The Project Gutenberg EBook of Carlota Angela, by Camilo Castelo Branco

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Title: Carlota Angela

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: July 10, 2008 [EBook #26025]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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CARLOTA ANGELA


CARLOTA ANGELA

Romance Original

Por

CAMILLO CASTELLO BRANCO


Terceira Edio


PORTO

Em casa de A. R. da Cruz Coutinho--Editor

Rua dos Caldeireiros, 18 e 20

1874


Typographia do Jornal Do Porto

Rua Ferreira Borges, 31




CARLOTA ANGELA




I

     Se a natureza formou uma bella creatura, no pde a fortuna
     precipital-a n'um incendio?

                                Shakspeare. (_Como vs o amaes._)

     Cette douce ivresse de l'me devait tre trouble.

                                      Balzac. (_Albert Savarus._)


Norberto de Meirelles e sua mulher D. Rosalia Sampayo, ricos
proprietarios, moradores, em 1806, na rua das Taipas, da cidade do
Porto, viam crescer prodigiosamente os seus cabedaes, e, com elles, uma
filha unica, to encantadora para os paes como a riqueza com que a iam
enfeitando para seduzir o mais medrado capitalista da terra.

Tolerem-me a singeleza com que se comea a narrativa.

Eu tinha  minha disposio quatro exordios bonitos, que escrevi em
quatro tiras, e rejeitei com desdem.

Era assim o primeiro:

Diz-me tu, amor, que magos philtros insinuaste no corao da virgem de
olhos negros, que lda e melancolica, lagrimosa e risonha, te est
enamorando na lua, d'onde lhe sorris em noites calmas de estio, na
floresta, onde lhe cicias palavras nunca ouvidas, na fonte, onde lhe
murmuras a tua linguagem do co? Que ambrozia inebriante dste 
doudinha que, to requestada e alheada de brinquedos pueris, se vae, s
e destemida, a buscar-te, por entre myrtos e rosaes, perseguindo-te como
lasciva borboleta de flor em flor, sobre alfombras de verdura, por onde
volitam lucidos phalenos?

Segundo exordio:

 virao da tarde tremulava ligeiramente a folhagem do renque de
alamos que cintavam uma pintoresca vivenda do Candal. Um repuxo de
crystallina limpha trepidava na cascata com soidoso rumor, donosa
musica, ao som da qual se espertam amores em peito virgem, e adormecem
mgoas em corao atribulado. Morbidamente recostada sobre um banco de
cortia, por onde trepava um jasmineiro em flor, via-se, como engolfada
em alegrias intimas das que o rosto esconde ao invejar de estranhos, uma
graciosissima donzella... etc.

Terceiro:

Onde vae este gentil mancebo, to  pressa e offegante pela calada da
noite, subindo a collina do Candal, em cujo tpo alveja uma casa, onde
elle parece mandar adiante o corao em cada suspiro que o cansao lhe
tira do peito arquejante? Que viso alvissima, que fada ou sylpho  esse
que desliza, rapido e volatil, por entre os alamos, e vem ao peitoril do
muro, como a anciada Hero, restaurar o vigor do extenuado Leandro?...
etc.

Quarto, e ultimo exordio:

Vou contar-vos uma historia que verifiquei nas fieis narraes de mais
de vinte pessoas vivas. Ides ver at que ponto os paes podem infelicitar
os filhos; at que ponto a misso augusta do segundo creador pde ser
fementida e insidiosa; at que ponto o amor paternal  amor, e d'onde
comea a ser deshumanidade. Se alguma confiana devo ter na justia
congenial do corao humano, espero carear graa e indulgencia para uma
filha que se rebella primeiro contra um pae, depois contra o falso deus
que lhe impozeram como verdugo de mais alta e temerosa categoria,
arbitro e claviculario das sempiternas moradas do inferno... etc.

Ahi est o que eu tinha escripto. Tudo rejeitei, contra a opinio de um
congresso de homens de delicado gosto, que votaram por qualquer dos
quatro preludios, chasqueando-me a simpleza com que escrevi o quinto,
acanhado e pco como historieta sem nervo, nem imaginao.

E, portanto, desde j me desquito com os leitores se no decurso d'este
romance me apodarem de insulso e desimaginoso.

VERDADE, NATURALIDADE, E FIDELIDADE

 a minha divisa, e sel-o-ha emquanto este globo se no reconstruir 
feio do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam.

Quem desde j sentir azias de bca, deixe isto, e desenfastie-se com as
conservas irritantes da Frana, e at das nacionaes, que tambem as
temos, curtidas em vasilhas, francezas. Embora travem  hervilhaca,  o
que temos, e o que nos do os Watteis dos fricasss litterarios, em
menoscabo do classico cozinhado de Domingos Rodrigues.

Atemos o fio, e a graa de Deus nos assista, para que a benevolencia do
leitor se compraza com o alinho desaffectado e lhano d'este conto.

A filha unica de Norberto de Meirelles e D. Rosalia Sampayo chamava-se
Carlota Angela, e tinha dezesete annos, em 1806.

No era formosa; mas exquisitamente engraada sim.

Norberto, filho de lavradores transmontanos, era campezino, rustico, e
desageitado; Rosalia, com quanto procedente de progenie j cidad desde
seu av, havia muito ainda que desbastar, e quatro geraes no tinham
adelgaado nada a raa originaria de Covas de Barroso.

Ora, a vergontea de troncos ou cepos taes no podia sair de compleio
to fina e delicada, como se usa liberalmente com as heroinas dos
romances.

As feies de Carlota eram sccas e trigueiras; mas a magreza no era de
debilidade ou doena. O ligeiro toque de escarlate nas faces era a
transparencia de sangue rico de toda a seiva dos dezesete annos. Tinha
uma bonita fronte, e abundantes cabellos pretos, que ella enfeitava sem
esmro, mas com desalinhada graa, conservando-os, at essa idade, em
tres tranas, que um lao de setim encarnado prendia na cintura em duas
roscas.  custa de importantes admoestaes da me, Carlota reformou o
penteado, em conformidade com a moda, que era ennastrar trancinhas de
cabellos em dois grandes coraes que ladeavam a cabea, desde o vertice
at s orelhas, com matiz de lacinhos de varias cres: bonita cousa,
antes da restaurao das troixas contemporaneas, restaurao, digo,
porque as malas, no cucuruto da cabea, comeavam a decair do gosto em
1806.

O que fazia engraadissima Carlota eram as espessas sobrancelhas, que
formavam apenas um crescente das duas arcadas ciliares: to
imperceptivel era a cisura que as estremava na base do nariz. Bem sabem
que olhos costumam ser os que reinam sob to magnifico docel: grandes, e
negros, entre longas pestanas que, ao mais ligeiro languir das
palpebras, se ajustavam n'um amortecer de tanta volupia, que mais no
podia ser, sem feitiaria!

Ainda no sei descrever narizes, e por narizes comecei a pintar. O de
Carlota era irregular, talvez, ao contrario dos narizes de passaporte:
era um nariz adunco, longo de mais para aquelle rosto; mas esta
incongruencia, impressionando aos que a viam pela primeira vez, 
segunda, no havia que desdenhar-lhe. Singular e desusada era a bca.
Cada commissura ou canto dos labios terminava em dois vincos, um
subindo, outro descendo, mas to pronunciados, que pareciam um
permanente riso sardonico, um no sei qu que fazia desconfiar as
pessoas menos habituadas  sua convivencia.

Carlota era alta e gentil. No se affectava para ser garbosa, que lhe
sobejava graa e donaire nos naturaes meneios. O brao era incorrecto,
fornido de mais em carnes, e de pelle trigueira; a mo longa e magra; e
o p proporcional  corpulenta haste.

J agora, diga-se o porqu do cuidadoso recato em que a filha do snr.
Norberto de Meirelles tinha os braos; no era a grossura do pulso, nem
a pujana carnosa do ante-brao; era uma espessa camada de buo,
lanugem, ou cabello, que a frenetica menina cerceava desde os quatorze
annos,  tesoura, porque as amigas e parentas a aperreavam, chamando-lhe
pelluda.

Basta de materia: fica-se sabendo que no se trata de uma mulher
formosa; deram-se, porm, os traos principaes de Carlota, e so esses
os que, na maioria dos casos, fascinam, apaixonam e enlouquecem o homem
de trinta annos, gasto de queimar incenso s bellezas correctas, a cuja
desanimao de commum accordo se chama lindeza.

Vejamol-a espiritualmente.

Carlota Angela foi creada com descuidado mimo. Seus paes reviam-se
n'ella, desculpavam-lhe todas as perrices, e fariam-a incorregivel, se a
natureza se no corregisse a si propria.

Aos quinze annos, a folgaz menina mudou para triste; de garrula e
traquina que era, fez-se taciturna e indolente. Maneiras de senhora,
conversaes com pessoas de idade, onde estavam moas; entremetter-se em
cousas domesticas, a que a no chamavam; desligar-se das companheiras do
collegio, desdenhando a frivolidade de seus passatempos: tal foi a
reforma repentina de Carlota Angela.

Alegravam-se-os paes, felicitando-se por a no terem contrariado em
pequena, contra as admoestaes dos parentes, entre os quaes havia um
tio materno, de cuja calva ella mudava o chin para a cabea de um gato
maltez, ou em cujos oculos ella bafejava para lh'os embaciar. Esta
victima, no auge da sua angustia prognosticara aos paes de Carlota
grandes dissabores, consequencias funestas da liberdade que davam 
condio ferina da moa.

Depois da mudana inesperada, Norberto e Rosalia, todos os dias, diziam
ao homem dos oculos:

--V como se enganou? Ahi a tem agora mais ajuizada e mansa que as
meninas creadas debaixo da disciplina e da palmatoria...

--Veremos...--redarguiu o velho advogado--veremos quando ella tiver uma
vontade opposta  vossa qual das duas  a que vence.

--Vontade opposta  nossa!--replicava Norberto--Isso havia de ter que
ver! Como acha o mano que ella se possa oppor  nossa vontade?

--Facilmente; e para no ir mais longe, ides vs ter uma occasio de a
experimentar.

--Qual?--atalharam ambos.

--Eu vos digo; mas, se Carlota entrar emquanto eu fallo d'ella, fica
para manh o que hoje vos no disser.

--Carlota est no seu quarto a ler, e no vem c to cdo--disse
Rosalia.--Podes fallar  vontade, Joaquim.

--Quando me notastes a mudana rapida de Carlota, fiquei mais admirado
que vs. Entrei a scismar at que ponto se podia aceitar a naturalidade
da transfigurao moral, e vim a suspeitar que a causa estava na
natureza, mas fra da natureza de Carlota. Ora, eu sei mais do mundo que
vs, haveis de conceder-me isto, e vs tendes mais boa f que eu: fica
uma cousa pela outra, e acho que a vossa  bem mais agradavel  vida que
a minha.

Sabeis o que me lembrou? Se Carlota estaria namorada.

--Olha que lembrana!--atalhou D. Rosalia.

--Essa  das suas, doutor!--disse Norberto--Est a sonhar... deixe-se
d'isso.

--Seria sonho;--disse o doutor severamente--mas j gora deixem-me
contar o sonho at ao fim, e guardem para o remate as admiraes. N'esta
suspeita, comecei a limpar os oculos para examinar as caras masculinas
que entravam aqui, e no achei alguma duvidosa. As vossas relaes so
pouquissimas, e n'essas no ha alguem que possa despertar no corao de
Carlota um sentimento novo. Continuei as minhas averiguaes fra de
casa. Fui s poucas casas onde vs ieis; segui todos os olhares de
Carlota, e achei-os sempre indistinctos e indifferentes. Descoroei um
pouco; mas no desisti.

Um dia do anno passado, estavamos ns no Candal, e passeiava eu e ella
ssinhos na estrada. Dizia-me a pequena que tinha lido umas novellas de
cavallarias, de que gostara muito, posto que no acreditasse nas
historias. Contou-me algumas passagens de _Paulo e Virginia_ e de
_Menandro e Laurentina ou os amantes extremosos_, que vs no sabeis o
que , mas lembrados estareis de me perguntardes se eram livros de boa
moral. Notei que a moa, quando me fallava no amor das damas e
cavalleiros, empregava mais vivacidade do que convinha a uma menina
innocente de sentimentos amorosos. Fiz-lhe algumas perguntas com
inteno de a surprender; mas ella jogava commigo to habilmente, que
venceria a partida, se eu no tivesse cincoenta e cinco annos, e no
tirasse da habil escapula o mesmo que tiraria, se ella se deixase
apanhar.

N'outro dia estavamos ns sentados no mirante, conversando em cousas que
me no lembram, e vimos apparecer no alto da estrada um cavalleiro.
Olhei casualmente para Carlota, e vi-a crada, e inquieta. Disfarcei o
reparo, e vi-a erguer-se e voltar as costas para o cavalleiro, dando
alguns passos com certo ar de indifferena, e tornou logo, girando entre
os dedos uma flor que cortara.

O cavalleiro passou e cortejou-me: era meu conhecido. Esperei que ella
me perguntasse quem era; nem uma palavra. Perguntei se o conhecia,
ergueu os hombros, e fez com os beios um gesto, que parecia dizer: no
sei, nem me importa saber.

N'outro dia, fui eu ao Candal, e no alto das Regadas ouvi tropel de
cavallo, que me seguia, subindo a calada. Escondi-me na esquina de uma
travessa, e vi passar o cavalleiro: era o mesmo da cortezia. Fui-o
seguindo de longe; e, ao chegar  collina d'onde se avista o mirante,
vi, primeiro, Carlota debruada sobre o parapeito da varanda, e, depois,
o cavalleiro parado debaixo do mirante.

--Credo!--exclamou D. Rosalia, erguendo-se branca como cra.

--E esteve at agora calado com isso!--disse Norberto, erguendo-se
tambem.

--Nada de espantos!--respondeu o bacharel, sem se descompor na cadeira,
onde se refestellava, fallando com a sua costumada solemnidade
oratoria.--Logo se diz quem  o homem; mas ha de aqui fazer-se o que eu
aconselhar, seno desconfio muito que minha irm experimente mais cdo
do que espera a vontade de Carlota.

Escondi-me alguns segundos, e appareci no momento em que vossa filha
entregava um ramo ao cavalleiro.

Ella deu f de mim, e sumiu-se; e elle seguiu a estrada, depois que me
viu. Carlota recebeu-me com a certeza de que eu era sufficientemente
cego para a no ter visto: no deu o menor indicio de susto. Convidei-a,
como sempre, a passeiar no jardim, e disse-lhe: Quando houver alguma
novidade na tua vida, has de contar-m'a, menina. Se ella te parecer to
agradavel, que a queiras s para ti, no cuides que lhe diminues o
valor, dizendo-m'a. O corao de teu tio ha de sentir o bem do que for
bom para o teu. Ora, conversemos: diz-me l, Carlota, se sentes alguma
inclinao que no sentias ha um anno, quando os meus oculos e o meu
chin eram o teu regalo.

--Eu no, meu tio... sinto o que sentia--respondeu ella; mas a
innocencia protestou contra a mentira, mostrando-se no rosto: crou e
gaguejou de um modo que me fez pena e contentamento. Quando assim se
cra, o corao est puro.

Para acudir  vossa impaciencia, dir-vos-hei, em resumo, que obriguei
suavemente Carlota a confessar-me que amava Francisco Salter de
Mendona.

J sabeis quem .

--Eu no!--disse D. Rosalia. E voltando-se para o marido:--E tu?

--Conheo de vista,--respondeu Norberto-- um militar, creio eu...

--Francisco Salter de Mendona--continuou o doutor Joaquim Antonio de
Sampayo, sorvendo uma pitada pela venta direita, e comprimindo a outra
com o dedo indicador da mo esquerda-- um tenente da brigada real de
marinha,  natural de Lisboa, e est aqui ha dois annos a bordo do
brigue _Audaz_.  um moo que vive do seu soldo, e est por ahi
relacionado com os rapazes nobres da cidade.  o que posso informar
cerca de Mendona.

Agora vou responder  pergunta de Norberto. Admirou-se de eu estar
calado com isto? Calei-me, porque receiava muito que alguma imprudencia
vossa irritasse o amor de Carlota. Calei-me, esperando que Mendona
fosse chamado a Lisboa, e nos deixasse o campo livre para
despersuadirmos Carlota. Ainda assim, fiz teno de vos avisar, logo que
julgasse necessario empregar medidas promptas. Eu sei que o rapaz
tenciona vir pedir-vos Carlota, e sei tambem que em poder de um meu
collega est um requerimento d'ella para ser tirada por justia no caso
de que negueis o vosso consentimento.

--Santo nome de Deus! valha-me nossa Senhora!--exclamou, com as mos na
cabea, D. Rosalia, emquanto seu marido resfolegava arquejante,
passeiando acceleradamente na sala.

--No comecem a fazer doudices!--tornou o doutor--Se gritam, se pem
fogo de mais ao pucaro, entorna-se tudo. Aqui ha de fazer-se o que eu
disser; mas mudemos de conversa, que ahi vem Carlota.




II

     Os tigres so menos sanhudos contra o homem que o proprio homem.

                                   Phocion. (_Instruco a Aristias._)

     Les parents en effet ont cela de admirable, et je parle des
     meilleurs, que vous ne pourrez jamais, ni par plainte, ni par
     raison, leur faire comprendre qu'il vient un moment o l'oiseau
     essaie ses ailes et quitte son nid; qu'ils n'ont d'autre mission
     que de faire et d'elever leur petits jusqu' l'ge o ils quittent
     le nid.

                                 Alphonse Karr. (_Sous les Tilleuls._)


Quaes fossem os conselhos do ornamento dos auditorios portuenses,
teremos occasio de avalial-o opportunamente.

Oito dias depois de planisada a conspirao contra os amores reservados
de Carlota Angela, foi procurado Norberto de Meirelles pelo tenente de
marinha.

Francisco Salter de Mendona era um rapaz da boa sociedade de Lisboa, um
dos mais distinctos alumnos do collegio de marinha, reformado pelo
intelligente ministro Martinho de Mello e Castro. Tinha dotes corporaes
que o distinguiam, e virtudes que os seus amigos avaliavam como raras.

Amava com verdade Carlota Angela, posto que, no principio, o ser ella
filha unica de um abastado commerciante encarecesse mais o galanteio.
Sentiu, depois, que o seu amor se purgara da ignominia do calculo, at
preferir que fosse pobre Carlota, para que, pobre, se igualasse a elle.
Longo tempo a cortejara sem revelar-lhe as intenes honestas do namoro,
esperando que fosse ella a que o auctorisasse a pedil-a a seus paes.
Certeza tinha elle de que lh'a negavam, porque ento, como hoje, um
noivo era pesado na balana do negociante rico, e o contrapeso do
corao no fazia oscillar o fiel. Pedil-a sem predispor o auxilio da
lei invocado por Carlota, nunca Mendona quizera at ao momento em que
ella prometteu fugir de casa, se seu pae no consentisse.

Traado o plano, Mendona, como dissemos, procurou Norberto de
Meirelles, e foi urbanamente recebido. Disse o motivo da sua visita, e
no divisou na physionomia do ricasso o menor signal de espanto, nem
sequer surpreza. Acabou de fallar, e ouviu, com estranho jubilo, a
seguinte resposta:

--Se minha filha  contente com o marido que se lhe offerece, eu no me
opponho a que ella seja sua esposa. Ella que o ama,  que v. s. 
digno d'ella.

--Espero--atalhou Mendona--merecer a v. s. o conceito que mereci 
snr. D. Carlota.

Norberto no soube responder convenientemente a isto, porque dissera
parte do que o doutor lhe ensinara nas poucas palavras com que embriagou
o radioso genro, e, receioso de que lhe esquecesse o resto, continuou:

--Fique v. s. na certeza de que a vontade de minha filha  a minha;
tenho, porm, a pedir-lhe um favor que v. s. no recusar ao pae de
Carlota.

--Oh! senhor! que me pedir v. s., que eu no receba como ordens da
pessoa que przo desde j como pae?!

--Minha filha faz annos de hoje a um mez, e eu muito desejava que ella
festejasse na minha companhia os seus dezesete annos, ainda solteira.

--Pois no, snr. Meirelles! Exija v. s. de mim todos os sacrificios
que se podem humanamente fazer, que eu nunca pagarei o regosijo d'este
momento decisivo para a felicidade de toda a minha vida.

--E v. s.--proseguiu o fiel repetidor do bacharel, contentissimo de
no ter trocado uma s palavra, apesar das interrupes do
interlocutor--poder, se assim lhe aprouver, honrar com a sua presena
os annos de Carlota, que se festejam, ha dezeseis annos, na minha quinta
do Candal.

Esgotara-se o peculio. Norberto fez meno de erguer-se. Salter notou a
grosseria; mas desculpou-a ao pae de Carlota. Retirou-se acompanhado at
ao pateo, honra que tres vezes recusara, mas,  quarta, o negociante
disse que ia para o escriptorio _tratar da labutao dos arrozes que
estavam  descarga_. Isto  que era legitimamente d'elle.

Carlota, emquanto a visita esteve, no obstante o grande espao que a
distanciava da sala, apurava o ouvido na extrema de um corredor por onde
poderia embuzinar a voz do pae, se elle a engrossasse, como costumava,
nos agastamentos.

Ouvindo rumor de passos na sada, correu ao seu quarto, e sentiu-se
desanimada para receber a visita colerica do pae. At ento dera-lhe o
amor afouteza para responder s iras paternaes; e a risonha esperana de
permanecer poucas horas em casa, depois da expulso de Mendona,
afigurava-se-lhe agora uma teno criminosa. Era o mdo que a
transtornava assim; logo, porm, que o sobresalto se desvanecesse, viria
a reaco do amor restituir-lhe o vigor de um proposito, cuja firmeza as
ameaas do pae no abalariam.

Pouco depois, Carlota foi chamada ao quarto da me, e achou-a
prazenteira e jovial. O pae entrou aps ella, e fingiu o mais lhano e
caricioso semblante. Carlota estava espantada, e no podia crer o que
via.

--Diz-me c, menina,--disse Norberto--j sabes... ora se sabes!...

--O que, pap?

--Faz-te tolinha, minha serigaita! Arranjaste um marido, sem dizer agua
vae, assim do p p'ra mo como quem se casa por sua conta e risco...

Carlota baixou os olhos com humildade. Norberto perdeu um pouco do seu
caracter artificial, e proseguiu:

--Ora, sempre tenho uma filha como se quer! Posso-me gabar!... Nem eu
nem tua me valemos nada, Carlota! V-se um troca-tintas, e no ha mais
que dizer-lhe: Se quer casar commigo, estou aqui s suas ordens; v
pedir-me a meu pae, e diga-lhe que me d o dote que elle me ganhou a
trabalhar trinta annos. Isso  bonito, Carlota?

D. Rosalia pizara rijamente o p do marido, e conseguira recordar-lhe a
traa combinada com o doutor. Carlota comeava a sentir a reaco, ia
erguendo a cabea abatida para repellir a grosseira invectiva do pae,
quando este, com velhaca subtileza, mudou para brando aspecto a severa
carranca, e proseguiu:

--Emfim, quem casa s tu; o mal e o bem para ti o fazes. Se queres casar
com esse rapaz, casa. Eu disse-lhe o que um bom pae deve dizer.
Consenti, com tanto que a vontade de minha filha seja essa. Que dizes a
isto, Carlota? Ests decidida a casar com o tal snr. Mendona?

--Visto que meu pae no se oppe  minha vontade...

--E, se eu no quizesse, casavas do mesmo modo?... Diz l!

--Se o pae no quizesse, eu havia de pedir-lhe tanto que me deixasse ser
feliz, que o meu bom pae... consentiria...

--L isso  verdade...--replicou o negociante, obedecendo  terceira
pizadella da irm do bacharel--eu o que quero  a tua felicidade... Bem
sabes que sou teu amigo como ninguem, ainda que te parea que l o teu
namorado te quer mais que eu...  boa asneira a das raparigas, que
trocam pae e me pelo primeiro perna-fina que lhe empisca o olho ao
dote!... (_Quarta pizadella de Rosalia, e mutao de cara e diapaso de
voz em Norberto._) Est dito! Casars com o homem; mas j agora ho-se
de festejar os teus dezesete annos em casa. Eu j lhe disse a elle que
esperasse um mez, e depois arranja-se isso, e est acabado o negocio. O
rapaz, pelos modos,  pobre; mas o teu dote, se Deus quizer, chegar
para tudo. Ests contente, Carlota?

--Oh meu querido pae!--exclamou ella, beijando-lhe afervoradamente a
mo--eu sabia que era muito meu amigo; mas no esperava tanto da sua boa
alma. Fui m filha em ter guardado este segredo; perdem-me, por quem
so;  que eu tremia s da ideia de os desgostar, no podendo suffocar o
amor que lhe tenho... a elle...

--No chores, Carlota, que no tens por que chorar...--disse D. Rosalia.

--Eu choro de contentamento, minha me, por ver que a minha ventura 
possivel sem desgostar meus paes... Sou a mulher mais feliz da terra.
Queria que toda a gente soubesse agora os bons paes que o Senhor me deu.
Tomara eu ver o tio Joaquim para o despersuadir de um mau juizo que elle
fazia do meu querido pae, quando, faz agora um anno, me disse que eu no
alcanaria o seu consentimento para casar com Francisco de Mendona; e
tambem queria abraal-o, porque respeitou a minha paixo, e nunca mais
me contradisse.

A alegria dava a Carlota uma ousadia enthusiastica, que espantava
Norberto, e tinha semi-aberta a bca de Rosalia.

--Se a minha me conhecesse a nobre alma d'elle!--proseguiu ella--havia
de amal-o tambem.

--Eu?... ora essa! tu s maluca!--atalhou Rosalia, comprehendendo 
lettra a palavra _amal-o_.

--_Maluca!_ porque, minha me?

--Pois tu disseste ahi que eu havia de amar o tal homem!

--Pois se elle tem um corao to bem formado! Esteve mais de um anno
sem me dizer que queria ser meu esposo, para que eu no pensasse que
elle namorava a minha riqueza. Foi preciso dizer-lhe eu que a minha
maior ambio n'este mundo era fazel-o senhor do meu corao para toda a
vida. Quando eu disse isto, at chorava de alegria elle!...

--Est bom, est bom, estamos decididos--disse Norberto, receiando que
os diques da ira se esboroassem.--Logo que o tio doutor venha de Lisboa
trata-se d'isto. manh vamos para o Candal. L  escusado andar com
fallatorios do mirante para a estrada. C no se usa as noivas andarem a
namoriscar  surdina. J se sabe que elle ha de ser teu marido; o tio
doutor quando vier, ha de convidal-o para nossa casa, e ento
conversaro  sua vontade.

Norberto sau com as faces incendiadas, como se a raiva abafada
respirasse por ellas. D. Rosalia, porm, menos firme no fingimento,
apenas o marido saiu, comeou a pingar dos olhos umas lagrimas baas e
granulosas como camarinhas.

Carlota acudiu a enxugar-lh'as com meiguice, consolando-a com a
esperana de viverem sempre juntos, como at ento. Rosalia, se a boa f
nos no engana, chorava com pena da filha, por ver que todo aquelle
contentamento se havia de mudar em amargura, se no falhasse o
estratagema do doutor.

Deixal-a chorar, que o seio de Carlota parece alargar-se ao pulsar
vehemente do corao. Essa immensa alegria, que lhe deram, leal ou
traioeira, ha de produzir a bemaventurana ou o inferno d'aquella
familia.

Carlota tem a alma briosa e amante de mais para transigir com a
perfidia.

A obediencia filial, mascara de corrupo com que algumas donzellas se
disfaram para abjurarem sem pejo ligaes _inconvenientes_,  uma
virtude dos nossos dias, importada... da America. Em 1806 no havia
d'isso c.




III

    Tu me matas, meu pae! Quem tal pensara?
    Eu beijo a mo que o golpe me prepara.

                         Marqueza de Alorna.


A traa do bacharel Joaquim Antonio de Sampayo era afastar Mendona de
Portugal, repentinamente.

Aconselhara elle a mentira, para evitar o escandalo de um rapto, ou a
saida judiciaria de Carlota.

Ausentar Mendona para alguma das colonias, ou para os estados
barbarescos, sob pretexto de guerra  pirataria, que infestava ento o
Mediterraneo; e prolongar essa ausencia at dissuadir Carlota,
cortando-lhe os meios de se escreverem, era a trapaa do habil
jurisconsulto. Norberto, pasmado de tamanho ardil, fez to estremado
conceito do doutor que, no expandir-se da sua admirao, exclamou:

-- cunhado! voss  homem de todos os diabos! Quem sabe, sabe!

--Mas, Norberto,--disse o doutor--sabe que sem dinheiro nada se faz?

--Saque o que quizer, cunhado!

--Eu tenho talvez de comprar muito caro o pretexto para a sada de
Mendona. No sei se me verei a braos com os protectores e parentes
d'elle na crte, e as nossas armas so o dinheiro.

--Pois  dizer o que quer. O doutor leva ordem franca; no poupe
dinheiro, e ponha-me o homem fra da nao.

Assim armado com o invencivel dinheiro, o tio de Carlota Angela chegou a
Lisboa, em fins de 1806, levando cartas de apresentao para o ministro
da marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, para D. Catharina Balsemo, e
para o intendente geral da policia, Diogo Ignacio de Pina Manique.

A materia que ento mais se discutia era a demencia do principe regente,
causada por soffrimentos dos que tornam ridiculo um marido, ainda que o
motivo seja mais para compaixo que riso. Fallava-se na morte violenta
de Jos Anastacio, em Mafra, empeonhado por ter sido o espia e delator
da conspirao urdida contra o principe, em Arroios, n'uma casa da
condessa de Alorna, que emigrara para Inglaterra, descoberta a
conjurao. Os rumores surdos contra os pedreiros-livres indicavam os
individuos suspeitos, mrmente depois que o escriptor publico Hippolyto
da Costa fugira dos carceres da inquisio, que lhe foram abertos pelo
brao poderoso da maonaria. Hippolyto, auctor, depois, do _Correio
Braziliense_, devia a liberdade  embriaguez dos guardas e  astucia
d'elle; convinha, porm, ao governo simular-se assustado do poder da
maonaria para encruar contra os suspeitos a sanha da plebe. , porm,
certo que a maonaria, em Portugal, entrara em 1797, com os emigrados
francezes, e podera a muito custo implantar-se n'uma pequena sociedade
ou loja denominada _Fortaleza_, quasi desconhecida e despercebida at
1806. S depois que o ministro do reino entregou  inquisio um
pedreiro-livre, e o impio fugiu do carcere do Rocio, levando nos canos
das botas os Regimentos da Inquisio reformados pelo marquez de
Pombal, dos quaes publicou, em ar de zombaria, curiosos extractos no
jornal que, depois, redigiu em Londres--s depois desses nescios mdos e
estupidas perseguies do governo, sempre providenciaes para acordar os
povos do lethargo,  que a sociedade maonica em Portugal se radicou,
floresceu, e deu fructos bons e maus. (Os de hoje apodrecem todos antes
de madurar.)

A questo dos pedreiros-livres revirou os projectos do bacharel
portuense. Nova ideia lhe acudiu, quando principiava a mortifical-o o
receio de no poder supplantar um frade benedictino bem aparentado, que
se dizia ser pae de Francisco Salter de Mendona. Essa ideia era
denunciar o tenente de marinha como encarregado de fundar no Porto uma
loja maonica, para o que tratava de intimidade com Jeronymo Jos
Rodrigues, arcediago de Barroso, o primeiro liberal que teve a cidade
eterna, antes de pregoar-se a liberdade em Portugal.

Francisco Salter de Mendona conhecia o arcediago, era sua visita,
sympathisava com as suas doutrinas politicas, e deixara-se eivar do
espirito de vaga novidade que os principios de liberalismo balbuciavam
ainda ento confusamente. No era, todavia, pedreiro-livre, porque
venerava o frade que o adiantara na carreira das armas, e queria cumprir
o juramento que fizera, nas mos do monge, de jmais se associar  seita
dos inimigos de Deus, com quanto conhecesse a inepcia dos pharisaicos
amigos do altar.

O tio de Carlota apresentou-se a D. Catharina de Balsemo, ouviu-lhe
dois sonetos, applaudiu-lh'os at chorar de terno enthusiasmo, e disse,
depois, o fim a que ia. Pintou com negras cres o roer profundo do
cancro da maonaria no seio da sociedade; lastimou a inevitavel quda
dos fros e prerogativas da classe nobre, se a mdia se incorporasse
para desarreigar a arvore de seculos; disse que a maonaria fizera
Silla, e Robespierre, e Bonaparte; ajuntou outras muitas tolices em
linguagem garrafal, at incendiar a combustivel D. Catharina, que logo
alli lhe deu carta de mui especial recommendao para Manique.

O intendente ouviu com atteno e mdo o bacharel. Soube que Francisco
Salter de Mendona, mancommunado com o arcediago de Barroso e outros,
tratava de fundar uma loja maonica no Porto, convencendo os timidos
com a sua eloquencia revolucionaria, e promettendo aos illusos a
restaurao dos direitos dos povos, victimados que fossem os reis e os
grandes. Acrescentava o bacharel que Salter de Mendona traduzia e
espalhava os escriptos mais incendiarios dos revolucionarios francezes
em 1791, e propalava que Portugal no podia ser feliz sem mandar um rei
de companhia a Luiz XVI.

Manique estava tranzido! O orador, electrisado com o pasmo do ouvinte,
entrara na sua hora feliz. As imagens mais ensanguentadas, as metaphoras
mais patibulares, os tropos mais coriscantes acudiam-lhe com trovejante
iracundia. Digna de melhor destino, a furia oratoria do lettrado do
Porto conseguira mais que o desejado. Manique susteve-lhe a torrente,
promettendo providencias promptas, e acabou por lhe pedir que ficasse na
intendencia exercendo o logar do ajudante, assassinado em Mafra, Jos
Anastacio.

Aqui  que o bacharel se achou superior a si mesmo, e deu um mental
adeus ao safado tosto dos conselhos, que raros clientes lhe levavam, no
Porto, ao seu obscuro escriptorio da rua de Santa Catharina.

Confiado na sua estrella, o nomeado ajudante do intendente geral da
policia perguntou ao chefe o que tencionava s. exc. fazer a Francisco
Salter. Manique respondeu que o faria conduzir preso a Lisboa, e do
Limoeiro passaria para a inquisio.

--Se v. exc. me permitte uma reflexo...--disse o bacharel.

--Diga l, que eu respeito muito o seu parecer.

--Com o devido respeito e humildade que se deve aos atilados juizos de
v. exc., peo licena para observar que convem obrar com mansido e
parcimonia, para impedir que uma seita perseguida faa proselytos. Eu
vou, com o maior respeito, lembrar a v. exc. trinta e tantos casos da
historia, dos quaes se v quo imprudente e perigoso  empregar o
cauterio  borbulha que muitas vezes resolve sem medicamento, e quasi
sempre lavra quando a fazem sangrar. Comearei primeiro pela seita
lutherana, a qual seita lutherana...

--Tem a bondade de no exemplificar...--atalhou o intendente, que
detestava cordialmente as novidades tanto em politica como em
historia--Que entende o senhor que se deve fazer? Desprezar? Deixar
rebentar o volco? Ento de que me servem as tristes novas que me
trouxe?!

--Desprezar, no, exc.mo snr.! Que faz o habil agricultor ao galho
scco da sua arvore? Corta-o, separa-o das vergonteas vivazes, mas no o
lana  estrada, para que o passageiro o leve como cousa sem dono, nem o
desfaz com o machado como objecto sem utilidade. Leva-o para casa,
lana-o na lareira, e aquece-se a elle. Faamos a applicao: Francisco
Salter  o membro contaminado e damninho: cumpre decepal-o, para que no
empeonhe os outros; cumpre aproveital-o, a fim de que os inimigos da
ordem se no aproveitem d'elle; cumpre empregal-o em servio da patria;
mas seja onde as suas tendencias revolucionarias no catechisem
incautos. Mendona  tenente; promova-se a capito, e (permitta-me v.
exc. o arrojo de dar o meu parecer com a franqueza propria de um
portuguez, homem de bem) seja sem perda de tempo enviado como
commandante do primeiro vaso que sair para o Brazil, dispondo de modo a
sua expedio, que elle s volte  metrpole passados annos. Esta  a
minha humilde opinio.

O bacharel concluiu, dobrando o pescoo at bater com a barba no peito.
Manique redarguiu debilmente em opposio aos principios fabianos do
bacharel. Sampayo replicou, pedindo sempre mil perdes da audacia, e
alfim superou o chefe, fortalecendo-se com a difficuldade de provar a
denuncia, visto que as testimunhas presenciaes das arengas
revolucionarias de Mendona no jurariam contra elle.

N'esse dia expediu-se ordem para recolher a Lisboa o tenente da corveta
_Audaz_, Francisco Salter de Mendona, no praso de oito dias.
Aprestou-se um brigue, que devia, dois dias depois da chegada do
official, fazer-se  vela para o Rio de Janeiro, capitaneado por Salter,
promovido a capito.

O ajudante do intendente geral da policia, escrevendo a seu cunhado
Norberto de Meirelles, dizia:

_Tenho luctado com enormes difficuldades. Saquei seis mil cruzados, e
venci as primeiras; as outras ho de vencer-se... etc._

D'onde se infere que o agente de Norberto de Meirelles estimara em seis
mil cruzados as duas arripiadas arengas  celebre poetiza e ao
intendente geral da policia.




IV

            _Salada_

        Ai! no me dejes nunca!

            _Aden_

                Yo dejarte?
    Y para qu, y porque?! tu mi querida!
    Ni como, aunc quisiera abandonarte
    Juntos tu y yo lanzados en la vida?

           Espronceda. (_El diablo mundo._)


Fazia tristeza e saudade a formosa lua de uma noite de agosto n'aquelles
olorosos jardins do Candal.

Era meia noite, e a virao do mar bafejava mansamente as copas dos
arvoredos, que circuitavam a sombria casa de Norberto de Meirelles, o
qual, a essa hora, resonava mais alto que todos os sres vivos da
natureza em roda.

De mansinho rodou a porta que abria para o jardim. Um vulto deslizou por
entre os myrtos e japoneiras, at ganhar o mirante erguido n'um angulo
do jardim.

--Esperaste muito?--disse ella a Francisco Salter, que lhe saira de sob
a ramagem sombria dos chores debruados no muro--Tem paciencia, meu
amigo. Minha me deitou-se ha meia hora; no sei que ar de inquieta
alegria ella tinha hoje, que lhe no chegava o somno...

--Seria to viva a alegria d'ella, como  viva a amargura que me no
deixara dormir a mim?

--Amargura! Que tens, Francisco?

--No te fallou por mim o meu bilhete d'esta tarde?

--O teu bilhete?... no... Dizias-me que era indispensavel fallares-me
hoje... No traduzi amargura n'isto... Cuidei que era uma saudade feliz
e serena como a minha...

--Oh! no, minha querida,  uma saudade que me despedaa...  a saudade
que...

--Como?! que linguagem  essa, Francisco! No me tens agora aqui?! no
sou eu tua para sempre?!

--Sei que sers, Carlota, sei... mas eu preciso que chores commigo para
me ser menos amarga a minha dor...  foroso que nos separemos por
alguns dias... mezes... annos...

--Jesus! que nos separemos?! Onde vaes tu?

--Sou chamado immediatamente a Lisboa.

--A Lisboa!... para que s tu chamado a Lisboa, Francisco?

--No sei...  uma ordem terminante do ministro.

--Oh meu Deus!... que lembrana terrivel!--exclamou com vehemencia
Carlota-- impossivel!  impossivel!

--Impossivel o que?

--Nem te quero dizer a horrivel ideia que tive agora...

--Diz, Carlota... vejamos se se encontram duas ideias horriveis.

--Pois tambem suspeitas?... que te lembra, meu amigo?... diz, diz, se
tambem julgas possivel...

--Tambem suspeito que a ida de teu tio a Lisboa...

--Sim, sim,  isso que me lembrou; mas no creias, porque meu tio  um
bom homem. Ha muito que elle dizia que iria a Lisboa requerer um
emprego.  ao que foi; mas...  verdade que...

--No receies atormentar-me, Carlota; diz tudo que te faz desconfiar...

-- que hoje recebeu-se carta de meu tio, conheci a lettra do
sobrescripto, quiz abril-a innocentemente, e meu pae tirou-me a carta da
mo com grande sobresalto, dizendo que no era boa creao ler as cartas
de outro. Eu disse-lhe que era uma curiosidade filha do desejo de saber
como meu tio passava; e o pae voltou-me as costas, e eu bem vi que elle
estava muito inquieto... mas...

--Duvidas ainda, Carlota, que teu tio foi agenciar a minha saida do
Porto! Duvidas que no foi traioeiro o consentimento de teu pae, sem ao
menos me perguntar que familia ou haveres so os meus?

--Isso  horrivel, meu amigo! no me convenas d'essa traio, que me
matas! Elles no podem separar-nos, no! O que a morte pde fazer no o
faro elles. Juro-t'o pela minha alma e por tudo quanto ha sagrado...

--No jures, Carlota; eu sei o que s para mim; vale mais essa tua
afflico, que todos os juramentos. Por quem s, no chores assim, meu
querido anjo. Aqui o terrivel mal que nos ameaa  a saudade, a
incerteza no. Se a nossa ventura vier mais tarde do que esperavamos,
resignemo-nos, venamos a desgraa com a esperana. Teu pae porque ser
contra mim? porque eu sou pobre? pois bem, Carlota, irs pobre para a
companhia de teu marido. O meu po chega para ti, e bastar para mim a
felicidade de t'o alcanar  custa de honrado trabalho. No aceitaremos
uma moeda de cobre dos cofres de teu pae... Bem basta que esse dinheiro
tenha sido o nosso algoz para o no querermos comnosco. Pobre  que eu
te quero, e, se teu pae me no diz to depressa que eras minha, ouviria
da minha bca uma renuncia formal do teu grande dote... Coragem, minha
amiga. Eu vou a Lisboa, conheo logo a causa da minha chamada, desfao
as intrigas, se ellas l me esperam, empenho em nosso favor amigos e
parentes, que tenho alguns valiosos ao p dos ministros. Voltarei para
convencer teu pae de que eu reputei verdadeira a sua palavra, e me
envergonhei por elle, suppondo necessario chamar a lei em nossa ajuda.
Entrarei em tua casa, e dir-te-hei: Vem ser minha esposa! E tu sairs,
pois no, minha Carlota?

--Sim, sim, sairei; e por que no ha de ser j?!

--J?!

--Sim, leva-me comtigo; no me deixes entregue a esta gente que me quer
matar. Como a odial-os, e no poderei mais vel-os sem rancor. Leva-me,
Francisco... Aceita-me assim pobre, e vers que te levo a maior riqueza
d'este mundo, um corao onde eu tenho o segredo de fazer a nossa
felicidade na pobreza. No me respondes?

--Queria responder-te de joelhos, Carlota! Tu s um anjo, s um bem que
eu no mereo a Deus, e receio desagradar-lhe se fao soffrer teus paes,
que, de certo, te devem amar muito, e cuidam que te fazem bem,
separando-te de mim. Eu se fosse pae, e pae de uma filha assim,
dal-a-hia ao primeiro que m'a viesse pedir, sem me mostrar virtudes
dignas d'ella? No diria a esse homem perfidamente que sim, para depois
praticar a villania de o afastar, matando-lhe o corao a punhaladas
traioeiras... no mostraria ao amante de minha filha o co, para depois
o despenhar no inferno; mas... custar-me-hia muito a dizer-lhe: Ahi te
dou o thesouro que tive no corao dezesete annos, que guardei para me
dar alegria nas amarguras da velhice... leva-o, e deixa-me s com a
minha saudade irremediavel!... No, Carlota,  cdo ainda para dares a
teus paes esse desgosto. O teu amor ensina-me a ser nobre. Ha um amor
que faz tyrannos e crueis; mas esse amor no  o meu. Sou generoso para
todo o mundo, e para os teus mais que para outrem. Ninguem dir que
calculei com os cem mil cruzados de teu pae, quando eu tiver uma casa
que te offerea,  hora do dia, na presena de quantos quizerem ver como
um homem pobre serve um pobre jantar a sua mulher. Fica, minha querida
Carlota, fica em tua casa. Ns exageramos o infortunio.  proprio do
muito amor que nos temos; mas saibamos empregar as armas da razo para
vencer uma desgraa imaginria. Vou a Lisboa, ouo o que me querem,
volto com licena aqui, apresento-me a teu pae no dia dos teus annos, e
no seguinte venho pedir-lhe o cumprimento da sua palavra.  palavra
_no_, encontro-te ao meu lado... e depois, venham todas as potencias do
inferno contra ns.

--Francisco!--murmurou Carlota, despeitada--tu no me amas... porque no
receias perder-me.

--Perdo-te a injustia, Carlota... Diz o que te no vem do corao,
diz, minha amiga, que eu at das injurias, se de ti me vierem, tirarei
provas de que me amas muito, e crs que te amo. Ha dois annos a amar-te
assim! Ha dois annos a respeitar-te como irm, acarinhando-te como
esposa! Ha dois annos a viver de uma esperana, que s s tuas palavras
se afoutou a dizer que existia! O homem que assim pensou no podia hoje
aceitar a tua fuga, sem tu me dizeres que  preciso roubar-te para te
merecer. Oh! isso nunca tu m'o dirs, anjo do co, porque ento pouco
apreo daria eu  alma que no tem a intrepidez de dizer sou livre.

Carlota soluava com a face apoiada na pilastra da varanda, e os olhos
fitos no co. O aperto de corao que a suffocava era mais que o
exprimivel e imaginavel. Essas angustias soffrem-se; mas no deixam
reminiscencias aos que as devoraram. So como as agonias do naufragado,
que no preenchera ainda a conta dos seus dias, e quiz em vo contar aos
que o salvaram a suprema afflico do afogamento. Para as torturas de um
adeus, entre duas almas animadas por um s espiraculo de vida, sei eu
que ha na lingua humana uma palavra, uma s: INFERNO. Isso  peior que o
morrer, porque na morte ha o esquecer graduado por cada estalar de fio
que nos atava aos poucos bens d'este mundo: ha o extremo dom do arbitro
das vidas--a resignao sem lucta, o luzir da estrella esperanosa que
se ergue detraz do tumulo, o recordar-se dos anceios para Deus, quando
as brilhantes illuses da terra se convertiam n'um como tenue vapor de
incenso que nos prendia aos olhos lagrimosos at o vermos entrar no co.

Mas o adeus de Carlota Angela a Francisco de Mendona!... Essas
derradeiras palavras, que j no eram mais que um longo gemido,
convulso, suffocado, a cada impeto dos dois coraes que rasgavam os
peitos para se juntarem!........................................

Linda expirava a noite. Raiava a aurora, empallidecendo as estrellas.
Uma aureola de frouxa luz cintava os horizontes. Na extrema orla do mar
enrubesciam-se as aguas, e calava-se o rumorejar da vaga, como para
ouvir o hymno matinal dos madrugadores alados.

Era um formoso amanhecer aquelle! To donoso, to alegre, to radiante
tudo, s tu, Carlota, com os olhos na collina onde viste o derradeiro
adeus do amante, e a mo no seio como a suster a vida que te foge,
perguntas  tua razo se tamanha angustia no  um sonho! Acorda,
martyr, que o teu dia de desgraa amanheceu, e ser longo!




V

    Sai se o vulto de meu corpo
        Mas ei non.
    C s ocos vos fica morto
        O coraon.

            Egas Moniz Coelho. (?)

     ... Si notre affection est traverse; si elle rencontre des
     obstacles, elle ragit, et cette raction, imptueuse, convulsive,
     comme celle de tout ressort agite et comprime, nous porte  des
     mouvemens desordonns, par consquent accompagns de souffrance.
     Notre affection, alors, devient _passion_. Et comme les obstacles
     qui l'irritent ne peuvent jamais tre placs que par les intrts
     d'autres personnes, elle nous anime d'une violente _haine_ contre
     ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre
     douceur en brusquerie, notre gnrosit en sentimens odieux.

                               Azais. (_Prcis du systme universel._)


Francisco Salter foi, n'aquelle mesmo dia, ao Candal offerecer a
Norberto de Meirelles os seus servios em Lisboa, onde era chamado
pressurosamente.

O negociante no tinha pratica ou habilidade bastante para simular no
rosto a surpreza ou o descontentamento da inesperada ausencia do genro
apalavrado. Manifestou, em toda a expressiva estupidez com que a
providencia dos grosseiros velhacos lhe dotara a physionomia, a alegria
damnada que lhe no cabia no bojo do peito. Mendona evidenciou as suas
suspeitas, e arrependeu-se de no ter convertido em peonha toda aquella
alegria, aceitando a fuga de Carlota, horas antes.

--Desejava despedir-me das senhoras--disse Mendona.

--Minha mulher--tartamudeou o negociante--foi  missa, e mais a menina,
a uma capellinha  Bandeira, seno com todo o gosto...

Mendona, quando entrara o porto da quinta, vira Carlota atravs de uma
vidraa. Carlota, p ante p, viera, a occultas da me, avisinhar-se da
sala, com o sentido de, caso o pae a no chamasse, entrar na sala onde
Mendona estava, como de passagem para outra, e fingir-se surprendida do
encontro.

Foi o que ella fez ao tempo em que o negociante acabava de improvisar
uma missa na capella da Bandeira.

--Ai!--exclamou ella--estavam aqui!...

--Acabava eu de pedir licena ao snr. Meirelles--disse Mendona,
sorrindo ironicamente--para offerecer a v. s. e a sua me o meu
prestimo em Lisboa, para onde parto hoje s quatro horas da tarde.

O arrozeiro, em p, com os braos estendidos ao longo dos flancos
abdominaes, abria e fechava as mos, como um idiota: no sabia fazer
outra gesticulao mais parva, quando a sua inepcia fosse tal que se lhe
fechassem todas as evasivas de uma posio falsa.

--O snr. Norberto--proseguiu Francisco Salter, cedendo ao prazer de
affrontar a mentira do villo diante da propria filha--disse-me que v.
s. e sua me estavam na Bandeira ouvindo missa, e eu... retirava-me...

Carlota encarou o velho, e viu um tregeitar de olhos, que a obrigou a
baixar os d'ella, por vergonha de si e de seu pae. Salter teve d de
ambos, e mudou de conversao.

--No sei que motivos imprevistos me chamam a Lisboa; talvez as ameaas
de uma nova invaso hespanhola, ou bem pde ser que se tema um
definitivo assalto da Frana...

--Pois viro c esses herejes de Napoleo?!--exclamou o negociante, j
transfigurado pelo susto dos francezes, mal incomparavelmente maior,
que destruiu o vexame em que o deixou a appario da filha.

--Pde ser que venham, snr. Norberto, responder ao desafio que lhes
mandamos pelos nossos soldados do Roussillon, quando a Frana liquidava
as suas contas com a Hespanha.

Norberto no o entendeu; mas redarguiu:

--Se elles c vem,  contar que no deixam nada; diz que mettem a saque
tudo quanto topam, pois no mettem?

-- possivel; mas v. s. previna-se, escondendo o seu precioso aqui no
Candal, por exemplo, onde de certo os francezes no viro. Ahi est o
inconveniente de ser rico. J o snr. Norberto est a soffrer com o mdo
de que o obriguem a uma contribuio...

--Se lhe parece.... o caso no  para menos: quem no tem nada, tanto se
lhe d como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou
muito, quer paz e socego.

--No se aterre antes de tempo, snr. Norberto,--replicou Mendona,
sorrindo a Carlota--quando os francezes invadissem Portugal, eu ajudaria
a v. s. a defender o que  seu, no s como esposo de sua filha, mas
tambem como seu amigo.

--Isso l...--regougou o mercieiro--muito obrigado, no me despeo do
favor: mas o senhor  militar, e quando isso for no lhe ha de faltar
por l que fazer, na guerra do mar.

--Assim aconteceria--tornou Mendona, enterrando lentamente o estillete
observador--se eu no tencionasse pedir a minha baixa do servio, para
evitar que as revolues perturbem a felicidade de minha mulher e a
minha.

--Ento que modo de vida queria o senhor ter, se casasse com a minha
Carlota?

--Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por
exemplo.

--E que  dos fundos?

--Fundos?

--Sim, o casco do negocio?

--O casco!... a que chama v. s. casco?

--Casco  o cabedal para comear.

--Meu sogro dar-me-hia...

--Dinheiro?! meu amiguinho, est quasi todo empregado em torres; e eu,
emquanto vivo, no dou nada.

--Mais uma razo--replicou Mendona, condoido do vexame de Carlota, e
seguro, mais que seguro, do villo caracter do arrozeiro--mais uma razo
para v. s. no receiar a invaso dos francezes... Agora tem
logar--proseguiu elle, mudando de ironico para circumspecto e grave--uma
observao que me esqueceu ha dias, quando tive a ventura de pedir-lhe a
snr. D. Carlota. Eu, snr. Norberto, pedi sua filha, simplesmente sua
filha; no pedi dinheiro, nem pedirei jmais. Eu conto com recursos
proprios para que ella no sinta falta de commodidades que deixou em
casa de seus paes. O meu patrimonio  a patente que tenho e as bem
fundadas esperanas de me augmentar n'esta carreira. No me julgue v.
s. atido ao dote de sua filha, nem cuide que me affligi com a ameaa
de nada lhe dar emquanto vivo. Pde o snr. Norberto gastar, ou augmentar
o que tem, que sua filha no esperar a morte do pae para poder comprar
mais um vestido. Faa, portanto, justia s minhas intenes, e
conceda-me que eu d liberdade a algumas ideias que me esto inquietando
e magoando.

V. s. no procedeu lealmente commigo, quando me deu, sem reparo, sua
filha. Rogo  snr. D. Carlota me consinta este desabafo, porque a
clareza, n'este momento,  necessaria a todos ns, e o amor e o decoro
costumam, nas almas nobres, soffrer juntos, quando um d'elles 
offendido... e agora so ambos.

--Eu no entendo o que v. s. ahi est a dizer--atalhou Norberto
conscienciosamente.

--O snr. Mendona...--acudiu Carlota; mas o pejo embargou-lhe a voz.

--Eu queria dizer ao snr. Norberto de Meirelles--tornou Mendona--que
fez v. s. mal em dar uma palavra de que se quer desquitar por meios
menos honestos, e  custa talvez da minha liberdade. A ida de seu
cunhado  capital, e a ordem de eu ir, sem perda de tempo, a Lisboa,
escondem uma trama que eu espero desenredar em oito dias. Se o snr.
Norberto e seu cunhado julgaram que uma intriga basta para aniquilar um
amor de dois annos, uma unio de toda a vida j abenoada por Deus, que
v a pureza das minhas ambies, enganaram-se! Retardar no  destruir.
Eu confio tanto no generoso corao da snr. D. Carlota como em mim
proprio; e s o muito amor me podia dar a mim esta franqueza com que
fallo, e a ella a indulgencia com que me ouve accusar o proceder injusto
de seu pae.

--O senhor est a insultar-me!--exclamou Norberto--e demais a mais em
minha casa!

--Eu no insulto, senhor, queixo-me de ter sido ultrajado, e reconheo,
n'esse desabrimento, que  certissima a perfidia com que fui enganado.
Retiro-me, para que v. s. no me offenda terceira vez, dizendo-me que
o insulto.

--Pois o melhor  isso--redarguiu Norberto.--O senhor pensava que me
levava  valentona? Eu tambem tenho amigos, e sei o que hei de fazer!...

--Que ha de fazer o pae?--disse Carlota com altivez--O pae no pde
fazer nada.

--Que dizes tu, Carlota?!--trovejou Norberto.

--Digo que no ha foras humanas que me privem de casar com este senhor.
O pae governa no seu dinheiro, e ns nada lhe pedimos. O snr. Mendona,
se quizesse ser menos generoso com meu pae, estaria j casado commigo,
porque eu o auctorisei a tirar-me de casa por justia.

Norberto, como todas as indoles abjectas, caira no miseravel da sua
atonia, sob a fulminante coragem de Carlota. Francisco Salter
aproximou-se d'ella, tomou-lhe a mo, como se estivessem ss, e
murmurou:

--A virtude, que Carlota chamou generosidade, contina. Vou a Lisboa,
porque sou militar, e transgrido a honra e dever no me apresentando.

Mendona despediu-se de Carlota Angela, que chorava, e de Norberto de
Meirelles, que limpava com o canho da japona de cotim o suor da brunida
testa.

D. Rosalia faltara a este conflicto, porque, atarefada na cozinha com a
liquidao dos legumes vendidos na manh d'aquelle dia, no dera f de
entrar Mendona.

Carlota Angela, apenas ssinha com seu pae, voltou-lhes as costas, e
saiu da sala.

Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembarao da filha, que
parecia temel-a. Procurou a mulher, e contou-lhe, como elle podia, o
succedido. D. Rosalia benzeu-se tres vezes, e tres vezes levou os braos
em arco  altura da cabea, aco favorita da grossa matrona, quando
queria exprimir o supremo espanto.

Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos
ao mesmo tempo:

--Filha ingrata! ns te amaldioamos!

--Para sempre!--disse a solo o snr. Norberto.

--Para sempre!--repetiu D. Rosalia.

--Amaldioada!--bradaram em dueto.

--E por que me amaldioam?--disse Carlota--que crimes so os meus?

--Ainda perguntas?!--respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas,
nariz, e tudo o mais susceptivel de opilao na sua elastica
physionomia--Pois no tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que
eu no podia fazer nada?

--Disse, sim, senhor; disse, porque ha s um meio de me prohibir o
casamento com a pessoa a quem o pae me deu:  matarem-me.

--Isso diz-se a teu pae, rapariga?---bradou a me.

--A verdade diz-se aos paes; mentir-lhes  que  crime. Para que hei de
eu dizer que fao a vontade a meu pae, se no sou capaz de cumprir a
minha palavra? Logo que Mendona voltar de Lisboa, se elle me no
procurar, procuro-o eu. Se elle me quizesse com a mira no dote, faria
todas as diligencias por que me dotassem, ou morreria de paixo por me
no dotarem; felizmente, o homem que Deus me destina  a mim que me ama,
e no ao dinheiro de meus paes; para ser sua mulher basta-me o corao;
pois bem, fique o dinheiro a meu pae, e seja o corao para o homem que
no exige de mim outros thesouros.

Norberto olhava Rosalia, Rosalia olhava Norberto, grotescamente
pasmados. Estranha era para elles a linguagem, o enthusiasmo, a
altiveza, as attitudes de Carlota. Queriam contradictal-a com os
argumentos triviaes de um casamento rico; mas a migalha de bom senso que
tinham ambos, bastava a convencel-os da inutilidade de similhantes
razes. Queriam leval-a pelo terror; mas com tanto mimo a tinham deixado
emancipar-se desde creana, que no sabiam agora com que gestos, com que
palavras, exprimir o agastamento, a admoestao irada, a soberania
paternal.

O corao de Rosalia era bom, e seria ella a protectora do casamento, se
a no tolhessem os prejuizos de classe. A mulher de Norberto cuidava, em
boa consciencia, que sua filha no podia ser feliz, casando sem o
precedente de escripturas de doao, sem a concorrencia de doadores bem
ricos e bem estupidos por parte do noivo. Por mais que ella quizesse
descobrir no official de marinha os encantos que seduziram sua filha, a
tapada creatura o que encontrava era motivo para pasmar cada vez mais.

--Um engarilho de bigode como um chibo...--dizia ella a Carlota, depois
que Norberto se retirara com mdo de ceder  indignao, que o
enfurecia--um pechibeque que no tem terra, nem leira, nem ramo de
figueira,  rapariga, que feitio te fez aquelle patavina? Ha por ahi
tanto rapaz bem azado, com negocio estabelecido, e creditos... se
querias casar, por que o no tinhas dito, que j se tinha escolhido a
flor dos rapazes do Porto? Est ahi o filho do Antonio Jos da Silva, e
do Joaquim Jos Guimares, que por entre os dentes deram a entender a
teu pae que te queriam, e ainda esto solteiros, no tens mais que
fallar...  mulher! isso foi enguirimano do demonio! Por que no casas
tu com um dos outros?

--Perde o tempo, minha me--disse Carlota com firmeza.--Esses homens
aborreo-os; o mundo tem para mim um s homem; no vejo, nem quero ver
outro:  Francisco de Mendona, porque sou d'elle, considero-me j sua
mulher, e...

--Tu que dizes, Carlota!?--bradou apavorada D. Rosalia--s j mulher
d'elle? Pois tu... Credo! tu ests ahi a dizer blasphemias... 
desgraada, pois tu...

--Eu qu! o que est ahi a me a fazer uns espantos que no sei a que
vem? Se me julgou culpada de alguma aco indigna de mim,  mais uma
injustia que faz ao homem que amo. Tenha a segurana de que Mendona
no me humilha; pelo contrario, eleva-me, ama-me bastante, e  bastante
virtuoso para no querer que a minha consciencia me accuse de alguma
fraqueza.

Oh! ninguem sabe comprehender, como quem ama, uma nobre alma! Tenho eu,
e elle tambem tem a infelicidade de sermos avaliados por pessoas que
adoram o dinheiro sobre todas as cousas, e crem que fra do dinheiro
no ha virtudes nem contentamentos.  minha me, foi uma desgraa
darem-me uma educao differente da que receberam meus paes. Eu vejo as
cousas e as pessoas de um modo diverso. Olho para a riqueza como para um
obstaculo  minha ventura, e no posso deixar de aborrecel-a...

Bem vejo que minha me se admira d'esta linguagem, creia que no  falta
de respeito, nem confiana nas minhas fracas foras;  animo que me d
um amor puro, e digno de mim;  uma fora de que eu preciso para
convencer meus paes de que privar-me de casar com Mendona  o mesmo que
matar-me!

Minha me no quer que eu morra, e ha de proteger-me, ha de amollecer o
duro corao de meu pae, ha de lembrar-lhe que o consentimento dado no
pde ser negado sem deshonra para elle, e grandes torturas para mim.
Seja por mim, minha querida me, seja boa como tem sido sempre. Tenha d
da sua filha unica, da filha que nunca lhe desobedeceu, e, se hoje
desobedece, deve ser muito dolorosa a violencia que lhe querem fazer...

Carlota Angela soluava no seio de D. Rosalia, cujos vasos lacrimaes se
romperam copiosamente.

Eram de bom agouro as lagrimas da enternecida me.

As difficuldades, que ella oppunha, eram vencidas por novas supplicas de
Carlota. D. Rosalia acabara por prometter, com o seu silencio, vencer a
resistencia do marido.

Norberto sara entretanto para o Porto, e fora ao pao do bispo prevenir
a magistratura ecclesiastica contra as diligencias de Francisco Salter
de Mendona. Alguem o aconselhou que fizesse entrar sua filha n'um
convento, para obviar ao rapto, visto que, dado o passo da fuga, o mais
airoso e honesto era remediar a deshonra irreparavel sem o casamento.

D. Rosalia Sampayo tinha uma irm freira benedictina, no Porto, senhora
muito reformada, muito rezadeira, e havida em conta de predestinada, l
dentro, e de religiosa illustrada entre as pessoas das suas relaes.

Carlota Angela visitava-a miudas vezes, e entretinha-se longas horas na
grade, e at alguns dias dentro do mosteiro, onde sua tia lhe ensinava
muitas devoes mirificamente salutares, com as quaes Carlota saa
convencida de que, fazendo-as um mez, ganharia indulgencias bastantes
para remir das penas do purgatorio toda a christandade.

A madre Rufina, sem desagradar ao seu director espiritual, frade
carmelita de poucas lettras e muitas virtudes, era uma tolerante
senhora, a quem Carlota confessara a sua inclinao ao official de
marinha, resultando-lhe d'ahi ter de rezar, por conselho da tia, mais
algumas devoes para que a Virgem lhe inspirasse o melhor destino
n'este mundo.

Carlota dizia-lhe que o seu apaixonado era pobre. Madre Rufina replicava
que pobre era quem no tinha a graa de Deus. Carlota redarguiu que
talvez os paes no a dessem a um rapaz sem dote. A benedictina appellava
para a vontade do Altissimo, que fazia tudo pelo melhor. Ora, Carlota
Angela, melhor ou peior avisada, entendia que Deus, na maxima parte dos
actos humanos, e nomeadamente nos casamentos, no punha nem dispunha.
Isto ser menos orthodoxo; mas  necessario impor  responsabilidade do
homem, ou do diabo, cousas que por ahi ha que no parecem de Deus.

Norberto de Meirelles foi do pao do bispo ao convento de S. Bento da
Av Maria, e fez chamar sua cunhada. Contou a desordem em que se achava
sua casa, foi eloquente no seu genero, desafogou a ira abafada em
presena da filha, e terminou dizendo que, o mais tardar no dia
seguinte, Carlota havia de entrar no convento, onde estaria at se lhe
varrer a mania de casar com o tal Pedro-malas-artes.

A madre Rufina respondeu que na casa do Senhor no se recebia ninguem
introduzido  fora; que sua sobrinha no estava no caso de aceitar com
prazer o recolher-se a um convento, quando o seu corao propendia e
ligava a outros amores. E concluiu, aconselhando a seu cunhado prudencia
e caridade com as inclinaes de Carlota, que, se no eram convenientes
aos olhos do mundo, tambem no eram peccadoras aos olhos de Deus.

E, em resposta s impertinentes rplicas de Norberto de Meirelles, a
digna esposa do Senhor prometteu chamar sua sobrinha, relatar-lhe as
mgoas de seu pae, tentar demovel-a do seu proposito, e pedir muito,
primeiro, a Maria Santissima que tocasse o corao de Carlota com a
resoluo mais conducente ao caminho da virtude n'este mundo, que  o da
salvao no outro.

Norberto saiu pouco contrito, e notou que sua cunhada gosava uma
reputao usurpada. O homem achava aquelles principios irreconciliaveis
com a santidade de que D. Rosalia fazia o panegyrico, todos os dias. No
obstante, a irritao moderou-se-lhe, na esperana de que, em ultimo
refugio, seu cunhado doutor faria em Lisboa, com o dinheiro, o que a
violencia no conseguisse c.

A freira pediu ao capello do mosteiro que lhe acompanhasse sua
sobrinha; e teve com ella o seguinte dialogo, quasi textual dos
apontamentos de Carlota Angela, que devemos  confidencia de uma sua
amiga, de quem logo fallaremos:

--Teu pae, menina, esteve aqui hontem, e fez-me pena. Pediu-me que te
despersuadisse do amor a...

--Pediu-lhe um impossivel, minha tia--interrompeu Carlota.

--Nada  impossivel a Deus, minha sobrinha.

--Deus escuta-se na consciencia, e a consciencia no me condemna o
corao.

--Mas que te diz ella sobre os deveres de uma filha?

--Diz que tenho satisfeito a todos aquelles em que correspondo aos
deveres de pae.

--No sejas to absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediencia 
um crime.

--E o suicidio, minha tia?

--O suicidio  o maior dos crimes, porque  o desprezo do divino remedio
nas dores passageiras d'esta vida.

--Pois creia que obedecer  morrer; se obedeo, se retiro o meu amor...
retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu no posso retirar o meu amor
a Francisco; o mais que posso  mentir; mas essa mentira custa-me a
morte...  o suicidio, e mais ainda...  um assassinio, porque eu mato o
homem que me  tudo n'esta vida...

Carlota rompeu n'um alto soluar de lagrimas, que fez chorar a
religiosa.

-- escusado--disse esta, aps um longo intervallo de silencio, cortado
de suspiros-- escusado combater a tua paixo. Eu pedi tanto ao Senhor,
em communidade, com algumas santinhas d'esta casa, que te mudasse a
teno, que j agora no posso duvidar que o co abena a tua unio com
esse mancebo. J no te reprehendo, nem dissuado, minha sobrinha.
Faremos com tua me o que no podrmos fazer com o espirito teimoso de
teu pae. Enternece-a com as tuas lagrimas, menina; esperta-lhe a
compaixo de que est cheio um corao maternal.

--J o consegui; minha me chorou commigo, e prometteu alcanar de meu
pae o consentimento que elle j tinha dado.

--J tinha dado?! a quem?

--A Francisco Salter, quando me foi pedir.

--E depois? desdisse-se!...

--Quando consentiu, foi para dar tempo a meu tio de nos urdir uma
traio. Francisco partiu hontem para Lisboa, chamado a toda a pressa. O
plano  talvez demoral-o l; mas de que serve a m f de meu pae, e as
astucias de meu tio? C est o meu corao para vencer tudo. Cdo ou
tarde, Francisco voltar, e depois... e depois, se tanto for necessario,
fujo de casa.

--Santo nome de Jesus! no digas tal desatino, que offendes a Deus. O
teu amor, se tal fizesses, deixaria de ser um sentimento honesto, minha
sobrinha. Ha ndoas que nunca se lavam, e intenes boas que deixam
sempre uma face m voltada para os juizos severos do mundo. J agora,
filha, esgota todo o teu calix de fel para que se no diga que achaste
doura no crime. Eu entrei de vinte e dois annos n'esta casa, estou c
ha vinte e seis, e ainda me recordo do que era o mundo l de fra, e o
que l no aprendi ensinaram-me c pessoas que entraram para aqui
sangrando ainda das chagas que receberam l.

Carlota, eu hoje no te fallo a linguagem que me ouviste at aos
quatorze annos. Conheo o teu corao, e acompanhei-lhe o
desenvolvimento mais de perto que teus paes. Tua me no te podia
entender, porque tua me saiu aos quinze annos da companhia de um tio
abbade para casar com um homem capaz de lhe abafar a intelligencia, se
ella a tivesse. Teu pae  um honrado commerciante, tem sabido augmentar
os seus haveres com a mira de te deixar muito rica, e no entende nada
de corao.

J vs, minha querida sobrinha, que teus paes ignoram a sua culpa, e no
fazem mais do que julgam ser o melhor para a tua felicidade. No os
desgostes emquanto for compativel a obediencia com os affectos
invenciveis da tua alma. Teu pae quer que te recolhas a este convento.
Se vieres, se quizeres vir para a minha companhia, no preciso dizer-te
que as tuas aces ho de ser aferidas pelos deveres de uma menina
recolhida n'esta casa. D'aqui diligenciaremos o teu casamento com esse
sujeito; mas as nossas diligencias ho de cooperar todas sobre o animo
de teu pae, at obtermos o consentimento, esquecendo-nos de que elle
procedeu mal, negando o que uma vez tinha concedido. Agora, pensa,
Carlota.

--Tenho pensado.

--Queres, ou no queres entrar no convento?

--Quero sim, minha tia; hoje mesmo, se  possivel.

--, que eu tenho ainda licena para tu poderes entrar; mas  preciso
que teu pae o saiba.

Carlota Angela desceu acceleradamente as escadas que conduziam da grade
para a portaria. Ia banhada de lagrimas. Ao abrir-se a porta, com o seu
tristonho ranger nos gonzos, Carlota estremeceu, e apoiou a face, como
esvada, no cunhal do muro.

--Vem, menina,--disse do interior a madre Rufina.

Carlota Angela pz o p no limiar, e exclamou, estendendo os braos para
a madre porteira:

--Disse-me agora o corao que era para sempre!... Que  isto que eu
sinto, meu Deus!

--Se  Deus que t'o faz sentir, minha sobrinha, louvemol-o todas pelo
bello presagio que te inspirou.

A porta fechou-se. Carlota, rodeada de freiras, e nos braos de todas,
soltou um ai que parecia um grito desentranhado do corao.




VI

    Qui amans egens ingressus est princeps in amoris vias,
    Superavit oerumnis is suis oerumnas Herculis.

                                         Plauto. (_Persa._)

     O demonio da ambio...

                         A. Herculano. (_Monge de Cister._)


Francisco Salter de Mendona, logo que chegou a Lisboa, procurou o
ministro da marinha, e encontrou-o, contra as suas presumpes, bem
encarado e affavel.

D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto politico, sabia conhecer os
parvos pavores do intendente geral da policia, e amava bastante a pasta
para contrariar as suggestes do principe regente, que tremia dos
pedreiros-livres, quando no tremia das conspiraes da filha de Carlos
IV.

Ainda assim, o ministro, protector affeioado de Salter de Mendona, e
particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Mellos e
Ficalhos, houve-se astutamente na recepo do official de marinha,
mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capito-tenente, e
dando-lhe os emboras da escolha acertada que o principe regente fizera
dos seus talentos e energia, para, com mais dois officiaes, o enviar ao
Brazil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenes da
guerra demandavam.

Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de
Mendona. A intriga era incompativel com a merc do posto, e a honraria
do encargo. A reflexo, porm, sobreveio ao juizo da primeira impresso,
e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu de novo que o
bacharel promovera o seu desterro, simulada com a mascara do favor.


A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Angela
revalidou a desconfiana.

Mendona apresentou-se ao ministro, e pediu licena para tornar ao
Porto, onde o chamavam compromissos, do corao em que a sua palavra de
honra se achava empenhada. D. Rodrigo objectou com a necessidade urgente
da partida no praso fixo de quatro dias; discorreu profusamente cerca
da primazia dos deveres de portuguez em confronto com os particulares do
corao; e encareceu o azedume com que sua alteza, o principe regente
veria posporem-se negocios do estado s allianas amorosas de um subdito
que lhe merecera to relevante prova de real confiana.

Instava, por outra parte, o frade benedictino, e a parentella illustre
do frade, vaticinando ao capito-tenente um almirantado em poucos annos
de servio.

Para estes prophetas de glorias ensurdecera Mendona.

O corao accusava-o de ingrato e vil, se a cabea se deixava
instantaneamente desvairar com as vanglorias da fama. A imagem chorosa
de Carlota Angela apparecia-lhe como um estimulo de honra, se o fraco
espirito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da considerao, do
renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrella.

Mendona, quando as felicitaes de amigos e invejosos pareciam j
galardoal-o das bizarrias previstas, meditava rejeitar no s o novo
posto e a commisso mais valiosa que elle, mas tambem a patente que j
tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a sada acceleravam-se com
extraordinaria diligencia. O capito da real brigada deliberou pedir a
sua baixa, ou, caso lh'a negassem, dar parte de doente. N'este proposito
estava, quando recebeu uma carta de Carlota Angela, datada no convento
de S. Bento da Av Maria.

Carlota contava-lhe miudamente os successos que a levaram ao convento; o
patrocinio que encontrara em sua tia, as esperanas que esta lhe dava de
docilisar a pertinacia do pae; o contentamento que ella sentia em
esperar no remanso d'aquelle santo asylo o esposo querido; a liberdade
que estava gosando alli de pensar no seu anjo, alli, onde ninguem
tentava desvanecer-lh'o do corao; em resumo, Carlota dizia-lhe que
estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que s
saria do mosteiro para ser esposa do predilecto da sua alma. No
ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa
unco, os enternecidos deliquios da saudade, os azedumes e dulcido
d'esse agrodoce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o balsamo
da esperana allivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que
devia ser uma carta de Carlota Angela: a alma inteira, no que a alma
n'uma virgem tem de communicativo ao corao estranho, se estranho pde
dizer-se o corao amigo que se sente e escuta dentro do nosso.

Francisco Salter era formado d'este barro humano, contra o qual se tem
vociferado e estampado muita satyra.

A mais suave maledicencia, querendo poupar a natureza humana s querelas
e libellos da philosophia rixosa, diz que o homem  um mysterio.

A theologia christ, para desencarregar o supremo artifice do desaire da
sua obra, diz que o homem  um ente degenerado da sua primitiva
puridade.

Em boa paz com theologos e philosophos, a mim se me afigura que o homem
 um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pygmeu.

Mendona tinha uma unica macula na sua excellente natureza: era a
imperfeio, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de animo
frio e vista clara, vae ver commigo.

A carta de Carlota Angela tranquillisou-o; no disse tudo--alegrou-o,
deu-lhe um ar radioso de confiana e certeza na dedicao, que momentos
antes lhe incutia o receio da mudana.

O homem  assim.

Parece que o amor sem a desconfiana, a esperana sem a duvida, lhe d
um socego de espirito que no quadra  sua natureza irrequieta. O pungir
de constante espinho -lhe um necessario estimulo de vida. Se elle se
do corao,  foroso que fira o orgo de outras paixes. Se o amor
prevalece  ambio de gloria ou de riquezas, satisfaa-se o amor, e a
outra paixo resultar com toda a impetuosidade do arco retezado... No
se tirem j contra Francisco Salter concluses que o vago d'aquellas
premissas no auctorisa.

A carta no baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a
ancia da incerteza, affrontamento das conjecturas que elle formava
cerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da
arrojada ameaa do Candal.

Se a levariam fra do reino:

Se a casariam violentamente com outro:

Se a encerrariam n'um convento, incommunicavel:

Se a despersuadiriam com razes das que vencem o vulgar das mulheres,
quando o amante as no anima com a sua presena:

Se Carlota seria uma mulher vulgar, susceptivel de succumbir s
contrariedades.

Tudo isto eram hypotheses atormentadoras; mas a carta respondia a todas.
Carlota estava a salvo da perseguio; ssinha com o seu amor, que
ninguem lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solido do claustro.
Este convencimento aplacou a vertigem de Mendona.

A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessaria. O espaar-se o
casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessario aos seus
deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o principe
regente o honorificava.

E, depois, dizia n'elle o ente pensante:

No ser bem decoroso para mim voltar do Brazil com uma posio to
acrescida em honras, que ninguem possa notar desigualdade entre mim e a
filha do opulento commerciante?

Como homem brioso, no deverei eu querer que a propria Carlota me
considere um homem disputado por herdeiras iguaes, ou ainda superiores a
ella?

Os paes de Carlota, quando eu voltar habilitado para entrar no
valimento dos mais poderosos, e igualar-me a elles, no tero pejo,
vendo-me entrar em sua casa a castigal-os com pedir-lhes, segunda vez, a
filha, sem dote?

Assim fallava o orgulho do espirito; o corao, porm, patrocinando o
anjo puro, a quem similhantes conjecturas injuriavam, tinha
arrebatamentos de to sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura 
consciencia incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu
victorioso, e o projecto de pedir a baixa readquiriu novos estimulos.

E os sonhos de gloria?

E os respeitos do mundo, que no eram, como hoje, restrictos ao
dinheiro?

E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava to
sem nuvens?

E uma longa vida a viver s das commoes de um amor satisfeito?

E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro,
ou se no pde, sem desdouro, proferir o nome do pae, que inverga, no a
farda do general, mas o habito dos monges negros?

Replicava assim o orgulho reagente; e o amor supplicante exorava de
novo; a imagem melancolica de Carlota Angela espelhava-se no corao do
moo; resurgia ovante em toda a sua nobreza e iseno a amorosa alma, e
a teno de no partir reaccendia-se mais calida e inabalavel.

Assim, pois, chegou Mendona a submetter o seu requerimento ao despacho
do ministro.

Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se no julgasse o capito da real
brigada de marinha compromettido na maonaria, onde se pactuara que a
desobediencia implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de
Jos Anastacio de Figueiredo, em Mafra,  sombra das telhas reaes.

O ministro chamou o requerente a uma audiencia secreta, e disse-lhe que
no s lhe negava a baixa, mas at lhe exigia o cumprimento das ordens
regias; que seria mal visto de sua alteza o subdito que to mal
correspondesse ao regio conceito: que seria degenerado portuguez o que,
no solemne momento de pr peito em defeza da patria e  remunerao de
patrioticos feitos, se furtasse aos trabalhos e s glorias: que seria
irrisorio no justificar o requerimento de baixa com mais motivos para
tamanho desconcerto que um pueril amor, que no devia passar de um
incidente de terceira ordem na vida de um homem intelligente, e fadado
para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria
em castigo, se elle requerente persistisse na disparatada baixa, cuja
concesso lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas
perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querena de sua alteza, que
tencionava nomeal-o major da armada, logo que servisse tres mezes no
Brazil.

O remate da allocuo era a douradura da pilula. Major da armada! a
aspirao mais vantajosa de tantos, que a no realisavam na velhice!
Voltar, depois de alguns mezes, a Portugal, major da armada,
condecorado, ennobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao
ministerio!

Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois annos,
amada para sempre, votada aos sacrificios, aos desprezos, s injurias, a
tudo, para lhe merecer a elle a renuncia de glorias que retardavam um
enlace to suspirado!

Mendona, na vespera da saida para o Rio de Janeiro, escreveu esta
carta:

V, minha Carlota, que eu choro. A afflico no me deixa outro
desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de leguas.
Eu parto manh para o Brazil, obrigado pela minha condio de servo
agaloado. Deram-me o commando de um navio, e mandam-me cumprir servios
de que eu cobraria esperanas para grandes honras, se a minha gloria
unica no fosses tu, esposa da minha alma. Quiz dar a minha baixa,
requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quiz
dizer-te um adeus por algum tempo; no me consentiram delongas, porque a
corveta _Amazona_ esperava-me quasi aprestada para se fazer  vela.

Mas eu no parto, Carlota. Comtigo fico, anjo. O meu corao ahi fica,
ahi est pulsando no teu. As lagrimas de saudade que choras, choram-as
tambem os meus olhos. Entre ns, n'esta longa distancia que nos separa,
prende-nos a mesma cadeia de dores, de afflices, de terriveis
presentimentos. Quando te doer no corao o presagio da minha morte,
sentil-o-hei tambem eu l, e chamarei por ti no silencio da minha alma,
n'este grito surdo da saudade, que  um despedaar de todos os
ligamentos da vida.

Por que choramos ns, Carlota? Invoquemos a razo desvairada pela
angustia; suppliquemos a essa filha de Deus, seno remedio, ao menos
conforto s nossas dores. Deveremos ns chorar como choram amantes
infelizes? Eu creio que no, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem:
a vossa unio ha de realisar-se passados seis mezes, ou ainda um anno,
teriamos justo motivo para nos rebellarmos contra o destino, contra a
Providencia que nos aproximou to dignos um do outro?

No, Carlota, porque o nosso amor no est ameaado de alguma sinistra
casualidade que o aniquile ou arrefea. As distancias so impossiveis
entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na
amplido dos mares haver sempre o mesmo santuario de fervente amor, a
mesma aco de graas a Deus, que no quer o infortunio dos que o
confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lagrimas ha de a
esperana enxugal-as. A esperana nos acordar dos sonhos tristes. A
saudade, que desalenta e cansa, ir ao futuro pedir sorrisos s risonhas
imagens da nossa ventura de esposos. Oh! ns no temos razo para chorar
uma separao de alguns mezes, quando nos separamos to confiados, como
se acabassemos de receber a beno no altar, como se, no derradeiro
abrao, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.

Que ridente imagem esta,  Carlota! que estranho palpitar de corao eu
sinto agora! que delicias nos aguardam para o dia immorredouro da nossa
felicidade!

Animo, minha adorada esposa! Eu careo de imaginar que tens corao
para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem,
para que o auxilio da razo no esmorea. Animei-te; mas as lagrimas no
me deixam escrever, nem a ti te deixaro entender estas palavras. Agora
se me cerra em indizivel tortura o corao. Largo a penna, desafgo em
gemidos este aperto de alma, similhante ao impossivel de comparar-se.
No me veno. J creio que te perdi. Accuso-me de ingrato por que no
deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo,
para mendigar comtigo uma esmola em paiz estrangeiro. Eu sou vil, sou
indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para
que tu me perdes tamanho crime.

Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida!
Impossivel, Carlota, impossivel deixar de seguir o meu destino! Agora
mesmo sou chamado  secretaria para receber as ultimas ordens. Este
calix irremediavel ha de ser tragado, ou a deshonra, a perseguio, e o
perder-te... Que horrivel palavra!

Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um
crucifixo. Eu no o tenho aqui, mas invoco o testimunho de Deus, porque
o meu corao, quando tu proferires estas palavras, ha de ouvir-t'as, e
recolhel-as. Jura que s sairs do claustro para ser minha esposa; e, se
a morte me colher longe de ti, acabars ahi teus dias, e nenhum ente
sobre a terra roubar  minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo,
esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da
bemaventurana.

Juraste, Carlota? Agora cr que o meu espirito te pediria contas d'esse
juramento, se a perfidia denegrisse a tua alma immaculada.

Perfida!... tu!... Perda-me, anjo do co, pelas lagrimas que choro,
pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas!

Adeus.....................




VII

     Fiel  Deus, que no soffre termos mais peso do que aquelle com que
     podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros
     allivios, e nesta f se acabam os quebrantos.

                                      Fr. Antonio das Chagas. (_Cartas._)


Carlota Angela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz;
foram, porm, d'ahi levantal-a os braos de D. Rufina, que, acudindo ao
soluar dos gemidos, a encontrara esvaida.

Depois que a lanou  cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma
novia que vinha entrando:

--Quando assim se amam duas creaturas, a vontade de Deus est n'esse
amor: tudo que os homens fizerem contra elle  um sacrilegio,  um
attentado contra os designios do Altissimo.

A novia, depositria dos segredos de Carlota, leu tambem a carta, e foi
sentar-se  cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da
sua amiga.

Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava
com spasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.

--Chora, chora, Carlotinha--disse a novia, dando-lhe o exemplo, e
acariciando-a com beijos.

--Se eu podesse chorar...--balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras
de frio entre os braos de Dorothea.

--E, se elle morresse, no soffrerias mais, menina?!

Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela suffocao:

--Se elle morresse... quem?... pois sabes...

--Sei; li a carta, e tua tia tambem a leu, e chorou. Eu no acho razo
bastante para succumbires assim.

--Eu no succumbo... se succumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas,
Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...

--Arrepende-te, alma de pouca f!--disse a tia, mostrando a sua nobre
fronte de cabellos brancos, coberta com o magestoso vo negro, por entre
os cortinados do leito--Que fallas ahi em morrer, creana! Vida, muita
vida, e muita confiana em Deus, e esperana em dias melhores,  o que
te ensina esta carta, mulher sem animo. Vamos lel-a de novo: sou eu que
a leio, e veremos se o corao de uma velha sabe melhor que a moa
entender o corao de um mancebo.

D. Rufina, sorrindo com fagueira graa, abriu a carta, sentou-se na cama
de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, no deixando sem
ellas a menor phrase esperanosa.

A respirao profunda de Carlota, o convulsivo soluar, o gemido
indomavel que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes,
a leitora. Era ento que as consoladoras annotaes de Rufina, e o
assentimento da novia, redobravam de persuasiva eloquencia, capaz de
maravilhar as freiras, que suppozeram sempre estranha  linguagem das
paixes a austera religiosa.

Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensivel
resultado das suas consolaes, appellou para o influxo sobrehumano da
religio.

--Venham c ambas,--disse ella--vamos todas tres pedir de joelhos ao
Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.

--Sim, sim!--exclamou Carlota Angela, saltando do leito, e seguindo-a
com passos vacillantes.

Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difficil estremar entre as
tres qual era d'ellas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era
a devoo de todas.

--Agora respiremos!--disse, terminada a reza, a freira--Has de vel-o,
has de ser sua esposa, minha Carlota.

Nas grandes agonias, qualquer esperana exalta a crena em agouros, em
presagios, em supersties at. Carlota, pensando que sua tia recebera a
suprema graa da revelao, exclamou com alegria e transporte:

--Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?

--Deus, filha, no falla a creaturas to peccadoras e indignas como tua
tia; mas consente que se possa contar com os effeitos da sua divina
misericordia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justia,
consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltar,
ser teu marido, e tereis larga remunerao dos soffrimentos que
offerecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos
felizes d'este mundo.

Estas palavras soaram tocantes e solemnes como o prophetisar da que a
communidade reverenciava assistida de graa superior. Carlota sentia
alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a
falla. As lagrimas, represadas no corao, rebentaram em torrentes: e o
sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a
lividez cadaverica do rosto.

Estava desopprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe
insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos
incredulos com suas devoes, e austeras impertinencias; fora uma
mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se
acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que
tirara da cruz, onde expirara o amantissimo redemptor dos homens,
remedio de vida, e esperana para a chaga de um corao de dezesete
annos, ferido de desespro e morte.

Assim, pois, na cella da rigida religiosa se desafogavam e consolavam
affectos dos que, fra d'alli, no mundo tolerante e vicioso, so
julgados rebellio contra a vontade paternal, escandalo para filhas
submissas, e peccadora cegueira do corao humano!

Quam inventiva no  a caridade! quam largas bracejam as vergonteas
d'esse tronco evangelico, regado pelas lagrimas d'aquella a quem Jesus
perdoara por ter amado muito!

A desvelada novia no deixava ssinha Carlota, um instante. Ella e
Rufina revezavam-se ao p da pensativa menina, que parecia querer
fugir-lhes, j no para se carpir, mas para orar; que, na orao sentia
Carlota outro espirito em si, o murmurio de outros labios supplicantes,
a fervorosa crena de Mendona inflammar-lhe a f.

A serenidade viera com a confiana no futuro: do sobresalto, da
afflico, pouco e pouco socegada, ficara a melancolia suave da
paciencia, essa que s Deus concede aos que  sua misericordia
recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram.

D. Rosalia visitava a filha miudas vezes, o pae raras; e de breve
demora, porque o silencio de Carlota, que elle julgava desaffeio,
desanimava-o de a ver, e incommodava-o a ss com ella.

Dizia a me, nos primeiros tempos, que no havia tirar-lhe o sim para o
casamento; mas que ainda era cdo para descoroar. Dois mezes depois,
mostrou-se mais docil a pertinacia, e j elle dizia que, na volta de
Mendona, tudo se faria pelo melhor:  que o ajudante do intendente
geral da policia, por occasio de lhe pedir mais seis mil cruzados,
explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para crear
novos embaraos ao regresso de Salter, logo que a commisso, a que fora,
estivesse cumprida.

Decorreram quatro mezes. Os navios vindos do Rio, j com a nova da
chegada do _Amazonas_, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma
visita da policia, e entregaram a correspondencia. Entre as cartas havia
uma de grande volume, subscriptada a D. Carlota Angela de Meirelles,
residente no mosteiro de S. Bento da Av Maria, no Porto.

O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e
lanou-as ao brazeiro, aquecendo e esfregando as mos  lavareda. O
malvado queimara alli o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da
mais dorida saudade que ainda apertou corao de homem! O impio no se
amiserara de tantos signaes de lagrimas em que a tinta se apagara! Que
raptos de alegria, e suspiradas consolaes aquella carta, que voejava
no ar em falas, levaria a Carlota! Que esperanas to bellas o perverso
queimou com a chamma d'aquelle papel!

Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com
Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendona, mandava
todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio,
esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vo! A antiga
dor renascia em cada correio; redobrava a afflico a cada esperana
frustrada.

Conspiravam em consolal-a Rufina e a novia, esta com razes mais
carinhosas que persuasivas, aquella confirmando o vaticinio da
felicidade promettida. Os allivios da primeira eram sempre proficuos e
desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que tambem eram
desabafo.

Decorreram tres mezes de afflictivas esperanas, sempre enganadoras para
todas. Nem uma carta, nem duas linhas escriptas no leito da morte!

Carlota Angela tremia de pronunciar uma desconfiana acerba que lhe
trazia o corao em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente 
bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a
ella. Dorothea segredava  freira os seus receios, e esta pedia-lhe
muito encarecidamente que no proferisse uma palavra sobre tal
desconfiana.

Acontecia, porm, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco
Salter.

Carlota receiava que as suas amigas julgassem possivel ter elle morrido;
assentimento tal seria para ella uma especie de evidencia, porque to
pouco basta para certificar suspeitas entranhadas n'um espirito que a
desgraa fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto,
cuidando que a matariam.

N'este conflicto, correu no Porto a noticia da morte de Francisco Salter
de Mendona. Ninguem sabia dizer por onde a noticia viera; os amigos,
porm, do honesto e talentoso official de marinha contavam-se que elle
morrera no Rio de Janeiro, quando a gloria o vinha buscar por uma
carreira esperanosa de grandes destinos.

A noticia chegou ao convento. Souberam-a todas, excepto Carlota Angela.

Rufina cau doente, e Dorothea denunciava-se  infeliz menina,
evitando-a, quando mais anciosa de compaixo e carinho se sentia
impellida para ella.

As freiras olhavam a pobresinha com mais piedade que nunca; animavam-a
como se quizessem ter parte em seu corao para a salvarem pela amizade,
quando houvessem de revelar-lhe a mortal noticia. Carlota estranhava os
melancolicos olhares, os beijos e caricias de todas, a condolencia terna
com que, as mais afastadas da sua convivencia, a vinham espairecer ao
seu quarto.

Norberto de Meirelles procurara sua filha, n'esses dias em que a noticia
vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pae
de Carlota. Esta preparava-se para ir  grade, quando a anciada tia lhe
disse:

--Vou-te aconselhar a desobediencia, minha sobrinha, e Deus me perde
por sua immensa bondade. No vs  grade. Eu tomo sobre mim a
responsabilidade de mais um peccado.

E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha no
podia fallar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguem iria em logar
d'ella.

--E por que  isso, minha tia?!--perguntou a sobrinha admirada.

--Porque sim, minha filha. Receio que elle te venha fallar...--continuou
balbuciante--em cousas desagradaveis.

E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota,
vestiu-se, e foi  grade encostada a Dorothea.

--Ento a pequena que tem?--perguntou Norberto.

--Est doente.

--J lhe chegou a noticia! Que tenha paciencia. Deus tudo faz pelo
melhor...

--Tambem digo o mesmo--atalhou Rufina.--E o mano agora que lhe quer?
Consolal-a?

--Quero dizer-lhe que  preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do
homem que morreu.

--Isso ha de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.

--Isso l  bom p'r mana; eu c digo as cousas como sei.

--Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo
se lhe dir com prudencia e caridade.

--Pois ella ainda no sabe que morreu o homem?!

--No, mano; se a noticia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu no
acho necessario dar-se-lhe uma nova que a pde matar.

--Qual matar, nem meio matar!--replicou o brutal arrozeiro, tregeitando
com os beios carnudos um gesto de incredulidade--Pobre de quem morre,
diz o dictado. Ainda  de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas
namoradas, so como as viuvas: choramigam oito dias, e ficam frescas
como se no fosse nada com ellas.

--Est enganado. Pergunte a minha irm, que tem corao de esposa e de
me, se isso assim . Estou bem convencida que ella far um diverso
juizo do soffrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para
vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire,
pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a
noticia  desgraada Carlota. O mais difficultoso  curar depois a
ferida, se o golpe no for de morte: confio em Maria Santissima que no
ser.

--Pois ento adeus--tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do
capote de quartos.--Arranje c isso do melhor modo, e diga-lhe que venha
c p'ra fra, a ver se ella se tenta com algum de tres noivos, o qual
melhor, que eu trago na mira. Se eu a quizesse casar com um morgado da
provincia, fidalgo, e senhor de casa com capella, j me fallaram para
isso; mas, a fallar a verdade, o que eu quero  homem de negocio, ou
filho de negociante com dote  vista; no fao bem, cunhada?

--O mano l sabe o que lhe convem; mas nunca faa calculos sem contar
com a vontade de Carlota. Parece-me que lhe posso asseverar que ella no
sair mais d'este convento. Perdeu um esposo; mas o esposo verdadeiro, o
esposo das almas angustiadas est c dentro;  Jesus Christo, o unico
bem que ha de entrar no corao espedaado de Carlota, e cural-o com a
esperana de encontrar na bemaventurana o primeiro que perdeu.

--Pois Carlota ha de ser freira?!--interrompeu com impetuosa grita
Norberto, derrubando a gola do capote, que era de mais na cara afogueada
pela ingrata nova.

--O mano faz um espanto--redarguiu mansamente Rufina--como se eu lhe
dissesse que sua filha havia de praticar um crime!...

-- que eu no quero!...--redarguiu elle, batendo um troante murro na
banqueta.

--O mano no quer; mas a sua vontade agora vae encontrar outra vontade
sem comparao mais poderosa:  a vontade omnipotente do Senhor, que
move os mundos e os coraes. No me disse, ha pouco, que Deus tudo
fazia pelo melhor? Pois bem, pde ser que a divina vontade quizesse para
as suas eternas nupcias a que havia de ser esposa de outro, que Deus
chamou a si.

--Veremos como isso ha de ser. Em todo o caso eu quero minha filha c
para fra. No a creei para freira, tenho muito que lhe deixar.

--Tudo o que o mano tem pde varrel-o um ligeiro spro da desgraa.
Modere a sua soberba, que no o castigue Deus, que abate os soberbos, e
exalta os humildes. E, demais, a casa do Senhor no se abre s para as
meninas pobres. Eu deixei um grande patrimonio quando aqui entrei, e vim
achar uma riqueza incomparavelmente maior do que a que deixei: foi o
esquecimento do mundo, e o amor sempre crescente de outro melhor. Ora,
bem pde ser que sua filha se deixe namorar dos anjos, e rompa com os
amores tranzitorios d'esta vida. Em summa, o que eu lhe digo, meu
cunhado,  que minha sobrinha s pde ser salva pela religio; e eu, se
Deus me achar digna, hei de estender-lhe a mo ao abysmo onde a
lanaram, e encaminhal-a por onde eu vir que ella  menos infeliz. No
posso mais, estou fatigada e angustiada, adeus.

Norberto de Meirelles enfiou de novo a cara oleosa na pelucia da gola,
sobraou a enorme bengala encastoada de prata, e sau do atrio do
mosteiro com as ventas fumegantes.




VIII

          _Didone_

    ... No mai die fiamma impura
    Feci l'are fumar per vostro scherno;
    Dunque perch congiura
    Tutto il ciel contra me, tutto l'inferno?

          _Osmida_

    Ah! pensa a te non irritar gli Dei...

          _Didone_

    Che Dei? Son nomi vani,
    Son chimere sognatte,  ingiusti son.

                          Metastasio. (_Didone._)


Norberto de Meirelles communicou, immediatamente, ao cunhado o
acontecido com a religiosa benedictina, pedindo-lhe conselho para evitar
que a filha se fizesse freira.

O bacharel Sampayo chamou a capitulo os seus vastos expedientes de
perfidia, e conglobou-os n'um, do qual ousou afianar ao cunhado um
exito feliz.

Chamou pessoa idonea para executal-o, e de Lisboa veio ao Porto um
individuo encarregado da seguinte misso:

Entrou, um dia, no pateo do mosteiro de S. Bento esse homem, e perguntou
na portaria, se lhe seria possivel fazer chegar s mos da snr. D.
Carlota Angela um bilhetinho de sua me.

A porteira respondeu affirmativamente, como era de esperar, recebeu o
bilhete, e entregou-o a Carlota, que saia do cro, onde costumava passar
as manhs em orao.

Era este o contedo do bilhete:

_Uma pessoa quer fallar  snr. D. Carlota cerca de Francisco Salter
de Mendona; mas deseja estar s com ella em uma grade. A pessoa espera
resposta._

Carlota alvoroada correu ao locutorio, e exclamou:

--Estou aqui.

O enviado do bacharel aproximou-se, e disse:

--Sou eu que a procuro, minha senhora; mas na esperana de ser demorada
a nossa pratica, pedia o favor de me fallar n'uma grade, porque este
logar  improprio para se tratarem cousas de tamanho segredo.

Carlota olhou em redor de si, viu uma criada com uma chave, e disse com
precipitao:

--Empresta-me a grade por um bocadinho? empresta, por quem ?

--Sim, minha senhora--disse a criada.

Carlota indicou ao homem de Lisboa a grade, e correu a encontral-o.

No tinha ainda elle terminado as formalidades da cortezia, disse
Carlota impaciente:

--Elle j veio? Est em Lisboa?

Estas perguntas eram feitas a tremer. Carlota, no podendo com a
afflictiva duvida da resposta, apressou-se a interrogal-o assim,
cuidando que a certeza com que perguntava por Mendona vivo a
desopprimia da suspeita de que elle era morto.

O homem no estava preparado para perguntas to expeditas. Ficou
perplexo, e esta indeciso deu azo a novas perguntas:

--Traz-me cartas d'elle? d-m'as...

--No trago cartas, minha senhora.

--No?!--atalhou ella com vehemencia e sobresalto.

--No, snr. D. Carlota. Francisco Salter no lhe escreveria, ainda que
podesse...

--Como?! no entendo!... No escreveria... porque?

--Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe
vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno,
permitta-me dizer-lh'o, de ser melhor applicado.

--Isso  uma calumnia! isso  mentira!--exclamou Carlota, sem pesar a
gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada
acrimonia.

--Eu desculpo-a das injurias que me dirige, porque avalio a surpreza
dolorosa, que lhe fazem to horriveis novas. Queira escutar-me.

Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro
annos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado s variantes
do corao logo que as tempestades de outras paixes se levantam,
sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no como
de uma bella carreira, com espiritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e
descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da
pessoa, que elle amava, deixassem de influencial-o. Chegou a Lisboa,
onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber
uma honrosa commisso para o Brazil, com augmento na sua carreira, e
promessas seguras de grandes vantagens.

Francisco Salter de Mendona rejeitaria a gloria, se o amor fosse de
mais rija tempera; renunciaria um almirantado, se o corao de Carlota
Angela saciasse n'elle a louvavel ambio de se fazer grande por
merecimento proprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brazil, como a
menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito
lamuriante, muito esperanosa; mas... partiu.

No Brazil, foi recebido como era de esperar. Encontrei-o na melhor
sociedade, posto que a melhor sociedade de l s se faa valiosa pelo
dinheiro. As ricas herdeiras olhavam-o como um rapaz distincto, capito
da real brigada, bem fallante, gentil, bravo, soberbo de si, e
collocaram-o na posio de escolher.

Vejo que v. s. est anciada. Se a continuao da minha visita a
molesta, peo licena, e retiro-me.

--No... no... queira dizer--balbuciou Carlota, tirando com violencia a
respirao do seio convulsivo.

--Os fumos da vaidade e os da ambio--proseguiu o porta-voz do
bacharel--ennevoaram aos olhos de Mendona a imagem de Carlota Angela.
Eu, que fora nos primeiros dias seu confidente, sabia que a menina
existia n'este convento; recordei-lhe com pezar o indigno perjurio, e
elle respondia-me que a ausencia era o balsamo maravilhoso das chagas
que o amor fazia. Confesso que me angustiou esta baixa condio de alma!
e muito principalmente depois que vi algumas cartas de v. s.,
escriptas emquanto elle fazia a viagem.

Passados mezes, dois ou tres, se tanto, Mendona d parte aos seus
amigos de que vae tomar estado com a filha unica de um opulento
negociante, dotada com centenares de contos.

--E casou?--exclama Carlota, lanando com vertiginoso impeto as mos s
grades.

--Casou--respondeu o homem, friamente.

Carlota soltou um grito, que no tem outro comparavel na expresso da
angustia humana. Era o ruido agudo do estalar de todos os tecidos do
corao, do rasgarem-se todos os vasos de sangue, do embate dos pulmes
lacerados contra as paredes do peito. E, depois, os dedos recurvos nos
ferros da grade, relaxaram-se, hirtos como os de um cadaver, e o corpo
resvalou da cadeira para o cho com estrondoso baque.

O homem horrorisou-se um instante da sua obra, e recuou at  porta para
retirar-se; mas a sua misso no estava ainda cumprida. Relampagueou-lhe
uma ideia lucida. Desceu  portaria, e disse que fosse Alguem  grade,
onde se achava desmaiada a snr. D. Carlota.

A este tempo j a madre porteira, alarmada pelo estrondo da quda,
entrava pressurosa na grade, e vendo Carlota no cho, chamou-a a altos
gritos. Houve grande rumor no convento, e entre as muitas pessoas que
desceram  portaria, vinham D. Rufina e a novia.

O homem de Lisboa permanecia imperturbavel na grade, esperando que o
interrogassem, j depois que Carlota fora transportada, com frouxos
signaes de vida, ao seu quarto, acompanhada de um medico, que a fortuna
trouxera n'esse conflicto.

--Alguma das senhoras  a tia da snr. D. Carlota Angela?--perguntou o
homem.

--Sou eu--respondeu a pavida religiosa.

--Concede-me alguns minutos sem testimunhas?

As outras senhoras deixaram s Rufina; o delegado do bacharel proseguiu:

--Essa menina desfalleceu, quando eu lhe noticiei o casamento de
Francisco Salter de Mendona.

--O casamento?!

--Sim, minha senhora.

--O que geralmente se diz  que morreu.

--Casou, e morreu, dias depois.

--Oh meu Deus!--clamou a freira, levando as mos s faces--oh meu Deus,
o que se passa debaixo de vossos olhos! Francisco de Mendona casou!...
O senhor tem a certeza d'isso?!

--Como quem assistiu ao casamento e  morte. Esta segunda parte  que
sua sobrinha ignora, porque me no deu tempo. Agora convm que v. s.
lh'a diga, para que a morte sirva de perdo ao ingrato, e a ingratido
lhe converta em quasi indifferena a morte.  assim que essa pobre
menina ha de recuperar a tranquillidade que precisa; e eu, que
espontaneamente aqui vim dar-lhe o golpe, que ninguem lhe queria dar,
com o bom proposito de curar a ferida com o proprio sangue d'ella,
retiro-me, delegando em v. s. o complemento da minha obra. Minha
senhora, recebo as suas ordens.

Soror Rufina surgira de uma especie de lethargo, depois que o
desconhecido sara.

Foi ao quarto da sobrinha, e viu-a sentada no leito, com os cotovlos
fincados nos joelhos, e o rosto entre as mos. Saam-lhe das palpebras
os olhos vidrentos e immoveis como os de um cadaver embalsamado. Parecia
no ver alguem, e a respirao das pessoas, que a rodeavam, nem sequer
se ouvia. O olhar de Carlota fazia terror.

A religiosa chamou-a tres vezes, como a me delirante chamaria sua filha
morta; o pavor, porm, d'aquelle olhar sem luz nem movimento, parecia
responder-lhe que estava morto o corao que devia ouvil-a. Rufina
abraou-a vertiginosamente, agitando-a com desespro: o corpo obedecia
ao impulso, com a inerte obediencia do cadaver, mas os olhos l estavam
na sua terrivel immobilidade como que seguindo a alma que lhe fugira
arrancada pelas garras de um demonio.

--Que  isto, snr. doutor! est morta minha sobrinha?--bradou a
religiosa ao medico.

--No est morta, minha senhora; pde estar demente.

Carlota Angela soltou um profundo grito, ergueu-se sobre os joelhos no
leito, travou das tranas com frenetico delirio, deixou car os braos
semi-mortos, e recau no torpor de momentos antes.

Passado o espanto, todos os coraes se derramaram alli em lagrimas. No
sabiam ao certo que immensa angustia era aquella; mas adivinhavam-a.
Todas se voltaram para Jesus crucificado, de joelhos oraram chorando, e
a orao era a mesma em todos os espritos:

Se ella est demente, levae-a, Senhor!

Aquelle estado era impossivel longo tempo. Durante vinte e quatro horas
succediam-se as syncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O
medico, descrido da aco dos antispasmodicos, aconselhou que lhe
fallassem muito na causa d'aquelle accidente, confiado na vitalidade
febril que do as agonias moraes; e nas lagrimas consecutivas.

Assim o aconselhara; ninguem, todavia, queria encarregar-se de to cruel
flagellao.

Soror Rufina esperara a sada das incessantes visitas, para, com o
soccorro do co, executar o duro supplicio de Carlota. O corao
dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inutil; mas o medico
ajuntara ao conselho razes que a convenceram.

A ss, Carlota fitou-a com uma turvao de olhar, que deu quebranto 
resoluo da freira.

--Se ella est demente, de que serve este triste remedio?!--dizia soror
Rufina--Eu vou verter-lhe fel na chaga do corao, e nem posso ao menos
contar com a intelligencia d'ella para lhe faltar  razo! Se Deus a
chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha
filha!--murmurou ella, aconchegando-a ao seio--Tu no me conheces? Sou a
tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me de tambem, Carlota.
 preciso que nos consolemos uma  outra. Diz-me uma palavra s,
anjinho... Conheces a tua tia, menina?

--Se conheo!...--disse com meigo sorriso, Carlota, abraando-a pelo
pescoo. Rufina estremeceu de alegria, comprimindo com transporte o seio
da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lagrimas e beijos a face.

--E s a minha querida filha, pois no s?--proseguiu a freira-- de mim
que esperas allivios d'esta agonia, e amor para toda a vida? Aceitas as
consolaes de tua tia, crendo que  ella o instrumento de que a
misericordia de um Deus piedoso se serve?

--No me falle em Deus!--bradou com impetuosa violencia Carlota Angela.

Rufina tremeu e empallideceu como assombrada de um raio.

--Est douda a infeliz!--disse ella--Agora sim, creio que no ha
valer-lhe!  Me Santissima,  Senhor dos Afflictos, levae esta alma
para vs... no consintaes que os labios digam blasphemias, que o
espirito d'esta virtuosa creatura no sente.

--No me falle em Deus!--repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os
olhos--No ha Deus, nem justia, nem misericordia. Ha inferno n'este
mundo para os innocentes, para os que, fugindo ao odio humano, se
acolhem ao amparo divino.

--Jesus!--atalhou a religiosa--Que palavras so essas, filha!?

--Eu no merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim
desesperada de achar a remunerao de tamanha perfidia?! Abandonada,
esquecida por elle... Que horror!

Carlota Angela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braos
da freira.

--Que horror!--continuava ella, apertando as fontes com as mos, e
tirando com violencia pela respirao--Trahida por Francisco!... Todo
este amor, a amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo
tempo que eu o ia alimentando com lagrimas diante d'aquella cruz, onde
eu cuidei que se encontrava compaixo!...

--E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Christo
est correndo o balsamo que te ha de curar, Carlota!

--Curar-me!... A tia no sabe o que eu soffro, no conheceu esta dor,
no sabe que desesperada vae ser a minha agonia! Eu tenho a morte j na
garganta. Era preciso que eu perdesse o juizo para se crer que ha Deus.
Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto  mais que
barbaridade... o demonio no pde tanto, e um Deus no consentiria
padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me
dsse um veneno... quem me arrancasse do corao esta agonia!... Oh meu
Deus!...--bradou ella, estendendo os braos para o crucifixo.

Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a commoda, e aproximou-lh'a.
Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lagrimas, e
lanou-a de si com um violento gesto de repulso.

-- mentira tudo isso!--exclamava ella, agitando as mos com frenesi,
como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz-- mentira tudo! no ha Deus,
no ha nada a que uma desgraada, como eu, possa recorrer! Deus no
consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nenhuma
miseravel como eu...

--E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz soffrer tanto,
Carlota, crs que ha justia de Deus?

--Castigado!... no ha n'este mundo castigo para tamanha ingratido...
Elle  feliz a esta hora, nos braos de outra, com os carinhos de outra
mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo
ho de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me
levardes j...--E tomando a cruz, que beijava fervorosamente,
proseguiu:--Levae-me, Senhor... tirae-me d'este inferno, ou fazei que eu
endoudea! Se eu sou grande peccadora, dae-me as penas eternas da outra
vida, se l no ha memoria das amarguras d'este mundo! Dae-me o outro
inferno por este, e eu darei sempre louvores  vossa misericordia!...
No me escuta!--bradou Carlota com desesperada indignao, querendo
arremessar a cruz.

--Filha!

--Deixe-me acabar, minha tia... Eu no quero esperanas...
esperanas!... em que? No quero consolaes de ninguem... A maldade
d'aquelle homem no me deixa j crer no amor de ninguem... Fujam todos
de mim, que eu sou uma mulher amaldioada, sem ter offendido uma s
pessoa...  a maldio de meu pae que chegou ao co. Fui enganada, tinha
f n'aquelle homem, estou assim penando, porque o acreditei...  um
castigo maior que o meu delicto! Deus devia perdoar  pobre mulher de
dezoito annos, e castigar o traidor por quem me perdi...

--E castigou.

--Como?

--Chamando-o a contas.

--Diga, diga, minha tia... que ? chamando-o a contas!... pois elle...

--Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crs que ha
Deus?... crs na justia divina?

Carlota no ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralysia os ferisse de
subito. Os labios ficaram semiabertos, como se por elles perpassasse a
derradeira expirao. Os braos decairam com mortal quebranto.

A freira abraara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando
Jesus, e Carlota.

Dorothea entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando
agudos ais, porque julgara morta Carlota.

--V ver se est algum medico dentro--disse Rufina.--Mandem-o chamar, a
toda a pressa, se no estiver. Chamem tambem o capello... Parece-me que
a matei, cuidando que a salvava.

Dorothea sara, levando o alvoroo e o terror, pelos dormitorios, onde
eccoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida
de espirito, e de f, como aquelles santos de quem o Senhor se queixou,
disse, lavada em lagrimas:

--Meu Deus! so terriveis os vossos juizos, e terriveis as vossas
intenes! Quando a innocencia assim padece, como castigareis o crime?

Fora como o morder da vibora entranhada o pungir de alma que vibrou em
dolorosissimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciencia, que
recebia em si o fel da injuria que os labios cuspiram; mas no passara
d'elles. A apavorada freira, livida como o sacrilego aterrado pelo
remorso, ouviu um murmurio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que
lhe dizia:

--Oremos pela alma do infeliz.

Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Dorothea. Viram
Carlota Angela com as mos erguidas, e a face coberta de lagrimas.
Ergueram tambem as mos, choraram tambem, ajoelharam, vendo Rufina de
joelhos.

-- um Padre nosso e uma Av Maria por alma de Francisco--balbuciou
Carlota, soluando, com inexprimivel afflico.

O medico entrava n'esse conflicto, e presenciando as lagrimas de
Carlota, fez um gesto afirmativo. Dorothea interrogou-o com anciado
olhar. O medico, entreabrindo ligeiramente os labios com um sorriso,
queria dizer:

--Est salva.




IX

    Mon Dieu! comme il est difficile
    De courre avec de l'argent!

                                  Thophile de Veau.

    Trocando com vontade pouco experta,
    Por incerta fortuna esta mais certa.

         C. Pereira de Castro. (_Lisboa edificada._)


Francisco Salter de Mendona, de Lisboa ao Rio de Janeiro escrevera um
diario, em que mais se accusava a si de ingrato que aos seus cavillosos
protectores de crueis. A saudade era encruada pelo arrependimento.

Ao passo que o horizonte da patria se perdia nas orlas do mar, o
atribulado mancebo j no sentia da esperana o conforto que o alentava
no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar elle
to longe, cada vez mais longe, de Carlota Angela. Ideiava e desfiava
todas as consequencias que podia trazer a sua formal rejeio do encargo
e da patente.

Se me prendessem,--escrevera elle no diario--que maior prova podia eu
dar a Carlota de que a minha liberdade, longe d'ella, seria o meu
supremo captiveiro?

Preso debaixo do co em que ella vive, teria a liberdade de
escrever-lhe, de animal-a, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos
ferros do meu carcere, e encher-m'o de quantas alegrias podem elevar uma
alma nobre sobre astucias de miseraveis tyrannos.

Seria grande mgoa para ella a minha priso, a minha baixa, a minha
quda irremediavel no principio da vida? Oh! de certo era; mas essa dor
desvanecel-a-hia a convico de ser to amada, to preterida  gloria, 
honra e aos sorrisos da fortuna!

Por que no lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater
aos olhos de todo o mundo, com tanto que me engrandecesse aos olhos
d'ella, d'ella, para quem eu queria honras, glorias, coras, mundos,
tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do corao que
lhe dei?!

E, depois, a minha priso seria de pouco tempo, porque os meus parentes
so poderosos, e o dinheiro do pae de Carlota exhaurir-se-hia ao mesmo
tempo que o corao de sua filha seria mil vezes multiplicado em apgo,
em gratido, em ternura, e coragem para affrontar commigo os obstaculos.

Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me-hia o governo em
demasia castigado com a baixa, com a desconsiderao e com o desprezo.
Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e de mais a mais
rebelde ao servio da patria. Que importava isso? Carlota Angela seria o
meu talisman; as riquezas brotariam de seu corao inesgotavel; todos me
invejariam ao p d'ella; apontar-nos-hiam como modelos de affeio, e de
honra na affeio, que to rara se encontra. Com o tempo, eu seria
chamado a merecer o premio de calcar a intriga, e o nosso po na
opulencia no seria mais doce que o po da pobreza.

Que fiz eu, homem vil, homem sem alma?

Mascarei-me com as palavras honra e dever, e estou deshonrado perante
Carlota! Impuz-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ella me
adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno carcere,
e no tive valor para me deixar perseguir por amor d'ella!

 corao duro, que assim te deshonraste com to baixo egoismo!

Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lagrimas pde
enxugal-as a razo, to vill como tu! Mentias n'esse pranto, abjecto,
avarento, que te sentiste sobresalteado de orgulho e alegria, quando as
dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil leguas distantes
de Carlota.

No sou digno de mais a ver, sem crar de vergonha, no! Se ella me no
escrever, se rasgar e pizar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o
cynismo de tragar a affronta, j que tive a villania de a merecer.

A estas paginas da consciencia opprimida, succediam-se outras de
lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimira com mais contrio de
alma, com mais doridos afagos  imagem querida que os recebe chorosa,
com devaneios de mais poesia amarga, d'essa que s sabem desentranhar do
corao os que sentem voluptuosa dor em despedaal-o.

Francisco Salter atravessara o Atlantico sem um amigo, sem um ouvido
attento onde contasse, com attrio de penitente, as saudades e
pungimentos que o laceravam.

Eram bellas as noites, era de magia o co estrellado, as luas-cheias no
mar parece que recolhem de mais perto, n'aquella vasta solido, as
confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de
leguas, a contemplativa amada veja n'ella os olhos do que a pranteia.

Mendona, porm, angustiava-se mais com esse espectaculo, s donoso de
extasis, e dulcissimo de espirituaes colloquios para amantes felizes.

E escreveu assim:

O desgraado no supporta as alegrias dos homens, nem as da natureza.
Se a sua alma est de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca
os mares, refervam as vagas batidas pelo ltego da tormenta; forre-se de
nuvens torvas o co, rebem em turbilhes, prenhes de coriscos; rua o
ultimo mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira tboa do
naufragado as fauces do drago que abre um abysmo em cada resflego.

O amanhecer no tem cantares, nem a tarde murmurios, nem a solido
arroubamentos para esse que a natureza repelliu de si, como leproso,
chagado no corao, contagioso de pestilencial desesperana.

Eu subi ha pouco  tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no
Candal, ao p de Carlota. No pude fital-a. Os meus olhos caram sobre o
dorso do mar, bem perto do navio, onde no chegava a refulgencia da lua.
Alli estive fascinado, n'aquelle ponto negro. Similhava-se-me a um
tumulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de
mulher que eu lanasse quelle abysmo...

E fugi, meu Deus, fugi, porque me no dstes um raio de esperana.

 Carlota, Carlota, matar-te-hia eu?!

Este fragmento de uma pagina, transcripto ao acaso, sirva para avaliar
que afflictivo tranzito lhe foram os cincoenta dias de viagem.

No desembarque, Francisco Salter de Mendona sentiu vergar o corpo s
commoes da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota
essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu
fogo. Eram estas as ultimas linhas da carta:

      *      *      *      *      *

Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso d'aqui j pedir-te o meu
perdo. A memoria de um morto  sagrada. Todas as ingratides e
villanias desapparecem com o miseravel corpo que os vermes desfazem.
Fica a alma no seio de Deus, ou fra do co. Se Deus acolher a minha, de
l te chamarei; se me repellir este espirito, purificado no fogo da
saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdo, porque tu s a unica
pessoa que eu offendi n'este mundo. A offensa, minha amiga, est
expiada. Tenho soffrido penas sobrenaturaes. Achei doura e suavidade no
supplicio, emquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame
vendilho que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porm, que
expelli em lagrimas a peonha do corao, ouso dizer a Deus que este
flagello  de mais... esta quda na sepultura, aberta no caminho de
palmas que eu de l vira,  um acto da Providencia que assimilha um
escarneo. No tenho foras nem vista para mais, Carlota. Compaixo, anjo
do co! Amor... no t'o mereo: seria duplicada infamia pedil-o agora.
Adeus.

Aps uma longa enfermidade, Mendona esperava alvoroado o paquebote que
fazia regulares viagens entre Portugal e o Brazil.

O corao afianava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas
accusando-o, outras absolvendo-o.

O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os
sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do
sangue; depois,  maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio,
a pallidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostrao, o cair
alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que
revia suores frios.

Aquietada a angustia, depois de enfurecidos impetos, Salter quiz
escrever, arrojou a penna, e levou as mos  fronte, como a segurar uma
ideia consoladora.

--Vou a Portugal!--murmurou elle--fujo, deserto, perco-me, mas vou a
Portugal. Carlota est morta, ou atraioou-me!

Este projecto foi-lhe um desafgo n'aquelle dia. Nenhum estorvo se lhe
avultava insuperavel. O governador chamara-o para lhe communicar as
ordens que recebera do governo e entregar-lhe officios do almirantado.
Dava-se pressa do reino ao capito da real brigada em executar os
trabalhos commettidos, visto que Portugal ia ser compellido a reunir-se
com Napoleo na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa
subserviencia com que, alguns mezes depois, a crte portugueza rompeu
com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxilio na
vilipendiosa e impolitica fuga.

No invejamos a gloria do historiador portuguez d'esse tempo, pelas
nauseas e vergonhas que lhe ha de custar a narrao exacta do
envilecimento a que descera a terra do marquez de Pombal. Se no fosse o
receio de enjoar o leitor, que l um romance, cansado de ler livros com
ideias, escrevia agora aqui uns threnos plangentes sobre a patria de D.
Joo I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro mdo, e vem a ser o de me ver a
braos com difficuldades na resposta aos que me perguntarem se a patria
de D. Fernando I e Affonso VI valia mais em dignidade, primor, e
independencia que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questes so estas
que desentoam aphonicamente da indole d'esta escriptura, mais que todas
sujeita a fazer-se ridicula, se d ares de ser obra de quem sorve uma
conspicua pitada, para julgar depois os reis e os povos.

O que se quer  saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de
Mendona; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraa.

Nenhuma das hypotheses.

No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Angela foi
visitado por um individuo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar
uma herana no Rio de Janeiro.

Mendona acolheu-o com alegria, suppondo-o portador de carta de Carlota.
Disse o portuense que viera alli dar-lhe uma nova, talvez desagradavel
ao principio, mas estimavel, quando a reflexo desvanecesse os effeitos
da m noticia.

--Que ?--atalhou Mendona--Estou preparado para o que for.

--Eu conheo Norberto de Meirelles, sou negociante como elle, e sei
todos os passos da sua vida. Soube que v. s. lhe pedira a filha em
casamento; soube que lh'a prometteu, para evitar que ella sasse
judicialmente; e tambem soube que elle roeu a corda, como costuma em
muitos outros contractos, quando o doutor Sampayo lhe participou de
Lisboa que v. s. era mandado para aqui.  isto verdade, ou no?

--, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira
responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com socego: D. Carlota
vive?

--Vive, e vive feliz, pois no vive!

--Feliz!... diz o senhor...

--Eu que o digo  porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. s.
espanta-se? Bem se v que est ainda muito verde, e no conhece o
mundo... Longe da vista, longe do corao. As raparigas d'agora so como
as ventoinhas. Palavriado, e mais palavriado; novellas e mais novellas;
crendices e papagaices; e de tino e juizo nem para mandar cantar um
cego.

--Eu no entendo essa mistura de anexins com que o senhor est
retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a
possivel clareza?

--L vou, snr. Francisco Salter de Mendona, l vou; mas ser bom que se
previna, se ainda me no adivinhou... A filha do tal snr. Norberto
confirma o dictado de que de ruim arvore, nunca bom fructo.

--Quer dizer que...--interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso
mancebo.

--O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de c vir com
similhante...

--Com similhante commisso?!--concluiu Mendona, erguendo-se em attitude
ameaadora.

--Commisso!--gaguejou o interlocutor com sensiveis signaes de
surprendido.

--Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.

--V. s. est fra de si!--tornou o atrapalhado homem, lanando a mo
ao chapo e  bengala--Eu no vim aqui offendel-o, e v. s. recebe-me
de um modo que eu no mereo... N'esse caso retiro-me.

Mendona, sofreando a clera, tomou-lhe da mo urbanamente o chapo, e
obrigou-o com branda coaco a sentar-se.

--Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve
passar-me por esta escandecencia propria de um rapaz ardente, com o
corao ainda intacto d'essas punhaladas que, muito repetidas, chegam a
matar a sensibilidade. Estou de animo frio para escutal-o. Queira v.
s. continuar.

--Eu...--disse o portuense, disfarando ineptamente o sobresalto--eu...
se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...

--Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o senhor me disser o
engano.

--Pois no adivinhou ainda? O senhor  esperto, segundo ouvi dizer, e j
ha muito que devia entender que a tal menina no o amava.

--Entendi agora--disse serenamente Mendona com habil artificio.--Mas,
como prova v. s. isso?

--Como provo?

--Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Angela, quanto
reputo v. s. um calumniador emquanto me no provar essa espantosa
novidade.

--As provas, n'este caso...

--So difficeis, bem o sei; mas o senhor ha de poder dizer-me: Carlota
no o ama, porque deu esta ou aquella prova de o no amar.

--A prova acho eu que  bastante dizer-lhe que ella, a esta hora, est
casada com outro.

--Essa  realmente a suprema das provas possiveis; mas, se lhe no
custa, conte-me os promenores d'esse casamento. Quem se diz to
intimamente informado da vida de Norberto de Meirelles deve elucidar
melhor as cousas. Quem  o noivo de Carlota?

--O noivo...--tartamudeou o homem, enfiando de novo.

-- do Porto?

--Sim, senhor,  do Porto.

--Como se chama?

--Chama-se... esquece-me agora... v. s. de certo no conhece, ainda
que eu lh'o diga...  um rapaz do commercio, que mora....

--Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordao do
nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na
rua de?...

--Na rua... de... ora que cabea esta!... O senhor atrapalhou-me de tal
modo que me fez perder...

--At a memoria das ruas!  original essa perda! Diga-me mais,
entretanto que lhe no lembra: Onde estava Carlota, quando o senhor sau
do Porto?

--Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no
convento...

--No convento de...

--No convento, sim, no convento de...

--Tambem perdeu a memoria dos conventos! Descanse, senhor portuense,
tome flego, e tranquillise-se, porque receio d'aqui a pouco, que nem do
Porto se lembre. Fallemos de outro assumpto. Como est Norberto de
Meirelles?

--Est bom, no ha mal que lhe chegue...

--Aquelle homem  rijo, sendo to magro!

--Isso  verdade!

--E sempre to pallido!

--Parece um defunto.

--Vejo que o senhor at perdeu a memoria do seu amigo Norberto!
Conhece-lhe os intimos segredos domesticos; mas no se recorda que elle
 gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D.
Rosalia contina a cantar com aquella angelica voz que ns lhe
conhecemos?

O noticiador estava tolhido de mdo. A esta ultima pergunta fez uma cara
de apiedar as feras. Salter cruzara os braos sobre o peito, cravara os
olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e
mandara-o sentar.  segunda vez, a offerta da cadeira era pouco urbana:
Mendona pozera-lhe a mo no hombro direito, carregando com fora
bastante para aterrar o ensoado hospede, que se julgara em perigo. Este
susto converteu-se em convico de pancadaria certa, quando Salter
correu a lingueta da chave.

--O senhor treme como todos os miseraveis alugados para uma aco
infame. No trema--disse Mendona--que eu no lhe fao mal. Se o no fiz
saltar por aquella janella, quando proferiu com menos respeito o nome de
D. Carlota Angela, agora de certo o acompanharei at  porta da rua.

Mas conte-me a sua vida. Essa presena  inculcadora. O seu trajar 
limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que officio tem o
senhor? Vive d'estas emprezas?

Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a noticia d'esse
casamento?

--V. s.... eu... obrigado pela necessidade...

--Diga; desengasgue-se d'esse n de vergonha que tem na garganta. O
senhor est entalado! Ora vamos: dizia o senhor--forado pela
necessidade...

--Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui...

--Esse homem  Joaquim Antonio de Sampayo.

--O mesmo  verdade,  esse...

--Designadamente para o fim de me avisar que a snr. D. Carlota casava?

--Sim, senhor.

--E no o ensaiou para representar melhor o seu papel?... O senhor
executou miseravelmente a commisso do seu mandatario, e precisa de uma
leve correco, para que ninguem mais se fie na sua destreza. O senhor
tem aqui papel e tinteiro. Escreva ahi, com clareza e verdade, o
programma que lhe deu o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo.

--V. s. quer-me perder!... eu sou empregado na intendencia...

--E receia perder o emprego? Homens do seu quilate no se deslocam por
to pouco. O senhor  um homem necessario ao Estado, e hoje mais que
nunca ao ajudante da intendencia, porque  depositario de um segredo que
o infamaria muito. Ora ande l; escreva. Como se chama? deixe-me ver o
visto do seu passaporte.

O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o brao
tremulo a Mendona, que proseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e
outro furtivo ao hospede:

--Escreva l: _Declaro eu Luiz Jos Godinho..._

A penna no escreve?!

O pallido Godinho  que no escrevia; e, se picara o papel muitas vezes
com o bico da penna, fora o tremor do pulso.

O silencio de Mendona, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho
para meditar um lance dos que a desesperao suscitam, quando ha a optar
entre dois perigos certos.

Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde animo do homem,
no se arreceiava do impetuoso salto que elle deu fra da cadeira,
lanando mo da grossa bengala.

--Deixe-me sair, quando no, atravesso-o com este estoque!--exclamou o
transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao
ventre de Mendona.

O que susteve o official de marinha firme no seu posto, foi mais o
espanto que a bravura.

--Ento?--bradou o amanuense da policia, livido e tartamudo como se
fosse elle o ameaado--Abre-me a porta, ou no abre? Olhe que eu passo-o
de um lado ao outro!

Francisco Salter afastara-se; Godinho correra  porta, vendo
desapparecer o adversario; rodara a chave com feliz exito; galgava o
corredor que o devia levar  escada; mas na extremidade d'esse corredor
havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de
Mendona, recuou o brao armado para impellir uma estocada porm a ponta
de um faim a duas pollegadas do peito, restaurou-lhe o juizo prudencial,
que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal
e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a
berros de possesso, tres vezes, sem tomar flego.

--Cala-te, miseravel, que ninguem te mata!--disse Mendona.

A fora accumulara-se-lhe nos pulmes: era um gritar de homem que
estrebuxa quasi esganado.

--Vae escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.

--Aqui de el-rei que me matam!

--Ento salta d'aquella janella abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te
recompense a fractura das pernas!

--Aqui de el-rei que me matam!

Mendona, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e
assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho
galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo
faltou-lhe o equilibrio, e resvalou de costas at ao patamar. Ahi, quiz
erguer-se; mas os musculos intercostaes desobedeceram  velocidade do
espirito. O primeiro amanuense da intendencia soffrera desagradavel
reforma na disposio das costellas: sem embargo, Azais notaria ahi uma
nova compensao: as cordas vocaes augmentaram de rigidez; os aqui de
el-reis eram cada vez mais estridentes.

Os visinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o
levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era
hospede.

Hospede do capito-general!

Isto inquietou Mendona e desenvolveu a inergia caridosa dos
circumstantes. Qual d'elles mais carinhoso e diligente em saber a
offensa para depr contra o offensor, porfiavam em conduzil-o nos
braos. Godinho dizia apenas, comprimindo as costellas, rebeldes ao
arquejar doloroso do diaphragma, que puxava por ellas:

--Sejam muito boas testimunhas que o snr. Francisco Salter de Mendona
me quiz matar, em sua propria casa!

Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo,  porta de Mendona, e
defronte das janellas, contando aos que passavam a tentativa de
assassinio perpetrada pelo official de marinha.

Luiz Jos Godinho trouxera da intendencia carta de apresentao ao conde
dos Arcos, e outras confidenciaes, sobre negocios do Estado. O
governador hospedara-o com distinco, julgando-o digno da hospedagem
pela confiana que apparentava merecer a Manique, e conhecimento, que
tinha, da causa mysteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o
custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.

Uma hora depois d'este successo, cujas consequencias no surprenderam o
imprudente moo, o capito da real brigada foi chamado  presena do
governador, e interrogado cerca dos motivos que lhe dera Luiz Jos
Godinho para tamanha ferocidade, em sua propria casa, que deve ser asylo
sagrado at para inimigos, quando se  cavalheiro. Mendona, enfadado
pelo ar supercilioso do interrogatorio, respondeu que fosse inquirido em
sua presena o offendido, que era essa a praxe da lei.

O governador espinhou-se, e mandou recolher  cadeia o official, para
ser entregue aos juizes do crime.

Francisco Salter de Mendona no grangeara amigos nem protectores no Rio
de Janeiro. O seu viver fora intimo e s, fra do servio. Entretinha-o,
na soledade, a amargura.

A justia ouviu com sobrecenho a defeza do joven official, e achou a
justificao inferior ao delicto. Godinho negava ter confessado o
embuste para que viera commissionado pelo ajudante do intendente geral
da policia. Os magistrados, porm, convictos de que o offendido era
pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros,
negaram ao preso, em ultimo recurso, o direito de se defender de um
estoque.

Mendona escreveu para o reino; mas Godinho voltara, so e correcto das
costellas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou
foi o bacharel Sampayo.

A situao do amante de Carlota Angela era extremamente infeliz.

Ao cabo de quatro mezes de carcere, sem novas do reino, nem absolvio
da culpa, perdera o animo e a esperana.

J lhe no era lenitivo o escrever no seu diario, porque a dor, ao
encadeiar-se na desesperao, seu derradeiro elo, quebrou no corao as
cordas onde soava o gemido.

Depois veio a furia, que contorce e despedaa, o impotente raivar contra
os homens e contra Deus, a tentao do suicidio, combatida pela imagem
de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova
d'ella.

Mendona tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro
que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque no
sabia consolal-o.

Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da
sua priso, e implorava aos juizes a liberdade do preso; alcanando
apenas para si repelles desprezadores e, muitas vezes vergoadas de
chibata sobre as lagrimas.

O escravo offerecera-se a Mendona para vir a Portugal com cartas. Esta
vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito
equivalente ao valor da cousa, no consentiria a sua saida, e Mendona,
desprovido de meios para a sua subsistencia, no podia garantir com
dinheiro a volta do escravo...

Conspirava tudo contra o desamparado moo. O proprietario do negro,
receioso de perder o aluguer, visto que Mendona lhe no pagara um mez,
chamou a si o escravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preo
mensal do seu unico amigo, e continuou a ver, perto de si, aquelles
olhos reluzentes de lagrimas, lagrimas que lhe faziam bem ao corao,
porque o mais desgraado dos homens  o que no tem sequer por si o
olhar compadecido de um co.

Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.

Trabalhava na difficil execuo d'essa traa, quando a escuna
_Guerra-voador_ chegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o principe
regente sara de Portugal para estabelecer a crte n'aquelle porto.

Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao carcere.

Francisco Salter apertou a mo do negro e disse:

--Seremos ambos livres, meu amigo.




X

     No ha corao sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de
     amar quem tem corao.

                          Fr. Antonio das Chagas. (_Obras espirituaes._)

     Vde agora se ainda persistis em vossa preteno, porque, se este
     modo de viver vos no contentar, tendes liberdade para ficardes no
     estado em que at agora vivestes.

                        (_Ceremonial da congregao dos monges negros._)


E Carlota Angela?

No dorme ainda o suspirado somno da morte sob a lagem humilde do
claustro. Vive a vida que faz compaixo, e, nas pessoas que amam, excita
o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor.

Creram-a moribunda em frequentes accessos: Rufina, Dorothea, e todas as
religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face
cadaverica, muitas vezes. Se, por instantes, tibio claro de vida lhe
retingia o rosto,  que a labareda da febre ahi vinha emprestar-lhe uma
reanimao convulsa,  qual succedia o esvamento, com o suor frio do
traspasse.

As oraes eram contnuas. A communidade ia do quarto de Carlota para o
cro, e do cro tornava ao quarto em ancias e esperanas que o fervor da
orao lhe dera.

De uma vez, encontraram-a tranquilla, risonha e desopprimida. Uma a uma,
Carlota chamou-as  beira do leito, apertando-lhes a mo, e murmurando
uma palavra inintelligivel.

s que choravam pedia que a no lastimassem, porque ella estava
consolada com a esperana de descansar. s mais idosas, e veneraveis por
sua santa vida, supplicava que a protegessem com os seus merecimentos,
pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas d'esta vida.

Perguntava pela me, mas, se lhe fallavam do pae, se lhe diziam que elle
vinha todos os dias saber d'ella, Carlota franzia a testa, e dava sustos
de crescimento febril.

Soror Rufina esperava que ella lhe fallasse de Francisco Salter;
Dorothea, a carinhosa novia, aventurava algumas palavras allusivas;
Carlota, porm, nunca permittiu  primeira, com o seu silencio, proferir
tal nome; e  segunda, debulhando-se em lagrimas, fazia com a mo um
signal de no poder ouvil-a.

Uma tarde, as duas meninas passeiavam no pomar: era a primeira vez que a
filha de Norberto de Meirelles saa do seu quarto.

--Quando professas tu, menina?--disse Carlota.

--D'aqui a tres mezes.

--J? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove mezes; mas ainda
temos tres mezes de companheiras de noviciado.

--Pois queres professar, Carlota?!

--Quero, Dorothea, quero; se me no valesse essa esperana, estava
morta. J agora, o que me resta n'este mundo  o bem de me julgar perto
de outro: d'aqui at l, quero estar vestida com a minha mortalha,
pedindo ao Senhor que... d o co...

Carlota, entalada por subitos soluos, no proseguiu.

--Diz, minha amiga... tu no me dizes tudo--acudiu Dorothea, abraando-a
com estremecido amor--ias fallar n'elle?... por que foges de me dizer
que ainda o amas no co?!

--Fugia de t'o dizer, Dorothea, porque o teu corao no pde avaliar
que amor era este que perda a um ingrato, e daria a vida para o
restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei
e perdi. Mais desgraada que eu ha uma s pessoa:  a mulher que o
adorava; e mais desgraado que ella e que eu,  elle, o infeliz, a quem
to pouco tempo o Senhor deixou gosar a mulher que o mereceu mais digna
do que eu fui, e no teria, talvez, um pae que a aviltasse aos olhos
d'elle.

--Como o teu corao  bom, Carlota!

--Bom? quem sabe! desgraado, sim, ou diz antes, Dorothea, que j no 
corao; s sinto a minha alma, s sinto este desejo do co; recordo
quanto amei, quanto soffri, e tudo aceito, e o mais que soffrer, com o
contentamento de uma penitente.

--Pois vers que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota!
Adopta-me como tua irm; viveremos to queridas e juntas, fallaremos
tanto do que sentirmos triste ou agradavel, que chegaremos a gosar a
existencia...

--No penses isso, minha amiga... Eu no quero dar-te quinho das minhas
amarguras. O meu curto viver ha de ser muito oppressivo para as pessoas
que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma
infeliz, como eu, precisa ser desafogado, ssinho, e aos ps de Deus.
Alegria? jmais, jmais, Dorothea... Bemdito seja o Senhor, que me d
esta casa para acostumar a minha alma a adoral-o, e me deu aqui exemplos
de virtude, sem os quaes, fra do convento, tinha-me tirado a vida n'um
d'aquelles frenesis de que tremo com a lembrana.

Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porm decorrido breve
intervallo de silencio, Carlota rompeu em gemidos, lanando-se ao seio
de Dorothea.

--Que tens, Carlota? Ainda agora estavas to socegada!...

--O que em cinco mezes se tem passado!--soluou ella--Morto!  possivel
que elle j no viva!... que eu esteja aqui, eu, meu Deus, eu que o
adorava at  perdio! e pde elle abandonar-me, esquecer-se da pobre
Carlota! Isto no pde ser, Dorothea!... eu nunca o vi morto nos meus
delirios, nunca, nunca o vi seno como na ultima vez que lhe fallei,
jurando-me um amor eterno... Ser isto uma falsidade? Ser meu pae que
prefere matar-me!? Diz, Dorothea, no te parece muito possivel esta
crueldade!

--Pde ser, Carlota!... quem sabe?! Olha, filha, tudo se ha de saber com
o tempo... Tem esperana, sim?

--Nenhuma!--replicou ella, cando da instantanea exaltao--no tenho
esperana nenhuma! Se elle vivesse escrevia-me.  certo,  horrivelmente
certo que no vive, que me desamparou, que foi castigado com a morte por
ter assassinado uma amiga que se perderia por elle... Est tudo acabado,
tudo, meu Deus, menos este peso de vida com que j no posso...

Carlota Angela recolheu-se taciturna ao seu quarto, e escreveu a sua me
uma breve carta, em que lhe pedia o consentimento de seus paes, e as
licenas necessarias para entrar no noviciado.

D. Rosalia quiz procurar Carlota; Norberto de Meirelles, receiando que
sua mulher deixasse escapar algum ligeiro indicio de viver Francisco
Salter, encarregou-se da resposta. Estas suspeitas fundavam-se nas
querelas continuadas em que andavam, por causa de Carlota. D. Rosalia,
algumas vezes, reprovara o zelo de seu irmo, e dureza do marido,
mrmente depois que a freira lhe vaticinara a morte de Carlota.
Norberto, escarnecendo, com lerdo desdem, o prognostico, impunha
grosseiramente a D. Rosalia o calar-se, at ver em que paravam os taes
fanicos da rapariga.

Depois, porm, que a viu convalescer, o arrozeiro chasqueava os
vaticinios da cunhada, e aceitava de melhor vontade a proposta da filha,
na esperana de a curar da loucura, durante o anno do noviciado, com os
recursos que o cunhado doutor promettia espiritar-lhe, consoante o
andamento do tempo, bom para tudo.

Antes, porm, de diligenciar o contracto do noviciado para a filha,
Norberto de Meirelles mandou-a chamar, e Carlota, admoestada brandamente
por soror Rufina, obedeceu.

--Vamos a ver, menina, que mania  essa de seres freira?--disse elle.

--Isto no  mania, meu pae,  aceitar com reconhecimento a consolao
unica, e a melhor que Deus me d n'este mundo, com esperanas de outro
melhor.

--Beatices que te metteu na cabea tua tia... Deixa-te d'isso, Carlota;
o convento  para quem . Nunca te vi inclinao para este modo de
vida...

--A religio no  modo de vida, meu pae,  regra de vida.

--No me ds sentenas, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto
aqui  para sempre. Se professares, no tens remedio, ainda que te
arrependas;  d'aqui p'ra Christo.

--Pois d'aqui para Christo  que eu quero ir, meu pae. Saiba que 
inutil contradizer-me. A fora que eu sinto em mim para ser freira 
invencivel. No me tolha a alegria, se  alegria este santo desejo de
vestir o habito. Os obstaculos podem mortificar-me, mas no mudam o meu
proposito.  escusado embaraar-me. Offereci-me ao Senhor, quando cuidei
de morrer de dor, pedindo-lhe allivios; senti-os, o Senhor apiedou-se de
mim;  que a misericordia divina me aceita do modo que eu mais digna me
posso fazer de morrer em paz.

--Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser novia um anno, veremos como
se te reviram as ideias.

--Pois sim, meu pae; se eu me no achar com foras de servir a Deus,
dir-lh'o-hei, e sairei do convento.

-- o mais certo, e vers como te ha de parecer bom isto c de fra. Tu
s bonita, s rica, s prendada, podes casar...

--Meu pae! por quem  no continue...

--Ento que tem isso? J c te disseram que o casar  crime? Boa vae
ella! Ainda ha seis mezes que estavas n'outras ideias...

--Se o pae faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu
escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu no venho aqui...

--Isso  modo de fallar a teu pae, Carlota! C dentro ensina-se a dizer
isso a quem te creou, e trabalha para ti ha trinta annos? Cuidadinho
commigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que
eu sou um mono de palha, engana-se...

--Que mal lhe fez minha tia?

--Que me fez?! Encheu-te essa cabea de teias de aranha, l com as suas
arengas do beaterio, e deu-te auso a responderes com poderio a teu pae!

--Eu no o offendi...--atalhou ella, chorando--Pedi-lhe que no fizesse
sangrar uma ferida de que estive  morte... Quem for meu amigo, ha de
querer que eu ache allivio em alguma cousa; se a religio m'o d,
deixem-me ser freira, e no me fallem em casamentos impossiveis. Ora
aqui est o que eu supplico a meu pae; se isto o offende, perde-me; e
se  offendel-o no vir  grade para ouvir palavras que me amarguram,
virei todas as vezes que o pae quizer.

--Est bom; basta de chorar. Vae-se tratar dos arranjos para o teu
noviciado. Deus lhe ponha a virtude, e te guie para o que for melhor. Eu
ainda espero ter-te commigo, alegre e folgaz como eras antes de
conhecer esse homem que...

--Meu pae!

Carlota Angela erguera-se sobresaltada, e Norberto estacou, sopeando a
ira que lhe espertara a vehemencia, um pouco soberba, da filha. A ira
degenerou em um sorriso, cuja verso no acho no meu elucidario de
sorrisos sandios.

O arrozeiro, receioso de _esbarrondar-se_, como elle depois dizia a D.
Rosalia, saiu da grade, onde a filha permaneceu longo tempo enxugando as
lagrimas, para simular socegado o semblante.

Um mez depois, entrava Carlota Angela, com a mestra de novias e a
cantora, no cro, onde se reunira a communidade.

A dona abbadessa empunhando o bago, insignia magestosa da prelazia,
estava no tpo das duas alas de religiosas, solemnes e magnificas com
suas roagantes coglas. O claro tremente dos cirios banhava o recinto
de bao esplendor e sombras magestosas.

A tres passos distantes da prelada, que lhe sorria com maternal caricia,
Carlota prostrou-se com a face em; terra.

A humildade com que fizera a reverencia, o subito rompimento das
lagrimas, que a novia no podera represar, a voz compungida da prelada,
proferindo o _quid petis_, e o soluo tremido de Carlota, respondendo
_misericordiam_... a misericordia de Deus e a vossa, a terrivel
magestade do silencio, durante as genuflexes da novia; todos estes
actos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o corao das
religiosas a ponto de correrem lagrimas por todas as faces, no momento
em que a prelada, commovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada
ante si: _Surge_, levanta-te.

A novia voltou-se com as duas religiosas para o altar-mr, enxugou as
lagrimas emquanto fazia as reverencias do ceremonial, ajoelhou de novo
aos ps da prelada, que proferiu uma breve pratica cerca das
gravissimas obrigaes que a novia contrahia com o promettido esposo.
Carlota ouviu-a com as mos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto
venerando da abbadessa, onde a graa, ternura e o sorriso da bondade
eram um como suave encarecimento s virtudes que aconselhava, e estimulo
para merecer no co o galardo de as praticar.

Carlota lanou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabea. Longa
e farta trana de cabellos negros se desenrolou at  cintura. Uma
freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trana, que depz
em uma bandeja. A mestra de novias cingiu-lhe a touca branca, e a
prelada lanou-lhe aos hombros o habito ou mantilha. Carlota, durante
este acto, parecia no sentir, no perceber a profunda e dolorosissima
significao que elle deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do
mundo, onde todas as suas esperanas foram cruelmente desmentidas.

Estavam de joelhos todas as religiosas, ella, entre a mestra e a
prelada. As cantoras entoaram o hymno: _Veni, creator spiritus_. Era um
canto melancolico acompanhado a orgo; um mystico e lagrimoso offertorio
da alma atribulada ao supremo consolador das angustias. Cantada a
primeira estrophe, ergueram-se todas, excepto a novia. Seguiram-se os
versiculos e oraes entoadas no cro e no altar-mr. A mestra de
noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a ceremonia; a
novia, porm, continuava ajoelhada com as mos entrelaadas sobre o
peito. Recommendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ella
estremecia, como se j no podesse sustentar a violencia da posio.
Carlota no se erguia, at que lhe deram a mo, e encontraram frias de
neve as d'ella. Fizeram vo esforo para levantal-a, algumas freiras que
a rodearam. Carlota no respondia, apenas respirava; quiz obedecer ao
impulso que lhe davam para erguer-se, mas  pallidez, ao turvamento da
vista, seguiu-se o desmaio.

Soror Rufina, Dorothea, e as outras ergueram o alarido do susto. Na
igreja estava a me de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando,
recitando Padre-nossos machinalmente, e promettendo a Deus confessar-se
da sua culpa, se era culpa ter occultado a sua filha o engano que o tio
doutor lhe urdira, arranjado com o pae.

Quando, porm, os ais do cro chegaram aos seus ouvidos, com as
exclamaes afflictas de Rufina, D. Rosalia sau da teia de um altar,
veio s grades do cro de baixo, e rompeu em brados desentoados,
chamando a filha. O capello-mr, vestido de sobrepeliz, estola e
pluvial, veio lembrar  lamuriante senhora, que a sua gritaria no era
propria da casa de Deus. D. Rosalia replicou, menos commedida, que
queria c fra sua filha, viva ou morta. E n'esta altercao estiveram
ella e os capelles, recreando uns e fazendo chorar outros dos
circumstantes, at que soror Rufina e outras freiras vieram  grade do
cro aquietar a me de Carlota, dizendo-lhe que o incommodo fra um
passageiro desmaio.

E assim fora, felizmente.

Carlota voltou a si, quando a me gritava. Os brados fizeram-a sair do
cro vacillante e alvoroada. Quizeram encaminhal-a  cella; mas Carlota
sabia que era costume ir a novia, finalisada a ceremonia, visitar as
doentes.

Foi; e s mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente,
rogassem a Deus que a levasse para si.




XI

     Pois ainda no ouvistes de seu valor o maior encomio.

                Jos de Sousa (o cego). (_Obras posthumas._)

     Vereis amor da patria... etc.

                                Cames. (_Lusiadas._)


Junot, a marchas foradas, esperanoso ainda de obstar  saida da
familia real, ia sobre Lisboa. A regencia desnorteou com a imbecilidade
rara de que era dotada; a classe mdia, presumindo a tyrannia proxima,
ainda quiz debalde oppr um dique  invaso; mas a populaa, sedenta de
anarchia, onde sevar temporariamente os vis instinctos, remoinhava,
alegre e enthusiastica, rugindo como o tigre que fareja o sangue.

Joaquim Antonio de Sampayo foi, n'essa poca, a preexistencia dos
grandes homens, das summidades estadistas dos ultimos vinte annos.
Avaliando quanto difficil seria acertar com o caminho seguro na
encruzilhada das perspectivas politicas, no preferiu algum, e
aceitou-os todos como conducentes  prosperidade, quando a fortuna,
filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu
predilecto.

Sampayo lamentava com Manique o desamparo em que ficara o reino pela
impolitica e precipitada fuga do principe regente. Incriminava com os
fidalgos a cobardia de similhante desaire para o paiz dos Pachecos e
Albuquerques. Ouvia com acquiescencia os murmurios da nobreza contra a
dynastia bragantina, murmurios timidos, que mais tarde se formularam
n'uma vilipendiosa petio, requerendo ao usurpador um rei da sua
escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara consciencias to
degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, Antonio.

Com a classe mdia, Sampayo bociferava contra os francezes, e promettia
sacrificar nas hecatombas da patria a sua ultima pinga de nobre,
generoso e patriotico sangue. Todavia, exhausto o flego das imprecaes
retumbantes, e accendida a flamma do heroismo nos peitos burguezes que
se apinhavam nas praas, Sampayo, passando da iracundia ao reflectido
exame das circumstancias, dizia que a sublevao popular seria um
desatino sem proveito, um sacrificio de vidas e fazendas intempestivo e
inglorio para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de
homem que privava no segredo dos destinos de Portugal, conselhos de
paciencia, de resignao, e, mais que tudo, de maxima prudencia na
entrada de Junot.

Relacionado com a plebe, em razo do seu ministerio na intendencia geral
da policia, o antigo advogado da rua de Santa Catharina insinuava-se nos
grupos desordeiros e respondia com impertigamento de oraculo s
perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleo, dizia elle que no
era o impio que se dizia. Napoleo, e os seus generaes, no saqueavam as
igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem
violentavam a virtude das donzellas, nem attentavam contra a liberdade
do povo. Pelo contrario--continuava elle, baixando cada vez mais a voz,
e relanceando o olho observador por sobre as physionomias suspeitas que
chegavam de novo--pelo contrario, Napoleo queria mudar a face das
cousas em favor das classes opprimidas, chamando o povo  partilha dos
regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco e pouco
atravs dos seculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleo, e
acclamava general o doutor Sampayo, que se esgueirava surrateiramente
pela primeira brecha que a agitao lhe proporcionasse.

D'alli, ia  intendencia dizer a Manique o fermento que azedava os
rasteiros instinctos da canalha. Alvitrava o emprego da fora armada
para dispersar os bandos, com prudencia; e, compungido de patriotica
lastima, deplorava o indiscreto arbitrio dos palacianos que aconselharam
ao principe uma fuga to calamitosa no instante em que o prestigio da
nacionalidade estava na presena do soberano.

Fora nomeada uma deputao para cumprimentar Junot. Alm dos
expressamente enviados pela regencia, Joaquim Antonio de Sampayo
associou-se na deputao com alguns particulares, que se davam pressa em
depr aos ps do invasor a poro infame do paiz que elles
representavam.

O ajudante do intendente arremedava a lingua franceza, e fazia-se
entender melhor que o deputado da regencia, o tenente-general Martinho
de Sousa e Albuquerque.

Junot, em Sacavem, chamou Sampayo a uma conferencia particular, e
informou-se de cousas que a deputao no elucidava por astucia, ou por
ignorancia da lingua. O certo  que o general francez, maravilhado do
bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessario,
agradeceu-lhe com um aperto de mo os servios prestados ao reformador
da Europa, e prometteu-lhe acrescental-o, quanto em si coubesse, em
honras e fazenda.

Chegados a Lisboa, as proclamaes que circulavam entre a populaa eram
de Sampayo. N'ellas se aquietava o espirito publico, dizendo-se que o
excellentissimo senhor Andoche Junot, heroe de Toulon e de Nazareth, era
o emissario da paz, da ordem, e da prosperidade portugueza; que a
propriedade era sagrada para o exercito do imperador da Frana; que a
virtude das virgens, e das menos suspeitas d'esse respeitavel estado,
era inviolavel; que ninguem fugisse de suas casas, nem viesse para a rua
fazer assuadas, algazarras, ou outras que taes manifestaes de desordem
e descontentamento.

O bacharel Sampayo ajudara, na vespera do embarque da familia real, a
encaixotar as pratas da patriarchal, que deviam acompanhar os reaes
emigrados. A celeridade, porm, do embarque, fez que os quatorze carros
de preciosos objectos ficassem no caes de Belem, e voltassem, com grande
jubilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampayo,
emquanto se encaixavam as riquissimas bandejas, castiaes, coras,
lampadas, etc., resistira heroicamente aos assaltos da ladroice, que lhe
estavam segredando o modo de empalmar algumas peas miudas de
preciosissimo trabalho. Pde sopear a tentao; mas no via, sem grande
mgoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga to valiosa. Um tal
ou qual allivio o desopprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra
os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o tecto protector
da sua igreja. Sampayo, a proposito d'isso, asseverou s freiras de
Santa Anna, onde almoava todos os dias, que andava alli milagre
n'aquella reconduco! No acreditava elle, porm, que o milagre fosse
perfeito e averiguado, emquanto um bom quinho d'aquella prata no
entrasse em casa d'elle. Convencido do trabalha, que eu te ajudarei, o
bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse.

O processo no deixa de ser engenhoso: engenho  a palavra com que a
civilisao, ainda ento embryonaria, substituiu a palavra ladroeira
dos costumes, das biographias, e das aces humanas, que, por fora do
progresso, ho de ir perdendo a nomenclatura aspera e illogica que lhe
davam os gothicos moralistas de carcomida memoria.

O engenhoso Sampayo (diga-se assim de um homem que merece o respeito que
se presta aos contemporaneos, apesar do seu atrazo de meio seculo), o
engenhoso bacharel pediu uma audiencia particular a Junot, e
denunciou-lhe a existencia de quarenta caixes de prata na igreja
patriarchal.

Junot chamou seu cunhado, que por signal se chamava Jufre, e
commetteu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao servial e
benemerito denunciante.

Os dois, com alguns operarios de confiana de Sampayo, entraram na
igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixes, excepto
dois, que no foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os
inventariar em sua casa, para onde foram transportados, ao escurecer.

Completou-se d'esta arte o milagre, que Sampayo, em beatifico extasi,
agradeceu toda a noite, contemplando uma a uma as formosas e corpulentas
peas que tencionava fundir em baixella de seu servio, quando melhores
dias de ordem e tranquillidade fossem concedidos ao desgraado Portugal,
que elle continuava a prantear com as freirinhas de Santa Anna.

Dera-se, entretanto, o costumado reviramento na opinio da plebe.

Junot no sabia, no podia, nem devia esconder as suas intenes
usurpadoras.

A bandeira franceza fora arvorada no castello de S. Jorge. As armas
reaes do arsenal foram picadas. Do parapeito do seu camarote abaixo,
Junot desenrolara as aguias vencedoras. As costas populares, n'uma
desordem do Terreiro do Pao, tinham sido apalpadas pelas cronhas
francezas. Nove portuguezes tinham sido espingardeados nas Caldas.

Dissolvida, em summa, a regencia, fora inaugurado o governo de Napoleo.

A populaa, portanto, bramia, e sobretudo, porque a sua fora era nulla,
o seu poder desprezado, a sua fome e sde cada vez mais insaciavel pela
careza dos generos. Havia um s meio de entreter-lhe as sanhas, ou
captar-lhe as sympathias: era quebrar os poucos esteios da ordem,
defendidos ainda pelas armas francezas, era facilitar o saque por meio
da anarchia.

A plebe, quando lobrigava Sampayo, cercava-o, pedindo-lhe conta das
promessas que elle fizera. O expedito bacharel desfazia-se dos
importunos, recommendando-lhes paciencia, e esperana nos serenos dias
que se haviam de seguir  crise indispensavel n'uma instituio de
principios novos, creada expressamente para o bem geral.

O povo ouvia-o com escarneo, e apupava-o, quando elle abria com os
hombros passagem para escapar-se.

Uma vez, porm, passava o bacharel na rua da Amendoeira, onde, por esses
tempos, se arruava a escoria das meretrizes, e se abandoavam os
condignos hospedes. Conheceram-o, e fizeram-lhe assuada.

Um gaiato de maus figados, instigado pela celeuma, saltou ao costado do
bacharel, e enterrou-lhe, com retumbante penantada, o chapo at aos
queixos. A gargalhada publica victoriou o garoto, incitando-o a maiores
emprezas, e aguando o estimulo dos emulos. Outro gaiato, cioso dos
applausos, capeava-o pela frente com um leno vermelho de uma meretriz,
emquanto um terceiro, um quarto e um quinto lhe achatavam o chapo, que
j no podia restaurar o antigo prumo. Uma alcouceira lanava-lhe ao
tiracollo uma restea esbrugada de alhos, emquanto outra lhe mettia na
portinhola da casaca, uma couve lombarda. Esta por um tubo de lata lhe
assoprava feijes  cara, emquanto outra lhe pendurava um rabo-leva de
papel na casaca, ou lhe esguichava fetidas asperses com a seringa
carnavalesca.

Sampayo gritava por soccorro. Alguns soldados portuguezes e hespanhoes,
que por alli estanciavam, mantinham a neutralidade, ou riam  socapa do
infeliz gbo. O bacharel, vendo passar uma guarda de soldados francezes,
bradou ao commandante, dizendo-lhe em francez que era victima da
canalha, porque adorava Napoleo.

O francez varejou com a espada as costas dos gaiatos; porm, as
rameiras, o povo, os gaiatos, animados pelos soldados portuguezes e
hespanhoes, fizeram meno de apedrejar os francezes. Travou-se uma
sanguinolenta desordem,  qual Sampayo deveu a evasiva.

A clera no lhe deu respiro, at entrar no palacio de Junot. Queixou-se
amargamente, dizendo que os amigos da Frana eram as primeiras victimas
dos inimigos do imperador, n'um paiz de que Junot brevemente seria o
monarcha.

O governador de Portugal enviou Sampayo ao intendente geral da policia
Lagarde, com especial recommendao, e poderes discricionarios.

Dos soldados portuguezes, alguns foram lanados na enxovia, outros
deportados, e as meretrizes da rua da Amendoeira, rua Suja, e
immediatas, depois de rapadas  navalha, e vergastadas no pateo da
intendencia, foram desterradas para o Alemtejo.

Parece-nos opportuna n'este logar essa pagina ridicula da biographia de
um homem, que merecia ter mais ampla chronica, em vista do tragico
desfecho que no proximo capitulo se dir.




XII

     Nous en avons les preuves irrcusables sous nos propres yeux.

                                      Volney. (_Leons d'Histoire._)

     Eis-aqui como o diabo os leva para o inferno sem appellao nem
     aggravo.

                  S. S. da S. e Silva. (_Governo do mundo em secco._)


Junot recebera do imperador a graa de duque de Abrantes. Felicitaram-o
as corporaes civis e militares, e muitos particulares da alta nobreza,
mercancia que o francez fizera sem blandicias nem razes de Estado
persuasivas. A consciencia d'estes miseraveis transigira com o renegar
tradies, nome, patria, pudor, e honra, logo que as palavras
contribuio e confisco os ameaou de expiarem na dureza das nobres
privaes a repleo estomacal de seculos. O conde da Ega, Ayres de
Saldanha, o bispo do Porto, o principal Miranda, e outros que mais
avultam na veniaga torpe, so uma parcella no rebanho das ovelhas
tinhosas, immoladas na sua dignidade aos ps do soldado aventureiro, que
lhes cuspira na cara o preo das almas, e nas quinas portuguezas a
affronta d'elles.

Emquanto estes, envilecidos como nunca fora nao usurpada, pediam a
Napoleo um rei francez, e nomeadamente Junot I para a terra de D. Joo
I e D. Manoel; emquanto os fidalgos de sangue phenicio, carthaginez,
suevo e godo, sem mescla do judaico, requeriam a Junot os empregos
desamparados por outros fidalgos, que acompanharam o regente para o
Brazil, aterrados de pavor, e, como elle, acocorados ao p das velhas
aafatas de D. Maria I; quem eram os portuguezes de consciencia e
esforo n'esta nao desmembrada, n'esta metropole de tamanha parte do
mundo, offerecida pelos netos dos que a conquistaram a um soldado
francez?

Alguns ergueram a fronte, sem o ferrete da venda, por entre a turba dos
nobres, que a devassido herdada enfraquecera e deixara car no tremedal
d'onde o historiador severo ha de buscal-os para os inscrever no livro
dos paroxismos vergonhosos da raa de piratas, que pouco tempo logrou o
fructo dos seus flagicios.

Esses, que levantaram o rosto sem mancha, para saudar no throno
reerguido o degenerado neto do Mestre da Aviz, eram uma classe menos
timida que a do vulgacho, a mais quieta na sua obscuridade, a que fora,
nos dois ultimos seculos, pouco e pouco espoliada dos seus antigos fros
municipaes, a classe mdia, emfim, cuja importancia na cidade
delimitava-se a engrossar a veia da thesouro.

Foram esses homens, robustos de seiva e espiritos nacionaes, os unicos
que se concatenaram em reaco, surda e tenacissima na oppresso, contra
os tyrannos; foram esses os tributarios liberaes de fazenda e sangue 
restaurao duvidosa do throno, que lhes pediu, depois, com que reparar
o antigo fausto; foram, para tudo dizer de um trao, foram elles os que
nunca esmoreceram no resgate da terra captiva do Encelado, que quizera
abarcar o mundo entre as duas extremidades da sua espada invencivel,
salpicada com o sangue de naes poderosas.

O bacharel Joaquim Antonio de Sampayo ( de quem o leitor supercilioso
quer que se lhe falle, e da melhor vontade me dispensa de reflexes
impertinentes, que me manda pr de conserva para quando escrever um
livro serio, grave, e reflectido, que ninguem ha de comprar): o bacharel
Joaquim Antonio de Sampayo vestiu-se  crte, de chapo armado, espadim,
meia de seda, e fivelas de prata. Disseram que estas fivelas tinham
pertencido a um santo da patriarchal: isto parece-nos calumnia.
Folheamos, e esgaravatamos o agiologio europeu, e no deparamos santo
contemporaneo das fivelas. O historiador veridico rejeita, como Tacito
na biographia dos grandes scelerados de Roma, as toardas de phantasia
para infamar caracteres onde sobejam crimes provados para a execrao
universal. Desculpem a intumecencia do estylo, que a materia no  tanto
de sco, como  primeira vista parece.

O duque de Abrantes recebeu affavelmente o bacharel, e, na presena dos
fidalgos, que estendiam j a mo soberba ao ajudante do ex-intendente
Manique, entregou-lhe a nomeao de juiz para um tribunal especial
militar, creado no Porto por decreto de 9 de maio de 1808.

O fim ostensivo d'esta alada era punir os perturbadores da segurana
publica, nos variados delictos que a legislao do reino no previra.

A sentena d'este tribunal era executada no praso de vinte e quatro
horas, sem revista ou appellao.

O bacharel agradecido caiu de joelhos aos ps do duque de Abrantes, que
se dignou levantal-o pela gola da casaca; os copos do faim, porm,
travando-se na fivela do calo, rasgaram-lhe a meia na barriga da
perna, abrindo fenda por onde regorgitou uma almofada supplementar 
tibia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os
fidalgos riram tambem. Sampayo, ligeiramente corrido, arrancou o musculo
de algodo, escorchou-o entre a mo nervuda, e pediu licena para ir
remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde da Ega
ao fidalgo immediato, s nas pernas postias do seu dono faria tamanho
estrago.

O juiz do tribunal militar partiu, no dia immediato, para o Porto, onde
era preciso refrear os animos indomados dos portuenses.

Norberto de Meirelles contou de novo a seu cunhado o j dito em longa
carta, que Sampayo no lera, cerca do noviciado de Carlota.

--Tudo se ha de remediar, que temos muito tempo--disse o bacharel.--Em
ultimo caso, nunca ella ha de alcanar licena regia para a profisso.
Agora, do que se trata,  de me pres a bom recado estes dois caixes de
prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o
principe para o Brazil. Cuidado com isso, que esto ahi alguns contos de
ris, e eu fiz responsavel a minha honra  entrega d'estes caixes, logo
que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe
alcanar do meu particularissimo amigo duque de Abrantes.

--E que me diz o doutor a respeito do snr. Junot?--disse Norberto de
Meirelles--Pelos modos, ouvi dizer que elle j est despachado rei de
Portugal!

--Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde da Ega e
Ayres de Saldanha trabalhamos para a sua acclamao.

--Ento o cunhado  amigo d'esses governos l da crte? Com effeito
sempre lhe digo que o que o doutor no fizer, no o faz o deanho.
Aquella de fazer ir o pintalegrete pela barra fra, custou carita, mas
fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor!

--E acha muito? No foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha
influencia. No sei se sabe que Francisco Salter de Mendona mexia na
crte os pausinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu
dinheiro e da minha influencia, e vir ao Porto tirar Carlota
judicialmente!...

--Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por l, grande cousa era! Estou
a arreceiar que elle volte antes d'ella professar.

--No receie, Norberto. O principe no volta mais a Portugal, e o tal
marinha c estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas d'elle, est
tudo prevenido para que no chegue alguma s mos de Carlota, e a esta
hora est elle convencido de que ella casou.

--Homem, essa!...  doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da
sua agencia! O cunhado  capaz de fazer com que ella esquea o homem, e
torne para a minha companhia! Faa isso, que lhe dou uma mula arreiada
de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal.

--Nada de susto, mano. Voss no sabe o que so mulheres. A rapariga tem
ventas e caprichos; o acertado  deixal-a barafustar, e ella vir c
ter ao caminho das outras. De paixo ninguem morre; e, no convento, isso
ento digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas do tanto aos
taramelos em cousas de amor, que lanam o amor pela bca fra, em logar
dos figados. Deixe-a l estar  vontade, e d-lhe a entender que o seu
maior gosto n'este mundo  vel-a freira. Nada de contradizel-a. Mulheres
e creanas amuadas  deixal-as renhir. Se vosss comeam a carpil-a,
ento no fico pelo resto.

--Ento o doutor no vae l tirar-lhe a tolice do miolo?!

--No, senhor, no vou,  escusado l ir, e se for  para lhe dizer que
muito me agrada a sua resoluo, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a
liberdade do mundo, e pintar-lhe com cres tristes o jugo do convento.
Assim  que se levam as mulheres, snr. Norberto, e, se ellas teem a
soberba de Carlota, ento nada de disputar. A astucia manda dizer com
ellas, at as fazer passar  contradico, porque a harmonia 
impossivel em indoles orgulhosas.

--Oh doutor! o senhor tem uma labia que revira a gente! Homem, eu estou
a dar-lhe razo! Parece-me que o melhor  isso! Est dito! deixemol-a l
com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso 
minha Rosalia; mas, antes que me esquea, cunhado, esta cousa de governo
est segura?

--Segurissima.

-- que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que dsse e
viesse.

--No tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como
debaixo da terra. Sabe o que ha de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos
meus caixes de prata, e v enterral-os na adga do Candal. Eu tenho
mais mdo  canalha nacional que aos soldados de Napoleo. Quando correu
na capital que s. exc. o snr. governador ia dar a Lisboa a saque,
saram para as praas as turbas da gentalha portugueza, esperando a hora
do assalto. D'estes  que eu tenho mdo, e por isso sou de parecer que
se acautele o nosso precioso, com summa prudencia. O Candal  bom sitio,
porque fica arredado da estrada. Ponto est que o mano encarregue o
servio de enterrar os caixes a pessoa fiel, que no denuncie o
escondedouro.

--No me fio em ninguem, cunhado. Quem ha de enterrar esse todo-nada de
dinheiro que por ahi est, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu,
se Deus quizer.

Assentiram n'isto, e, logo no dia immediato, Norberto de Meirelles pz
mos  obra, com o auxilio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte
para o Candal com disfarce. Os caixes sairam de noite, e os
conductores, depondo-os no quinteiro da quinta, no poderiam malsinar o
local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem
esquadrinhal-o.

Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosalia e o proprietario das
pratas da patriarchal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e
ficou assim desaffrontado dos sustos que lhe traziam o animo opprimido,
desde que Francisco Salter de Mendona lhe presagiara um possivel
assalto ao seu dinheiro.

Sampayo, atarefado com o julgamento dos ros processados no tribunal de
que elle era juiz inconfidente, s teve ensejo de visitar Carlota, um
mez depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a me, que de
proposito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado
repugnancia em receber a visita do tio.

O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, comeou por
louvar e abenoar a acertada resoluo de sua sobrinha, exaltando os
merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com ss doutrinas
preventivas contra as tentaes do demonio, acerrimo inimigo dos votos
claustraes.

Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosalia com enfado. A boa senhora
no comprehendia a esperteza de seu irmo, e confrontando-a com a
estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do
outro. Foi-lhe  mo com as suas razes cem vezes repetidas  filha.
Chorou copiosamente, pedindo ao irmo que desvanecesse a teno de
Carlota; e a esta, com ternas supplicas, implorava que sasse do
convento, se no queria cdo ficar sem me.

Carlota respondeu que a perda de sua me lhe seria muito sensivel; mas
que estava deliberada a aceitar todas as mortificaes que o Senhor lhe
mandasse, com tanto que podesse offerecer o corao espedaado ajoelhada
no altar, onde jurara votos de eterno sacrificio.

Joaquim Antonio de Sampayo, piscando o olho  irm, louvava de novo a
devoo de Carlota, e citava-lhe, como para acoroal-a, quatro exemplos
de santidade no convento de Santa Anna de Lisboa, onde elle almoava, e
contava os milagres da prata da patriarchal, salvo o ultimo.

Carlota, sando da grade, foi pedir a Deus perdo do odio que tinha a
seu tio. Soror Rufina, confidente d'esta ruim paixo, orou com ella, e
penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em
que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternaes conselhos que
lhe dera, e o applauso com que a ajudava a defender-se das instancias de
seus paes.

O bacharel, maravilhado d'esta carta, modificou a sua opinio a respeito
da sobrinha, e planisou uma nova traa para despersuadil-a. Qual ella
fosse, no sabemos ns, porque no houve tempo para executal-a.

Sampayo exerceu as funces do juizado quatro mezes, e foi despachado
juiz de fra para uma pingue comarca do Minho. A causa d'esta mudana,
ingrata ao despachado, explicou-a elle como grandemente honrosa para si,
dizendo que a moderao das suas sentenas desagradara ao governo. O
governo, porm, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes
que representavam ros dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor
recato, avultosas quantias.

Partiu para a sua comarca o juiz de fra, recommendando ao cunhado que
vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua
deshonra. Por essa occasio, entregou-lhe um caixosinho supplementar
aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de ris,
de seus ordenados e propinas, e mercs dos beneficios que fizera
caridosamente aos ros absolvidos no terrivel tribunal.

Dispensam-nos de boa vontade a historia sabida dos decorridos successos
que expulsaram os francezes do territorio portuguez.  certo que o juiz
de fra de ***, Joaquim Antonio de Sampayo, ingrata creatura de Junot,
pz luminarias quando soube que o exercito francez recuava ao exercito
alliado. Proclamou aos povos comarcos, chamando s armas, e incitando
os frades a que prgassem o odio contra Napoleo, e promettessem
indulgencia plenaria, e salvao segura a todos os que morressem na
defeza do seu legitimo principe, e dos augustos fros da religio
catholica-apostolica-romana.

O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como elle, sympathisou
com as manhas do juiz de fra, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor
da comarca onde estava servindo.

Entra, porm, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a
Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua
situao, e, apasiguando os animos das turbas com discursos cerca da
inutilidade da resistencia, resolve ir ao encontro do general Lorge, que
marchava contra a villa onde elle exercia a suprema auctoridade.

Diz-lhe que intimas relaes o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a
volta dos francezes, e faz accender o resto das torcidas das luminarias
 entrada do general francez. As guerrilhas, porm, queriam resistir, e
os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia,
mais tarde. Sampayo, arreceiando-se d'aquelles caudilhos, denunciou os
principaes ao seu hospede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados
diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pezar de
acontecimento to funesto.

Retirou o general para occupar outro ponto; mas a pedido do corregedor,
deixou uma numerosa guarnio  terra.

O general Botelho estanciava nas immediaes da villa, e investiu com o
presidio, que fugira rechaado e mal ferido do encontro. Sampayo queria
fugir com elle, sobre o Porto, para onde convergiam os differentes
chefes do exercito invasor. Demorou-se, porm, um quarto de hora,
carregando os bahs da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que
soubera esbulhar  comarca sob os mil pretextos faceis ao seu engenho.

Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante,
em lance to apertado, e sau a lume com uma ideia, da qual esperava a
sua salvao.

Mandou tocar immediatamente os sinos das igrejas, foi elle proprio,
bradando vivas ao principe, espertar o animo perplexo dos moradores da
terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.

Este expediente era j um destino da desesperao, uma loucura, que
devia ter o resultado que teve. Joaquim Antonio de Sampayo viu-se
rodeado de povo, e este povo pedia a cabea do corregedor, sobrelevando
 vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido
espingardeados  ordem do general Lorge.

O chefe das foras portuguezas occorreu n'este momento afflictivo. O
corregedor ajoelhou de mos erguidas, pedindo-lhe a salvao.

Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as supplicas
do corregedor, contando ao general as faanhas. Botelho ouviu com
atteno, e exclamou com serenidade:

--Enforquem-o j, que  o mais seguro.

Mais de um leitor maior de sessenta annos est recordando, n'este
momento, a cabea de comarca, na provincia do Minho, onde foi enforcado
um corregedor.

Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim
Antonio de Sampayo. Ahi perneou esse homem de grandes espiritos, que
veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.

Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos suffragios. 
de f que o thaumaturgo das pratas da patriarchal caiu da forca ao
inferno, onde o tortura a desesperao de ver como c em cima andam
nedios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da patria, amor do
proximo, e abnegao do alheio.

Joaquim Antonio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o
direito e a justia por espao de trinta annos, nos auditorios do Porto.
Entrara com fortuna prspera na carreira das honras aos cincoenta e seis
annos.

Revelara, ainda que tardio, um espirito sobre-excellente para
engrandecer-se, e reflectir na sua familia as honras merecidas  custa
de infamias necessarias para se ser alguma cousa n'uma terra, onde
Duarte Pacheco e Cames tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos
propicios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de maro de 1809.

Piamente cremos que os santos da patriarchal de Lisboa, esbulhados de
seus adornos, lhe urdiram este affrontoso traspasse.

Como quer que seja, homens taes, diz uma epigraphe d'este capitulo, que
os leva o diabo. Levar, no duvido; mas, se lano os olhos em redor de
mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.




XIII

     La justicia de Dios espantosa...

           Quevedo. (_El sueo del Inferno._)


O noviciado de Carlota Angela terminara em abril de 1808. As licenas
impetradas para a profisso no foram concedidas, porque a
desorganisao em que se achavam as reparties governativas era
impedimento a que se deferissem requerimentos que no importavam ao bem
immediato do Estado.

Norberto de Meirelles folgava com a demora da licena, e o cunhado l da
comarca onde lhe cortaram a previdente cabea, socegara-o com a certeza
de que em Lisboa estavam prevenidas as cousas para que a novia
requeresse sempre em vo a licena indispensavel.

Carlota no se impacientava com as delongas, nem se queixava de seu pae
ou tio: com tanto que a no arrancassem ao claustro, novia ou professa,
o seu corao estava com o mesmo apgo entranhado no suave sacrificio 
religio dos infelizes.

Quando a noticia da feia morte de seu tio lhe chegou, levada pela
aterrada me, Carlota perdoou-lhe, nos labios e no corao, o mal que
lhe fizera, compensando-lh'o com incessantes suffragios, da virtude dos
quaes, em alma to apodrentada de velhacadas e perfidias,  licito
duvidar.

Norberto de Meirelles, n'este desgosto de familia, mostrou o grande
porte de seu animo, insufflando em sua mulher espirituaes doutrinas de
paciencia e conforto na vontade do Altissimo.  socapa, porm, o
arrozeiro esfregava as mos com jubiloso frenesi, bem sabia elle pelo
qu. Se D. Rosalia lhe perguntava que destino se devia dar aos dois
caixotes de prata, que no eram de seu irmo, Norberto dizia-lhe que
calasse o bico, e no dsse  lingua cerca de taes caixotes, que
ninguem sabia de quem eram. Os escrupulos entravam na consciencia de D.
Rosalia; o alheio dizia ella que chorava pelo seu dono. A este e outros
anexins de s moral replicava Norberto que se alguma vez apparecesse o
dono dos caixes, munido das necessarias provas de ser o dono d'elles,
seria entregue do deposito.

Entretanto que o dono no vinha, o herdeiro do bacharel fechou-se na
adga da granja do Candal, e exhumou os thesouros enterrados para
conhecer do contedo dos caixes. Este exame dizia elle  timida
consorte que era preciso para, munido de um rol, pea por pea, obrigar
o dono a dar uma relao exacta dos objectos.

Tentao diabolica fora aquella! Norberto, vendo a rica baixella do
culto divino contida no primeiro caixo que abriu, to encantado ficou
do bem lavrado das coras, dos resplendores, dos calices, das ambulas,
dos thuribulos, das lampadas, das bandejas, e dos ex-votos, to
encantado, to edificado, to preso quelles mysticos ornatos do templo
do Deus-vivo, que logo alli prometteu  sua consciencia guardar e
venerar aquelles sagrados objectos, de modo que mos impias de
francezes, de portuguezes afrancezados, e ainda as do dono nunca os
profanassem. Este protesto entendia-se com o primeiro caixo: o segundo
antes de ser aberto, havia o negociante teno de restituil-o, se o
recheio no fosse to veneravel e digno da sua devota guarda.

Ora o segundo caixo no era menos tentador: nem mais nem menos os doze
apostolos de prata macia, com as suas barbas venerabundas a incutirem
seraphico temor e amor! Norberto alou nos braos um dos apostolos, no
tanto para fazer-lhe orao mental, como para calcular-lhe o peso, e,
aproximadamente, ajuizou doze arrateis, os quaes, multiplicados por
doze, davam cento e quarenta e quatro arrateis de prata. Entendeu
piedosamente o arrozeiro que o segundo caixo era thesouro no menos
credor dos seus desvelos que o primeiro, em razo de conter as imagens
dos doze primeiros santos da religio christ, e n'este presupposto de
bom juizo resolveu recommendar  sua vigilancia a guarda de to augustas
imagens, que talvez providencialmente vieram enterrar-se na sua adga,
para se esconderem  perseguio de Bonaparte, bem como os christos
primitivos se escondiam nas catacumbas para fugirem  perseguio dos
Neros e Trajanos.

A escrupulosa irm do defuncto bacharel no assistira  exhumao dos
caixes; mas, sabendo dos doze apstolos, tal ancia lhe entrou de os
ver, que no houve remedio seno desenterral-os de novo.

D. Rosalia ficou encantada dos aspectos magestosos de S. Pedro e S.
Thiago. Quiz que seu marido rezasse emparceirado com ella uma
jaculatoria aos dois santos em particular, e a todos em geral. Norberto
annuiu com a mais fervente unco, e edificou sua mulher, propondo a
repetio das ditas jaculatorias, para que os bemaventurados discipulos
do divino mestre no permittissem que mos sacrilegas dos francezes
tocassem nas suas devotas imagens. Lembrou logo alli a snr. D. Rosalia
que, passada a guerra, se no apparecesse o dono d'aquelles objectos, se
havia de fazer uma capella na quinta do Candal, para que os santinhos
fossem adorados por toda a gente. Concordou o arrozeiro, enterrando-os
outra vez, e recommendando a sua mulher, que no dissesse a ninguem que
a sua adga estava tendo as honras de cenaculo.

Estas scenas passavam-se oito dias antes da invaso dos francezes no
Porto.

 noticia da aproximao de Soult nas trincheiras, Norberto de Meirelles
fechou a casa da rua das Taipas, e foi para o Candal.

D. Carlota Angela, com sua tia e a novia Dorothea saram do convento
para o mosteiro de Arouca. D. Rosalia instara para que a seguissem; mas
Carlota vencera a vontade condescendente de sua tia, com lagrimas e
rogos para que no aceitasse asylo que no fosse o de outro mosteiro
menos susceptivel de ser assaltado pelos francezes.

O exercito invasor derramou-se pelo Porto, no cevo do saque e da
carnagem. As portas da casa da rua das Taipas, malsinada aos francezes
como bem recheiada, no resistiram ao machado. Pouco l havia que
saciasse a cubia dos salteadores. O denunciante esteve em perigo de ser
acutilado, por lhes ter feito perder tempo em arrombar as portas para
saque to mesquinho. Ora, o denunciante era um visinho de Norberto, seu
inimigo, e capaz de dar um olho para que arrancassem os dois ao
arrozeiro. Disse elle aos francezes que o seguissem alm do rio, e elle
lhes promettia boa presa, porque as immensas riquezas do negociante
deviam estar na quinta.

Seguiram-o os francezes, promettendo-lhe repartir com elle da presa, ou
tirar-lhe a alma e os figados, se os enganasse, ou levasse a alguma
emboscada.

Ao avisinharem-se do Candal, deram rebate as espias de Norberto de
Meirelles. Calou-lhe na alma o mdo, que amarellece a cara de gemma de
ovo, tapa os respiros do pulmo e promove a desordem dos intestinos
todos. D. Rosalia cau de cocoras, e entrou a bater os queixos como em
maleitas, e a resmungar fragmentos da Salv-rainha e do Padre-nosso.
Dois criados da quinta, que, momentos antes, tinham estado renovando a
escorva das clavinas, e apostando a qual d'elles mataria mais francezes,
apenas avistaram os penachos de dez ou doze d'aquelles, que, segundo os
seus projectos homicidas, deviam ser levados a murro, deram a fugir por
aquelles pinhaes, como envergonhados de se baterem com to poucos
francezes. Chamava-os com desesperados berros Norberto, emquanto elles
podiam ouvil-o; mas no houve gritos nem promessas que os volvessem ao
posto da honra.

O negociante travou do brao da mulher, para que o seguisse, fiando a
salvao na fuga. D. Rosalia ainda se ergueu; mas vacillaram-lhe as
pernas frouxas, e recau, dizendo que morria, e queria alli morrer. O
arrozeiro cuidou que a movia, assustando-a com a ideia de que os
francezes a matariam, se ella no confessasse o escondrijo do dinheiro.
A pobre mulher, petrificada de terror, no respondia a taes estimulos, e
recalcitrava na pertinacia de se deixar matar.

Emquanto ella murmurava um acto de contrio, preparando-se para morrer
o mais catholicamente que podesse, Norberto de Meirelles seguiu a pista
dos criados, pela porta travessa da quinta, com o intuito de alarmar a
freguezia, tocando a rebate a sineta da proxima capella.

Os francezes arrombaram a primeira porta, e outras menos robustas, at
entrarem no quarto onde estava D. Rosalia de mos erguidas, pedindo
misericordia. Um da malta, com o rosto coberto por um leno, disse-lhe
em claro e cho portuguez que lhe no fariam mal a ella nem ao marido,
se lhe dissesse onde estava escondido o dinheiro. D. Rosalia respondeu
que no sabia. A um signal convencionado do interprete, dois refles
ameaadores ladearam o pescoo da moribunda senhora. O homem da cara
coberta admoestou-a de novo, pedindo aos francezes que suspendessem a
morte por alguns momentos. Rosalia, revalidando tres vezes a condio de
que no matariam seu homem, disse que o dinheiro estava enterrado na
adga; mas que tambem l estavam dois caixes de prata, e esses pedia
que no levassem, porque no eram d'ella. Feito o juramento de
respeitarem, no os caixes, mas a vida dos depositarios, levaram em
braos D. Rosalia  adga, para a fazerem apontar o local onde convinha
cavar.

Meia hora depois, corriam contra a quinta de Norberto de Meirelles, mais
de duzentos homens da freguezia, reunidos pelo toque guerreiro da
sineta, afra os fugitivos do Porto, que tinham atravessado a ponte,
horas antes de lhe serem abertos os alapes. Quando entraram na casa,
com grandes alaridos e descargas, encontraram D. Rosalia  porta da
adga, prostrada n'um desmaio. Norberto adivinhou o successo horroroso.
Entrou, foi direito ao tonel protector do escondrijo, achou a terra
revolvida, levou as mos  cabea, soltou um grito cavernoso, e foi
bater com as costas nos tampos sonoros do tonel. Roubado! roubado!
exclamava elle, emquanto a multido compadecida se derramava pelos
aditos da quinta, procurando os francezes, e outros tratavam de
restituir  vida a mulher do negociante, que parecia morta.

Ao mesmo tempo, embarcavam os francezes, com a opima presa, defronte de
Miragaya. No meio do rio, combinaram entre si desfazer-se do
denunciante, que os importunava lembrando-lhes a promessa de um quinho
do roubo. A execuo foi rapida como o plano. O portuguez foi arrojado
ao rio com algumas pancadas na cabea; mergulhou, veio  tona da agua,
fincando-se na quilha do barco,  maneira de rmora, pendurou-se n'um
dos bordos, os francezes convergiram para o ponto, os caixes
escorregaram para esse lado, o barco inclinou-se tanto, e o barqueiro
com tal arte ajudou  catastrophe, que se virou o barco: francezes e
caixes tudo se sumiu nos abysmos, salvando-se, apenas, o barqueiro, por
ser grande nadador, e merecer salvar-se como instrumento que foi da
justia providencial.

No sabemos ao certo quantos contos de ris o Douro sepultou nos seus
reconcavos. Mais de cem, afra o dinheiro e caixes do bacharel Sampayo,
se calcula a perda. Os haveres de Norberto de Meirelles estavam todos
alli. Restava-lhe, apenas, a granja do Candal e a casa da rua das
Taipas; mas, o arrozeiro, no mez immediato, tinha que pagar letras, que
os portadores, fiados na segurana do aceitante, no haviam apresentado
no dia do seu vencimento, rogando-lhe, por favor, o conservar em seu
poder os pagamentos at se restabelecer a ordem no giro commercial.

Era, pois, desgraadissima a posio do pae de Carlota Angela. Via-se
pobre, e sentia-se desfallecido e velho para reconquistar o producto do
trabalho e da astucia, nem sempre legitima, de quarenta annos. Ainda
mesmo que amigos e credores o ajudassem, como de feito ajudariam, esse
balsamo no fecharia a chaga. A pena do seu dinheiro era uma angustia
infernal, que as palavras animadoras da christ e resignada esposa no
alliviavam.

--Deus o deu, Deus o tirou, Norberto,--dizia ella, convidando-o pela
religio  paciencia.

--Vae-te d'aqui com as tuas beatices!--respondia elle--Estamos pobres
por tua causa. Se fosses uma mulher amiga de teu marido e de tua filha,
no dizias onde estava o meu dinheiro, o meu dinheiro, o dinheiro da
minha alma!

E, exclamando assim com vozes que derretiam o corao, chorava como uma
creana o pobre homem, arrepellando as suissas e os cabellos.

Atalhava Rosalia:

--No te mortifiques, Norbertinho. Eu se disse onde estava o dinheiro
foi para te salvar a ti, porque o tal homem da cara coberta disse-me que
tu estavas preso, e te matariam se eu no dissesse onde estava o
dinheiro.

--Deixasses matar; antes isso, do que ficar assim... sem nada!

--Ainda temos com que viver, meu amigo. Se eramos ricos, as nossas
despezas poucas eram. Faz de conta, Norberto, que o dinheiro est
enterrado onde estava; tanto nos serve elle debaixo da terra, como na
mo dos francezes. Sabes o que se ha de fazer? Tornemos a trabalhar como
quando nos casamos. Para comer e vestir como at aqui sempre hemos de
ter. Aos credores d-se-lhe alguma cousa do que se deve, e vae-se
pagando o resto aos poucos. A nossa Carlota quer ser freira, e o dote
pequeno . Eu lh'o arranjarei com as economias que poder fazer. Tenho
algumas joias que se vendem, e pouco faltar para o dote de Carlota. No
achas que tenho razo, Norbertinho? Ora vamos, tem paciencia, e agradece
ao Senhor em nos ter deixado a vida.

--De que diabo me serve a vida! ah! o meu dinheiro, o dinheiro da minha
alma, que tanto me custou! Agora  que os outros me ho de pr o p no
pescoo. Como no estaro contentes os invejosos! Foram elles que me
roubaram. Esse homem que trazia o leno pela cara era algum dos nossos
visinhos, que no podia ver como eu ia medrando! Estou roubado!
levaram-me o meu dinheiro, a minha vida, o meu suor, a minha alma. Agora
matem-me, com trinta milhes de diabos! Quero morrer, antes que me vejam
pobre! vou partir esta cabea n'uma pedra, e tu fica para ahi a pedir
uma esmola, j que disseste onde estava tudo quanto tinhamos.

N'estas e n'outras lamentaes, em que a blasphemia no faltava nunca,
curtiu, no Candal, a empeonhada existencia o miserando arrozeiro,
durante tres semanas, at que lhe pegou uma febre, e uns frenesis de
energumeno, que o pozeram s portas do inferno. Salvaram-o algumas
tisanas, e os confortos de dois ou tres amigos compadecidos que, rogados
por D. Rosalia, lhe foram dar esperanas de rehaver com capitaes
emprestados, seno tanto quanto perdera, ao menos mais que o necessario
para viver com decencia e satisfao. A convalescena foi morosa, e
arriscada com recadas, procedentes de vertigens que advinham depois dos
prantos pelo seu dinheiro.

Voltando ao Porto, logo que o exercito francez sau, fez uma honrosa
concordata com os seus credores, e retomou as redeas do seu mester,
ajudado pelos amigos e desvelos da mulher, que toda era energia,
actividade, e carinho para fazer esquecer a pobreza a seu marido,
preoccupando-o com a esperana de enriquecer outra vez.

N'aquelle tempo, porm, esta cousa a que hoje, em francez, se chama
_fortuna_, no se alcanava com a rapidez de agora. A perda do proveito
de quarenta annos lidados na vida commercial eram necessarios outros
quarenta annos para restaural-a. Por isso que o caminho de ferro era uma
utopia, e a celeridade do fio electrico um ideal dos contrasensos
impossiveis, a maquina de fazer dinheiro era um mytho, em que se
acreditava porque a moeda corrente era fundida e cunhada; mas nenhum
particular julgava possivel fazer em sua casa dinheiro.

A posio de Norberto era, portanto, relativamente m. Descoroado para
as labutaes do negocio, sufficientemente obtuso para chegar por
devezas e atalhos  estrada que os outros palmilham tarde e a ms horas,
o negociante decado l sentia em si roer a desconfiana de que no
havia para elle mais readquirir a centena de contos, que to perto
d'elle estavam encalhados entre as fendas de alguma rocha.

Esta descrena entibiava-lhe o animo, infundindo-lhe uma melancolia
taciturna e lethargica, d'onde no havia nada que o podsse divertir.

Carlota Angela, recolhida ao seu suspirado mosteiro, soube da desgraa
de sua familia. Ergueu as mos ao Senhor, pedindo-lhe que alliviasse as
mgoas de seus paes, e lhes dsse, em troca da riqueza perdida, a
esperana de maior felicidade no co.

Quando D. Rosalia disse ao marido qual era a supplica incessante de
Carlota, Norberto respondeu:

--Ora! qual co, nem meio co! Diz-lhe que pea a Deus que me d
dinheiro.




XIV

    Que ansias, que deseos,
    Que trabajos, conxogas, e sudores!...

                P. Pedro de Salles. (_Emblemas._)


Quando o corregedor Joaquim Antonio de Sampayo foi suppliciado, o
general Botelho mandou examinar os papeis do jacobino com a esperana de
encontrar algum que justificasse a violenta morte do magistrado, no caso
de lhe serem pedidas contas do estranho feito.

As leis militares no permittiam tal excesso, quando os ros no eram
encontrados com armas na mo defendendo os invasores.

No quartel general de Botelho andava um ajudante de ordens que fora
condiscipulo e amigo de Francisco Salter de Mendona no collegio
militar. Foi esse o encarregado de examinar os papeis.

Mal tinha revolvido alguns massos de cartas sem importancia, e officios
de servio publico, uns assignados pelo governador do reino, outros pela
junta governativa, louvando todos a energia e zelo do magistrado, quando
reparou n'um rolo de papeis atados todos com uma guita, sendo a capa
exterior um sobrescripto que dizia: _Ao ill.mo snr. Francisco Salter de
Mendona.--Rio de Janeiro._

O examinador, espantado de encontrar o nome do seu amigo entre papeis do
defuncto jacobino, receiou que algumas intelligencias desgraadas e
deshonrosas para Francisco Salter podessem existir com os clubs
revolucionarios. Antes que alguem entrasse no escriptorio, o ajudante de
ordens do general Botelho escondeu o masso de papeis, e ancioso de
curiosidade, no tardou a examinal-os o mais escondidamente que pde.

Viu uma, outra, e outra at vinte e tantas cartas assignadas por Carlota
Angela. Outras tantas, se mais no eram, assignadas por Francisco
Salter. Quem era esta Carlota Angela? interrogava-se o confuso leitor
das lagrimosas cartas. Como viera esta correspondencia dar  mo do
corregedor de ***? Qual seria o valor occulto de uns papeis que to
estranhos pareciam ao funccionalismo do magistrado?

O ajudante de ordens, logo que o exercito invasor desalojou do Porto,
foi ao mosteiro de S. Bento da Av Maria procurar Carlota Angela para
esquadrinhar o mysterio da correspondencia. No encontrou alguem que o
informasse: no mosteiro tinham apenas ficado uma freira demente, e duas
criadas entrvadas, que apenas souberam dizer que a novia Carlota
Angela fugira com sua tia para um convento da provincia.

Proseguia em inuteis averiguaes o curioso militar, quando a junta
provisoria o nomeou para ir ao Rio de Janeiro dar parte das occorrencias
da infausta invaso, e da derrota fabulosa que os francezes iam
soffrendo na retirada.

O emissario aceitou da melhor vontade a enviatura, esperanoso de
encontrar no Rio de Janeiro o seu amigo da mocidade Francisco Salter de
Mendona.

Apenas desembarcou, o primeiro official de marinha que lhe saiu ao
encontro foi Salter. Logo alli se aprasaram para uma conferencia de
alguma importancia, depois de entregues ao governo as participaes do
reino.

--Que ha de commum entre ti, e um tal Joaquim Antonio de Sampayo, que
foi enforcado no Minho?

--Enforcado!

--Sim, garroteado por jacobino, traidor ao rei e  patria e  santa
religio, como l se diz. Conhecial-o?

--Perfeitamente. Esse homem era tio de uma mulher que me obriga a
desertar manh, para ir procural-a no Porto.

--Se o teu fim  saber onde ella est, posso dar-te algumas informaes.

--Conheces Carlota Angela?!--interrompeu alvorotado o capito de
marinha.

--Conheo pelas amarguradas cartas que te escrevia.

--Cartas! Quaes?! Eu no recebi cartas algumas de Carlota.

--Se as no recebeste, podes lel-as agora, porque eu sou o portador de
duas duzias d'ellas, que fazem chorar as pedras.

--Como te vieram essas cartas  mo? D-m'as.

--L vamos; mas primeiro quero que me expliques como estas cartas foram
 mo do tal corregedor enforcado.

--Isso  uma historia longa e atroz. D-me as cartas, que eu tudo te
explicarei depois.

--Pois sim: ahi vo as cartas da Carlotinha, mas tenho no outro bolso
outras tantas escriptas  tua dama.

--Por quem?

--Por um nosso condiscipulo do collegio militar, que, segundo se
deprehende do ardor da linguagem, deve amal-a como um louco.

--Quem  elle?

--Um terrivel paralta, que sau da patria deixando por l nos mosteiros
novias apaixonadas.

--Quem? depressa... diz-me o nome d'esse homem.

--Francisco Salter de Mendona  como elle assigna as lamuriantes
epistolas: eil-as aqui.

Tu me dirs agora se o corregedor era o teu alcayote para a dolorida
novia.

Salter devorava as palavras da primeira carta de Carlota, sem entender
as ideias. De uma passava a outra, examinando nem elle sabia o qu. O
sangue subiu-lhe  flor do rosto, inflammando-lhe as pupillas
irrequietas. Era uma d'essas alegrias que chegam a doer em seu frenesi.
Ao rubor succedeu a pallidez subita, e o suor da vertigem. No lhe cabia
o corao no peito, nem bastava ao afogo dos pulmes o ar que aspirava a
profundos haustos. Soltou uma exclamao puxada do intimo da alma, um ai
desafogado, vibrante, e das entranhas como se lhe desentalassem a
garganta quando o lao o fazia j estrebuxar em arrancos de morte.

O condiscipulo estava pasmado d'este conflicto, e tanto se lhe afigurou
respeitavel o jubilo ou a agonia de Salter, que no ousou interromper a
scena muda d'aquelle lance. Salter lanou-se-lhe aos braos, chorando
como uma creana, e proferindo afogadas exclamaes, que pareciam os
gemidos que faz soltar uma dor physica incomportavel.

--Ento isto  muito mais valioso do que eu suppunha!--disse o ajudante
de ordens--Que feliz eu sou, se vim tirar-te de alguma duvida
tormentosa.

--Trouxeste-me a esperana, a vida, o co. Estas cartas so d'ella, da
minha esposa.

--Tua esposa? Pois Carlota Angela no  uma novia?

--No;  apenas uma secular no mosteiro de S. Bento.

--No foi isso o que me disseram no convento.

--Pois o que te disseram?!

--Procurei-a para ver se ella me aclarava o mysterio d'essas cartas.
Disse-me uma criada que todas as religiosas tinham fugido aos francezes,
e a novia Carlota Angela fugira com sua tia freira.

--A novia! Isso  impossivel!

--Ser; mas foi isto o que se me repetiu fra do convento. Casualmente
me encontrei n'uma casa onde se fallava no grande roubo feito pelos
francezes a um tal Meirelles, rico negociante do Porto, que ficara
pobre. Alguem disse que esse Meirelles era o pae de uma novia creana,
que j tinha acabado o tempo do noviciado, e se chamava Carlota Angela.
Quiz inquirir mais particularidades que me explicassem as tuas relaes
com a tal menina, e nada colhi. Propunha-me procurar directamente
informaes do negociante, quando fui encarregado da commisso que
trouxe. Aqui tens o que sei, e o que no sei has de tu sabel-o explicar
melhor do que eu.

--Sei tudo!--exclamou com fora e precipitao Mendona--Sei tudo...
manh vou para Portugal. J pedi licena, e no m'a deram. No importa.
Deserto. Julguem-me como quizerem; condemnem-me, arcabuzem-me, mas que
eu veja Carlota antes de morrer. Esta mulher  tudo quanto eu tenho na
vida. Se eu no morrer por ella, se me no sacrificar na honra, em tudo
quanto ha mais sagrado na vida, sou um infame sem rehabilitao perante
Deus e a minha consciencia. Se ella est morta, fui eu que a matei, no
foi o malvado que me roubou estas cartas, e privou a desgraada Carlota
de ver as minhas. J comprehendes o segredo d'estas cartas? Esse homem
que mataram, solicitou o meu desterro, para obstar ao meu casamento com
a sobrinha. Interceptou a nossa correspondencia com o fim de matar
n'ella o amor com a certeza da ingratido. Foi elle quem me enviou aqui
um homem com a noticia de que ella se tinha casado. Eu esforo-me ha
seis mezes em vo para conseguir licena de ir a Portugal salvar este
anjo, e curar-me da desesperao que me tem levado ao extremo do
suicidio muitas vezes. Agora creio que perdi Carlota. Quando chegar ao
Porto estar ella j professa. No importa. Quero vel-a, quero que ella
me veja morrer braado aos ferros que a separam de mim para sempre. Esta
minha agonia no tem igual n'este mundo, meu amigo. Separam-me duas mil
leguas da mulher que eu poderia salvar, se a visse n'este momento. Por
que a no procuraste tu? por que lhe no mostraste estas cartas, que nos
salvariam ambos? Podias ter-nos feito um bem, que eu te agradeceria de
joelhos, e ella endoudeceria de jubilo... Paciencia... j agora
devorarei todas as torturas da duvida com menos angustia. Ainda tenho
uma esperana... Disseste-me que o pae de Carlota estava pobre. Talvez
que no possa dar-lhe o dote para a profisso, talvez que uma doena
retarde esse terrivel acontecimento. Talvez que Deus se compadea de ns
ambos, e lhe inspire a esperana de tornar-me a ver. Nunca tive tanta
confiana na misericordia divina.  impossivel que Deus veja com
indifferena o terrivel resultado da profisso. Eu vou arrancal-a do
altar, vou disputal-a a Deus, vou amaldioar a religio cruenta que
receber uma mulher que me pertence por um juramento mais sagrado que
todos os votos do claustro.

No cansou ainda aqui o flego da estirada declamao. Salter fallou
horas, e o amigo escutou-o com admiravel paciencia, at que pde
admoestal-o que no fugisse, nem sasse do Brazil sem licena. Nem ao
menos conseguiu com as mais atiladas razes retardar um dia a desero.
J o amigo se offerecia para pedir ao principe regente a licena,
trocando por ella a commenda da torre e espada com que sua magestade o
agraciara, ao ouvir-lhe as novidades prsperas do reino. Salter
rejeitava conselhos e favores. O brigue saa no dia immediato, e no
estava ainda marcada a sada de outro navio. Negarem-lhe a licena era
j um capricho, seno antes uma desconfiana fomentada pelo bacharel
Sampayo. Ao lado do ministro havia alguem que lhe insinuava a suspeita
de ser Mendona um forado vassallo do principe, e um jacobino que
Manique soubera desterrar a tempo.

O governo no dera ao capito de marinha satisfao alguma pelos
arbitrios do capito-general, durante o tempo que estivera preso. O mais
que fez foi dar-lhe liberdade, reprehendendo-o por ter feito justia com
suas proprias mos, sobre um homem que viera ao Rio em commisso de
confiana.

Salter tragou em silencio o novo vilipendio, e protestou, no s
desertar, mas alistar-se no exercito francez, e atirar-se como
desesperado aos braos da morte, na primeira batalha que lhe deparasse a
sua negra fortuna.

Eram, pois, baldadas todas as reflexes do ajudante de ordens.

A bordo do brigue inglez havia ordem para receber um marinheiro
portuguez, e um preto marinheiro tambem. Ao anoitecer d'esse dia
Francisco Salter de Mendona, e o escravo que lhe assistiu durante a
priso, vestidos de marinheiros, foram recebidos no brigue. Na manh do
dia immediato, quando o ajudante de ordens, ancioso de alegria,
procurava Salter para lhe entregar a licena que o principe assignara,
contra as suggestes do ministro, o vaso inglez j tinha sado.

O solicitador da licena foi dizer ao principe que o capito da armada
no poder vir beijar a mo de sua magestade antes de sair, porque o
brigue j tinha levantado ancora, quando a licena chegou.

Este expediente fez que Francisco Salter no fosse julgado desertor,
posto que as averiguaes feitas pelo ministro contrariassem o
depoimento do generoso amigo, que ficara destruindo a intriga.

O romance deixa de ser impertinente e aborrecido. Vamos entrar nas
scenas tristes e sombrias.




XV

    Crescei, mgoas, crescei, e crescei, dores;
    Quebrai o vagaroso e triste fio
    Que alonga a cruel Parca...

                          Ferreira. (_Eleg. 5._)


As freiras dispersas recolheram ao seu convento da Av Maria, um mez
depois da entrada do exercito anglo-luso no Porto.

Carlota Angela acompanhara sua tia, com quanto jubilo podia caber-lhe no
ambito da alma. Considerando a grandeza das penas que a flagellavam, s
 religio deve conceder-se o mystico poder de allivios, e alegrias para
a pobre, que to infeliz era, e mais infeliz seria, se no tivesse a
tboa da religio em naufragio to procelloso.

Apenas entrou no convento, quiz ver seus paes, dizendo que talvez elles,
na desgraa, precisassem de que lhes fallasse a linguagem da paciencia,
e da esperana nas riquezas do co. D. Rosalia, foi chorar ao p da
filha, e retirou-se consolada. Norberto de Meirelles contou-lhe tres
vezes a horrivel historia do roubo, e chorou outras tantas lagrimas como
punhos. Acudia Carlota com as unces piedosas da paciencia,
promettendo-lhe alcanar de Deus com oraes e penitencias a
prosperidade do negocio que seu pae recomeara. O arrozeiro dava como
impossivel a restaurao dos haveres perdidos, e afianava que no
viveria muito tempo, porque a paixo do seu peculio, adquirido com tanta
honra e trabalho, o levaria  cova. No tocante ao auxilio que os santos
podiam dar-lhe para repr o seu commercio no antigo p, Norberto era um
iconoclasta requintado; no fiava nada dos santos, nem das jaculatorias,
antiphonas, e responsos de sua filha.

Teimoso e cabeudo como um philosopho, argumentava contra a religio,
allegando em favor da sua heratica parvidade que se houvesse co e
inferno no estava elle arrozeiro sem o seu peculio, porque tinha sido
sempre bom christo, e fora roubado por hereges.

Este argumento no  de certo o mais stolido que se tem envidado contra
a religio christ, por parte da philosophia; d'onde se conclue que
detraz de qualquer balco se pde erguer um Ario, um Luthero, um
Calvino, um Voltaire de tamancos, e arrojar ao seio da sociedade uma
bomba recheiada de argumentos incendiarios como aquelle.

Assim como ns no sabemos que responder de repente ao atheismo de
Norberto de Meirelles, Carlota Angela no se nos avantajava em
promptido de dialectica theologica, do que resultou sair o pae duas ou
tres vezes, da grade incredulo como entrara.

Uma vez lhe disse elle que perdesse a esperana de ser freira, porque
no tinha dote, nem pedia emprestados cinco mil cruzados para empatar
n'um modo de vida que no rendia sequer o juro da lei.

Carlota sabia de mais as circumstancias de seu pae, quando esta esperada
revelao lhe foi feita. Serena e carinhosa, como sempre o fora, desde
que a desgraa entrara em sua casa, respondeu-lhe que no tivesse elle
cuidado com a sua profisso, porque a prelada a recebia pela prenda da
musica, em que ella estudava continuamente, e a tia Rufina lhe fazia as
pequenas despezas necessarias para a profisso.

Estavam as cousas n'este p, quando Antonio Jos da Silva, mercador de
pannos que foi na rua das Flores, pessoa a todos os respeitos digna de
larga chronica (como de feito a teve na Filha do arcediago) e um dos
maiores credores de Norberto, se apresentou pedindo em casamento Carlota
Angela, estipulando as seguintes clausulas:

1. Pagaria todas as dividas do sogro, e adiantaria dez contos de ris
para casco de novo negocio, a juro de quatro e meio por cento.

2. Compraria a quinta do Candal, j traspassada para pagamento de
dividas, e daria o usofructo d'ella a seus sogros, reservando para si a
hortalia necessaria ao consumo da casa, dois gigos de ma camoeza, dez
alqueires de feijo branco, e os pastios necessarios para quatro
cevados.

_Item._ Daria aos paes de Carlota paga e quitao das quantias que lhe
estivessem devendo no acto de se lavrarem as escripturas de casamento.

_Item._ Sua mulher iria viver na rua das Flores, e no tornaria a ir aos
_balancs_ por onde costumava andar em solteira, nem trajaria vestidos
como as fidalgas, nem andaria de corpo bem feito sem mantilha, quando
fosse  missa, ou dsse, aos domingos de tarde, um passeio at Campanh,
ou Valbom.

Estes artigos depl-os sobre a mesa Antonio Jos da Silva, em seguida 
proposta de casamento, a que Norberto, embrutecido pela fortuna de
similhante proposta, respondeu logo que o negocio se havia de arranjar.

E sem perda de tempo, entrou o arrozeiro no pateo de S. Bento com uma
cara to festiva e gozosa, que deu nos olhos  madre porteira.

Mandou chamar a filha, e rompeu assim o dialogo, com assomos de boal
jucundidade:

--Estamos outra vez ricos, rapariga!

--Ricos?!

--Sim, ricos! alegra-te, Carlota.

--Pois que foi, meu pae? Appareceu-lhe o seu dinheiro?

--Quem dera isso!  c outra cousa, menina! Estamos ricos, porque tu
vaes ser muito rica.

--Eu!? De que maneira?

--O Antonio da rua das Flores pediu-te em casamento.

Carlota engasgou-se, quando soltava uma palavra ou exclamao
imperceptivel.

--No conheces o Antonio Jos da Silva? Aquelle rapaz que est podre de
rico? aquelle que herdou a casa do patro, aqui ha tres annos? Ora essa!
no conheces?!

--No conheo, nem quero conhecer, meu pae.

--Tu que dizes, Carlota!? Pois tu no queres casar com elle?!

--No, senhor.

-- pobretaina de uma figa! pois tu vs que no tens nada, que teus paes
esto pobres como Job, e no queres valer aos auctores de teus dias?

--No, meu pae, eu dou a minha vida aos auctores d'ella, se a quizerem;
mas o corao, que j dei a Deus, no pde ser de mais alguem. O pae no
 to innocente como parece. Devia suppr que a minha resposta era esta.
Quando entrei n'esta casa, disse-lhe francamente as minhas tenes. Como
ellas no estavam dependentes dos thesouros de meu pae, a perda d'esses
thesouros no as alterou na minima cousa. Sou a mesma que era, e
brevemente serei o que j no posso deixar de ser: uma freira pobre sem
preciso de ser rica, com muito mais do que me  necessario para ir
amparando a minha curta vida no servio de Deus, e na penitencia dos
meus peccados, e dos peccados alheios.

--No quero sermes, com mil diabos! vociferou o arrozeiro, batendo um
retumbante punhado sobre a banqueta--No venho ouvir prdicas! s minha
filha, e has de fazer o que eu quizer. No te dou o consentimento para
seres freira!

--Paciencia: sel-o-hei na inteno; mas no sairei do convento.

--Has de sair por justia.

--Morta, pde ser.

--Viva, e muito viva, eu t'o juro por esta luz que nos alumia!

--No jure, pae, que se engana. Ninguem ser capaz de me arrancar com
vida para fra d'esta casa. Quando eu no tiver foras com que me
agarrar a estes ferros, nada se me d que me levem para fra, porque a
minha alma j ter subido d'aqui  presena de Deus.

--Conta-me lnas, que eu te ensinarei. Filha maldita, que viste teu pae
pobre e desgraado, e no lhe valeste! Filha cruel, eu te amaldio em
nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo. _Amen._

--Meu Deus!--exclamou Carlota-- meu pae, no profira similhantes
palavras! No augmente a triste vida que eu tenho. Eu lhe prometto de
trabalhar toda a minha vida para que em sua casa nunca haja a menor
privao. Pedirei esmolas s senhoras religiosas ricas, para lhe mandar,
meu pae. No me amaldie, que eu no lhe mereo esse castigo, nem 
possivel que Deus consinta que a sua maldio seja valiosa. Pelas chagas
de Christo, arrependa-se d'essas amargas palavras que disse...

A pobre menina, banhada em lagrimas, supplicava ainda de joelhos, quando
Norberto de Meirelles sau da grade esbaforido, resfolegando vapores do
interior vulcanico do peito.

Ao passar por Antonio Jos da Silva, que o esperava  porta da loja, na
rua das Flores, disse-lhe:

--Nada feito.

--Venha c, snr. Norberto, conte l isso. Com que ento no  o mel p'ra
bca do asno; aqui calha melhor dizer _da asna_, digo bem, snr.
Norberto?

--V. m.  pouco cortez, snr. Antonio. Se vamos a pr as cousas no
direito, ninguem pde ser asno sem sua licena. L por que a minha filha
me desobedece no dou ousio a v. m. de lhe chamar nomes, que  o mesmo
que chamarm'os a mim. Se  rico, snr. Antonio, eu tambem j o fui, e no
tratava ninguem de asno, porque aprendi a cortezia com as pessoas de bem
com quem sempre tratei.

--No se enfade, homem,--replicou o irmo da snr. Angelica
(honrosamente mencionada na Filha do arcediago) pondo-lhe as mos
vermelhas, como dois mlhos de rbanos, sobre os hombros--no v a
Vallongo por to pouco, snr. Norberto. Isto que eu lhe disse foi assim
um modo de fallar, sem aquella de injuriar a sua filha, nem a v. m., que
tem os figados, como l diz o dictado, muito ao p da bca. Entre c,
sente-se, desabafe, e veja se quer tomar um copo do da instituio da
Companhia, e uma cavaca de Arouca pare lhe dar animo.

--Obrigado; no quero nada; passe v. m. muito bem, e rasgue quando
quizer o tal papelucho das condies que me deu... Aqui o tem. Emquanto
ao que lhe devo, se v. m. no quizer esperar que eu lhe possa pagar,
mande tomar conta do que eu tiver, e fica d'aqui j arrumada esta
pendencia.

--Espere, homem, que ainda no chegaram as cousas a esse ponto. Eu quero
fallar com a sua filha, e mau  se ella me no d o sim. Uma cousa  ir,
outra mandar.

--No faz nada, snr. Antonio, digo-lh'o eu. A rapariga no falla como
ns, e tem l na cabea um palavriado da breca, que no sei onde ella o
foi aprender. Dizia-me o meu cunhado doutor (Deus lhe falle n'alma), que
a cabea de Carlota era um vulco. V. m. sabe o que  um vulco?

--_Vulco_, pelos modos, ...  o mesmo que _balco_...

--Bem no digo eu! Vulco  uma cousa de lume que se debaixo da terra.

--Ah!--interrompeu o snr. Antonio, abrindo a bca como em testimunho da
sua admirao--J entendo... Quer dizer que ella tem grandes fumaas de
ser bonita!... Olha o milagre! bonita , mas ha-as por ahi to bonitas
como ella, que tomaram que eu as quizesse. Emfim, eu sempre l quero ir,
d no que der. Assim como assim, nada se perde. O que for soar.
Apparea por aqui manh, snr. Norberto.

Afoutado por to estupida esperana, Antonio Jos da Silva teve a
audacia de procurar Carlota Angela. Vae ler-se o texto d'esta visita,
porque foi ella uma das maiores affrontas que a desgraa fez  pobre
menina. Todas as outras, confrontadas com esta, eram favores da fortuna.

O snr. Antonio ignorava a pratica dos conventos, ao tocante a
locutorios. Quando o introduziram, pela primeira vez de sua vida, em uma
grade, o alapuzado moo achou-se affrontado com a vista dos ferros.
Carlota appareceu com sua tia, meia hora depois que a esperavam. Esse
espao de tempo fora necessario  freira para convencer a sobrinha de
que no era civil nem bonito deixar de receber a visita, qualquer que
fosse a inteno da pessoa que a visitava.

--Bons dias, minhas senhoras--disse Antonio, avanando e recuando, tres
vezes, uma assaralhopada cortezia.--No me conhecem?

--J soubemos que era o snr. Antonio Jos da Silva que procurava minha
sobrinha--disse soror Rufina.

--J sabem ao que vim, pelos modos.

--Ignoramos.

--Venho a troco do que se passou com o snr. Norberto.

--Parece impossivel!--acudiu Carlota--Eu creio que disse claramente a
meu pae o que  escusado repetir ao snr. Silva.

--A menina ha de fazer favor de me ouvir um bocadinho, se no tem muito
que fazer.

--Pois no! queira fallar--disse Rufina.

--Eu sympathiso com a snr. D. Carlotinha desde que a vi nas endoenas
da Misericordia faz agora cinco annos. J ento me deu na venta de a
pedir ao snr. seu pae; mas rosnava-se por ahi que a menina no gostava
de rapazes do negocio, e tinha l suas tendencias para a farda. Metti a
falla no bucho, e esperei at ver no que paravam as cousas. Depois
aconteceu em sua casa a desgraa d'aquelle grande roubo, o snr. Norberto
ficou mal arranjado de fortuna, e eu, como o outro que diz, fiquei sendo
o mesmo homem a respeito da menina. Fui pedil-a a seu pae em casamento,
e elle ficou a pular de contente, porque, a fallar-lhe a verdade, no 
por me gabar, mas seu pae no endireita mais a cabea se eu no casar
com a menina. Em primeiro logar, rasgo as letras que se vencem contra o
snr. Norberto no mez que vem, depois empresto-lhe quasi sem juro o
capital necessario para elle montar o negocio no p em que estava antes
da quebra; depois, arremato a quinta do Candal em nome da snr. D.
Carlotinha, porque j ouvi dizer que a menina gosta muito da aldeia, e
eu tambem no desgosto, porque l cmo muito melhor, e as aguas so mais
leves. Pois  verdade: eu venho para este fim. Agora veja l a menina o
que decide. Se quer ser minha esposa, trato de arranjar os papeis,
botam-se os banhos, e vamos a isto. Ento que diz?

--J respondi a meu pae--disse, com mal disfarada clera, Carlota
Angela.--No me queixo do snr. por aqui vir com similhante fim; creio
que meu pae, por delicadeza, lhe no diria sem rebuo a minha resposta.
Eu no caso com o snr. Silva, nem com alguem. Resolvi ser religiosa. O
meu tempo de noviciado acabou. Estou esperando a licena regia para
professar.

--Deixe-se de asneiras--atalhou Antonio Jos, soltando um boal frouxo
de riso que indignou Rufina e enojou Carlota--Pois a menina quer-se vir
aqui metter n'esta espelunca, podendo ser rica e viver regaladamente
como pouca gente! Tenha juizo, creaturinha! Isto de convento  bom para
quem no tem, como o outro que diz, um marido que lhe d tudo o que for
necessario para o augmento da sua pessoa, e que a traga nas pontinhas.

Carlota erguera-se para sair. Rufina seguira o exemplo da sobrinha.
Antonio Jos da Silva permanecera refestellado na cadeira, at que se
ergueu, forado pela silenciosa mesura das duas senhoras, exclamando:

--Ento que diz?!

--Minha sobrinha j respondeu ao snr. Antonio--disse a freira
affavelmente.

--Com que ento, nada feito?--redarguiu o lrdo aspirante ao matrimonio,
que, dez annos depois, lhe empeonhou a existencia, segundo reza a
chronica j citada, da qual entendemos que a leitora deve prover-se, se
a zanga que lhe faz o bronco mercador de pannos requer uma vingana
superior ao delicto--Pois sabe que mais, snr. D. Carlota?--proseguiu,
erguendo-se, com modos colericos, e brutalmente canhotos--Eu entendo o
que isso , e bem sei por que a menina anda a fingir que quer ser freira
p'ra dar tempo a que elle volte l do Brazil.

--Elle! quem?!--exclamou Carlota com assomos de indignao, que o s
olhar da tia sofreou.

--Faa-se de novas! pois no sabe quem?! o da marinha, aquelle que lhe
caiu l no gto, porque trazia a cintura arrochada no fardalho, que
sabe Deus a quem elle o ficou devendo, quando foi para Lisboa...

Carlota Angela saiu precipitadamente da grade; soror Rufina ficou para
explicar ao sandeu a descortezia da sobrinha; aconteceu, porm, que elle
no se julgou affrontado pelo impeto da saida.

--Snr. Antonio--disse a freira--v. m. est ahi fallando n'uma pessoa que
morreu. Minha sobrinha no espera alguem.

--Eu no sabia que elle morreu! Isso agora  outro caso... Acho que fiz
uma asneira em lembral-o  pobre moa! Faa favor de lhe dizer que me
desculpe. Ora olhem quem havia de dizer que o tal rapaz dera  casca l
no Brazil! Pois eu cuidava que ella estava, como diz l o outro,
encantada por elle, como a doninha com o sapo. Ainda bem que ella lhe
no cau nas mos, porque pelos modos o homem era jacobino, e melhor foi
assim, no lhe parece, senhora Madre?

A freira no pde deixar de sorrir ao titulo de _Madre_ que pela
primeira vez lhe fora dado.

--An?--tornou elle--est-se a rir?! ento que quer dizer l essa
risadita?! Isto parece-me casa de doudos, por mais que me digam.

--No deve aqui voltar, snr. Antonio,--replicou a freira com muita
brandura e graa--porque seria pena que o seu juizo perigasse n'esta
casa de doudos.

--E olhe que a fallar a verdade j me lembrou isso, e essa cousa que a
senhora Madre acaba de propr no me ce em cesto roto. Isso leva agua
no bico. A senhora Madre l lhe parece que a sua sobrinha  capaz de me
fazer dar volta  milo? No tenha pena do rapaz, que eu tambem a no
tenho! (O snr. Antonio Jos da Silva tinha por esse tempo os seus
quarenta annos.) Quem chegou  idade adultera (emende _adulta_) sem dar
com as ventas no sedeiro, tambem j no ce na arriola de se apaixonar
por quem lhe no sabe agradecer os affectos do seu peito;  como lhe
digo, senhora Madre, e pde dizel-o tal e qual  sua sobrinha, que no
v ella cuidar que eu perco a vontade de comer. De tolas como ella est
cheio o Porto. Tomara eu boa vontade de casar, que mulheres andam-se-me
a metter pelos olhos com um palmo de cara soffrivel, e bons dotes...
cuida que no, senhora freira!?

--Cuido que sim, snr. Antonio,--disse com a mais comica paciencia soror
Rufina--cuido que v. m. merece uma menina de merecimentos muito
superiores aos da minha pobre sobrinha. Se ella o no sabe avaliar ao
justo,  porque est inclinada para a religio, onde nem todas as
pessoas so doudas, snr. Antonio. V v. m. na graa de Deus, escolha
entre tantas meninas que se lhe offerecem a melhor, e seja muito feliz.
As minhas obrigaes no consentem que eu me demore.

--Sempre lhe quero dizer mais uma palavra, se est para isso, snr.
Madre.

--Com tanto que seja breve...

--Olhe l... A senhora quer fazer um contracto commigo?

--Um contracto! Ns as religiosas no podemos fazer contractos, nem
supponho que genero de contracto possamos fazer.

--Eu lhe digo. Se a senhora fizer com que sua sobrinha queira casar
commigo, eu obrigo-me a dar  senhora cem mil ris cada anno emquanto a
snr. Madre for viva...

--Emquanto eu for viva?--atalhou a freira, sustendo com difficuldade o
impeto do riso.

--Sim, senhora--tem cem mil ris em metal, pagos no principio do anno,
emquanto a senhora for viva.

--No aceito.

--Ento quanto quer? diga l, que me pilha em boa mar!

--Se me d os cem mil ris por mais alguns annos...

--Que ? no entendo isso.

--V. m. diz que me d cem mil ris annuaes; mas tira a condio de m'os
no dar logo que eu morra, no  assim?

--Podera no! Dou-lh'os emquanto a snr. Madre for viva.

--Pois eu quero que m'os continue a pagar por mais alguns annos.

--A senhora por mais que me digam est a mangar commigo! Ento  douda
ou no ?! E o caso  que j pegou  moa a toleima...

Soror Rufina arquejava em gargalhadas indomitas, quando o lrpa lhe
dirigia os ultimos insultos.

No podendo mais sustentar-se na grade, a freira deixou o mercador a
resmungar, e lanou-se a rir nos braos de Carlota, que a esperava
chorando.

Acabou-se o ignobil episodio de Antonio Jos da Silva.

Aos que no conhecem esta raa inextinguivel no Porto, aos que reputam
desnaturada a linguagem que o romancista saccou da lingua d'este
Antonio, emprasamos para que estudem, e observem, hoje, n'este anno de
1858, j passado quasi meio seculo, os Antonios existentes, se 
possivel encontrar-se um Antonio assim que no seja um lustre da nobreza
coeva do gaz e do telegrapho electrico.




XVI

     Quem quizer saber quantos so ao todo os filhos de Ado, conte
     primeiro quantos so os afflictos e atribulados.

                                       Bernardes. (_Nova Floresta_.)


A filha de Norberto de Meirelles esperava em vo que sua me com
supplicas incessantes alcanasse do marido o dote para a profisso. O
negociante poderia com algum sacrificio acceder s instancias de D.
Rosalia; mas a pertinacia de Carlota em rejeitar a proposta de Antonio
Jos da Silva irritou-o de tal modo, que no houve convencel-o a
aceitar, a titulo de emprestimo, a dadiva do patrimonio que os paes da
novia Dorothea queriam dar  intima amiga de sua filha. Ia mais por
diante a brutalidade do arrozeiro, negando-lhe o consentimento. Ora,
contra esta tyrannia nova, entre as tyrannias de paes crueis e barbaros
tutores, como se diz nos romances no menos barbaros e crueis, contra
esta nova tyrannia trabalhavam na crte pessoas empenhadas a favor da
novia por interveno de algumas freiras.

Obtida a licena regia, graas  pouca actividade de Norberto, e talvez
 diverso em que o traziam os cuidados e afflices de pagar as letras
do snr. Antonio Jos da rua das Flores, Carlota Angela soube que seria
freira sem dote, freira de prenda, como se chamam as meninas que tocam
ou cantam, e do a sua habilidade como equivalente de patrimonio.

Foi um dia de jubilo no mosteiro de S. Bento da Av Maria o da chegada
da licena. A profisso de Carlota era uma festa, em que todas as
freiras tomavam parte. Os fartos meios, que lhes sobejavam, permittiam
solemnisar com todas as galas e magestade o acto augusto, que a novia
anciava, chorando de alegria, e esperando com susto, como se temesse
algum imprevisto obstaculo  sua felicidade. Chegou o fausto dia.

Se entendem que no  impertinencia descriptiva debuxar  pressa os
promenores da profisso de uma religiosa benedictina, acompanharemos
Carlota Angela desde que a mestra, avisada pelo dobre do sino, a foi
buscar da casa do noviciado para o cro. A novia ajoelhou aos ps da
prelada, proferindo as palavras do rito, que so uma supplica de
misericordia a Deus e  abbadessa, que a interroga cerca do que
pretende. Entre as mos de Carlota estava a regra do patriarcha S.
Bento, e n'essa postura devota e humilhada profere os votos.  grade do
cro, onde se passa esta scena quasi silenciosa, chega um sacerdote com
a cruz processional entre dois candelabros, e aps elle os paramentos.

A novia cantou com a voz tremida a carta da sua profisso. As ultimas
palavras mais as dissereis gemidos desatados de uma suffocante angustia.
Lida a carta, o som melancolico do orgo parecia chorar com ella, cuja
voz, em terceto com a da cantora e da mestra de novias, entoou, tres
vezes, o seguinte verso:

_Suscipe, Domine, secundum eloquium tuum, et vivam, et non confundas me
ab expectatione mea._

Carlota foi ajoelhar ante o altar da Virgem, e depz no respaldo do
altar a carta da profisso. O cro cantava, entretanto, um _Gloria_ de
tristissima toada.

D'alli, foi ao meio do cro a professante, e ajoelhou sobre uma alcatifa
entre quatro candelabros; ajoelharam todos, e entoaram uma ladainha,
acompanhada a orgo, e instrumental.

As freiras assistentes ergueram nos braos a novia, emquanto se cantava
o _Veni, creator Spiritus_, invocao de tanta religiosidade e
compuno, que as lagrimas saltaram a um tempo de todos os olhos.

Carlota foi prostrar-se diante da abbadessa, que a despiu, ao passo que
a trana dos cabellos era deposta n'uma salva de prata. Cingiram-lhe
depois a touca e o vo, que o celebrante aspergira e incensara, e
ajoelharam com ella. Recebe, donzella, o vo sagrado--disse a
abbadessa, impondo-lh'o na cabea--para que chegues sem mcula ao
tribunal de nosso Senhor Jesus Christo, ao qual se dobram os joelhos no
co, na terra, e no inferno por toda a eternidade. Sobre o hombro
direito lhe collocaram em seguida umas disciplinas, acompanhando a aco
com estas palavras: Recebe,  cara irm, as armas da tua milicia.

O celebrante entoou uma orao, durante a qual as lagrimas da
professante manavam copiosamente sobre as mos de soror Rufina, que lhe
amparava o rosto.

A prelada proferia as ultimas palavras da beno final, o orgo
acompanhava _Benedictio Dei Patris_, esse hymno de aco de graas, que
os anjos parecia sublimarem em accordes de celestial melodia, quando
entrou na igreja um mancebo com tal impeto, que se fez reparado s
pessoas por entre as quaes rompeu com precipitada vehemencia.

--J professou?--perguntou o individuo machinalmente a um rosto
conhecido que proferira o seu nome,

--Agora mesmo.

--Professa!--exclamou Francisco Salter de Mendona, correndo para as
grades do cro--Professa! Tudo perdido, tudo perdido!

Encostado aos ferros do cro, com a fronte banhada de suor frio, e a luz
dos olhos turvada, Francisco Salter estava j amparado entre os braos
das pessoas que o reconheceram.

Fez-se um grande rebolio na igreja. A multido agglomerava-se em redor
do official de marinha, sem poder averiguar a causa dos gemidos que se
ouviam no cro.

No eram de Carlota Angela esses gemidos. A infeliz dirieis que
adivinhou a entrada de Salter na igreja, porque, erguendo-se de repente,
antes que a prelada pronunciasse as ultimas palavras da beno final,
correu  grade, soltou um ai suffocado, como se outro no podsse j
soltar do corao expirante, e caiu desmaiada nos braos de algumas
freiras, que lhe tinham seguido o movimento arrebatado.

Soror Carlota foi transportada  sua cella, sem sentidos. Francisco
Salter de Mendona recobrou alento e razo, quando se viu espectaculo de
tanta gente, e pediu licena para sair.

A serenidade que de repente lhe assomou ao rosto causava novo espanto
aos amigos ou conhecidos que se empenhavam em o levar d'alli. Entre
esses havia um que tinha o segredo d'aquella grande desventura, e lhe
pediu mui encarecidamente que o acompanhasse para sua casa. Mendona
rejeitou com tranquilla urbanidade os offerecimentos, e parecia surdo s
consolaes. O sorriso contrafeito, com que desmentia as lagrimas que
lhe aguavam os olhos, presagiava alguma grande desgraa. Um suicidio foi
o receio das pessoas a quem o mysterioso acontecimento foi de bca em
bca revelado.

Por fim, Mendona desopprimido do concurso que o rodeava ainda no adro
da igreja, entrou no pateo do mosteiro, foi com sereno aspecto 
portaria, e pediu  madre porteira o favor de o annunciar  senhora
religiosa que acabava de professar. Concorreram algumas freiras a ouvir
este recado, e todas  uma balbuciaram no sabemos que palavras de
consolao religiosa que Francisco Salter parecia no ouvir.

Immovel permanecia elle, esperando a appario de Carlota, quando lhe
indicaram a grade onde elle devia esperar que lhe fallassem.

-- a snr. D. Carlota Angela que eu procuro--disse elle com
imperturbavel firmeza.

--Pois suba para a grade, que o esto l esperando.

--Mas quem  que me espera, senhoras?

--Alguem ...--responderam as freiras.

--Quem eu procuro, e com quem preciso fallar,  a senhora que professou
ha pouco. No conheo mais alguem n'esta casa.

--Pois queira subir...--disse o padre capello do mosteiro, que n'este
momento viera collocar-se ao p de Francisco Salter--Eu acompanho v.
s.  grade onde o esperam--continuou o padre, dando-lhe o brao, e
guiando-o automaticamente para a grade, onde o estavam esperando.

Mendona encontrou na grade uma freira desconhecida: era soror Rufina.

--Creio que no lhe ser desagradavel--disse ella--encontrar uma tia de
Carlota.

--Quizera antes, minha senhora, encontrar sua sobrinha.

-- impossivel; minha sobrinha no d accordo de si, nem dar to cdo.
V. s. devia presumir isto mesmo, antes que lh'o dissessem.

--Por que, minha senhora?!

--Porque minha pobre sobrinha o julgava morto, todas ns as amigas da
infeliz o julgavamos como ella: eu mesmo agradeo a Deus as foras que
me dispensa para poder vir a esta grade rogar de mos erguidas ao snr.
Mendona que no diga  desgraada uma palavra que a pde matar; no lhe
lance em rosto a falta de palavra, que seria affrontal-a e dar-lhe o
ultimo empurro para a sepultura.

--E disse eu j que vinha lanar em rosto a Carlota alguma falta? No
venho, minha senhora, no. Eu vim a querer enxugar-lhe as lagrimas que a
minha appario lhe fez chorar.

--Carlota por ora no pde chorar, snr. Mendona. Para tamanha dor no
ha tal desafgo por emquanto, e Deus sabe se alguma vez o haver... Eu
no conto j com a vida de minha sobrinha. Vamos ser n'este convento
testimunhas de uma agonia muito atribulada. Deus lh'a d curta, ou me
leve a mim primeiro, por misericordia. Duas horas antes, snr. Mendona,
tl-a-hia talvez matado de alegria com a sua presena. Assim, matou-a,
ha de matal-a de pena, de desespero, de dores infernaes, que no ho de
obedecer aos confortos da religio.

--Que so confortos da religio?!--interrompeu Mendona, carregando o
sobre-olho com a turvao da blasphemia.

--Aterra-me essa pergunta, snr. Mendona!

--No se aterre, minha senhora: responda-me antes a uma pergunta: o Deus
que ha de consolar Carlota  o mesmo que viu impassivel at este momento
a minha desgraa e a d'ella?

--Altos juizos do Senhor! Por quem  no lhe falle essa linguagem 
pobre Carlota! Ajude-a a supportar o peso da sua dor, com os olhos
postos no co. A impiedade no serve de nada, snr. Mendona. A
respirao da blasphemia traz para o interior do corao o fogo do
desespero. Se a vir succumbida, d-lhe animo para a paciencia, venha
aqui todos os dias, d-lhe a felicidade que a religio dos infelizes no
condemna; amigo, seja o irmo extremoso da minha pobre sobrinha.
Prometta-me isto, que eu vou prevenil-a pouco e pouco, at que ella
possa encaral-o com firmeza e confiana. Se a accusar de inconstante,
snr. Mendona, olhe que a calumnia cruelmente. Ha de saber da bca de
Carlota que dois annos de martyrio ella tem amargurado n'este convento.

--Sei, senhora.

--Que desenganos, que torturas, que repetidas luctas com a desesperao,
e que ferventes supplicas ella fazia a Deus para que a levasse, desde
que lhe deram como certa a sua morte!

--Tudo sei, minha senhora. J v que a no posso condemnar. Eu venho
pedir-lhe consolaes, venho aprender a paciencia, venho pedir-lhe
coragem para no tentar contra a minha vida.

--Pea, pea, e ver que a minha santa sobrinha lhe ensina a consolao
do soffrimento, o blsamo divino da paciencia, e o segredo de achar a
alegria na vida que to desgraada lhe parece. Hoje no, snr. Mendona;
Carlota a esta hora precisa de que a animem, se  que Deus no quer que
este golpe seja o ultimo no debil fio da sua existencia. Eu vou para
junto d'ella, parece-me que a estou ouvindo pronunciar o seu nome, e eu
corro a dizer-lhe que encontrei no snr. Mendona o irmo, o amigo
carinhoso da nossa Carlota. Deixa-me dizer-lhe isto, snr. Mendona?

--Diga, diga, que  preciso salvarmol-a, ainda mesmo que ella me no
torne a ver.

--Por que no ha de ella tornar a vel-o?! Ento quer que a infeliz morra
atormentada? Tenha compaixo de ns, snr. Mendona! Outra freira d'esta
casa talvez lhe pedisse que no voltasse aqui mais. Eu, pelo contrario,
lhe rogo que venha todos os dias, que seja testimunha de todas as
lagrimas salvadoras que ella chorar, que lhe prometta uma affeio pura
sem manchar a santidade das obrigaes religiosas de Carlota. Pois a
amizade immaculada no  o reflexo do amor divino? O Altissimo no
condemna o corao de minha sobrinha, cheio de um amor que ha de entrar
com a alma na bemaventurana. Eu tenho presenciado n'esta casa affeies
de muitos annos, de longas vidas dedicadas ao amor do corao, sem
comtudo macularem a religiosidade dos deveres. Todo o mundo tem
obrigao de respeitar o amor de minha sobrinha ao homem que ella chorou
dois annos, chorava ainda no instante em que lhe appareceu. Venha, snr.
Mendona, venha aqui todos os dias, e ver como o tempo amacia os
espinhos que o mortificam. Ha de chegar a esquecer-se das dores que
soffre n'este momento, e a sentir as lagrimas de uma amizade santa e
pura.

O dialogo foi cortado por uma pressurosa chamada a soror Rufina. Carlota
recuperando os sentidos, chamava Francisco Salter de Mendona, e
forcejava por evadir-se dos braos que a sustinham. Algumas religiosas
estavam passadas de religioso terror, vendo-a, ainda vestida com os
hbitos da profisso, invocar to afflicta e descomposta o nome profano
de um homem que, no entender das servas de Deus, devia considerar-se de
direito morto, quando o no estivesse de facto. Algumas escrupulisaram
de assistirem ao debate da professa nos braos das mais novas, e
congregaram-se na cella da escriv para decidirem que o demonio entrara
no corpo de Carlota. O voto da mais auctorisada era que se chamasse o
capello para exorcismar a energumena. Outra acrescentava que, no caso
infausto de contumacia diabolica, seria util e piedoso dar parte do
successo ao bispo, para que este obrigasse Francisco Salter a sair do
Porto, como perturbador d'aquella casa.

Entretanto, soror Rufina, chamada da grade, onde deixara Mendona
esperando saber o estado de Carlota, pedira s amigas menos escrupulosas
de sua sobrinha que a deixassem s com ella.

--Francisco desejava ver-te--disse Rufina.--Logo que tenhas fora e
vontade irs ver o que  um amigo do corao, um anjo de paz que Deus te
envia, assegurando-te que a felicidade do espirito no destroe a
felicidade do claustro, que a esposa do Senhor pde ser a irm estremosa
do homem a quem amou.

Carlota cravava os seus grandes olhos no rosto risonho da tia, como se
no comprehendesse. A freira continuou:

--Esperavas que Mendona te viesse lanar em rosto a tua impersistencia,
minha filha? No, Carlota. Mendona sabe tudo. Diz que vem procurar as
tuas consolaes, a fim de no tentar contra a propria vida. Vs tu,
menina, que sublime encargo Deus te confia no momento em que as tuas
angustias tocam o extremo? Tens de amparar a vida do nobre moo, de lhe
dares consolaes...

--Eu, meu Deusl eu consolal-o!--exclamou Carlota, arrancando
impetuosamente o vo--Ha uma s consolao possivel para ns.
Annullem-me os votos que fiz. No posso ser freira, no quero ser
freira. Deus sabe que fui atraioada, que professei, porque me mentiram,
e eu no minto a Deus. Minha querida tia, eu sou agora mais desgraada
que nunca. Morro impenitente, se me no dizem que  possivel annullar um
juramento falso que me obrigaram a dar.

--Carlota! tu no comprehendes a felicidade n'este mundo sem o crime?

--Crime! qual foi o meu crime? que fiz eu para merecer este castigo?
Onde est Deus, que me no amparou antes d'este desgraado passo que dei
hoje, e me no mata agora, se no posso remedial-o?

--Isso  uma blasphemia, filha! o demonio da tentao no quer deixar-te
gosar as alegrias puras que Deus te permitte.

--Alegrias, minha tia! Pois cuida que se engana assim a afflico?
Alegrias para mim, que estou condemnada a um carcere perpetuo, que hei
de ver sempre entre mim e o esposo da minha alma uma barreira de ferro,
que nem posso sequer esperar que elle venha recolher o meu ultimo
suspiro?! Vel-o todos os dias... oh! esse  o mais horrivel de quantos
padecimentos podia antever a minha imaginao! Antes acabar no
desespero, sem vel-o! Antes morrer aqui abafada sem que elle seja a
desgraada testimunha das minhas agonias! Que hei de eu dizer-lhe, ou
que ha de elle dizer-me a mim? Se elle me pedir contas dos meus
juramentos, se me lanar na rosto a minha falta de f, se me perguntar
como pude eu sobreviver  certeza de que elle tinha morrido, que hei de
eu responder?

--Diz-lhe que vestiste o habito de eterna viuvez, que escolheste a vida
mais pura, para que as oraes por alma d'elle fossem mais gratas ao
Senhor. Diz-lhe antes que escolheste o mais longo paroxismo de uma morte
atribulada; que podeste acreditar que elle violara o seu juramento;
conta-lhe tudo quanto a traio inventou em teu damno; diz-lhe que ainda
convencida de que elle morrera, depois de atraioar-te, lhe perdoaste, e
caste de joelhos aos ps da cruz, pedindo  misericordia infinita que
lhe perdoasse o perjurio. Que mulher houve n'este mundo to forte da sua
innocencia como tu para poder apresentar-se com o rosto immaculado na
presena do homem que lhe vem pedir contas? Qual  o teu crime, infeliz?
No te disseram a ti que Francisco esposara outra mulher no Rio de
Janeiro? No te affirmaram que elle morrera depois? O silencio de dois
annos no estava sempre confirmando o cruel desengano das tuas
esperanas? Quem te ha de accusar, Carlota?

--Elle, minha tia. Eu tinha obrigao de no acreditar a calumnia! Eu
fui mais vil e miseravel que os infames que urdiram a minha desgraa!
No tenho animo de lhe apparecer, no sei como possa defender-se a minha
fraqueza, nem quero defender-me, porque sou eu a que me accuso de
indigna do perdo d'este homem, que eu fiz to infeliz... Ha um s
remedio, minha tia... Se m'o no do, nem quero mais vel-o, nem prometto
respeitar a religio que nos manda supportar com paciencia o peso da
vida... e que vida, meu Deus!... que vida de inferno me seria esta, se
eu no podesse arrancar do corao esta braza viva que me est
atormentando!

--Pois que queres tu, Carlota! Valha-me a Virgem Santissima! que se ha
de fazer, infeliz creatura?

--Annullem-me os votos, deixem-me ir lanar aos ps de quem pde
restituir-me a minha liberdade. No posso ser freira, declaro bem alto
para que todos me ouam n'esta casa, e me desculpem do mal que eu fizer;
no posso ser freira, sem dar grandes escandalos, sem insultar a virtude
das pessoas que me rodeiam, sem amaldioar a hora em que professei, e a
religio que me manda morrer sem desabafo.

--Carlota! pelo amor de Deus!--exclamou soror Rufina, tapando-lhe a
bca, e abraando-a com convulsivo terror. Teme o castigo do co, minha
filha. Arrepende-te d'essas blasphemias, e Deus no permittir que tu
comeces a expial-as n'este mundo com a deshonra... Tu no sabes o que
disseste, Carlota. Foi a desesperao que a fez assim fallar, minha Me
Santissima; no consintaes que ella seja castigada! Alcanae de vosso
Filho um bocadinho de refrigerio para esta desgraada que a dor
enlouqueceu.

A freira continuou uma supplica assim afflictiva diante da imagem da Me
de Deus. Carlota Angela correra impetuosamente para o mais escuro da
casa, e l prorompera, ssinha, em prantos, que no eram de contrio,
nem sequer de desafgo  sua grande angustia. Apertavam-a ainda os
frenesis da desesperao enraivecida e impia. Rebatia com gestos
furiosos as timidas consolaes da tia e da meiga Dorothea, cujas
palavras mais suavemente lhe deviam fallar ao corao, se a quasi
demencia a no tivesse assaltado com vertigens de quarto em quarto de
hora.

Francisco Salter recebeu, ainda na grade, a triste informao do estado
de Carlota. Perguntou elle a soror Rufina, se teria duvida em
entregar-lhe uma carta. A freira hesitou emquanto Mendona lhe no disse
que a carta seria um lenitivo para Carlota, e talvez um balsamo de
completa cura.

Qual deva ser a efficacia d'esse balsamo infere-se da carta que se copia
textualmente no capitulo immediato.




XVII

     Dans le monde tout est confondu. Les juges ne sont plus que des
     bourreaux, qui offrent des victimes humaines  ce Dieu mensonger
     qu'on appelle le Droit et la Justice. L'homme sans foi devient un
     sage et le sage une dupe. Le hros qui donne sa vie pour la vrit
     n'est qu'un malheureux fou, qui s'est sacrifi pour une chimre.
     Qu'il meure dsespr sur les pavs sanglants, objet de
     l'indiffrence de Dieu et de la raillerie des hommes!

                                            Jules Simon. (_Le Devoir._)


Carlota.

O destino esmaga-nos, se succumbirmos. Coragem, intrepidez de
desesperados,  a nossa salvao... A sociedade pz-nos um p sobre o
peito: o corao geme nas agonias da morte violenta; mas no morrer.
Affrontemos os assassinos. Vamos direitos ao encontro da infamia. A
nossa vingana  viver. A nossa vingana  enxugar as lagrimas, e
suffocar os gemidos. A nossa vingana  fazer a sociedade responsavel
perante a sua propria consciencia do crime que ella propria ha de
condemnar, depois que nos queimou na alma o germen da virtude.

s freira, Carlota Angela. Foraram-te a violar a palavra jurada, cujo
cumprimento vinha pedir. Disseram-te que eu te atraioara e morrera.
Tinhas obrigao de defender a minha honra, emquanto eu no viesse da
sepultura pedir-te perdo da perfidia. No te condemno, nem sequer me
queixo. Entre a perversidade dos que te rodearam e a tua innocencia, a
lucta era desigual. Fraqueaste, porque a desgraa exigia que eu bebesse
o ultimo trago do meu calix. Eu no podia deixar de ser infeliz at 
extrema d'este inferno. Aqui deve ser o termo final da minha
condemnao. No se pde ir mais alm. Suicidar-me seria desmentir a
fortaleza com que tenho arrostado a desventura at hoje. Chorar comtigo,
devorar em silencio um dia e outro dia, na escuridade da desesperao, o
resto de duas vidas to miseraveis como as nossas, seria escolher a
peior das mortes, o paroxismo prolongado, sem desafgo nas crenas, sem
refugio na esperana de outro mundo.

No creio, nem espero nada alm d'esta vida, Carlota.

Se te sentes arrebatada para a grandeza do Creador, repara na miseria
das creaturas. D'este asqueroso lamaal de sangue e lagrimas, para onde
nos empurrou a mo humana, como queres tu que o espirito possa
levantar-se para Deus?! No ha justia na terra, nem providencia no co.
O summo bem  um sonho dos coraes opprimidos, quando a oppresso no
estala os ultimos filamentos da f, quando a angustia no  tamanha que
cerre todos os respiradouros da alma. Se ha Deus, a sua inercia,  vista
das atrocidades que soffremos,  igual  indifferena,  impotencia, ao
nada. Nas minhas e nas tuas dores, a justia eterna permaneceu
insensivel, como se temesse ou approvasse a infamia dos homens.

No baixou do co um anjo que te dissesse:

Aquelle que te ama, vive em torturas, arcou j triumphante com a morte,
esmagar por fim o preconceito da honra, e vir buscar-te. No ds a
Deus um corao que no podes dar. No jures ante o altar um voto que
implica a morte do homem que a estas horas, sobre o mar, me est pedindo
que te d foras para o soffrimento, que te illumine com um claro de
esperana, que te pove os sonhos com a imagem d'elle.

Fallou-te assim um anjo, Carlota? No. Em redor de ti estava o terror
do desconforto, o silencio da desesperao, o desamparo, e as piedosas
lamentaes de algumas almas boas que te mostravam o co, porque a vida
se te havia convertido em inferno.

Eu gemi n'um carcere longos mezes. Visitou-me a fome, a sde, o frenesi
da loucura, o terrivel _nunca mais_, essas duas palavras malditas que
encerram todo o fel das amarguras humanas. E, no tumultuar de tantas
penas injustas, nunca a justia divina me disse que esperasse o dia do
resgate, a cora do martyrio immerecido, a vista da mulher chorada que
me vinha consolar nos instantes do lethargo, e fazer suave a pedra em
que eu encostava a cabea abrasada. Nunca. Gemi no desamparo, como o
malfeitor repulsivo, que a sociedade lanou de si maldito, e maldito de
Deus nem sequer podia esperar a purificao do remorso.

Que mal fizeras tu, pobre mulher? Por que te mortificaram os homens, e
como consentiu um Deus justiceiro o tormento que te deram?

Que mal fizera eu, homem de consciencia pura, que passei os annos da
minha mocidade estudando os raros exemplos de virtude que me encantavam
o corao?

Padecemos, porque fomos escravos da honra, Carlota Angela.

Se eu passasse por cima dos respeitos humanos, terias sido minha
amante, serias hoje minha esposa, e a sociedade apontar-nos-hia como
modelo de amor fiel e devotado a todos os sacrificios. Faltou a culpa,
para que a fortuna nos no ludibriasse. Era necessario o crime para
sermos hoje felizes. A virtude o que ?

A minha honra reduziu-me a isto que eu sou. Sacrifiquei-te aos deveres
que a minha probidade me impunha, e fiz-te a desgraada que hoje s.

Quero salvar-te, Carlota, e quero que me salves.

Apparece-me, filha da minha alma; vem ouvir-me, porque a nossa poca de
felicidade comea hoje. No ha para ns n'este mundo mais que ns
mesmos. Tudo que se oppozer ao destino que vamos seguir,  mentira, 
perfidia,  uma nova traio que te armam, Carlota.

Sorri  esperana, martyr! Irradie em volta de ti o sol de esperana
que me est abrilhantando o futuro. O corao delira-me de alegria no
peito, onde no cabe. Agora conheo que me pertences, que te no perdi,
que s mais minha por um direito de torturas, que valem mais que todos
os juramentos. Sacode as algemas que a hypocrisia te encadeiou nos
pulsos. Deixa voar o corao, que um voto sacrilego ou impostor te
assellou ao nada da uma esperana estupida ou fementida. s livre,
Carlota. A tua alma no podia obedecer s suggestes de malvados, porque
era minha.

Agora te digo que venho pedir contas do teu juramento.

Carlota Angela, estou aqui! Pertences-me.

A freira acabava de ler esta carta, e correra  grade, onde a esperava
Mendona.

No dizem os nossos apontamentos o que se passou na grade. Se
escrevessemos de imaginao, dava-se aqui um dialogo plangente, travado
de exclamaes, umas de expanso maviosa, outras de frenesi insano. O
mais natural, na situao dos dois infelizes,  chorarem longo tempo
silenciosos. Devia a sua dor ser uma das que suffocam e entalam na
garganta o gemido. A desesperao mataria n'elles o jubilo de se verem:
a freira no poderia dizer a Mendona: sou tua. N'aquellas grades,
duras e inflexiveis como o cumpra-se terrivel do destino, estava
escripto o impossivel. Entalal-as, espedaal-as, s a mo sacrilega do
crime poderia. Carlota ha de rasgar o vo, ha de calcar o habito, ha de
passar por cima da sua virtude, da sua religio, do seu esposo
celestial, se quizer dizer a Mendona: sou tua.

Devia, pois, ser melancolico alm do exprimivel o que ahi se passou
n'essa grade; triste, e desgraado direi, a julgal-o pelas
consequencias, que se vo descrever, com um certo pezar em que esperamos
tomem os leitores o seu quinho de pena, se no todos, ao menos aquelles
que no do nada pela felicidade da terra, quando ella implica offensa
ao Senhor do co.

Se as calamidades que promanarem d'esse encontro no forem das que matam
os agentes da sua propria desgraa, e, ao mesmo tempo, escandalisam a
moral, a quem ha de a moral condemnar? em que ponto d'esta escabrosa
senda da vida quereis que se levante o signal de aviso para acautelar os
ignorantes do abysmo que as flores escondem?

Nao sabemos, no o sabem os que teem a experiencia das qudas, e vo
cando sempre no golfo, para onde os allicia com blandicias uma
attraco satanica. Estamos fartos at ao tedio de ouvir dizer que o
homem  bom, que o homem  mau. O homem no  bom nem mau de seu
natural:  aquillo que o fazem ser;  o que realmente deve ser n'este
mundo, segundo a organisao d'este mundo, organisao viciosa,
aleijada, falsa, peccaminosa, quer o defeito comeasse no paraizo
terreal, quer nos multiplicados infernos que as idades se foram
inventando atravs das civilisaes.

O leitor tem o juizo necessario para se no dar  canceira de
interpretar essas linhas assim com assomos de dogmaticas. Este romance
pecca por acaso em divagaes philosophicas, e n'isso est cifrado o
merito no vulgar de um livro que sustenta o caracter singelo e lhano
desde a primeira pagina, para que aos mais myopes se no esconda a luz
debaixo do alqueire.

Reparou soror Rufina em sua sobrinha, na volta da grade; achou-a serena
de mais, risonha at; um lampejo de alegria interior que lhe reaccendia
nos olhos a luz que as lagrimas haviam apagado. A velha freira, j
apalpada por infortunios de amor, no conjecturou d'aquella inesperada
alegria to innocentemente como Carlota cuidava. O temor que a
sobresaltou presagiava a verdade, mas to desgraada era a verdade, que
a freira antes quiz desmentir o proprio presentimento, do que interrogar
a sobrinha, innocente talvez.

--Como vens alegre, Carlota!--disse ella.

--Fiquei mais desopprimida, minha tia; o muito chorar faz bem... estou
muito melhor, e agora espero vencer o infortunio.

--Com que armas, filha?

--Com que armas?... Com as da resignao... A maldade, a guerra que o
mundo faz a fracas mulheres como eu, s com a paciencia se sustenta.

--E Mendona aconselhou-te a resignao?--disse a freira com suspeitoso
intento.

--Elle? tomara o infeliz quem lhe ensinasse o remedio das suas
afflices... Nenhum de ns  forte; somos ambos por igual desgraados e
fracos para luctar com as perfidias que nos fazem, ou que nos fizeram. O
remedio unico  gemer at  morte, dar  sociedade o regalo de nos
esmagar, soffrer-lhe na garganta o p com evangelica submisso.
Entende-o assim, minha tia?

--Que modo de perguntar  esse, Carlota?! Eu estranho-te...

--Estranha-me!? Pois queria que eu voltasse da grade mais afflicta do
que fui?

--No; esperava que as tuas palavras fossem mais sinceras, filha.

--Pois no so?!

--Ha ironia n'esse elogio que fazes  tua paciencia. O corao de uma
mulher no  assim. Concilias-te muito depressa com o sacrificio. A
virtude no se alcana assim to rapida, e essa paciencia, que te
impes,  a virtude suprema. No, Carlota, no. Tu... Tremo dizer-t'o...

--Diga, minha tia.

--Tu, filha, meditas um desatino.

--Um desatino!...

--Sim, Carlota; tu intentas fugir do convento--disse a freira com pavor.

--No, tia...--balbuciou a trmula religiosa, mudando subitamente do
semblante sereno para os gestos alvoroados da surpreza, do mdo,
reflexivos da agitao interior que fizera n'ella o ar assombrado da
tia.

--No balbucies, desgraada. O teu rosto est confessando o desvario do
corao. Diz com animo, filha, confia  tua amiga essa resoluo
funesta, que no executars, sem que as minhas lagrimas te demovam de
tal desgraa. Oh! no faas tal, infeliz, que te deshonras para o mundo,
e te perdes para Deus.

--Minha tia!--exclamou Carlota, abraando-a, e soluando palavras
inarticuladas.

-- pois certo?--tornou a freira.

-- certo, minha tia,  certo que ou Deus me mata, ou eu fujo.

--Jesus! Maria Santissima! Que dizes, Carlota!

--No posso desdizer-me, minha querida tia. Eu sou do homem que amo. No
vejo nada n'este mundo seno elle, e as suas lagrimas. Mas as suas
lagrimas so-me menos preciosas que a vida de Francisco. Soffreu muito o
meu desgraado amigo, soffreu muito;  preciso que eu o indemnise com a
minha reputao, com a vida, com os soffrimentos de todas as pessoas que
me estimam. Eu hei de ser menos infeliz, e elle ser feliz quanto se
pde ser...

-- custa de um crime... Carlota!

--De um crime que  o resultado de muitas infamias urdidas contra a
nossa felicidade.  um crime s o nosso, um s; Deus perda, e, se no
perda, aceito o inferno, se ha inferno, aceito...

--Cala-te, desgraada, que insultas a religio; cala-te ahi, que
enlouqueceste, Carlota, e Deus bem sabe que a tua razo desvaria!

--No, minha tia. Eu sinto-me no meu perfeito juizo: a desesperao
enlouquecia-me de antes algumas vezes; mas a esperana restituiu-me hoje
o vigor da minha antiga razo; com a differena que de antes
assustal-a-hiam os juizos do mundo, que a subornavam, e hoje a minha
razo v tudo como tudo , sente-se livre, e capaz de destruir todos os
obstaculos que uma falsa piedade me pozer.

--Mas tu no s j senhora de tuas aces, Carlota!--bradou a tia com
azedume.

--Sou. Emancipou-me o infortunio. Se me cortarem todos os meios da fuga,
resta-me o recurso do suicidio; apparecerei morta no pateo do convento.

Soror Rufina ficou tranzida. Carlota contemplou-a com pezar n'aquelle
quietismo terrivel. Estava a pobre senhora com a face apoiada sobre os
joelhos, e as mos erguidas. A filha de Norberto quiz divertil-a da
lethargia; mas a glida face da freira parecia de pedra, apenas as
lagrimas borbulhavam incessantes nas mos da sobrinha.

Ao lado, porm, da consternada anci estava a imagem de Francisco
Salter. Carlota queria consolar, promettendo o impossivel; mas o corao
recusava-se  mentira.

A freira benedictina promettera fugir n'aquelle dia. Se no soubera
esconder a traio, tambem no seria capaz de revogal-a, ou differil-a
para mais tarde.




XVIII

     _Venite ad me omnes qui laboratis, et onerati estis, et ego
     reficiam vos._

                                                   Jesus Christo.


Soror Rufina comprehendeu mal a exaltao de Carlota. No conceito da
ingenua religiosa, sua sobrinha, posto que tentada pelo espirito das
trevas a dar um passo de desesperada, um passo do altar para o abysmo,
do limbo de esperanas celestiaes para o inferno das eternas dores, no
chegaria a deixar-se vencer, caria contrita aos ps da cruz antes de
infamar-se e infamar o mosteiro com a fuga.

Carlota, por sua parte, no desmentiu a conjectura da freira, por isso
que, por espao de dois dias, esteve reclusa na sua cella, orando e
chorando, quasi sempre ssinha, porque tanto a Cecilia como a Rufina
pedia que a deixassem desafogar a sua angustia a ss com a imagem do
Senhor, sua consolao extrema e unica.

No podemos, porm, asseverar que as lagrimas e oraes fossem o
constante exercicio da freira benedictina. Duas ou tres cartas, que
Francisco Salter de Mendona recebeu, foram de certo escriptas em
intervallos pouco edificantes d'esses dois dias, se devemos, do que
aconteceu ao terceiro dia, avaliar o contedo d'ellas.

s tres horas da madrugada d'esse terceiro dia, que era o setimo do mez
de setembro de 1811, Francisco Salter de Mendona estava j desde a meia
noite, encostado ao muro da crca do mosteiro, n'aquelle angulo que
confina com a ultima casa da rua do Loureiro, hoje bem conhecida pela
Estalagem do Cantinho. No averiguamos como elle conseguiu do
locatario d'essa casa, que devia ser um sujeito de maus costumes,
licena para engatinhar atravs do telhado, at alcanar o muro na parte
onde  facil o salto para a crca.

Ao dar das tres horas no campanario do mosteiro, branquejou rente com o
angulo do muro, que frma a especie de fortim de ameias sobranceira 
Porta de Carros, um vulto que desceu ao pomar, e ahi se sumiu por alguns
minutos  vista do anciado Francisco Salter.

Era Carlota Angela, a professa benedictina, que fugira do thalamo do
divino esposo, e a cada passo que dava comprimia no peito o corao que
o phantasma do seu crime apavorava. Os minutos que se demorou no pomar,
cerrado, por cuja copa o claro da lua, j desmaiado pelos alvores
matutinos, se coava, traando sombras movedias, foram uma demora
causada por uma syncope.

Francisco Salter, suspeitando isto mesmo, ou receiando o arrependimento,
saltou o muro, deixando iada a escada de corda por onde Carlota devia
subir, e foi direito ao pomar. A freira soltou um grito de terror quando
viu ao p de si um vulto. Salter proferiu o nome d'ella com amorosa
angustia.

Mendona tremia.

No ha coragem de homem que vena a commoo d'estes lances. O silencio
religioso que reinava alli; os trajos da religiosa, ainda os mesmos com
que horas antes assistira  sua ultima orao em communidade, excepto a
touca e o escapulario; esse intimo abalo com que a Providencia se
denuncia nos coraes mais endurecidos pela negao da falsa consciencia
do irreligioso; e, sobretudo, a lucta de todos esses sentimentos com a
paixo imperiosa, e o plano irrevogavel d'esses dois infelizes, fora,
talvez, a causa do quebranto, e quasi desfalecimento de espirito em que
ficou Mendona ao apertar nos braos, pela primeira vez, Carlota Angela.

--No posso!--exclamou ella--no posso dar um passo... Comeo a sentir o
castigo do co... Receio morrer aqui.

--No morrers, Carlota...--acudiu Mendona, apertando-a ao seio com
vehemente ternura misturada de supersticioso sobresalto--Deus s castiga
o crime das que abjuram os votos que faz o corao. Vem, Carlota, mais
alguns passos, pouco nos falta j; d'aqui a momentos vers fugir esse
terror, que me est opprimindo tambem a mim. Vem, amiga da minha alma...

--No posso, Francisco... no posso...--tornou ella, soluando,
pendurando-se-lhe dos hombros com afflictivo modo, e olhando em redor
com a vista assombrada de vises medonhas--Vae tu, que eu torno para o
meu supplicio... Vae, meu amigo, que no pde haver felicidade sem Deus.
No queiras ser cumplice do meu crime, porque o has de expiar commigo. O
melhor, na minha desgraa,  morrer, Francisco; morrer martyr, morrer
digna de pedir ao Senhor por ti...

Francisco Salter balbuciava apenas monosyllabos. As palavras da freira
calaram-lhe na alma um spasmo atribulado. Carlota sentia-o tremer como
ella, ou mais ainda: o seu terror augmentava, com o silencio de
Mendona, com aquella especie de assentimento que elle dava aos
presagios d'ella.

Por um momento se afigurou ao amante da religiosa que a desgraa era
inevitavel. Calara-se o corao. Era o espirito religioso que
sobrepujava o animo robusto do capito de marinha. Tinham-o, talvez,
debilitado os infortunios. Fizera-o, talvez, supersticioso a desgraa,
se no quereis que possa chamar-se influxo providencial este mdo. Por
que no dizemos antes que a desgraa o fizera crente? Por que no
estaria entre ambos o anjo do Senhor, o anjo Custodio que pedira ao
Altissimo um raio da sua divina graa com que alumiar, a dois coraes
que se despenhavam, a profundeza do abysmo?

Carlota parecia banhada d'esse raio celestial, quando se lanou aos ps
de Mendona de mos erguidas, orando, pde dizer-se, orando assim:

--No me leves d'aqui, meu amigo. No me queiras fra do amparo divino
que me deu esperanas de te encontrar no co. Guardemos para l os
nossos amores felizes, amores bemaventurados por uma eternidade. Temos
merecido tanto com os nossos martyrios, Francisco... deviamos de ser to
caros  piedade de Deus... no sejamos agora indignos da sua
misericordia, e crueis para comnosco... A minha vida ser curta no
convento, e fra do convento. Deixa-me morrer aqui; sers menos infeliz.
Eu no me importa a deshonra do mundo: a infamao no poderia matar-me;
mas, l fra, espera-me uma dor maior que todas, a do remorso, a da
contrio impossivel sem a emenda.

Carlota proseguiu soluando no seio do amante palavras inarticuladas, s
quaes responderam por fim as lagrimas copiosas de Mendona, as primeiras
que elle chorava doces e suavissimas, quaes se o Senhor lh'as dsse como
prelibao aprazivel das alegrias que sua alma teria em galardo do
sacrificio.

Era j quasi dia claro, quando a freira benedictina, encostada ao brao
de Mendona, foi sentar-se no degrau da porta por onde uma hora antes
sara com a resoluo de no mais entrar. Ahi, d'esse abrao derradeiro
que se deram silenciosos, arquejantes, convulsivos, no saberemos dizer
qual fosse a infinita angustia.

 certo que Francisco Salter, ao desapertal-a dos braos estremecidos em
que ella proferia n'um gemido o ultimo adeus, cruzou os braos e disse:

--Vae, Carlota, que eu no posso disputar-te a Deus. Vae, filha da minha
alma, que eu alimentei com lagrimas, que eu mereci a preo dos tormentos
que nenhum homem supportou, para finalmente te ceder a um phantasma que
me diz que no pdes ser minha. Recorda-te... olha para mim, Carlota, e
assombra-te da grandeza da minha angustia e da minha paciencia. O homem
que tanto padeceu para merecer-te, vae, sem ti, procurar a morte do
corpo onde Deus quer que ella o espere depois da morte da alma, do
assassinio lento de um corao que se teria salvado se ha tres annos te
arrancasse aos braos de teu pae. Fui demasiadamente honrado para este
mundo e para esta sociedade. No quiz respirar este ar corrompido em que
vivem os felizes... devia morrer. Por fim, devias ser tu a que me
apontasses o teu remorso como estorvo a pertenceres-me. Fica, minha
amiga, com a tranquillidade do teu espirito. Por ti soffri muito; mas
no era o teu soffrimento o premio que eu vinha pedir-te agora. Quiz
dar-te a felicidade, e cuidei que t'a dava. Quiz levar-te commigo aos
ps do representante do Eterno na terra, para lhe supplicarmos que
houvesse de Deus perdo para ti, que no poderas ser o que a desgraa te
aconselhara que fosses. Diz-te o corao que o teu crime no pde ter
reparao:  Deus que t'o segreda, Carlota, e eu no ouso argumentar
contra as inspiraes que te baixam do co. Vae, pois, esposa de
Christo, vae para o teu santuario, e chora-me ahi, chora-me emquanto eu
viver; depois, ora por mim, porque a minha alma s as tuas oraes podem
purifical-a, e erguel-a  presena do divino Juiz. Adeus, Carlota.

A freira, do limiar da porta estendera ainda os braos para Mendona,
exclamando:

--Vem c, Francisco, vem c... escuta-me, por piedade!

--Carlota! Carlota!--disse uma voz, que os fizera estremecer a ambos.

Era soror Rufina, que surgira no angulo do muro, entre as ameias que
cercam o terrao por onde a freira conseguira evadir-se.

Francisco Salter de Mendona, admiravel de dignidade, retrocedeu,
aproximou-se de Rufina, baixou ligeiramente a cabea, e tomando Carlota
pela mo, disse:

--Deus sabe que ella  cada vez mais digna d'elle. Assista com piedade
s agonias d'este anjo. Sua sobrinha, senhora, veio aqui buscar coragem
para a morte, e ensinar-me a morrer com honra. A vida honrada j ella
m'a tinha ensinado: faltava-me a morte, que devia ser de desesperana
impia, se esta santa me ensinasse o segredo de expirar abenoando a
desgraa.

Foram as ultimas palavras de Salter, palavras que a joven freira j no
ouvira, porque os braos de sua tia lhe estavam sendo amparo na perda
dos sentidos.




XIX

     As religies no meio do seculo, so como as ilhas no meio do mar,
     que s vezes por invases do mesmo mar se vo comendo, e
     soobrando, e padecem suas injurias da visinhana deste poderoso
     adversario. Mas se nas ilhas ha tempestades, que ser no corao
     dos mares? Oh! alegrem-se as ilhas, e multipliquem-se! que ainda
     com a communicao to visinha dos mares, esto muito mais firmes
     e seguras que elles.

                                     P. Manoel Bernardes. (_Floresta._)


Decorreram alguns mezes, tres seriam, depois do terrivel combate
d'aquellas duas grandes almas comsigo mesmas.

Os succedimentos d'este lapso de tempo chegaram ao meu conhecimento
contados de diversas maneiras.

Dizem informaes do mosteiro, que a religiosa Carlota Angela,
recobrando o vigor que o susto religioso lhe quebrantara, tentou de novo
evadir-se, n'um impeto de delirio, pela porta de serventia dos carros
que abre para o largo de S. Bento: tentao diabolica de que a
energumena pde salvar-se por intercesso do patriarcha, o qual n'esse
momento lhe empeceu a fuga com o baculo, que a cegou com sua vivida
refulgencia. Isto, pelos modos, no est bem averiguado, nem
canonicamente se encampa, como milagre,  crendice dos leitores.

Outras informaes mais racionaes dizem que Francisco Salter de Mendona
fora, no decurso d'esses tres mezes, com pontualidade quotidiana ao
mosteiro, onde passava horas e horas na grade, com Carlota Angela, e com
sua tia, algumas vezes.

A tradio, porm, mais corrente, e sustentada por pessoas coevas de
grande auctoridade,  que Francisco Salter no voltara ao convento
depois d'aquella fuga mallograda, seno anno e meio mais tarde, j
vestido com o habito da ordem benedictina.

Foi-me, portanto, necessario pedir informaes a um conventual de frei
Francisco da Soledade, que assim se chamou na religio o capito de
marinha. Queria eu que me contasse qual foi o viver d'esse desventurado
no mosteiro; que assombrosas pelejas se deram n'aquelle seio, antes que
o habito o amortalhasse; quantas vezes a luz da graa divina alumiou o
corao blasphemo do novio; quantas vezes a mo glacial da morte lhe
esfriou na fronte os estos afogueados da desesperao.

Colleccionei das vagas lembranas do egresso que fora seu companheiro de
noviciado em Tibes, as seguintes miudezas, que apenas satisfizeram a
minha curiosidade:

Francisco Salter apparecera na manh do dia seguinte quella noite do
anterior capitulo, no mosteiro de S. Bento da Victoria pedindo ao dom
abbade que o admittisse a noviciado. Mendona era alli conhecido como
sobrinho do afamado monge, que ajuntava ao lustre do nascimento e ao das
lettras a santidade sufficiente para que o mundo lhe perdoasse uma
velleidade de moo, da qual velleidade procedera Francisco Salter.

O abbade acolhera-o de bom animo, suspeitando, porm, passageiro
desgosto de corao. Teve-o em sua casa alguns dias, esperando o
conselho do tempo, at que, senhor das mgoas do mancebo, acreditou na
firmeza da resoluo e na efficacia do balsamo.

Decorrido um mez de prova, Francisco foi fazer noviciado para a casa de
Tibes, e ahi  que o meu informador o tratou com intimidade mediana,
porque o novio vivia to taciturno e triste, que os seus companheiros,
por pena, o no importunavam com frivolos allivios.

Sem embargo da pouca convivencia, notou o egresso que as noites do
novio deviam de ser atribuladas, porque nunca de manh lhe vira os
olhos sem raios de sangue, e como que ainda crystallinos dos residuos de
lagrimas regeladas pelo frio das manhs.

Observara elle mais que, nas obrigaes do cro, Francisco era pontual,
mas os seus labios, nem sequer murmuravam as oraes do breviario. E,
posto que para os companheiros houvesse censuras do mestre por motivos
identicos, Francisco nunca fora reprehendido, nem ainda procurado na
cella, se alguma vez faltava ao cro. D'isto inferiam os demais novios
que o seu companheiro trouxera do Porto especiaes recommendaes do dom
abbade.

Acrescenta que Francisco, s horas em que os novios passeiavam na
crca, no saa do seu cubiculo, ou ia sentar-se no claustro lendo a
_Imitao de Christo_, livro que nunca lhe esquecia; ou lia um por um os
singelos epitaphios das lagens que formam o pavimento do claustro.

Notava-se que durante um anno o mysterioso novio apenas recebera uma
carta do dom abbade, em que lhe era dada a nova de que todos os seus
papeis estavam legalisados canonicamente para poder professar, concluido
que fosse o tempo do noviciado.

N'este pouco se resume o que pude alcanar do egresso indifferente ou
desmemoriado.

Quem nos dir, pois, as angustias do amante de Carlota Angela? O
corao.

Consultemos o corao aquelles que o tivermos.

Revivamos algum tormento da alma, se o tivemos na vida, e teremos
induces remotas do que seria aquelle demorado paroxismo, aquelle lento
suicidar-se em presena de homens que no lhe entendiam as lagrimas, nem
saberiam nem poderiam enxugar-lh'as, se as entendessem.

A imagem de Carlota devia de estar sempre entre elle e o Christo. A luz
da graa divina devia de ser muitas vezes deslumbrada pelo reflexo da
labareda que o abrasava no intimo.

A phrase blasphema prenderia muitas vezes  consolao do Kempis. As
mos convulsas deviam travar do habito para rasgal-o sobre o seio onde
batia o corao amante, do bravo, do homem de amor e batalhas, do que a
sociedade fizera atheu, antes que a desgraa fizesse religioso.

E, se assim no acontecia, abenoada seja a religio de Jesus, que tanto
pde! Abenoadas sejam as angustias, que levam pela mo o filho da
desventura ao p de uma cruz, e o hasteam n'ella como holocausto, que se
consola por saber que ha um Deus compassivo a vel-o em suas torturas.

 o que necessitam os grandes infelizes, e esse olhar misericordioso do
Senhor, que reanima e salva do inferno dos homens aquelle que os homens
desampararam mutilado em todos os affectos, espedaado em todas as
cordas do corao, que no coube na terra, repellido da communho dos
innocentes prazeres d'esta vida, condemnado a expiar no flagicio da sua
dor immerecida as culpas que os grandes perversos no expiam,  vista de
suas victimas.

Se, pois, Francisco Salter caa de joelhos, paciente e consolado, aos
ps do crucificado, abenoada seja a religio de Jesus, que tanto pde!

Desde o dia em que frei Francisco da Soledade professou, a freira
benedictina recebeu regularmente novas d'elle, escriptas de Tibes, onde
o frade prolongou a sua residencia.

Faziam-lhe saudades os sitios onde tanto chorou.

Aviventara com a sua angustia as arvores seculares, os penhascos, e as
cruzes que lhe ouviram os gemidos.

Essas existencias insensiveis viviam-lhe na alma, e custava-lhe o
desprender-se d'ellas.

O corao affeia-se aos logares onde soffreu ou gosou, quando o goso
no  crime, nem o soffrimento a desesperao da alma corrompida. As
alegrias do impio, e as tristezas do perverso, essas no deixam traos
indeleveis de suavissima saudade ou branda mgoa no corao.

Frei Francisco sabia que morrera para o mundo, e o ermo de S. Martinho
de Tibes era-lhe um sepulchro grato, uma lousa amiga sua, j polida dos
prantos d'elle. Impetos ainda de corao mal domado o impelliam para
Carlota. Mas quem era n'este mundo a professa benedictina? Era um
cadaver como elle, uma existencia passada, uma vaga imagem que esvoaava
entre a cruz e o monge, e parava um momento para lhe verter nas mos
erguidas uma lagrima.

Que importavam as vises da noite, esse fitar de olhos lagrimosos na
lua, e nas estrellas, nas nuvens encapelladas, e no claro do relampago?

Que valia ao pobre corao do frade estrebuxar ainda nas agonias do
amor, no paroxismo horrivel d'esse suicidio de tantas vidas?

Que conforto lhe seria baixar do co os olhos sobre si, e ver-se
amortalhado?

No recorramos ao milagre para explicarmos a tranquillidade do espirito
que de repente abjura o mundo, e se lana desesperado s misericordias
divinas.

Terrivel deve de ser o preo da tranquillidade, quando no  a morte que
a traz. A morte, sim: essa ser sempre a bem-vinda dos desgraados,
porque Deus lhe fez de glo a mo que ella pe no seio abrasado do
afflicto.

As cartas de Carlota Angela eram um adeus repetido ao seu amigo, um
convite festival para a eternidade. Nem uma s reminiscencia do passado
escurecia a linguagem lucida da prophetisa que descrevia as alegrias do
co. Era tudo porvir, tudo paragens do vo que ella ia desferir da
margem da sepultura para alm. Dos seus soffrimentos nada lhe dizia: os
da alma abenoava-os, os do corpo chamava-lhes o doce pungimento dos
espinhos da sua cora gloriosa.

Soror Rufina, amiga do monge benedictino, escrevia-lhe menos enlevada em
extasis. Fallando-lhe da sobrinha, contava-lhe os rapidos progressos de
uma tisica irremediavel, e da paciencia christ com que ella via
aproximar-se o termo de suas dores. A ultima carta que lhe escreveu,
revelava-lhe o desejo que sua sobrinha mostrara de ver o seu amigo, o
seu esposo celestial, uma vez, uma s vez antes de morrer.

Frei Francisco mediu as suas foras, e pediu a Deus que lhe aniquilasse
as que elle sentia para encarar Carlota, se eram peccaminosas.

Seis mezes depois de professo, o monge foi ao Porto, e recolheu-se ao
mosteiro de S. Bento da Victoria. D'ahi consultou soror Rufina sobre a
sua ida ao convento, porque entrara n'elle o presagio de que a infeliz
succumbiria ao vel-o desfigurado, encanecido, e triste como o espectro
de uma felicidade morta, que os vermes roazes da desventura tornaram
pavorosa.

Rufina sondou sua sobrinha, e Carlota, antes de responder, sentiu uma
convulso estranha, que lhe fez espirrar do seio borbotes de sangue.
Passada a crise, que julgaram derradeira, Carlota disse anciosamente que
aceitava a visita do seu irmo, e quanto mais depressa, mais grata lhe
seria.

Cuidavam as amigas da moribunda que similhante impresso lhe seria
salutar.

Os medicos, com a sua costumada innocencia, conjecturavam que a presena
do monge faria uma grande revoluo nos elementos desorganisados da vida
de Carlota, e agouravam a possibilidade de uma cura por meios todos
moraes.

N'esta esperana, que fazia sorrir a freira, frei Francisco foi avisado
para encontrar Carlota n'uma grade.

Espectaculo indescriptivel!

Frei Francisco entrara na grade onde dezoito mezes antes concertara a
fuga de Carlota. Alli se trocaram, em phrases cortadas de suspiros,
queixumes contra o destino; porm, as esperanas deslumbrantes acudiam
logo com as promessas de uma vida cheia de prazeres, prazeres embora
criminosos no tribunal dos homens, porm perdoaveis, talvez, aos olhos
de Deus. D'alli sara Francisco Salter de Mendona, o capito de
marinha, com o corao fremente de aspiraes, e at de soberba por ter
calcado, ao cabo de tantas desventuras, a inexoravel desgraa.

Oh! quo mudado agora! Como elle se estava examinando diante do seu
passado! O que se passaria n'aquella alma, e n'aquella fronte inclinada
para as mos cruzadas sobre o seio! Porque no deu o Senhor duas
lagrimas quelle infeliz!

Carlota Angela appareceu, encostada ao brao de sua tia. O monge
erguera-se, e voltado para ellas baixara a cabea, e no mais erguera do
cho os olhos. Encostando uma das mos  banqueta da grade, sentia-se o
tremor d'este movel sob a presso convulsa. Apenas a madre Rufina
proferira alguns monosyllabos, Carlota fitara os olhos lucidos de um
brilho sinistro no habito do monge, e, voltando-os, silenciosa, para sua
tia, parecia perguntar-lhe se era aquelle Francisco Salter.

--Francisco!--balbuciou ella.

O frade estremeceu a esta voz, e encarou a freira.

--Francisco!--repetiu ella com a voz quasi desfallecida--s tu?

--No vol-o disse, minha irm, que me no conhecerieis?--disse o
benedictino com um violento sorriso.

--Conheo, conheo...--tornou ella, sentando-se, ou cando na cadeira
aonde a tia se esforara em sental-a.--Era assim que eu o via nos meus
delirios, irmo da minha alma. C o sentia no corao morrendo assim...
Faltava-me ouvir este som de finados que me est cortando os ultimos
fios...  por mim, ou por ti, Francisco?... por ambos...

De feito, soava um dobre a finados na torre do mosteiro. Expirara
momentos antes uma religiosa d'aquella casa, a quem Carlota pedira que
intercedesse ao Senhor por ella, a fim de que a chamasse a si antes que
se apagassem os cirios do funeral da agonisante. Esta fizera um gesto
affirmativo, e expirara com os olhos fitos na freira.

Carlota proferira aquellas palavras, e pedira uma gotta de agua.
Emquanto soror Rufina descera  portaria a buscal-a, a freira introduziu
a custo o brao pela grade e disse:

--Francisco! d-me a tua mo.

O monge tomou a mo de Carlota, e, ao apertal-a, sentiu a frialdade
humida da mo de um cadaver. A posio da religiosa era violenta, com o
peito encostado aos ferros, e a tosse suffocava-a. Frei Francisco fez
esforo para afastar o brao, mas debalde. Aquella mo apertava como a
do naufrago em trances de morte. Um frouxo de tosse salpicou de sangue o
brao do monge, e em seguida, j quando Rufina entrava na grade com o
copo, a mo de Carlota decau com o brao ao longo da grade, a fronte
pendeu para as costas da cadeira, o outro brao j se no ergueu para
tomar o copo da agua que lhe roava os labios humidos de sangue.

--Minha filha!--exclamou a atribulada freira. Carlota descerrou as
palpebras, relanceou a vista quasi apagada para o monge, e fechou-as de
novo, murmurando:

--Ouviu-me Deus!

Rufina soltou um ai vibrante, e caiu de joelhos aos ps da sobrinha.

Frei Francisco ajoelhou tambem, e disse com terrivel serenidade:

--Oremos por ella. Meu Deus! recebei a martyr em vosso seio!




CONCLUSO


Cinco annos depois, vivia ainda no mosteiro de S. Martinho de Tibes
frei Francisco da Soledade.

Os leitores de mais rija e invulneravel organisao admiram-se de que
tal homem podesse viver tanto.

A mim custar-me-hia tambem a crel-o, se m'o no fizessem acreditar pela
data da lousa que vi na claustra d'aquelle mosteiro, com os meus
proprios olhos.

Viveu cinco annos para purificar-se e fazer-se digno da esposa que o
esperava no co.

Quereis saber a purificao qual foi?

Norberto de Meirelles e sua mulher, quando a filha expirava, luctavam
com as extremas perseguies da fortuna infausta.

Mezes depois, estavam pobres, pobres at  indigencia.

Frei Francisco chamou estes infelizes para a visinhana do mosteiro, e
dava-lhes tres partes do seu po. A communidade, quando conheceu tamanha
virtude, repartia tambem do seu por elles. A me de Carlota expirou nos
braos do monge, o velho sobreviveu-lhe um anno, e expirou quinze dias
antes de frei Francisco.

Francisco Salter sau d'este mundo, quando j no tinha a quem perdoar
em nome de Carlota Angela.

Vde-me do co a mim, e a todos os infelizes, almas bemaventuradas!

No foi a minha imaginao que vos creou! Logo que eu me senti soffrer
em vs, a vossa passagem na terra deixou vestigios.

FIM.





End of the Project Gutenberg EBook of Carlota Angela, by Camilo Castelo Branco

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     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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