The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem no
pde dormir. N 12 (de 12), by Camilo Castelo Branco

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem no pde dormir. N 12 (de 12)

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: February 27, 2009 [EBook #28207]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 12 (DE 12) ***




Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)





BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NO PDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco


PUBLICAO MENSAL


N. 12--DEZEMBRO

LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO

EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA

1874


PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874


BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA


SUMMARIO


_O que eram frades--Quem desterrou Jos de Seabra da Silva?--D. Joo 4.
e as regateiras--Fielding--Mania e hypocondria--Aos diplomatas
descontentes--Bibliographia--O ultimo carrasco, pelo exc.mo snr.
visconde de Ouguella--O horror da demencia--Restaurao de um documento
historico valioso--A dana--Fim_




O QUE ERAM FRADES


Houve-os de santa vida, que prgaram o evangelho dos bons exemplos, e
deixaram na terra vestigios do martyrio--o grande martyrio do corao
abafado e morto na estamenha do habito; e d'esses alguns deixaram livros
divinos, desde o pensamento at  linguagem. Ganharam assim duas
eternidades luzentissimas: a do seio de Deus, e a beno dos que, n'este
mundo to outro e to estrondeado do caboucar do progresso, alta noite,
os estudam  lampada solitaria do seu ermosinho, onde sorri a paz,
porque a inveja l no entra.

Houve-os, tambem, frades funestos que escavaram com pulso sacrilego a
sepultura dos bons no atascadeiro da politica; e a politica, na hora em
que pde arpoal-os, na torrente dos seus enxurros, atirou-os, bons e
maus, ao monturo das instituies podres e pestilenciosas.

O descredito das ordens monasticas  quasi coevo da sua instituio. Os
santos padres, os concilios, as communas, os poderes civis lavraram
desde os primeiros seculos protestos formidaveis contra as religies
alheias do primitivo espirito do seu instituto. A volta do seculo XVII,
os mosteiros em Portugal, desatados do vinculo da humildade, e cegos da
sua opulencia e authoridade no animo dos principes, haviam tocado o
cairel da voragem. E logo que, depois da perda de D. Sebastio, a guerra
civil fermentou nos bandos faccionarios dos pretensores ao throno, e a
cora resvalou da fronte do cardeal-rei, a fradaria sahiu dos seus
cenobios, e saltou para as praas e arraiaes arrancando a espada do
talabarte que cingia o habito.

Reportando-se aos indisciplinados frades d'esse tempo, referem as
historias que, no anno 1580, se passou um escandaloso motim no mosteiro
dos Jeronymos de Belem. Rebello da Silva repete assim o caso com as
particularidades noticiadas por _Conestagio_:


Os monges do mosteiro de Belem, da ordem de S. Jeronymo, vendo o reino
sem monarcha, as justias sem respeito, e os abusos sem castigo,
intentaram tambem prevalecer-se da desgraa do tempo para vingarem
antigas queixas.

Usando dos poderes de principe e da authoridade ecclesiastica de legado
pontificio, e violando a regra e observancia monastica, o cardeal D.
Henrique tinha arrogado a si a nomeao dos prelados da casa. Pareceu
apropriada aos padres a conjunctura para sacudirem o jugo; e juntos em
communidade foram bater  porta da cella de fr. Manoel de Evora, que
exercia as funces de provincial. Abriu-lhes, sobresaltou-se, e acabou
de cahir das nuvens, quando lhe disseram que se demittisse logo, porque
no tendo sido eleito em capitulo, era nulla a sua jurisdico,
competindo-lhes a elles prover, e designarem por suffragio quem os havia
de governar.

Resistiu; altercaram; lanou-lhes em rosto a demasia e a desobediencia,
clamaram; negou-se positivamente a consentir, e viu-se de repente
maltratado das mos dos subditos, preso e encarcerado em um celleiro.

Achou modo de avisar os parentes, uniram-se e supplicaram ao nuncio,
Alexandre Frumento, que se interpozesse, obrigando os frades a soltarem
e reconhecerem o seu prelado.

Responderam com soberba, que o nuncio no era seu juiz. Foi necessario
recorrer ao brao secular. Informados de motim to escandaloso e
offensivo da humildade religiosa s abas da capital, os governadores do
reino mandaram aos ministros da cidade, que fossem executar a sentena
apostolica acompanhados de tres bandeiras de soldados.

A resistencia dos padres no diminuiu. Cerraram as portas do mosteiro,
deixaram as da igreja abertas, e de dentro das grades do cro na
capella-mr respondiam, cantando os officios divinos, s advertencias e
admoestaes dos magistrados.

Por fim a paciencia exhauriu-se; a tropa entrou no templo, e arrombou a
grade do cro, que era de pau. Seguiu-se um verdadeiro alvoroto; os
guardas forcejando por prender os monges; estes esquivando-se em tropel,
ou a um e um, e oppondo as armas espirituaes s temporaes, bullas,
crucifixos, ceriaes, tocheiros, monitorias e excommunhes ao pulso
vigoroso dos perseguidores.

A final, cercados e rendidos, foram quasi arrastados em triumpho pelos
vencedores ao celleiro aonde jazia o provincial captivo, e para maior
desgosto tiveram de lhe beijar a mo em publico e de ajoelhar aos seus
ps como subditos arrependidos. Entretanto no se submetteram sem o
protesto de que cediam constrangidos pela fora, e de que appellariam do
nuncio de Roma.


At aqui o distincto historiador.

Porm, outras causas que vou contar motivaram a insurreio dos monges
contra o seu prelado.

Eu no me assombrarei se o leitor me atalhar o enthusiasmo, com que
pretendo illustral-o, dizendo-me no arrugar da sobrancelha que se
dispensa de saber profundamente as causas que amotinaram uns frades ha
duzentos e noventa e quatro annos. Todavia, em menoscabo dos meus
creditos de escriptor futil, insto no esclarecimento d'este episodio de
abastardamento do heroico Portugal, que Luiz de Cames cantra.

O documento, que vou publicar e nos alumia o escuro caso, nunca esteve
em mo dos que escreveram a historia.

D. Christovo de Moura no perdia lano de remover estorvos  usurpao
de Philippe II. Acudia prompto com a corrupo onde quer que palpitasse
corao portuguez. Se a peonha do ouro no vingava ulcerar as
consciencias, empregava a persuaso dos direitos de Philippe, mediante a
eloquencia de jurisconsultos castelhanos e nacionaes.

Sabia o confidente do rei de Hespanha que a maioria dos mosteiros pendia
ao duque de Bragana, ou ao prior do Crato; e, entre os mosteiros mais
temiveis na propaganda a favor de monarcha portuguez, estremava-se,
quando o cardeal-rei falleceu, o convento do Belem.

Urgia-lhe, pois, influir no espirito d'aquelles monges com a eloquencia
de vares authorisados, que submettessem  lei e  justia as demasias
peccaminosas de um patriotismo incongruente com a legitima soberania.

Vieram de Castella dous frades bem apropositados ao intento; e, como
fossem da mesma ordem, hospedaram-se em Belem.

O cardeal D. Henrique morrera no ultimo de janeiro de 1580, e j a 10 de
fevereiro os dous frades castelhanos colhiam na rede da sua rhetorica o
cardume das consciencias dos frades Jeronymos, a occultas do prelado fr.
Manoel de Evora, cujo affecto aos Braganas era inflexivel.

No obstante o segredo com que os commissarios de D. Christovo de Moura
corrompiam o mosteiro, fr. Manoel de Evora deu tento da perfidia, e
intimou a sahida aos frades forasteiros. No lhe obedeceram, animados 
rebeldia pela contumaz defeza da communidade. O prelado desobedecido deu
conta do estranho successo aos governadores do reino, que demoravam em
Almeirim. Os cinco governadores, eleitos pelo defunto cardeal,
immediatamente ordenaram a expulso dos dous monges castelhanos, em um
aviso que eu possuo autographo, escripto por mo do arcebispo de Lisboa,
e assignado pelos seus quatro collegas D. Joo Mascarenhas, Francisco de
S, D. Joo Tello de Menezes, e Diogo Lopes de Sousa.

A carta  do seguinte theor. Nem lhe altero a orthographia nem a
parcimonia da pontuao:


_Os guovernadores e defensores destes Reynos e senhorios, fazemos saber
a vos Reverendo padre presidente do conuento de nossa sra de Belem da
ord[=e] de sa Jeronimo, que a ese conuento sa cheguados dous frades da
vosa orde castilhanos, e pello que delles se tem entendido e do seu
yntento, na conuem  quietaa destes Reynos estar[=e] n'elles, pello
que tanto que vos esta for dada lhes mandareys c obedienia, ou da
maneira que vos pareer, e isto mais eficazmente se possa comseguir que
demtro em dois dias se saya fora da cidade e seu termo, e demtro de
oyto se saya fora do Reyno, porque na o fazendo e sendo n'elle achados
sera castigados como merecer[=e], e avisareis a todas as cassas da
vossa orde que ymdo a elas ter estes frades com tena de fazer mays
detena que os ditos oyto dias os na recolha nem aguasalh[=e] e o
faa a saber ao corregedor da comarca ou juiz de fora do lugar omde
estiver[=e] para niso proceder da maneira que o poder fazer e que volo
faa loguo a saber, de que tambem nos avysareis e do mays que delles
tiuerdes emtendido por que asy conu[=e]. Scryta em almeir[=y] a 16 de
fevereiro de 580. Arcebispo de Lisboa. D. Joo Mascarenhas. Francisco de
S. D. Joo Tello de Menezes. Diogo Lopes de Souza_[1].


Tirantes o arcebispo e D. Joo Tello de Menezes, os governadores
signatarios d'esta ordem, poucos mezes depois eram escravos submissos de
Christovo de Moura; ainda assim,  justo presumir que em fevereiro de
1580, expedindo to severa ordem contra os emissarios de Philippe II,
mantinham ainda a honrada energia digna d'aquelle D. Joo de
Mascarenhas--o defensor de Dio!

Como quer que fosse, a ordem da regencia transmittida pelo prelado aos
seus conventuaes, produziu a rebellio descripta por Rebello da Silva,
de pag. 361 a 363 do tomo II da _Historia de Portugal_. Se o leitor
quizer marginar o seu exemplar com o resumo d'esta noticia tem
preenchido a lacuna; e, se por curiosidade, quizer vr o documento
justificativo, mostrar-lh'o-hei com outro mais valioso de que vou
dar-lhe traslado.

Havia n'aquelle tempo um grande fidalgo chamado D. Pedro da Cunha,
antigo governador de Ceuta, general das gals que defendiam a costa do
Algarve, e capito-mr do reino quando D. Sebastio passou a Africa.
Este era pai do celebrado arcebispo D. Rodrigo da Cunha.

O ancio, to querido de D. Joo III, e respeitado do infeliz de
Alcacer-kibir, foi ainda bemquisto do cardeal at  hora em que se
manifestou contra Castella; e, governando as armas em Lisboa, ameaou
repellir das suas muralhas o rei estrangeiro, se D. Henrique deixasse a
cora portugueza ao castelhano.

Os governadores, nomeados no testamento do cardeal, veneravam D. Pedro
da Cunha, e solicitavam-lhe o beneplacito, indo ao encontro da sua
vontade com mercs e promessas de maiores galardes. Porm, no modo como
o faziam, transluzia-se o muito respeito que lhe tinham, e o tino com
que se esquivavam a melindrar-lhe a dignidade.

 o que se v de uma carta original que Diogo Lopes de Sousa lhe envia,
desde Almeirim, aos 23 de abril de 1581. A copia  textual. Veja-se como
escrevia um dos homens illustres d'aquelle tempo, o regedor das
justias, e governador da casa do Porto, o antepassado que to grande
parte foi no luzimento e nos haveres dos condes de Miranda, dos
marquezes de Arronches e dos duques de Lafes. E tamanho varo escrevia
assim:


_Ser. Oje sbado receby de v. m. e loguo_ madey[2] _pedir a_
bastio[3] _dias a portaria,_ madoume[4] _esa dos dosemtos mil reis de
tema que_ ma do[5] _a v. m. a dos cem mil reis que_ hada ver cadano[6]
_lhe madarei loguo ou quado v. m._ qua[7] _mandar fazer o padra dos
dosentos mil reis antam se far a provisa deste cemto que hadaver
quadano o que poso afirmar a v. m. he que esta postos os sers_ g.dors
[8] _a sirviremno nacomenda e emtodo o mais que nelles forem como v. m.
uer pois eu eyde ser o solicitador._

_Tiuemos aguora requado de Castella. ElRey aimda esta em seu opinio,
tornamos aguora a repliquar, queira deus que aproveite, elle vemse a_
merida[9] _que he ja perto de nos, bem podera v. m._ ouuir o Uasques[10]
_para o acomselhar, posto que o que v. m. fez foy como portuguez antigo,
por que nos_ mordnos ua qua grades velhaquarias[11], _temos_
emleitos[12] _dom dioguo de Sousa e martin guomsalues da camara a fazer
as armadas e fartar este cleriguo de neguocio por que sempre diz que se
no faz nada[13]. O criado de v. m. no tenho visto,_ deue[14] _de estar
no degredo com diogo da fomsequa[15], bem sinto estar ainda a cidade
desa maneira, querer noso sr dar lhe saude, eu trabalharey por_
auer[16] _a quimta de luis de saldanha se o filho aquy_ uier[17] _noso
ser sua muito ilustre_ p.ca [18] _guarde ainda por mtos anos e
acresemte: dalmeirim a xxjjj de abril_

                                      _Diogo Lopes de Sousa, G.or_

Sobrescripto: _Ao muytto illustre ser o sr dom pedro da Cunha capito
mor da cidade de Lisboa meu snr._


D. Pedro da Cunha governava as armas de Lisboa, quando D. Antonio, j
acclamado rei, alli foi, e deixou-o entrar. No temos provas de que os
louros do ancio colhidos na Africa se tingissem no sangue da batalha de
Alcantara. Sabemos que elle expirou nos carceres da torre de Belem,
legando a seus filhos odio figadal a Castella.

D. Rodrigo vingou-o; e mais heroicamente o haveria vingado, se no
recebesse como prelado do Porto, Braga e Lisboa as mitras da mo dos
Philippes.

De D. Pedro da Cunha dizia o prior do Crato, na sua carta a Gregorio XIII:


... Mas as cs de D. Pedro da Cunha foram acaso mais veneradas? Quem
desconhece como aquella honrada velhice acabou amargurada, no querendo
nem podendo sobreviver aos affrontamentos do vencedor, depois de to
dilatada e gloriosa carreira principiada em Ceuta?...

    [1] No sou exacto no traslado das assignaturas, porque
    difficilmente as perceberia quem no tiver lidado, com a
    calligraphia e abreviaturas d'aquelle tempo.  excepo do
    arcebispo, os outros governadores so imaginosos nos garabulhos a
    termos de no se perceberem. Por exemplo: D. Joo Mascarenhas,
    assigna: _dfmozs_. E Francisco de S: _ffranisq deS_. D. Joo
    Tello de Menezes, escreve: _Tello. m._ E Diogo Lopes de Sousa: _Gd.
    lop; sus_. Na orla da carta est o sello das armas reaes.
    Sobrescripto: _Por os governadores. Ao presidente do conuento de
    nossa sor de Belem da ord[=e] de S. Jeronimo_.

    [2] Mandei.

    [3] Sebastio.

    [4] Mandou-me.

    [5] Mando.

    [6] Que ha de haver cada anno.

    [7] C.

    [8] Governadores.

    [9] Merida.

    [10] _Bem podra v. m.ce ouvir o Vasques para o aconselhar._ Este
    Vasques, inculcado por Diogo Lopes de Sousa, era um jurisconsulto
    hespanhol, de nome Rodrigo Vasques de Arse, que juntamente com outro
    jurisconsulto, doutor Molina, tinham vindo de Castella com
    Christovo de Moura, como vogaes da junta consultiva nos negocios de
    Portugal, para explicarem aos fidalgos portuguezes juridicamente a
    legitimidade de Philippe II. O governador, que j estava
    aconselhado, recommendava ao indeciso D. Pedro da Cunha que ouvisse
    o Vasques. O velho fidalgo, bem que recebesse o padro da tena, com
    certeza no comeu a tena nem attendeu ao Vasques.

    [11] _Porque nos modernos vo c grandes velhacarias._

    [12] Temos eleitos.

    [13] Diogo Lopes trata Martim Gonalves da Camara de _clerigo de
    negocio_. Rev no apdo o odio secreto que tinha ao jesuita inimigo
    de Castella. O escrivo da puridade de D. Sebastio at certo ponto,
    remiu parte dos seus delictos na opposio poderosa e pertinaz que
    contrapoz ao usurpador. _O Diogo de Sousa_, ahi nomeado, havia sido
    general da armada de D. Sebastio na desastrosa batalha.

    [14] Deve.

    [15] Foi um corregedor muito affeioado a D. Antonio, e perseguido
    logo que o prior foi desterrado.

    [16] Haver.

    [17] Vier.

    [18] Pessoa.




QUEM DESTERROU JOS DE SEABRA DA SILVA?


O desterro de Jos de Seabra  segredo, ao que parece, inaveriguavel.

Os indagadores mais versados e praticos nos archivos das secretarias, os
proprios descendentes d'aquelle eminente estadista, os mais affeitos a
lapidar e esclarecer os fuzis da cadeia historica oxydados pela aco
dos seculos ou obscurecidos por tradies erroneas, nenhuns conseguiram
alumiar este assim nubloso quanto importantissimo successo da historia,
to achegada  do nosso seculo.

A tradio viu de diversas maneiras o facto, e parece que todas as
pontarias desacertou. Disseram uns que Jos de Seabra, ajudante do
marquez de Pombal, no ministerio, facultra aos bispos a confirmao nas
ordens sacras, com independencia do beneplacito regio; e d'ahi a
demisso e o desterro, por arbitrio ou conselho do marquez, affrontado
por tal concesso. Querem outros, manchando a honra de Jos de Seabra,
que  demisso precedessem extorses, concusses e litteralmente roubos
praticados com a resalva dos altos cargos que exercia. Opinam alguns que
elle descobrira a D. Maria I o proposito de a esbulharem da successo da
cora seu pai de accordo com o ministro valido. Outros, em fim, alludem
a segredos de estado que sinceramente ignoram, por isso mesmo que eram
segredos. Estes so os mais discretos.

O snr. Pinheiro Chagas, apoiado em uma honrosa e critica defeza que o
snr. Antonio Coutinho Pereira de Seabra e Sousa, bisneto do estadista
arguido, publicou, em 1868, respondendo s arguies do snr.
Soriano--indelicada e perfunctoriamente expendidas contra o ministro
degredado--refuta as conjecturas das atoardas, e deixa insoluvel a duvida.

Se alguma hypothese pde aclarar a vereda de ulteriores investigaes, 
a que attribue ao cardeal da Cunha a desgraa de Jos de Seabra da
Silva. Quasi se evidenceia que o marquez de Pombal foi mero, e, com
certeza, forado executor das ordens do rei. Da considerao que Pombal
guardra pelo desterrado, nos  testemunha a ordem que elle mesmo
transmittiu ao governador de Angola, mandando repatriar Jos de Seabra,
quando D. Jos I vivo ainda, mas j prostrado de mortal doena, perdera
a energia rancorosa que tempesta nas almas ruins at ao despegar da vida.

Esse decreto, assignado por Martinho de Mello e Castro, foi expedido em
15 de dezembro de 1776. No principio de outubro de 1777 chegou ao
presidio das Pedras Negras, onde estava o desterrado, a ordem de
embarque. Em 20 de dezembro sahiu de Loanda Jos de Seabra. Deteve-se na
Bahia, d'onde, em 6 de fevereiro de 1778, escreveu a seguinte carta
inedita ao ministro Martinho de Mello e Castro:


Ill.mo e exc.mo snr. Devendo a v. exc. a expedio das benignissimas
ordens de S. M. que Deus guarde, que me pozeram na liberdade de sahir de
Africa, e de passar ao reino, me persuado que tambem a tinha para
significar a v. exc. a minha sincera, e fiel gratido pela parte que v.
exc. teve n'esse beneficio, o maior que eu podia receber na minha
situao; segurando a v. exc., que n'isto encerro os limites da minha
liberdade, sem me adiantar a escrever a minha mulher, nem a meu irmo,
que sei ha poucos dias, que ainda vivem.

No principio de outubro chegou ao presidio das Pedras a minha
redempo: preparei-me como melhor pude para chegar nos fins de novembro
a Loanda, d'onde parti em 20 de dezembro, depois de pagar o devido
tributo da carneirada, com que esta cidade hospeda aos mais robustos, e
aportei a esta Bahia com quarenta dias de viagem. A necessidade de
roborar um pouco as foras, e de me prover de quasi todo o preciso para
me transportar com menor incommodidade, me far demorar aqui mais dias,
do que desejo, ainda considerando a vantagem de salvar o inverno nas
costas de Portugal.

Tanto que ahi chegar ha de v. exc. sabel-o, e desejra eu que v. exc.
quizesse mandar-me insinuar a bordo o modo, tempo, e lugar do meu
desembarque; porque a experiencia me tem ensinado muito  minha custa,
que tinha habilidade para errar todos os passos, que governo pela minha
m cabea.

Depois de desembarcar aonde, quando, e para o lugar que v. exc. me ha
de ordenar, continuarei a minha peregrinao, como devo, at o lugar,
onde ella teve principio. Permitta-me v. exc. que eu lhe confesse
entretanto que a debilidade da minha philosophia, pela dureza do meu
corao, e por falta da christandade, que a devia vigorisar, no me deu
at agora a conformidade que eu devia ter para me ser menos sensivel a
desgraa de ser representado ao meu soberano, e meu bemfeitor, como o
mais infame, e o mais abominavel ingrato, e como tal despedido
ignominiosamente do real servio, separado da minha triste familia,
encerrado em uma priso; d'ella tirado para ser tranportado ao Rio de
Janeiro, e d'ahi a Loanda, e de Loanda ao presidio das Pedras: levando
para supplemento da falta quasi total de tudo as severas ordens, de que
s vi a execuo na parte que se dirigia a ser tido por morto na Europa,
e empestado na Africa: e tudo isto sem sentena nem processo, porque no
tive audiencia ao menos para se me dizer a culpa.

Se todos os meus successos fossem restrictos a ser despedido do
servio, e mandado retirar para minha casa, nada diria; porque me havia
de parecer extraordinario que um monarcha necessitasse de mandar fazer
uma demanda para despedir de seu servio um criado, que se lhe
representasse ou mau, ou inutil, ou desagradavel: mas as demonstraes
contra mim passaram muito adiante com o fatal esquecimento de me dar
audiencia quem quer que se empenhou em me fazer to famoso delinquente
na real presena.

Releve v. exc. este desafogo na substancia e no modo, porque at me
falta ha quatro annos o uso de fallar e de escrever, mas no falta o
desejo efficaz de me justificar, sem saber de que, para viver o tempo,
que me resta, satisfeito, e descanado com o antigo conhecimento
confirmado por custosas experiencias e serias reflexes, de no prestar
para outra cousa, e menos para as em que fui mettido violentamente, e
contra a minha vontade nos tempos passados.

E ultimamente, exc.mo snr., cheguei at aqui, e ainda vacillo, se ser
atrevimento rogar a v. exc. que por mim (que no posso ter essa
felicidade) queira beijar a mo a S. M. pela piedade, e clemencia, que
commigo usou, permittindo-me que eu veja ainda ao menos a minha patria e
familia. Se isso poder ser, eu o confio do antigo favor que devo a v.
exc., e, se no podr ser, eu sei que v. exc. mesmo ha de desculpar
n'esta occasio a um africano rude e grosseiro, que no quer certamente
retribuir offensas e atrevimentos por beneficios.

 pessoa de v. exc. guarde Deus muitos annos. Bahia de Todos os
Santos, 6 de fevereiro de 1778.

Ill.mo e exc.mo snr. Martinho de Mello e Castro.

                                               De v. exc.

maior venerador e criado, mais fiel obrigado

                                         JOS DE SEABRA DA SILVA.


Lida esta carta, que no elucida o mysterio, dir-se-ha que o proprio
Jos de Seabra ignorava o crime que lhe assacra o aleivoso a quem o rei
prestra credito. Observe-se que esta ignorancia, se fosse dissimulada,
seria tambem indecorosa; e, sobre tudo, offensiva do ministro Mello e
Castro, que no podia ignorar os delictos do homem destinado a ser seu
collega no ministerio. Como quer que fosse, a memoria do ministro de D.
Maria I est illibada. O motor dos seus infortunios  insondavel. Estes
segredos, vulgares nos governos despoticos, se deixam laivos de infamia,
 na memoria dos monarchas.




D. JOO IV E AS REGATEIRAS


O que elle tinha sobre tudo era o talento dos solertes velhacos.

Primeiramente requestou com meiguices os fidalgos que, depois de
afagados, o acclamaram.

Assentado, mas no seguro, no throno, cerceou a confiana aos fidalgos,
e fez-se o idolo da canalha a fim de estribar-se n'ella, quando a
nobreza irritada se bandeasse novamente com Hespanha. Assim lh'o
aconselhra o seu ministro Lucena, em 1641; e, n'esse mesmo anno, a
plebe rodeou o rei ameaado pelos nobres, e applaudiu o supplicio dos
marquez de Villa Real, duque de Caminha, conde de Armamar, D. Agostinho
Manoel e outros. Francisco de Lucena, que emprestra o cutelo para a
degolao dos traidores, foi mais tarde convicto de perfidia e degolado.

As cidads que mais se estremaram na celeuma das praas contra os
conspiradores, foram as regateiras da Ribeira, capitaneadas por uma
virago mulata, de alcunha a _Maranh_. Esta mulher privava muito com o
rei. D. Joo IV mandava parar o coche, quando a encontrava, dava-lhe a
mo, e detinha-se em risonha palestra com a regateira. Assim o conta o
diplomata D. Luiz da Cunha ao principe, que depois foi Jos I, em carta
que corre impressa: _O snr. D. Joo IV... mandava entrar no estribo do
seu coche a celebre_ Maranh _que dominava todas as regateiras da
Ribeira para se fazer mais popular, pois costumamos dizer que a voz do
povo  a voz de Deus, o que nem sempre se verifica_.

Outra regateira, no menos notavel em seu real beneplacito, chamava-se
_Brigida d'Alfama_. No dia 1 de dezembro de 1640 foi ella quem de
envolta com os petintaes levou de rojo o cadaver de Miguel de Vasconcellos.

Brigida, quando soube que o marquez de Villa Real e seus cumplices eram
presos por traidores, pediu a qualquer poeta cesareo que lhe escrevesse
cousa que ella pozesse nas regias mos do seu soberano.

O poeta, provavelmente, trocando versos pelas colladas de Brigida
d'Alfama, escreveu uma _Silva_, com que a regateira se foi ao pao mui
aforurada, e logrou, sem demora, entregar a D. Joo IV.

Eis a Silva:

        Fra descompostura
        de grande atrevimento
    (rei, que o mereceis ser de mil imperios),
        sem ter prima tonsura
        do poetico assento
    to cheio de grandezas e mysterios,
        n'esta tosca Ribeira
    cantar de vs a musa regateira.
        Mas amor, que perdido
        nos estanques passados
    em que vendia carne aos tres estados
    quiz, por vr se melhora de partido,
    ser cego de papeis, e a mim por musa,
        que com sciencia infusa,
        com quarta, ou gorgoleta
    entre nos contubernios de poeta.
        Amor  pois que abona
    estas dces reliquias de capona,
        que Brigida comea
    a entoar subida na tripea,
        por no ser o Bandarra,
    que cantou cysne, o que aprendeu cigarra.
        Chegue-se pois a bordo
        com juizo pernialto,
    para critiquizar, qualquer figura,
        que aqui no canta tordo,
        nem melro, que em contralto
    esperdia seu mal pela espessura.
    No ha aqui ruisenhor no bosque frio,
        magano de assobio,
        e entre dces avenas
    ramilhete com voz, harpa com penas;
        as minhas cantilenas
        accentos so mais graves
    do solidario inquisidor das aves,
        que authorisado canta
    compassos de guela por garganta,
        hymnos  noite fria,
        que viuva do dia
        em anaguas se veste
    bordadas de ouro sobre azul celeste.
        Mas entremos no thema
        e este breve intervallo
    sirva de frontispicio do libello.
        Escondida postema
        em troiano cavallo
    para tornar Lisboa um Mongibello
        tinha a perfidia grega
    de negra inveja, e de malicia cega,
    mas l de cima a intelligencia boa,
    que ampara vossa authentica pessoa
        quebrou as armadilhas
        s torpes sevandilhas
        que bichinhos da terra
    gigantes contra o co sonhavam guerra;
    e descobrindo o lusitano zelo
        a ponta do novello
        poz a cousa em estado
    que quem vinha por l, foi tosquiado.
        A mim no me destouca
        a _primaz_ alimaria[18],
        que era astuta serpente;
        nem a cabea louca
        da poesia varia
    do marquezote simples, e innocente;
        nem os mais inimigos,
        que da coca tocados
    da esperana v de altos estados
    deram com o cabedal por esses trigos.
        Tu s s que me matas,
         Cochambre em sapatas[20],
    tu, que aguia real com louco assombro
    praticavas com o sol hombro por hombro
    e inquinaste a lysia bizarria
    de tua to vidrada fidalguia
        em affrontoso thalamo
    ferindo pactos com Baea, e Alamo[21].
        Quando por sorte, ou erro
        da vinha quasi morta
    as velhas cepas, a maleza occulta,
         medicina o ferro:
    umas, justificada a fouce corta,
    outras, prudente o enxado sepulta,
        e trocando-lhe a frma
        a vinha assim reforma
        pai de familias destro.
    Toma o ginete um sestro,
        degenera em sendeiro
        das leis da fidalguia
    da sua paternal cavallaria
        prudente o cavalleiro
    cobre com atafaes torpes, e feios
    o que havia de ornar jaez e arreios.
        No sois de engenho tardo,
    entendei-me o remoque, que  bernardo.
        O franco, que do carro
        da deusa da batalha
    as avenas agora modifica;
        o inglez bizarro
        com toda a mais canalha
    que aos altares de Marte se dedica
        a vr este interlunho
    todos esto com os olhos como punho.
        Se podaes esta parra
        julgaro que se anima
    vosso valor para fazer vindima,
    se a deixaes  solta, e se desgarra
        dir vosso adversario,
    que possuis o reino por precario.
    N'este transe, senhor, n'esta apertura
    ser fraqueza a minha piedade,
    pouco valor a magnanimidade,
    e falta de poder qualquer brandura.
    Pese tudo a prudencia a ouro fio
    entenda-me _che p, que me entend'io_.

No sei se o mesmo, se outro vate patriota, escreveu e distribuiu
primorosamente calligraphados alguns exemplares da seguinte poesia--to
sanguinaria quanto boal--quando ainda fumegavam no cadafalso do Rocio
os cadaveres dos conjurados, cujo supplicio pedira Brigida de Alfama:


S MORTES DE D. LUIZ DE MENEZES, MARQUEZ DE VILLA REAL, DE D. MIGUEL DE
NORONHA, DUQUE DE CAMINHA, DE RUY DE MATTOS DE NORONHA, CONDE DE
ARMAMAR, DE D. AGOSTINHO MANOEL, OS QUAES MANDOU DEGOLAR NA PRAA DO
ROCIO, EL-REI D. JOO O IV, E MAIS TRES, E UM BAEA, ARRASTADOS,
ENFORCADOS, E ESQUARTEJADOS TODOS POR TRAIDORES, HOJE 29 DE AGOSTO DE 1641.

    _Ao marquez de Villa Real_

    Senhor marquez, eu quizera,
    (testemunha me  Jesus)
    de vos trocar o capuz
    por sda de primavera;
    mas vossa condio fera
    teve a culpa d'este mal;
    que havieis de ser leal
    apesar de mil traies,
    quem tem to nobres brazes
    como os de Villa Real.

    _Ao duque de Caminha_

    E vs, duque, porque no
    podreis isto fazer,
    mudando de parecer,
    pois do marquez a teno
    era smente traio:
    e j que mal attentado
    e com to pouco cuidado
    vos quizestes derrotar,
    para tudo se acabar,
    soffrei o ser degolado.

    _Ao conde de Armamar_

    Em theatro ho de parar
    vinte e dous annos de idade,
    e de Braga a falsidade
    faz a taes transes chegar[22]!
    Mas se o conde de Armamar
    olhra para seu tio
    no dia de nosso brio
    que jogava o esconder,
    nunca viera a perder
    em tal pea tal feitio[23].

    _A D. Agostinho Manoel_

    Um _Manifesto_ fizeste
    que foi manifesto a todos,
    e agora com baixos modos
    a tudo contradisseste.
    Outro tambem compozeste
    quando estiveste na crte;
    e, por no seguir o norte
    com que por c navegaste,
    por indiscreto, ficaste
    tambem manifesto  morte[24].

    _Ao mesmo_

    E j que de tal maneira
    te quizeste manifestar,
    sabe-te determinar
    n'esta hora derradeira:
    no sendo tal a cegueira
    com que at agora viveste,
    se no que compozeste
    te mostraste declarado,
    hoje que s degolado
    sente o mal que te fizeste.

    _Ao perro do Baea_

    Habito de Christo a vs?[25]
    Maldito seja o judeu
    que l na crte o vendeu
    tal como vossos avs!
    Padecei tormento atroz,
    neto de uma cominheira:
    porque me dava canceira
    quem no era a Deus fiel
    que escapasse de um cordel,
    escapando da fogueira.

A opulencia de Pedro de Baea provinha-lhe da senhora com quem casra.
Os trinta mil cruzados no lh'os aceitaram a troco da vida; mas l foram
depois, em nome da lei, buscal-os ao casal da viuva. Reduzida a penuria
extrema, esta mulher fugiu para a Hollanda, onde morreu soccorrida por
parentes que eram hebreus.

    [19] D. Sebastio de Mattos, arcebispo de Braga.

    [20] Talvez D. Agostinho Manoel de Vasconcellos.

    [21] Jorge Gomes Alamo, e um filho, que entraram no Limoeiro, onde
    foram atormentados, e nada revelaram. Os historiadores no se
    occupam em lhes averiguar o destino.

    [22] Este conde era sobrinho do arcebispo de Braga.

    [23] No dia da acclamao do duque de Bragana, o arcebispo de Braga
    correu perigo de ser assassinado como amigo de Castella. E, no
    obstante as demonstraes hostis d'este prelado, D. Joo IV chamou-o
    ao seu conselho, afastando alguns fidalgos que jogaram a cabea,
    tirando-o da cobarde inercia de Villa Viosa.

    [24] D. Agostinho Manoel de Vasconcellos, alm de outras obras
    estimadas, escreveu: _Manifesto na acclamao d'el-rei D. Joo IV,
    1641_.  extravagante cousa que publicasse um livro to a favor de
    quem, no mesmo anno, o mandou degolar como inimigo.

    [25] Pedro de Baea, mercador muito rico, era cavalleiro do habito
    de Christo. Foi este o que melhormente pareceu comprehender a
    abjeco dos seus inimigos, offerecendo trinta mil cruzados pela
    vida. Elle sabia que o av do rei, e os avs dos seus juizes se
    tinham vendido por menos a Philippe II.




FIELDING


Quatro mezes antes de morrer, o visconde de Almeida Garrett, passeando
em Lisboa, no cemiterio dos inglezes, com Francisco Gomes de Amorim,
fallou assim ao seu extremoso amigo, defronte da inscripo tumular do
romancista britannico Henri Fielding:


No leia isso que  tudo mentira; a unica verdade que ahi est  o nome
de Henrique Fielding, e ninguem o sabe ou no se lembram d'elle. Pois
foi um grande nome! Walter Scott chama a Fielding o _pai do romance
inglez_ e la Harpe disse que o _Tom Jones_  o primeiro romance do
mundo. Apesar de tudo esta enorme tumba de pedra encerra um punhado de
cinzas que foram consideradas em quanto as animava uma multido de
paixes revoltas!... agora... quem sabe que ellas esto ahi? O que o
epitaphio no diz  que Henrique Fielding viver eternamente no _Tom
Jones_, como Squire Western. O que tambem no diz esse estupido
epitaphio  que nem a Inglaterra nem ninguem se lembrou da viuva nem dos
filhos d'este homem illustre, que morreram ignorados, depois talvez de
terem vivido como mendigos entre homens poderosos de estado que foram
condiscipulos e se diziam amigos de seu pai... Ah! mundo
enganador!...[26]


Tristissimo lance, se os filhos de to estremecido pai mendigaram! Eram
criancinhas quando elle morreu em Lisboa, no anno de 1754.

Forado pela enfermidade a procurar o clima de Portugal, sahiu d'entre
as caricias e lagrimas da esposa e filhos no dia 24 de junho de 1754.

A carta, que elle escreveu n'esse mesmo dia, e a ultima que deixou
sentida e chorada na terra natal, dizia assim:


Hoje quarta-feira, 24 de junho de 1754, nasceu o sol mais triste que eu
vi em minha vida, e me j achou acordado na minha casa de Fordhook.
Cogitava eu que,  luz d'esse sol, veria, pela derradeira vez, e diria o
ultimo adeus, aos objectos queridos que eu amava com a ternura de mi.
No me tinham ainda callejado as doutrinas da philosophia que me
ensinra a supportar a dr e desprezar a morte. Em tal situao, no
podendo vencer a natureza, deixei-me vencer d'ella, que me subjugou como
se eu fosse a mais fragil mulher. Pretextando consolar-me, induziu-me a
ir gozar oito horas na companhia das minhas criancinhas, e com certeza,
o que ahi soffri n'esse curto espao excedeu todos os padecimentos da
minha enfermidade. Ao meio dia fui pontualmente avisado de que me
esperava a carroa. Abracei os meus filhos um por cada vez, e embarquei
no carro com alguma resoluo. Minha mulher que procedera com o
verdadeiro heroismo de um philosopho, dado que seja ao mesmo tempo mi
extremosa, seguiu-me com a filha mais velha. Alguns amigos me
acompanharam, e outros se despediram de mim, elogiando a minha coragem
com louvores mui pouco merecidos.


E no viu mais aquelle sol triste que se espelhra nas lagrimas de seus
filhos!

Que importava o co, e o sol, e a fragrancia de Portugal quelle doente
excruciado na solido de Lisboa, por saudades dos seus, atormentadas
pela desesperana de voltar a vl-os! Se lhe no seria mais suave a
morte, rodeado dos filhos, e com a mo j morta e ainda quente nos
labios d'elles!

Pouco mais de tres mezes viveu. Expirou quando as folhas despegaram e
fremiram seccas no cho, revolvidas pelo nordeste, aquella toada
sinistra que faz pensar no gemer final dos moribundos a quem as
primeiras nevoas congelaram o sangue no corao.

O seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de 1754. Tinha quarenta e oito
annos.

No alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de Fielding.
Pobres sei eu que ficaram, porque seu pai, dado que os amasse muito, ou
lhes no grangeou, ou era j tarde quando lhes quiz grangear o patrimonio.

Fielding achou-se uma vez com 1:500 libras, e uma propriedade que rendia
200, no condado de Derby. Montou carruagem, phantasiou librs de cres
claras, que se renovavam de mez em mez, hospitalidade de principe,
lautos banquetes, saraus, caadas, a mais fidalga e desastrada
imprevidencia, consoante s tradies de seu av o conde de Denbigh, e
de seu pai o general Edmundo Fielding. No trajecto de tres annos, no
tinha um palmo de terra, nem um schilling do patrimonio de sua primeira
mulher.

Depois, aceitou o lugar de juiz de paz, especie de commissario
subalterno de policia. Collocado em circumstancias proprias ao intento,
comeou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladres. No entanto,
escrevia novellas; e, gravando em eterno bronze o _Tom Jones_, creou o
romance em Inglaterra.

Se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora, poderia, como
escriptor, reparar as perdas de fidalgo. _Tom Jones_ foi pago por 700
libras, e _Amelia_ por 1:000.

s alegrias da gloria do ouro, seguiram de perto os rebates da morte. A
vida estava gasta nos proprios desperdicios. A alma, no maximo esplendor
das suas faculdades, requeria corao vigoroso onde fecundasse as
grandes aspiraes. Como prova da sua immortalidade, o corpo deperecia,
os pulmes deslaavam-se, e ella entre as regies infinitas e as
tristezas do quasi moribundo, lampejava ainda os derradeiros clares da
_Viagem a Lisboa_, em que Fielding chorou e sorriu, mesclando aos
impetos da satyra os mais desconsolados quebrantos da amargura.

Quando fordes ao cemiterio dos _Cyprestes_, attentai n'aquelle tumulo,
pensai em tudo que  triste; mas no lhe rezeis pela alma, que essa est
irremissivelmente condemnada. Henrique Fielding no era dos nossos, no
era catholico. Que pena!

    [26] _Archivo Pittoresco_, tom. III, pag. 140.




MANIA E HYPOCONDRIA


Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e
amigos que o enterrassem, porque o seu corpo comeava a apodrecer. Tres
vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e
fingiram que o levavam ao cemiterio; porm, no caminho, estavam uns
homens pactuados com os parentes  espera do sahimento; e, quando a
tumba ia passando, comearam a dizer em voz alta:

--Ora graas a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle
biltre, aquelle perversissimo scelerado!

O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:

--Canalhes! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para
vos ensinar a no ter m lingua; infelizmente estou morto; e os mortos
no se vingam.

Replicaram os homens que no lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando
as injurias.

Ento o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraou-se da mortalha, e
correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes
pregaram na cabea que lhe pozeram fra de l a ida que o atormentava.

O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque
havia tres dias que jejuava, comeu  tripa frra.

Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro
scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em Frana.  a
_Hygiene das dres_, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que
nos illustram, alegram a gente com estas passagens que no so vulgares
entre os maniacos portuguezes.

      *      *      *      *      *

Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca
sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria
horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa;
estava ulcerado e gangrenado; pedia que o no atormentassem, etc.

Fez quanto pde para se curar; consultou os somnambulos mais
acreditados; encarapuou-se com um barrete encerado; tomou banhos
egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil.
Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com
igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a
elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de
cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachund chinez, o talekamapala
dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu 
_escova electrica_, ao _restaurador da vida_. Tudo em vo. Parece
incrivel uma cousa to verdadeira!

A conversao d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua
molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o
homem dos seus atrozes flagicios.

Indo o medico visital-o uma manh, queixava-se elle de que no podia
estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia,
estendia a perna.

--Ento o senhor que mais quer?--perguntou o medico.

--Valha-me Deus, queria fazer isto!--e levantava a perna com a maior
presteza e facilidade.

O medico desatou s gargalhaadas; e o doente, cahindo em si,
riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro s lamurias.

D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como
quatro), e de se estar marasmando.

Ora, o homem tinha to boas cres e to proeminente abdomen que o medico
no pde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico,
pediu explicaes.

--Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga--disse o medico.

-- verdade!--disse pasmadamente o enfermo-- verdade! eu no tinha
reparado.

E ou por estar convencido ou por imitao, riu-se tambem com o medico.


Este livro da _Hygiene das dres_ no  dos mais imprestaveis no
catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se
modificam pela exploso das lagrimas, outras pelo espirro, e algumas
pelas convulses do riso.




AOS DIPLOMATAS DESCONTENTES


Se suas excellencias, os senhores secretarios e addidos de ministros e
embaixadores se queixam da parcimonia dos seus ordenados--e accusam de
mesquinhos os governos, indifferentes ao esplendor dos enviados que
representam este Portugal, to pomposamente representado em tempos
antigos--bem sei eu onde elles podem, se quizerem, colher as provas de
liberalidade dos governos absolutos com que confundam a sovinaria dos
governos liberaes.

Um diplomata, que brilhou nos tempos prosperos, e me lembra, como
exemplo,  Duarte Ribeiro de Macedo. Dizem d'elle os biographos, e
particularmente Jos Maria da Costa e Silva, que nunca enviado portuguez
a Paris to grandes honras recebeu na crte de Luiz XIV. Nove annos alli
residiu o solerte diplomata, ganhando de dia para dia a considerao de
Portugal e os gabos dos ministros com quem lidou.

Em 1668 nol-o descreve Costa e Silva melhorado na florente carreira, j
como enviado ordinario.

No nos diz que ordenados Duarte Ribeiro recebe, nem que luxos estadeia
na crte de Frana; mas do contexto de duas cartas suas e ineditas,
facil nos  conjecturar o despendio, o fausto, a ostentao quasi
reprehensivel d'aquelle representante, se o no quizerem desculpar por
elle ser algum tanto poeta.

Os periodos, que vo lr-se, devem pruir de inveja os espiritos
descontentes dos senhores secretarios, addidos, e enviados de hoje em
dia; conformem-se no entanto, confrontando o Portugal de Duarte Ribeiro
de Macedo com o Portugal dos que hoje em dia o representam, a jantarem
em restaurantes de 2 francos por cabea.

Vejamos as scintillaes de estylo de um enviado ordinario na
embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As
cartas datadas em 1669 e 1670 so adereadas ao regedor das justias, D.
Rodrigo de Menezes.


...... Dir-lhe-hei a v. s. como passo ha quatro mezes. Jeronymo Jos
da Costa me assistiu dous, mas porque a tardana dos provimentos o fazia
desconfiar, no quiz valer-me d'elle, e pedi 1:000 francos ao conde de
S. Comberg, dizendo-lhe que era para um emprego meu. No me atrevi a
escrever que achava este recurso, para que no dsse causa a maior
descuido. J esto pagos estes dous credores; mas no estou livre de
cuidar que recahirei no mesmo achaque. Creia v. s. que no sei como
acerto a servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que
me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o
provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O que
n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher, e
confesso a v. s. que no posso servir com taes faltas. Se eu disser a
v. s. o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e Inglaterra
ha v. s. de se admirar! Sua alteza, pela merc que me faz, a qualquer
carta minha manda logo acudir: a falta est da parte dos executores das
suas ordens... etc.


Se este periodo no deixa bem definida a situao brilhante do enviado
ordinario, ha outro mais explicito:


... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobres
emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas, e entro
em quarto mez de empenho. At a carne para comer me trazem fiada...
Tire-me v. s. d'aqui ainda que seja  custa da liberdade.


D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e
patriotica vaidade no servio de Portugal  que os biographos
deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado ordinario a
Paris, alli _fra recebido com grandes honrarias_ (diz Costa e Silva)
_poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros_, e tantas e tamanhas
que at fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.

E, como prova de que a sua abastana no era fineza, mas sim obrigao
da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que Duarte Ribeiro, _no
longo prazo de nove annos que se demorou em Frana, no exercido d'esta
misso importante, promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era
dotado os interesses e vantagens da nao que representava_.

Da comparao da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza dos
diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca fiada porque
era um inepto, ao passo que os seus successores no officio andam por l
saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o
equilibrio internacional.

    [27] D. Pedro, o regente, irmo de Affonso VI.




BIBLIOGRAPHIA

(PADRE SENNA FREITAS--FRANCISCO GOMES D'AMORIM)


PADRE SENNA FREITAS, _No Presbyterio e no Templo_, vol. II. Livraria
Internacional. Porto, 1874. 8. 344 pag.--A presteza no apparecimento do
segundo tomo, correspondeu  affectuosa curiosidade que o primeiro
suscitou com raro exito. O relevante merito dos artigos subpostos ao
titulo NO PRESBYTERIO, confirma-se e consubstancia-se nos trechos
pareneticos, e nos discursos em assemblas catholicas. Avantajam-se os
dotes do escriptor na descripo do Brazil sertanejo, onde se lhe
acrisolou a vocao nos maviosos, bem que duros sacrificios to
ardentemente commettidos com o alegre rosto da confiana em Deus.

Dos donaires e graas da elocuo do snr. padre Senna Freitas nos
dispensamos de repetir justissimos louvores. Que se recommende um livro,
quando a indolencia publica o no procurou,  esse o dever corrente da
boa critica, e o timbre da leal camaradagem n'esta milicia das letras;
porm, depois que a sanco indeclinavel do senso publico formou
conceito do escriptor, a repetio do elogio  superfluidade, seno
aggravo do leitor que muito bem pde sentir-se de que o ousem ensinar a
conhecer as excellencias da obra inculcada. Farei to smente algumas
breves reflexes  substancia d'este livro.

Nas prgaes feitas pelo operoso sacerdote nos sertes do Cear e
Bahia, posto que se esteja revelando que o missionario forcejou por
atemperar-se  razo pouco alumiada dos seus ouvintes, os conceitos
resaltam na eloquencia, e o letrado alliga-se elegantemente ao
doutrinario sempre na esphera d'uma illustrada theologia. Se o snr.
padre Senna Freitas tivesse a peito acommodar-se  tosca percepo do
seu auditorio, contava-lhe casos com que lhe apavorasse a credulidade,
prodigios, intervenes ultra-naturaes na regio dos vicios ordinarios,
a diplomacia infesta do demonio trajando  humana, e os requintes da
virtude do homem trajando  divina. Os discursos d'este discreto
missionario no se afeiam d'essas deformidades to bastas nas misses
que pelas nossas aldeias espancam o dce anjo das santissimas verdades
de Jesus Christo. Por onde se v que o snr. Senna Freitas, conformemente
a um grande mestre de oratoria sagrada, fez como suas as advertencias do
sapientissimo e religiosissimo Cenaculo: ...Quanta ser a culpa do
prgador que omittir a propria illustrao para que, faltando-lhe esta,
passe a entreter a credulidade do povo em acontecimentos, reclamados
pela verdade? Deixar o protestante de lanar mo d'esta ignorancia para
pretender salvar o seu injusto improperio contra os bons usos da nossa
igreja? O ouvinte illustrado no radica no fundo de sua alma, a respeito
do prgador, um conceito de homem inhabil? Conceito na verdade opposto
quanto  possivel  reputao que deve ter quem quizer persuadir[28].

N'estes discursos, e mais largamente nos que o snr. Senna Freitas
proferiu nas assemblas catholicas do Porto e de Braga, ha passagens de
acurada eloquencia que o descostume em taes occasies poderia acoimar de
nimiamente litterarias e destoantes do lugar e do auditorio. Seria
injusto o reparo. O estylo espalmado no  rigorosamente um signal de
predestinao. Quintiliano pde entrar no templo com o orador christo
sem catechese nem baptismo. S. Joo Chrysostomo formou o seu estylo na
leitura dos versos de Aristophanes; e o citado arcebispo de Evora
recommenda aos alumnos da arte concionatoria que leiam os poemas de S
de Miranda, promiscuamente com os mais selectos pagos, sem levantar mo
dos SS. Padres.

Ora, a mim se me figura que os lanos em que o espirito do snr. Senna
Freitas mais esplende so os que mais contenciosos parecem no seu
austero apostolado. E  talvez por isso que elles mais se ataviam do
fasto das locues bem feitas. Quero fallar do seu azedume contra os
romances que no viu rubricados por alguns nomes de boa fama, e
aureolados dos suppositicios nimbos dos bemaventurados. Eu de mim direi
que tenho escripto muitos romances maus, por mal urdidos ou mal
escriptos; mas, se  licito comparar grandezas com insignificancias, sou
a pensar que nem as novellas do conselheiro Rodrigues de Bastos levaram
ninguem ao paraiso, nem as minhas abysmaram no barathro pessoa que as
lsse. O que no affirmo  se algum dos meus editores foi, mediante
ellas levado... _ gloria_--que com certeza no  a melhor ascenso que
elles, editores, ho de agradecer-nos.

O snr. Senna Freitas pde dar-me de suspeito em materia que tanto por
casa ou pela roupa me toca. No me queixarei, em quanto me for licito e
airoso defender as pessoas que o severo escriptor deplora sujeitas 
contaminao dos maus romances.

No, meu amigo. As novellas, que adoam a peonha das paixes
peccaminosas, quem as l? Toda a gente,  excepo das pessoas
rigorosamente religiosas que parecem temer-se do contagio, como se a
consciencia do dever lhes no fosse bastante cordo sanitario contra a
infeco das idas dissolventes.

Ha tantissimas damas de irreprehensivel estylo de vida que, na sua
mocidade, releram aquellas despeitoradas folias de Paulo de Kock! Ha ahi
tanta senhora de boa nota que l os _Romances para homens_!

Creio e sei que ha romances protervos quanto s infamias que tecem o
enredo; mas ainda no vi algum em que as torpezas sejam aconselhadas
pelo author como saluberrimas e honorificas.

Diga-se o que por diversos modos est repetido: os maus costumes so os
primogenitos de Ado, e mais antigos que as novellas. A grande
bibliotheca dos maus livros que estragaram o genero humano estava dentro
da ma ou do pcego que Eva trincou. Pde ser que os romancistas
desmoralisados, se os ha, sejam os pomareiros da arvore maldita; mas o
certo  que hoje em dia, as descendentes da Eva paradisiaca, se o pomo
lhes trava, depuram os labios nas faces dces de seus filhos, e de sobra
sabem que no  com tal fruta que se enganam os modernos Ades.

Estes reparos no desdouram as fortes e convictas idas do snr. Senna
Freitas cerca da imprensa jornalistica e das litteraturas dramatica e
romantica. O illustre sacerdote est no seu posto, e o sustenta com a
maxima dignidade e superior talento.

      *      *      *      *      *

Como no sei quando terei to bom azo de apontar a um assumpto que, de
seu, me occorre n'este momento, pedirei aqui ao primeiro orador da
tribuna sagrada em Portugal, o snr. conego bracharense Joaquim Alves
Matheus que publique as suas oraes ineditas. Se o divulgal-as
redundasse meramente em gloria sua propria, no iria eu ferir com
phrases de vulgar lisonja a modestia d'aquelle professor illustre;
porm, se o proveito d'essa publicao reverte em lio para prgadores,
em deleite para crentes, e secreto abalo para incredulos, a absteno do
snr. Alves Matheus  menos louvavel, e por nenhuma maneira conforme aos
deveres que se alligam ao seu ministerio. O talento de quem converte em
luz da alma o que outros obscurecem nas paginas dos livros santos, 
mais de ns, os vacillantes  orla dos abysmos, que dos bemquistos da
alta inspirao, e dos que, velejando nos escarceus da vida, tem no co
a estrella do seu norte, e na terra a dupla ancora da f e da sciencia.
Alves Matheus  o mais correcto e elevado orador que ainda ouvi. Conhece
todas as vozes que sam dentro da alma. D o terrivel estremecer do
enthusiasmo no arrobamento das idas grandes, e vibra as palavras
gementes que abrem o dulcissimo espirar das lagrimas.

      *      *      *      *      *

THEATRO DE FRANCISCO GOMES DE AMORIM, socio da academia real das
sciencias de Lisboa. _O cedro vermelho._ 1874. 2 tomos.--So livros de
recreio e estudo estes dous que comprehendem o drama e as notas
relativas. O snr. Gomes de Amorim empenhou poderosas faculdades de
observao nos accessorios com que nos pova a phantasia, a fim de que
no tecido dramatico fuljam os fios reflexres da luz local. O drama
seria j excellente sem as notas; com ellas reala de valia, porque nos
ensina particularidades que o poeta photographou, e o historiador
desdenharia. Se tanto lavor e tamanha paciencia de consultao houvessem
de ser embebidos no artificio do drama, e descurados como alheios da
scena, o consciencioso escriptor teria a triste desilluso de se haver
canado  cata de leitores idoneos e juizes competentes do seu trabalho.

O _Cedro vermelho_, assignalado entre os mais applaudidos dramas que
recordam noites gloriosas do theatro normal, pertence  escla das
peripecias fortes e commoventes. Impunham-se assombrosos aquelles lances
de viver desconhecido do serto da America. Francisco Gomes de Amorim
chegra, poucos annos antes, d'essas paragens, por onde havia passado o
portuguez aventureiro, o mercador, o chatim; mas por onde, desde que o
jesuita fra esponjado da civilisao do indio, nunca mais passra o
talento observador. Por fortuna da arte e desfortuna do artista, Gomes
de Amorim identificra-se aos costumes das raas, tactera-lhes de perto
o selvagismo, no tanto por seduces de curioso quanto pelo imperioso
estimulo da necessidade. As lagrimas represadas talvez lhe abrissem no
corao os traos que ahi ficaram como thesouro de lembranas,--e quem
sabe se de saudades para elle e para tantos cujas illuses vo morrendo
com o sol poente de cada novo dia!

O drama, executado por aquelles artistas apaixonados de ha dezoito
annos, logrou arrancar da sua atrophia um publico sopitado pela toada
das xacaras, e pela melopa dengoza das castells, e raivas sacrilegas
d'uns amadores quasi todos sarracenos, consoante a praxe dos dramaturgos
archi-romanticos.

Tasso, que aceitra a parte do indio Loureno, como quem crescia para as
empresas arduas e se apoucava nas trivialidades de gal de vaudeville,
arrebatava o auditorio, e o auditorio arrebatava-o nos braos, desde o
palco ao seu camarim. Houve n'aquelles remotos dias correntes galvanicas
entre o actor e a sala. A paixo coruscava no olhar d'aquelles
interpretes a quem Epiphanio ensinra as fulguraes do terror, e, sobre
tudo, a expresso da intelligencia.

Eu no direi que a arte de hoje arraste crepes ou esteja fria como o
marmore de Gil Vicente na cupula do seu templo.

No: o que simplesmente receio  que o amaneirado, o arbitrario, que ahi
chamam _crear caractres_, o pseudo-naturalismo dos actores mais em voga
nos vo desencantando das illuses e amortecendo o enthusiasmo
n'aquelles lances que--segundo a praxe comica--_faziam levantar o povo_.

Tenho recordaes d'esse tempo, e algumas prendem com o _Cedro vermelho_
de Gomes de Amorim. Ao rell-o, como quem folheia paginas em que se
traaram impresses da mocidade, tive o prazer de renoval-as
admirando-as ainda, e marginando as muitas passagens em que resalta um
bom engenho, e um optimo escriptor. O segundo tomo  prestadio subsidio
para quem, deleitando-se, quizer, em poucas horas, colher noticias
repartidas por tantissimos volumes.  obra de grande merito, e sl-o-hia
de grande fortuna em outro paiz. Emendmo-nos. Sejamos dignos dos
talentos que honram a nossa terra.

    [28] _Memorias historicas do ministerio no pulpito_, pag. 199 e seg.




EXCELLENTISSIMOS SENHORES


Hoje que todos temos _excellencia_,  bom indagar se a no temos, e no
 mau resignar-se a gente com os dictames do Direito Publico a fim de
no attentarmos contra a vida de quem nos favorecer com a _senhoria_.

Por no principiar de mui remotas eras, comearemos pela lei
extravagante de Filippe II, de 15 de setembro de 1597. Ahi se manda que
rei e rainha hajam tratamento de _magestade_. (Bem sabem que, at ao
tempo do rei D. Sebastio, era _alteza_). A referida lei ordena que os
duques, marquezes e parentes da casa real, quando fallassem do rei,
dissessem: El-rei _meu_ senhor e que os outros menos graduados,
dissessem: El-rei _nosso_ Senhor. A differena entre singular e plural
do pronome possessivo no se percebe. Segundo a mesma lei, os principes
e infantes eram tratados de _alteza_; mas quem dizia simplesmente _sua
alteza_, individualisava o successor da cora. _Excellencia_ era para os
filhos dos infantes e duques de Bragana. Os outros duques, marquezes,
condes e bispos tinham uma reles _senhoria_; porm, se os bispos fossem
estrangeiros, haviam de acommodar-se com um _vossa reverendissima_.

D. Joo V fez outra lei em 29 de janeiro de 1739. Confirma a de Filippe
II quanto s pessoas reaes; manda, porm, que se d _excellencia_ a
todos os grandes ecclesiasticos e seculares--duques, marquezes, condes,
arcebispos e bispos. D'estes ultimos so exceptuados os estrangeiros. Os
presidentes dos tribunaes tambem recebem excellencia em quanto esto na
sde da judicatura. Os generaes e vice-reis gozam o mesmo fro.
Viscondes, bares, governadores de praas, reitores da universidade,
priores d'ordens militares de Aviz e Palmella, moos do pao, etc. uma
_senhoria_ secca.

Desde que me entendo s encontrei um homem que obedecesse rigorosamente
a esta lei. Foi um d'estes dias, o encontro, em uma carruagem da via
ferrea. Era um relojoeiro do Porto, homem de annos largos, cara aberta e
antiga. Quando se dirigia ao snr. conde da Graciosa, dava-lhe
_excellencia_; ao snr. visconde de Sanches de Baena, dava-lhe
_senhoria_; e a mim, para ser coherente, no me dava nada. Um sujeito
que regula to acertado com as leis dos tratamentos deve correr igual
pontualidade com os seus relogios. Mas elle no sabia que eu, desde
1862, sou marquez, agraciado por sua magestade negra, D. Jacintha I,
rainha do Congo, muito minha senhora e ama, que Deus conserve. Alm
d'isso o alvar de 20 de junho de 1764 manda dar _senhoria_ a mais
alguem; por exemplo: ao abbade de Alcobaa e ao seu substituto. O
relojoeiro, para quem a extinco das ordens religiosas no era
novidade, nem equivocando-se com a minha presena prelaticia, me
confundiu com o geral dos bernardos!

Seja como fr, convm que as pessoas vezadas  _excellencia_ se
apercebam de conformidade para o caso possivel de se encontrarem com o
citado relojoeiro severo em tratamentos.




O ULTIMO CARRASCO


II

    V. exc. sabe de certo por pessoas doutas e tementes a Deus, que eu
    sou um grandissimo impio, peiorado agora com minha nesga de petroleiro.

    A. HERCULANO.

Devo aqui contar ao leitor como conheci o carrasco[29].

........................................................................
........................................................................
........................................................................
........................................................................


III

    Elle (l'histoire) enseigne qu'une me pse infiniment plus qu'un
    royaume, un empire, un systme d'tats, parfois plus que le genre
    humain.

    De quel droit? du droit de Luther, qui, d'un Non dit au pape, 
    l'Eglise,  l'Empire, enlve la moiti de l'Europe.

    Du droit de Cristophe Colomb, qui dment et Rome et les sicles, les
    conciles, la tradition.

    Du droit de Copernic, qui, contre les doctes et les peuples,
    mprisant  la fois l'instinct et la science, les sens mme et le
    tmoignage des yeux, subordonna l'observation  la Raison, et seul
    vainquit l'humanit.

    MICHELET.

Levantei-me cedo para esperar o carrasco.

Luiz o Negro nascera no lugar de Capelludos d'Aguiar, freguezia de S.
Joo Baptista, e comarca de Villa Pouca de Aguiar, a sete de maio de mil
oitocentos e seis.

Entravamos, ento, n'uma das mais dolorosas pocas da nossa historia
moderna. Adejavam por sobre a peninsula as aguias do imperio, e rasgando
o vo iam penetrar nas nossas fronteiras. Queria o ambicioso da Corsega,
como um dos conquistadores do paiz da aurora, aoutar as vagas indomitas
e enfurecidas do oceano nas extremas do occidente.

Napoleo ia decretar, no seu olympo de Fontainebleau, que a dynastia de
Bragana cessra de reinar, e sentia-se j, pelo silencio da noite, o
ruido pavoroso da marcha compassada dos legionarios das Gallias.

Se os Braganas, como os patricios da velha Roma, tivessem esperado o
Brenno moderno, sentados nas cadeiras curues, na omnipotencia augusta do
Lacio!...

No esperaram! Fugiram apavorados e... nervosos, para alm do Atlantico.
Deus lhes perde.

Chego a crr--o Eterno se amerceie de mim se erro--que esta absurda e
ephemera conquista foi a alvorada da liberdade em Portugal.

Receio pouco que me alcunhem, agora, de jacobino ou afrancezado. O
anathema actual macla, fere e extermina smente, n'estas horas
d'angustia afflictiva e demorada para toda a democracia europa, os
alcunhados defensores, aqui, da fuso iberica e do cantonalismo
peninsular. Para todos os outros heresiarchas ha perdo nos amplos
recintos da politica orthodoxa. Os Mac-Mahons e Serranos nasceram para
edificao das monarchias. Substituiram os Lafayettes e Monks de todos
os tempos.

Para serem apedrejados e expostos s ignaras vaias da multido temos ns
Victor Hugo e Garibaldi no nosso seculo.

Christo, em Jerusalem, antes de suppliciado, percorreu as ruas vergando
sob o lenho do seu proprio supplicio.

Assim seja--at que o verbo esplendido da democracia surja como luzeiro
da redempo da humanidade.

Os phariseus de todas as pocas teem sempre uma accusao adrede, para
extinguirem a luz da alma nos homens do futuro.

 antiquissima e vetusta usana injuriar os espiritos elevados e
prescientes de todos os tempos, infamando-os com os epithetos, que o
seculo detesta e abomina, para os crucificar, sem dr nem piedade, e
entregal-os, depois,  irriso da gentalha, e  execrao immorredoura
dos vindouros.

 esta a lenda de Christna e de Bouddha no Oriente, de Socrates em
Athenas, dos Gracchos e de Spartaco em Roma, de Christo e dos apostolos
em Jerusalem, de Joo Huss e de Jeronymo de Praga na Allemanha, de
Savonarola em Florena, e de todos os reformadores da humanidade--desde
Abel, se aceitamos o mytho biblico, at ao ultimo pastor das Cevennas, e
at ao derradeiro Karl Marx das sociedades modernas.

Convem estudar a poca em que nasceu o carrasco.

Depois o ouviremos.

Os tres estados eram a base da nossa organisao politica e social:
clero, nobreza e povo. Todavia, elementos preponderantes eram os dous
primeiros. Vivia e medrava o povo como machina. Trabalhava, suava e
mourejava para alimentar e enriquecer o sacerdocio e a nobreza. Nas
horas de perigo, no momento das grandes luctas apparecia como comparsa,
enfileirava-se nos cros das supremas tragedias, e morria na obscuridade
de legio, no completo desprezo da sua insignificancia. Acclamava o
mestre de Aviz, cahia desconhecido e ignorado nos areaes d'Africa,
passava desapercebido, para as chronicas, nos galees da India, e nos
recontros e batalhas figurava pela fora numerica, como hoje se designam
nos mappas de brigada as foras vivas de qualquer regimento ou batalho.
Afra estes lances era a plebe, era a villanagem, era a m do povo, era
a peonagem, era o numero.

Na vida campestre emparelhava com o boi, dormia ao lado do rebanho,
inventariava-se entre as alfaias da officina rural--era a fora
empregada no impulso da enxada, era o guia do arado, era, finalmente, a
machina, que desbravava a charneca, que enxugava o pal, que roava o
matagal basto e espesso, que Semeava o terreno lavrado pelo seu esforo,
e que, mais tarde, colhia e arrecadava o fructo.

Na sociedade urbana era o operario--mal ensinado, parcamente retribuido,
entregue a si e aos seus proprios e escassos recursos, sem lio, sem
exemplos, sem estimulos, sem auxilio, e sem mercado vasto e animado para
os productos da sua industria.

O commercio de grosso tracto, monopolisado entre algumas dezenas de
capitalistas e armadores, vivia fra da aco productiva do paiz, como
n'um eden de bemaventurana, onde a entrada era vedada a profanos.

Desde a casa da India at  casa dos vinte e quatro era longa a
historia das prerogativas e privilegios de classe n'esta nao
algemada--exclusivismo absurdo da mais inexperiente e ignara
administrao politica, economica e social.

E o povo vivia assim--submisso e reverente--porque as misericordias,
irmandades, e ordens monasticas de todas as categorias e religies
adoavam a miseria publica com o caldeiro da sopa fradesca,
generosamente offerecido na portaria do mosteiro. Ensinava-se
oficialmente um povo inteiro a ser mendigo. Era esta a vida economica e
social de toda a peninsula.

Decretava-se a mendicidade como dogma. Eram o pauperismo, a ociosidade e
a degradao humana nobilitados pela Igreja. E nos amplos e lageados
claustros e escadarias do cenobio havia aula publica de abjeco, de
humildade ignobil, de torpe vagabundagem e de crimes at. O fanatismo
religioso nunca desadorou a Calabria, a Floresta negra, e a
Serra-Morena. Que o digam as offertas s madonas de Italia.

Viviamos assim.

E por isso os nossos monarchas se appellidavam _fidelissimos_ perante a
curia do Vaticano, e gozava de pragmaticas rituaes a Igreja lusitana,
que s eram permittidas na s apostolica de Roma.

Com as fogueiras da inquisio e a esmola aviltante, distribuida no
peristylo do templo, alcanramos tudo: destruiramos e aniquilramos a
raa heroica da peninsula ibrica.

Louvado seja Deus! A expulso de judeus e mouros, a fogueira
inextinguivel do catholicismo, e a esmola aviltante e hypocrita d'um
clero hediondo, devasso e fanatico, assemelhava-nos, na torpeza, no
aviltamento, e no cretinismo da frma s colnias jesuiticas do Paraguay.

A semelhana das evolues communaes, que, pouco a pouco, foram erguendo
e levantando o poderoso collo da burguezia em toda a Europa--quiz o
marquez de Pombal, nos vastos designios da sua potente administrao,
crear e estabelecer, aqui, a classe mdia.

Baldado empenho.

A morte do ministro valido de D. Jos I deixou, em profunda anemia, o
vigoroso e energico elemento social, que elle intentra crear.

Expulsramos os sarracenos to tarde, organisramo-nos, como nao, em
poca to proxima, que sem termos soffrido os vexames do feudalismo, no
cremos, tambem, a classe, que mais arcou com elle, e que o assoberbou e
venceu.

Temos sido sempre o echo remoto e longiquo das luctas sociaes, politicas
e economicas da Europa.

Ao passo que a communa, originada no municipio romano, sahia das trevas
da meia idade, depois das cruzadas e das luctas feudaes dos grandes
vassallos, caminhando tenazmente por entre os recifes dos direitos
senhoriaes e do poder real at chegar, em Frana,  revoluo de 1789, e
affirmava, sem mais contestao possivel, os legitimos direitos do
terceiro estado--entre ns a burguezia, a classe mdia foi sempre uma
creao ephempra, uma entidade sem solidez nem significao valiosa, e
tanto assim que, depois das luctas constitucionaes, quando triumpharam
alguns dos principios liberaes, pouco a pouco, a parte mais opulenta,
mais rica, mais dinheirosa d'essa creao ficticia ennobreceu-se,
afastou-se com desdem e desprezo da sua propria classe--se classe
era--buscando no luzimento e esplendor das armarias e librs um marco
divisorio, que a separasse para todo o sempre dos seus irmos no
trabalho. E os grupos restantes, menos abastados, menos felizes, e menos
poderosos, pelos haveres, mergulharam, por instincto, educao e
costumes, no seio da plebe onde existem e jazem, quaesquer que sejam as
vaidades com que pretendam esconder esta communho de interesses,
habitos e sentimentos.

 doloroso dizel-o, mas embora: aceitemos os acontecimentos como so. A
revoluo de 1832 e 1833 em Portugal, em presena da sciencia, no s
no foi uma revoluo social, mas nem sequer foi uma profunda revoluo
politica em todo o rigor do vocabulo.

Foi uma guerra de successo a um throno contestado por dous irmos, que
se reputavam ambos legitimos, cercados de partidarios com interesses e
direitos offendidos, e em que um dos pretendentes--o mais habil, seno o
mais feliz--soube crear sympathias heroicas e indestructiveis
dedicaes, appellando para a corrente das idas do seu seculo, e
alcanou captivar as almas generosas, outorgando uma carta
constitucional, simulacro de liberdades, que no prenderam nem
limitaram--como o no tem feito--o exercicio constante e absoluto do
poder e governo pessoal.

Podem-me contestar uma to resumida e rapida exposio. Os factos,
porm, no deixaro desmentir estas verdades.

Nas luctas de 1833 achava-se a nobreza antiga, a nobreza de sangue
dividida nos dous campos, pelejando em fileiras diversas, e por vezes
inimiga no seio dos proprios solares. Todavia no era a diversidade de
crenas, nem a sinceridade das convices, que a traziam, assim,
desavinda e odienta. Era o egoismo dos interesses perdidos, era o ciume
do valimento ou o odio pelos desprezos da cora, era o orgulho de
preeminencias e prerogativas nas familias titulares, eram as
desconsideraes dos seus pares, sentidas, e cuidadosamente legadas, que
iam passando, no mysterio dos tombos e cartorios, com a successo dos
vinculos por diversos reinados, eram vinganas sumidas e occultas por
entre os pergaminhos de raa, e todas estas ruins paixes, todas estas
heranas em que o amor proprio e a soberba dos avs, que se transmittia
aos netos, achou, na lucta dos dous principes, respiradouro por onde se
expandisse e rebentasse a exploso.

Foi assim.

Como casta, as crenas eram as mesmas. Se a palavra augusta de crena
pde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel, de implacaveis
interesses, e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e
por todos, que no descendem d'avs, j nobilitados, nos seculos
undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia.

Os reis podem fazer nobres, mas no teem poder para crear fidalgos.
Estas palavras, nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da
frma politica actual, explicam  nobreza moderna--se ella sabe
meditar--como so sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que
a antiga aristocracia a trata e recebe. Fica escripto por uma vez: o
ultimo filho segundo d'uma casa secular, ainda o mais empobrecido, e o
mais privado de intelligencia, ser sempre estimado, pela sua casta,
acima de todos os genios, e de todas as illustraes do seu seculo.

Foi a experiencia, talvez, d'estas justas consideraes, que, nos sales
de Luiz XVIII, levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer
a um fidalgo do exercito de Cond: Eu sou o meu proprio antepassado.

A nobreza antiga, com excepes rarissimas de que me no occupo agora,
queria liberdades e garantias--queria; mas exigia-as dentro do circulo
da sua casta, requeria-as para si e para os seus.

Fra d'esta linha divisoria, d'este limite sagrado s via a plebe.
Direitos, faculdades e poderes originavam-se no numero dos avs. Quem
no tinha ascendentes conhecidos e nobilitados no era pessoa juridica,
no era homem: vivia  merc da misericordia infinita da nobreza. Triste
situao era esta! Mas era assim.

Rezam as lendas ou as chronicas, que uma nobre dama da crte dos Valois
no escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios, segundo o dizer de
Brantme. Que importava a sensualidade da gentalha! N'este esquecimento
e desdem, pela plebe, vivia a aristocracia portugueza, na contemplao
de si mesma, como o Zeus dos indus na vasta cosmogonia do Oriente.

O vulgo, a populaa era a machina posta ao servio do fidalgo.

Terminada a lucta da successo comearam a recuar, nos seus esforos
patrioticos, muitos dos nobres, que militavam nas fileiras populares.

Era de prevr.

Os factos consummados tinham mais fora do que todas as aspiraes, e
cegos desejos da nobreza--que se dizia liberal.

Espiritos pouco previdentes, por nenhuma frma habituados a estudos
sociaes, inexperientes em todos os actos da vida civil, creados no
desprezo e desconhecimento do trabalho, que, accumulado, produz a
riqueza publica, esperavam encontrar, na crte do imperador, as tenas
realengas, obtidas, pelos servios, que s no so estereis para a
lisonja, imaginavam conservar, como monopolio das suas casas solarengas,
os cargos hereditarios, os empregos vitalicios, as patentes no exercito,
sem habilitaes obrigadas para as exercer, e os lugares privativos e
rendosos em todas as ordens militares e religiosas.

A carta constitucional poderia tornar-se letra morta. Demais, a nobreza
no tivera tempo para estudar foraes, nem cartas de alforria. A
aristocracia estava habituada a vr derogar leis do reino por provises
regias. Para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos.

Mas quando os acontecimentos vieram, nos primeiros assomos
d'enthusiasmo, desmentir estas esperanas, e deram comeo  obra de
destruio das velhas instituies, em que andamos todos
empenhados--foi, ento, que se descerrou a venda de olhos to poucos
perspicazes, e a nobreza viu, com pasmo inaudito, que suppondo-se ella,
s ella, o engenheiro, que dispra as catapultas, empregadas pelas
faces--era, apenas, a singela alavanca, posta nas mos dos homens do
povo, e que estes apontavam e dirigiam a seu talante e sabor.

O clero, na sua maioria, na fora viva da sua organisao--esse, no se
deixou illudir.

S podia estar ao lado da reaco--e, por isso, esteve.

E  medida que os factos se vo desenrolando, que novas crenas e novas
idas transformam as sociedades--o clero acompanha sempre os partidos
retrogados, senta-se junto do passado, afaga-o, anima-o, protege-o,
defende-o, por vezes alimenta-o, e arrasta-o, depois--at  vertigem e
ao delirio.

Quando hirto e inanimado jaz como cadaver sepulta-o, na indifferena do
mais torpe egoismo, e vem  beira do circo, onde se degladiam os homens,
que outr'ora foram irmos, e que as leis do progresso j dividiram em
bandos oppostos--busca, ahi, a phalange reaccionaria, a que estacionou,
a que receou caminhar, fascina-a, pela mesma frma, apodera-se d'ella,
envolve-a na infinita rede, e nos tenebrosos tramas do seu sinistro
mysticismo, at que uma nova evoluo social, por seu turno, despedace
este elo historico, e o arremesse para a noite dos tempos.

 por isso que o povo, na grandeza dos seus instinctos, e nos periodos
solemnes das suas transformaes--quando as leis inexoraveis, que regem
a humanidade o impellem e obrigam fatalmente a caminhar--encontra-se s,
entregue s suas proprias foras, e ao luzeiro do seu destino.

Os chacaes, as hyenas, e os corvos vem, depois, pela calada da noite,
devorar, no silencio das trevas, os cadaveres dos que pereceram nos
campos da peleja.

Mais tarde aboliram-se as communidades religiosas, annullaram-se as
doaes dos bens da cora e ordens, quebraram-se todos os privilegios e
collocaes obrigadas na magistratura, na Igreja, na administrao
publica e no exercito, cercearam-se os lugares do pao, simplificaram-se
as leis dos foraes, abriram-se tribunaes communs para todos os cidados,
creou-se um systema uniforme de julgar, acabando com as provises
regias, fros privativos, e decises especiaes, finalmente a nobreza
conservou os titulos e os cargos honorarios, mas ficou igualada em
direitos e deveres a todos os outros homens.

O imperante perdera--pelo menos na apparencia--o _moto proprio_ e a
_sciencia certa_, com que representava a divindade, entregando aos
poderes consignados, na carta, a harmonia da vida constitucional.

      *      *      *      *      *

Quando o relgio da cada dava nove horas, entrava, no meu quarto, um
fachina das salas do Limoeiro com o manuscripto do carrasco. Elle no
podia vir. Sentia os primeiros symptomas da enfermidade de que morreu.

Escreveu-me um bilhete, que ainda conservo. Dizia-me que viria, mais
tarde, saber o que eu pensava da sua vida to dolorosa e to angustiada.

Conservo o bilhete e o manuscripto.

Vou confiar ao leitor os segredos d'alma d'esta existencia excruciante e
afflictiva, que pereceu no fundo d'uma enxovia.

                                                   VISCONDE DE OUGUELLA.

    [29] Este e outros capitulos viro a lume, mais tarde, quando a
    occasio fr opportuna.




O HORROR DA DEMENCIA


Rachel Varnhagen, insigne allem, esposa do grande escriptor do seu
appellido, escrevendo a Frederico de Gentz, dizia: Tres grandes cousas
me horrorisam n'este mundo: 1. uma manada de touros bravos; 2. a
plebe; 3. a demencia.

A demencia  mais triste que horrorosa. Os que a padecem, se soubessem a
compaixo que inspiram, seriam ainda mais desgraados,--se desgraados
so os que no tem a consciencia de o serem.

D. Domingos de Magalhes, o arcebispo de Mitylene, morreu, quando a fome
voluntaria o acabou de matar. No houve razes de amigos e de theologos
que o movessem a tomar um pouco de alimento. No dava explicao, sequer
insensata, da sua rigorosa abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos,
se nos depara tal qual luz, consoante ella se pde desferir das
profundas trevas.

Diz assim um capitulo intitulado _O Impassivel_:


A impassibilidade ha de ser a futura condio do homem santo que seria
semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e degenerada  a sde da
dr e da molestia, porque a sua sorte e futuro destino ser a maxima
degenerao do ente, ou a regenerao e renovao do servo, que o Senhor
creou, e collocou no paraiso.

Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convm decifrar e
resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau no morre, e que a
sua sorte  a morte eterna: a questo est s na dico e na phrase; 
uma amphibologia ou questo de palavras. O homem mau no aceita a morte
voluntaria para expiar a pena do peccado; e, como resiste ao decreto da
divina misericordia e graa, no morre para resuscitar, no se regenera,
perverte-se e corrompe-se cada vez mais.

O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno, perde o
maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo ouro, e
cora-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o diuturno da
penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser um martyrio, ou
um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes. O homem mau tenta
conservar o fumo, que o asphyxia no inferno, no se mata nem resuscita,
perverte-se e degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.

O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver da
galvanisao eterna; o segundo homem perde-se no exilio, aonde morrem
todos os que o preferem  patria, e renuncia-o s suas saudades, amor e
realeza.

O homem mau tem duas degeneraes: a primeira materialisou-o, a segunda
ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas esperanas,
promessas, e de toda a gloria, fraternidade e bemaventurana eterna.

A regenerao faz o homem impassivel, e opra muitas vezes em vida os
seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de exaltar e
acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade santa ha de
seguir at ao fim dos seculos e das geraes e conquistar pela divina
misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos.

O homem santo ser impassivel, sem dr e sem temor, superior 
natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagar o seu tributo  morte
por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais
solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os sacrificios que podem
exagerar e exaltar a virtude do homem.

Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade; os
authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos, ousam
asseverar que a dr e a fome, a morte e as tribulaes so consequencias
necessarias da natureza humana por ser limitada, contingente, e
passageira: se dissessem, que so consequencias immediatas da natureza
degenerada, e penas propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original,
diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactido, com logica e
coherencia de principios.

Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce
na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo em geral mui prudente e
avisado.

S. Joo Baptista no bebia vinho nem cerveja, comia mel silvestre; o
Stylita comia um bocado de po s aos domingos, e permanecia sempre
fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna de dia e de noite, de
vero e de inverno, annos e lustres por divino milagre.

S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia diariamente s o
que a ave do agouro podia trazer no bico, era um bolo do co: os
exemplos so innumeraveis: todos provam que a humanidade santa ha de
conseguir no paraiso at o fim a impassibilidade da dr e da fome;
porque no co no se come: os maus soffrero lazeira e esuria no
inferno, porque o mundo est condemnado ao fogo e  perdio.

Estas verdades so dogmaticas; os herejes negam todos os milagres do
divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar de ns: quando
chegar o tempo da maxima profanao humana, o fiel regenerado beijar a
mo que o sacrificar pelo martyrio, e desejar com elevada ambio
receber pessoalmente a sua cora em vez da outorga na communho e na sua
geral misericordia; o que se coroar pelos seus esforos, e pelo odio da
tyrannia ser mais ditoso e mais laureado: a morte  uma pena para o que
recusa pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor
divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade: o
martyrio  uma virtude de communho, as suas provas sero cada vez mais
faceis e mais suaves para os santos pela unio com Deus. No paraiso ser
um sonho e um devaneio, um magnetismo e uma transmigrao voluntaria.

A impassibilidade, a virgindade, a gerao espiritual, o desejo e o
voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspiraes da abstinencia e da
penitencia ho de ser frequentes e geraes, admiraveis e sobrehumanas na
divina providencia do paraiso: convm persuadir estes desejos e
esforos, para que ninguem desanime, ou recuse a reconquista da
perfeio e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito, ou
aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem.

Eu tomei rap com excesso por espao de vinte annos, por conselho de
medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixo, quando principiei em
Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao Santissimo Sacramento
no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito; era eu s para o exaltar,
no tinha acolyto, nem ministro, dizia missa diaria, adorava duas vezes
por dia com treze luzes de cera sendo uma s de azeite, rezava o officio
divino, escrevia, trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de
vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da
divina magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e
por isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis
para dezesete mezes de continua e incessante adorao, sem uma falta, e
deixei o uso do rap por decencia e reverencia at o dia de hoje sem
quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.

Minha mi mandou pr  minha disposio um bote de rap no anno de
1860, em Villa Pouca, aonde eu j no adorava, nem podia dizer missa: o
rap esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca mais abri o bote e
padeci grandes dres de dentes, que me determinaram a extrahir alguns a
ferro; quando fui ao Porto offereceram-me rap, eu no aceitei.

Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e at lauta;
jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe e guisados, e
todos os appetites que a boa mesa offerece: eu no procurava os seus
regalos, mas no repellia nenhum dos permittidos: agora fao penitencia,
e no como carne nem peixe ha mais de oito annos. Em 1860 comi carne
algum tempo em pequena quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe at
agora: passei mais de um anno s com um quartilho de leite por dia e com
menos de quarenta reis de po, e com um arratel de assucar chegava para
treze dias at dezeseis.

Nunca fui apaixonado do vinho, mas no o repellia inteiramente; agora
no bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por dia menos de
40 reis de po, jejuo tres dias por semana, s quartas, sextas e
sabbados, e ha mais de tres annos ainda no faltei a esta disciplina de
jejum nem nos dias de jornada.

Nos outros dias tomo um caf com leite, um vintem de po, e uma quarta
de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha sopa que consta de
uma dse de arroz com manteiga, ou com azeite segundo o dia; um arratel
chega para cinco dias, e s vezes para seis:  noite como um bocado de
bra ou de po.

E com esta disciplina e regular dieta trabalho, rezo, escrevo e medito
ha muitos annos sem descanar nem um dia e sem interromper o trabalho,
que executo de joelhos por divino milagre, ha quantos annos?

As obras escriptas respondem por ns: muitos dias de inverno principiei
a trabalhar s duas horas da noite, e continuei a minha tarefa at s
duas horas dos seguintes, empregando mais de dezoito horas no afo da
escriptura. Escrevo e rezo sempre de joelhos, e sustento-me n'esta
reverente posio por mais de doze horas, dias e mezes successivos
haver um lustro, por estar na divina presena.

A impassibilidade  o presagio do paraiso. Lucifer e a sua maldita
confuso e degenerao ha de receber a honra da morte e todas as dres
que causou  humanidade com o peccado original por haver seduzido nossos
paes no paraiso das delicias.

Nenhum peccado ficar sem pena eterna, nenhuma dr ha de extinguir-se
ou aniquilar-se, perder-se, ou evaporar-se: o que  causa da causa 
causa de todos os effeitos e consequencias.

A crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-os,
tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro: a actual das seitas
vendeu-me para me occultar a minha genealogia e direito, e obrigou-me a
seguir o estado ecclesiastico para me castrar: os seus vicios foram mais
impios do que os antigos, e converteram-se contra os insanos.

Eu seguia o estado ecclesiastico com amor, e aprendi a defender o meu
direito na poca propria e quando convinha: sou mal por ser do paraiso.

Toda a minha vida  um milagre diuturno: os monstros jmais poderam
privar-me da existencia; as suas conspiraes so incessantes, geraes,
concentradas, diabolicas e perfidas.

No dia dez estava para escrever a bulla quinta e no sabia sobre que
havia de legislar: abri ao acaso o sagrado concilio de Trento, sahiu a
sesso vigesima segunda que falla em legados apostolicos, que  o
objecto da referida bulla.

No dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis, e inclui
por engano s seis folhas, e chegaram e no cresceu o papel: no dia nove
metti as sete folhas, e aconteceu o mesmo milagre: todas as leis e
bullas so originaes sem borro, ou copia.

Deixo o soberano titulo no alto da folha; no dia nove aconteceu ficar
em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou imperfeio
do papel, e foi razo para que no crescesse, nem faltasse.

Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma  negra, e
escrevo o Impassivel com esta: no dia nove escrevi com as quatro
pennas; duas estavam j refugadas, duas eram novas, duas appareceram a
um canto: eu j mandei procurar mais pennas mas no apparecem  venda:
escrevo, com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes, e com
dous vintens de tinta ha mais de meio anno, e quebrou o vidro, alis
seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta est em um
pires de porcelana que serve de tinteiro; eu s tenho dous pires, e duas
chavenas.

No tempo da usurpao de D. Miguel uma senhora chamada Rosa deu-me a
effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um homem affeioado 
tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma veronica da Santissima Virgem
Immaculada em Lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu
dei-a em Villa Pouca a uma senhora chamada Rosa.

Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra, a
supposta infanta D. Isabel Maria, a qual no me pagou a visita; uma irm
de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e no a visitei.

Fiz algumas visitas  supposta imperatriz do Brazil, falsa duqueza de
Bragana a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa;
a cruel jmais ousou levantar os olhos para ns: quem pagar ou
satisfar estas dividas de amor e de reverencia?

Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma femea em Santa
Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro; tenho duas vassouras, fui
servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas
mulatas, uma em Villa Pouca, irm do burro cruel, outra nos banhos do
lugar de Caro ou de Arcozelo: fui servido por duas criadas filhas da
viuva, uma de Montenegrelo, outra de Chaves, aquella deu-me um
guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta, e dei um leno de sda 
criada de Montenegrelo: j bati em duas, uma fugiu e no levou.

Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a orao da
manh: hoje repetiu o mesmo mysterio.

Jos Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a dez annos
de degredo um energumeno que dizia missa e prgava sem ter ordens, e
denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha Guilherme commetteu
em Roma: n'aquelle tempo no havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui
o antipapa, e declarei energumenos todos os seus tonsurados: o falso
padre gerou todos os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os
herejes amnistiaram o nefando, no podem absolver os traficantes.

O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas Necessidades, e
uma em Mafra, so dous paos reaes, outra no pao das escolas, da
universidade so dous paos de escolas: porque Mafra  escola militar:
esteve commigo duas vezes na academia de Lisboa, no collegio dos Nobres,
e no convento da academia, so duas academias, ou mais: uma em Coimbra
outra em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das
sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza d'esta
categoria em relao s esclas do exercito, duas em Lisboa e duas fra
de Lisboa.

So cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos paos
da universidade como provedor da misericrdia; elle mandou-me um recado
 misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo provedor.

O dualismo  uma graa; a perfidia  uma abominao e um horror.




RESTAURAO DE UM DOCUMENTO HISTORICO VALIOSO


Rebello da Silva, na sua _Historia de Portugal_, reportou-se a um
documento que o snr. Ferdinand Denis encontrra na bibliotheca real de
Paris, relativo  historia dos motins sequentes  perda de D. Sebastio,
e publicra no _Portugal pittoresco_.

O nosso historiador no trasladou o documento, com quanto fosse
importante. E ajuizadamente procedeu; porque, sendo elle verso do
portuguez, difficil seno impossivel seria revertel-o  frma original.
Poderia Rebello da Silva pedir o fiel traslado d'esse papel, incluso no
codice n. 10:241, e dal-o no corpo da sua historia, como testemunho das
velhas regalias populares nas crises grandes de Portugal; mas dependendo
isso de esmeros, pausas e minudencias que se descasam da indole
peninsular, o documento ficou desconhecido, apesar da traduco do
historiador francez.

E, no obstante correr ahi uma verso miserrima do _Portugal
pittoresco_, o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso,
porque no tem, no torneio e na phrase, algum vestigio do dizer
portuguez de 1579.

E, todavia, no posso j duvidar que Martim Fernandes, sapateiro, e
Antonio Pires, oleiro, no 1. de junho de 1579, estando os fidalgos
reunidos na igreja do Carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei D.
Henrique, entraram ruidosamente na assembla, e proromperam pedindo que
lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo de Lisboa.

E no duvido, porque sei o que foi a liberdade portugueza at que D.
Joo IV comeou de a jarretar  feio do seu genio despota, e porque
tenho presente o discurso do mestre sapateiro, escripto ainda no mesmo
papel onde lh'o deram para o decorar.

E como  bem cabido mostrar o original em face do retraduzido no
_Portugal pittoresco_, sob palavra do snr. Ferdinand Denis, aqui os
defronto, e ponho como advertencia aos que aceitam, sem critica, a
historia que nos vem de torna-viagem.


ORIGINAL

Senhores. Temos sabido que algumas pessoas principaes e nobres
descuidadas de suas obrigaes e honras fallam de fazer cousas contra o
bem commum e seguridade d'estes reinos, a que determinamos de acudir
como bons portuguezes, e lembrados do que fizeram os moradores d'esta
cidade no tempo d'el-rei D. Joo I e d'outros reis, por tanto pedimos a
vm.ces como a cabeas e membros principaes d'esta republica que nos
ajudem e que no percam sua honra e direito por parcialidades nem
preitos particulares; que sejam vm.ces certos que para uso e para
defenso de nosso direito e castigo dos inquietos portuguezes estamos
promptos com 20:000 homens d'esta cidade e seus termos, os quaes
ajuntaremos em duas horas sendo necessario, e poremos fogo s casas dos
que j agora comeam de fallar e tratar contra o bem commum e socego
d'estes reinos, o que no poremos em execuo em quanto esperamos
castigo e remedio por outra via.

E pareceu-nos que deviamos de fazer esta lembrana n'este estado e nos
outros dous para com mais seguridade tratarem todos do bem commum e
quietao d'estes reinos sem receio de fora nem violencia nem outros
medos cautelosos e prejudiciaes, e para se no ouvir mais d'aqui por
diante os que impossibilitam tudo sem lhe darem nem procurarem remedio,
os quaes todos se deviam e devem de haver por mais suspeitosos.


VERSO

Senhores. Consta-nos que varias das principaes pessoas, e alguns nobres,
esquecidos das obrigaes a que esto ligados, e fazendo da honra pouco
cabedal, usam de uma linguagem, e praticam actos contrarios  segurana
d'estes reinos. Como bons portuguezes estamos decididos a dar remedio a
este mal, porque nos lembramos do que fizeram os habitantes d'esta
cidade no tempo de D. Joo I, e no de outros monarchas. Rogamos a vossas
senhorias, como primeiras pessoas da republica, que a ajudem a
sustentar; e que no percam a sua honra e direito, dando orelhas 
parcialidade, ou olhando a circumstancias particulares de alguns
individuos. Podem vossas senhorias ficar certos de que para a defensa de
nossos direitos, e castigo dos portuguezes versateis, estamos promptos a
levantar-nos com 15 ou 20:000 homens d'esta cidade, e seus arredores. Se
fr necessario, duas horas bastaro para os reunir, e iremos incendiar
as habitaes dos que comeam a fallar e a obrar contra o bem geral. Com
tudo, no recorreremos a taes meios em quanto tivermos esperana de
obter remedio e castigo por outro modo. Talvez conviesse lembrar isto ao
estado da nobreza, assim como aos dous outros estados, para que toda a
assembla trate com plena segurana, do bem commum, e da tranquillidade
d'estes reinos, sem temor da fora, violencia, e de meios preventivos ou
damnosos. Esperamos que mais se no attender  voz dos que julgam tudo
impossivel, e que no querem dar nem procurar remedio a semelhantes males.


O traductor, como se viu, no lhe soffreu o melindre que os dous
populares tratassem de _vossas-mercs_ os fidalgos, _safados_ (duas
vezes)  cobarde ignominia de Alcacer-quibir: deu-lhes _senhoria_. Ah!
bom relojoeiro de pag. 57!




A DANA


Gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes.

Ha lendas medonhas, casos que eriam os cabellos, castigos infligidos a
danarinos. Leiam na _Floresta_ do padre Manoel Bernardes a lenda dos
_Bailarinos_. Pois ainda ha passagens mais escandalosas e funestas, por
causa das danas; mas j no ha quem as aprege com virtuosa ira. No ha
ninguem que, ao outro dia de um baile, clame na local ou no folhetim que
um scelerado ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem danava, e
dizer-lhe: _vr-te e amar-te foi obra de um momento_. Sabem todos que as
phrases assim ardentes queimam as senhoras; mas ninguem prope que os
estylistas d'esta fora sejam chamados ao commissariado; ou que as damas
sujeitas a ouvil-os se vistam de amiantho, se Deus as no fadou com a
virtude incombustivel de salamandras.

Verdade  que o transigir com os maus costumes vem de longe. Temos o
exemplo de exemplares vares a quem competia pr cobro aos bailes. Aqui
tenho eu um _Tratado dos principaes fundamentos da dana_, publicado em
1767, pelo mestre d'aquella viciosa pantomima, Natal Jacome Bonem, e
licenciado pelo _santo officio_, e pelo _ordinario_! Fr. Caetano de S.
Jos, eremita augustiniano, doutor em theologia, provincial da ordem,
etc., foi o encarregado de censurar officialmente o manuscripto do
_Tratado da dana_. Se este frade estivesse no prumo da sua misso,
deixava-se cahir, com todo peso de sua gravidade, sobre o mestre Natal,
e esborrachava-o e mais ao incendiario manuscripto.

Com bastante pejo das fraquezas d'este proximo, e para escarmento de
futuros frades censores de futuras danas, reproduzo a opinio de fr.
Caetano de S. Jos:


_No me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se
no estendeu para a arte de dana nem ainda a curiosidade dos meus
estudos: sei que algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da
disciplina ecclesiastica uma bem severa reprehenso e merecida
prohibio fundada na solemne profisso que fazem os que pelo sacramento
da regenerao se formam membros vivos de Jesus Christo e filhos
espirituaes da santa Igreja; no ignoro tambem que outras tem o justo
louvor com o exemplo de um rei santo como David, danando na presena da
arca do testamento. Se os preceitos da presente arte, expostos na
verdade com toda a modestia se ordenarem para o uso d'estas e outras de
semelhante decencia e honestidade, nem sero oppostos  santidade dos
costumes, assim como o no so aos pontos essenciaes da nossa santa f.
 o que posso informar_, etc.


Ento que  o que informou o frade? Parece dizer que, se esta _Arte de
dana_ leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o santo rei David
danava adiante da arca, ento sim, publique-se o livreco; mas, se o
author intenta regambolear as tibias de suas discipulas em gavotas,
cirandas e outros bailados lubricos, n'esse caso o santo officio
delibere o que lhe parecer.

Ora eu j vi, em Braga, danar o santo David. Era um _cancan_ a s, um
requebro desnalgado, um alar de perna bruta e rija que, se apanhasse a
arca, daria com ella na cara do sol.

Voltando ao livro do francez Natal Bonem, acho n'elle excellentes
preceitos de educao que seriam, em substancia e frma, bem cabidos
n'um dos compendios do snr. Joo Felix Pereira. O cap. VI, por exemplo:
_Do modo que as senhoras devem andar, e se deve apresentar._ (V-se que
era mais forte em dana que em grammatica). Ahi vai o capitulo na
integra.  lyrico, delicado e muito de aproveitar:


No duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de no
saber ensinar, seno aos homens; seno mostrra zelo, e atteno para a
instruco do bello sexo: ellas, que so a alma da dana, e que lhe do
todo o brilhante, que ella tem; e parece que a natureza a reveste de
mais graa; porque sem a presena das senhoras a dana no est to
animada; so ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulao, que
se encontra entre ellas, e em ns, quando danamos ambos, principalmente
com aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais
agradavel em uma companhia, que de vr danar duas pessoas de um e outro
sexo com seriedade; que de applausos, e que de gostos para os
circumstantes.

Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que
tco igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexes so
necessarias para as senhoras, ellas devem voltar os ps para fra,
estender os joelhos, ainda que muitas pessoas pretendem, que no se lhes
conheam estes defeitos, mas por tirar este engano, principalmente para
as senhoras moas, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o no faam;
no quero seno o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho
de vestir, e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem
andar, que est escripto para os homens, e se encontraro com outro ar,
e conhecero, que de ter a cabea direita, o corpo fica com maior
firmeza, e os joelhos estendidos, os passos so mais seguros; tenho
feito uma reflexo, que me parece muito justa sobre o modo de saber
levar bem a cabea, e  que uma senhora por muito engraada, que seja em
seu modo de levar a cabea, far julgar differentemente de si, v. g. se
ella a levar direita, o corpo bem posto, sem affectao se dir; eis
aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir com
negligencia, se lhe chamar preguiosa; se a deixa cahir para diante;
bizonha, e se a leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e
outras muitas cousas, que no escrevo por no ser proluxo: desejo que
todas as senhoras no faam o modo facil, que se vem descrever, para que
no ciam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.

Para bem andar  preciso ter a cabea direita, os hombros baixos, os
braos retirados para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as
suas mos uma em cima da outra, com um leque na mo, e principalmente
sem affectao.


No escrevia em estylo apocalyptico.

      *      *      *      *      *

Este francez que tanto polira e lapidra o bruto diamante das damas
lisbonenses da crte de D. Jos I, tinha uma filha esbeltissima,
engraada de todos os amavios francezes, e muito esquiva aos amores dos
discipulos de seu pai, at  hora fatal em que o p, n'um difficil passo
de minuete com o deus frecheiro, lhe escorregou em ladeira de flres,
e... ella l vai com o conde-baro d'Alvito embrenhar-se nas florestas
de Cintra.

O mestre de dana bravejou, pediu vingana s leis, ao direito
internacional, ao ministro omnipotente Sebastio Jos de Carvalho. O
ministro e as justias sorriram, sob capa, do atribulado danarino. O
marquez de Pombal, esse ento era to caroavel de francezas, que ainda,
aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a uma, que por
signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade. Veja _Historia do
reinado d'el-rei D. Jos_, pelo snr. Soriano, tom. II, pag. 649 e seg.

Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando, sobre a
affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos
enviavam uns aos outros:


AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS MINUETES

    Toda a terra falla e diz
    que roubra assim  toa
    certo Pris de Lisboa
    uma Helena de Paris;
    e que o rapto vingar quiz
    seu pai que todo se abraza
    por lhe levarem de casa,
    ainda em pea, a melhor joia;
    mas, porque no ardeu Troya,
    ficou o velho uma braza.

    A Pris lhe foi forosa
    esta eleio por estrella
    no s como grega bella,
    mas como deusa formosa.
    Como a viu to carinhosa,
    to bonita, to astuta,
    to gordita, to enxuta,
    Pris lhe deu a ma
    e ella gosta da fruta.

    Etc.

O poema d'aqui por diante leva a crueza at ao despejo da phrase. Que
tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro,
injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irriso
obrigava-o a transpr as fronteiras com o corao despedaado! Reinava
D. Jos I, o amante da marqueza de Tavora, ento viuva, e j consolada
da perda do marido, que o amante lhe mandra degolar e queimar no
cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O
erario a trasbordar de milhes e os subterraneos de lagrimas!

Comecei com danas e acabei com lagrimas.  no que as danas param
ordinariamente. Ou ellas no fossem inveno do diabo, como diz o meu
oratoriano Bernardes.




FIM


O n. 12 finalisa a serie das NOITES DE INSOMNIA. O favor publico
esquivou-se a proteger esta empresa. Parte dos artigos publicados
desagradou  maioria dos subscriptores queixosos do rano de cousas
antigas com que eu pejava as paginas de uns livrinhos mais acommodados
ao recreio que  instruco de alguns leitores mais ou menos ignorantes,
se os ha.

Verdade  que eu no tinha promettido 100 paginas futeis e risonhas por
mez. L est no 1. numero um proemio claro e modesto. Afoutamente me
desvaneo de no haver deslisado do programma a que me obriguei. _Esta
serie de livrinhos--escrevi eu--ha de ser uma cada com elos de bronze
rijos e toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradios. O bronze
 a poro prestadia do opusculo_, etc.

Enganei-me.

As paginas arguidas de enfadonhas me pareciam a mim as melhores e mais
estimaveis, se os que as leram as ignoravam; todavia, se eu dei como
novidade em historia o que era j notorio ao leitor enfastiado, o seu
tedio  natural e racional. Porm, se me replicam dizendo que se
dispensam de saber as pulvereas velharias que eu lhes contei, augmenta a
justia do seu queixume; porque ninguem deve directa ou indirectamente
offender a ignorancia de outrem.

Pelo qu, a todos peo desculpa, e a meu favor entremetto a illustre
pessoa que me induziu a salvar da obscuridade lances da historia e dos
costumes portuguezes, que se me prefiguraram prestantes na concatenao
de factos, desligados por mingua de documentos desconhecidos. O mestre
venerando que me moveu a no ser de todo em todo frivolo nas NOITES DE
INSOMNIA chamou-se n'este mundo D. frei Manoel do Cenaculo; e as
palavras que me seduziram esto impressas e rezam assim:... _Mil
occorrencias funestas tem precipitado em um abysmo de perda profunda,
escura, irrevogavel os trabalhos litterarios, e ainda a simples memoria
de muitos vares sabios. Abateram esses miseraveis tempos as foras da
curiosidade, que poderia hoje augmentar a estimao da bibliotheca
lusitana, escondendo e perdendo as nossas noticias. Este  o defeito de
que ainda hoje se pde formar uma justa queixa, e que fazem ignorados na
verdade innumeraveis documentos, capazes de acrescentar a dignidade 
nossa historia. Isto  tambem o que me excita e commove a rogar
instantemente aos meus patriotas por tudo quanto  capaz e digno de no
se desattender sem affronta, que se animem a publicar quanto nos faa
gloria, e a mostrarem cada vez mais illustre a face dos nossos annos
antigos._

O douto prelado no conhecia _os seus patriotas_, e eu, que to arredado
vivo d'elles, ainda os conhecia menos.

Na minha pequenissima livraria ha muitos ineditos cuja publicidade no
seria despecienda aos porvindouros historiographos. Ahi ficam. Meus
filhos, se tiverem juizo, e armarem  benemerencia dos seus
conterraneos, que os vendam a peso.

No obstante, alguns publicistas receberam benignamente as NOITES. Entre
esses, reala com particular authoridade e voto o snr. Antonio Augusto
Teixeira de Vasconcellos, protector caroavel e affectivo de quantos
n'este paiz grangeam po ou gloria nas lidas litterarias. Sei quanto me
cumpre descontar no merito da obra elogiada, cortando tambem pela
demasiada benevolencia do escriptor eminente; mas, cerceado o que ahi
houve de favor, ainda me sobeja muito para gratido e ufania.

Ao snr. visconde de Ouguella agradeo com mais sentimento que expresses
as paginas formosissimas que interpoz n'estes opusculos. O CARRASCO,
apenas comeado, se aqui fosse concluido, viria a dar crescido valor a
esta colleco; entretanto, muito grato me  ter excitado a curiosidade
das pessoas intelligentes para que o visconde de Ouguella se obrigue a
escrever e publicar um dos livros mais assignalados de independencia
austera e sentimentos generosos, que ho de ter galardo, quando os que
pelejaram sob o labaro da justia forem chamados a testemunhar no pleito
que segue o seu arrastado processo entre opprimidos e oppressores.

      *      *      *      *      *

Ao despedir-me dos poucos subscriptores que me apertam a mo com estima
e por ventura com saudade, vou fazer-lhes uma revelao que pde
desairar a minha vaidade de escriptor, mas que muito faz em honra do
editor das Noites. Elle soube que a opinio publica desmentia, dormindo,
o titulo da obra. Sabia que a insistencia na publicao lhe era
prejudicial e desesperanada de tardio reembolso. Em fim, pagava
despendiosamente e silencioso a minha dce illuso de cuidar que entre
Ponson e Escrich haveria lugar para estas brochuras nas estantes ou nas
canastras de tanta gente que sahiu triumphal e erudictamente do seu
exame de instruco primaria.

Meu prezado snr. Ernesto Chardron, obrigado  sua rara e fina delicadeza!

Se as Noites lhe foram ms, eu d'este leito de rheumatismo lh'as envio
boas e do corao.


FIM DO 12. E ULTIMO NUMERO


Notas de transcrio.

No texto original existem alguns caracteres que no tm representao no
sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais.
Os marcadores usados nesta verso electrnica foram os seguintes:

[=e] Resprenta um e com um mcron por cima e que parece ser uma
abreviatura do som "em".

[=y] Resprenta um y com um mcron por cima e que parece ser uma
abreviatura do som "im".





End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
no pde dormir. N 12 (de 12), by Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 12 (DE 12) ***

***** This file should be named 28207-8.txt or 28207-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/2/8/2/0/28207/

Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
