado murmurar para si proprio em zul:

--O que  a vida! Se manh no achamos agua, a lua ao nascer encontra
aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! vida, murmurio que finda!

Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que
confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sde n'um deserto
d'areia!), adormeci profundamente.

       *       *       *       *       *

Eram quatro da manh quando acordei. E bruscamente entrou commigo a
tortura da sde!

Estivera todo o tempo sonhando que passeava  beira d'um regato d'agua,
muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de
fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mos; mos e
face pareceram-me mais sccas e duras do que coiro; e as palpebras e os
beios estavam to pegados, to collados, que tive de os descerrar 
fora com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda
vinha longe; mas no reinava no ar a natural frescura matutina, antes
uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros
dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solido. E pouco
a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do
regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d'aves, e toda uma
sensao de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir ssinho
n'um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto
e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!

Voltei a mim, quando os outros em redor se comearam a mexer,
erguendo-se devagar sobre o cotovlo, esfregando como eu as faces
resequidas, separando  fora como eu os labios sem saliva e mirrados.
J rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, comemos
a fallar da nossa situao--que era sombriamente desesperada. No nos
restava uma gota d'agua! Voltmos os cantis para baixo, chupmos-lhes os
gargalos. Mais sccos que ossos! O capito John, que guardra a garrafa
de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas
o baro arrancou-lh'a das mos. Beber alcool, n'aquelle estado?... Era a
morte.

--Mortos estamos ns (murmurou o capito encolhendo os hombros) se
d'aqui  noite no achamos agua!

--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a
poa d'agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n'esta altura
exactamente que elle a achou...

Os outros nem responderam. Realmente nenhum de ns tinha j confiana no
roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poa existisse--como encontrar
n'essa immensido o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais
pequena e perdida do que uma moeda de prata n'uma praia d'areia? S por
um bamburrio! Ou s se ella jazesse junto d'accidente do terreno, que,
pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente
attrahisse os olhares e os passos.

A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lanando
conjecturas, n'esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote
Venvogel andava a distancia, com os olhos no cho, lentamente, como quem
procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o brao
espetado para a terra.

--Que ? exclammos todos.

E corremos alvoroadamente.

--Pgadas de coro! bradou elle em triumpho, apontando para o cho.

--E ento?

--Coros nunca andam longe d'agua!

-- verdade! gritei eu. E louvado por isso seja Deus!

Foi como se renascessemos  vida. No era ainda a agua--mas a esperana
d'ella, para breve! E n'uma crise afflictiva como a nossa, uma
esperana, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que
enche logo a alma.

Venvogel no emtanto comera a andar em redor, com o nariz erguido (o
seu largo nariz mais chato que o d'um _bull-dog_), sorvendo o ar quente,
farejando.

--_Cheiro agua_! dizia elle, _cheiro agua_!

E ns todos atraz d'elle, farejando tambem, quasi _j viamos_ a
agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens,
possuem um faro maravilhoso. Mas n'esse instante os grandes raios do sol
que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma to grandiosa
paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sde!

Diante de ns, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos
primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o
portuguez chamra os Seios de Sab; e de cada lado d'elles,
estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira
de Suliman! No  possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel
grandeza e belleza d'aquelle quadro de montanha!

Alli estavam as duas enormes serras que no tm iguaes na Africa, nem
creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil ps
d'altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de
portentosa solemnidade, enchendo o co at acima das nuvens. E o que
esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se
como um muro disforme de granito, d'altura de mil ps: as duas serras
formavam como os dois torrees d'uma porta, perdidos nas profundidades:
a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique,
lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configurao d'uma
porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d'uma muralha cercando
uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda!

Bem justamente chamra o velho fidalgo portuguez aos dois montes Seios
de Sab! Tinham com effeito a frma perfeita de dois peitos de mulher:
as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n'uma curva dce e
tumida, parecendo quella distancia formosamente redondas e lisas: e no
cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve,
semelhava exactissimamente a ponta, o bico d'um peito. Prodigiosa
estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia,  uma
mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos!
Mas  minha imaginao (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada
n'esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha
estupenda, cercando e defendendo uma regio de infinito mysterio; e a
cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com
fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra
d'Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos
assombrados, comearam a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes
lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos
mortaes a magestade d'aquelle dito, que uma vontade divina nos deixra
por um momento entrever. D'ahi a pouco os Seios de Sab estavam
envolvidos de todo, resguardados sob o mystico vo--atravs do qual s
podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!...
Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares,
estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma
cortina de Sacrario. S a certas horas, ao romper do sol, a cortina se
descerrava, como n'uma celebrao, desvendando aos homens a maravilha
sem par.

Passada a violenta surpreza, de novo nos considermos com a mesma
anciosa interrogao--que fazer? Venvogel insistia, convencido, que
lhe _cheirava a agua_:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em
redor, esquadrinhavamos atravs do matto. Nada! S a areia ondulando,
com manchas de matagal. Dmos a volta toda ao singular outeiro onde
pararamos de noite. Avanmos para os lados, em todas as direces do
vento, com attentos e lentos passos, e olhos sfregos que furavam a
terra. Nada! Nenhum vestigio d'uma nascente, d'uma poa, d'um charco. S
areia, arido tojo.

--Idiota! gritei eu desesperado com o Hottentote. No ha, nunca houve
aqui agua!

N'aquella aspera, arida immensidade no parecia, com effeito, haver
possibilidade, nem sequer verosimilhana d'agua... E quanto tempo de
resto poderia durar alli uma poa salobra, como a que encontrra o
velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias
movedias?

No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas
erguidas e abertas:

--Eu sinto o _cheiro_ d'agua, patro. Sinto-a no ar!

--No ar no duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem no duvido que
venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos!

O baro no emtanto cofiava a barba pensativamente:

--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O
sitio  este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha
direita de norte a sul, da aringa de Sitanda s Serras.  aqui. Aqui
esteve agua!

Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e scca!
Quem nos afianava de resto a exactido do portuguez, esvado de fome,
meio delirado, no comeo da sua agonia? J no era pequena estranheza
que elle a tivesse encontrado, n'esta deserta immensidade, justamente
quando d'ella lhe dependia a vida!... A no ser que para ella fosse
attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno,
muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina...
Uma collina!

E quando eu assim pensava, eis que o baro grita, como echoando o meu
pensamento:

--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!

--Tolice! acudiu o capito encolhendo os hombros. Agua no topo d'uma
collina! Onde se viu isso?

--Procuremos! disse eu, com um bater de corao que era todo de
esperana.

Trepmos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente
estaca, com os braos no ar:

--_Nanzie manzie_! (agua aqui!)

Pulmos para junto d'elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina,
n'uma cova redonda como uma taa, l estava agua, agua escura, agua
lbrega--mas agua! Agua! agua! Gritavamos de puro gozo. E n'um momento,
estirados de barriga no cho, com as faces na poa, sorviamos
deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso,
que to bem imitava agua. Cos! O que bebemos! E mal findmos de beber,
arrancmos o fato, saltmos para o charco, e, sentados n'elle, ficmos
horas a embeber-nos de frescura atravs da pelle--da nossa pobre pelle
mais dura e mais scca que um pergaminho secular.

Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne
scca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella
hora de consolao. E o somno que nos tomou at ao meio dia, deitados
junto da poa e da sua humidade, foi profundo e bemdito!

Todo aquelle dia tardmos junto da agua, bebendo d'ella, mergulhando
n'ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo
que to exactamente a marcra no mappa. Por fim, tendo enchido d'agua os
estomagos e os cantis, continumos a marcha, mais animados e ageis, ao
erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n'essa noite. No
tornmos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a
achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu
e desfez as nevoas, avistmos de novo a cordilheira e os dois Seios de
Sab (agora afastados de ns apenas vinte milhas) tomando o co com a
sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E
ao outro alvorecer pismos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo
de Sab!

Com amargo espanto no encontrmos agua, e a nossa j ia findando! No
havia agora esperana de topar nascentes antes de chegarmos  linha de
neve, que branquejava l longe, no alto da serra: e j a sde nos
comeava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os
passos por sobre o torrido cho de lava que formava a base do monte.
Caminhada atroz! Pelas onze horas da manh, apesar de curtos repousos,
estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e
rugosos que nos magoavam horrivelmente os ps. De sorte que, descobrindo
a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos
descanar umas fartas horas  sua sombra providencial. Para l nos
empurrmos, por l nos abrigmos. E no foi pequena surpreza (se ainda
nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena
distancia, n'um planalto formando terrao sobre um barranco, uma extensa
e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formra
alli um cho de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham
alastrado e verdejado... Dmos, porm, pouca atteno a essas hervagens,
porque no havia l nem fructo nem agua--e de relva s Nabuchodonosor se
conseguiu alimentar. Alli ficmos pois, estirados  sombra dos
pedregulhos, sem fora no corpo e sem esperana n'alma, pensando que
nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda
aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em
silencio a leira de verduras, caminhra para l lentamente. E qual no 
o meu assombro ao vr aquelle individuo, ordinariamente to composto e
grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mo o quer que fosse de
verde! Arremettemos para elle, na esperana anciosa de agua descoberta.

-- agua, Umbopa? gritava eu pulando por sobre a lava.

--Agua e sustento, Macumazan! exclamava elle agitando no ar a coisa
verde, com effusivo triumpho.

Percebi emfim o que era. Era um melo! Tinhamos dado n'um meloal, um
enorme meloal bravo, com milhares de meles, a cahir de maduros!

--Meles! uivei eu para os companheiros que corriam atraz.

--Meles! meles! foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.

N'um momento, cada um de ns tinha os dentes cravados n'um melo,
sfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta meles; e apesar de
mediocres creio que nunca nada na vida me soube to deliciosamente. Mas
o melo no alimenta--e refrescada a sde no tardou a fome, mais
intensa e aguda. Conservavamos ainda o _biltong_, a carne scca; mas j
nos enjoava atrozmente: e alm d'isso deviamos poupal-a com avaro
cuidado, pela incerteza de encontrar outras provises na longa ascenso
da serra.

N'esse dia, porm, estavamos em sorte decididamente, como disse John.
Lanando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta
terrivel evidencia, _a fome_--vi de repente uns oito ou dez grandes
passaros voando em direco a ns, lentamente.

--Atire, patro, atire! exclamou baixo o nosso servo hottentote,
acaapando-se immediatamente no cho.

Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a cr da lava,
no fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas,
que no seu vo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por
cima das nossas cabeas. Tomei uma carabina Winchester, e esperei
acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um
salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em
monto; e atirando  massa escura, pude facilmente abater um soberbo
bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia
uma fogueira de talos sccos de melo: e o bicho aloirava em cima. Foi
um banquete! Comemos aquella betarda toda, fra carcassa e bico!

N'essa noite continumos a ascenso do monte,  luz da lua, carregados
de meles para a sde.  maneira que subiamos, o ar esfriava
consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da
linha de neve. Encontrmos mais meles: e a agua emfim, louvado Deus, j
no nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regies do gelo.
No emtanto era immenso o nosso pasmo de no encontrar nascentes, quedas
d'agua, um riacho corrente; porque decerto no vero as neves,
derretendo, deviam encher d'agua aquellas encostas. Por onde corria a
agua pois, para onde se sumia a agua? S mais tarde descobrimos que (por
uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho
ou em queda, descia pela vertente norte da serra.

A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma
milha por hora. A carne scca acabra. Meles, nenhuns mais encontrmos.
O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente
caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora
muitas horas que no comiamos. A serra subia, subia diante de ns, cada
vez mais desolada, mais na de verdura ou vida. Os nossos momentos de
repouso passavam n'um silencio sombrio e cheio de desesperana. Eu por
mim ia j to debilitado e confuso, que, d'esses tres dias que nos levou
a ascenso da serra, no me recordo com bastante nitidez--e s poderia
reconstruil-os pelos apontamentos do meu _Diario_. Na nota com data de
22 de maio encontro isto:--Partimos ao nascer do sol. Vamos meio
desmaiados de fraqueza. S quatro milhas andadas. Comemos os pedaos de
neve que comemos a encontrar. Frio intenso. Cada um de ns bebe uma
gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim
conservamos calor. Estamos verdadeiramente _soffrendo de fome_. Julguei
que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite.--Tudo isto  j
terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda
soffrimentos mais vivos:--Estamos n'uma situao medonha. A no ser que
encontremos que comer hoje, o nosso fim est proximo. O cognac acabou.
Venvogel, que como todos os Hottentotes no pde aguentar frio, parece
perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros
dizem que sentem o mesmo)  uma especie de adormecimento, de torpor no
estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a _porta_, o
colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sab.
Para traz de ns estende-se o deserto que atravessamos... Para que o
atravessamos ns? Logo abaixo d'estas linhas ha outra, escripta decerto
n'um dos momentos em que paravamos:--Deus se amerceie de ns, que
chegou o nosso fim!

Esta linha no tem data, mas sem duvida foi traada no dia 24. Depois os
apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n'esse
estranho dia. Iamos ento caminhando atravs da neve, com paragens
incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era
radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob
o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto
evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer,
fosse animal ou planta. Quasi ao pr do sol chegmos junto da ponta do
seio, d'essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da
montanha (da montanha que reproduzia a frma perfeita d'um seio),
parecia ella propria o bico d'esse peito descommunal. Apesar de
exhaustos, prendemo-nos um instante na admirao d'aquelle esplendido
cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e cr de rosa em
que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d'uma
carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admirao no podia
durar em homens collocados como ns, a to extrema visinhana da morte.
O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho
generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d'aquellas
neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir  noite que
vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de
encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n'essa branca e lisa
vastido de neve?

--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou
o capito John.

Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados,
esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta.
Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros:

--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos ns, ou  beira d'ella.

O baro, porm, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactido do
velho D. Jos da Silveira. Se elle a achou (argumentava o baro, e com
razo)  que essa cova est situada de tal sorte, to saliente e to
visivel, que no pde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de
quem fr trepando a serra.

--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! affirmou elle com um grande
gesto de esperana.

--Se a no encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier
sobre ns, assim desabrigados,  o fim da nossa aventura. Em todo o
caso, real ou metaphoricamente, _ a cova_!

Durante dez ou doze minutos arrastmos os passos n'um silencio mortal.
Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de
couro muito apertado, arrochado em volta da cinta para encolher a
fome. Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei
n'elle que parra, e que me agarrou pelo brao:

--Macumazan, acol! exclamou surdamente, apontando com o cajado.

O que elle apontava era a linha abrupta onde comeava, subindo, a
primeira encosta do bico do peito. E ahi na brancura da neve destacava
uma mancha preta.

-- a caverna! exclamou Umbopa.

Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d'um buraco. Para
l endireitmos os passos. E na realidade encontrmos uma gruta, de
entrada baixa e lbrega, que bem podia ser a que o velho D. Jos da
Silveira marcra no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E
bemdito era o seu encontro--porque (como succede n'estas latitudes) o
sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d'elle, de golpe, sem crepusculo,
sem gradao, a noite cahiu, gelada e negra. Enfimos bem depressa para
dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegmo-nos uns contra os
outros, sentados no cho, costas com costas. E alli ficmos na treva,
mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria.
Mas o frio, intenso de mais, no nos consentia dormir. Estou convencido
que n'aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou
quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de
affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome!

Pois alli estivemos em monto, encolhidos uns nos outros, durante a
infindavel noite, sentindo a cada instante, atravs do corpo, comeos de
congelao ora n'um p, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos
apertavamos! Para qu! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar
 carcassa alheia. s vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas
para acordar logo em sobresalto, recomear a tremer. De resto,
n'aquellas condies, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria
eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo
por um violentissimo e teimosissimo esforo da vontade.

Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos
dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por
mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se
tivesse adormecido. As costas d'elle pousavam contra as minhas costas.
Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se
positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes
as repelli. Duas vezes a _pedra_ se abateu sobre mim, mais fria. O ar no
emtanto clareava.  entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa
luminosa, feita da refraco do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e
fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando ento para traz
descobri que o pobre Hottentote estava _morto_! Decerto morrera quando o
ouvi suspirar. Pobre Venvogel! No admirava que lhe tivesse sentido as
costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findra. Alli
estava agora, na mesma postura, com as mos apertadas em torno dos
joelhos, a cabea cahida para baixo, _gelado_. Todos nos erguemos de
salto, com horror. J a esse tempo o dia penetrra na caverna, n'uma luz
mortia e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a
cabea, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que no tinha mais de
quatro metros, uma frma, uma figura humana, sentada n'uma pedra, com a
cabea toda descahida sobre o peito, os braos hirtos e pendentes para o
cho! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um _morto_.
Peor ainda, percebi que era um _branco_!

Os nossos nervos, desorganisados j, no puderam com esta nova e brusca
emoo. Tropeando uns nos outros, largmos desesperadamente a fugir
para fra da caverna.

       *       *       *       *       *

Mas depois, fra, na plena luz, olhmos uns para os
outros--envergonhados.

--Vou vr outra vez, exclamou o baro terrivelmente pallido. Talvez a
figura que vimos seja a de meu irmo.

Era possivel. E um por um, n'um silencio apavorado, atraz do baro,
tornmos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz
exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava.
Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra.
Avanmos para ella. O baro ajoelhou, espreitou a face morta, teve um
suspiro de allivio:

--No, graas a Deus, no  elle!

Fui tambem olhar. No, nem remotamente se parecia com esse sujeito
chamado Neville, que eu encontrra em Bamanguato. O cadaver era o d'um
homem alto, de meia idade, com feies aquilinas, cabello j grisalho, e
longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda
esticada sobre os ossos. No tinha fato, a no ser uns restos de meias
altas, de l, at aos joelhos. Do pescoo, preso por uma correntesinha,
pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham
petrificado.

--Quem poder ser? murmurei, assombrado.

O capito John contemplava a figura pensativamente.

--Tenho uma ida... No pde ser seno elle!  o velho fidalgo!  D.
Jos da Silveira!

Eu e o baro soltmos o mesmo grito de incredulidade:

--Impossivel! Ha trezentos annos!

Mas o capito tinha as suas razes, e decisivas. N'uma temperatura como
a da cova, que  a d'uma geleira, um corpo morto pde perfeitamente
conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de
quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de
sol entrra jmais n'aquella cova voltada para noroeste: no havia
animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam
tres seculos? A carne de aougue que vem da Nova-Zelandia para Londres
dentro das geleiras artificiaes est fresca ao fim de trinta dias; e
conservada em iguaes condies, no se deterioraria ao fim de trinta
seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o
encontrou morto, tirou-lhe o fato, no se deu ao trabalho de o enterrar,
e abalou...

--E olhai! accrescentou o capito apanhando uma especie de osso da frma
d'um lapis, e aguado, que jazia no cho, ao lado. Aqui est com que
elle desenhou o mappa! Tirou sangue do brao, escreveu com esta ponta de
osso!

Passmos o osso de mo em mo, em silencio, esquecendo as nossas
proprias miserias no espanto d'aquelle encontro. J no podia haver
duvida. Alli estava elle pois, sentado n'uma pedra, frio e duro como
ella, o homem cujo derradeiro escripto, traado havia mais de trezentos
annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o
encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue
riscava o roteiro que d'alm-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha!
Alli tinha eu na mo a rude penna com que elle trara essas linhas! E
parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os
momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e
de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira;
a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente
lanadas; a penna informe escorregando-lhe da mo; a treva da noite
enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento
dado ainda aos seus,  terra d'onde partira n'um galeo, ao Rei que
servia com indomada f; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para
a morte, n'aquelle immenso silencio e na immensa solido!

Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e
energicas feies do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera
nos braos. Talvez imaginao. Em todo o caso _elle_ alli estava, o
primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallra,
estendendo os olhos j embaciados para os distantes seios de Sab. Alli
estava; e provavelmente l est ainda, l estar, atravs dos seculos
que ho de vir, para espantar outros aventurosos homens como ns, se
jmais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria
tumba!

--Vamos embora! exclamou o baro, muito pallido.

Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficra na mesma
postura, com os joelhos  bca, os braos apertados em volta dos
joelhos:

--Dmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n'este esquecimento.

Erguemos ento o cadaver de Venvogel e collocmol-o sentado na pedra,
junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o baro quebrou a corrente
que pendia do pescoo de D. Jos da Silveira, e guardou o crucifixo no
seio. Eu proprio tomei o osso em frma de lapis. Aqui o tenho ao meu
lado, emquanto estas linhas escrevo. s vezes assigno com elle o meu
nome.

Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d'outras eras
e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas
eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retommos em
fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como
elles, gelados e hirtos, n'um barranco da serra.

Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegmos emfim 
extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o bico do
peito. E foi uma grande emoo. Por baixo de ns, adiante de ns,
estava (devia estar) emfim essa regio mysteriosa para alm das serras,
que ns vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso
nevoeiro. Alli ficmos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as
camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistmos ento um
pendor da serra, muito dce e todo coberto de neve. Depois outras
camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos
famintos uma campina de herva verde, um regato correndo atravs, e 
beira d'agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos
pareceram antilopes.

A nossa alegria--foi como a d'uma resurreio. Caa! Alli estava caa
para comer, e deliciosa! Era a salvao, era a vida! A difficuldade era
caar--essa caa!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroo tivemos uma
rapida e atarantada discusso, em voz baixa e tremula--se deviamos
aproximar-nos da caa ou fazer fogo d'alli, se deviamos usar as
carabinas Winchester ou a Express! Indeciso terrivel--porque de
acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me
decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o
rebanho. E a carabina Express, apesar d'um alcance inferior, era
preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam
_algum_ dos antilopes.

Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou
tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que,
alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando
furiosamente. Berrmos de puro gozo. Estavamos salvos! salvos! De fome
j no morriamos! Corremos aos trambulhes pela neve abaixo:--e em
poucos momentos tinhamos nas mos os figados e o corao do animal,
quentes e fumegando!

Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caa?

--Gente faminta no tem exigencias! gritou excitadamente o capito John.
A ella, e cra!

No restava outra soluo--e no nos pareceu repugnante. Arrefecemos as
visceras na neve, lavmol-as na agua corrente--e devormol-as com
voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne cra me
soube divinamente! D'ahi a um quarto de hora, que mudana! Voltra-nos a
vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim
_sentia_ positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!

O baro apertou as mos, e disse simplesmente:

--Louvado seja Deus por isto!

Ficmos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n'um sorriso
mudo. E no havia em ns outra sensao--seno a de estarmos salvos, de
estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dcemente no sol, que
subia macio e tepido. Quando acordmos, e esfregmos os olhos, o
nevoeiro desapparecera. Toda a vasta regio em baixo nos appareceu n'um
relance. Demos um grande _ah_, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem
outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e
da fome passada, parecia-me que morrera, que chegra ao Paraiso, e que o
Senhor nos ia apparecer!

Estavamos no planalto d'um dos Seios de Sab, com um dos bicos do
peito erguendo-se por traz de ns at s nuvens, sublime e brilhante de
neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n'uma
profundidade de cinco mil ps; e para alm das derradeiras faldas, a
perder de vista, eram leguas e leguas d'uma terra esplendidamente
fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante ns como um
immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim
abrangidos n'um relance, davam a impresso d'um paraiso resumido onde
Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente
se pde detalhar uma paizagem to formosa e vria. Aqui alastrava-se uma
vasta mancha de floresta; alm um rio ondulava com vivos brilhos d'ao
novo; para diante longas pradarias tapetavam o slo de verde tenro e
claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que
pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as
rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante
entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas
coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensao
prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de
serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava
illimitadamente a alegria do seu fulgor d'ouro.

Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella regio to
rica estivesse pelo menos cinco mil ps acima do nivel do deserto. E
depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado
opposto ao serto, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no
horisonte azulado.

Nenhum de ns fallava, arrobados na contemplao d'aquella incomparavel
natureza. Por fim o baro estendeu o brao:

--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomo, no
 verdade? Pois l est, alm, para a direita...

E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo
dos nossos ps, branquejava uma grande estrada! Tinhamos j perdido toda
a faculdade de admirar. E a nenhum de ns pareceu estranho, que, no topo
d'uma montanha, no centro d'Africa, a centos de leguas de toda a
sciencia e civilisao, houvesse uma estrada, com as propores e
grandeza d'uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os
abysmos.

--O melhor  descermos, disse simplesmente o capito John.

A estrada ficava (como disse)  nossa direita, surgindo por traz de
grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortmos
para l, devagar, ora atravs de grandes espaos de neve, ora por sobre
montes de lava. Quando dobrmos por fim as penedias, avistmol-a de
repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha
viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia
comear alli, ao meio da serra, bruscamente. Continumos a descida
alvoroados, pozemos emfim os ps sobre as suas fortes lages. Olhmos,
explormos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra,
entre umas rochas de lava entremeadas de neve!

--Extraordinario! exclamou o baro. Porque comea esta estrada assim, ou
porque acaba assim, de repente, no meio da serra?

Abanei a cabea, em perfeita ignorancia.

--Parece-me que percebo, disse o capito coando o queixo. Esta estrada
 simplesmente maravilhosa! No acaba aqui. Antigamente galgava a
cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para
alm, foi coberta por montes de lava, n'alguma erupo: e a parte que
cortava o deserto foi invadida pelas areias movedias. No pde ser
seno isto.

Talvez fosse. Em todo o caso largmos os passos por sobre essa
surprehendente estrada que tinha o nome de Salomo. Esta suave descida
por uma magnifica calada, com as foras restauradas, e a abundancia a
esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem
differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e
com a afflictiva incerteza do que estaria para alm. Na verdade, se no
fosse a triste lembrana do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle
espectralmente ficra ao lado do velho fidalgo d'outras eras, poderiamos
cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se
tornava mais macio e tepido:--e a regio em torno parecia crescer para
ns, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era
positivamente portentosa. Affirmava o baro que tinha semelhanas com a
estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim no vira maravilha
maior! N'um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d'uns trezentos ps
de largura, d'uma profundidade de mais de cem ps: pois este abysmo
estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das
torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurana. N'outros
sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios,
com parapeitos que a defendiam e formavam balces sobre o abysmo. Mais
adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas.

Nas paredes d'este tunnel corriam singulares relevos representando
guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de
combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanas em
confuso, e captivos acorrentados.

--Tudo isto  obra egypcia, dizia o baro parando a cada instante. Tudo
isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada vir de
Salomo. Mas estas esculpturas so das mos de egypcios.

Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha at s faldas baixas
onde comeava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos
silvestres. Depois a estrada penetrava n'um bosque de olmos, uns olmos
cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha s existirem no Cabo.

--Estamos ao menos em terra de lenha! exclamou enthusiasmado o capito
John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim j digeri aquella
carne cra... Reentremos solemnemente na civilisao!

Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direco
a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem
depressa fizemos um fogo de ramos sccos; e, cortando succulentos bifes
do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de
espetos de pau,  velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto
accendemos os cachimbos--e estirados  sombra das frescas arvores,
gozamos emfim, depois de to longos e duros dias, um repouso perfeito.

O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre
seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos
esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e alm
cresciam tufos de flores. Uma brisa tpida e macia como velludo
susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E
de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias.

Nenhum fallava, no enlevo d'aquella paz e d'aquella doura. E por muito
tempo nenhum de ns se moveu--at que o capito John, surgindo de
repente n do leito espesso de fetos onde se enterrra, correu para o
riacho, e mergulhou n'um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n'um
bem-estar indizivel, occupei-me ento a observar aquelle homem
admiravel, que, apenas se achava n'uma regio d'ordem, retomava os seus
complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso
excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se  beira do
regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta
barrela sacudiu, escovou, esticou as calas, o collete, o jaqueto,
dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e
desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou s
botas, que esfregou com uma mo cheia de feto, e depois besuntou com
gordura de antilope (que pozera de lado) at lhes dar uma apparencia
comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de
monoculo fixo e cabea  banda, encetou outras e mais delicadas
operaes. D'um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho
e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba j
grossa d'oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a
cabea com desconsolao e tdio. Comeou ento pelas unhas que aparou e
poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente,
com uma ida, calou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com
as pernas nas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o
espelhinho n'um ramo d'arvore. O arranjo no provou satisfatoriamente,
porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o
espelho n'uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mo no sacco
e tirou uma navalha de barba... Santo Deus! pensei eu erguendo-me no
cotovlo, o homem ir fazer a barba? Ia. Tomando outra vez o pedao de
gordura de antilope com que ensebra as botas, lavou-a escrupulosamente
no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e
principiou a rapar o pllo aspero de dez dias. Era porm uma operao
difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d'um
angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade
do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando,
de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabea.

John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma
margem do regato, a distancia d'uns trinta passos, dei com os olhos n'um
bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta,
e cr de cobre.

Alguns d'elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabea umas
coras de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em
frente do bando, um rapaz d'uns dezesete annos conservava ainda o brao
erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d'uma estatua que eu
vira no Cabo, um Ephebo grego que lana um dardo.

Evidentemente a _coisa_ que passra e brilhra era um dardo--e fra o
moo airoso que o arremessra.

Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d'entre o
grupo, e, agarrando o brao do rapaz, fallou-lhe baixo como se o
avisasse. Em seguida todos avanaram para ns.

O baro, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os
homens todavia continuavam avanando, devagar, em grupo. Percebi logo
que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim
tranquillamente os tres canos erguidos.

--Baixem as armas! gritei aos outros.

Tinha comprehendido tambem que a nossa segurana entre essa gente
selvagem dependia toda de conciliao e de ardil. Apenas pois os
companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.

--Bem vindo! exclamei em Zul, ao acaso, sem saber que idioma
entenderiam aquelles homens.

Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, no em Zul,
mas n'um outro dialecto, to parecido com o Zul, que Umbopa e eu o
percebemos perfeitamente:

--Bem vindo!

Como viemos a saber depois, a lingua d'este povo era uma frma antiquada
da lingua Zul--e estando para o Zul do sul como o inglez do tempo dos
Tudores est para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho
avanra outro passo, erguendo a mo.

--D'onde vindes? continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vs as
faces brancas, e o outro a pelle como ns e como os filhos de nossas
mes?

E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela cr, pelas
feies, era muito semelhante quelles homens formidaveis. Eu ento
repeti a saudao ao velho. E, muito espaadamente, para que elle
apanhasse bem o meu Zul:

--Somos gente d'outros sitios, vimos em boa paz, e este homem  nosso
servo.

O velho abanou lentamente a cabea, ornada de immensas plumas negras que
ondulavam.

--Mentes! A gente d'outros sitios no pde atravessar as montanhas, nem
o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas no importa que mintas...
Se sois estranhos e vindes d'outros sitios, tendes de morrer, porque no
 permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas.  a vontade do
nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!

Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens
levarem logo a mo ao cinto d'onde lhes pendiam umas armas em frma de
pesadas navalhas.

--Que diz esse malandro? perguntou o capito, percebendo o meu embarao.

--Diz simplesmente que nos vai retalhar  faca.

--Santo Deus! murmurou o nosso amigo.

E, como era seu costume, em frente d'um perigo ou d'uma crise, passou
nervosamente a mo pelo queixo e pelos beios. Alguma coisa decerto lhe
succedeu ento  dentadura postia (que momentos antes tirra para lavar
e que tornra a pr), porque n'um relance lhe vi os dentes todos de
fra, e logo sumidos para dentro! No percebi bem o caso. Mas qual  o
meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para
traz, em tropel!

--Que foi? exclamei.

--Foram os dentes! acudiu o baro, excitadamente. Os selvagens viram-lhe
os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez
os assustes.

O capito promptamente comprehendeu, passou a mo devagar por sobre a
bca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n'uma ancia de
curiosidade, avanavam de novo, com os olhos arregalados para John. E
foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mo, com
solemnidade:

--Quem  este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas nas,
cabello s em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem  elle
que faz mexer assim  vontade os dentes para dentro e para fra da bca?

--Abra a bca, John! murmurei eu baixo para o capito.

John arreganhou os beios, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas,
desdentadas como as d'um recemnascido. Entre os selvagens passou um
susurro d'espanto.

--Onde esto os dentes? Ainda agora tinha dentes! exclamavam elles,
entre si, com gestos apavorados.

Ento John deu um movimento vagaroso  cabea, passou a mo pela bca
com soberana indifferena, e desfranzindo de novo os beios--mostrou
duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sos, que
rebrilhavam.

No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o
cho, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as mos,
n'um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e to
encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro.

S quem conhece selvagens e a mobilidade d'aquellas imaginaes infantis
pde comprehender como subitamente, em cada um d'elles, ao desejo de nos
matar ia j succedendo o impulso de nos adorar... Quando o velho tornou
a levantar a voz, foi muito humildemente e n'uma postura de supplica:

--Vs sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh gentes! Nunca
houve homem nascido de mulher que tivesse s cabello n'um lado da cara,
e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente
crescem outra vez... Vs sois Espiritos. Perdoai-nos, senhores,
perdoai-nos!

Aproveitei logo esta esplendida occasio. E estendendo o brao, com
soberba magnanimidade:

--Estaes perdoados.

Era porm necessario, para nossa salvao, que deslumbrassemos e
inteiramente nos apoderassemos d'aquellas almas ferozes e simples. E
para isso, n'Africa (como n'outras partes) o mais prompto instrumento 
o sobrenatural. No hesitei portanto (com vergonha o confesso) em me
attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto,
com o negro da Africa Central, que _pela primeira vez_ v o branco, e
assiste a alguns dos _milagres_ que o branco pde realisar com os
pequenos recursos da sua pequena civilisao, este procedimento  o mais
seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por algum
tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e
assim, poupando ao negro as traies, os brancos poupam a si proprios as
represalias.

Ergui pois a mo, e disse, com vagar e magestade:

--J que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos
dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos alm, por cima das nuvens,
n'uma d'aquellas estrellas que vs vdes de noite brilhar. E viemos
visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos!

Entre os indigenas correram grandes _ah_! _ah_! lentos e maravilhados.

Eu prosegui, mais grave:

--Ns conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz
dos outros, conheo todas as linguas.

--A nossa bem mal! arriscou com timidez o velho guerreiro.

Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para
fazer uma diverso brusca quella observao to justa e perigosa:

--Viemos em paz,  certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez
devessemos castigar j o ultraje feito por esse moo, que sem provocao
atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e
cahem.

--Oh no! meu senhor! gritou n'uma anciosa supplica o velho guerreiro.
Poupai-o! Poupai-o, que  o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o
ajudei a crear. S eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas
veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos!

Affectei no comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior
indifferena:

--As nossas maneiras de castigar so simples e terriveis. N'um instante
ides vr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa),
d-me a arma de feitios que troveja.

Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as minhas
affirmaes de divindade, e que (Zul intelligente, afeito aos brancos e
s _suas manhas_) lhe percebera o alcance--estendeu-me uma carabina
Winchester, com humilissima reverencia.

Justamente n'esse instante avistei, para alm do riacho, a umas setenta
jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um monto de
rochas.

--Vdes aquelle gamo? exclamei eu para os selvagens. Julgaes possivel
que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate d'aqui d'onde
estou, s com fazer estalar um pequeno trovo?

--No  possivel! murmurou recuando o velho guerreiro. No  possivel
para homem nascido do ventre da mulher!

--Ides vr.

Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou
morto, immovel, estatelado nas pedras.

Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... Eu
accrescentei simplesmente:

--Ahi est. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo!

O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a caa. E
amontoados em volta d'ella, todos em silencio (n'um silencio que era
religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos o
buraco da bala que lhe acertra entre os hombros.

--Se no estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez d'um gamo me
quereis vr matar um homem, que um de vs se colloque alm sobre as
pedras ou mais longe, e o raio ir ter com elle.

Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando.

--No! No! gritaram alguns. Acreditmos, acreditmos... No vale a pena
gastar feitios com ns outros, que acreditmos e que somos amigos!

O velho guerreiro interveio, com alacridade:

--Assim ! Ns somos amigos. E para que nos conheaes bem, oh almas das
estrellas, que trovejaes e mataes to de longe, sabei que eu sou
Infands, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este moo  Scragga,
filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos
Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada,
sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo,
Tuala o d'um-s-olho...

--Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos ento ao rei Tuala.
Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, ns s fallamos a reis!

--Certamente, meu senhor, certamente... Mas ns andavamos caando
n'estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do rei. So
tres dias que tendes de caminhar.

--Caminharemos. Escuta tu, porm, Infands, e tu, Scragga, filho de
Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma traio, ou se
essa ida vos atravessar sequer a cabea, ns, que tudo adivinhmos,
tomaremos de vs tal vingana que far ainda estremecer os filhos de
vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vo e vm,
incendiar todas as vossas searas com a chamma do seu olho, e
despedaar todas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E ns
faremos resoar os canos que trovejam d'uma maneira que ser pavorosa!
Toda a agua seccar. Todo o gado morrer. E os espiritos maus viro, 
nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho.

Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos
acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda
assim o velho Infands saudou-nos com uma reverencia mais funda e mais
servil, repetindo tres vezes estas palavras: _Krum_! _Krum_! _Krum_!
Como depois soubemos,  esta a maneira kakuana de saudar o rei.
Corresponde ao _Bayte_! dos Zuls.

Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram
s costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras
miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes
voltas e com olhares de terror.

Um d'elles lanou mo ao fato do capito John, ainda cuidadosamente
dobrado  beira d'agua. O excellente John deu logo um pulo para as
calas. E rompeu ento uma immensa altercao.

--No, meu senhor, gritava Infands, no consentirei que o meu senhor
carregue com essas coisas!

--Mas  que eu quero pr as calas! berrava John.

--Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar...

--Mas as calas...

--Meu senhor!...

--Larga as calas, malandro!

Tive de intervir, suffocado de riso.

--Escute, John. O caso  mais serio do que parece. Um dos motivos do
terror que estamos inspirando  a sua luneta, a sua cara meia barbada e
meia rapada, os seus dentes postios, e essas pernas brancas  mostra...
Tudo isso espanta as imaginaes de selvagens. E se o amigo quer que no
nos percam o medo,  necessario continuar a apparecer-lhes n'essa
figura. Se o amigo lhes surgir manh d'outro modo, tomam-nos por
impostores, e a nossa vida no vale mais um pataco. Assim o viram n'esta
terra, assim n'ella tem de ficar.

John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o baro:

--O amigo Quartelmar tem razo, affirmou o baro. E d graas a Deus que
j estavas de botas, e que a temperatura  to dce.

John teve um suspiro de furiosa resignao. E, durante a nossa estada na
terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou
notaveis feitos--de botas, de pernas nas, com uma metade da cara
rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento!




CAPITULO VI

PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS


Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia
infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam
adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas
bagagens. Ns iamos no meio, entre Infands e Scragga.

Pouco a pouco, Infands e eu descahimos n'uma palestra familiar e
amigavel. O velho era esperto e loquaz.

--Quem fez esta estrada, Infands?

--Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo
uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido atravs de geraes...
J ninguem pde fazer estradas assim... Mas o rei no consente que se
desmanche, nem que lhe cresa a herva por cima.

--E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infands?

--A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que esto
para alm (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de luas. Para
baixo no puderam seguir, segundo diziam nossos avs, que o disseram a
nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. No puderam
por causa das altas montanhas que esto em redor, e do deserto onde tudo
morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos e
to fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, chama os seus
regimentos, o cho treme todo com o seu peso, e at onde a vista alcana
s se vem plumas de guerreiros e lanas.

--Mas se a terra est murada de montanhas, e se no tendes visinhos,
para que so tantos soldados?

--A terra est aberta para alm (e indicava o Norte). E s vezes descem
de l multides, que no sabemos quem so, e que ns destruimos. J
correu a tera parte d'uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois
houve outra guerra, mas foi entre ns, irmo contra irmo.

--Como foi isso, Infands?

Infands comeou ento uma d'essas historias de pretendentes e de
guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d'elle,
Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da
primeira mulher (elle, Infands, era filho d'uma concubina) dois gemeos.
Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja
sempre destruido. Mas a me, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais
fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo
n'uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava
Imot, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um
filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passra a guerra com os povos
do Norte: os campos no tinham sido semeados; veio uma fome; e havia
grande miseria e dr entre o povo, que, como uma fera esfaimada,
rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para
despedaar. Foi ento que Gagula, a mulher que tudo sabe e que no
morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imot reinava
sem ser rei. Imot a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma
ferida. Comeou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia
reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a me
tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a
cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis so
marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca
em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabea e o
rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: Eis o vosso verdadeiro rei, que
eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora! O povo, tonto
de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real,
largou a bradar: Este  o rei! Este  o rei! Alguns sabiam bem que
no--e que n'este s havia impostura. Mas n'esse momento, ouvindo os
alaridos, o rei Imot sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e
com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e
porque pediam elles o rei! Immediatamente Tuala, o irmo, corre para
elle e crava-lhe uma faca no corao! E o povo, que as aces decididas
e bruscas sempre fascinam, gritou logo: Tuala  rei! Tuala provou que 
rei! Diante d'isto a pobre mulher de Imot agarrou o filho, o seu
Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n'uma aringa, pedindo
de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais
voltou.

--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra,
que Tuala no  o verdadeiro rei.

O velho respondeu com prudencia:

--Tuala, o grande,  rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, s esse tinha o
legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe
marcada em torno da cinta. O rei  elle. Smente decerto ha muito que
Ignosi morreu...

Casualmente n'esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que
marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os
calcanhares, absorto n'aquella historia de Imot e de Ignosi, com uma
curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado,
lhe davam a expresso de quem de repente lembra coisas vagas, remotas,
semi-esquecidas, perturbadoras. N'essa occasio permaneci indifferente.
Mas, depois, atravs da jornada, muitas vezes pensei n'aquella anciosa,
esgazeada curiosidade do Zul.

       *       *       *       *       *

No emtanto j trilharamos algumas fortes milhas d'estrada. As montanhas
de Sab ficavam para traz envoltas nos seus mysticos vos de nevoa. E o
paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico.

Ao comeo da tarde avistmos emfim uma grande povoao,--que, segundo
Infands nos declarou, pertencia ao seu commando militar e continha uma
vasta guarnio. O velho guerreiro mandra mensageiros adiante,
correndo, n'um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E quando nos
aproximmos da alda, descobrimos com effeito, sahindo das portas e
marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados.

O baro tocou-me no brao, com um receio que as coisas se apresentassem
desagradavelmente. Infands decerto comprehendeu, pelo tom, pelo
franzir de sobrancelhas do baro, o sobresalto que o tomra (e a mim),
porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia:

--Que os meus senhores no suspeitem de mim! Aquelle  um dos regimentos
que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos
que vm do mundo das estrellas...

Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferena. Realmente estava
bem inquieto!

A povoao ficava  direita da estrada, separada d'ella por um declive
de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formra em parada.
Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos acercmos, podmos
vr com admirao e assombro, de que esplendida, de que formidavel raa
eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis ps d'altura;
e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes,
prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a
cabea todos traziam a cora d'altas e pesadas plumas negras, sempre
tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saio feito de rabos
de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no brao esquerdo
sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de
branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante  dos Zuls--e tres
facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que
elles chamam _tollas_ e que arremessam a distancias de cincoenta jardas
e mais, com uma certeza terrivel.

As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas,
 medida que iamos passando em frente d'ellas, cada official (que se
distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os
homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a saudao real, a grande
voz: krum! krum! krum!

Assim penetrmos na povoao ao rumor de acclamaes. A alda devia ter
uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por
uma alta estacada feita de troncos d'arvores. Na porta central, do lado
da estrada, havia uma ponte levadia.

Parecia uma alda admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre arvores,
corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras mais
estreitas, formando sries de quarteires, cada um dos quaes alojava uma
companhia. As cubatas, redondas, feitas d'uma grossa verga entrelaada,
findavam  maneira das dos Zuls por tectos de colmo em frma de
zimborio agudo: mas, differentes n'isto das dos Zuls, tinham uma porta,
larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo cho de cal dura
rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres,
que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella
raa de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabello
mais ondeado que encarapinhado, as feies por vezes aquilinas, e os
beios sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave
e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao vrem-nos
desfilar, to estranhos e differentes de todos os homens que at ahi
tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma
exclamao: apenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as
pernas niveas do pobre amigo, que, rodo de vergonha, praguejava baixo.

Quando chegmos ao centro da alda, Infands parou em frente d'uma
espaosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, entre arvoredo.
E com palavras grandiosas,  maneira dos Zuls, offereceu-nos a
hospitalidade:

--Aqui habitareis, meus senhores. E no tereis de apertar o ventre com
fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns
carneiros. No  muito, oh Espiritos! Mas  dado por coraes, que se
regosijam de vos vr.

--Bem, bem, Infands, murmurei eu. O que precisamos sobretudo 
descanar, fatigados da nossa descida atravs dos espaos e dos reinos
do ar...

A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no cho,
grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua.
D'ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu  porta um bando de
raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz
dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos
rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o
outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou.

Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa
passou a cozer a carne n'uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira
accesa  porta da cubata: e ns mandamos convidar Infands e Scragga
para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer,
se no encruzavam no cho  maneira dos Zuls--mas se sentavam em
pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados s paredes. O jantar
foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doura e
respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para ns, e para cada um dos
nossos gestos, com singular desconfiana. Talvez, ao vr que ns
comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana,
comeava a suspeitar da nossa origem divina. No me agradou este
sentimento, to real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas,
perdidos entre aquellas turbas negras, seno o terror supersticioso?

Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos
d'espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zuls, a planta do tabaco
cresce em abundancia--mas elles s a sabem usar torrada e scca,
pulverisada. S conhecem o rap.

No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infands j tudo
organisra para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando
adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala
estava ento na sua grande cidade de L, preparando-se para a revista de
tropas, a dana das flores, e caa aos feiticeiros, que constituem a
maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana
de junho. E segundo affirmava Infands, ns deviamos (a no ser que nos
detivessem os rios transbordados) entrar as portas de L ao fim de dois
dias de marcha.

Depois, como comeavam a luzir as estrellas e a alda ia cahindo em
silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de ns atiraram-se
logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas
carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as
traies.

Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura.




CAPITULO VII

O REI TUALA


No me dilatarei nos incidentes da nossa jornada at L--que nem foram
consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias trilhmos a
estrada de Salomo, por entre ricas terras cultivadas, e alegres
povoaes que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada
instante passavam por ns troos de gente armada, regimentos emplumados
marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No
segundo dia, ao pr do sol, parmos n'uma collina, que a estrada galgava
por entre dois renques d'arvores em flr:--e em baixo, n'uma planicie
deliciosamente fertil, avistmos emfim L, a capital dos Kakuanas.

Para cidade d'Africa era enorme,--com seis milhas talvez de
circumferencia, toda ella defendida por estacadas, e rodeada de pomares
e de vastas aringas onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um
largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas,
erguia-se uma collina, que offerecia a frma singular d'uma ferradura:
e, mais longe, a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planicie,
em triangulo, tres serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve.

--A estrada (explicou Infands, vendo que contemplavamos com estranheza
os tres montes) acaba alm n'essas serras, que se chamam as _Tres
Feiticeiras_.

--E porque acaba alm, Infands?

--Quem sabe! murmurou o velho encolhendo os hombros. As tres montanhas
esto todas furadas por cavernas. Ha no meio d'ellas uma cova immensa. 
l que se sepultam agora os nossos reis. E era alli que os homens
antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas coisas...

--Que coisas, Infands? exclamei eu, cravando n'elle um olhar que o
sondava.

O velho sorriu, com uma grossa malicia de negro:

--Os Espiritos que vm das estrellas sabem decerto mais do que um
Kakuana...

--Com effeito! acudi eu, n'um tom sciente e profundo. E por isso te
posso dizer, Infands, que esses homens antigamente vinham procurar um
ferro amarello que rebrilha, e umas pedras brancas que faiscam.

--Talvez fosse, talvez fosse! balbuciou Infands, embaraado,
afastando-se bruscamente para lanar uma ordem aos carregadores da
bagagem.

--Acol, disse eu aos companheiros mostrando as _Tres Feiticeiras_,
esto as minas de Salomo!

Todos tres, commovidos, ficmos a olhar aquelles montes to proximos,
onde jaziam ainda talvez (se o velho D. Jos da Silveira contra a
verdade) os mais ricos thesouros da terra... A que prodigioso momento
chegra a nossa aventura!

De repente, quando assim pasmavamos, o sol desappareceu--e a noite
cahiu, sem transio, visivelmente, como uma coisa tangivel. N'aquellas
latitudes no ha crepusculo. A luz acaba como a chamma d'um bico de gaz
que se fecha: e, n'um instante, a terra toda fica envolta n'uma cortina
de treva.

N'essa occasio porm, durou pouco a escurido, porque bem cedo a mais
larga e esplendida lua que me lembro de ter visto subiu magestosamente
ao co, derramando uma to sublime refulgencia, to divinamente serena,
que, sem saber porqu, cada um de ns tirou o chapo, como n'um templo,
ante uma imagem sagrada.

Infands, porm, quebrou a nossa contemplao, dando o signal de descer
para a cidade, que agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia
infindavel atravs da planicie.

E d'ahi a uma hora, tendo passado a ponte levadia, entre piquetes de
sentinellas a quem Infands deu baixo o _santo e senha_, seguiamos
calados pela rua central de L, toda ladeada de sombras d'arvores e de
senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos  grade
d'um pateo redondo, com o cho muito batido e duro, todo caiado de
branco. Em volta erguiam-se cubatas espaosas, cobertas de colmo. Eram
alli (segundo declarou Infands) os nossos humildes pousos.

Cada um de ns tinha, s para si, uma cubata. Havia dentro um grande
asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre enxerges de
herva aromatica. Uma esteira tapetava o slo. Tripeas pintadas
alternavam com frescas vasilhas d'agua. No podiamos esperar mais
cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavmos, sacudimos o p, appareceu
logo um bando de raparigas, das mais bellas que at ahi encontraramos no
paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos pratos
de madeira.

Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas
(precauo que encheu de riso as raparigas),--e no tardamos em
adormecer com grata tranquillidade. Acordmos quando o sol ia nado--e a
primeira e aprazivel impresso que recebemos foi a do bando das
raparigas, acocoradas no cho, a um canto,  espera que despertassemos
para nos ajudar a lavar e a vestir.

Quando uma d'ellas, a mais alta (e que figura! que braos!) fez esta
amavel offerta, o capito John teve uma exclamao, um gesto d'atroz
desespero:

--Vestir!  bom de dizer! Quando uma pessoa no tem seno uma camisa e
um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi
por essa cidade... No! isto no pde continuar! Eu no arredo p d'aqui
da cubata, seno de calas! Quero as calas!

Vi o meu amigo to decidido, que reclamei as calas. Mas uma das
raparigas voltou d'ahi a momentos declarando que essas sagradas e
maravilhosas reliquias tinham sido j mandadas ao rei!

O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a
face direita; porque na esquerda no consentimos ns que elle eliminasse
um s pllo  farta suissa que j lhe crescra. Aquella cara espantosa,
rapada d'um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da nossa raa
sobrenatural. Todos ns, de resto, tinhamos aspectos estranhos. Os
cabellos do baro, amarellos e sempre longos, desciam-lhe agora at aos
hombros, n'uma juba rude, que lhe dava o ar d'um barbaro dos tempos do
rei Olloff.

O almoo j esperava, fra, no terreiro, em caoulas que fumegavam. Mas,
primeiramente, quizemos tomar o nosso _tub_, atirar pelas costas alguns
frios baldes d'agua. E o assombro, a desconsolao das raparigas foi
consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando
a porta de vime...

Logo depois do almoo, Infands appareceu annunciando que el-rei Tuala
nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio.
Declarei immediatamente, com indifferena e altivez, que ainda nos
achavamos canados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.

Convm sempre, tratando com potentados negros, no mostrar pressa nem
respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que,
apesar da nossa anciedade em vr o terrivel Tuala, retardmos nas
cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos
presentes que destinavamos ao rei e  crte: a espingarda do pobre
Venvogel, um bocado de sda, alguns fios de contas de vidro.

Afinal partimos, guiados por Infands--e seguidos por Umbopa que levava
as dadivas.

       *       *       *       *       *

Ao fim d'um curto kilometro, chegmos a um immenso terreiro, com o cho
duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma
estacada baixa. Em redor, fra da estacada, corria uma fileira de
cubatas, que (segundo nos informou Infands) pertenciam s mulheres do
rei: e ao fundo, fronteira  porta por onde entraramos, estendia-se uma
construco, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no tecto de
colmo, que era o palacio real. No recinto no crescia uma arvore: e todo
elle estava n'esse dia cheio de regimentos em frma, perfilados,
immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os
escudos brancos, as lanas a rebrilhar.

Em frente  cubata real ficava um espao vasio, com uns poucos de
escabellos de madeira. A convite do bom Infands occupmos tres d'esses
assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de p: e assim ficmos 
espera, no meio d'um silencio absoluto, sentindo cravados sobre ns oito
mil pares d'olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata rangeu--e
surgiu d'ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto de pelles
de tigre lanado sobre o hombro, e uma azagaia na mo. Atraz d'elle
vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu
uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em
pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeas
de pau. Scragga permaneceu de p, por traz, apoiado  lana. A velha
macaca arrastou-se para a sombra que lanava a cubata real, e alli se
acocorou lentamente.

O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo.

Ento a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se,
offerecendo s vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrifica!
Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda s
vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beios muito
grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o
olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente
brilhante, d'um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente
cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saio d'uniforme,
feito de rabos brancos de boi. Ao pescoo trazia uma gargalheira d'ouro:
e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no
ar, um tufo esplendido de plumas d'abestruz.

O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d'aquella presena
assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser
Tuala, o rei) levantou a lana no ar. Oito mil lanas faiscaram ao sol.
E de oito mil peitos rompeu, atroando o co, a grande acclamao
real:--_Krum_! _Krum_! _Krum_!

Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, estridula,
horripilante, e que parecia vir da macaca agachada  sombra:

--Treme e adora, oh povo!  o rei!

E oito mil peitos de novo atroaram o co, bradando:

-- o rei!  o rei! Treme e adora, oh povo!

E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, houve
um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que deixra cahir
o escudo.

Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira:

--Avana tu! berrou, n'um tom trovejante.

Um soberbo rapago sahiu da fileira, ficou perfilado.

--Co infernal! rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o escudo?
Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vm das
estrellas!

--Foi sem querer, oh mestre das artes negras! acudiu o rapaz cuja pelle
fusca parecia empallidecer.

--Pois, tambem sem querer, vaes morrer!

O soldado baixou a cabea e murmurou simplesmente:

--Eu sou a rez do rei!

--Scragga! bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lana. Vara-me
aquelle co!

O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e
levantou o dardo. O desgraado tapou a face, e esperou, immovel. Ns nem
respiravamos, petrificados.

Um, dois, tres! Scragga soltou a lana. O soldado atirou os braos ao
ar, cahiu morto.

D'entre os regimentos subiu ento um longo murmurio que rolou, ondulou,
se esvaiu por fim no silencio.

O baro, livido de indignao, agarrra a espingarda das mos d'Umbopa.
E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas
estavam  merc do rei, e que eramos quatro contra todo um reino.

Tuala, no emtanto, sorria sinistramente:

--O golpe foi bom. Arrastem para fra o co morto.

Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo.

E ento a mesma voz esganiada, sibilante, horrivel (que evidentemente
era da macaca) cortou o ar:

--A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora,
oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita,
a vontade foi feita!

Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de loua, e,
atirando d'elle cal s mos cheias, escondeu as nodoas horriveis. Tuala
permanecia immovel, como um idolo.

Por fim, lentamente, voltou para ns a face medonha.

--Gente branca! disse elle. Gente branca, que vindes no sei d'onde, nem
sei a qu, sde bemvinda!

--Bem estejas, rei dos Kakuanas! respondi eu, com dignidade.

Houve um silencio, atravs do qual ficamos immoveis, sentados, com os
olhos cravados no monstro.

--Gente branca, volveu elle, que vindes vs procurar aqui?

--Vimos do mundo das estrellas, oh rei! No indagues como, nem para qu.
So coisas muito altas para ti, Tuala.

O rei franziu a face, d'um modo inquietador:

--Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... No
esqueaes que as estrellas esto longe e a minha vontade est perto...
Pde bem ser que saiaes d'aqui como aquelle que agora levaram.

Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaa. Comecei por lanar
uma risada, muito cantada (e na verdade muito forada):

--Oh rei, tem cautela! No caminhes sobre brazas que pdes escaldar os
ps! Toca n'um s dos nossos cabellos e a tua destruio est certa. No
te disseram estes (e apontei para Infands e para Scragga), que especie
de homens ns somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguem como
ns, entre os filhos dos homens?

--Nunca vi, murmurou elle.

--No te contaram esses como ns damos a morte de longe, atravs d'um
trovo?

--No creio! exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. Mostrai-me
primeiro, vs mesmos, a vossa arte. Matai um d'esses homens que esto
alm (apontava uma companhia de soldados magnificos junto  porta da
aringa) e eu prometto acreditar!

Repliquei que no derramavamos nunca sangue de homem, seno em justo
castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, atravs dos
soldados, e antes d'elle correr vinte passos, cahiria morto, de chofre.
O rei rompeu a rir.

--Um boi! Um boi!... No, matai um homem para eu acreditar!

--Perfeitamente! exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei,
caminha atravs do pateo, e antes de chegares ao portal da aringa
rolars morto no cho. Ou, se no queres ir tu mesmo, manda teu filho
Scragga.

A isto, Scragga deu um grito, lanou um pulo, e fugiu para dentro da
aringa real.

Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as
nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi,  sua escolha--Tuala
ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em
ns, ora no cho. Depois, n'um tom surdo:

--Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo!

Dois homens, immediatamente, largaram correndo.

--Baro, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a vacca. No
quero que imaginem que s eu sei fazer as maravilhas.

O baro tomou a carabina Express, e esperou, no fundo silencio que se
alargra. Por fim,  porta da aringa houve um ruido; e vimos entrar por
ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a multido,
o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu.

--Agora! gritei ao baro, vendo a vacca de lado e em bom alvo.

Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no corao. De toda a enorme
soldadesca se exhalou um murmurio de admirao e terror.

--Ento menti, rei Tuala? exclamei eu, fitando o monstro com altivez.

--No,  verdade, rosnou elle.

Baixra o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana
confiana:

--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence.
Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as
proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a
estilhaos. Escuta! Manda cravar alm no cho, com a ponta do ferro
voltada para cima, essa lana que tens na mo, a tua propria lana, que
nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!

Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no cho, ao fundo da aringa, a
lana real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.

--Bem, disse eu. Agora v em que estilhas vai ficar a tua lana
invencivel.

Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lana e separou-a em
bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou atravs do terreiro.

Dei ento um passo para o rei, com a carabina na mo.

--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe  um presente que te
fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o
usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traio em ti, esse
proprio tubo se voltar contra o teu peito, e sers como a vacca morta
ou como a lana partida. Aqui tens.

E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiana, com uma scca
antipathia, e pl-a no cho, aos ps, devagar.

N'esse instante aquella figura estranha que o acompanhra, e que me
parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata
real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha
caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei,
ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a
envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto
extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher
evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites
conhecidos da vida humana. A face que voltou para ns estava reduzida ao
tamanho d'uma facesinha de creana, d'uma creana d'um anno, toda em
rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem
entalhadas em marfim. A bca j se no via, de sumida, entre o queixo
sahido para fra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida,
com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabea de facto
pareceria a d'um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes no
refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d'aquelle
semblante estava no craneo, todo n, pellado, liso como uma bola, e a
que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem
o capello.

No se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror.
Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois
estendeu lentamente um brao descarnado, a mo scca de Parca,
verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e comeou, n'uma voz
silvante que regelava:

--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, cos, coisas vivas e
coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro
de mim e eu vou prophetisar!

As syllabas findaram n'um uivo longo e triste. Toda a multido que
enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas
vezes na Africa os esgares e as declamaes das feiticeiras, senti no
sei que peso no corao. A velha era decerto terrifica.

--_Som de passos, som de passos que vem_! proseguiu ella, com a garra
tremula no ar. So os passos da gente branca que vem de longe!  a terra
que treme sob os passos dos brancos. _Cheiro a sangue, cheiro a sangue_!
So rios de sangue que vo correr. Eu j os vejo, j os sinto. Toda a
terra est vermelha, todo o co fica vermelho! Os lees lambem sangue
por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria!

Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um
grito longo, como uma ululao sepulchral.

--Sou velha! velha! velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vr
correr muito ainda, e danar de gozo! Que idade pensaes vs que eu
tenho? Os vossos paes j me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os
outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi
muitas coisas. J vi o branco, e sei o desejo que elle tem no corao.
Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras
nas rochas? No sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui
antes de vs virdes, que voltar e vos destruir, e ficar aqui quando
vos frdes como a nuvem de p que passou!

E de repente, deu um passo, com os dois braos, as duas garras recurvas
estendidas para ns:

--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das
estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vs? No est aqui. E o que
veio, ha muito, ha muito, veio s para morrer. So as pedras que brilham
que vs procuraes? Eu conheo o vil desejo do corao do branco.
Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas
voltareis vs s estrellas, ou ficareis aqui commigo?

Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas
garras estendidas pareciam querer despedaar:

--E tu, tu que tens a pelle escura, quem s, que procuras aqui? No as
pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te
conheo! Oh cos! oh montes! Sers tu?... Eu conheo, eu conheo pelo
cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...

Um momento, ficou como esgazeada em face d'Umbopa. E subitamente,
batendo os braos no ar, cahiu no cho, como morta.

Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braos a feiticeira.
Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lanou um gesto:--e uns
aps outros os regimentos comearam a desfilar, at que todo o pateo
ficou vasio e rebrilhando ao sol.

Ento Tuala voltou-se para ns, com a face pavorosamente franzida:

--Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Est-me a parecer que
vos devo matar.

Eu sorri, com superioridade.

--Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca?

--Oh gentes, vs ameaaes o rei! volveu elle, cerrando os punhos.

--No ameao. Digo s que to facil  s nossas Artes matar uma vacca
como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!

O enorme bruto levou os dedos  testa, reflectindo.

--Ide em paz! disse por fim. Esta noite  a Grande Dana. Vireis e
vereis. No tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E manh decidirei.

--Est bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto.

E acompanhados por Infands, recolhemos  nossa aringa.

Quando chegamos s cubatas, depuz n'um escabello o rewolver, e
voltando-me para Infands que entrra comnosco:

--O teu rei Tuala  um monstro, Infands!

O velho guerreiro teve um suspiro.

--Ai de mim! Toda a nao geme com as suas crueldades, meu senhor!
Vereis esta noite.  a grande caa aos feitios; vem Gagula e _as suas
farejadoras_ farejar, adivinhar quem so, d'entre os guerreiros e o
povo, os que meditam ou j commetteram feitios e maleficios. Se o rei
appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe
torne infiel, Gagula ou uma das _farejadoras_ aponta para esse homem, e
o homem  logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha
vez. At aqui Tuala tem-me poupado em respeito  minha experiencia das
armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala  cruel, a
terra toda soffre e est canada d'elle!

--Mas, pela luz das estrellas, porque no depondes vs ou mataes essa
fra?

Infands encolheu os hombros:

-- o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem ainda o corao
mais negro, pesaria sobre ns com mais furor. Se Imot no tivesse sido
morto, e se Ignosi, o filhinho d'elle, no tivesse acabado tambem no
deserto com a me, ento havia uma esperana no reino! Mas assim...

De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance
to romanesco, to semelhante aos que se lem nos contos de grande
enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:

--E quem te diz a ti que Ignosi morreu?

Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa.

--Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? gritou Infands que,
como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.

Umbopa deu para ns um passo lento:

--Escuta, Infands. No  verdade que o rei Imot foi morto, e que a
mulher e o filho desappareceram? No  verdade que correu ento voz de
ambos se terem perdido e morrido nas montanhas?

Com um gesto, Infands concordou.

--Escuta! Nem a me nem o filho morreram. Galgaram as montanhas,
atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram
de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e foram
ter a um povo dos Amazulus que  da raa dos Kakuanas. Escuta ainda! O
filho cresceu, a me morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos
Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos
brancos: trabalhou com as suas mos, meditou dentro do seu corao: e
sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou servio com elles,
atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de
neve, pisou terra dos Kakuanas--e est na tua presena, Infands!

E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou n diante de ns,
com os braos abertos, gritando:

--_Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas_!

Infands precipitra-se sobre elle, com os olhos fra das orbitas, a
examinar-lhe o ventre onde corria, n'uma tatuagem azul, o desenho d'uma
cobra que lhe dava volta  cinta e juntava a bca com o rabo logo abaixo
do umbigo. Esta tatuagem  a marca, o emblema real, que se grava a tinta
azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia l
estava, certamente irrecusavel, porque Infands cahiu sobre os joelhos,
bradando:

--_Krum_! _Krum_!  o filho de Imot!  o rei!  o rei!

Umbopa acudiu:

--Ergue-te, meu tio Infands, que ainda no sou rei! Mas com a tua
ajuda, e a d'estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize pois.
Queres pr a tua mo na minha e ser o meu homem? Queres correr commigo
os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o corao
de fra? Dize.

O velho Infands pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a
ajoelhar diante de Ignosi, pz a sua larga mo na mo d'elle, e
murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial:

--Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mo na tua mo, e at
morrer sou teu homem!

Ns, de p, em redor, ficaramos verdadeiramente attonitos! O baro e o
capito John s muito vagamente comprehendiam o maravilhoso lance. Tive
de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu
assombro em exclamaes, contemplando Umbopa--quando elle nos
interpellou, com um gesto que comeava a ser regio:

--E vs, homens brancos de quem comi o po? Quereis vs ajudar-me
tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso brao forte. Mas
essas pedras brancas que reluzem, e que vs amaes, se, como rei, eu as
vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta
isto?

Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O baro
franziu o sobr'olho:

--Quartelmar, diga-lhe que um inglez no se vende por diamantes. Mas de
graa, porque sempre o achei leal, porque gosto d'elle, e porque me
appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa
com o pouco que posso, que  o meu brao. E tu John?

O capito encolheu os hombros:

--Que lhe havemos ns de fazer? Alm d'isso homem que no briga
enferruja. Em todo o caso ponho uma condio: quero as calas.

Communiquei estas adheses a Umbopa--que apertou ardentemente as mos
dos meus dois amigos.

--E tu, Macumazan, mestre da caa, olho vigilante, mais fino que o
bufalo, estars tu tambem por mim?

Cocei a cabea, pensativamente:

--Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que s; eu no gosto de
revolues... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas
de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro
lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, n'esta
jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, s
ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caador de elephantes e tenho
de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os
diamantes. Se lhe pudrmos lanar mo, aceito-os, e quantos mais e mais
grados melhor! No  que eu acredite muito n'elles. Mas, se
apparecerem, desde j te prometto que, com licena tua, hei de abarrotar
as algibeiras...

--Tantos quantos puderes levar! exclamou Umbopa radiante.

E j se voltava para Infands, n'aquelle triumphal enthusiasmo de
pretendente a quem as adheses affluem--quando eu o interrompi
vivamente:

--Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Ns viemos, como tu sabes
perfeitamente,  procura do irmo do Incub (era a alcunha do baro, em
Zul). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que puderes como
rei para nos ajudar a encontral-o... Comea por te informar agora com
teu tio Infands.

Ignosi pousou os olhos em Infands, com singular magestade:

--Meu tio Infands, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e
como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve j
algum homem branco que, antes d'estes, tivesse vindo  terra aos
Kakuanas?

--Nunca, meu senhor!

--E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses?

--Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.

O baro deu um longo suspiro.

--Bem! Bem! exclamei logo, para lhe no matar de todo a esperana, e
cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fr rei teremos ento mais
facilidade de procurar o irmo do Incub, at aos confins do reino, e
nas terras que esto alm! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu,
Ignosi, para recuperar a cora? Porque emfim, meu rapaz,  bom ser rei
de direito divino, mas...

--No tenho plano. E tu, meu tio Infands?

Infands pensou um instante, com a barba sobre o peito.

--Esta noite, disse elle por fim,  a caa aos feitios. Muitos vo
morrer, e em muitos outros mais recrescer o odio contra Tuala. Depois
da dana, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem dispr de
regimentos.  necessario que os chefes te venham vr, Ignosi, se
convenam com seus olhos que s o rei. E se elles pozerem as mos nas
tuas, manh tens vinte mil lanas para combater por ti. Porque a guerra
 certa. Depois da dana, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui,
para combinar na escurido. Mas a guerra  certa!

N'este momento houve fra do terreiro um brado, annunciando que se
avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um d'elles
trazendo erguida nas mos uma cta de malha que rebrilhava como prata e
uma magnifica acha de batalha.

Um arauto que os precedia exclamou, batendo no cho com o conto da
lana:

--Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vm das estrellas!

--Agradecemos ao rei, volvi eu sccamente. Ide!

Apenas os homens partiram, examinamos as ctas com grande interesse.
Eram maravilhosas, d'uma malha to fina, to cerrada, to elastica e
macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas mos.
Perguntei a Infands se eram fabricadas no paiz.

--No, meu senhor, so coisas que existem ha muito, e que herdamos de
paes para filhos. J muito poucas restam. S os de sangue real as podem
usar. E o rei que as mandou  que est muito contente ou que est muito
assustado. Em todo o caso no ha ferro que as atravesse, e bom ser,
meus senhores, que as useis esta noite na dana.

Quando Infands sahiu, ficamos conversando n'este estranho
incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n'uma aventura
politica. Como notou o baro, fra este decerto, desde a nossa partida
de Natal, um dos dias mais ricos de emoes e surprezas.

--Extraordinario, disse o capito. Tem de ser registrado no _Livro de
Bordo_.

Chamava elle _Livro de Bordo_ a um Almanach do anno, com folhas brancas
intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa
espantosa empreza.

--Que dia  hoje? perguntou elle, sentando-se, com o almanach sobre o
joelho.

--3 de julho.

O baro e eu voltaramos a examinar as dadivas de Tuala--quando, d'ahi a
instantes, o capito exclamou com os olhos no almanach:

-- curioso! manh, 4 de julho, ha um eclipse total, visivel em toda a
Africa! Deve comear s duas e quarenta minutos... Bom terror vo ter os
pretos!

Escassamente demos atteno quella noticia: e como o capito findra de
escrever, preparamo-nos para partir para a grande dana, porque o sol j
descia, e j ia fra um rumor de regimentos passando. Pelo prudente
conselho de Infands envergamos as ctas de malha,--que achamos
confortaveis e leves. A do baro, homem de forte estatura, vestia-o como
uma pellica: a do capito e a minha danavam-nos sobre as costellas com
pregas pouco marciaes.

A lua surgia, magnificamente clara, quando Infands appareceu, com todas
as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para
nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres  cinta, empunhamos as
achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos.

No terreiro, onde estiveramos de manh, encontramos a mesma formidavel
parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados
de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto para as
farejadoras de feiticeiros (como nos foi explicando Infands). No
havia outra luz alm da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras
de faiscas nos ferros altos das lanas. D'aquella escura massa d'homens,
do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impresso de magestade e
tristeza.

--Est aqui todo o exercito, murmurei eu para Infands.

--Um tero, no mais, meu senhor. Outro tero ficou nas guarnies. E o
outro est fra, em torno a palacio, para o caso de sedio, quando
comear a matana...

--Escuta, Infands! Achas que corremos perigo?

--No sei, espero que no... Mas no mostreis medo! E se escaparmos com
vida esta noite--quem sabe? Talvez manh Tuala seja como o raio que
feriu e se apagou.

Iamos no emtanto caminhando, atravs dos regimentos mais immoveis que
bronzes, para espao vasio diante da cubata real, onde havia como de
manh uma fila de escabellos d'honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com
um brilho e ruido d'armas, sahia da aringa real.

-- Tuala, disse baixo Infands, e Scragga, e Gagula, e os homens que
matam.

Os homens que matavam eram uns doze negros gigantescos, de faces
hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhes e de azagaias
pesadas.

--Bemvindos, gentes das estrellas! gritou logo Tuala abatendo-se
pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E no percamos o tempo
que a noite  curta para as grandes coisas que tm de ser feitas. Olhai
em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jmais tantos valentes
juntos... Mas vde tambem como elles j tremem, os que abrigam maldade
no seu corao!

--_Comeai_! _comeai_!--ganiu na sua silvante voz Gagula, que se
agachra aos ps do rei. As hyenas tm fome de ossos, os abutres tm
sede de sangue... _Comeai_! _comeai_!

Houve durante momentos um silencio lugubre, que pesava horrivelmente,
como um prenuncio de matana e de horror.

O rei ento agitou a lana. Immediatamente vinte mil ps se ergueram, e
tres vezes, em cadencia, bateram no cho que tremia. Depois, l ao
fundo, d'entre as densas e escuras filas de homens, subiu ao ar um canto
solitario, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando n'este
estribilho:

    --Qual  a sorte, sobre a terra,
    De quem teve de nascer?

E os regimentos todos volviam, n'uma unica, grande e rolante voz:

    --Morrer!

Mas pouco a pouco, as companhias, umas aps outras, foram entoando uma
estrophe da cano, at que toda a vasta multido armada formava um
cro--cro barbaro, rude, informe, onde todavia por vezes distinguiamos
como conscientes expresses de sentimentos--notas suaves e lentas de
amor, brados triumphaes de guerra, canticos solemnes de orao. Depois
os cantos varios fundiam-se n'um lamento unico, contnuo, ululado, como
d'um povo n'um funeral. De repente tudo estacava. E de novo o lugubre
estribilho gemia no ar:

    --Qual  a sorte, sobre a terra,
    De quem teve de nascer?

E de novo a multido clamava n'um unisono desolado:

    --Morrer!

O canto por fim findou, um sombrio silencio cahiu, o rei levantou as
mos. Immediatamente, sentimos como o trote ligeiro de ps de gazellas:
e, d'entre os profundos renques dos soldados, appareceram correndo para
ns estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, quasi todas
velhas, pelos longos cabellos brancos e soltos que lhe batiam as costas.
Traziam as faces pintadas s listas brancas e vermelhas: dos hombros
pendiam-lhe esvoaando, e misturadas s madeixas, longas pelles de
serpente: em torno  cinta cahiam-lhe como breloques de ossos humanos
que chocalhavam sinistramente: e cada uma brandia na mo uma curta
forquilha.

Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o cho com as
forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braos, gritou:

--Me, aqui estamos!

--_Bem_, _bem_, ganiu o decrepito monstro. Tendes hoje os olhos bem
claros, Isanusis?

--Bem claros, oh me!

--Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis?

--Bem abertos, oh me!

--Ide ento! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os que querem
mal ao seu visinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam contra
o rei, os que devem morrer por ordem de cima! Farejai! vde os
pensamentos que se no mostram, ouvi as palavras que se no dizem! Ide,
meus lindos abutres! Os homens das estrellas tm fome e sde de vr a
grande Justia! _Agora_!

Com uivos horrendos, as sinistras creaturas dispersaram correndo, para
todos os lados, atravs das fileiras armadas. No as podiamos seguir a
todas na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a atteno na
que ficou junto de ns, uma velha, esgalgado feixe d'ossos, que deitava
lume pelos olhos. Quando esta Harpia chegou em frente aos soldados parou
_farejando_. Depois rompeu a danar, girando sobre si mesma, to
rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrella feita de
estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No emtanto ia gritando por
entre silvos de alegria:--J o farejo, o homem do mal! Alli est elle,
o que envenenou a me! Acol treme o que pensou mal do rei!

E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, at que a
espuma lhe sahia aos flocos da bca e os ossos lhe rangiam alto! De
repente estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar,
devagar, como uma fera que rasteja, avanou de forquilha estendida para
a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam n'um indominavel
terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado
estridente, arremetteu, e bateu com a forquilha no peito d'um rapaz
soberbamente forte.

Dois camaradas immediatamente o agarraram pelos braos, o empurraram
para defronte do rei. O desgraado caminhava sem resistencia, inerte, j
morto na alma. O bando dos executores avanra a passos graves:

--Mata! disse o rei.

--Mata! ganiu Gagula.

--Mata! rugiu Scragga.

E antes que as palavras se perdessem no ar, o miseravel tombra morto,
com uma azagaia cravada no peito, o craneo aberto por uma pancada de
clava.

--_Um_, contou Tuala, sorrindo com satisfao.

Mal findra o feito horrivel, j outro soldado era arrastado como uma
rez,--um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos hombros a capa de
pelle de leopardo. Dois golpes de facalho vibrados com destreza
bastaram para o acabar sem um suspiro.

--_Dois_! contou o rei.

E assim at cem! At _cem_! E ns alli, aterrados, immoveis, impotentes
para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotencia! Eu
findra por fechar os olhos.  meia noite emfim houve uma suspenso. As
farejadoras esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o
suor. Respirei, n'um infinito allivio, suppondo que findra todo este
incomparavel horror. Mas de repente, com desagradavel surpreza,
descobrimos Gagula, erguida, apoiada n'um cajado, dando alguns passos
que tremiam e lhe sacudiam o craneo calvo de abutre. Coisa pavorosa, vr
o velhissimo monstro, ordinariamente vergado em dois pela decrepitude,
ganhando alento, remoando quasi, j direito, j vibrante,  medida que
se acercava da fileira dos homens, a recomear por gosto proprio a obra
sinistra das farejadoras! Mas n'ella o estylo era differente. No
danava, no uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e alm, cantava
baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim
cantarolou, at que de repente se precipitou sobre um magnifico velho,
perfilado em frente a um regimento--e tocou-o silenciosamente com o
cajado. Um murmurio de dr, de contida indignao, correu entre os
soldados que elle evidentemente commandava. Todavia dois d'elles,
empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o aougue.
Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande
influencia, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalho e clava--e
Tuala contou _cento e um_!

Quasi immediatamente Gagula, depois de alguns saltinhos curtos de
macaca, comeou a avanar para ns, n'um movimento muito lento de valsa,
que era medonho na repulsiva bruxa.

--Justos cos! murmurou o capito John, querem vr que agora  comnosco!

--Tolice! acudiu o baro, pallido todavia.

Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais
perto,---com os olhos a saltar-lhe do craneo, um fio de baba na bca.

Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caa.

--Qual ser? murmurou o baro.

Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi)
sobre o hombro:

--Morte! gritava ella. Morte! Cheiro-lhe o sangue! Est cheio de
maleficio e de traio. Mata-o depressa, oh rei, mata-o depressa antes
que por elle gema em desgraa o reino!...

Houve um silencio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um
cobarde) achei-me diante de Tuala, fallando com soberana firmeza:

--Este homem, oh rei,  o servo dos teus hospedes, e quem deseja o seu
sangue  como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que
cumpre aos reis manter, exijo a tua proteco para elle!

Tuala franziu o sobr'olho:

--Gagula, me das Isanusis, sabedora das artes, cheirou-lhe a traio
dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos!

--Quem lhe tocar, exclamei, batendo furiosamente com o p no cho,  que
tem de morrer!

--Agarrem-no! bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, j todos
manchados de sangue.

Dois brutos romperam para ns--mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia,
decidido a morrer combatendo.

--P'ra traz, ces! berrei eu, n'um tom tremendo. Tocai n'um s cabello
do homem, e vs mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, no vereis
mais a luz do dia!

E bruscamente apontei o rewolver a Tuala. O baro tinha j o seu erguido
contra um dos carrascos: e John marchra sobre Gagula.

Houve um instante de indizivel assombro.

--Decide depressa, Tuala! gritei, tocando-lhe quasi a testa com o cano
do rewolver.

O monstro, visivelmente apavorado, rosnou, n'um tom surdo:

--Tirai para l os vossos canos magicos! Invocastes as leis da
hospitalidade, e s por amor d'ellas, no por medo de vs, poupo a vida
a esse co... Ide em paz.

--Est bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das
estrellas, nada podem os homens da terra!

O rei, ainda tremulo de furor impotente, ergueu a lana. Os regimentos
comearam logo a desfilar.

D'ahi a pouco estavamos na nossa aringa--conversando  luz de uma das
curiosas lampadas que usam os Kakuanas, em que o pavio  feito de fibra
de palmeira, e o azeite de toucinho de hippopotamo. E o que affirmavamos
todos com convico, com ardor, era a necessidade e a justia urgente de
ajudar a conspirao de Umbopa contra um villo como Tuala!




CAPITULO VIII

A GRANDE DANA


J muito tarde, quasi de madrugada, Infands appareceu, como promettera,
com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A
conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expr a sua
romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, comeou por
tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente
tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado
examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada
a outro.

Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a
fuga com a me atravs do deserto. Os chefes permaneceram calados.
Infands, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retraou as
matanas d'essa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de casas
illustres, tinham sido trucidados s por possuirem grandes rebanhos que
Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello  razo e ao corao
dos chefes, que s tinham a escolher entre o monstro que por avidez e
capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a
existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados.
Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados.

Finalmente, um d'elles, homemzarro possante, de carapinha branca, deu
um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de
Tuala, e que seu proprio irmo n'essa noite estava sendo pasto das
hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes
afianava que elles no ergueriam as suas lanas por um impostor? A
guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o
sol que brilha, que o sol que ainda no nasceu. Necessitavam pois uma
evidencia. E quem melhor lh'a poderia dar que os homens das estrellas,
senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, e
sabiam decerto os segredos?

--Se elle  o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas
que o provem, fazendo um grande milagre. S assim o povo acreditar e
tomar armas por elle!

--Mas a cobra, o emblema sagrado! exclamei eu.

--No basta. A cobra podia ser pintada no ventre j depois de elle ser
homem... Necessitamos um milagre! O povo no se move, nem ns mesmos,
sem um milagre!

Um _milagre_! A situao era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a
tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer
prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os
honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me
para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso
lance.

--Parece-me que se pde arranjar, disse John, depois de um curto
silencio. Pea a estes amigos que nos deixem ss, Quartelmar.

Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram
na sombra:

--Temos o eclipse! exclamou o nosso admiravel John.

Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o
_Livro de Bordo_), e que n'esse dia, s duas e quarenta minutos, devia
ser visivel em toda a Africa.

--Ahi est o milagre! affirmava John.  annunciar aos chefes que para
lhes provar que Ignosi  o rei, e que devem pegar em armas por elle, ns
faremos desapparecer o sol!

A ida era esplendida. O unico receio  que o almanach estivesse errado.

--No!  um almanach maritimo, no pde estar errado. Os eclipses so
calculados mathematicamente. No ha nada mais pontual que um eclipse...
Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta regio toda ficar
em trevas.

--Eu, por mim, disse o baro, parece-me que devemos arriscar o eclipse.

--V pelo eclipse!

Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da
cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes declarar,
magestosamente, que ns os homens das estrellas no gostavamos de
alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e
confuso... Mas, como se tratava d'uma grande e santa causa, estavamos
decididos a fazer um milagre.

--Escutai! Julgaes vs que um homem pde soprar sobre o sol, e
_apagal-o_?

Os chefes olharam para mim, recuando com assombro.

--No, murmurou um d'elles, no ha homem que o possa fazer! O sol  mais
forte que toda a terra!

--Perfeitamente, conclui eu. Pois manh, depois do meio dia, ns homens
das estrellas _apagaremos o sol_ durante uma hora, espalharemos trevas
sobre a terra, e ser o signal de que Ignosi  o verdadeiro rei dos
Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Ser bastante este
milagre?

O chefe da carapinha branca abriu os braos para ns, esgazeado:

--Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre ser
mais que bastante!

--Bem. Tereis o milagre. Agora Infands, que  experiente, diga o
momento em que mais convem que ns apaguemos o sol.

--Apagar o sol! murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae
de tudo, que brilha eternamente!

--Falla, Infands!

--Meu senhor,  na verdade um milagre espantoso que vs prometteis! Mas
emfim... O melhor momento  o da dana das Flres, que ha de logo
comear ao meio-dia. As mais lindas raparigas de L esto l, para
danar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas , segundo o
costume, morta por Scragga em sacrificio aos _Silenciosos_, as figuras
de pedra que esto alm na montanha vigiando. Que os meus senhores
n'esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo acreditar!

--O povo na verdade acreditar! exclamaram todos os chefes.

--A duas milhas de L, continuou Infands, ha uma collina em frma de
meia lua, que  realmente uma fortaleza, onde esto aquartelados o meu
regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos arranjar
de modo que ainda esta manh cedo marchem para l tres ou quatro
regimentos dos mais fieis  minha vontade. E se os meus senhores
apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da escurido, fazel-os
sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, onde
ficaro a salvo e d'onde comearemos a guerra contra o rei.

--Est entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir e depois
combinar com os Espiritos!

Com longas reverencias, Infands e os chefes deixaram a nossa aringa. O
sol ia nado.

--Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram.  certo que
podeis fazer esse milagre, ou estaveis vs ganhando tempo e soltando no
ar palavras vs?

--Parece-me que no nos ha de ser difficil, meu Umbopa, quero dizer, meu
Ignosi, declarei eu sorrindo.

-- espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o inglez tudo
pde! Mas ah, se vs fizerdes isso por mim, o que no farei eu por vs?

--Uma coisa j tu nos podes prometter, Ignosi! acudiu gravemente o
baro. , se chegares a ser rei com o nosso auxilio, acabar com as
farejadeiras de feitios, com matanas como as d'esta noite, e no
consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem ter
sido julgado pelos doze mais velhos do logar.

Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre instituio do jury, que este
digno baro queria implantar no centro selvagem da Africa! No ha seno
um liberal inglez para estas esplendidas imposies de civilisao e de
ordem. Com razo hesitou o astuto Ignosi! Com razo conservou longo
tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n'um rasgo de
generosidade ou de condescendencia:

--Os costumes dos pretos no se podem moldar pelos costumes dos brancos.
Comtudo, uma coisa te prometto, Incub!  que no haver no meu reino,
nem matanas de festa, nem execues sem julgamento. Ests contente?

O baro apertou-lhe a mo em silencio.

D'ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas sccas, e
profundamente dormimos, at que Ignosi nos acordou s onze horas. O
nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fra da cubata, olhar
para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu to brilhante e to
seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme,
absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder
alterar!

--Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente a
fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem
querer, com tres honrados homens!

Depois de almoar, um solido e valente almoo que nos amparasse na crise
imminente, revestimos as ctas de malha, afivelamos os cintures de
cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande dana. E ao
meio dia para l voltamos os passos--que a inquietao interior e a
certeza do perigo no permittiam que fossem nem bem alegres nem bem
ligeiros!

O terreiro real offerecia n'essa manh um aspecto bem diverso--e onde na
vespera reinra o horror transbordava agora a graa. Em logar de fuscos
e duros guerreiros, todo o espao estava occupado por longas filas de
raparigas kakuanas, escuras tambem  verdade, mas lindas, pelas frmas,
a expresso, a viosa mocidade. _Toilette_, no tinham nenhuma--nem
mesmo o _panno_, a tanga da Africa civilisada: mas salvavam esta
encantadora deficiencia pelo franco luxo das flres. Todas traziam na
cabea uma cora de flres; grinaldas de flres, grandes como festes,
envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mos uma palma verde e
um lyrio branco. Nos escabellos de honra j estava o rei--acompanhado
por Infands, Scragga, guardas emplumados e a sinistra Gagula.
Reconhecemos tambem, de p, por traz d'elle, alguns dos chefes que
n'essa noite tinham comnosco conspirado.

Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo
tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau.

--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vdes hoje aqui coisas
diversas; mas no to bellas, no to bellas! Beijos e festas de
mulheres so dces; mas  mais dce o brilho das lanas e o cheiro do
sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar
n'esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d'estas raparigas as
melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.

O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros,
deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a
recrutar alli, para occupar o seu corao na terra dos Kakuanas, um
serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente,
receiando as complicaes do eterno feminino, apressei-me a recusar:

--No, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vm das estrellas s se
ligam s mulheres brancas que esto nas estrellas...

Tuala riu:

--Est bem, est bem... Ns temos um proverbio kakuana que diz:
Aproveita a que est perto, porque com certeza a que est longe te
engana! Mas talvez seja d'outro modo nas estrellas... Sde pois
bemvindos, e comece a dana!

Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que
tres mocinhos sopravam agachados no cho. As fileiras de raparigas
avanaram, cantando um canto muito lento e dce,--e fazendo ondular nas
mos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente
pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos
ps, n'uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaadas aos pares,
redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma
batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em
reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem
ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre
confuso, n'uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos
ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flres desfolhadas.

Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes,
mais airosa que uma Diana caadora, avanou devagar, e rompeu n'uma
dana estranha, cheia de graa e de brilho, em que os movimentos tudo
traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida at os pulos
bravos da cora ciosa... Assim danou longamente: os seus olhos cada vez
mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flr
a flr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze
humedecido. Por fim, canada, sorrindo, recuou at ao grupo das
bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de
lyrios. Veio ento outra, muito alta, danar; e outra depois, e muitas
ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caadora tinha
belleza, graa e consummada arte.

O rei ergueu a mo, o tam-tam cessou.

--Gentes das estrellas, disse elle, qual d'ellas achaes mais linda?

--A primeira, respondi eu irreflectidamente.

E logo me arrependi, lembrando o que annuncira Infands--que a mais
linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um
olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora.

Tuala no emtanto sorria:

--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vem ento como os meus. A
primeira  a mais bonita. E mau  para ella que tem de morrer!

--_Tem de morrer_! echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa,
e acordava, j interessada, desde que presentia sangue e dr.

--Morrer! exclamei eu, sorrindo tambem, como se no acreditasse. Porque,
oh rei? Ella danou bem, a todos agradou. Alm d'isso  moa e linda.
Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte.

A fera affectou uma sympathia, que, n'elle, arripiava:

--Tambem o lamento, mas  o costume do meu reinado. Os _Silenciosos_,
que esto alm na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha
uma prophecia do nosso povo que diz: O rei, que no dia da grande dana
no sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecer, e
com elle a sua casa. Por no ter cumprido a ordem de cima, cahiu meu
irmo e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas),
trazei a virgem! E tu, meu Scragga, agua a lana!

Dois da guarda real marcharam para a pobre e dce rapariga, que
desfolhava nervosamente as ptalas do seu lyrio branco. De repente, e s
ento, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser
formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mos fortes
agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para
diante de Tuala.

--Que nome  o teu, linda moa? ganiu a horrivel Gagula. No respondes?
Queres que o filho do rei tenha de erguer a lana, sem saber quem tu
sejas?

A isto, Scragga deu um salto com sofreguido, alando a sua immensa
azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre
as mos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou
toda, toda a tremer.

O medonho Scragga teve uma risada bestial:

--Como ella treme, como ella treme diante da minha fora!

--Ah canalha, se te apanho a geito! rosnou o capito, apertando na mo o
rewolver.

No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraada:

--Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! No temas!

--Oh me! balbuciou a pobre creatura entre soluos, n'uma voz que
desfallecia. Oh me! O meu nome  Fulata, e sou da casa de Suko. Mas
porque hei de eu morrer, eu que no fiz mal nenhum?

--Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que
vigiam alm na montanha. Mais vale dormir de noite que trabalhar de dia.
Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa da
casa de Suko, vaes morrer s mos reaes do filho do nosso rei.

Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei
quasi cruel!

No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as mos,
supplicava, com gritos de angustia:

--Oh me, oh rei, no me deixeis morrer!... E eu to nova! Pois nunca
mais hei de vr a aringa de meu pae? nem embalar meus irmos pequeninos?
nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para danar
e eu dancei! O meu noivo est l fra  minha espera! Minha me ficou
sentada debaixo das machabelles at que eu volte para mugir as vaccas...
E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa
casa deixava sempre cahir gros de aveia para os passaros levarem aos
ninhos...

Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se
espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluavam baixo. E
subitamente, o capito John, sem se poder conter mais, arrancou o
rewolver da cinta e fez um movimento to saliente, de to clara
interveno--que a rapariga viu, n'um relance comprehendeu...
Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio
arrojar-se aos ps de John, abraando-lhe as pernas nas:

--Oh pae branco, que vens das estrellas! gritava ella. Deixa acolher-me
 sombra da tua fora... Salva-me d'estes homens, e de Gagula, a me que
 to cruel...

Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria to intensa
que ainda hoje o recordal-a me aquece o corao, vi uma linha de sombra,
muito fina ainda, surgindo  orla do disco radiante!

--O eclipse! gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga
atraz! E armas na mo, rapazes!

Immediatamente, avancei para o rei:

--Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Ns, gentes das estrellas,
no podemos consentir n'esta maldade! Tal no ser! Deixa que a rapariga
volte para a sua morada!

Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos
chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de
assombro, e talvez de esperana.

--_No consentis_! bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando lume. E
quem s tu, perro branco, para vir latir contra o leo na sua caverna?
_Tal no ser_! E como o podes tu impedir? Vai talvez a tua vontade
prevalecer contra a minha fora? Scragga, mata a creatura! E vs
guardas, ol, agarrai esses homens!

Uma multido de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa real. O
baro, Umbopa e o capito (com Fulata agarrada a elle) vieram pr-se ao
meu lado de carabinas apontadas.

Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente,
avanava sobre o globo rutilante. Com esplendida confiana, ergui a mo,
bradei:

--Parai! Ns, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga no
morrer! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avanar contra
ns um passo, ns, os magicos das grandes artes, _apagaremos o sol_ e
mergulharemos o mundo em trevas!

O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de
ns, com a lana erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula
erguera-se, sacudindo os braos com furor:

--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da
terra! Pois que o faa, e a rapariga ir livre para a sua morada! Mas se
o no fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os ces
malditos que vm latir contra ti!

Sem mais, ergui a mo solemnemente para o sol (movimento que logo
imitaram John e o baro) e rompi a bradar. No me lembro j das coisas
absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos
de Shakespeare, pedaos da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas
commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu?
Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse _em inglez_, na lingua
magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro
do systema planetario. Gritava: Anda-me assim, solzinho da minha alma!
P'ra diante, valente! Deixa avanar essa rica sombra! Ah que ests um
catita, meu astro! Mais, mais!...

E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avanava, comia a
luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multido. Volvi
ento a fallar kakuana, livremente:

--V tu, oh rei! V tu, Gagula! Vde vs, oh chefes! Mentem ento os
homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem
tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz,
some-te  nossa ordem, mata o mundo com escurido e frio, e, que sem ti,
parem para sempre estes coraes crueis!... O sol vai morrer!

Gritos de terror resoavam j no terreiro. As mulheres, cahidas de
joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia.

S Gagula resistia ao pavor:

--Vai passar, vai passar! uivava ella. Eu j vi o sol assim. Ninguem o
pde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu j vi, eu
que sou a mais velha, e conheo os segredos!

Eu por mim animava os companheiros:

--V, rapazes! J no sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra de
alguns versos, baro. Tudo serve, at pragas!

E John, admiravel marinheiro, rompeu ento a praguejar. Foi sublime.
Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha
mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza de
blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu!

No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras
fluctuavam no ar. Uma triste quietao descia sobre a terra. Todos os
passaros se tinham calado. Ao longe os ces uivavam.

E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornra-se espessa. J mal
distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as
mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o
que restava do sol parecia uma luz agonisante.

--O sol morreu! berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas
mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!...

E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a
toda a fora contra o peito do baro. Mas a cta de malha repelliu o
ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o baro arrancra-lhe
a lana das mos e passou-lh'a atravs do corao. Com um uivo hediondo,
Scragga tombou morto.

Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o
sol, o mundo, e a descendencia do rei! N'um terror indizivel, a multido
de raparigas largou fugindo, em confuso e gritos, para as portas da
aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas,
galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos,
desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com
Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n'um pavor vil. Uma
debandada--que nos deixou ss, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda
agarrada a John, Infands, os chefes que conspiravam, e o cadaver de
Scragga.

--Chefes! gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora
que Ignosi  o rei unico e forte. O feitio est trabalhando. Corramos
para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura!

--Vinde! exclamou Infands, segurando-me pela mo. E vs todos segui! O
dia  nosso!

Ao chegarmos  porta da aringa, a luz findou inteiramente.

Agarrados uns aos outros pelas mos, com Fulata no meio, fomos
tropeando atravs da escurido. Dentro das senzalas ouviamos gemidos de
terror. E para o augmentar, lanavamos a espaos, atravs da treva, um
lugubre brado de revolta e de guerra:

--Morte a Tuala!




CAPITULO IX

ANTES DA BATALHA


Durante mais de uma hora caminhamos, atravs da escurido, guiados por
Infands e pelos chefes--at que de novo surgiu, como um fino trao
luminoso, a orla do sol. D'ahi a pouco havia j luz sufficiente; e
achamo-nos ento longe de L, junto de uma larga collina, de duas fartas
milhas de circumferencia, em frma de ferradura, e toda ella
inteiramente plana no topo. Desde tempos immemoriaes, aquelle planalto
fra (segundo nos disse Infands) aproveitado como acampamento
permanente, e ordinariamente occupado por uma guarnio de tres mil
homens. N'essa manh, porm,  maneira que iamos trepando os flancos da
collina,  luz j viva e quente do sol, descobriamos successivos
regimentos, formando uma diviso de dezoito ou vinte mil homens, quasi
todos veteranos. Estavam ainda sob o espanto e terror da mysteriosa
treva que de repente os envolvera. E foi em silencio que passamos
atravs das suas filas cerradas, em direco a um grupo de cabanas que
se erguia a meio do planalto. Com surpreza e grande alegria encontramos
l dois servos,  espera, carregados com todas as nossas bagagens,
cantinas, e munies que n'essa manh deixaramos nas cubatas de L.
N'uma trouxa as calas de John. Com que sofreguido elle as envergou,
pudico homem!

--Fui eu que mandei vir tudo,  cautela! explicou o servial Infands.
Quem sabe quantos dias estaremos n'este deserto!

Como no havia tempo a desperdiar, o velho e activo guerreiro deu ordem
para que se formassem as tropas immediatamente. Era necessario antes de
tudo (disse elle) aclarar aos regimentos os motivos da revolta j
decidida pelos chefes, e apresentar-lhes Ignosi, o legitimo rei por quem
iam combater.

Meia hora depois os regimentos (a flr do exercito dos Kakuanas) estavam
em formatura nos tres lados d'um immenso quadrado. Do lado aberto
ficamos ns com Ignosi, o velho Infands e os chefes conjurados. Logo
que um arauto intimou silencio--Infands avanou: e com um calor, um
enthusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a historia de Ignosi,
o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tragica morte de
seu pae  mo de Tuala, a sua fuga atravs dos montes, o seu exilio
entre estranhos. Depois retraou o reinado cruento de Tuala, os seus
crimes, as suas espoliaes, as frias e inuteis crueldades. Em seguida
contou como os homens brancos das estrellas, que de l de cima tudo
vem, se tinham compadecido da grande afflico que ia no reino dos
Kakuanas; como tinham ido ento buscar Ignosi, o rei legitimo, s terras
distantes onde elle definhava no exilio, e o haviam trazido pela mo,
atravs dos areaes e dos montes, ao paiz de seus paes; como n'essa
manh, para mostrar a Tuala e a todos o seu poder magico, e provar aos
chefes descontentes que Ignosi era rei, elles com as suas artes tinham
apagado, e depois tornado a accender o sol; e como, emfim, esses magicos
que nenhuma fora vencia estavam dispostos a derrubar Tuala, o falso
rei--e pr em seu logar Ignosi, o rei verdadeiro!

Apenas elle findra, entre um longo murmurio de approvao, Ignosi deu
dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, appellou para as
tropas.--Ellas tinham ouvido Infands, seu tio! Cada palavra d'elle
luzia como a verdade. Os Kakuanas agora s podiam escolher entre Tuala,
o monstro que os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e
desordem,--e elle, rei legitimo, que no permittiria mais no reino a
caa aos feiticeiros, nem matanas de festa, nem castigos sem
julgamento, nem a oppresso dos mais fortes... Pelo contrario, sob elle,
s haveria paz e abundancia! A todos os que alli estavam e o ajudassem
daria cubatas, mulheres e gados:--e todos, ganha a victoria sobre Tuala,
iriam viver nas suas senzalas bem providas, em descano e alegria para
sempre. De resto, os homens das estrellas estavam com elle, a seu lado,
para manter os seus direitos. E quem podia ir contra a fora das suas
artes magicas? No tinham elles visto o sol apagado, depois outra vez
brilhante,  ordem dos espiritos brancos?

Um rumor de acquiescencia, de adheso, corria j entre as tropas. Ignosi
ento recuou um passo, e erguendo no ar o seu formidavel machado de
guerra:

--Eu sou o rei! Na verdade vos digo que sou o rei! E se ahi ha alguem,
d'entre vs, que diz que eu no sou o rei, que sia a terreiro, se bata
commigo, e bem cedo o seu sangue correndo no cho provar que na verdade
sou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, vs
todos! Sou eu o rei!

--s o rei! foi a universal, acclamadora resposta, que atroou toda a
collina.

--Bem! Tuala est mandando j emissarios a reunir os seus homens para
nos combater. Os meus olhos esto abertos, e vero aquelles que mais
fieis me so, e que merecero mais terra, mais gado, mais riqueza. E
agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em defeza do vosso rei!

Houve um silencio. Um dos chefes ergueu a mo; e os vinte mil homens,
ferindo o slo com as azagaias, soltaram a grande saudao real--_krum_!
_krum_! _krum_! Ignosi estava acclamado rei. Os batalhes immediatamente
recolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou silencio e ordem.

Logo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os capites. Era
evidente que em breve seriamos atacados pelas tropas fieis a Tuala. J
do alto da nossa collina ns viamos regimentos marchando, a
concentrar-se em L--e um incessante movimento de armas por toda a
estrada de Salomo. Do nosso lado contavamos com vinte mil homens.
Tuala, segundo o calculo dos chefes, poderia ter reunidos na manh
seguinte trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas d'esses, muitos
eram recrutas; e a forte flr do exercito, os veteranos endurecidos, os
capites de experiencia estavam felizmente comnosco, sobre a collina da
Revolta.

O primeiro cuidado era fortificar a nossa posio. Comemos por
obstruir com grossos rochedos todos os carreiros que subiam da planicie.
Nos pontos mais accessiveis erguemos estacadas e trincheiras.
Accumulmos  orla do planalto montes de pedras para arremessar sobre os
assaltantes. Aqui e alm cavmos fossos. E, como todo o exercito
trabalhava, ao fim da tarde a collina fra convertida em cidadella.

Justamente antes do pr do sol, vimos um grupo de homens que de uma das
portas de L avanava para ns, fazendo soar um tam-tam. Um d'elles
trazia na mo uma palma verde. Era um arauto.

Ignosi, Infands, dois ou tres chefes, eu e os amigos descemos ao seu
encontro. Vimos um soberbo homem, ainda moo, com a pelle de leopardo
aos hombros.

--Saude! gritou elle, parando e agitando a palma. O rei envia o seu
saudar quelles que lhe fazem uma guerra infiel. O Leo envia o seu
saudar aos chacaes.

--Falla! bradei.

--Estas so as palavras do rei:--Entregai-vos  minha merc, antes que
a minha forte mo cia sobre vs!--Assim disse o rei. J foi arrancada
ao toiro negro a espadoa direita! J o rei o anda enxotando
ensanguentado em volta ao acampamento![2]

--Quaes so as condies de Tuala? perguntei por curiosidade.

O arauto declarou que as condies eram misericordiosas e dignas de um
grande rei. Muito pouco sangue o contentaria. De cada dez homens um
seria morto, os outros perdoados; mas o branco Incub que matra
Scragga, o servo Ignosi que pretendia o seu trono, e Infands que
preparra a rebellio, seriam postos a tormentos, em sacrificio aos
_Silenciosos_. Taes eram as misericordiosas condies do rei.

Consultei um instante com os chefes, e repliquei, n'um tom estridente
para que todos os soldados ouvissem, por sobre a collina:

--Volta para Tuala que te mandou, oh co, filho de co! E dize-lhe em
nome de Ignosi, legitimo rei, e de Infands, seu tio, e dos homens das
estrellas que apagam o sol, e de todos os chefes e soldados aqui juntos,
dize a Tuala--que antes que o sol d duas voltas o cadaver de Tuala
jazer hirto e frio no terreiro de Tuala... Vai e treme, oh co, filho
de co!

O official riu, com arrogancia:

--No se assustam homens com palavras inchadas! manh se ver em que
terreiro e que corpos jazero hirtos e frios. Adeus pois, homens das
estrellas. Para meu proprio regalo espero que tenhaes o brao to forte
como tendes ousada a lingua!

Com este sarcasmo o valente voltou costas. Quasi immediatamente a noite
desceu.

 luz da lua ainda continuaram os trabalhos da defeza. Depois, j por
noite alta, quando tudo se completra, o baro, Ignosi e eu,
acompanhados por um dos chefes, descemos a collina a visitar os postos
avanados.  maneira que caminhavamos, viamos de repente surgir dos
sitios menos esperados, de uma cova na terra, de uma moita de arbustos,
de um monto de rochas, alguma enorme figura emplumada, com a ponta da
azagaia rebrilhando  lua, que, trocada a palavra de passe, logo se
sumia, como dissolvida na sombra das coisas. A vigilancia era realmente
perfeita. Demos assim toda a volta  collina, que tornamos a subir pela
vertente norte, atravs das companhias de soldados adormecidos. A lua
batia nas lanas ensarilhadas. Aqui e alm uma sentinella destacava
immovel, com as suas altas plumas ondeando  brisa fria da noite. E os
robustos homens escuros, estirados no cho, uns contra os outros, no
confuso abandono da fadiga e do somno, formavam como um vasto monto de
humanidade j prostrada e preparada para a sepultura. Quantos d'aquelles
estariam ainda vivos quando na outra noite de novo nascesse a lua?
Estranha fatalidade e tristeza da vida! Muitos d'esses tinham alegria e
paz nas suas aringas. Um principe ambicioso passava. E eis que milhares
que alli dormiam um somno tranquillo cahiriam, varados por lanas,
seriam frios cadaveres, desappareceriam em p impalpavel, sem de si
deixar mais vestigio que folhas de arvores que um vento leva. E ns
mesmos--quem sabe? Tornariamos ns a vr a lua brilhar n'aquella
collina?

--Baro, disse eu de repente, dando voz a estes pensamentos, sinto-me
n'um lamentavel estado de atrapalhao e de medo.

--O amigo Quartelmar costuma sempre queixar-se...

--No, no! D'esta vez  serio. Nem sinto as pernas. Ns manh somos
atacados com foras colossalmente superiores e no escapa um de ns. 
estupido! E para que? No temos nada com as questes dynasticas dos
Kakuanas! Somos estrangeiros, somos neutros!

-- verdade. Mas j agora, estamos envolvidos na aventura e  necessario
leval-a a cabo airosamente. E depois, que diabo, Quartelmar! Mais vale
morrer de repente, n'uma batalha, que durante mezes na cama!...

Eu pensei commigo (e bem estupidamente) que o melhor era no morrer nem
n'uma cama, nem n'uma batalha. E d'ahi a instantes recolhiamos  nossa
estreita senzala, a dormir algumas horas antes da grande aco.

Infands veio-nos acordar ao romper da alvorada, dizendo que se
observavam j do lado da cidade movimentos de tropas, e que j ligeiras
escaramuas tinham obrigado as nossas sentinellas avanadas a recolher.
Comemos logo, febrilmente, os nossos preparativos. O baro, pelo
principio de que na Kakuania se deve ser Kakuano, armou-se e
enfeitou-se como um guerreiro selvagem--pelle de leopardo aos hombros,
enorme pluma de abestruz presa  testa, cintura de rabos de boi, escudo
de ferro coberto de couro branco, machada de combate, facalhes de
arremessar, azagaia, todo o complicado armamento d'um chefe negro. E
devo confessar que assim armado e emplumado era uma esplendida e
formidavel figura! O capito John no causava tanta impresso. Em
primeiro logar insistira em conservar as calas que Infands lhe
obtivera; e um cavalheiro baixote e gordote, de monoculo, suissa d'um
lado e a cara rapada do outro, com uma cta de malha de ferro mettida
para dentro das pantalonas, grande lana e chapo cco, offerece na
realidade um espectaculo mais estranho que imponente. Eu por mim, ao
contrario, tinha tirado as calas para correr mais lesto se tivessemos
de retirar: mas a fralda da camisa apparecia-me por baixo da cta de
malha: um facalho que pendurra  cinta batia-me lamentavelmente nas
canellas: o escudo enfiado no brao entanguia-me os movimentos: e sentia
em geral que no apresentava para combate uma figura sufficientente
heroica. De sorte que espetei uma immensa pluma no meu bonet de caa--e
procurei dar ao rosto uma expresso de ferocidade. Alm do arsenal de
armas selvagens, tinhamos naturalmente as nossas carabinas, que tres
soldados atraz conduziam com os sacos de munio.

Apenas armados, engulimos  pressa o almoo, e abalmos. N'uma das
extremidades do planalto do monte havia uma especie de casebre de pedra,
que servia ao mesmo tempo de quartel-general e de torre de vigia.
Encontrmos ahi Ignosi, magnificamente emplumado e apetrechado. Com elle
estava Infands: e como guarda real o regimento de Infands, decerto o
mais numeroso e aguerrido de todo o exercito. Este regimento tinha por
nome os _Pardos_, porque usava plumas pardas na cabea. Era composto de
tres mil praas; e estava collocado de reserva, deitado em ordem e por
companhias sobre o capim que alli crescia. Os chefes, n'um grupo, junto
do casebre, com as mos em pala sobre os olhos, observavam o movimento
das tropas de Tuala--que vinham n'esse momento sahindo de L em longas
columnas semelhantes a formigueiros.

Cada uma d'essas columnas tinha de onze a doze mil homens. Logo que
sahiram as portas de L e se acharam na planicie pararam: depois,
formadas em batalha, marcharam uma para a direita, outra para a
esquerda, a terceira em direco  nossa collina.

--Bom, murmurou Infands, vamos ser atacados por tres lados!




CAPITULO X

O ATAQUE DA COLLINA


Devagar, em perfeita ordem, as tres columnas avanaram. A da direita e a
da esquerda, separadas, e obliquando como para envolver e cercar a nossa
posio: a do centro, direita sobre ns, marchando por aquella lingua da
planicie que entrava pela nossa collina dentro--collina que (como disse)
tinha a frma d'uma meia lua com as duas pontas voltadas para a cidade
de L. A umas quinhentas jardas esta columna parou--dando tempo a que as
outras circumdassem a nossa posio. O plano das gentes de Tuala era
evidentemente dar, por cada lado,  nossa cidadella um assalto
simultaneo e brusco.

--Ah! suspirou John, olhando aquellas multides espalhadas em baixo,
quem tivera aqui uma metralhadora!

--Nem fallemos n'essa delicia! exclamou o baro com igual pezar. Em todo
o caso, Quartelmar, veja se a sua carabina chega at quelle magano, de
pelle de leopardo, que parece commandar a fora.

Carreguei tranquillamente a carabina com bala, agachei-me por traz d'uma
pedra e apontei. O pobre commandante de pelle de leopardo avanra das
fileiras uns trinta passos, seguido por uma ordenana, a examinar a
nossa posio; e erguia justamente o brao quando eu lhe mandei uma
bala. Tombou sem um movimento mais, com a face no cho. Os nossos
regimentos espantados, acclamaram este milagre do homem das estrellas; e
eu (tanto a guerra nos endurece o corao) gostei d'estes applausos.
Creio mesmo que agradeci, como um actor! No emtanto o baro apontra a
um outro official, que correra a recolher o cadaver do camarada--e que,
por seu turno, bateu com os braos no ar, cahiu morto. A fora inimiga,
aterrada, comeou logo a recuar. Os nossos uivavam de deleite e de
furor. John juntra-se a ns com a sua carabina; e antes que a diviso
se tivesse retirado para fra do nosso fogo, abatemos uns dez ou doze
homens. Como _effeito moral_ parecia excellente.

De repente, porm, ouvimos um immenso clamor  nossa direita, e um
clamor igual  nossa esquerda. Eram as duas columnas circumdantes que
nos atacavam. Immediatamente a massa de homens em frente de ns rompeu
avanando por aquella lingua de planicie que penetrava em subida suave
no interior da nossa meia lua. Vinham n'um passo vivo, certo, elastico,
que cadenciavam entoando um canto rouco. Comeamos de novo a fazer fogo.
Muitos homens cahiram. Mas era como se atirassemos pedras a uma grande
vaca de equinoxio. A mar humana subia.

Subia com grandes brados, repellindo os nossos postos, collocados entre
as rochas,  base da collina. A sua marcha porm diminuia de impeto, 
maneira que a subida se convertia em ladeira, depois em ingreme pendr
de monte. Ahi onde comeava o monte, estacionava a nossa primeira linha
de defeza. J de lado a lado, entre as foras, se comeavam a atirar as
_tollas_, grandes facas de arremesso que faiscavam no ar. Os que
avanavam vinham bradando: _Tuala, Tuala_! _Chiel, Chiel_! (mata,
mata!) Os nossos replicavam: _Ignosi, Ignosi_! _Chiel, Chiel_! As
primeiras azagaias entrechocaram-se; e, com o encontro, peito a peito,
das duas massas de homens, na vertente da collina, a batalha comeou.

As foras que atacavam eram esmagadoras; e a nossa primeira linha, onde
os homens cahiam como folhas no outono, cedeu, e reentrou na segunda
linha de defeza. A lucta aqui foi terrivel; mas os nossos recuaram, e a
terceira linha entrou em batalha  orla j do planalto. O baro, cujos
olhos se accendiam, no se conteve mais. Brandindo a sua machada de
guerra, arremessou-se para o meio do combate, seguido do capito John.
Ao avistar a gigantesca figura do homem das estrellas que vinha em seu
soccorro, os nossos soldados bradaram com enthusiasmo:--_Nanzie Incub_!
(Ahi vem o elephante!) _Chiel, Chiel_! E, carregando com redobrado
vigor, em poucos momentos repelliram a diviso de Tuala, que, j
canada, sem poder romper a sebe viva de lanas que a continha, voltou a
descer a collina em confuso. N'esse instante tambem um mensageiro
esbaforido veio annunciar a Ignosi (ao lado de quem eu ficra) que o
ataque na esquerda da serra fra rechaado; e j eu e Ignosi nos
congratulavamos, quando, com grande horror, vimos os nossos, que estavam
defendendo a direita, vir correndo pelo planalto, acossados por
multides inimigas, que evidentemente n'aquelle ponto tinham rompido as
nossas linhas.

Ignosi bradou uma ordem. Immediatamente o regimento dos _Pardos_ se
desdobrou, para reter a debandada dos nossos, rechaar a invaso. E, sem
que eu comprehendesse bem como, instantes depois achei-me envolvido
n'uma furiosa carnificina. Tudo o que me lembra  o estridente ruido dos
escudos de ferro entrechocando-se--e logo adiante a appario d'um
enorme bruto furioso, com os olhos sangrentos a saltarem-lhe das
orbitas, que erguia sobre mim uma longa azagaia. O meu rewolver
findou-lhe os furores para todo o sempre. Mas quasi em seguida, senti
uma pancada na cabea--e quando tornei a abrir as palpebras, estava no
casebre do quartel-general, deitado n'uma esteira, com o excellente John
ao meu lado, velando.

--Ento, exclamou elle anciosamente, pondo no cho a cabaa d'agua com
que me borrifava.

Antes de responder, ergui-me muito devagar, apalpei com cuidado o meu
precioso corpo.

--Bem, obrigado. Estou perfeitamente bem!

--Graas a Deus! Quando o vi, trazido n'uma padiola, deu-me uma volta o
corao!

--No, no foi d'esta! Levei s uma bordoada, supponho eu. E a batalha?

--Por hoje repellimos a pretalhada do rei. Mas perdemos perto de dois
mil homens. Veja aquelle horror, Quartelmar!

E o bom John mostrava fra o terreiro, convertido n'um hospital de
sangue. Para transportar os seus feridos, os Kakuanas usam um longo e
esguio taboleiro com uma argola a cada canto. E d'estes taboleiros,
postos no cho, cada um com o seu homem, havia longas filas--por entre
as quaes caminhavam, curvados, os cirurgies Kakuanas. O methodo d'estes
clinicos  simples o piedoso. Se a ferida se apresenta curavel, o
soldado  besuntado com os unguentos nativos, e isolado nas senzalas. Se
a ferida  incuravel ou muito grave, o cirurgio, com uma lanceta, corta
subtilmente uma arteria do homem, que expira em poucos instantes sem
soffrer.

Fugindo a estes espectaculos, John e eu seguimos para o outro lado do
quartel-general, onde encontramos o baro (ainda de machado na mo, todo
tinto de sangue) reunido em conselho com Ignosi, Infands e dois chefes
idosos.

--Ainda bem que chega, Quartelmar! gritou o baro. Eu no posso
comprehender o que quer esta gente... Parece que vamos ser cercados!

E assim era, segundo explicou lentamente Infands. Tuala repellido
reunira reforos, e parecia tomar disposies para pr sitio  collina,
e vencer-nos pela fome e pela sde. Os mantimentos no durariam mais de
dois dias. Mas o peor era que a nascente d'agua, sorvida a cada instante
por dezeseis mil bcas sedentas, estava prestes a esgotar-se; e antes da
manh seguinte o exercito gemeria de sde. N'estas conjuncturas, Ignosi
queria saber o que propunham os homens das estrellas.

--Dize tu, Macumazan, velha raposa, que tens visto muito, e sabes todas
as artes.

Conversei um momento com os amigos, e declarei em seguida ao conselho,
que, sem po e sem agua, nada nos restava seno fazer immediatamente uma
tremenda sortida contra Tuala. Todos approvaram com ardor a minha ida.
Mas sob que plano se tentaria esse ataque? Cabia a Ignosi, o rei,
decidir:--e os olhos de cada um voltaram-se para o nosso antigo servo,
que agora, nas suas armas e plumagens de guerra, tinha um magnifico ar
de rei guerreiro.

Depois de pousar dois dedos sobre a testa,  maneira Zul, Ignosi fallou
e desenvolveu um plano excellente. Ao comeo da tarde (era ento
meio-dia) os _Pardos_, commandados por Infands e o baro, desceriam
aquella lingua da planicie que penetrava na meia lua da collina, e
avanariam sobre Tuala, emquanto elle proprio, Ignosi (que eu devia
acompanhar), ficaria de reserva por traz com tropas frescas. Decerto
Tuala, vendo os _Pardos_ romper n'uma sortida, lanaria sobre elles toda
a sua fora para os esmagar. Emquanto na lingua de terra se estivesse
dando esse primeiro recontro, uma tera parte das nossas foras desceria
pela ponta direita da collina, levando comsigo John, o do olho
rutilante; outra tera parte iria de manso pela ponta esquerda;
subitamente ambas cahiriam sobre os flancos de Tuala;--e n'esse instante
elle, Ignosi, desceria pela frente com as tropas frescas, e se a fortuna
estivesse com elle ceariamos n'essa noite contentes na cidade de L!

O plano foi acolhido entre applausos--e immediatamente entrou em
preparao, com uma presteza, um methodo, que fez honra aos officiaes
Kakuanas. No espao de duas horas foram servidas as raes aos homens,
as tres divises formadas, a ordem de ataque bem explicada aos chefes, e
toda a fora (menos uma guarda que se deixou aos feridos) collocada nos
seus postos.

Era pois outra immensa carnificina que se preparava e em que me veria
envolvido--eu, homem de ordem, de gostos simples, que tanto detesto
violencias! Quando John, ao partir com a ala direita, nos veio dizer
adeus, um pouco commovido--eu, com a voz abalada tambem, s tive estas
palavras:

--Se escapar, amigo John, louve a Deus, e no se metta mais com
pretendentes!




CAPITULO XI

A BATALHA DE L


No contarei os pormenores sangrentos d'este grande combate, que se
ficou chamando a batalha de L. Todos estes medonhos conflictos de
selvagens, mesmo travados com a disciplina dos Kakuanas, se assemelham.
 sempre uma vasta confuso de corpos escuros e emplumados, um
estridente ruido de escudos entrechocando-se, azagaias reluzindo no ar,
saltos, guinchos, uivos, clamores immensos onde destaca uma nota
assobiada, o _sgghi_! _sgghi_! que solta o selvagem quando trespassa com
o ferro o inimigo.

O plano de Ignosi de resto foi triumphalmente realisado. Os _Pardos_
avanaram n'aquella lingua de terra que penetrava na nossa meia lua, e
com admiravel heroicidade sustentaram os ataques de regimentos aps
regimentos, arremessados sobre elles por Tuala.

Quando dos _Pardos_ restava apenas metade, e a atteno de todo o
exercito inimigo estava concentrada n'esta lucta com o heroico
regimento, as duas alas nossas, que tinham caminhado pelos dois cornos
da meia lua, cahiram sobre os flancos desprevenidos do inimigo como um
circulo de ces de fila sobre lobos descuidados. Comeou uma pavorosa
matana. Ignosi carregou ento de frente com as reservas frescas--e
decidiu a batalha. Eu fiz parte d'essa carga: e no sei como, achei-me
ao p do baro, que parecia o verdadeiro deus da guerra, com os longos
cabellos de ouro a esvoaar ao vento, todo elle vermelho de sangue, e
soltando a cada grande golpe de machado o velho grito saxonio de ataque
_O-hoy_! _O-hoy_! Tambem me parece que avistei Tuala na confuso,
coberto com a sua cta de malha, arremessando as _tollas_, as facas
enormes dos Kakuanas, que dois guerreiros atraz d'elle traziam em sacos
de coiro. Lembro-me ainda tambem d'um chefe que, em vez de escudo,
erguia para se defender o cadaver de um _Pardo_, e que combatia
cantando. De resto, tudo se me confunde na memoria--o sangue correndo,
os corpos tombando, um grande estridor de armas, um immenso esvoaar de
plumas.

Com o embate das duas columnas nossas sobre os flancos do exercito de
Tuala a batalha ficou ganha--e dentro em breve a vasta planicie que se
estendia entre a nossa collina e a cidade de L estava cheia de soldados
fugindo em terrivel desordem. O regimento dos _Pardos_ no emtanto (ou o
que d'elle restava) reunira n'uma pequena elevao de terreno--onde
tristemente verificamos que, dos tres mil valentes que o compunham,
ainda de manh, apenas acudiam  chamada cento e noventa e cinco homens.
Entre elles estava Infands, que combatera heroicamente tendo smente um
leve golpe no brao. Ignosi, com um grupo de chefes, entre os quaes
vinha John (ferido n'uma perna e manquejando), em breve se veio juntar a
esta gloriosa phalange dos _Pardos_. E foi seguido d'ella, como da sua
guarda de honra, que o rei, e ns com elle, marchamos sobre a cidade de
L.

s portas da cidade, ainda fechadas, estavam j postados grossos
destacamentos dos nossos para as atacar. Mas dentro os soldados de
Tuala, inteiramente desmoralisados pela derrota do seu rei, no pareciam
dispostos  resistencia. Com effeito, s primeiras intimaes dos
arautos, a ponte levadia da porta chamada _Real_ foi descida: e,
seguindo Ignosi, penetramos emfim na cidade vencida. Nas ruas, s portas
das aringas, nos terreiros, por toda a parte se apresentavam soldados,
com a cabea baixa, os escudos e as lanas pousadas aos ps em signal de
submisso, que saudavam Ignosi como rei. Assim chegamos  aringa real.

No terreiro silencioso,  porta da sua grande senzala, solitario,
abandonado, sem um soldado, sem um cortezo, sem uma das suas mil
mulheres, estava Tuala, sentado n'um escabello, com o rosto cahido sobre
o peito, as mos pousadas sobre os joelhos. Cheguei a sentir uma vaga
piedade pelo pobre rei derrotado! Um unico sr lhe ficra fiel,
Gagula--que, agachada aos seus ps, rompeu n'um fluxo de injurias, mal
nos viu assomar ao terreiro, seguindo o triumphante Ignosi.

Tuala, esse no parecia vr, nem sentir. S quando Ignosi parou, e os
soldados bateram em cadencia com os contos das azagaias no cho, o velho
tyranno ergueu a cabea emplumada. Depois atirando sobre ns um olhar
mais reluzente que o grande diamante que lhe ornava a testa:

--Salv, rei! gritou elle a Ignosi, com amargo escarneo. Tu que, por
feitios dos homens das estrellas, seduziste os meus regimentos, dize,
que sorte me destinas?

--A sorte de meu pae, que tu mataste!--foi a fria e dura resposta.

--Bem! saberei morrer, para que te fique como exemplo quando a tua vez
chegar. Mas reclamo um privilegio da familia real dos Kakuanas. Quero
morrer combatendo.

--Concedo, respondeu Ignosi. Escolhe o teu homem. Eu no posso, porque o
rei no se bate em combate singular.

O sinistro olho de Tuala percorreu-nos lentamente a todos. E, como
durante um momento se fixou em mim, eu senti alli o mais atroz pavor da
minha vida aventurosa. Justos cos! se elle se quizesse bater _commigo_?
Tambem, tomei logo a minha resoluo--recusar, fugir, ainda que fosse
apupado por toda a nao Kakuana! Felizmente o bruto escolheu:

--Incub! exclamou, estendendo a mo para o baro. Tu que mataste meu
filho, querers tu luctar commigo, ou ser chamado um cobarde?

--No, gritou logo Ignosi, Incub no se bater comtigo!

--Decerto no, se tem medo.

Infelizmente o baro comprehendera. Todo o sangue lhe subiu s faces. E
avanou logo, de machado erguido.

Acudimos, supplicando-lhe que no arriscasse a vida com aquella fra,
inteiramente desesperada, de antemo condemnada  morte. Provas de
heroico valor j elle as dra de sobra! Para que ir-nos despedaar o
corao, se uma desgraa lhe succedesse?

O baro porm permaneceu inabalavel.

--Nenhum homem vivo, civilisado ou selvagem, me chamar nunca cobarde.
Quero bater-me com elle!

Ignosi, bem a custo, cedeu.

--Seja pois!... Tuala, o grande Incub vai marchar para ti!

Tuala riu, ferozmente; e os dois gigantescos homens ficaram frente a
frente. O primeiro ataque foi o do baro, que lanou sobre Tuala o
machado a toda a fora. Com um salto Tuala esquivou o crte, e
arremessou outro em resposta sobre o baro, que o aparou no escudo. E
durante um momento houve assim uma viva e faiscante troca de machadadas,
que ora bruscos saltos evitavam, ora os broqueis defendiam. Ns nem
respiravamos. O regimento dos _Pardos_, esquecida a disciplina, fizera
circulo, e soltava gritos, batia palmas a cada golpe vibrado. John,
agarrado ao meu brao, andava aos saltos sobre a perna s, animando o
baro com berros:

--Bravo! Anda-me ahi! Esse foi bom! Atira-lh'o de ilharga!...

Subitamente um brado de horror resoou. D'uma pancada Tuala cortra o
cabo do machado do baro, que ficava assim desarmado--e, erguendo o seu
proprio machado, cahia sobre elle com um uivo furioso de triumpho. Tudo
acabra, eu fechei os olhos... Quando os abri, Tuala e o baro,
agarrados um ao outro como dois gatos bravos, estavam rolando no cho--e
o baro, com um desesperado esforo, procurava arrancar a Tuala a
machada que elle tinha preso ao pulso por uma correia de bufalo.
Pareceu-me uma eternidade o tempo que elles assim rolaram um sobre o
outro, n'esta furiosa lucta pela posse do machado. Finalmente a correia
quebrou--e com um ultimo, monstruoso arranque, o baro, desprendendo-se
de Tuala, ergueu-se de salto, com o machado na mo. N'um instante Tuala
estava tambem de p--e ambos tinham as faces a escorrer sangue. Foi
Tuala, que, mais rapido, arrancou do cinto o facalho e o vibrou contra
o peito do baro. O valente homem cambaleou, mas a couraa de malha
repelliu a facada. De novo Tuala arremetteu com a lamina--e ento o
baro, retesando-se todo n'um esforo, alou o machado, no momento mesmo
em que Tuala se inclinava, e deixou cahir uma machadada com tremenda
fora sobre o pescoo. Houve um grito enorme.--E, coisa pavorosa! vimos
a cabea de Tuala saltar-lhe dos hombros, dar como uma plla dois pulos
pelo cho, e rolar at aos ps de Ignosi! Durante um segundo o corpo
ficou erecto, com o sangue sahindo em grossos borbotes e a fumegar. De
repente tombou, com um ruido surdo. E do outro lado o baro cahiu
tambem, desmaiado.

Erguemol-o anciosamente, encharcamos-lhe o rosto em agua. Pouco a pouco
abriu os olhos. Estava salvo!

O sol ia justamente descendo. Eu baixei-me para a cabea de Tuala que
alli ficra n'uma poa de sangue, e, desapartando o grande diamante que
lhe ornava a testa, entreguei-o solemnemente a Ignosi e bradei:

--Salv, rei dos Kakuanas!

Elle apertou o diamante sobre a testa. Depois pousou um p sobre o peito
de Tuala morto, e cercado dos seus guerreiros entoou um canto de
victoria.




CAPITULO XII

O REI IGNOSI


Tudo findra gloriosamente. Chegra a hora de repousar--ou, melhor, de
convalescer. O baro e o capito (cuja perna, de todo inchada, o fazia
agora soffrer muito) foram levados em braos para a aringa palacial de
Tuala. E eu para l me arrastei, exhausto de emoes, com a cabea
consideravelmente dorida da paulada d'essa manh na defeza do planalto.

O primeiro cuidado foi despir as ctas de malha, tarefa difficil (pelo
nosso combalido estado) em que nos ajudou a linda Fulata, que se
constituira, desde o comeo da revolta, nossa vivandeira, nossa
enfermeira, e nosso anjo da guarda. Arrancadas as ctas, vimos que os
nossos pobres corpos eram uma massa medonha de pisaduras negras. No
tumulto da batalha tinhamos apanhado decerto muita facada, muita
lanada. As pontas dos ferros eram repellidas pela malha impenetravel;
mas nem por isso cada um dos golpes arremessados deixava de constituir
uma terrivel pontuada que nos amolgava corpo e membros. Eu estava
positivamente negro de pisaduras. Mas o peor era a ferida de John na
perna, e a do baro a quem uma das machadadas de Tuala cortra
profundamente a face sobre a maxilla. Fulata preparou-nos uns emplastros
de hervas aromaticas que nos alliviaram as dres. E como o capito John
tinha noes e pratica de cirurgia (segundo contei), foi elle que fez o
tratamento da ferida do baro e da sua propria, to bem quanto lh'o
permittiam os poucos fios, o resto de pomada antiseptica que encontrou
na sua botica portatil, e a escassa luz da lampada kakuana.

Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos nas
magnificas pelles que juncavam o cho da aringa do rei. Mas no pudmos
dormir. De toda a cidade, em torno de ns, subia a triste e ululada
lamentao das mulheres, chorando,  maneira dos Zuls, os valentes
mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as carpideiras reaes estavam
carpindo a morte de Tuala com estridente dr. A noite ia cheia de
prantos--e alm d'isso a cada instante sentiamos os gritos agudos das
sentinellas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi s de madrugada que
pude cerrar os olhos--os olhos que, apesar de cerrados, continuavam a
vr os lances da batalha, com tanta realidade que por vezes estremecia
em sobresalto e me erguia no cotovlo a procurar as minhas armas, ou a
lanar uma ordem de ataque.

Quando emfim acordei, com o sol j alto, soube que os meus dois amigos
tambem no tinham dormido. De facto, o capito John estava com uma
intensa febre e comeava a delirar. Alm d'isso, symptoma assustador,
toda a noite cuspira sangue. O baro, esse, mal podia ainda mexer o
corpo; e a ferida da face no lhe permittia comer, escassamente fallar.
Eu era ainda assim o mais restabelecido. Tomei o delicioso caldo de
Fulata, e sahi um instante ao terreiro a respirar. Encontrei justamente
Infands que chegava, to fresco e agil como se na vespera, em logar de
uma batalha, tivesse celebrado uma festa. Ficou desolado ao saber a
doena de John. Entrou um momento na cubata para o vr e o baro, que
no se podia ainda levantar e apenas mover os membros sobre o seu ffo
leito de pelles. Em voz baixa, por causa de John, Infands contou-nos
que todos os regimentos se tinham submettido a Ignosi, que das outras
cidades chegavam ferventes adheses, e que o novo reinado se firmava
para longas ras de prosperidade e de paz.

Quando elle se retirava, appareceu Ignosi, seguido de uma guarda real.
No pude deixar, ao vl-o, de pensar nas estranhas revolues da sorte!
Aquelle moo, que havia mezes, na minha casa em Durban, me pedia para
entrar ao meu servio--eil-o agora rei, grande Potentado d'Africa,
commandando cincoenta mil guerreiros, senhor de povos, de rebanhos e de
terras sem conta!

--Salv, rei! exclamei eu, erguendo-me com respeito.

--Graas a ti, Macumazan, e aos teus amigos! exclamou elle, apertando-me
as mos com carinho.

Entrou tambem, como Infands, na cubata para vr o baro e o pobre John,
que dormia um somno de febre, horrivelmente agitado, sob os olhos
compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sahimos de novo
ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava elle fazer de
Gagula.

--Gagula  o genio mau d'esta terra, disse elle. Conto mandal-a matar
para findar com ella, que j  velha de mais!

--Mas tem segredos! Mas sabe muito! repliquei eu.

--Sabe sobretudo o segredo dos _Silenciosos_, volveu o rei pousando os
olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis esto enterrados,
e o do logar dos diamantes. Ora eu no esqueo a promessa que te fiz,
Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula:
e s por isso a poupo.

--Est bem, Ignosi, registro as tuas palavras.

Mas no foi possivel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque
atravs de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em risco e os
nossos coraes em anciedade. Realmente creio que teria morrido, se no
fossem os desvelos, a adoravel dedicao de Fulata. Dias amargos esses
para ns! O baro, j ento restabelecido, e eu, nada mais fizemos
durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de ps
a senzala onde elle delirava. Remedios no tinhamos para lhe dar, alm
d'uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo extrahido
da raiz d'uma especie de tulipa. S podiamos contar com a forte natureza
d'elle e a boa merc de Deus.

Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para
manter perfeito socego em torno ao doente, ordenra que todos os que l
viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente
ao lado d'elle, sentada no cho, dando-lhe a bebida refrescante,
arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sccas d'uma planta que
faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto.

No nono dia da doena,  noite, antes de recolher, o baro e eu
entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no
escabello dava uma luz funebre. No havia um rumor. E o meu pobre amigo
jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegra o seu fim, tive um
soluo que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou _chut_!

E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo no estava morto, mas
tranquillamente adormecido, sob a caricia das mos de Fulata, que lhe
cobriam a testa, onde um suor fresco comeava. Era a crise do nono dia,
o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito
horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque no serei acreditado) Fulata,
a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim,
com as mos pousadas sobre a testa d'elle, sem comer, sem se erguer, sem
se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente.
Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braos, porque a
heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga.

A convalescena de John foi rapida. Ao fim d'outra semana, j passeava
pelos arredores da cidade, entre os pomares,  beira do rio, acompanhado
por Fulata, que o salvra, e a quem elle votra (segundo dizia) um
reconhecimento eterno. Mas eu no agourava bem d'aquelle
reconhecimento, d'aquelles passeios bucolicos... Nos olhos de Fulata
havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era
indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter,
mais perigosa ainda, alguma aventura d'amor!

Apenas John se considerou a si proprio escorreito e prompto para
outra--Ignosi comeou as festas da sua proclamao. Todos os Indunas
(chefes supremos) das provincias do reino vieram a L prestar
vassallagem. Houve revistas de tropas, danas, formidaveis banquetes. Os
homens que restavam do regimento dos _Pardos_ foram todos doados com
terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande
Assembla que d'ora em diante no haveria mais _caa aos feiticeiros_,
nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto ns residissemos
no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como
elle, a saudao de _Krum_!

No ultimo dia d'este grande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao
rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegra, de realisar a sua
promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras
brancas que reluzem.

Ignosi abraou-nos com grande affecto.

--No me esqueci, amigos! J indaguei a verdade, e eis o que sei.
Aquella estrada branca que trilhmos acaba alm junto das montanhas
chamadas as _Tres Feiticeiras_, onde esto as figuras de pedra, os
_Silenciosos_. Jaz ahi uma grande cova, d'onde se diz que homens muito
antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para alm
d'essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, maravilhosa, onde
vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala j foi
conduzido. E por traz d'essa caverna fica uma camara secreta de que s
Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas
geraes, um branco veio aqui, e foi conduzido por uma mulher a essa
camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d'essas que para os
Kakuanas nada valem: o branco porm no teve tempo de arrecadar essas
riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d'esses tempos o escorraou
outra vez para alm das montanhas...

--A historia  verdadeira, acudi eu. No te lembras, Ignosi, que nas
montanhas, na caverna de gelo, encontramos ns, petrificado, esse homem
branco?

--Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e ordenar-lhe,
sob pena de morrer, que vos leve  camara secreta, meus amigos... E as
riquezas que encontrardes, oh meus amigos, so vossas!

N'esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada pelos braos
a hedionda Gagula; que gania e os amaldioava. Mal a largaram, toda ella
se abateu e achatou sobre o cho--como um monto de trapos onde dois
olhos ferozes viviam e refulgiam.

--Que me queres tu, Ignosi? uivou ella. No me toques, que te destruo.
Treme das minhas artes!

O rei encolheu os hombros.

--As tuas artes no salvaram Tuala. Que me importam as tuas artes? Aqui
est o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a camara secreta
onde esto as pedras que reluzem.

--S eu o sei, e nunca o direi! bradou ella. Os brancos malditos
voltaro, levando vasias as mos malditas!

--Bem, volveu tranquillamente o rei. Ento, Gagula, vaes morrer
lentamente.

--Morrer! gritou ella, cheia de terror e de furia. Tu no te atrevers,
Ignosi! Ninguem me pde matar. Que idade pensas tu que eu tenho? O teu
pae conheceu-me; e o pae do teu pae; e o pae que gerou a esse. Ninguem
ousar tocar-me, porque sobre esse cahiro as desgraas sem fim.

Em silencio, tranquillamente, Ignosi baixou sobre ella a ponta da sua
azagaia:

--Dizes?

--No!

Ignosi baixou mais o ferro, picou de leve o monto de trapos onde
reluziam os dois olhos ferozes.

Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa poz-se em p, de salto. Depois
tornou a cahir, e rolou no cho esperneando.

De novo a lana de Ignosi a procurava:

--Dizes?

--Digo, digo, oh rei! ganiu ella. Mas deixa-me viver, e sentar-me ao
sol, e respirar o ar dce, e ter um osso para chupar!...

--Bem; manh irs com meu tio Infands e com os meus irmos brancos a
esse logar, mostrars a camara secreta e o escondrijo das pedras que
reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver traio, morrers devagar,
e em tormentos.

--No, Ignosi! Irei com elles, e tudo mostrarei. Mas a desgraa vem a
quem penetra n'esse logar. Outr'ora veio um homem, encheu um saco
d'essas pedras brilhantes, e uma grande desgraa cahiu sobre elle! E foi
uma mulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! Talvez
fosse minha me! Ou a me de minha me! Quem sabe? Ser uma alegre
jornada... Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde!
Vereis ao passar os que morreram na batalha, com os olhos vasios, as
costellas cas. A morte vive l, e est  espera. Ser uma alegre
jornada!




CAPITULO XIII

A GRANDE CAVERNA


Tres dias depois, ao escurecer, estavamos acampados n'um casebre
desmantelado, em frente das _Tres Feiticeiras_, as tres montanhas que
tantas vezes de longe avistaramos, desde a nossa chegada a L, e onde
deviam jazer, segundo a tradio dos Kakuanas e o roteiro do velho D.
Jos da Silveira, as minas das pedras que reluzem--as Minas de Salomo!
Tinhamos partido de L doze dias antes, acompanhados por Infands, por
Fulata (que no deixra mais o seu doente, o bom John), por Gagula que
vinha n'uma liteira, e por uma forte escolta de serviaes e soldados. E
foi s no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquelle estranho
sitio, to cheio de terror para os Kakuanas e para ns de maravilhosas
promessas.

Nunca eu esquecerei o momento em que, sahindo a porta das cubatas, na
primeira e fresca luz da manh, vimos os tres montes isolados, em
triangulo, um  nossa direita, outro  nossa esquerda, o terceiro ao
fundo, em face de ns, erguendo magnificamente ao co os seus cimos
resplandecentes de neve. Um tojo em flr, d'um escarlate ardente, cobria
as poderosas fraldas dos tres montes--e seguia ainda, como um tapete
igual e continuo, pelos grandes descampados que os cercavam. A fita
branca da estrada de Salomo cortava a direito at  _Feiticeira_
central, a que formava a ponta do triangulo, onde findava brusca e
mysteriosamente. Ahi, junto d'esse monte, estavam as fabulosas minas,
que tinham sido o fim de tantos miseros destinos, o do velho fidalgo
portuguez, o do seu descendente, e decerto o d'aquelle que ns vinhamos
procurando desde o sul e por quem correramos tanto perigo e tanta
aventura! Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula)
encontrar desilluso e desastre. Seria essa a nossa sorte? Ns
chegavamos sob a proteco do rei, cercados de serviaes e de guardas...
E apesar d'isso sentiamos pesar-nos sobre o corao, tristemente, a
prophecia da horrenda mulher.

No emtanto, quando nos puzemos a caminho, era to viva a anciedade de
chegar e de vr, que os carregadores da liteira de Gagula mal podiam
acompanhar a nossa carreira. A cada instante a velha bruxa gritava,
estendendo para ns, por entre os pannos da liteira, os braos
descarnados, as mos em garra:

--No vos apresseis, homens brancos! A morte est  vossa espera e no
foge! Para que vos esfalfar, correndo para ella? Certa e segura a
tendes!

Dava ento uma risadinha que nos arripiava. Insensivelmente abrandavamos
o passo... Depois bem cedo o estugavamos de novo sob o impulso
irresistivel da curiosidade e da esperana!

Gastaramos assim hora e meia, trilhando a estrada de Salomo, e tendo j
deixado  nossa direita e  nossa esquerda as duas _Feiticeiras_ que
formam a base do triangulo--quando chegamos junto d'uma immensa cova
circular, em funil, offerecendo talvez trezentos ps de profundidade e
meia milha de circumferencia. Entre a herva e tojo, que interiormente a
forravam, surgiam grandes pedaos de greda azulada: quasi ao fundo
corria um canal para agua, talhado na rocha viva; e abaixo do nivel
d'essa obra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, polidas e
gastas pelo tempo. A cova, as mesas, a disposio do canal, a natureza
da greda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no
sul, nas minas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos:--e
para mim ficou certo que alli houvera, em tempos, fossem nos de Salomo,
fossem n'outros mais recentes, uma mina de diamantes.

A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a
circumdavam; e a espaos, esta via circular era feita de enormes lages
de pedra, com o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e
impedir que se esboroassem. Mas o que mais nos surprehendia era, do
outro lado da vasta cova, um grupo de tres objectos, que se destacavam
como tres pequenas torres ou tres marcos colossaes. A curiosidade quasi
nos fez correr, deixando atraz Gagula e Infands; e bem depressa
percebemos que o grupo era formado por tres immensas estatuas.
Conjecturamos logo que deviam ser os _Silenciosos_, esses idolos, to
temidos pelos Kakuanas, e a quem offereciam os sacrificios sangrentos.
Mas s ao chegar junto d'elles pudmos apreciar a estranha e terrivel
magestade d'essas vetustas figuras.

Separadas por uma distancia de vinte passos, erguidas sobre immensos
pedestaes de pedra negra onde corriam caracteres desconhecidos, e
olhando a direito para a estrada de Salomo que atravs de sessenta
milhas de planicie seguia at L--enchiam um grande espao as tres
gigantescas frmas, duas de homem, uma de mulher, todas tres sentadas,
medindo talvez cada uma a altura de vinte ps.

A figura de mulher, toda na, com dois cornos, como os de um crescente
de lua, sobre a testa, era de uma maravilhosa belleza--infelizmente
estragada pelas injurias do tempo durante longos seculos. As duas
figuras de homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens,
pareciam mais bem conservadas. Um d'elles tinha uma face medonha, feita
para inspirar terror, como a de um demonio malefico; mas a do outro
parecia talvez mais assustadora ainda, na sua fria expresso de dura
indifferena, de uma indifferena de rocha, que nenhuma prece pde
abrandar, ou nenhum soffrimento apiedar. Todos tres juntos formavam na
realidade uma Trindade pavorosa, assim sentados, immoveis, com os olhos
vaga e perpetuamente estendidos para a planicie sem fim. Que imagens
seriam estas? Deuses? Demonios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu por
mim, das minhas reminiscencias da Biblia, colligia que deviam ser talvez
os falsos Deuses que adorou Salomo--Asthoreth deusa dos Sidonios,
Chemosh deus dos Moabitas, e Milcolm deus dos filhos de Amnon. Assim
diz o Livro Santo.

--Que lhe parece, baro?

--Talvez, concordou o nosso amigo que recebera grau em Litteraturas
classicas. A Asthoreth, de que fallam os Hebreus,  a Astart dos
Phenicios, os grandes commerciantes do tempo de Salomo. De Astart
fizeram os Gregos a sua Aphrodite, que se representava com o crescente
da meia lua na cabea... Se Salomo tinha aqui as suas minas, era
natural que fossem dirigidas por engenheiros phenicios. De sorte que
provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina, a estatua
da sua Deusa. Quem pde saber?

Quando estavamos assim contemplando estas extraordinarias reliquias de
uma remota antiguidade, Infands, que caminhra sem se apressar, chegou
junto de ns, e saudou reverentemente com a lana os _Silenciosos_.
Vinha saber se queriamos penetrar immediatamente na caverna, ou tomar
primeiro a refeio da manh. Como no eram ainda onze horas, e a nossa
curiosidade flammejava, decidimos desvendar logo os mysterios, levando
comnosco provises para se l dentro a fome excitada pelas emoes nos
assaltasse. Infands fez ento signal aos carregadores para que se
acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um
cesto, para levarmos, uma poro de caa fria e duas cabaas d'agua. Ns
entretanto deramos uma volta em torno s tres figuras de pedra. Por traz
d'ellas, a uns cincoenta passos, erguia-se aquella das _Feiticeiras_ que
formava o bico do triangulo; na sua base, como incrustada n'ella, corria
uma muralha de pedra: e ahi, ao centro, podiamos distinguir um arco
escuro, como a entrada de uma galeria subterranea. Esperamos que os
carregadores tirassem Gagula da liteira. Apenas no cho, a horrenda
creatura agarrou o cajado, e dobrada em duas, com passos tremulos e
vivos, largou em silencio para o arco escuro. Ns seguimos, calados,
tambem.

 entrada, o monstro parou, voltado para ns, com um riso livido na
caveira.

--Homens das estrellas, estaes decididos? Quereis realmente penetrar na
cova onde as pedras reluzem?

--Estamos promptos, Gagula, disse eu, alegremente.

--Bem, bem! Entrai! E pedi fora aos coraes para affrontar as coisas
que ides vr! E tu, Infands, que trahiste teu amo, vens tu tambem?

O velho guerreiro franziu terrivelmente o sobr'olho:

--No me compete a mim entrar nos sitios sagrados. Mas tu, Gagula, tem
cautela, e treme! Os homens que vo comtigo so os amigos do rei! Por
elles me respondes tu. E se tanto como a perda de um s cabello lhes
succeder em mal, nem todos os teus feitios te livraro de morrer em
tormentos. Comprehendeste?

--Comprehendi, comprehendi, Infands! ganiu ella, com um risinho gelado
e lento. No receies! Eu vivo s para fazer a vontade do rei. Tenho
feito a vontade de muitos reis, em muitas geraes! E os reis findaram
sempre por cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram... E
eu aqui estou, para os ir visitar agora no palacio da morte, e para lhes
fallar dos tempos que foram! Vinde, vinde! A lampada est accesa!

Tinha tirado debaixo do manto de pelles que a cobria uma cabaa cheia de
oleo com uma grossa torcida de vime:--e a luz que ella aproximou do arco
negro pareceu desmaiar e tremer.

--Vens tu tambem, Fulata? exclamou John, volvendo os olhos em redor,
inquieto.

--Tenho medo, meu senhor, murmurou a rapariga.

--Bem. Ento d c o cesto!

--No, meu senhor, para onde frdes, vou eu tambem!

--Bem! pensei eu commigo, ahi levamos tambem o trambolho da rapariga
para dentro da mina!

No emtanto Gagula mergulhra na galeria, que dava apenas logar para dois
caminharem de frente. As trevas eram absolutas. Azas de morcegos
batiam-nos nas faces. E seguiamos menos a luz bruxuleante da lampada,
que a voz de Gagula, que repetia n'um tom lugubre:

--Avanai, avanai! A morte est perto!

De repente distinguimos uma vaga claridade. E momentos depois paravamos
no mais maravilhoso sitio que olhos humanos tm contemplado.

A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma immensa
cathedral, uma cathedral de sonho ou de lenda, sem janellas, alumiada
por uma luz diffusa e mysteriosa que parecia cahir das alturas da
abobada. Ao comprido d'esta vasta nave, como na nave de um verdadeiro
templo, corriam renques de gigantescas columnas, d'uma cr algida de
glo e de magnifica belleza. Alguns d'estes nobres pilares estavam, por
assim dizer, interrompidos no meio--um pedao erguendo-se do slo, como
a columna quebrada de uma ruina grega, outro pedao pendente da remota
abobada. Aos lados da nave abriam-se, com dimenses diversas, cavernas 
semelhana de capellas, tendo tambem as suas filas de columnas, algumas
to pequeninas e finas como feitas para um brinquedo de creana. Aqui e
alm havia construces estranhas, da mesma substancia algida que
parecia glo--uma da frma de uma vasta taa, outra offerecendo a vaga
apparencia d'um pulpito com lavores pendentes. Um ar de indescriptivel
frescura circulava dentro da vasta nave:--e por toda a parte sentiamos,
na penumbra, o ruido lento de gottas de agua cahindo.

No tardamos em perceber que estavamos simplesmente n'uma caverna de
stalactites, de inigualavel belleza. Cada uma d'aquellas gottas de agua,
que cahia, com um som humido e triste, era mais uma columna que se
estava formando. Ha quantos seculos andava a Natureza trabalhando
n'aquella obra maravilhosa? Sobre uma das columnas incompletas notei eu
uma rude inscripo entalhada decerto por algum obreiro phenicio das
minas, que alli escrevera o seu nome, ou talvez alguma facecia phenicia.
Pois, desde esse dia, em tres mil annos pelo menos, a columna apenas
crescera para cima da inscripo uns tres ps e meio. E ainda estava em
via de formao, porque eu distinctamente senti, emquanto a examinava,
cahir sobre ella, das profundidades da abobada, uma lenta gotta de agua!
Quantos centos de milhares de annos levaram pois a crescer, a formar-se,
assim largas, massias, altas como torres, as columnas innumeraveis que
se enfileiravam na nave? Nunca, como alli, eu comprehendi a espantosa
velhice da Terra.

Gagula porm no nos deixou muito tempo n'esta curiosa contemplao.
Inquieta, batendo o cho com o cajado, a lampada erguida sobre a cabea,
a cada instante nos apressava, com ganidos sinistros.

--Vamos, vamos, que a Morte est  nossa espera!

O capito John ainda tentava gracejar com a atroz creatura. Mas quando
ella nos conduzia ao fundo da nave, diante d'uma pequena porta
semelhante s dos templos egypcios, e nos perguntou se estavamos bem
preparados a entrar a morada da Morte--todos estacamos, inquietos,
mudos, sem ousar o primeiro passo.

--Isto est-se tornando sinistro, murmurou o baro. Os mais velhos
adiante. Passe l, Quartelmar!

Entrei a porta egypcia e achei-me n'um corredor inclinado, todo de
abobada, horrivelmente negro. A lampada de Gagula esmorecia. O bater do
seu cajado dava um echo lugubre. E a meu pezar parei, dominado por um
presentimento de desastre e de morte.

--Para diante! para diante! murmurou John, que trazia Fulata agarrada
pela mo.

Com um esforo desesperado venci o receio, alarguei o passo. E, quasi
collados uns aos outros, desembocamos n'uma sala subterranea,
evidentemente excavada outr'ora por poderosos obreiros no interior da
montanha.

Esta sala no tinha uma luz to clara como a cathedral de stalactites; e
tudo o que eu pude descobrir a principio foi uma enorme e massia mesa
de pedra, tendo no topo uma colossal figura, que parecia presidir outras
figuras abancadas em torno. Depois, sobre a mesa, no centro, distingui
uma frma encruzada. E quando emfim, acostumado  penumbra, percebi o
que eram aquellas frmas, voltei costas, e largaria a fugir como uma
lebre--se o baro no me agarrasse pelo brao fortemente. Cedi, tremendo
todo. Mas a esse tempo o baro tambem se habitura  luz diffusa,
comprehendera tambem, e largando-me o brao, com uma exclamao, ficou a
meu lado, quedo, arripiado, limpando o suor que lhe cobrira a testa. A
pobre Fulata, essa, dava gritos, agarrada ao pescoo de John. E Gagula
triumphava, com sinistra zombaria.

O que tinhamos, com effeito, ante os olhos apavorados, era terrivel.
Alli, no topo da longa mesa de pedra estava a _Morte_--a propria
_Morte,_ um medonho e gigantesco esqueleto, de p, todo debruado para
diante, com um dos braos apoiado ao rebordo da pedra como se acabasse
de se erguer do seu assento, e com o outro levantando no ar uma enorme
lana, que parecia arremessar sobre ns; o craneo da caveira alvejava
lugubremente; das covas das orbitas sahia um fulgor negro: e as maxillas
estavam entreabertas, como se fosse fallar, e desvendar o seu segredo.

--Santo Deus! murmurei eu, tranzido. Que pde isto ser?

--E estas figuras, em redor? balbuciava John.

--E alm, aquella coisa, no meio? exclamou o baro apontando para a
inexplicavel figura encruzada sobre a mesa.

Ento Gagula poisou a lampada e agarrando o brao do baro, com o dedo
estendido para a frma encruzada:

--Avana, Incub, homem forte na guerra! Avana, e contempla aquelle que
tu mataste e que est agora junto aos seus avs!

O baro deu um passo, e recuou abafando um grito. Sobre a mesa,
inteiramente n, com as pernas encruzadas, e a cabea que o baro
cortra poisada em cima dos joelhos, estava Tuala, ultimo rei dos
Kakuanas!... Sim, Tuala, sustentando solemnemente sobre os joelhos a sua
hedionda cabea decepada, e com as vertebras a sahirem-lhe para fra do
pescoo encolhido e como resequido! Sobre todo o corpo negro tinha j
uma especie de pellicula gelatinosa e vidrada, que o tornava mais
pavoroso, e cuja natureza eu no podia comprehender--at que senti
_tic_, _tic_, _tic_, um fio de gottas de agua, que, cahindo da abobada,
lhe escorria pelo pescoo, e d'alli pelo corpo, para se escoar depois
por um buraco cavado na mesa. Ento percebi tudo--_o corpo de Tuala
estava sendo convertido n'uma stalactite_!

E as outras figuras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos
Kakuanas, j transformados em _stalactites_! Havia trinta e sete--sendo
o ultimo o pae de Ignosi.  esta, desde tempos immemoraveis, a maneira
por que os Kakuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos,
expondo-os, durante um longo periodo de annos, a uma queda de agua
siliciosa que, lentamente e gotta a gotta, os transforma em estatuas
geladas. Estavamos assim diante do mais maravilhoso e exotico Pantheon
Real que existe decerto na terra. E nada pde igualar a terrifica
impresso que causava aquella srie de reis, pertencendo a muitas
dynastias, amortalhados n'uma camada de gelo que mal lhes deixava j
distinguir as feies, alli sentados,  volta da immensa mesa, em
espectral e pavoroso concilio, presididos pela Morte!

E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira? No decerto os
Kakuanas. A sua composio, o seu trabalho revelavam uma arte perfeita.
Era obra dos artistas phenicios? Fra collocada alli em tempo de
Salomo, para guardar, pelo terror da sua lana, a entrada dos
Thesouros? No sei. Nem sei mesmo contar, com verdade, as estranhas
sensaes por que passei n'aquella camara sinistra.




CAPITULO XIV

O THESOURO DE SALOMO


No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) trepra
para cima da mesa e acercra-se do cadaver de Tuala, a quem pareceu
fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis,
dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas
e graves que no comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em frente da
_Morte_, cahiu de bruos, com os braos estendidos, e ficou como
mergulhada em orao.

Era um espectaculo to arripiador, n'aquella penumbra de sepulchro, a
hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas
ao enorme esqueleto--que eu, j enervado, lhe gritei que viesse, nos
levasse ao logar dos thesouros.

Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e
passando por traz das costas da _Morte_, ergueu a lampada, mostrou a
parede de rocha:

--Entrai, homens brancos, entrai, se no tendes medo!

Olhamos, procurando a entrada. S vimos a rocha solida e negra.

--Gagula, disse eu com os dentes cerrados, no zombes de ns que te
mato!

--Mas a porta  aqui, homens brancos, a porta  aqui! gania ella, com as
costas apoiadas  muralha, onde roava de leve uma das suas mos
descarnadas.

E ento,  luz bruxuleante da lampada, vimos que um bocado da muralha,
do feitio e tamanho d'uma porta, se ia erguendo lentamente do slo, e
desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a
receber. No pesava menos aquella massa de pedra de vinte a trinta
toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado n'um
equilibrio de peso, que uma mla, collocada n'um logar secreto da
muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n'esse momento, arrancar a
Gagula o segredo da mla, que erguia a pedra! Pasmados, viamos a immensa
massa subir, devagar, muito devagar, at que desappareceu, deixando
diante de ns um grande buraco negro.

Estava emfim aberto, para ns n'elle penetrarmos, o caminho que levava
aos thesouros de Salomo. A emoo foi to intensa, que eu, por mim,
comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedao de papel,
o velho D. Jos da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a
ns, as maiores riquezas que jmais um rei accumulou na terra?
Poderiamos ns vr, tocar, agarrar e levar em sacos, o thesouro que fra
de Salomo, maravilha dos Livros santos? Assim parecia--e para isso
bastava dar um passo.

Dei esse passo--e com explicavel sofreguido. Mas Gagula defendia ainda
com os braos o buraco negro:

--Escutai, homens das estrellas! Escutai o que  necessario saber! As
pedras que brilham, que vs ides vr, foram tiradas da cova circular no
sei por quem, e guardadas aqui no sei por quem. A gente que, de gerao
em gerao, tem vivido n'esta terra, sabia da existencia do thesouro,
mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim
aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que foi
bem recebido e bem agasalhado pelo rei d'ento, que era o quinto, alm,
sentado  mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga kakuana; ambos
percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que
talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo
da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco
pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou
na mo outra pedra, maior que todas...

E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em ns.

--Contina! exclamei eu, que escutra sem respirar. O homem era D. Jos
da Silveira. Que se passou mais?...

A velha feiticeira recuou espantada.

--Como lhe sabeis o nome? Ah! sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguem
pde dizer o que succedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para
o cho o saco cheio de pedras, e fugiu, levando s agarrada a pedra
maior que tinha na mo.  a que Tuala trazia no diadema.  a que tu
dste a Ignosi!

--E ninguem mais entrou aqui?

--Ninguem. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum
porm entrou, porque dizem prophecias j muito antigas que aquelle que
aqui entrar morrer antes d'uma lua nova. Esta  a verdade, homens das
estrellas. Entrai agora! Se eu no menti a respeito do homem que se
chamava Silveira, vs encontrareis no cho,  entrada da porta, cahido,
o saco de couro cheio de pedras... E se as prophecias mentem ou no
sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vs mais tarde o
sabereis...

E sem mais, a hedionda creatura mergulhou no corredor tenebroso,
erguendo ao alto a pallida lampada. Ns, no emtanto, olhavamos uns para
os outros com hesitao, quasi com medo--bem natural de resto em nervos
abalados por tantas emoes estranhas. Foi John o mais corajoso:

--Acabou-se! C vou! Era ridiculo ficarmos apavorados com as tonterias
d'uma velha macaca! Adiante!

E avanou seguido por Fulata e por ns dois, em silencio. Mas dados
alguns passos ouvimos uma medonha praga. Era John que tropera, quasi
cahiria por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula
erguera mais a lampada:

--No receeis!... So pedras que a gente d'outr'ora tinha ahi accumulado
para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece, no
tiveram tempo!

E com effeito havia alli como umas obras interrompidas--pedras serradas
e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha,
semelhantes s que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei com
reverencia estas antiquissimas ferramentas. No emtanto Fulata, que desde
a nossa entrada na caverna no cessra de tremer de medo, sentou-se
sobre uma pedra, e declarou que desmaiava, no podia mais caminhar...
Alli a deixmos, com o cesto de provises ao lado, at que ella ganhasse
alento. E seguimos.

Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau,
curiosamente pintada a cres, e toda aberta para traz. E no limiar da
porta, l estava, cahido no cho--_um pequeno saco de couro que parecia
cheio de seixos_!

--Ento, brancos, que vos disse eu? ganiu Gagula em triumpho, brandindo
a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi
est ainda, desde geraes! Que vos disse eu?

John ergueu o saco. Era pesado e tinia.

--Santo Deus! Est cheio de brilhantes! balbuciou elle quasi com medo.

E com effeito, meus amigos! A ida d'um saco de couro repleto de
diamantes-- de causar medo!

--Para diante, para diante! exclamou o baro, com subita impaciencia. D
c tu a lampada, bruxa!

Arrancou a luz das mos de Gagula. E de tropel com elle, sem sequer
pensar mais no saco que John atirra outra vez para o cho, transpozemos
a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomo.

Durante um momento olhmos vagamente em redor, n'um silencio apavorado.
 luz debil e mortia da lampada s percebemos, ao principio, que o
quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados vimos
distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas at  abobada, uma poro
immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez
uns quinhentos ou seiscentos dentes. S aquelle marfim nos poderia
tornar a todos ricos para sempre. Era d'esse espantoso deposito que
Salomo fizera talvez o grande throno de marfim, de que fallam os
livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com venerao,
como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas.

--Alli esto os diamantes, gritou John. Trazei a luz!

Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o baro
baixra mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito
compridas, pintadas de escarlate. A tampa d'uma, to antiga que mesmo
n'aquelle ar scco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestigios
d'arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei a mo
atravs, e tirei-a cheia, no de diamantes, mas de moedas de ouro, como
ns nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e
palmeiras e torres em relevo no cunho.

--Justos cos! murmurei suffocado. Aqui devem estar milhes! Isto nem se
acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos
mineiros... Estaremos ns a sonhar?

--Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto.
Onde esto por fim os diamantes? S se o portuguez os metteu todos no
saco!

Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente:

--Alm, alm, onde  mais escuro! L esto os tres cofres de pedra, dois
sellados, um aberto!

A sua aguda voz tomra um som cavo e sinistro. Mas qu! Onde ia agora,
diante de to inverosimeis riquezas, o medo das prophecias mortaes? Era
alm, no recanto escuro? Para l corremos, sondando com a lampada.

--Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitao. Aqui. Oh meu Deus! So
tres arcas de pedra!

E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando
os tres lados d'uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas
com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada 
muralha. Baixamos a lampada para dentro. No pudmos distinguir nada ao
principio, deslumbrados por uma vaga refraco prateada que faiscava e
tremia. Quando os olhos se habituaram quelle brilho estranho, vimos que
a arca immensa estava cheia at ao meio de diamantes brutos! Mergulhei
as mos n'elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de
diamantes! No havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquelle
macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam _sabonaceo_! Era uma
arca cheia de diamantes!

Ficamos, mudos, olhando uns para os outros.  frouxa luz da lampada eu
via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E no havia em ns
nenhuma alegria. Era um torpr, como se a alma nos ficasse bruscamente
esmagada, sob a fabulosa infinidade d'aquella riqueza.

Eu murmurei com um suspiro de creana:

--Somos os homens mais ricos d'este mundo!

John passava os dedos pelo queixo, n'uma distraco quasi melancolica:

--Eu sei l!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro!

--E transportal-os? e transportal-os? dizia o baro, abanando a cabea.

De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula.
Gagula que ia, vinha, s voltas, na sala escura, como um morcego, de
brao estendido para ns:

--Hi! Hi! Hi! Ahi est satisfeito o desejo vil dos vossos coraes,
homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares
d'ellas! E todas vossas! Agarrai n'ellas! Rolai por cima d'ellas! Hi!
Hi! Hi! _Comei_ as pedras! Hi! Hi! Hi! _Bebei_ as pedras!

Havia alguma coisa de to grotesco n'aquella ida de beber diamantes e
comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E
por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, s
gargalhadas. E alli ficmos todos, de mos nas ilhargas, perdidos a rir,
a rir, a rir! Riamos de qu? Nem sei. Riamos dos diamantes--d'aquelles
diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de Salomo tinham
escavado para _ns_, que os agentes de Salomo tinham armazenado para
_ns_... Pertenciam a Salomo... Mas onde ia Salomo? Eram _nossos_
agora, os seus diamantes! No tinham sido para Salomo, nem para David,
seu pae, nem para nenhum rei de Jud! No tinham sido para o atrevido e
velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham
singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para _ns_! S para
_ns_! Para ns aquelles milhes e milhes de libras, que, n'este
seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam to poderosos como
outr'ora Salomo. De facto eramos _Salomes_!

De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os
outros, estupidamente.

--Abri as outras arcas! gania no emtanto Gagula. Esto tambem cheias!
Todas as pedras so vossas! Fartai-vos, fartai-vos!

Em silencio, com uma sofreguido brutal, arremessamo-nos sobre as outras
arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n'um desesperado
esforo! Hurrah! Cheias tambem! Cheias at cima!... No, a terceira
estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas,
d'um peso, d'um tamanho inacreditaveis. Havia-as como ovos pequenos. As
maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarello.
Eram diamantes de cr, como elles dizem em Kimberley, nas minas.

Tinha eu um d'estes na mo, enorme, quando de repente ouvimos gritos
afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata:

--_Acudam_! _Acudam_! _Que a porta de pedra est a cahir_!

Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente:

--Larga-me, rapariga, larga-me!

--_Acudam_! _Acudam_! _Ai Gagula que me matou_!

Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos.  luz frouxa da lampada
vimos a porta de pedra descendo, e junto d'ella Gagula e Fulata
enlaadas n'uma lucta furiosa. De repente Fulata cae, coberta de sangue.
Gagula atira-se ao cho, para fugir como uma cobra atravs da fenda que
havia ainda entre o cho e a porta. Mette a cabea e os hombros!...
Justos cos! Era tarde. A pedra immensa apanha-a, e a creatura uiva de
agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o corpo
j preso. Vem d'elle gritos e gritos, como eu jmais ouvira--at que ha
um som horrivel de coisa _esborrachada_, e a porta immensa fica immovel,
fechada, justamente quando ns, correndo sempre, esbarramos de roldo
contra ella!

Isto durra quatro segundos--quatro seculos. Voltamos ento para Fulata.
A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer.

--Ah Boguan! (era assim que os Kakuanas chamavam a John). Ah Boguan!
exclamou, suffocada, a bella creatura. Gagula sahiu fra. Eu no a vi,
estava meia desmaiada. Ento a porta comeou a descer... Ella ainda
entrou, foi olhar para vs... Depois tornava a sahir, quando eu a
agarrei, e ella me deu uma facada, e agora morro!

--Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! gritava John.

E como no podia fazer outra coisa, comeou a dar-lhe beijos, longos
beijos.

Ella sorria, arfando, com as palpebras cerradas. Depois:

--Macumazan, ests ahi?... Ja mal vejo... Ests ahi?...

--Estou, Fulata. Que queres?

--Falla por mim, Macumazan. Dize a Boguan que no me comprehende bem.
Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia, que o amo... Mas que
morro contente, porque elle no se podia prender a uma rapariga como
eu... O sol no se casa com a noite.

Teve um suspiro. A sua mo errante procurava em redor.

--Macumazan, ests ahi? Dize-lhe que me aperte mais contra o peito, para
eu sentir os seus braos. Assim, assim... Dize-lhe que um dia hei de
tornar a vl-o nas estrellas... Que hei de ir de estrella em estrella, 
procura d'elle. Macumazan, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe ainda...

Os labios sorriam, sem fallar. Estava morta.

As lagrimas cahiam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John.

--Morta! murmurava elle, agarrando ainda as mos de Fulata. J me no
ouve! E no a tornar a vr, no a tornar a vr!

O baro disse ento, devagar, e n'uma estranha voz:

--No tardar, amigo, que a tornes a vr.

--Como assim?

--_Oh homens, pois no percebestes ainda que estamos enterrados vivos_?

Foi ento, s ento, que pela primeira vez comprehendi o indizivel
horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra
estava fechada. O unico sr que lhe conhecia o segredo jazia
esborrachado por ella, sob ella. Foral-a, s se tivessemos alli massas
de dynamite! Estava fechada para sempre! E ns alli fechados detraz
d'ella!

Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em p, junto do cadaver
de Fulata. Toda a fora de homens, a coragem de homens, fugia de ns
bruscamente. Eramos sres inertes. E comprehendiamos agora todo o plano
monstruoso de Gagula--as suas ameaas, as suas ironias, o seu sinistro
convite para _bebermos_ e _comermos_ diamantes. Sim, era o que tinhamos
para beber e comer! Desde L, decerto, ella viera planeando a traio--e
s nos trouxera  caverna, para nos deixar l dentro, morrendo junto dos
thesouros que appeteceramos!

-- necessario fazer alguma coisa, exclamou o baro, n'uma voz rouca.
Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos
achar o segredo, a mla que move a rocha.

Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre
Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do
corredor. No achamos nada, em mais d'uma hora de desesperada busca, que
nos esfolou as mos.

--A mla, se tal mla ha, est do lado de fra, disse eu. Foi por isso
que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou,  porque se
queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes...
Malditos sejam elles, e maldita seja ella!

--De resto, lembrou o baro, se a infame bruxa tentou fugir pela fenda 
que sabia bem que pelo lado de dentro no podia levantar a rocha. No ha
nada a fazer com a porta. Vamos vr outra vez, na camara.

Levantamos ento com respeito e cuidado o corpo da pobre Fulata, fomol-o
collocar dentro, no cho, com os braos em cruz, junto das arcas de
dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provises. E sentados junto dos
cofres de pedra atulhados de riquezas que nos no podiam salvar,
dividimos as provises em doze pequenos lotes, que, a dois repastos por
dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Alm da caa fria e
das carnes sccas tinhamos duas cabaas d'agua.

--Bem, jantemos, disse o baro, que  talvez o nosso penultimo jantar
n'este mundo.

Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em
jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles d'agua,
reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperana. Comeamos ento a
examinar systematicamente as paredes da nossa priso, contando com a
remota possibilidade de que existisse, alm da porta da rocha, outra
sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas,
batemos as muralhas, sondamos o slo, exploramos a abobada. Ficamos
exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o
oleo estava chupado.

--Que horas so, Quartelmar? perguntou o baro.

Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado s onze na caverna.

--Infands ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos no vir voltar
esta noite, decerto nos vem procurar...

--E ento? exclamou o baro. De que serve? Infands no conhece o
segredo da porta, ninguem o conhecia seno Gagula. Ainda que conhecesse
a porta, no a podia arrombar. Nem todo o exercito dos Kakuanas, com as
suas azagaias, pde furar cinco ps de rocha viva. Ninguem nos pde
salvar seno Deus!

Houve entre ns um longo, grave silencio. De repente a luz flammejou,
mostrando, n'um relevo forte, todo o interior da camara, o grande monte
dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo
da pobre Fulata estirado diante d'ellas, o saco de couro cheio de
diamantes, a vaga refraco que sahia dos cofres de pedra abertos, e as
lividas faces de ns tres, alli sentados a um canto,  espera da morte.
Depois a luz bruxuleou e morreu.




CAPITULO XV

NAS ENTRANHAS DA TERRA


No me  possivel descrever com exactido as agonias d'aquella noite. E
ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a espaos.
Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que mais
me torturava era o _silencio_. Um silencio tenebroso, tangivel,
absoluto,--o silencio d'uma sepultura cavada nas profundidades rocheas
do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do co
estalando, no poderiam fazer chegar a menor vibrao de som, fosse elle
ao menos to leve como um leve zumbir de mosca... E ento, acordado, a
monstruosa ironia da nossa situao ainda mais me acabrunhava. Em torno
de ns jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as dividas de
muitos estados, construir frotas de couraados, erguer palacios todos
feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as
imaginaes... E de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor,
mas que ns no podiamos quebrar com as nossas mos, tornavam-nas
inuteis, to sem valor como a propria pedra! Uma arca inteira de
diamantes dariamos ns com infinito prazer por um pouco de po, ou por
outra cabaa d'agua. Mais! dariamos todas as arcas de diamantes pelo
privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o
que  a riqueza? Sonho, estupida illuso!

--John, disse o baro, do seu canto, n'um dos momentos em que eu assim
pensava, quantos phosphoros te restam?

--Oito.

--Accende um, v as horas.

A chamma quasi nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas
no meu relogio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra!
A brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flr! Os soldados d'Infands
comeariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das fogueiras
apagadas--e as nascentes d'agua, junto d'elles, cantariam de rocha em
rocha. De assim pensar, as lagrimas humedeceram-me os olhos.

--Era melhor comermos alguma coisa, suggeriu o baro.

--Para que? exclamou John. Quanto mais depressa acabarmos com isto,
melhor!

--Emquanto Deus permitte a vida,  que permitte a esperana! respondeu o
baro gravemente.

Repartimos uma pouca de carne scca e d'agua. Emquanto comiamos, um de
ns lembrou que nos avisinhassemos da porta, e gritassemos com toda a
fora, porque talvez Infands, andando j na caverna  nossa procura,
ouvisse o remoto som das nossas vozes. John, que, como marinheiro, tinha
o habito de gritar, desceu o corredor s apalpadellas, e comeou a
berrar furiosamente. Nunca decerto ouvi uivos iguaes: mas foram to
inefficazes como um murmurio de insecto. O resultado unico foi que John
voltou com a garganta resequida, e teve de chupar um trago da pouca agua
que restava. Gritar s nos fazia sde. Desistimos d'esse esforo inutil.

De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de diamantes,
n'aquella horrivel inaco que era um dos nossos maiores tormentos. E eu
ento cedi ao desespero. Deixei cahir a cabea no hombro do baro, e
desatei a chorar. Do outro lado o pobre John soluava tambem.

Grande alma, e corajosa, e dce, era a do baro. Se ns fossemos duas
creancinhas assustadas, e elle a nossa me, no nos teria animado e
consolado com maior carinho. Esquecendo a sua propria sorte, fez tudo
para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado em
lances terrivelmente iguaes, e que milagrosamente tinham escapado.
Depois levava-nos a considerar que, no fim de tudo, ns estavamos
simplesmente chegando quelle fim a que todos tm de chegar, que tudo em
breve acabaria, e que a morte por inanio  suave (o que no 
verdade). E emfim, com um modo differente, pedia-nos que nos
abandonassemos  misericordia de Deus, e lhe rogassemos, na nossa
miseria, um olhar dos seus olhos piedosos. Natureza adoravel, a d'este
homem! Quanta serenidade, e quanta fora! Eu por mim acolhia-me a elle
como a um grande refugio. E por sua exhortao, rezei e serenei.

Assim passou o dia (se tal treva se pde chamar dia), at que accendi
outro phosphoro, olhei o relogio. Eram sete horas! Pensamos ento em
comer.

E quando estavamos dividindo a carne scca, occorreu-me de repente uma
ida estranha:

--Porque , disse eu, que o ar aqui se conserva to fresco?  um pouco
espesso, mas  fresco.

--Santo Deus! exclamou John erguendo-se com um pulo. Nunca pensei
n'isso! Com effeito  fresco... No pde vir de fra pela porta de
pedra, porque reparei perfeitamente que ella gira dentro de quelhas...
Tem de vir de outro sitio. Se no houvesse uma corrente d'ar, deviamos
ficar suffocados, quando aqui entramos hontem... Agora mesmo deviamo-nos
sentir abafados. Evidentemente o ar  renovado. Vamos a vr!

Ainda elle no findra, j ns andavamos, de gatas, s apalpadellas, na
escurido, procurando sofregamente qualquer indicao de buraco ou
fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a mo no
quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, j rigida.

Durante uma hora ou mais, passamos assim apalpando todos os cantos, at
que o baro e eu desistimos, esfalfados, e todos pisados de ter
constantemente batido com a cabea nos muros, nos dentes de elephante, e
nas esquinas das arcas. Mas John continuou, sem perder a esperana,
declarando que era melhor aquillo que pensar na morte, de braos
cruzados.

De repente, teve uma exclamao:

--Oh rapazes! Aqui! vinde c.

Com que precipitao corremos para o canto d'onde elle fallra!

--Quartelmar, ponha aqui a mo, onde est a minha. Ahi. Que sente?

--Parece-me que sinto um fio d'ar.

--Agora oua!

Ergueu-se, e bateu com o p no cho. Uma immensa esperana
relampejou-nos n'alma. A lage _soava co_.

Com as mos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos n'um recanto, de
que ainda no suspeitaramos--e aos nossos ps, na lage que pisavamos, e
como encrustada n'ella, havia uma grossa argola de pedra. No tivemos
uma palavra, na immensa excitao que de ns se apoderou. John tinha uma
navalha, com um d'esses ganchos que servem para extrahir pedras pequenas
das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e comeou a raspar com o gancho,
em torno da argola. Raspou, raspou--at que conseguiu introduzir a ponta
do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pl-a a prumo. Depois
deitou-lhe as mos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu.

--Deixai-me vr a mim! exclamei com impaciencia.

Agarrei, pondo toda a minha fora no puxo contnuo e intenso.
Escalavrei as mos. A pedra no se moveu. Depois foi o baro.
Sentiamol-o gemer. A pedra no se moveu.

De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em
redor a frincha por onde ns sentiamos como um debil halito de ar. Em
seguida tirou um grosso leno de sda que lhe envolvia o pescoo, e
passou-o na argola.

--Agora, baro! Mos ao leno, e puxar at rebentar! Quartelmar, agarre
o baro pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, dois, _v_!

Em silencio, com os dentes rilhados, puxmos, puxmos--at que eu sentia
rangerem os ossos do baro. Era elle que fazia o esforo maior, com os
seus enormes braos de ferro. E foi elle que sentiu a pedra mexer...

--Agora! agora! Est cedendo! Mais! la, la! Hh!

Um estalo, uma rajada brusca d'ar, e rolmos estatelados no cho, com a
pedra por cima de ns. Fra a immensa fora do baro que fizera o
prodigio. Que grande coisa, a fora!

--Um phosphoro, Quartelmar! exclamou elle, erguendo-se ainda arquejante.

Accendi o phosphoro. E, louvado Deus! vimos diante de ns os primeiros
degraus d'uma escada de pedra!

--E agora? perguntou John.

--Descer! E confiar em Deus!

--Esperai! gritou o baro. Quartelmar, veja se apalpa e acha o resto da
comida e da agua. Quem sabe onde iremos parar?

Achei logo as provises, que estavam junto da arca de pedra, cheia de
diamantes. E j enfira o cesto no brao, quando pensei nos diamantes...
Porque no? Quem sabe? Talvez por merc divina, achassemos uma sahida!
No fazia mal nenhum,  cautela, metter um punhado de diamantes na
algibeira!... Se chegassemos a sahir d'aquella horrivel cova, no teriam
sido ao menos inuteis todas as nossas angustias. Um punhado de diamantes
nada pesava! E ao acaso, mergulhei a mo na arca e comecei a encher
todos os bolsos da minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das
pantalonas. J abalava, quando voltei ainda, com uma ida,  arca onde
estavam as pedras mais gradas. E encafuei uma enorme mo cheia d'elles
para dentro da algibeira do peito. O contacto vivo d'aquellas riquezas
fez-me pensar nos outros.

--Oh rapazes! No quereis levar uns poucos de diamantes? Eu enchi as
algibeiras.

--Diabos levem os diamantes, disse do canto o baro, impaciente. At me
faz nauseas a ida de diamantes!  marchar,  marchar!

Emquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio que estava de joelhos,
junto do corpo de Fulata, dando o ultimo adeus quella que por elle
morrera!

Quando nos achamos juntos do alapo, j o baro descera o primeiro
degrau.

--Eu vou adiante, segui devagar.

--Cuidado, gritei eu! Pde haver por baixo algum medonho buraco. V
tenteando... Mo encostada sempre  parede...

O baro desceu contando os degraus. Quando chegra a quinze parou.

-- um corredor, gritou elle debaixo. Descei!

Quando chegmos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que nos
restavam.  luz que elle deu, vimos um pequeno espao, onde se
encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro
morreu, queimando-me os dedos. E ficmos n'uma horrivel hesitao! Qual
dos tunneis seguir? John ento lembrou-se que a chamma do phosphoro se
inclinra para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar vinha pelo
tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o lado
do ar.

Aceitmos a ida. E apalpando sempre a parede, no arriscando um passo
sem tentear o slo, seguimos n'esta nova e incerta aventura. Ao fim d'um
quarto de hora de marcha lenta, esbarrmos n'um muro. Era outro tunnel
transversal, por onde continumos cosidos com o muro. Depois d'esse
topmos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia outro, mais
largo. E assim durante horas. Estavamos n'um labyrintho de rocha viva.
Para que tivessem servido outr'ora estas innumeraveis passagens
subterraneas, no sei dizer--mas tinham a apparencia de galerias de
mina.

Finalmente parmos, esfalfados, com a esperana meia perdida. Comemos os
restos das provises, bebemos os derradeiros goles d'agua. Tinhamos
escapado de morrer nas trevas d'uma cova de diamantes--para vir talvez
morrer nas trevas d'uma mina vasia...

Quando assim estavamos sentados no cho, encostados ao muro, n'um
infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a
distancia. Avisei os outros, escutmos sem respirar. E todos muito
claramente distinguimos um _som_. Era muito tenue, muito remoto,--mas
era um som, um som murmurante e contnuo.

--Santo Deus! exclamou John.  agua a correr! Tenho a certeza que  agua
a correr.

N'um instante estavamos de p, caminhando para o som. A cada passo o
sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. Sempre
para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um
ruido forte, o ruido d'uma corrente d'agua. Mas como podia haver agua
corrente n'estas entranhas da terra?... E todavia, com certeza, alli
perto corria agua com fora. John, marchando adiante, jurava que lhe
percebia j a humidade e o cheiro.

--Devagar, John, devagar! gritou o baro. Devemos estar perto...

De repente um baque n'agua, um grito de John! Tinha cahido.

--John! John! onde ests? berrmos, perdidos de terror. Falla! Falla!

Que allivio, quando a voz d'elle nos veio de longe, suffocada.

--Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Accendei um phosphoro para eu vr onde
estaes!

Raspei o meu ultimo phosphoro.  sua luz tremula vimos aos nossos ps
uma immensa massa d'agua, correndo com grande fora. Que largura tinha
no percebemos... Mas a distancia distinguimos a frma vaga do nosso
companheiro, pendurado d'um penedo agudo.

--Preparai para me agarrar, gritou elle de l. Vou nadar para ahi!

Outro baque, uma grande lucta de braos batendo a agua. Depois junto de
ns um resfolegar ancioso. E por fim uma exclamao do baro, que
agarrra o nosso amigo pelas mos, o puxra para dentro do tunnel, a
escorrer.

--Irra! balbuciava John, offegando. Estive por um fio.  uma corrente
furiosa e parece-me que no tem fundo.

Evidentemente, d'este lado nada conseguiamos. De sorte que, depois de
John descanar, de bebermos  farta d'aquella agua que era deliciosa, e
de lavarmos a cara, deixmos as margens d'aquelle tenebroso rio, e
retrocedemos ao comprido do tunnel, com John adiante, tiritando e
pingando. Depois de andarmos um quarto de hora--chegmos a outro tunnel,
que se inclinava para a direita e parecia mais largo.

--Seguimos este, disse o baro inteiramente desalentado. Todos elles so
iguaes. O melhor  andarmos, andarmos, at cahir ahi para um canto, sem
poder mais,  espera da morte.

Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastmos os passos na
treva, atraz do baro, cujas fortes pernas j frouxeavam.

De repente esbarrmos com elle--que estacra, como attonito.

--Quartelmar! exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o brao. Eu
estou a delirar ou aquillo alm  luz?

Arregalmos desesperadamente os olhos. E com effeito, l ao longe, ao
fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco
maior do que um vidro de janella! Com outro alento de esperana
estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessra,
deliciosamente. Era _luz_--uma desmaiada mancha de luz! Tropeavamos uns
contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a
luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel
estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de
mos no cho. E estreitou ainda, como uma toca de raposa. Fomos de
rastos. Mas a rocha findra. Era terra, terra friavel, que se
esboroava... Um empuxo, um gemido, e o baro furou, e John furou, e eu
furei--e sobre as nossas cabeas luziam as bemditas estrellas, e na
nossa face batia uma aragem dce!

De repente faltou-nos o cho, e todos tres,  uma, rolmos, de
escantilho, por um declive abaixo, de terra molle e humida, entre capim
e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de ldo, berrei
pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo,
d'uma terra ch onde o baro fra parar. Resvalei at l, e fui
encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. Gritmos
ento por John. E uns _ols_ arquejantes guiaram-nos ao sitio onde uma
raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no
desesperado tombo.

Sentmo-nos ento todos tres na relva--e vendo-nos fra da funebre
caverna, salvos, sos, a respirar outra vez o ar da terra, a emoo foi
to forte que comemos a chorar de alegria. Seguramente fra Deus
misericordioso que nos guira por aquelle tunnel, para aquelle buraco,
que era a porta da Vida! E agora, a manh que julgavamos nunca mais vr,
estava roseando o topo dos montes.

 sua luz bemdita vimos ento que nos achavamos no fundo, ou quasi no
fundo, d'aquella immensa cova circular que fra outr'ora a mina de
Diamantes. L no alto, j podiamos distinguir as confusas frmas dos
tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos
vagueado, to angustiosamente, communicavam outr'ora com as
Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava agora
o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! S
isto era essencial e dce de saber!

No podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas figuras.
Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de p
e de lama, sangue nas mos e sangue nas faces--eramos, na verdade, tres
espantalhos medonhos. Mas no havia a pensar em nos sacudirmos ou nos
ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para
corpos como os nossos to exhaustos. De sorte que comemos, com lentos
e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, atravs da greda
azulada, agarrando-nos s raizes, e agarrando-nos ao tojo, n'um esforo
ultimo que nos esvaa. Ao fim d'uma hora estava terminada a faanha--e
os nossos ps tremulos pisavam outra vez a estrada de Salomo. A umas
cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta
d'ella estavam homens. Para l caminhmos, amparando-nos uns aos outros,
e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos
homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de
bruos ao cho, tremendo, gritando de medo.

--Infands, Infands, somos ns, teus amigos!

Elle levantou a cabea, depois o corpo. Por fim correu para ns, com os
olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo:

--Oh meus senhores! Sois vs! Sois vs! Voltaes do fundo dos mortos!...
Voltaes do fundo dos mortos!...

E o velho guerreiro, abraando-se ao baro pelos joelhos, rompeu a
soluar de alegria.




CAPITULO XVI

A PARTIDA DE L


Dez dias depois estavamos de novo em L--nas nossas confortaveis cubatas
de L,  sombra dos machabelles. E poucos vestigios nos restavam
d'aquella atroz aventura, alm dos muitos cabellos brancos que eu
trazia, e da melancholia em que cahira o nosso pobre John, com o corao
ainda cheio de Fulata.

 inutil accrescentar que no tornmos a penetrar no thesouro de
Salomo--apesar de sagazes e methodicas tentativas. N'aquelle dia em que
Infands nos acolheu como a resuscitados, nada fizemos seno comer,
dormir, descanar, gozar o sol. Logo no dia seguinte porm, descemos com
uma escolta  grande cova, na esperana de encontrar o buraco por onde
tinhamos furado para a luz e para a vida. Foi debalde. Em primeiro logar
chovera copiosamente de noite, e todas as nossas pegadas tinham
desapparecido; mas alm d'isso os declives em funil da enorme cava
estavam por todos os lados cheios de buracos, uns naturaes, outros
feitos por bichos. Qual d'elles nos salvra entre tantos milhares?
Impossivel descobrir!

Depois d'isso voltmos  caverna de stalactites, affrontmos outra vez
os horrores da Camara dos Reis Mortos: e durante muito tempo rondmos
diante da muralha de pedra, para alm da qual jaziam inaccessiveis para
sempre os maiores thesouros da terra, para sempre guardados funebremente
pelo esqueleto da pobre Fulata. Mas, apesar de examinarmos a muralha
durante horas, de a apalpar, de martellar sobre ella, no nos foi
possivel achar o segredo da porta,--sob a qual jaziam pulverisados os
fragmentos da hedionda bruxa, que com a sua traio s ganhra a sua
perda. Emquanto a forar aquelles cinco ps de rocha viva, quem podia
pensar em tal feito? Nem todo o exercito dos Kakuanas, trabalhando
annos, lograria passar atravs. S com dynamite,--ou trazendo pelo
deserto poderosas machinas. E assim, l esto ainda, n'esse remoto canto
de Africa, os thesouros, que desde os tempos biblicos tanto tm
fascinado a imaginao dos homens. Um dia talvez, quando a Africa toda
estiver civilisada, cortada de estradas, coberta de cidades, alguem mais
feliz que ns, e com os incalculaveis recursos da sciencia d'ento,
penetrar no vedado thesouro, e ser rico alm de toda a phantasia!
Esse, se jmais existir, encontrar l, como vestigio da nossa passagem,
as arcas abertas e os ossos da pobre Fulata, e uma lampada apagada. A
esse tempo j estar perdida a memoria d'este livro, contando a estranha
aventura. E esse explorador futuro mal suspeitar ento, ao dar com o p
n'esses ossos, ao remexer essas riquezas, que tres homens do seculo XIX
passaram alli um dos mais tragicos lances que jmais foi dado a homem
passar...

Devo todavia accrescentar que, materialmente, a nossa estada na caverna
no foi de todo inutil. Como contei, ao abandonarmos o thesouro, eu tive
a esplendida precauo de atulhar as algibeiras de diamantes. Muitos
d'estes, e sobretudo os maiores, cahiram, ficaram perdidos, quando eu
rolei pelos declives da cova. Mas ainda me restou nos bolsos uma enorme
quantidade. No lhe posso calcular o valor. Deve ser immenso! Supponho
que trouxemos ainda diamantes bastantes para sermos todos tres
millionarios, e possuirmos os tres mais ricos adereos de joias que
existam no mundo. Em resumo, no ponto de vista economico, a aventura no
gorou.

Em L, fomos acolhidos pelo rei Ignosi com grande amizade e regozijo.
Apesar de fundamente absorvido nos cuidados d'um Reinado que comea (e
sobretudo na reorganisao do exercito) estivera em grande inquietao
durante a nossa longa demora nas Minas. E foi com ardente curiosidade
que escutou a nossa maravilhosa historia.

A noticia da morte de Gagula foi para elle um allivio immenso.

--Quem sabe, murmurou elle, se depois de vos deixar morrer no sitio
escuro, no acharia ainda artes de me matar a mim tambem!

Para commemorar a nossa volta Ignosi deu um banquete e uma dana. E foi
n'essa noite, ao fim da festa, no terreiro real, onde brilhava o luar,
que ns annuncimos ao rei o nosso desejo de deixar emfim o seu reino, e
regressar  nossa patria.

Ignosi primeiramente pareceu espantado. Depois cobriu a face com as
mos:

--O que vs annunciaes, exclamou elle por fim, retalha o meu corao!
Sempre pensei que de todo ficarieis commigo. Para que foi ento, oh
valentes, que me ajudastes a ser rei? O que quereis? O que vos falta?
Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que  minha,  vossa. Escolhei! 
uma casa como as que os brancos habitam no Natal que vos falta? Os meus
homens, ensinados por vs, edificaro uma entre jardins... Dizei! E cada
um dos vossos desejos tem j a minha promessa de rei.

--No, Ignosi, no! acudi eu. O que ns simplesmente desejamos  voltar
para as nossas terras.

Elle ento sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos nossos coraes
nunca houvera amor por elle, mas s cubia das pedras que brilham. Agora
tinhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro... Estava
satisfeito o vil desejo do branco. Que importava pois o amigo que ficava
chorando? Malditas fossem as pedras, e idos fossemos ns bem cedo!

Eu pousei-lhe a mo no brao:

--Escuta, Ignosi! As tuas palavras no vm do teu corao. Escuta.
Quando tu andavas exilado na Zululandia, e depois entre os homens
brancos do Natal, no sentias tu o desejo da terra d'onde vieras, e de
que tua me te fallava? No se te voltavam os olhos para o Norte, para
onde estavam os campos e as senzalas onde tu nasceras, onde brincras
com as ovelhas, onde os velhos que passavam no caminho tinham conhecido
teu pae?...

--Assim era, Macumazan, assim era! exclamou o rei commovido.

--Pois do mesmo modo o nosso corao deseja a terra em que nascemos.

Ignosi baixou a cabea.

--As tuas palavras, como sempre, Macumazan, vm cheias de verdade e
razo. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque no mais me
chegaro noticias vossas, e vs sereis para mim como mortos!

Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois chamou
os chefes mais idosos, annunciou a nossa partida, ordenou que fossemos
acompanhados pelo regimento dos _Pardos_ at s montanhas, e d'ahi com
uma escolta e com guias levados pelo caminho do Oasis (de que elle s
recentemente tivera noticia), e que nos pouparia todos os trabalhos da
passagem das serras. Em seguida, erguendo a mo jurou ante os chefes que
no permittiria jmais que nenhum branco entrasse no seu reino a
procurar as pedras que brilham:--mas que ns poderiamos voltar sempre
porque eramos os irmos do seu corao! E por fim decretou que os nossos
nomes fossem considerados sagrados como os nomes dos Reis Mortos--e que
assim se proclamasse por todo o reino, de montanha em montanha.

--E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam lagrimas como os d'uma
mulher. Quando estiverdes, longe, nas vossas casas, junto das vossas
lareiras, pensai por vezes em mim... Adeus! Adeus para sempre, Incub,
Macumazan, Boguan, grandes homens e meus amigos!

Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para ns, um por um;
depois escondeu a cabea no seu manto de pelle de leopardo, e fugiu para
dentro da senzala real.

Ns afastamo-nos em silencio, e com o corao pezado.

Na madrugada seguinte partimos de L acompanhados por Infands e pelo
regimento dos _Pardos_. Apesar de to cedo, as ruas estavam apinhadas de
gente que nos lanava a saudao _Krum_, e nos desejava boa jornada! As
mulheres atiravam-nos flres ao passar. Todos os _tam-tams_ resoavam.
Era como uma grande ceremonia real.

Pelo caminho Infands foi-nos explicando que havia, com effeito, uma
passagem nas montanhas mais fcil do que aquella por onde vieramos--ou
antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os
dois seios de Sab como um muro separa duas torres. Havia um anno, um
bando de caadores Kakuanas, indo ao deserto  procura do abestruz,
tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d'elle encontraram o
deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massios de arvores.
Levados pela sde caminharam para l, e acharam um largo e fertil oasis,
cheio de fructa, de caa e d'agua. E d'ahi, diziam os caadores,
podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como
uma continuao de oasis. D'este modo era talvez possivel diminuir os
horrores d'uma nova travessia no deserto.

Ao fim de quatro dias de marcha chegmos com effeito ao alto da
escarpa--d'onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, o medonho
deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que
comemos a descida--e foi ento que nos separmos do nosso amigo
Infands.

O excellente homem quasi chorou de mgoa.

--Nunca os meus olhos, exclamava elle, vero homens como vs. Aquelle
golpe de machado, Incub! Que belleza! Sois os fortes dos fortes! E o
meu corao fica cheio da vossa lembrana. Adeus!

Tivemos realmente saudade do velho Infands; e John, como lembrana,
deu-lhe--adivinhem o qu?--_um monoculo_! Tinha um de sobresalente, e
presenteou com elle o heroico e leal selvagem! Infands, enthusiasmado,
procurou logo entalal-o no olho, certo de que essa _pupilla
resplandecente_ augmentaria o seu prestigio entre as tropas. E foi esta
a derradeira impresso que me ficou dos nossos amigos da Kakuania--um
velho guerreiro, n, com uma pelle de leopardo ao hombro, grandes plumas
negras na cabea, franzindo a face, de _monoculo no olho_!

D'ahi a pouco, tendo apertado affectuosamente a mo a esse honrado
Infands, comeavamos a nossa descida pela escarpa que liga os seios de
Sab, entre as trovejantes acclamaes do regimento dos _Pardos_.

Fizemos essa descida em doze horas.  noite estavamos acampados  orla
do deserto, conversando em torno das fogueiras cerca d'esses dois
estranhos mezes que passaramos entre os Kakuanas!...

--Ha sitios peores para se viver, dizia o baro.

--Quasi desejava ter l ficado, accrescentava John, com saudade.

Eu no dizia nada. Tinhamos l passado temerosos momentos. Mas por vezes
a vida fra dce. E no alforge traziamos um saco de diamantes!

Na madrugada seguinte encetmos a marcha para esse oasis que os nossos
guias conheciam. Trilhmos tres dias o deserto--mas sem desconsolo,
graas ao bando de carregadores que nos dera Ignosi, e que nos permittia
levar provises fartas e agua farta. Pelo comeo da tarde do terceiro
dia avistmos um bosque--e o nosso jantar j foi regaladamente servido
debaixo de copadas arvores, e junto de frescas aguas correntes.




CAPITULO XVII

EMFIM!


E agora resta-me contar a maior maravilha d'esta maravilhosa jornada.
To estranho, quasi inverosimil , que, para no lhe augmentar o ar de
romance que ella j de per si tem, preciso narral-a com a maxima
brevidade e maxima simplicidade.

Foi isto. Na manh seguinte, no oasis, andava eu passeando ao comprido
d'uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, n'um frondoso
outeiro  sombra de figueiras, com a fachada voltada para a
corrente--vejo uma confortavel cabana, construida  maneira cafre, mas
com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo.
E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida n'um oasis
do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a
um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba at  cintura,
um _homem branco_!

Ficmos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente n'esse
momento o baro e John appareceram. O homem crava os olhos em ns, com
um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um cxo pde
correr, aos tropees. Esbarra, rola no cho. O baro acode. Ergue o
homem. E grita:

--Santo Deus! _ meu irmo Jorge_!

Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado
pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim.

E ainda mais! Ao alvoroo do baro, s exclamaes que seguiram, outro
homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na
mo. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as mos  carapinha:

--Oh Macumazan! Oh Macumazan!... No me conheces? Sou Jim. Sou Jim!
Aquelle papel que tu me dste para o patro perdi-o... Estamos aqui ha
dois annos.

E o pobre Jim rojava-se no cho diante de mim, chorando e rindo, n'uma
alegria furiosa.

Com effeito, havia dois annos que o irmo do baro e o seu servo Jim
viviam n'aquelle oasis. Foi no nosso acampamento n'essa tarde que Jorge
Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes
partira da aringa de Sitanda, como ns, para atravessar o deserto, e
procurar as minas de diamantes para alm das montanhas. Por informao
porm, que lhe deram uns caadores de abestruzes que felizmente
encontrra, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquelle que
seguira outr'ora o velho D. Jos da Silveira, e que ns seguiramos
guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era atravs do deserto, mas
entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e
estava junto das Montanhas de Salomo, quando lhe aconteceu uma grande
desgraa. No dia mesmo em que aqui parra, estava sentado junto do rio,
por baixo d'umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel
d'abelhas mansas. De repente, a um esforo qualquer que Jim fez em cima,
um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge,
esmigalhando-lh'a horrivelmente! Desde esse dia no pde mais andar. E
muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, caa e
fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente
morreria.

E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias
que decidira mandar Jim para traz,  aringa de Sitanda, a buscar
soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim no voltaria...

--E sois vs agora, que appareceis de repente. Justamente tu, irmo! E
tu, meu bom John!... E o snr. Quartelmar, muito bem me lembro de o ter
encontrado em Bamanguavo!  extraordinario! E foi tudo a misericordia de
Deus!

N'essa noite tambem lhe contmos as nossas aventuras. Quando eu lhe
mostrei um punhado de diamantes, o homem empallideceu de espanto:

--Santo Deus! Ao menos o que soffrestes no foi em vo! Emquanto que
eu!...

Esta triste exclamao tornou-me pensativo. E desde logo decidi
partilhar com elle um lote d'aquellas pedras, que a elle tinham trazido
uma to longa desgraa.

       *       *       *       *       *

E aqui acaba esta historia. A nossa travessia do deserto foi
extremamente trabalhosa. No soffremos tanto da sde, porque, segundo o
novo roteiro indicado pelos caadores de abestruzes, encontrmos a
espaos pequenos e frescos oasis. Mas o pobre Jorge Curtis, que mal
podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo--e, por assim
dizer, tivemos de o transportar atravs do deserto. Emfim attingimos a
aringa de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixaramos as nossas
armas e bagagens, ficou indignado de nos vr voltar, vivos e sos, para
as reclamar. E seis mezes depois estavamos jantando confortavelmente
aqui, na minha casa em Durban,  sombra das laranjeiras.

       *       *       *       *       *

Quando eu acabava justamente de escrever esta ultima pagina das nossas
aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornaes na
mo.  o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do baro, que eu
transcrevo, porque d exactamente a concluso da minha historia:

                                          Solar de Braley--Yorkshire.

     Meu caro Quartelmar.

     S algumas breves linhas para lhe dizer que meu irmo Jorge, John e
     eu, chegmos a Inglaterra todos tres perfeitamente. Apenas deixmos
     o paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro
     trem. No imagina o Quartelmar que elegante nos appareceu logo na
     manh seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito,
     coitado, na pobre Fulata.

     E agora emquanto a negocios. Levmos os diamantes aos melhores
     joalheiros de Londres, aos Streeter. Quasi tenho vergonha de dizer
     em quanto elles os avaluaram.  uma somma descommunal. Est claro
     que elles no podem dizer com exactido, porque nunca appareceram
     no mercado pedras d'este tamanho em tal quantidade. Emquanto a
     compral-os elles, est fra de questo. Apesar de ser uma forte
     casa, no poderia nunca reunir semelhantes sommas. Aconselharam-me
     que os vendesse, em pequenos lotes, a differentes joalheiros, e
     devagar para no inundar o mercado. Um d'esses lotes, o que o
     Quartelmar to generosamente reservou para meu irmo, esto elles
     todavia resolvidos a comprar por cento e oitenta mil libras.

     O que o Quartelmar deve fazer, agora que est to rico,  vir para
     Inglaterra, e comprar uma propriedade ao p da minha. O melhor
     seria vir immediatamente para passar commigo este natal. Tenho c
     por essa occasio o nosso John. A respeito de seu filho Henrique
     posso dizer que est bom. Esteve aqui uns dias commigo a caar.
     Gosto d'elle. Pregou-me uma carga de chumbo n'uma perna, extrahiu
     elle proprio os chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver
     sempre em todas as partidas de caa um estudante de medicina.

     Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu


                                          _Henrique Curtis_.

       *       *       *       *       *

Hoje  sabbado. Ha um paquete para Inglaterra alm de manh. Creio, na
realidade, que vou partir n'elle... J tenho saudades do meu rapaz. E
depois quero vigiar eu proprio a publicao d'estas memorias.




INDICE


Introduco
Capitulo I--Encontro com os meus camaradas
Capitulo II--Primeira noticia das minas de Salomo
Capitulo III--O homem chamado Umbopa
Capitulo IV--Os elephantes
Capitulo V--A nossa entrada ao deserto
Capitulo VI--Penetramos no reino dos Kakuanas
Capitulo VII--O rei Tuala
Capitulo VIII--A grande dana
Capitulo IX--Antes da batalha
Capitulo X--O ataque da collina
Capitulo XI--A batalha de L
Capitulo XII--O rei Ignosi
Capitulo XIII--A grande caverna
Capitulo XIV--O thesouro de Salomo
Capitulo XV--Nas entranhas da terra
Capitulo XVI--A partida de L
Capitulo XVII--Emfim!




Notas:

[1] Elephante! Elephante!

[2] Este cruel costume  commum a muitas tribus de Africa, por occasio
de guerra.





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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