The Project Gutenberg EBook of O Conde de S. Luiz, by Tomaz de Melo

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Title: O Conde de S. Luiz

Author: Tomaz de Melo

Release Date: May 22, 2009 [EBook #28928]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Notas de transcrio:

O uso do hfen nesta obra  bastante inconsistente; o mesmo se passa
com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" e "entregra";
"ante-mo" e "antemo"; "dirigindo se" e "dirigindo-se". A grafia no
foi harmonizada, por no ser possvel determinar a inteno original do
autor.

Nesta edio em texto simples, o texto em negrito foi colocado entre = e
o texto em itlico foi colocado entre _. O texto em superscrito est
colocado dentro de ^{ }.




[Ilustrao: Capa]

Biblioteca Portuguesa Ilustrada

D. TOMAZ DE MELO

O CONDE DE S. LUIZ

LIVRARIA BARATEIRA

34, Rua do Duque, 36--T. Trind 1264--LISBOA




O CONDE DE S. LUIZ


[Ilustrao: Publicidade  "Bibliotheca Portugueza Illustrada"]

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

SOCIEDADE EDITORA

LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 * TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47




BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA


*Nova colleco economica a 200 ris o volume*

Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustraes originaes de pagina

       *       *       *       *       *

 esta bibliotheca exclusivamente constituida por livros nacionaes, dos
nossos melhores escriptores, custando cada volume de cerca de 250
paginas, em magnifico papel, com 5 illustraes originaes e
expressamente feitas para esta publicao, apenas *200* ris, ou *300*
ris, bellamente encadernado em capas especiaes a cres.


ROMANCES PUBLICADOS

*Os Fidalgos do Corao de Ouro* (Chronica do reinado de D. Sebastio)
por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. 400 rs., enc. n'um s, em capas
especiaes, 500 rs.

*A Queda d'um Gigante*, (continuao do antecedente). Um vol., broc. 200
rs., enc. 300 rs.

*A Baroneza de la Puebla*, (romance do seculo XVI, continuao dos 2
anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.

*Estandarte Real*, (concluso dos romances anteriores). Um vol., broc.
200 rs., enc. 300 rs.

*Lio ao Mestre*, por Teixeira de Vasconcellos. Tres vol., broc. 600
rs., enc. n'um s 700 rs.

*A Mascara Vermelha*, (romance historico) por M. Pinheiro Chagas. Um
vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.

*Juramento da Duqueza*, (continuao do antecedente) por M. Pinheiro
Chagas. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.

*Noites Perdidas*, livro de contos, de Betamio d'Almeida. Um vol., broc.
200 rs., enc. 300 rs.

*Esboos de apreciaes litterarias*, de Camillo C. Branco. Um vol.,
br., 200 rs., enc. 300 rs.

*Conde de S. Luiz*, por D. Thomaz de Mello. Um vol. br., 200 rs., enc.
300 rs.

*A PUBLICAR:*

*Duello nas sombras*, por A. F. Barata,--*Annel mysterioso*, de Alberto
Pimentel, etc., etc.

ASSIGNATURA PERMANENTE




BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA

X

D. THOMAZ DE MELLO

O CONDE DE S. LUIZ

ROMANCE ORIGINAL

SEGUNDA EDIO

[Ilustrao: Logtipo da sociedade editora]

  LISBOA
  EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
  _Sociedade editora_

  LIVRARIA MODERNA  ||  TYPOGRAPHIA
  _R. Augusta 95_   ||  _45, R. Ivens, 47_

1903




I


Era no anno de 18*** N'um palacete proximo  Calada de Santo Andr,
vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de
Mendona, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fra em tempos
de pouco saudosa memoria alcaide-mr da cidade de * * *

Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregra a sua
filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afra joias e outros objectos
de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro
de Mendona seu primo co-irmo, moo serio e de bom porte, e, alm
d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes s que o alcaide-mr lhe
legava.

Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por
ultimo, no teve mais remedio seno acceder aos seus desejos.

Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se
com Alvaro de Mendona na freguezia dos Anjos.

O pobre velho parecia apenas aguardar a realizao d'este ultimo desejo
para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos
que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava
sem pae.

Manuel Pires de Athayde no se havia enganado na escolha; Alvaro de
Mendona era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade
tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi
sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.

Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as
venturas, concedeu-lhes a maior que pde dar aos que deveras se amam
sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espao do seu
domicilio: um filho.

Manuel--tal foi o nome do recemnascido--de dia para dia se tornava mais
robusto. Era um gosto vel os  tarde por sobre os canteiros do seu
pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual
dos dois alegraria mais a creancinha.

Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta
e quatro.

Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem
felizes?

Pelo espao de doze annos, trabalhando mais do que as foras lh'o
permittiam, afim de melhorar o futuro da creana, correu a vida de
Alvaro de Mendona, sem que uma s vez podesse D. Marianna deixar de
levantar as mos aos cus, para agradecer  Providencia o esposo que lhe
havia concedido.

Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua
felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia,
sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores
patriarchaes.

No puchem pelo rapazola se o no querem ver no cemiterio, dizia-lhes
elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu
pae no me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes
no estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito;
aprendi a grammatica portugueza de _fio a pavio_ em menos de um mez. No
percebia bem o que dizia,  verdade, mas sabia tudo de cr, que era at
um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do
mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que
no estudasse mais.  certo que estou hoje sem saber coisa alguma,
porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude,
que  o principal.

A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexes, Manuel continuou a
frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e
condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel
merecimento, todos  uma se ufanavam em lh'o proclamar.

Aos quinze annos j tinha feito os exames de philosophia e latinidade.

Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendona, coroada
pelos louros de seu filho, a Providencia, como se j estivesse fatigada
de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o
seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.

D. Marianna de Mendona, ainda que dotada de intelligencia clara e
reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel
de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas
entregue aos cuidados de sua casa.

Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva
em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a
educao de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos,
continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os
prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se no canava de
lembrar  viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno
continuasse no collegio.

Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva,
distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e
honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiana, o
que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.

Corriam varias edies cerca da sua mysteriosa individualidade,
chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o
commendador no passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos
dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praa publica;
isto tudo, j se v, proferido em voz baixa, depois de com elle terem
gasto os joelhos das calas, nas respeitosas zumbaias que diariamente
lhe dispensavam.  que j n'essa epocha, a raa de commendadores que
hoje invade a capital comeava a manifestar-se com toda a fora do seu
prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente
o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e
todos em sua presena disputavam entre si, qual deveria ser o seu
primeiro thuribulario.

Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa
esphera, de quem tinha duas filhas, porm que se no atrevia a
apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco
distinctas.

A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porm o faustuoso luxo
com que se tractava levava a suppr que enormes rendimentos havia
herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazes nobiliarios fariam
estremecer de inveja qualquer puritano.

Uma noite em que D. Marianna de Mendona se queixava amargamente de um
certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse
conveniente entregar a administrao da casa ao commendador, se elle
porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a
tal respeito.

A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e
falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de
Araujo tinha geral procurao para arrendar, subrogar, ou alienar
qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o
futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto
para elle como se fosse seu proprio filho.

No tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condies da
procurao. Uma fazenda que Alvaro de Mendona herdra por morte de uma
tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel
Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fra de um
excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava,
porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas
mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo
as suas observaes agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo,
assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.

Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer
terreno, por mais dolosa que fosse a venda?

O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo
deveria exceder dez por cento.

Quasi todos deram os parabens  viuva pelo bom negocio que vinha de
fazer, attendendo no s  grande differena do rendimento, como tambem
a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta
conservando uma s arvore.

Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais
pequena razo de se arrepender da plena confiana que tinha depositado
no seu administrador.

Por este tempo, Manuel, que havia sado do collegio, chegou se a sua
me, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se
dedicar  vida commercial, para que se sentia com decidida vocao.

Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre me
ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que j
possuia na sua patria: a riqueza.

Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de ris,
graas  herana que Alvaro de Mendona havia recebido por morte de sua
tia, e s economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.

--Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua me, poders dedicar-te ao
commercio, mas aqui em Lisboa.  verdade que no tens um unico parente
que te proteja, mas, graas a Deus, temos meios. Partires, e
deixares-me, filho, acho que ser uma grande loucura, ajuntou ella,
arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, fars o que te
aprouver. No quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que
te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.

N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe
os desejos de Manuel.

--Que v, respondeu elle rapidamente. Seu filho  activo, audaz,
intelligente e emprehendedor. Pde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser
um grande homem. No tenho filhos, acrescentou, porm se um dia os
tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resolues, se ellas forem
justas como as de Manuel.

--Mas que preciso tem elle de expr a sua saude n'um clima to
perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos no ser o
sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?

-Porm se seu filho  ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo
seu trabalho,  justo que sua me lhe impea a sua determinao? Faa o
que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o,
porque Manuel  bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito
trabalhador.

--E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze,
vinte... que lhe parece?

--Vossa excellencia est louca! acudiu apressadamente o commendador.
Entregar contos de ris a um rapaz da edade de seu filho! Lanar Manuel
n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se
perder! Nem por sombras! Quaes contos de ris! Com seis moedas
desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna
para cima de dez mil libras! Contos de ris! S essa me faria rir! A
passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendao que
para ahi lhe entregarei, so mais do que o sufficiente.

--Mas no me disse v. ex. que meu filho era um rapaz de juizo, honesto
e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe
pertence? No  elle o meu unico herdeiro?

--Far vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo
quanto possue, faa-o; est no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mos.
Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o.
Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto  apenas o seu bem
estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em
seu proveito,  senhora das suas aces, pde fazel-o, que desde este
momento me considero desligado de todos os meus encargos.

Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil
de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a
obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle
homem que, segundo a opinio de todas as pessoas que frequentavam a sua
casa, havia sido um anjo salvador.

Dois annos depois da sua administrao, os vinte contos de ris, que
rendiam  viuva cem mil ris por mez, haviam subido a um rendimento de
um conto e seiscentos por anno, graas  applicao que elle dera a
esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que
mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razo
teria ella para o arguir de mau administrador?

Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse
cegamente a quanto elle lhe impunha.

No dia immediato, Manuel chegou-se a sua me, afim de saber o que se
havia passado entre ella e o commendador.

--Sinto deveras que me queiras abandonar, porm se essa  a tua vontade,
vae, e que as minhas oraes, acompanhando-te sempre, te possam salvar
de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperanada em que
o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has
quanto necessitas.

--Nunca pedi contas nem a minha me nem ao sr. commendador, mas
supponho que no faro grande differena nos capitaes que devemos
possuir quatro ou cinco contos de ris para me estabelecer, mas ainda
assim, se minha me suppe que essa quantia  muito avultada, contentar
me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. 
tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no
olhar turvo e entristecido de D. Marianna.

No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o
que passra com Manuel.

Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que
seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a
essa de que tinham falado na vespera, repetindo porm, que estava no seu
direito de fazer o que lhe aprouvesse.

Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida,
em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um
raio de valor.

A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram
sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforos seriam
inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia
que elle lhe havia, seno pedido, pelo menos indicado.

No havia remedio! Era foroso entregar esse dinheiro no momento em que
lhe fosse exigido, para que se no realisassem certos boatos que lhe
tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas
gentilezas seriam desmascaradas!

--Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns
instantes de reflexo. Que quantia quer?

--Quatro a cinco contos de ris. Como tudo o que possuo  em dinheiro,
no haver duvida em os receber por estes oito dias.

--Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de
animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; no tenho mais trabalho
do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande
armario de ferro.

--Posso portanto ficar tranquilla?

--Pde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraa de seu
filho. Conheo o Rio de Janeiro, e sei o que pde succeder a um rapaz da
edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.

--Ser o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.

Quem, momentos depois, commettesse a indiscrio de o espreitar, no
pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua
perturbao, que os trinta contos de ris em que consistia a fortuna
d'aquella familia no estavam to seguros quanto ella os julgava.

Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel,
sua me dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco
contos de ris, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo
ainda em que to grande quantia seria prejudicial a um moo inexperiente
como seu filho.

--J disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D.
Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.

--Visto no haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia
ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se
serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro,
tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria
de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O
commendador, depois de contar os maos de notas de dez moedas, poz junto
de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.

N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.

--Se no fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem
sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe
administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e
sete contos de ris que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse
buscar, porque grande parte d'esse dinheiro est em ouro e em prata, com
que vossa excellencia no poderia. No o fao, porque alm de todas as
outras circumstancias, affeioei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse
meu proprio filho, como j uma vez lh'o disse.

Se algumas desconfianas comeassem a agitar o espirito da viuva, todas
se desvaneceriam em presena d'esta scena. Havia uma dupla inteno nas
palavras do commendador: a primeira inspirar  viuva profunda confiana
no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos
cinco contos de ris. A primeira saiu-lhe bem, a segunda no foi to
favoravel.

--Ento quando  a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.

--manh, s duas horas da tarde.

--No me comprometto a ir ao bota-fra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao
comeo da estrada da sua infelicidade.

--Ser o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre me, pegando nos
maos de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.

Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna
para uma sege, e seguia caminho de casa.

No dia seguinte, s duas horas da tarde, desprendendo se dos braos de
sua me, entrava Manuel de Mendona na galera _Boa Ventura_, e ao cair
da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: me e patria.

Acautele-se do commendador foram as ultimas palavras que Manuel
dissera a sua me.

Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que
lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que
esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa
commercial.

       *       *       *       *       *

Assim passaram mais oito mezes.

As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a
ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com
que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do
commendador comeassem a proclamal-o homem de evidente credito.

Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua me
eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os
seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.

Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir
encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mo
do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informaes a seu
respeito, sendo a primeira no se chamar Felix Justino de Araujo, mas
simplesmente Domingos de Andrade.

Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que
fra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus
receios.

N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao
vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.

--Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa
excellencia de que desejo levantar da sua mo os capitaes que
honestamente me tem administrado. Se no fosse o desejo de ir ver meu
filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada
administrao do sr. commendador.

--E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse
dinheiro? No m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores
lucros do que estando na sua mo? Na vespera de seu filho partir para o
Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de ris, que me
exigiu, no me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa
excellencia no comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja
empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil
devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente no succede assim,
pelo que dou graas a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por
qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mos os seus capitaes,
e no tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha
senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e
levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas aces,
escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e
bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os
seus fundos, e quanto antes.

Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era to
firme, to altivo e to seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a
convencer-se de que era uma ingratido o que vinha de fazer.

--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao
advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento,
que no chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e
seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de ris,
vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para
cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho
empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios
para fazer as minhas transaces? Escusado ser dizer que no. Para que
o fiz? Para o seu bem! Boa paga, no haja duvida. Que esta lio me
sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna,
rogo a vossa excellencia que manh, sem falta, at s onze horas da
manh, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia
vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mo.
Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me
daria.

--manh aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna,
olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua
opinio.

--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do
commendador.

--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem  porta da rua.

--Um homem honesto, ferido pela ingratido que acaba de receber,
respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle,
faa vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua
casa.

No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em
casa de D. Marianna de Mendona.

s onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao
escriptorio do commendador.

Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.

--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais
receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.

--Que  um homem ferido pela ingratido, e que anda a tratar de levantar
dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.

Momentos depois comearam a apparecer varios individuos. O physionomista
que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de
receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de
Mendona.

D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo no tinha apparecido.

--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva s cinco horas da
tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia
alvar.

Que  um refinado ladro que nos deixa a todos desgraados! accudiu um
individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.

O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio.
Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como
D. Marianna de Mendona, o haviam depositado nas suas mos.

Cinco dias depois D. Marianna, com a razo perdida, entrava para a casa
dos doidos no hospital de S. Jos.




II


Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio,
freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre
de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos,
chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que
todos os visinhos o detestassem. Para elle, no havia domingos nem dias
santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua
janella encontrava-se sempre fechada.

O cultivo do microscopico jardim era a unica distraco que n'esses dias
se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o
pequeno canteiro de hortalia, que duas horas depois tinha de fazer as
delicias da refeio domingueira. No armario da cozinha, esperava desde
a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava  sua meza, sobria sempre,
porm honradamente disfructada com o suor do rosto.

Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa,
assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer
a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.

Martha, a preguiosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava,
escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e
gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.

Toda a visinhana da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a
beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; at uma
sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos
verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel
que toda aquella gente no tivesse grande peccado na consciencia,
attendendo  constante recluso em que vivia. O sacerdote, que conhecia
o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e
contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiana que
depositava na virtude d'aquella familia, que no teria duvida alguma,
embora se sacrificasse a pr fra de casa a velha ama, a admittir Martha
a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mos as chaves da dispensa,
e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta,
contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura
alguma das amigas lhe falava a seu respeito.

Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava
um mysterio para toda a visinhana, passando apenas despercebida da
familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A
apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa,
porm nunca a sua mo se estendeu a pedir o obulo da caridade.

A velha costumava sair todas as manhs a fazer as compras. Um dia a
porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, no
apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, no faltou quem lhe
batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor
chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta.
Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a
febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia
da Lapa. Atterrados, no houve quem quizesse approximar se da enferma.
No tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhana. No
momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas
ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao
hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e
atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.

--Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceio.

--Levar esta gotta de caldo  visinha, respondeu Martha ao previdente
regedor.

--No consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela
febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.

--O que vocemec no me pde impedir,  que eu pratique uma obra de
caridade; e demais, veja se est no seu direito de mandar para o
hospital uma pessoa que se pde curar em sua casa.

--Essa mulher no se pde tratar em sua casa, no tem familia.

--E quem lhe disse ao sr. que no tem quem a trate? acudiu Martha,
afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia
Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem
oppr-se?! Creio que no. Com sua licena, sr. regedor; e entrando
animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraada, extorcendo-se
em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado
sobre uma commoda.

Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se
mutuamente sem proferir uma s palavra.

--Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns
instantes de reflexo. Se ella fosse minha filha ou coisa que me
pertencesse, por certo que no havia de l entrar. Eu c  que no tomo
nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.

Instantes depois, saa Martha de casa da velha.

--Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o
regedor. Pde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma
pobre mulher, bem v que no a devemos deixar morrer ao desamparo. E
dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia
Marianna.

--V  botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo
geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de
ser pobre, no devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle,
secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas
proprias.

O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e
resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o
havia mandado.

No tardou muito que  porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de
curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado
nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a
estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em
annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de
todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceio convenceu o auditorio,
repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma
pobre, no a deviam deixar morrer ao desamparo.

N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.

--A sua filha est doida de todo! diziam uns.

-J tres vezes que vamos avisar a sr. Balbina para que a retire
d'aquella casa e ainda no houve meios, acudiu uma ajuntadeira de
calado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhana.

--Que loucura! que loucura! dizia a capellista.

--Parece que est a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente
a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos
Ayres, quando os seus affazeres no lhe permitiam conversar com o Todo
Poderoso por conta propria.

--Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvar,
respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de
tudo, um certo receio pela vida da criana que estremecia.

--Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este
momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta
de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.

--Pois olhe, sr. Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha,
no lh'o consentia.

--Cada qual tem o seu modo de pensar, sr. Margarida, e Deus fez-me
assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se
poder fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse
recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia
desapparecido.

--_Av Maria, cheia de graa, o senhor  comvosco, benta sois vs_,
dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo no  seno
para se fazer valer na visinhana.




III


Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever,
appareceu o medico.

-- alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.

--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.

O lance era fatal, no havia que hesitar. Amaldioando n'esse momento a
m estrella, que o conduzira quella posio, com as faces lividas de
susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.

Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma frico nos joelhos, Martha,
a filha do operario, debalde tentava chamar  vida essa que, n'um olhar
turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.

Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma
tentava fazel a aspirar o contedo do vidro. De p, contemplando este
doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.

Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e
voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma vla, afim de melhor
analysar a vista da moribunda.

--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa;  de suppr
que no a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle
cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.

Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, comeou de applicar lhe os
que o seu estado exigia.

--Esta senhora pertence  sua familia? ajuntou o medico voltando se para
Jeronymo.

--No, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta
desgraada; e se no fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o
hospital.

--Se a teem removido d'este leito, ao chegar l seria um cadaver,
retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.

--Parece lhe que poderemos ter esperanas? perguntou Martha,
approximando se do leito.

--Veremos  noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e,
despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa
na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.

Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro
onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de
palhinha, completamente estragadas nos assentos.

Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder,
nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a
casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no
que podesse os incommodos da enferma.

--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr. Margarida, ao ver os lenoes
alvos como a neve, que a mulher do operario levava no brao. Estar
estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco pde viver! No
era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr. Balbina, uma pobre de
Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital.
Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?

--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr. Margarida; e demais, cada qual
que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto
com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da
capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam
Martha e seu marido.

A velha havia recobrado a razo, e sorria-se brandamente para a filha do
operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a
Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de
suprema angustia.

Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro
enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe
livrassem sua pobre filha.

Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada.
As horriveis dres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco,
e  face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.

Nem uma s das visinhas, approximando se  sua porta, foram pelo menos
indagar o estado da sua doena.

s sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma
estava livre de perigo.




IV


Oito dias depois, com grave assombro da visinhana, a tia Marianna,
envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo  janela da sua casa.

Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua
organizao de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa
mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes
d'uma doena, que tanta gente nova e robusta ceifra n'aquellas
immediaes.

Todos viam na sua convalescena, comeando pela beata, um favor da
Providencia; e nem uma s bocca se abriu para dizer, quanto a dedicao
da pobre Martha ajudra aquelle verdadeiro milagre.

Almas vis e denegridas que no comprehendeis o bem, como poderieis
soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos coraes no
existe mais do que a inveja e a podrido!

Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o
corao, que se entrega aos deleites da caridade.

A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve
produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela
pobresa, no tympano do avarento.

Ninguem da visinhana se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem
repartira o seu jantar com a infeliz; porm, quando a viram de p,
salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora  familia do
operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as
costas para no ouvirem os elogios que a velha do corao lhe
prodigalizava.

Desde esse momento, a pouca affeio que todos consagravam  familia de
Jeronymo, tornra-se em decidida averso. Comeando pelo sr. regedor, e
acabando na sr. Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella
pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma
se importava a no ser dos seus arranjos domesticos.

Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de
Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando,
acompanhada por sua me, saa aos domingos para ir  missa da Lapa, as
visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu leno
estava mal engommado, manh porque o seu capote de panno azul j
comeava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos
continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua me,
por tudo quanto havia, que no a obrigasse a ir  missa das onze.

--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava s vezes o sr.
Jeronymo. O que elles tem  inveja do teu comportamento. No tardar
muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem
render um par de moedas, vers ento como lhes hei de fazer estalar a
castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom
cordo de seis moedas ao pescoo.

--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. No
tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me d como se me
deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.

--Pois tambem no tardar muito que lhe faamos algum bem, respondeu o
mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. manh
tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma
esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de
obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no
gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas
suas visinhas.

--Muito estimarei que isso no fique no rol dos esquecimentos, respondeu
a criana sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da
morte,  mister no a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de
fome.

--De frio no morrer ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro
de engommar sobre o descano. Ainda esta manh lhe dei o capote que
punhamos no leito.

--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos
frio...

--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa
Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe
calcular o calor.

--Seja o que vosss quizerem, que eu, pela minha parte nunca as
reprehenderei por qualquer aco boa que praticarem; e j que tivemos a
felicidade de salvar a vida d'essa infeliz,  justo no a deixarmos
agora morrer ao desamparo. Estou da opinio da Martha.

--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna j teve melhores dias, disse
Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que,
apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuio
particular que tantas vezes se encontra no corao da mulher.

--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que
frequentasse estas casas, porm reconheo s vezes um no sei qu nas
maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios no
foram como os nossos; e tenho c na mente, que mais dia menos dia tudo
se ha de descobrir. Quando vosss hontem foram levar aquellas camisas a
casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me
convenci das minhas suspeitas. Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna,
quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraada que
abandonou sobre a terra, a tomar de novo debaixo da sua proteco. Se
tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para
uma familia a quem tanto devo. Ora, alm d'estas palavras serem
proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos
finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna no , nem nunca
foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fr, tem preciso, 
necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a
comea a perseguir. Vejam l a capellista! At essa mesma, que eu
suppunha to virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe
cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo
este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja
chamin Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.

N'este momento bateram apressadamente ao postigo.

--Que teremos? disse Balbina.

Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu
immediatamente a porta.

Era a tia Monica.

--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lanando sobre ns a
sua divina beno, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de
todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre
amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me
estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre
a peccadora e alli jaz sem proteco nem abrigo, porquanto todas as
visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem
praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemec, sr. Balbina, que se
compadea d'essa desgraada, e que me empreste esse milagroso frasquinho
com que tornou  vida a tia Marianna.

--No foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia
Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha
ouvira as exclamaes da beata. Faam o mesmo que fez minha filha. Vo
chamar o sr. regedor e peam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os
soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente.
Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes
emprestar-lh'o se  da tua vontade, porm servir-lhe de enfermeira,
maletas me dem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr. Monica.
Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse
por duas vezes, mas para a sr. Margarida! Nem que me pezassem a ouro,
ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto
da ingratido, sr. Monica. No foi a sr. Margarida a primeira a cortar
na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir  tia Marianna? E no
foi s ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem
como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas s outras, que eu pela
minha parte, no consinto que l ponham o p, nem minha mulher nem minha
filha.

[Ilustrao: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)]

--Cruzes! Credo! Me Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que
julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus
descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores,
resmungou a tia Monica  medida que se approximava da porta por onde
momentos depois saa apressadamente, olhando ao mesmo tempo para
Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia
produzido, incutia certos receios no animo da corretora de oraes.

--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de
alguns momentos de profunda reflexo.

--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa
pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.

--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude,
e depois descanarmos o corpo para o trabalho de manh.

Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta
curta, mas eloquente orao:

          Bom Jesus, todo Poderoso,
          Filho da Virgem Maria,
          Soccorrei-nos esta noite
          E manh por todo o dia.

          Se na terra no coubermos,
          Levae-nos Senhor aos cos,
          Rogae por ns peccadores,
          Virgem Santa, Me de Deus.




V


Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um
abastado capitalista por nome Tristo de Almeida, segundo rezava o seu
passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.

Trazia apenas tres cartas de recommendao, uma para o visconde de
Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a
casa bancaria de Vaz Mendes e C., extraordinariamente acreditada n'esta
capital, no s pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo
facto de j ter fallido tres vezes.

O visconde, o commendador e o banqueiro abraaram gostosamente o seu
recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caa era rara de
mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto
escasseia.

Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para
succulenta refeio, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores
da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caada.

Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulaes, Tristo de
Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de
experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar,
quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou
pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.

Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por
zote, Tristo ia cercando de lisongeiras esperanas o filo d'essa
inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na
sua aurifera individualidade.

Mulher e filhas ainda no haviam entrado em scena. Constava porm que
uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior
intelligencia. No tardou uma semana que esse homem, ou para melhor
dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.

Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle
conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser
visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se
aquelle, antes de baro, empregava a casca de polvo para tirar em baixo
relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a
sua industria at conseguir a tiragem por meio do balanc; se
aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no
Brazil com o unico fim de matar o tempo.

Tristo de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu
preterito.

 foroso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle,
passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que
pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de ris
se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus
fins. Graas a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje
pessoa alguma poder descobrir que antes de ser Tristo de Almeida fui
Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fra
Domingos de Andrade.

 foroso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver
minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus
caprichos. No que me seja preciso, para casar minhas filhas -lhes
sufficiente o seu dote de duzentos contos de ris. Brevemente
encontraro algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de
grandeza o seu titulo, e isso...  genero que abunda muito em Portugal.
Est decidido, quero um titulo. Comearei por ser apresentado em casa de
alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma
avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me
recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o
ensejo  favoravel. A febre amarella, levando a desgraa a centenares de
familias, enlucta-lhes as suas habitaes. Vou fundar um hospital. Serei
o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos
olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a
adquirir, Tristo de Almeida, e sers um dia aquillo que te aprouver.

N'este momento, bateram  porta da sala. Tristo mandou que abrissem, e
entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

--Que entre, disse lhe Tristo de Almeida retirando-se da varanda e
dirigindo-se para o salo.

O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter
quarenta quando muito.

Dotado d'uma inteligencia regular, j pelos dotes physicos de que Deus
fra prodigo para com ele, j pela riqueza de que por duas vezes havia
disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta
terra, onde se no envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete
annos, graas  temperatura do seu clima.

Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna gerao se
curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.

No havia rapaz que no escutasse avido de curiosidade as mil aventuras
que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror
da banca portugueza no salo do theatro de S. Carlos, como na caixa do
mesmo theatro fra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em
resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia.
Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de
Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!

Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze
dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a
viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen
Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para
melhor falar com o marido da viscondessa.

Como se v, era um homem completo.

Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando
sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma
multido de mulheres que disputavam entre si o voluvel corao do
visconde.

Extravagante mais por indole do que por ostentao, o fidalgo
deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoes
que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo
delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigao. Era o
verdadeiro sybarita da estroinice.

Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, no tardou muito que a visse
desbaratada em custosas viagens.

Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio
de quem era herdeiro forado, porm a pertinaz saude do velho fazia com
que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida,
onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu
no comeo da sua jornada.

Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos
ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos
abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou
brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinio
das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de
Coruche.

As privaes porque este passra foram completamente esquecidas desde
que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento
excedia seis contos de ris, e esquecidos tambem se julgaram os seus
crdores, porquanto lhes foi necessario lanarem mo de meios pouco
brandos para adquirirem, seno a totalidade do devido, pelo menos o
capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo
d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura,
reanimou-se ento com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou
a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas
se recordava d'elles.

A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava
arruinado, porm tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo
do apogeu da sua riqueza.

D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa
alguma era dado descortinar.

Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdra teve o mesmo resultado
que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porm desta vez a situao
era mais difficil, no tinha parente algum para quem apellar.

No podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos.
Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma
industria.

Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe
apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio,
anuia finalmente, no sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava
colocando-os no rol de seus intimos.

Todos  uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o
visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero
de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.

Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi
todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia,
nem uma s pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de
desconsiderao.

Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade,
ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristo de Almeida, para maior
exactido desta veridica historia, foi apresentado.

--Quanto estranhei no o ter encontrado hontem no theatro, meu caro
amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha
muito tempo que no vejo S. Carlos to brilhante. O tenor, como sempre,
cantou admiravelmente. E no que diz respeito s toilettes, no pde
calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente no se tem
espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho
uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta
innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa 
pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do
cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso 
que foi uma epidemia, meu amigo.

--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o
commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o
visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem no fui a S. Carlos, ajuntou
elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.

--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristo. O tempo no est para
brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento
sentisse a mais leve indisposio, comeava por me tractar como estando
realmente ameaado pela epidemia. Em primeiro logar est a nossa saude.
Prefiro-a a tudo, at  riqueza.

--Porm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristo de
Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.

--Ento o mundo  um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo.
Muitos rapazes que por ahi conheo possuem, como eu, saude e dinheiro.
Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se
consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e
dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vo com
elle por essas ruas da capital armando  compaixo das suas Lesbias. Eu
sou o contrario; a minha alegria  chronica. Se eu no tenho coisa
alguma que me entristea, para que demonio hei de dizer mal do mundo que
tantos deleites me faz experimentar?

--Sou da sua opinio, sr. visconde. O mundo  apenas mau para os tolos,
ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude
e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos
sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristo de
Almeida, que j comeava a impacientar-se, como o leitor, do estirado
dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta
visitasinha, no s pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade
que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.

--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado.  a
primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante,
continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava
fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinio?
Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que
teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.

--Nada, no se trata d'isso.

--Ento, provavelmente, quer me consultar cerca da mobilia, ou das
carruagens, ou dos cavallos?

--To pouco, respondeu serenamente Tristo de Almeida. Isso ficar
para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de
misericordia;--fazer bem aos desgraados.

--Se tal fr, acho muito justo, e desde j me offereo a ajudal-o em
tudo quanto me seja possivel.

--Sentemo nos, disse Tristo apontando lhe para o soph. Minha esposa,
que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os
seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de ris n'um
asylo de creanas desvalidas. Que lhe parece a ida?

--No a pde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia
m'o permitte, desde j me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.
condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o
iniciar n'essas associaes. Recordo me d'ella, porquanto  uma das mais
assiduas obreiras do grande monumento da caridade. No ha asylo para que
no seja consultada e  sempre a sua opinio a que prevalece sobre todas
as outras. Se vossa excellencia quer, o meio  muito simples, e torno a
repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.

--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristo de Almeida, no
me associo  opinio de minha mulher nem  sua. Tenho outra ida, e
creio que ser muito mais razoavel.

--Sim?...

-- verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados
de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel
flagello tiver abandonado Lisboa, ento sim, ento adoptarei a ida que
teve minha mulher.

--Approvo, e desde j devo confessar que tanto eu como sua
excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.

--Approva?

--Applaudo.

--E dispensa-me a sua proteco n'esta pequena obra de caridade?

--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e
offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.

--Poderemos hoje mesmo comear os nossos trabalhos? perguntou Tristo
de Almeida, acceitando o charuto que lhe fra offerecido.

--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira
do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.

--Vamos ento procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de
Vaz Mendes. Tanto um como o outro  de suppr que nos possam ajudar em
muito.

--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o
a Tristo de Almeida.

       *       *       *       *       *

Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a
carruagem saia o porto e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o
cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo,
deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraado.

Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para
o hotel de Bragana.

Tristo de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por
excepo, o doutor no tardou meia hora!... Das feridas que o
atropellado recebera na cabea nenhuma era de gravidade, comtudo no
havia tornado a si.

Tristo de Almeida, com a mo do enfermo entre as suas, parecia com
profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsaes. Seria calculo ou
verdadeira caridade? Sabia o Deus!

Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que
havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.

 melhor deital-o immediatamente, no lhe sobrevenha alguma congesto,
disse o doutor tomando o pulso do enfermo.

Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristo
de Almeida e o visconde levaram em braos o ferido e deitaram-n'o sobre
um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.

--Comea hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde
com falsa ingenuidade.

--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de ris do que ter sido
causa de similhante desgraa, respondeu-lhe Tristo. Agora, sr.
visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, ser
bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a
cabeceira do ferido.

--Ser uma grande alma, pensava o visconde.

--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristo.

Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.

[Nota de rodap 1: Tristo de Almeida lera a preclarissima obra de sir
Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemo, conseguira
que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar
desconhecido de si mesmo.]




VI


--E j l vo as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar!
Virgem Santissima que lhe ter acontecido?

Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma
pequena imagem de Nossa Senhora da Conceio, defronte da qual ardia a
luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.

--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a
tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem
nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez;
morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se no demore.
Ella j tinha tempo e mais do que tempo para voltar.

--No se apoquente, sr. Balbina. D'aqui  rua de S. Francisco no 
to perto como julga, e demais ainda no ha uma hora que foi.
Coitadinha! Desacostumada como est de andar por essas ruas! Porque no
havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! No ha
seno desgostos para os que so bons como vossemec.

--Isso  coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente
quer--como o outro que diz--estar nas graas de Deus, mais o demo que as
tece est puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha
se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a
_ambos e dois_. Vossemec fica aqui para o que der e vier, ajuntou a
pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do
quarto.

--Ainda no tem razo para estar dizendo mal  sua vida. Quem sabe se
ambos se encontraram?...

--Tenho na mente que no, sr. Marianna; e demais, no sei o que me diz
o corao. Parece que tudo se est preparando para que haja n'esta casa
uma grande desgraa. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos
olhou a tia Monica! No lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos
rogou...

--Ora deixe-se d'isso, sr. Balbina! No creia em bruxarias. Deus  bom
de mais para conceder similhante poder aos mortaes.

--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella!
Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um
sapato de solla para cima, no houve meios de fazer com que se calasse o
pobre animal! Eu bem sei que tudo isto so coisas, como o outro que diz,
que no vem nada ao caso, mas a gente c tem os seus enguios, e
desgraadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois
serem quatro.

--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e ver que no tarda
muito que os veja entrar por essa porta.  preciso que a gente no seja
to desanimada. De que nos serviria a religio se nos no desse
conformidade? Estar agora duvidando da graa de Deus, porque seu marido
se demora mais duas ou tres horas!

--E como explica vossemec o elle no ter vindo jantar?

--Quem sabe l se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar
algum vintem? Ignora vossemec o seu genio? Aquillo  uma formiga para a
familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta
e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.

N'este momento bateram  porta e a voz de Martha soou melancholicamente
atravez das fendas do postigo.

Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.

Martha vinha desfigurada.

--O pae, disse ella entre soluos, sau da obra ao meio dia para vir
jantar a casa. Ninguem me pde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro
para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e
esquivou-se a acompanhar-me. Outro que l encontrei comeou a sorrir-se
para mim de tal forma que no tive valor de lhe dizer quanto soffria,
ajuntou Martha tornando-se vermelha como o leno que lhe occultava os
seus magnificos cabellos.

--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.

--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e
quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de
mim. Ento senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de
um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha.
Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido
atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte.
Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve
apenas tempo de me ver as lagrimas e no a cr dos olhos. No me atrevo
a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria
offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.

Esperei, chegaram duas traquitanas.

--Entre, disse-me elle pegando-me na mo esquerda. Do corao lhe
affiano, que pde estar to segura como se fosse ao lado de seu pae,
que espero em Deus encontrar com vida, acrescentou o individuo
mettendo-me no trem.

Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem
a trote.

De repente, a sua traquitana tomou a deanteira  minha.

Andmos, andmos at que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os
cavallos pararam. Elle ento apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae.
Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns
minutos, e voltou dizendo-me que no tinha entrado n'aquella casa.

Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.

Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, j eu conhecia de nome quando a
tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da
manh.

--V tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.

Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.

Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pr em casa, o que no
acceitei por causa da visinhana.

--E quem ser esse individuo, para que lhe possamos beijar as mos?
exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.

--Deus sabe! Oh! mas elle no me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta
f nas suas palavras! Se a me visse como elle me disse: v para casa,
que ainda hoje hei de descobrir onde est seu pae.

--E  muito novo esse homem? interrompeu Marianna.

--Uns trinta annos.

--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade no est perdida de
todo.

N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para
sair.

--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha me... Tenha
prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? J v que se lhe tivesse
acontecido alguma desgraa, estaria infallivelmente em algum dos
hospitaes, e graas a Deus, tal no succede.

--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar
volta  chave para sair.

Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam
impedir-lhe a passagem.

E ella ento, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos
deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna
acompanharam-n'a na sua orao.

E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material
indifferena marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que,
batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle
quadro de amargura.




VII


Mudando de rumo, o visconde e Tristo de Almeida dirigiram-se
primeiramente a casa de Vaz Mendes.

Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu
recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao
seu alcance para animar uma ida to philantropica.

D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.

Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma ida
exposta por Tristo de Almeida havia sido formulada por elle tres dias
antes.

Tristo sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo 
Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do
excellentissimo commendador.

Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros
epithetos para Tristo, o visconde de Coruche contou ao commendador o
que se havia passado com o operario.

--Se vossa excellencia no deu a morte a esse desgraado, estou
certissimo que far a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao
mesmo tempo o olho para o visconde.

--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes
de Miranda.

--Mysterios de Deus, respondeu Tristo em voz alta. Fortes nescios,
ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.

Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragana e
dirigiam-se ao quarto do ferido.

O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia
podido arrancar-lhe uma s palavra.

A sr. D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico
esposo, no tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de
vez em quando approximavam se do quarto.

Depois de cumprimentarem a esposa de Tristo, os tres amigos chegaram-se
ao enfermo.

--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre
homem ter alguma pessoa a quem esteja dando srios cuidados.  uma
lastima que se lhe no possa saber o nome. Se descobrissemos quem  a
familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a proteco de vossa
excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com
que todos estejam em cuidados.

--Vejamos se  possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruando se
sobre o leito do operario.

O enfermo continuava no mesmo lethargo.

Eram perto de seis horas. Como no houvesse meios de lhe arrancar uma
palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar
emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a
um creado, convidou as visitas a dirigirem-se  casa de jantar.

Ao chegarem alli, j Olympia, a filha mais nova de Tristo de Almeida,
aguardava que seus paes tivessem dado treguas  caridade para
desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu
Magdalena, a irm mais velha.

O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristo
de Almeida; juntando-se  formosura e juventude um dote de duzentos
contos de reis, que lhes poderia faltar?

Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor
do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristo de Almeida do risco
que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da
sella, discutiu-se a fundao do hospital.

D. Maria Egypciaca, que de antemo havia sido prevenida por seu esposo,
falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os
hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idas philantropicas que
defendia.

Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de
cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do corao, viscera que
apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado
se mergulhava!

Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais
desembarao do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo
de po de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de
admirar o bom gosto do estampador.

Olympia tinha duas paixes: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem
que morrendo de uma indigesto de ninhos de andorinhas seria depositada
n'um sarcophago de Svres, a filha de Tristo de Almeida apanharia a
indigesto de bom grado.

Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo
era inutil; o estomago de Olympia conceda-lhe apenas que as suas vistas
se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde
entrava o criado com o seguimento do _menu_.

E, apezar de tudo, essa creatura que to desenvoltamente usava e abusava
dos orgos da mastigao, perguntando ao criado durante o jantar o que
tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,
como o leitor no ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de
inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas
paginas se debrua.

Olympia era uma pomba. Dizia sua me que at aos dezoito annos, o unico
desgosto que lhe havia dado fra ter atirado com uma travessa ao rosto
pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de
Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.

Magdalena era a sua antithese. Afra aquelles dois pasteis, poder-se-ia
julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.

De uma formosura menos provocadora do que sua irm, Magdalena sabia
insinuar-se no corao de todos os que tinham a felicidade de lhe
merecer sympathia.

Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de
melancolia que prendiam quem a contemplasse.

Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz.
Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus
canticos a musica da palavra.

Falava pouco, porm a phrase era sempre correcta. Reservada mais por
calculo do que por organizao, a irm de Olympia atravessava a
sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que
ella se compe!

Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraa esvoara-lhe sobre
os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira
o seu corao immenso, golpeado pelo punhal do desengano?

Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado
a estudar aquella peregrina organizao.

Magdalena nunca havia amado, porm o seu corao tinha necessidade de
amar como os pulmes do ar que respiram.

Creando um dia na sua phantasiosa imaginao o typo que ambicionara,
quiz-lhe dar vida, formas e animao. Quando mais tarde se lhe sumiu o
vago, o impalpavel, o ideal que concebra e que tombra na tristissima
realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a ss as suas
lagrimas.

Prophetisa da amargura, como veremos na continuao d'esta singela
historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais
tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!

Debalde, repetimos, se esforava o visconde para merecer um olhar de
Olympia.

Era invulneravel!

--Se o homem j ter dado accordo de si, disse o visconde para no estar
calado.

--Deus sabe! murmurou o amphitrio defendendo uma perna de perdiz da
insaciavel voracidade da filha!

--Daria tudo para que esse infeliz tornasse  vida, disse D. Maria
Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estar a sua pobre familia!
ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.

--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no
momento em que vossa excellencia estivesse  cabeceira do seu leito.
Pela minha parte, abenoaria fosse que circumstancia fosse que me
trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.

--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando
no hombro de sua irm e sem se atrever a olhar para o visconde.

--No ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria
Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.

--No repare, meu caro amigo, acudiu Tristo, Olympia  muito
envergonhada, e demais est pouco acostumada  sociedade. No ouves o
que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se  gastronoma.

--Ouo, sim senhor, mas no sei o que hei de responder.

Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.

N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de
jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos
instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o
criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda porto para vir
reconhecer o doente.

--E esse individuo... ainda l est? perguntou Tristo.

--No senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte 
familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado
pela febre.

--E quem  o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.

--Chama-se Jeronymo e  mestre de obras.

--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.

--Na rua do Meio  Lapa, respondeu o criado.

--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca.
Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre
gente! Talvez ainda abenem a fatalidade que lhes aconteceu! Pdes
retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.

--Agora, disse Vaz Mendes, j temos por onde comear a nossa obra de
caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.

--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do
Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam
ardentemente n'uma torta de ma.

--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristo, levantando se
ao mesmo tempo da cadeira.

--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o
movimento do seu amigo.

--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E no tardar
muito que l vamos, eu e minhas filhas.

--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para
o commendador.

--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.

Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrio.

       *       *       *       *       *

--Ora ahi tem a mam porque eu no gosto de comer  mesa quando temos
visitas. Levanto-me sempre com fome. S eu  minha parte seria capaz de
comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente
voltando se para sua me.

--Pois  possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.

--Abenoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.




VIII


Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a
inconsolavel esposa rezando  Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca
abenoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma
epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razo,
a infeliz D. Marianna de Mendona deu entrada no hospital de S. Jos.

Como o leitor deve estar lembrado, a viuva no tinha um unico parente
sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se
tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima,
que annos antes a aconselhra a depositar os capitaes nas mos do
commendador.

At o advogado que fra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de
Felix Justino de Araujo, at esse a havia abandonado, para com o seu
conselho salvar as victimas do fugitivo.

Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeioada, ao vel-a
entrar n'aquella situao, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da
sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava,
perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o
commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.

--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o
suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto,  que no podia crer.
Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,
quanto a isso, quem est nas melhores condies  o regedor. E sem mais
tir'te nem guar'te, voltou as costas  fiel criada, mostrando-lhe que o
sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia
entrado.

Esperanada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para
casa.

--J no ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem
quebrado tudo quanto encontra  mo, e se assim contina, no temos
manh um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a
senhora no ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr.
regedor.

--O mesmo disse a sr. D. Maria Clara. Porm, entregar a nossa ama 
justia, ns que lhe queremos tanto! No seria mais razoavel supportal-a
ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu
Maria Gertrudes.

--Pois supporte-a vossemec, que eu pela minha parte j estou farta. E
demais, ns as criadas no temos obrigao de aturar doidas. Se a tal me
quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. Jos, onde tinha melhor
ordenado do que n'esta casa. Vossemec, que  mais antiga do que eu, se
gosta, sopeteie, que quanto a mim, no tenho mais nada se no arranjar o
bahu, pr o capote e o leno, e ps para que te quero.

 que no sei; no sei o que hei de fazer  minha vida. Valha-me Deus,
para que estava guardada.

--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.

--Ento o que havia de fazer?

--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.

--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?

--Ora essa sr. Maria Gertrudes! Ficavamos ns emquanto o filho no
viesse.

--E sabemos por ventura aonde est o filho?

--Onde est! Est no estrangeiro. Bem se v que a sr. Maria Gertrudes
no  mulher d'este tempo. Boa est. Olha que grande difficuldade! Pensa
talvez que no sei como essas coisas se fazem. Para que servem os
correios? No tem mais nada seno pr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo:
pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.

--Isso l  verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?

--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr. Maria Gertrudes,
se vossemec quer, no diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego
de a escrever. Por agora o que devemos fazer  ir a casa do sr. regedor.
J com este so cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem v
que isto no pde durar por muito tempo.

--L n'isso tem muita razo.

--Ora ainda bem; ento mos  obra.

       *       *       *       *       *

Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.

N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se
considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas
como uma simples pedinte sem proteco e sem abrigo. Quando dois mezes
depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava
passando em casa de D. Marianna de Mendona e como os seus creados de
dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e
entrando em casa, viram com effeito que no eram mal fundadas as
suspeitas da visinhana.

A carta remettida para o estrangeiro ainda no tinha chegado s mos de
Manuel de Mendona, e a desgraada continuava no hospital sem que nenhum
dos creados fosse indagar o seu estado.

No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e
depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles
dedicados servos que to tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem
ao menos saberem se ainda existia ou no.

Pelo espao de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S.
Jos. Finalmente, recobrou a razo e deram-lhe alta.

Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar
todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua
enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.

Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraa, o
director levou-a para casa da sua familia.

Finalmente, graas s relaes do seu protector, D. Marianna tomou posse
do que lhe restava. Entre loua, moveis e roupas brancas apurou dois
contos e duzentos mil ris.

Alugou uma casa proxima  dos seus protectores, entregou-lhes o resto
para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, at que o destino,
canado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as
felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!

Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua
desventura.

Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripes,
juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que
sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo no se considerava D.
Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse.
Era j muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas
pessoas do director e de sua mulher; porm a desgraa que parecia ter-se
aninhado no seu corao, no podia permittir-lhe que descesse 
sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito
envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que
tinha sobre a terra: o director e sua esposa!

Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!

Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, 
sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigra, lembrou-se de ir viver
para a Lapa.

Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do
Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli
a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada
pela febre amarella.

A pobre senhora, na doce esperana de ainda tornar a vr seu filho,
economizava, quanto cabia em suas foras, os poucos haveres que lhe
restavam.

Este dinheiro, dizia ella s vezes comsigo olhando para as inscripes,
no me pertence,  de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me
fr para lh'o augmentar.

Explicado est portanto o seu modo de viver.




IX


A physionomia doce e melancholica de Martha impressionra de mais o
desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.

Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos
para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de
quatro individuos que estavam discutindo.

--Se fosse algum de ns que tivesse atropellado o homem, provavelmente
estava preso, dizia um d'elles.

--Mas como foi o sr. Tristo d'Almeida... acudiu outro.

--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.

--Mas elle morreu ou no morreu?

--Dizem que est melhor.

--Veremos como se porta o brazileiro.

--At agora, no ha razo de queixa, segundo me disseram. L ficou n'um
bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as
duas filhas.

--Tenho pena de no ter sido eu o atropellado, s para ter taes
enfermeiras.

--Vocs vo d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a
descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na
minha terra?

--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela
rua do Chiado.

Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o
mysterioso protector da infeliz criana seguiu os quatro individuos at
 sua entrada no Marrare de Polimento.

Entrou tambem.

O que primeiro falra do acontecimento ficou  porta assobiando
alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.

--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido
interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um
individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no
Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam cerca de uma pessoa que
tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrio de os
escutar. Pde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.

--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram
dirigidas. O que sinto  no lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que
est no Hotel de Bragana.

Retribuindo n'um aperto de mo a amabilidade com que fra recebido, o
protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam
indicado.

Ao chegar perguntou ao guarda porto se ainda alli estava um sugeito que
de manh fra pizado por um brazileiro.

--E no s por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o
guarda porto, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o
atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por
todos quatro.

-- possivel falar lhe?

-- possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o
guarda porto. Ainda no tornou a si.

--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.

Minutos depois entrava no quarto do ferido.

Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dr das
feridas havia-lhe diminudo progressivamente, comtudo a perda de sangue
tinha sido abundante, e ao pobre operario nem foras restavam para pedir
que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante to amargamente se
recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as
vises da febre, como se as visse alli, pregadas  sua cabeceira.

Sentia na fronte a mo fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o
corao, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida
pelo terror.

Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.

Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez
em quando a mo  fronte.

Momentos depois os olhos do operario, at alli brandamente cerrados,
abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o
parecia descobrir-lhe nas feies alguma similhana com as da pobre
Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse
falar.

Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se
suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.

--Falar... mas... no posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair
sobre o colcho o brao direito que tentra levantar.

O desconhecido approximou-se ainda mais.

--E ainda no houve meio de se saber quem  este homem?

--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu
o creado.

--Como se chama vossemec, perguntou o desconhecido debruando-se sobre
o leito.

--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, 
Lapa.

--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o
criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia,
encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.

Martha hava-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas
as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua me ao
Hotel de Bragana o mais depressa que lhe fosse possivel.

Foi n'este momento que Manuel desceu  casa do jantar para dizer a
Tristo de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.

Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando  porta do
hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se est passando
no quarto do ferido.




X


--Ora graas a Deus que est livre de perigo, exclamou Tristo de
Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. No calcula o quanto me
tem feito soffrer a sua prostrao. Quero que nos perde todo o mal que
involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.

--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde
approximando-se de Tristo.

--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo,
como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinao. De quanto se
passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas
que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que
tenho tido umas dres horrveis tanto na cabea como em todo este lado
direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me
mortifica  lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher
e filha, o resto ser o que Deus quizer. Tratamento, graas aos
senhores, vejo que me no tem faltado. O que eu tambem agora desejava
pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e
o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha
e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a
esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam  minha
procura por toda a parte.

--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristo, bastar
dizer-lhe que est entre amigos, e que nada lhe faltar; emquanto a
mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.

--Moramos na rua do Meio n. 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao
mesmo tempo uma dolorosa contraco.

--Que  isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se
ao mestre de obras.

-- uma dr muito grande que me toma a cabea toda, respondeu elle,
levando  fronte ambas as mos.

--Veja se pde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos
immediatamente chamar a sua familia.

--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde
dirigindo-se para a porta.

--Bom ser, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa
descanarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.

--Se vossas senhorias fossem to bons que tal fizessem, seria uma grande
obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.

--No faa similhante loucura. Conserve-se como est, e tenha a certeza
que d'aqui a meia hora ter a seu lado as pessoas que tanto deseja.

N'este momento entrou a sr. D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas
duas filhas.

--J sabemos, graas a Deus, quem  o nosso doente, e onde mora, disse
a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saa do quarto, com
o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.

--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os
seus grandes olhos azues.

--Em que sustos estar a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para
Olympia.

--Talvez que nem hoje tivessem que jantar.

--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por
alguns instantes, Deus tudo quanto faz  para melhor.  certo que teve
esta pequena contrariedade, mas graas ao Senhor, est livre de perigo,
e vae fazer a felicidade de sua familia. No  verdade, Tristo? ajuntou
ella dirigindo-se ao esposo.

--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador
intromettendo-se na conversao.

--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o
banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.

--Do hospital?! perguntou admirado o commendador.

--No ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?

--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristo sentando se n'um
pequeno soph.

N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente
a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta
e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido
seguia-as de perto.

No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de
Jeronymo, este fez um supremo esforo para se erguer, porm as dres que
lhe atacavam a cabea e todo o lado direito tornaram a prostral-o
completamente.

Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, at a
propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera
onde a sensibilidade se lhe refugira, um par de lagrimas que vinham em
turvos crystaes, rescendendo mais a fricass do que a natural piedade.

O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a
physionomia de Tristo, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse
acudido  memoria.

O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo no lhe era
estranho.

Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua
familia tudo quanto tinha acontecido.

O mesmo fez Balbina e sua filha.

-- portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristo. Quanto
folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou
elle extendendo a mo ao desconhecido.

Este, retribuindo-lhe o aperto de mo, cumprimentou rapidamente a todas
as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.

--Quem ser este moo? perguntou Tristo voltando-se para o banqueiro.

--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.

--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.

--Provavelmente  algum rapaz acanhado que no sabe estar entre gente
fina, disse D. Maria Egypciaca.

--No sou d'essa opinio; pelo contrario, pareceu-me um moo de um
trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este
quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. No achas Magdalena?
ajuntou Tristo dirigindo-se a sua filha.

--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr.
Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de
Miranda, e de pouco sociavel minha me, no concordei com opinio
nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os
elogios de que  merecedor.

--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?

--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que no seja seno por egoismo. O
elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade,  uma ironia
pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que
anima e a adulao que fere. O incenso nem sempre  agradavel; est
muitas vezes pendente da mo que balana o thuribulo, e comtudo sempre 
incenso.

--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam
offender? perguntou o visconde.

--Nem por sombras, sr. visconde! No era essa a minha inteno,
respondeu Magdalena approximando se de sua irm.

--No seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em
voz baixa para sua me. E demais, acrescentou ella, j se vo
approximando as horas do ch, e se quer que lhe diga a verdade, estou
sentindo uma fraqueza...

--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em
comer.

--Em que quer a minha me que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se
vermelha como a fita que lhe cingia o collo.

No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em
voz baixa n'um dos angulos do quarto.

--O que lhes peo, disse Tristo approximando-se de Balbina e de sua
filha,  que estejam aqui tanto  sua vontade como em casa propria.
Fiquem certas que coisa alguma lhes faltar. Se necessario fr que seu
homem aqui se demore, o que espero em Deus tal no permitta, no
consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemec, ajuntou Tristo
dirigindo-se a Jeronymo, no se persuada que fica sem trabalho; apenas
estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos
immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.

Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratido.

Absortas na contemplao de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as
palavras de Tristo como se no as comprehendessem.

--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido est livre de
perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeam
 Providencia o ter lhes deparado a mo que os veiu arrancar da pobreza,
ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que
assombrada.

--Minha santinha, s vezes, d'onde a gente menos o espera,  d'ahi que
provm ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda
approximando-se do visconde.

--Ser a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando
protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mo direita, cujos
dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos
da pobre Martha.

--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente,
disse Olympia, puxando pela saia de sua me.

--Safa, inimigo! Que esta rapariga no pensa n'outra coisa seno em
comer, resmungava D. Maria Egypciaca  proporo que, seguida dos seus
hospedes, saa do quarto de Jeronymo.

       *       *       *       *       *

--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irm e
aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde
atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao
seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!




XI


Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario,
debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella
imagem que o perseguia.

Mas, pensava elle, e se tudo isto no passar de uma illuso, d'um
capricho de phantasia?

Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha
vida? Continua solteiro Manuel de Mendona, e se um dia te impressionar
como agora algum rosto de mulher, estuda o teu corao e a tua
intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas,
e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede ento a mo da
mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da
tua existencia.

Ai, do homem s! diz Salomo, e eu digo: ai, do homem casado, que
sente ao lado da esposa a solido. E comtudo,  esta a primeira vez que
sinto palpitar o corao! Ser o amor esta intranquillidade de espirito
que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua
imagem e o desejo ardente de a tornar a ver ser ainda o amor? Veremos.

S manh poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fr pouco,
bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplao
das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha
galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos
marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendona, se essa  a minha casa
e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que
me so desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de
saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.

Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir?
No pde ser! No ha de ser, no quero que seja! Estou ainda muito novo
para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu
cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis
annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha me.
S, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista
para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braos, debalde lhe
pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que no
tinha outro remedio seno revestir-me de valor, e luctei, e soube
vencer.

Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar  Europa afim de ver
minha me, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a
pobre estava reduzida  miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a
terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!

Aterrado, sa immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de
uma vida arriscada esquecer a dr que me feria. Como eu sorri  tormenta
que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir
minha me eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a
proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a
terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber
lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de ris, jazia a
minha infeliz me nas palhas d'um hospital?

Nada, continuava Manuel de Mendona, passeiando pelo seu quarto do
hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que manh termine o
negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.

N'este momento, baterem mansamente  porta do quarto.

--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.

Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou
no gabinete.

O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_.

A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a
bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de
mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o no tinha, era capaz de mascar
tudo quanto lhe apparecesse.

Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio
o arrastava:

N'uma viagem a Macau, acabra-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulao
que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz
a preciosa planta que comeava a escassear-lhes.

Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou
mais onze dias do que esperavam. No havia tabaco a bordo!

Dizendo mal  sua vida, a tripulao debalde vasculhava os mais
reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas
seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.

--Forte velhaco! diziam uns.

--E eu que ainda o outro dia fui to tolo que lhe dei dois charutos
havanos!

--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por
elle um mez da minha soldada.

--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a
sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.

--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva
mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.

E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre
sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.

Finalmente chegaram a Macau.

 tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse
afim de o acompanhar a terra.

O marujo empallideceu, mas no teve mais remedio do que cumprir as
ordens do commandante.

Meia hora depois ouviu-se  r um grande motim, e viu-se entre os apupos
e os risos da tripulao o tio Luiz gravemente compromettido, com uma
bota de cano no p direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher
completamente franjado.

O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o
cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascra durante os onze dias de
atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo p esquerdo se por
ventura no deitam ferro defronte da grande cidade.

Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz
foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.

O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam
com que todos o estimassem.

Quando Manuel de Mendona comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo
foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram.
Desde esse dia at ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de
Mendona nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiana
que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos
seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros
jmais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu
companheiro de perigos.

Mascatudo havia perdido sua me, unico parente que lhe restava, e que
elle adorava com todo o ardor do seu corao, corao grande e ingenuo,
como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade,
entre a colera dos elementos e a merc do Creador!

Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem?
Era o! Nos espiritos irmos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da
sympathia para que possam juntos enlaar os soffrimentos que os pungem.

Era bello vel-os, quando  noite, ao lado um do outro, contemplavam em
religioso silencio a solido das aguas, olhando de vez em quando para o
co, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam
dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a
Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que
sua me lhe escrevia, e que aquelle j ha muito sabia de cr.

Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em
cujo corao depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.

--Venho participar-lhe que no poderemos sair d'aqui em menos de
cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto  um tempo precioso o que
estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraadamente a
uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal
acontecia, juro por Santa Barbara que no era eu que o tinha aconselhado
a vir a Portugal.

-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendona, sobretudo n'esta
occasio; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas
palavras a aventura da vespera, no sem lhe mostrar os graves receios
que atormentavam a sua alma.

--Nunca se arrependa de que a sua presena tenha feito a felicidade de
alguem. Dizia minha me, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia
era para melhor. Ora quem nos diz a ns que atraz d'essa borrascasita
que lhe arrebentou no corao, no est perto a bonana?

--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei
como hei de chamar?

--Olhe, sr. Manuel de Mendona, dizia minha me, que Deus tenha, que
o homem s n'este mundo  alvo da perdio. E eu digo o mesmo.
Antigamente no pensava assim, porm hoje, que me sinto canado de
trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do
mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca
sempre em ordem e o poro cheio de mantimentos para sustentar os
filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro,
aoitado dos vendavaes. Ha l nada melhor n'este mundo, como dizia minha
me, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao p de
sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe
feche os olhos, e l de vez em quando, quem se recorde da nossa alma,
resando-lhe uma orao sobre a sepultura do corpo. Emfim, faa o sr. o
que quizer, que eu c por mim deixo correr a embarcao.

O prazer que Manuel de Mendona experimentava ao ouvir falar do objecto
amado, era mais uma prova do seu amor.

Foi ento que elle reconheceu de verdade o seu estado.

--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se
sau com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.

[Ilustrao:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da
cadeira... (_pag. 85_)]




XII


No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de
Bragana, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que
pela manh o fra visitar declarou as feridas de pouca importancia,
aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente no
removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se
encontrava.

Tanto o mestre de obras como a sua familia no se canavam de agradecer
 Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura.

No houve delicadeza que lhe no fosse dispensada por aquella santa
familia. A tal ponto foi levada a dedicao de D. Maria Egypciaca, que
por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente.

Foram taes as promessas feitas por Tristo ao pobre Jeronymo, que este
quasi que dava graas a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do
visconde.

Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado
o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa,
onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o
trouxesse  cidade.

Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se  estrebaria para
arraoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da
creao, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora
regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para
as levar  vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pr o nome
de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no
dia em que Jeronymo fazia quinze annos.

Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas,
extendia de vez em quando a mo para sua filha, a qual, beijando lh'a
n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo
Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae.
Balbina, assentada no canap, olhava ora para Jeronymo, ora para sua
filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como
se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.

De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho,
apertou brandamente as mos da filha, fitando-a com toda a ternura do
amor paternal.

--Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e
debruando-se-lhe sobre o leito.

Balbina approximou se.

--Tenho menos dres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que no
tardar muito que eu te possa extender estes braos que a muito custo
levanto. Mas no me diro quem  esta santa familia que com tanto amor
nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.

--Ignoro, respondeu Balbina.

--Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua proteco,
continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.

--Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em
nossa casa a vl-o aqui entre estas cortinas.

--Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se
para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dres que me atormentam.

--Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz  para melhor,
desejava bem vr-te fra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao
mesmo tempo para a porta.

Esta abriu-se e entrou Tristo de Almeida.

Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo.

--Como se sente? perguntou Tristo pegando brandamente na mo do
operario.

--Melhor; muito melhor.

--Quanto folgo! disse Tristo, puchando uma cadeira e abeirando-se do
leito.  foroso que se restabelea quanto antes para tomar conta da sua
obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.

--Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia no se occupa seno da
sorte dos desgraados.

-- essa a minha unica ambio, respondeu o magnata fitando o rosto
ingenuo da filha do operario. manh por estas horas j devemos saber o
logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu
empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, no pense que vossemec
e sua familia se esto aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que
fazer em sua casa, sr. Balbina, disse Tristo voltando se para a mulher
do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora no seja
muita.

--No tenho outro remedio seno ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por
causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha.

--Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e
sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinao, o
protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.

--Ainda no vi melhor corao, murmurou Jeronymo voltando-se para sua
filha.

--Tudo  muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que
nada d'isto tivesse succedido.

Meia hora depois, com grandes esforos de Tristo de Almeida, Balbina
dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa.




XIII


Emquanto se esto passando estas veridicas scenas, entremos em casa do
visconde de Coruche.

--V como pes esse p de arroz, imbecil! Olha que me ests arranhando
as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_.

--No  da minha mo, sr. visconde,  uma borbulha que v. ex. aqui tem.

--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena
excrescencia na pelle. D-me d'alli aquelle espelho.

Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de
dentro um espelho em frma de ellipse, entregou-o ao visconde.

--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito
tinhas razo.

--D'isso tenho eu tido aos centos e no fao caso algum, ajuntou o
criado.

--Queres tu comparar a tua  minha pelle?

--Eu tambem no digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a
sua, digo s que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se
vossa excellencia quer, ver como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr.
visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que
tem as irms do padre Bernardo que moram em Jesus, e ver como fica bom
no mesmo instante. Isto provavelmente so os humores que andam
levantados.

--Ser o que tu quizeres, respondeu o visconde. D-me d'alli uma camisa.

--Que camisa quer?

--Das mais finas, e pe-lhe os botes de camafeu.

--Ou  _servio_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa,
abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma
finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle
approximando-se do visconde, veiu c hontem e j voltou hoje um
individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.

--Dize-lhe que volte no fim do mez.

--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que manh 
o ultimo de outubro.

--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o
mez que vem.

--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou
elle, dirigindo-se para uma commoda  Luiz XV, sobre a qual estava um
cofre de tartaruga.

--Um fraque e collete preto, com quaesquer calas de cr.

--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da
camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu c hontem um individuo
com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia no estivesse em
casa, disse-lhe que viesse manh, em sendo duas horas.

--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova
de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao
bigode. J te disse que nunca se mandam receber contas seno no fim dos
mezes.

--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei c vir manh, que 
o ultimo de outubro.

--J te disse ha pouco que o meu fim do mez  sempre o de novembro,
respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio
inferior, e deixando o cr de chocolate.

--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por
causa d'aquella letra de 600$000 ris que se vence no primeiro de
novembro.

--E elle insiste em no querer a reforma?

--Creio que insiste. O alquil a quem vossa excellencia comprou as eguas
baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no
primeiro de novembro.

--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma
essencia a nodoa cr de castanha que lhe descompunha a phisionomia.
D-me d'alli umas ceroulas de seda.  preciso que vs logo ao Baron que
me mande uma duzia de camisolas.

--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado,
abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de
seda.

--Se alguem me procurar s tres horas da tarde, dize lhe que no volte
antes do primeiro de novembro, caso no queira perder o tempo, disse o
visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo
bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.

--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?

--O dia est to bonito que me parece melhor sar a cavallo. Sim,
continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Maral que
me apparelhe a egua laz.  necessario montal-a; ha perto de oito dias
que no se.

Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu
a porta do toucador, e sando foi transmittir as ordens que seu patro
lhe dera.

--Sim senhores! a coisa no vae feia, dizia o visconde de si para
comsigo. Se no levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O
credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posio que
seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, comeam a
negar-se e at me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dar o pago e
tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.

No encontro meio algum de salvao! Se apeio os trens, se revelo,
ainda que por sombras, o estado da minha casa, no tarda a ruina,
seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me
assusta.

Devo a todos, e aos que me devem no me atrevo a pedir-lhes contas;
no, seria uma loucura para a situao em que me encontro. Exigindo-lhes
essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu no
tenho mais remedio seno representar que estou rico. Quanto custa esta
falsa posio!  custa de quantas insomnias se adquire um nome que no
d honra no presente nem to pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem
me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os
encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos
dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios!
Vem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam
as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.

Vi a meus ps as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com
as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a
contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios,
desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.

Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse
objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das
minhas paixes.

Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada,
porque no creei a melhor de todas as instituies: a familia?

Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida,
sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se manh,
completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma
vantagem de me conservarem n'esta situao, que poderei fazer? Sair de
Lisboa? e para onde?

Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury.  isto o
sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu
bastante valor para lanar mo de qualquer modo de vida, que no
estivesse em harmonia com o que hoje tenho?

Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos
de ris, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o
commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristo, mas ou eu
me engano muito ou d'aquella moita no sae coelho.

Aquillo  homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem
remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde
abotoando o collete, cujos magnificos botes de coral contrastavam com a
pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristo de
Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de ris,
separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria  sua bolsa. E
quem sabe? Quem me diz que a minha salvao se aninha na sua algibeira!

Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idas
cerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse
estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que at j
dispozeram da minha bolsa, pde ser que elles me sirvam para isto. Se
fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porm um titulo...

Experimentemos, e se so esses os seus desejos, ficarei salvo. E se no
forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posio necessita
um titulo, e que para o alcanar basta ter dinheiro.

Quando no meio d'estas judiciosas reflexes se preparava o visconde de
Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lanar
aos fundos de Tristo de Almeida, entrou de novo o seu _groom_
annunciando lhe o commendador.

--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as
esporas.

--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porm, foi tal a
sua insistencia que no tive remedio seno fazel-o entrar para a sala.

--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como
mudando de pensamento. Entre rapazes no ha cerimonias. Que venha para
aqui mesmo.

O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.

--Deve estranhar o tel o procurado to cedo, exclamou o commendador,
dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em
voga.

--Por caso nenhum! Estou sempre s suas ordens.

--Podemos conversar  vontade?

--Pois no, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presena
do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditaes.

Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida quella
entrevista, o visconde no havia mandado retirar o _groom_.

Lopes de Miranda no tardou em fazer-lh'o notar.

Crando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando
retirar o criado, assentou-se n'um soph, offerecendo um logar ao
commendador.

--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que ida frma de Tristo de Almeida?

--A melhor que se pde formar; que  uma excellente alma, e desambicioso
de todas as grandezas do mundo.

--Fala serio?

--Quanto se pde falar.

--Julga portanto?...

--O qu?

--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e
simplesmente, pela ida de pr em pratica uma obra de caridade?

--Assim o creio.

--Outro tanto no penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um
_arrire pense_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde
os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.

Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do
commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico
partido de que podia lanar mo, seria o dissuadil-o completamente das
suas suspeitas.

--Cr portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu
dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto
se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se
deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o
contrario. Ha factos que se no podem fingir, sr. Lopes de Miranda.
Seria necessario que Tristo fosse um grande actor, para to
desassombradamente poder jogar com todas as paixes, como fez antes de
hontem quando atropellmos esse infeliz. Seria tambem um calculo o
interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e
calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos
pediram ao medico informaes do doente? No me considero de uma
credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que  de Cezar. Se
Tristo, tem ou no desejo de entrar na sociedade precedido por um
titulo, no me atrevo a dizel-o, o que lhe affiano,  que, se realmente
tem esse desejo, no  elle o movel da sua caridade. Homens tem havido
muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristo pde muito bem
ser um d'esses individuos.

--Pois eu  que no sou da sua opinio, e venho propr-lhe o seguinte:
Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em
resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem
n'esta occasio no abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que
propozessemos a Tristo, mediante um emprestimo de doze a quatorze
contos de ris, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde.
Que lhe parece?

--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa
alguma est auctorizada a saber se eu abundo ou no em dinheiro, e em
segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a
propr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a
outra pessoa extendi a minha mo para pedir dinheiro, por maior ou menor
que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de
mudar de assumpto.

Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou
immediatamente de conversao.

Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de
Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz
Mendes, esperanado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.

Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche
n'um irreprehensivel _pied f_ fazia em branda flexo voltar o pescoo 
_Andorinha_, a egua laz que mandara apparelhar.

Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde,
que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragana.




XIV


Quando Manuel de Mendona e Mascatudo sairam do hotel d'Europa,
encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.

A galera que fra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendona, era
uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.

Era muito de vr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da
galera Esperana, habilmente commandada por Manuel de Mendona, cujos
conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.

Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e
companheiros! A amizade e a confiana com que os tractava jmais
concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.

Durante a folga todos o tractavam como se elle fra um amigo, no
servio todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer
circumstancia se agitava a mais pequena questo entre os marinheiros, e
elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vr como esses
homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir
as palavras do seu capito chamando-os  ordem, e expondo-lhes em
phrases insinuantes as terriveis consequencias da m camaradagem.

Ento, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela
colera, graas  eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraarem.

A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia
na sua eterna inquietao aguardar o que era dono e commandante.

Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capito, e este sentado
 pra, o maritimo debruou-se do navio como criada velha que espera 
janella a criana que volve ao lar.

Ento comearam a apparecer os outros marinheiros, esperando
anciosamente que o escaler abordasse  embarcao.

E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem
esperal-o inquieta.

Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada
de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.

Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e
ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples
navegante.

Depois de falar a todos aquelles homens, desceu  camara, e alli, em
companhia de Mascatudo, continuou a conversao que uma hora antes havia
comeado no hotel Europe.

--Estamos aqui mais ss para podermos falar, dizia elle ao marinheiro.
Ninguem poder ouvir as nossas palavras a no ser o mar, e Deus que nos
escuta.

--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. No sei o que sinto
quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma
hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo
de encontro  quilha da embarcao, e sem ver o lume de alguma estrella
reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu
dormir, parece que  acordar n'um tumulo.

--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendona, depois de alguns
instantes de profunda meditao. Como j t'o disse, sei apenas que
ficaram no hotel de Bragana. Desejava saber quanto se tem passado, mas
falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagaes. Terias duvida
em ir procurar essa familia da minha parte?

--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma aco m a que
o sr. praticou? Ora essa!  para j. No tem mais do que dizer-me o
sitio onde tenho de me dirigir.

--Aonde te disse, ao hotel de Bragana. Se ainda l estiverem, pede ao
guarda porto que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por
Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da
saude de Jeronymo.

-- s isso o que deseja saber? Veja l; lembre-se bem, ajuntou
Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.

-- s isto.

--E o sr. fica  minha espera, aonde?

--A bordo.

--Volto portanto aqui?

--J se v.

--Quer que v j?

--Quero.

--Era melhor ter-me dito isso l em terra, ponderou judiciosamente o
marinheiro.

--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.

--Pois ento, sr. Manuel de Mendona, como bom maritimo que sou, irei
sondar esses mares desconhecidos, e tenho f em Deus, que em poucos dias
poderemos navegar de vento em ppa, sem que o mais leve indicio de
temporal nos faa perder o rumo. O que eu no quero  vel-o assim
entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na
melancolica physionomia do seu commandante.

--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com
aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos s
mysteriosas influencias do amor!

--No sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. s vezes, tudo
est no comear. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa
serena.

--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de
nenhuma tormenta.

--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonana nos protejam, commandante,
disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do
seu capito.

--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mo direita.

Mascatudo, sem esperar mais observaes, saiu da camara, e, subindo ao
convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.

--Ser este o anjo que Deus me mandou  terra, para me acompanhar nas
longas noites da minha solido? pensava elle espraiando os seus olhares
entristecidos na direco do soberbo edificio do hotel Bragana.




XV


Desembarcando no Terreiro do Pao, Mascatudo tomou o rumo do hotel.
Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia
pensado seno em Martha.

O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a
acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre
as aguas do mar, sem se possuir um corao fiel e dedicado, qual a sua
imaginao o phantasiava.

A mulher, essa divina creao que Deus lanou ao mundo para inseparavel
companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto
brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao
enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu
corao selvatico com toda a fora de um vigoroso sentimento.

 que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos,
descra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte
crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.

Amra uma vez na vida! Amra com toda a fora da sua alma, alma joven e
inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um
goso, e cada goso uma esperana, e cada esperana uma existencia de
immorredouras felicidades!

 que a ss entre o mar e o cu, o grito raivoso das paixes humanas,
ferindo-lhe os ouvidos, jmais lhe havia interrompido os extasis, quando
assentado ao leme da embarcao contemplava os astros que se reflectiam
nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento,
indecifraveis como as suas aspiraes!

Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela
inveja ou pela traio, jmais a havia sonhado o seu instincto.

Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e
possivel.

Amou!

E quo grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!

Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias
de casar.

Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas
aspiraes. Curta, porm, foi a sua ventura. A brisa da morte,
agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao
cabo de um anno flres e fructo!

O triste voltou  vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco
sulcava as aguas do oceano, via-se s vezes o tio Luiz encostado 
amurada da embarcao, contemplando o firmamento, como que perguntando a
cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.

Desde ento, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e
a da me!

--Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar  porta do hotel. Se fr como
a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que no perca esta occasio.

Cumprindo  risca as instruces que recebera, Mascatudo foi conduzido
pelo guarda porto ao quarto de Jeronymo.

Balbina j estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o
intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos
arranjos domesticos.

--Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como est o sr.
Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e
para a mulher e filha.

O enfermo, que nada comprehendra, ficou como abysmado olhando para
Balbina.

--Creio que me no expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte
do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemec estava.

--Ah! j sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos to obrigados,
exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do soph onde estava
assentada.

--At que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de
Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude.

--Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao
marinheiro. Se no tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que
ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe
que graas a Deus, o Jeronymo est muito melhor, e que tanto elle como
eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe
darmos os nossos agradecimentos.

--O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, pde encontrar-se a bordo da
sua galera, e quando alli no estiver, accrescentou, fixando
ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse,
est no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas l por isso no seja a
duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu
farei com que manh ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta
estalagem, elle os venha ver a vossemecs.

--Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o
maritimo.

Martha empallideceu ligeiramente.

--N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu
Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no corao de
Martha.

Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.

-- um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo,
emquanto se dirigia para bordo.




XVI


Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendona os resultados da sua
entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde
Tristo costuma receber as visitas de mais confiana.

O visconde, como o leitor no ignora, tinha resolvido tirar o maior
partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido
para o hotel.

Tristo acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fra consultar
cerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na
importancia de 650:000$000, para lhe no succeder o mesmo que lhe
acontecra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana,
d'onde havia dois annos no recebia juro algum.

V-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!

Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom
exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a
preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar.

--Com que ento, meu amigo, disse-lhe o visconde, j sei que os seus
protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperana,
acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes.

Por esta exuberancia de imagens, poder o leitor formar a sua ida
psychologica cerca do caracter do visconde de Coruche.

--Assim o creio, respondeu Tristo, offerecendo-lhe um magnifico charuto
havano.

--E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?

--Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porm, vejo
que tem tantos negocios a tractar...

--Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de
parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local.

--Isso  que era ouro sobre azul! No calcula a anciedade de minha
esposa em vr realizados os seus desejos. Quando se prope qualquer
coisa, no ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.

--O mesmo sou eu. Veremos quem se lana denodadamente na arena da
caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se
conceituar na opinio publica? De que serve a riqueza, se no fr
applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a no ser
para satisfazer os olhares cubiosos dos avarentos que as possuem!
passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico
elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo
de olhar pela sua casa.  que esses entes, na minha opinio, esquecidos
de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que
sente aquelle que, extendendo a mo  pobreza, leva o consolo ao ninho
do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde
sairam, querem chegar-se  aristocracia, transpr os humbraes do chefe
do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como
elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmes  atmosphera
corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven
monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mo pelo
peito, como para sondar se o corao ainda batia. J que pessoa alguma o
segue no seu heroismo; j que a maior parte d'esses satrapas o
abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes
o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei.

Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era to singela a sua
dico, to arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir,
que Tristo, apezar do seu profundo conhecimento do corao humano,
hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam
calculadas, ou se eram apenas dictadas por um corao votado  caridade.

Tristo era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a
morte que se lhe approximava sem que os lbios houvessem mudado de cr
ou o seu corao pulsado com maior violencia.

Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A
despeito de se considerar bastante avanado em annos, fiava se na sua
robustissima compleio, e, sopesando as foras, distinguiu rapidamente
o que ainda podia fazer, graas ao seu arrojo, intelligencia e capitaes.

Ento desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado
pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as
pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais
tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como
anjos  cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de
angelica expresso, volvendo-se agradecidos para elle e para sua
familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da
caridade, creu subir ao ultimo cu das ledices sociaes!

--Tem razo e muita razo, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande
impulso  nossa ida. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direco das
obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O
pobre homem por estes dois ou tres dias no poder sair de casa; vamos
ns sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?

--No de Santos. Por exemplo l para as bandas da Pampulha.

--Visto isso, vou mandar pr o trem, e entretanto subo ao quarto de
Jeronymo para lhe communicar as nossas intenes. E sem mais demora saiu
do gabinete.

--Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um
album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre s
mil maravilhas. Em todo o caso,  necessario espaal-o por mais alguns
dias, e em vez de dez ou doze contos, sero vinte ou trinta,
hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o qu? umas propriedades que eu
desejava possuir no Algarve. O homem est sequioso de gloria. Cega-o a
vaidade.  um zote que eu domino com a fora da minha eloquencia.
Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver.

N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que j estava o trem 
porta.

Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal,
dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo  egreja grande multido
contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulses,
denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e
Tristo, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.

O visconde seguia o sem dar uma palavra.

-- um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem
Tristo se havia dirigido.

--E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortalia.

--E ainda no appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros?
perguntou o visconde.

--Saber vossa excellencia que ainda no _senhora_, respondeu a
vendedeira.

--Pois se vossemec se interessa por esse homem, peo-lhe que se
encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristo, approximando-se
mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia,
diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragana, e v vossemec com
ella, para lhe dar tambem alguma coisa.

O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder
soltar palavra.

-- uma caridade, meu senhor, porque est cheiosinho de familia, disse
finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa,
meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.

--Pelo excellentissimo sr. Tristo de Almeida disse vivamente o
visconde.

Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado
por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista.

--A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pr em
pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar
de lynce.

--Assim o creio, respondia-lhe Tristo, olhando para todas as ruas por
onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem
pela primeira vez os logares que lhe so desconhecidos.

--Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que est uma casa para
alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.

--Deus permitta que esteja nas condies que precisamos.

Finalmente chegaram  rua designada pelo visconde.

A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O
dono morava longe, porm a boa vontade tanto de um como de outro
principiava a no admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para
casa do senhorio.

No dia seguinte s oito horas da manh, na rua de S. Francisco de Paula,
comeavam todos os preparativos inherentes  fundao do hospital.

O anjo da caridade, invocado por Tristo de Almeida, elevava as suas
azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio!




XVII


--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente...
e comtudo no me sinto com valor.

--Ora essa, meu capito, da melhor vontade! No sei o que li n'aquelles
olhos verdes de Martha; ainda se me no poderam tirar da memoria! Pde
ser que me engane, mas essa menina  um anjo! Ha na meiguice do seu
olhar um no sei qu, que me prendeu!

--Ser isso uma illuso da tua parte?

--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua me que faria
com que o senhor l fosse...

--Ento mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa
visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a
conversao de Mascatudo.

--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em
seguida tornou-se vermelha como uma rom. Havia tanto interesse no seu
olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que
alguma coisa se passava no seu corao.

--Pois ento, meu amigo, o que tem de ser, seja.  Deus que o determina:
iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperana,
no mesmo dia e  mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a
Tristo de Almeida, no gabinete do hotel Bragana, as graves
conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resoluo.

Subindo  tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em
companhia de Mascatudo.

Dirigiu se ao hotel.

Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um
mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso
pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia
 Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a
realizao dos seus desejos!

Batendo mansamente  porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e
melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor;
foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.

Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.

A seus ps, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de
profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de p os
contemplava!

Martha ficou immovel!

--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina,
extendendo ao mesmo tempo a mo ao mestre de obras.

Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas
aquella mo que se lhe offerecia.

--E como se sente?

--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao
mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma
cadeira.

Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado
do enfermo.

Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando
em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.

Balbina ento relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir
os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristo e a toda a sua
familia.

--E quem  esse homem to caridoso? perguntou Manuel, como se j n'esse
instante se lhe comeasse a perturbar o espirito com a ida de que essa
proteco fosse menos devida  caridade do que  formosura de Martha.

--Quem  elle, no lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas
que  um senhor muito rico, e que todo o seu fim  fazer bem  pobreza.
Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela
febre, hospital de que meu marido  o encarregado.

--E no s elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais
possivel por mim, ajuntou Jeronymo.

--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel
dirigindo-se a Martha.

--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora
para Manuel, ora para a mulher e para a filha.

--Como elle se portou com a nossa filha! No temos modos de agradecer!
disse Balbina visivelmente reconhecida.

-- merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel
olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.

Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presena do
maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no
corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.

Eram Tristo e o visconde.

--Venho prevenil-os de que j temos casa para o hospital, e que manh
por estas horas--graas  actividade do sr. visconde--j devem comear
os trabalhos, disse Tristo de Almeida, reparando ao mesmo tempo em
Manuel de Mendona e Mascatudo.

Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as
suas presenas se lhes no tinham tornado muito sympathicas.

--Estes senhores pertencem  sua familia? perguntou o visconde
dirigindo-se a Martha.

--No, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendona,
accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde
descobriu aonde estava meu pae.

--Ah! foi este senhor! acudiu Tristo. Quanto folgo em ter o gosto de o
conhecer. Se me no engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o
encontrar; porm, quando ia para lhe extender a mo, j vossa senhoria
tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristo dirigindo-se a Manuel de
Mendona e extendendo-lhe brandamente a mo.

Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendona se
haviam cravado particularmente no rosto de Tristo, mais cuidadosamente
o fixaram n'aquelle momento.

O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens j se
haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse
instante os no illucidava!

O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia
notado um estremecimento de repulso no momento em que, extendendo a
mo, a sentiu em contacto com a de Tristo de Almeida.

A Mascatudo no lhe passou desapercebido.

--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendona no
comece j a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle v que lhe
lanam a fisga, pe-se de ventas  enchente e vae tudo com trezentos mil
diabos. Elle  bom, isso l  que no ha duvida, mas, se lhe pegam fogo
ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaos.

Tristo e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois
de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua
familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de
Mendona.

--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendona,
referindo-se a Tristo de Almeida.

--No conheo, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me j ter visto
aquelle individuo, aonde no me recordo.

--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me no
engano, tambem o senhor no lhe era estranho.

--O que elle me parece  um santo homem, disse Balbina, que no via em
Tristo mais do que o protector de seu marido.

--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de
Jeronymo.

--J se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que
principiava a sentir no corao.

--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e
promettendo-lhe voltar no dia seguinte.

       *       *       *       *       *

--Ento o que me diz, meu capito? perguntava Mascatudo ao sairem o
pateo do hotel.

--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendona olhando para as
paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia
ficado a familia do operario.




XVIII


So dez horas da manh. Deitado no seu leito de precioso ebano, e
fazendo mil conjecturas cerca de Tristo, a quem na vespera havia
convidado para almoar, o visconde de Coruche, como homem experimentado,
palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.

Tudo estava prevenido para o almoo. Uma grande parte da baixella, que
dias antes tinha sido substituida no _prgo_ por outros objectos cuja
ausencia se no fazia notar, j estava sobre os aparadores. Entre os
riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e
merito artistico.

Era um centro de mesa. Representava as tres graas sustentando uma
enorme concha.

Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para
sempre chorado tio!

Fiz mal, pensava elle, em no ter convidado o commendador e Vaz
Mendes, para almoarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e
intrigarem-me com o meu Cresus!  mais prudente escrever-lhes. E sem
mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao
rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.

E pensar que tudo isto  sol de pouca dura! accrescentava elle olhando
para as estufas do jardim. No terei valor para cair com a minha ruina?
Hei de ver de p firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos
agiotas, at  ultima, todas estas reliquias? Deus no pde permittir
que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a
braos com a miseria!  foroso tomar uma deliberao. Tenho ainda uns
seis mezes para viver,  pouco; prolongue-se a existencia, custe o que
custar. Homicidio  um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu
infortunio  um suicidio. No quero ser criminoso.

Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vs j me
pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.

Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mo de atroz capitalista
te manchar o culto? Aqui nasceu meu av, aqui morreram todos os que
tiveram melhor senso do que este desgraado! Soberbo choupo para me
enforcar com o cordo do meu chambre, dizia elle como se quizesse
zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia
convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.

Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se  carteira,
e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia
em ambas a honra de virem almoar em sua companhia.

Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as
levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas
pelo jardim e dirigiu-se  casa de banho.

Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de
Miranda.

--Quanto folgo me no tivessem faltado, disse-lhes o visconde
conduzindo-os para a sala de visitas. Tristo, acrescentou elle, vem
hoje almoar commigo, era foroso pedir que mais alguem lhe tornasse
menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital.
Sabem que j temos a casa arrendada?

--Sabemos, responderam ambos.

--Um magnifico palacio  Pampulha.

--O local no podia ser mais bem escolhido, disse o commendador
reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou
Vaz Mendes.

--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que
fr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.

--Realmente  um homem de muita caridade este Tristo, interrompeu Vaz
Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.

--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de
Miranda.

--E quem seria capaz, j no digo de mais, mas de tanto? acudiu o
visconde. Isto  que  a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentao.

--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil
contos, o que deve fazer seno dividil-a com a pobreza?

--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que no so capazes de gastar
um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.

--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator
Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.

Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella
para se certificar se era a carruagem de Tristo que chegava.

No se enganra.

Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.

Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristo de
Almeida o encontro dos seus dois amigos.

 hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um
variado e bem servido almoo os esperava.

Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador
entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.

Tristo olhava para tudo com um gesto de profunda indifferena! Um
objecto apenas se tornou o alvo da sua atteno: foi o centro de prata,
de que j falamos ao leitor.

Havia muito que elle desejava occultar a sua admirao; por ultimo no
se conteve.

-- de suppr que saiba o que alli tem, disse Tristo voltando-se para o
visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graas.

--Sei.  magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel no sei de que artista
notavel, cujo nome me no lembra, respondeu o visconde.

--Vale um bom par de contos de ris, replicou Tristo dirigindo-se a Vaz
Mendes.

Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.

Est doido! pensou o commendador.

Achei! disse o visconde falando com o seu corao.

Fortes nescios! reflectiu Tristo, que pelos differentes jogos das suas
physionomias, lhe adivinhra os pensamentos.

s quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado
com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete
horas da noite.

Estou salvo! dizia o visconde,  proporo que os via desapparecer. Por
qualquer dos dois meios veno. Desfazendo me das tres graas, que j
para mim no tem graa, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze
contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma ida lhe acudisse
subitamente,  mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse
objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi
necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas
quando viu que o no era, creio que me no daria nem mais dez libras do
que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo
menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliar o
presente. No ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao
centro, visconde, e chegars ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o
_groom_ e mandou embrulhar as tres graas em finissima toalha de
Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coup_.

Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de
Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graa em casa de
Tristo, que bem caro teria de pagar aquella graa.




XIX


O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforos do
visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristo, estava prompto de
tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem
reunida ao aceio e todas as outras condies hygienicas, tornavam
aquella instituio a melhor do seu genero.

Em Lisboa, Tristo d'Almeida era o assumpto de todas as conversaes.
Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas
que dispendia.

Alm do custeamento do hospital, Tristo collocra cincoenta contos de
ris em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados
s familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por
unico legado a fome e a saudade.

Alm d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a
maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os
enfermos.

D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma
equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das
mulheres.

Tristo e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.

Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o
estado de qualquer d'esses individuos, no houve um s que deixasse de
sentir  cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristo
de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.

As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com
aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descanar
o seu vo sobre a cidade agonizante!

Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo
partira para o hospital afim de se encarregar da sua direco.

s vzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se
uma criana loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora
parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a
imaginao, ora descia aos sales do hospital, como se procurasse na
morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!

Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendona,
Martha havia depositado no mais intimo do corao todos os martyrios que
a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do
hotel.

Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua me, isto a
meia voz, sem que Balbina o notasse.

Foi n'esse momento que ella comeou a comprehender que lhe no era
totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem
era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendona, um
commandante de navios, emquanto ella no era mais do que a filha de um
operario!

N'esses momentos subiam-lhe  mente mil idas que a torturavam. Era um
tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha foras para
comprehender, nem o seu corao para os supportar.

Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.

Tel-a-ia esquecido?

Impossivel! Aquelles olhos no lhe haviam mentido! As ultimas palavras
que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha
inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? No! Morrer to novo,
to anciosamente adorado! Deus no consentiria que elle deixasse este
mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro
d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua
existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena
contemplra-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na
varanda do hotel! Ainda que Manuel no lhe respondeu ao seu olhar, podia
tudo isso ter sido um calculo.

Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppr
que era a mim e s a mim a quem elle amava, emquanto o seu corao
estava inclinado para a filha de Tristo? pensava Martha. Mas sendo
assim, tudo poderei descobrir; e se fr, buscarei a morte como ultimo
recurso  minha desgraa.

Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu s salas do
hospital.

J haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.

Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo
Martha lhe chamava, comearam a receiar pela sua saude.

Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na
fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que no arriscasse tanto a sua
saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.

Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a
afflico, alli se encontrava Martha!

Quando ao anoitecer a familia de Tristo se preparava para sair do
hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se
retirasse. Foram inuteis todos os seus esforos. Pretextando que tinha
de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as at  carruagem e voltando
depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se quella janella onde
a encontrmos no principio d'este capitulo.

Deixemos a infeliz criana enchugando em silencio as suas primeiras
lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragana.




XX


So nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de p, encostada a um
bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido.

Olympia, agitando-se impacientemente pelo salo, contempla de vez em
quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem
depressa lhe marquem a hora da ceia!

Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite,
que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e
melancholico.

--No te demores ahi  janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se
para sua filha. A noite, como vs, comea a arrefecer, e os tempos no
esto para brincadeiras.

--No recee, minha me, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui to bem.

--Faze o que quizeres.

--Em todo o caso, se minha me est com susto, eu retiro-me, disse
Magdalena saindo da janella.

--Sabes que j me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. So
estas horas e elle sem apparecer.

--E  verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. So perto de nove e
meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e no se lembra que o
esperamos para ceiar.

--Decididamente no pensas n'outra coisa seno em comer, murmurou
Magdalena sorrindo-se para a irm. No sabes que a dieta  o melhor
preservativo.

--Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte,
irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia.

Deram as nove e tres quartos e Tristo sem apparecer.

--Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria
Egypciaca.

--Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me
do alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietao!

Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristo acompanhado
pelo visconde.

--No me tornes a apparecer to tarde, disse D. Maria Egypciaca
voltando-se para o marido. No sabes os cuidados em que temos estado,
tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo
e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.

--Desde que sairam do hospital, no podem suppr o trabalho que tivemos
se no fra Martha...

--Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o
visconde.

--Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.

Magdalena crou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?

As suspeitas da infeliz, no eram totalmente despidas de fundamento.
Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendona quando elle fra
visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas
maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que
se tornasse sympathico. Manuel no o havia notado ou, pelo menos fingiu
ignoral-o.

Orgulhosa em demasia, Magdalena jmais teria descido a declarar-se-lhe.
Alm d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do
operario no era totalmente indifferente a Manuel de Mendona. Quanto ao
que se passava no corao de Martha, era um problema difficil de
resolver.

Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico
telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado
 pra. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe
apparecra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando
o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma
embarcao que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos.
Manuel saa do escaler e subia para bordo.

Desde essa tarde, Magdalena no perdia ensejo de olhar para aquella
pequena embarcao, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendona
estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.

-- de suppr que ainda no tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia
deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.

--Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristo,
passando o brao pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a
sair da sala.

Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristo havia
comprado, sobresaam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia
presenteado o seu amigo.

[Ilustrao:--Vocemec anda sobre as aguas do mar?... (_pag. 165_)]

--Eis a alegria da meza, disse Tristo voltando-se para o visconde e
apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro.

--O que lhe peo, replicou o visconde,  que me no esteja todos os dias
envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o
de agradar a vossa excellencia.

--No me canarei de o gabar, continuou Tristo, offerecendo um logar ao
visconde entre sua esposa e Magdalena.

--Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o
titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde
voltando-se para D. Maria Egypciaca. J tres ou quatro pessoas me
disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus servios,
tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me
respondeu? que no queria acceitar coisa alguma; que para recompensa,
bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util  humanidade. Isto 
luz da philosophia  uma grande verdade, mas para o mundo acho uma
loucura!

--Sou quasi da opinio de meu marido. Basta que se chame Tristo de
Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, 
razoavel o seu desejo em o querer conservar at ao ultimo momento da
vida.

--So vossas excellencias da opinio de sua me? perguntou o visconde
dirigindo-se s filhas de Tristo.

--Pela minha parte -me totalmente indifferente, respondeu Magdalena.

--E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para
Olympia.

--Sou da opinio de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo
croquette.

--Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de
conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez.

Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristo brilharam com
uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle
nunca poderia suppr, era que obtivesse o titulo de conde!

O visconde comprehendeu-o immediatamente.

Temos homem! pensou elle. O ensejo  favoravel; ha de ser hoje mesmo!
Est proximo o dia vinte. Se at esse praso no levanto dinheiro, a
ruina  certa! Vo salvar-me as tres graas e o titulo de conde.

A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa,
pensava de ante-mo na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar.
Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais
harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais
euphonico lhe parecia.

Tristo, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora
para as filhas, como que desejando que a conversao continuasse sobre o
mesmo assumpto.

Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que
se lhe preparava!

Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e  ceia, era
Magdalena.

A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o cu! A sua ventura estava
n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares
entristecidos pelo labutar de uma eterna recordao.

       *       *       *       *       *

Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristo,
teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditao,
folheando um livro que mandra comprar, cujo titulo era _Resenha das
Familias de Portugal_.

Olympia reclinada n'um soph fazendo o chylo, e resonando profundamente.

Magdalena encostada  janella contemplando as estrellas que se
reflectiam sobre as aguas do Tejo.

E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e
Tristo de Almeida at ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo
dizer em voz baixa ao visconde:

--Sendo tres horas da tarde, poder ir receber os trinta contos de ris
a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peo
lhe encarecidamente que se lembre de mim.

--Ha de ser com uma condio, respondia lhe o visconde.

--Qual?

--Acceitar o titulo de conde.

--Acceito.




XXI


No dia seguinte quelle em que praticmos a indiscrio de fazer com que
o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristo de
Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia,
assentado  secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e
ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.

Os moos estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle
estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da
sua casa, e a unica esperana que lhes restava, eram as promessas de um
agiota a quem tencionavam vender as dividas.

--Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o
visconde havia arrancado  miseria.

--Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe
havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda no ha muitos dias que elle
perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, _x rlla_.

--D-me elle o que me deve, o mais tanto se me d como se me deu! Venha
o _baguinho_, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado,
como roubado!

--O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto.
Tomra eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha l melhor
patro! J o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe
apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da
secretaria preta, quantas vezes me dizia: Pe l a conta e tira o
dinheiro. Patres assim, agarral-os  que custa.

--Pois sim, tudo isso  uma grande verdade, mas, o que  certo,  que
est aqui est sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.

--Isso  l com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu
os bonecos de prata...

--O qu?

--Lhe tenha emprestado algum dinheiro.

--Anda c dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? L que
elle tenha querido encostar o homem, no me admira, mas que o brazileiro
caisse ao tiro... essa  que no pega.

--Que elle est muito contente,  que no ha duvida.

--J tem o _bago_ na mo, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas
ninguem o aturava.

--No sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me
d que a agua corra para baixo como para cima!

--O que parece impossivel  que vosss estejam aqui n'este conluio,
murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um
velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a
quem elle deve mais do que a vosss todos juntos, e ainda no abri bico
contra elle.

--E o que tem vossemec com o que ns estavamos falando? disse o
cocheiro approximando-se do ancio.

--Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente
a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a
certeza que vae tudo para o meio da rua.

--E quem lh'o _havera_ de dizer? acudiu um moo de cavallaria.

--Eu! No serei capaz de lhe contar tudo, _tim tim, por tim tim_?

--Eu perca a minha liberdade, se vossemec tornasse a comer mais po.

--Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho
perto de setenta annos, mas, frangos assim, para os depennar basta-me a
mo esquerda.

--Est bom, est bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer
fazer _banz_, v para o meio do pateo, que no  este o logar para dize
tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razo, ajuntou elle
olhando para o velho.  o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criana
e no gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar
as palhinhas por elle.

--Entre vossemec tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o
partido do moo da cavallaria.

--Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo
no faz voss vasa. C por mim, no lhe digo quantos annos tenho, mas se
me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mo de
vacca que fica sem saber da cara por tres dias.

N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que
mandava chamar o mordomo.

--Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no
escriptorio.

--Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que
apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes
que no me chama Deus para esses caminhos.  preciso tambem tomar conta
dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta.
Comprehendes?

--Perfeitamente.

--Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! No te parece?

--Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. No ha maior cafila do
que so os criados d'este tempo.

--Porque dizes tu isso?

--Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. No imagina o prazer
que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente.

--Bem, podes retirar-te.

D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz
Mendes onde Tristo de Almeida havia mandado ordem pela manh para que
entregasse trinta contos de ris ao visconde de Coruche.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

--E para que  todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o
banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobia.  para algum
outro hospital aonde os meus servios esto dispensados?

-- para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo
n'algibeira--sem os contar--os maos de notas que recebra da mo de Vaz
Mendes.

--Repare vossa excellencia que no contou esse dinheiro, ponderou-lhe o
usurario.

--Nunca contei dinheiro; para esse fim l tenho em casa um criado que
no faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche.

Pondo insolentemente o chapu, o fidalgo cortejou o banqueiro e
retirou-se para casa.

--Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um soph.
Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um
magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os
aposentos de um perfume doce e innebriante!




XXII


Fortes nescios, que ida formam de mim! O visconde imagina que sou
algum minhoto, que foi d'aqui para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio
do patro, e que por uma frma ou outra, adquiri a riqueza que hoje
possuo.

Se elle soubesse que fra o commendador Felix Justino de Araujo quem
lhe havia emprestado os trinta contos de ris.

Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava elle, passeando ao mesmo
tempo pelo seu gabinete. Emprestei-lhe trinta contos, e  possivel que
nunca mais os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico centro de
Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem que um filho da Gr-Bretanha
veiu expressamente a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o
aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!

No lhe descobriria elle a assignatura? O visconde deve estar
satisfeito de me ter logrado! Como elle dir de si para si: presenteei-o
com um objecto que vale mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e
o tezo caiu no lao!

Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. Para que quero eu um
titulo? s se fr, para satisfazer os caprichos da Maria. O que j me
vae aborrecendo alguma coisa  o tal hospicio. Ainda que nunca houve
molestia que sympathizasse com a minha pessoa, pde apparecer alguma, e
ter o mau senso de me levar d'esta para melhor. Parece-me que vou dar
parte de doente.

Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio seria aquella mulher que
veiu hoje procurar o Jeronymo! Pareceu-me reconhecer as feies. Se no
tivesse a certeza que D. Marianna de Mendona tinha morrido doida no
hospital de S. Jos, havia de dizer que era essa velha. Que similhana,
meu Deus! E se fosse ella? Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fr a
devolver tudo quanto d'aqui levei... Nada... os tempos no esto para
graas. Se Domingos de Andrade no houvesse tido juizo em Pernambuco,
que teria sido do commendador Felix Justino de Araujo, que passou a ser
Tristo de Almeida emquanto se no chamar o conde de... O conde de qu?
do que elles quizerem ou do que minha mulher escolher.

Agora por isso, no tenho mais remedio seno comprar alguma propriedade
de grande valor. Vou tractar d'isso para a semana que vem. Encarrego o
visconde de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos suburbios.
Est decidido, sympathizei com aquelle estroina. Parece-me que o estou a
ver na casa branca da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro
demonio, aquelle visconde! Ainda no vi homem mais intrepido ao jogo!
Agora por jogo, no tardar muito que principiem a fazer todas as
diligencias para me _apanharem_. Vem bem!

N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado annunciando o
visconde de Coruche.

--Que entre, que entre o meu caro visconde, disse Tristo.

O fidalgo no se fez demorar.

--Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde extendendo a mo
para o seu amigo. Estive hontem no gremio, e durante a noite no se
falou seno em vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu
l  saida do theatro, disse-me confidencialmente que seria o
encarregado por sua magestade de lhe perguntar que nome escolhia para o
titulo de conde, que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem
mesmo para lh'o vir participar.

--D-me sempre um grande prazer a sua companhia mas para um caso
d'esses, seria desnecessario.

--Vejo pela sua indifferena que ainda insiste, apezar da promessa, em
no acceitar o titulo! Deixe-se d'isso, meu amigo, um titulo  sempre
util; e muito util.

--Faam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; sujeitar-me-hei ao que
fr do seu agrado.

--No v o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser concedido, no 
favor mas sim uma retribuio honorifica pelo muito do que este paiz lhe
 devedor? Diga-me uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar
um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa excellencia se
tivesse distinguido n'uma batalha? Creio que no. O mesmo se d n'este
caso. No est vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua
familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode alguem lanar-lhe
em rosto a injustia da merc? Quem teria o descaro de lhe contestar
esse direito? Ninguem, absolutamente ninguem!

--Isso l  verdade. Que eu tenho arriscado a minha vida e de toda a
minha familia, no merece duvida alguma.

--Ento, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, no falemos
mais n'isso, e deixe correr o negocio.

--V feito, v feito! gargalhou Tristo de Almeida.

--Tem hoje muito que fazer, sr. Tristo?

--O que sabe: ir ao hospital.

--E depois?

--Depois mais nada.

--D-me a honra de ir jantar a minha casa?

--Com muito gosto a receberei.

--Vo l uns amigos a quem desejo apresental-o.

--Fique certo.

--Ento s cinco?

--Conte commigo.

--Peo-lhe encarecidamente que no falte, accrescentou o visconde n'um
cerrado _shake-hands_, e saindo do gabinete.

Trata-se de me _apanharem_ ao jogo, pensou Tristo. Veremos quem fica
logrado, accrescentou elle extendendo-se sobre um soph.




XXIII


Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem
um lauto jantar, dirijamo-nos  Rua do Meio, a casa de Jeronymo.

So tres horas da tarde. O operario,  mesa do jantar, entre Marianna e
sua mulher, olha de vez em quando para a vidraa, como para ver se ainda
contina a chuva.

Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna
parece acompanhal a nas suas tristes meditaes.

--Vosss no me diro o que tem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida
se apresenta debaixo dos melhores auspicios,  que principiam a
entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e
jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar
de riso. Valha-nos Deus! No ha felicidade completa.

--Isso  uma desconfiana tua, respondeu Balbina.

--A mim no me enganam vosss, replicou Jeronymo, levando aos labios um
copo de vinho. Pela minha parte, ando c como o outro que diz, meio
desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle,
voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo 
esposa do operario.

--E de que ests desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se
para seu marido.

--Se eu no desabafasse com vosss, que so a minha familia, com quem
havia de fazel o? Creio que no era com a tia Monica ou outras
quejandas! L vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a
nossa Martha est assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma
pancada que me deu o corao; talvez que no passe de um mu juizo. Mas
o que  certo,  que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de
alegria, seno duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. L isso 
que ninguem me pde negar.

--Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta
agora  tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste,
respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.

--Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna
voltando se para o operario.

--Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?

--No sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me
disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por fora
um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a
nossa filha.

--Tudo isso  uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos 
sempre uma infelicidade. O corao de Martha ... nem eu mesmo sei a que
o compare.  uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as
dobra, mas se l vem um tufo... ficam logo quebradas pelo meio. Alm
d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e 
capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto est soffrendo.

--Sou da sua opinio, sr. Jeronymo; Martha  um anjo, e ser capaz de
morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!

--Eu s o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo
isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.

--A sr. Marianna que nos aconselhe, que  mais velha e tem mais mundo
do que qualquer de ns, acudiu Balbina dirigindo-se  sua amiga e
companheira.

--Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia
Marianna. Se esse individuo  um homem de bem como eu supponho, e se
Martha lhe no foi indifferente,  de crr que mais dia menos dia o
possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe.
No lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje
o dia. Quanto ao que vossemec diz, que uma grande distancia os separa,
no me parece. No pde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo
assim, no vejo desegualdade de pessoas.

--E se o no fr? perguntou Jeronymo. Se fr um fidalgo, um ricasso...

--Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem  que eu tenho a
certeza que elle . E a prova foi no ter tornado a apparecer.

--Isso l  que  a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos
meios para a ter visto.

N'este momento, parou um trem  porta do operario. Eram as filhas de
Tristo que vinham trazer a casa a sua amiga.

--Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha,
quando Martha se apeava do trem.

--Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, ver aonde
aquillo vae parar.

--Ainda bem que j lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir
informaes a seu respeito.

--No sabia d'isso, visinha, no me tinha dito... Quem foi?

--Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.

--Desde que se meteu com as fidalgas j no pde andar se no de trem.
Saffa, demonio! E no tem medo das ms linguas....

--Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha,
mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos no
podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos
tristes.

Despedindo-se das filhas de Tristo, Martha entrou em sua casa.

Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das
palpebras inferiores at s proeminencias malares, tornavam-lhe mais
scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se
tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente
inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.

A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

--Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o
ternamente na fronte.

--Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e
ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos;
onde esto as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas
companheiras de collegio? Onde esto emfim os teus sorrisos, que eram a
minha ventura? Pensas que s eu tenho notado a tua tristeza, ha oito
dias a esta parte? Enganas-te. J tua me a percebeu e a tia Marianna, e
todos, at o teu co! para quem j no tens um s carinho. Dize-me o que
sentes, filha, e se eu, ou tua me n'alguma coisa te podemos valer, s
franca, Martha. Quem melhor do que teus paes podero saber os teus
segredos? Martha, lembra-te que s a unica alegria que eu e tua pobre
me temos n'esta vida. Se s boa, como te creio e como todos te
consideram, abre-me o teu corao, no me occultes coisa alguma. Vem,
filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar
para a terra para onde eu no quero que te deixes ir.

Pobre Jeronymo! A dr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna
tinham se afastado para occultarem as lagrimas.

Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignao.

--Que me respondes, Martha? continuava o operario.

--Que lhe posso eu responder meu pae.

--Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a
cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.

Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua
filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em
seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem
lhe faltar coisa alguma a no ser a sua familia que ignorava aonde elle
estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Ento a
filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como
uma louca.

Pessoa alguma lhe dava relao d'elle. A triste desanimra!

Finalmente encontrou um individuo moo, bello, virtuoso. Esse
prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o
desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.

Grata a esta primeira prova de dedicao, a filha do operario
principiou a amal-o em silencio!

--No me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando
desembaraar-se dos braos de Jeronymo.

Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao corao, essa
criana cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a
pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... est como
tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vr
assim.

--Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braos e fitando a
com os olhos cheios de lagrimas.

Martha no proferiu uma palavra.

--No me illudas, filha, esse homem  amado por ti.

--Esse homem, balbuciou Martha,  amado pela filha do nosso protector!
Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo
desanimada nos braos de seu pae.




XXIV


--Aposto a minha cabea em como o visconde ha-de ser to nescio que se
no lembre de arranjar um montesinho antes da ceia.

--Se o no fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, no , decerto.

--Tambem, se queres que te diga a verdade, no lhe encontro grande
esperteza. J l vo duas heranas importantissimas, e ambas tiveram o
mesmo fim. Se isto  ser esperto, est o mundo cheio de espertalhes!

--Sabes o que eu chamo ser esperto,  saber lavar a sua roupa em
familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas no lhe tem sido
testemunha o seu travesseiro? V tu, se j alguem deixou de lhe
encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde est arruinado, 
impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos
de um anno ho-de vel-o miseravel, porm desde que morreu o conde, no
abandonou o seu palacio, ainda no despediu um criado, ainda no vendeu
um cavallo, ainda no deixou de dar almoos, jantares e ceias! Est
arruinado: to arruinado que no ha muitos dias deu um presente, que
valia mil libras. Quem d um presente de mil libras no pde estar
pobre.

--Isso leva agua no bico!...

--E que importa? O que no ha duvida,  que pessoa alguma seria capaz de
fazer o que elle tem feito.

--Eu tambem no lhe contesto o seu cavalheirismo.

--E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomra eu ter o dinheiro
que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande
espertalho que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.

--Felix de Araujo? No me recordo.

--Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando
por ter uma casa commercial.

--Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de
quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital
de S. Jos. J sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraa
de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?

--Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a
terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, no tenho razo de queixa
da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.

--O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...

--Aquillo  que eram mos! Aquillo  que era dar um _salto_ com limpeza,
sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco
dados! e _tirar_ ao pegote!

-- verdade,  verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do
baro. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas  banca
portugueza.

--Se aquelle homem no tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda
tinha voltado a Portugal...

--O que estar fazendo o visconde?

--Como no usa de cerimonia para comnosco, provavelmente d as suas
ordens para que tudo se faa segundo os seus desejos.

Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.

O primeiro, era um jogador de profisso e refinado velhaco, ao qual
todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que 
susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.

Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde
o jogo era permittido por distraco, Gil de Carvalho introduziu se nos
principaes sales de Lisboa.

Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre
delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educao!

Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que
estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo,
attribuiam lhe riquezas enormes.

Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu
interlocutor. Herdra de seus paes uns vinte ou trinta contos de ris e
dissipra-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo,
que ainda hoje o dominava com poder immenso!

Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de
Olho. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais
algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas.
Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.

Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Alm do seu
vivssimo _esprit_, tinha outra qualidade que o tornava estimado em
todos os circulos: no dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada,
como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.

Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava
para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos
reposteiros e appareceu o visconde.

--Peo-lhes que me desculpem esta demora, mas no me foi possivel
evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.

--Pela minha parte ests desculpado, disse Bernardo de Paiva,
sorrindo-se para o visconde.

--Repito o mesmo, acudiu Gil.

--No adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao
visconde.

--N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de
Carvalho.

--No me recordo respondeu o visconde com modo distrahido.

--Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador Araujo que ia  _Casa
Branca_, do Arco do Bandeira.

--Ah! J sei, respondeu o visconde.

--Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e s agora foi que me
lembrou...

--Quem?...

--O teu amigo Tristo d'Almeida.

--E  verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia a mim que j tinha
visto n'alguma parte uma physionomia que se lhe assimilhasse.

-- um homem muito sympathico aquelle seu amigo, interrompeu Gil de
Carvalho.

--Aonde o viu? perguntou o visconde.

--Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. A proposito, sabe se
elle joga?

--Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha por modo algum que se
jogasse em minha casa, accrescentou elle, que tudo havia planeado para
esse fim.

--E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda profundar-lhe o
pensamento.

--Isso ento era differente. O meu dever  tornar-me sempre amavel para
com as pessoas que me do a honra da sua companhia.

--Sou da tua opinio, disse Bernardo de Paiva, que lia no mais intimo da
alma do visconde.

N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta da loja, e d'alli a
pouco entrou um criado de libr, annunciando Tristo d'Almeida.

       *       *       *       *       *

--Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar o desejo que tenho de
estar na sua companhia, disse Tristo, depois de falar ao visconde e aos
seus amigos. Se no fra isso teria ficado de cama.

--Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente o visconde.

--Quanto pde imaginar de mais infernal! Todos os symptomas que
apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? tomei um _grog_ e fui para o
hospital.

--Que valor! interrompeu o visconde.

--Quando alli cheguei, continuou Tristo, augmentaram-se-me os
padecimentos. Querem saber os resultados? Vo admirar-se da fora da
minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou
nos braos. Aquella rapida transposio da vida para a morte, aquelle
instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e
abstraco, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela
confiana em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me
sentir completamente restabelecido.

-- mais uma prova da sua religio, meu caro amigo, interrompeu Bernardo
de Paiva. Os que se aterram em presena do moribundo e na observao do
cadaver,  porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos
preconceitos do vulgo, apegando se  vida, e receiando a morte, que,
segundo as suas crenas, os colloca em contacto com a Divindade, no so
mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e
nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e
illustrada, no  mais que o principio de uma vida infinita.

Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que
lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as
suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraa nas
suas longas noites de interminavel soffrimento.

Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno
castigo! Que melhor somno para o desgraado do que o da morte, dormido
sob a lousa! Preferem o bulicio da vida  paz do eterno repouso, o
andrajo ao sudario, a fome  anniquilao!

--Isso  uma grande verdade, mas a maior parte do mundo no pensa como
vossa excelencia, respondeu Tristo. Duas ou tres vezes tenho visto a
morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia
bastante socegada para me apresentar deante de Deus! No receio o seu
julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor
desmedido, emquanto eu no passava de um pobre diabo a quem os peccados
no perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo
procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por
vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o
seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo no desprezo. Deus que fez
o homem  sua similhana, ao lanal-o ao mundo, revestiu-o de bons
instinctos, porm, a sociedade envenenando-lhe o corao, insinuou-o no
crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Ento os seus
olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o corao propenso
sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razo e
lanou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a
humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perda, espera
o momento supremo para indultar o peccador e  humanidade que o
perverteu! Esta  a minha opinio.

--Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de
Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo  que foi sorte,
accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupo havia
produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e
bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca.

--Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o
visconde, emquanto Tristo de Almeida o contemplava com simulado
espanto.

--Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando,
respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda
reflexo.

--Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando
intelligentemente para o visconde.

O magnate conservava-se frio e sereno como um _yankee_, entre os quaes
largos annos havia habitado.

--Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristo.

O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.

-- uma coisa que s vezes me diverte, respondeu-lhe Tristo. No
admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um
jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distraco, ainda que as
poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade
extraordinaria! A ultima foi em Frana, aonde perdi n'uma s noite
duzentos mil francos. O divertimento foi caro,  verdade, mas
distrahi-me.

Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de
visivel alegria. Tinha as suas esperanas realizadas!

O visconde nem pestanejou!

Assim estiveram conversando sobre varios assumptos at que appareceram
todos os individuos que o visconde havia convidado.

s seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente
adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitao
maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como
sempre, esteve esplendido de graa. Tristo de Almeida com grave
assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do
visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente
opposto ao que o suppunham.

Este homem  um mysterio, pensava o visconde, ao mesmo tempo que
saudando-o em repetidas libaes, fazia as maiores diligencias de o
toldar.

Inuteis foram porm todos os seus esforos; o convidado bebia por elles
todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a
serenidade da sua imperturbavel physionomia.

s nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala,
onde os esperava o caf.

Tristo de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, conhecia todos os
individuos que estavam presentes, e melhor do que a elles todos a Gil de
Carvalho, com quem por mais de uma vez se havia associado.

Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade as sensaes do
jogo, Tristo propoz ao visconde que se fizesse monte.

--Esto em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu tambm no desgosto
de vez em quando arriscar duas ou tres duzias de libras.

Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de Paiva exultou de
contentamento. Encontrava um meio de adquirir uma ou duas duzias de
moedas, jogando sempre na _alforreca_.

--Quem ha de fazer o monte? eu no por certo, disse o visconde, foi
coisa para que nunca tive geito.

--Nem eu to pouco, acudiu o commendador.

--Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo de Paiva,
dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro de Tristo de Almeida,
pertence-lhe por direito.

--Que o faa o sr. Gil de Carvalho que est mais acostumado a pegar em
cartas.

--Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso pouco importa,
mando-as alli buscar ao Club, disse o visconde.

--Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, mettendo as mos no
bolso do peito da casaca, minha mulher tinha-me pedido hoje que lhe
levasse dois ou tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui
esto. Podem servir estas.

--Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se
intelligentemente para o visconde.

Est a mesma coisa, murmurou Tristo de Almeida, de si para comsigo.

--Vamos fazer uma _vaca_? disse o visconde e em voz baixa olhando para
o seu hospede, emquanto Gil de Carvalho se approximava d'uma banca para
melhor contar os baralhos.

--Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristo de Almeida.

--Seja.

       *       *       *       *       *

D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho fizera de monte,
haviam passado para defronte de Tristo de Almeida, acompanhadas por
mais do dobro que os outros peritos tinham perdido.

Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.

Tristo jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho tinha perdido a
fora moral.

--Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.

--Sirva se, disse-lhe Tristo de Almeida empurrando-lhe um mao de
notas.

O banqueiro acceitou.

Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo o dinheiro que
estava na mo do intrepido jogador havia passado para o banqueiro.

Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma alegria feroz.

Tristo de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico charuto, e
sorriu-se para o visconde.

--Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou elle, tirando da
algibeira do peito uma carteira de chagrin.

--Continua a sociedade, visconde? disse o magnate voltando-se para o seu
amphitrio.

--Continua, meu amigo.

Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir a Tristo de
Almeida.

--Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao sair a segunda carta
do algor debaixo. Gil voltou as cartas a tremer, e  segunda appareceu
um duque.

--Vou a casa buscar dinheiro, no tenho f alguma em jogar com capitaes
emprestados, disse Gil de Carvalho, collocando o baralho sobre a banca,
e saindo sem quasi dar tempo a Tristo de Almeida e ao visconde de lhe
fazerem os seus offerecimentos.

Tristo havia ganho tres contos e seiscentos mil ris.

--Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, damos hoje a
desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, ou guardamos isso para outro dia?

--Ficar para outro dia. Convinha me muito ir ao segundo acto do
Trovador.

       *       *       *       *       *

s onze horas os convidados retiravam se, e Tristo de Almeida na
carruagem do visconde segua com elle para o hotel.

Mais tarde parava um trem  porta do visconde. Era Gil de Carvalho que
fra a casa buscar mais dinheiro, e uns certos baralhos em que as cartas
se pegavam umas s outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.

--Os senhores j l vo para o theatro, disse-lhe o guarda-porto.

Gil cuidou morrer de desespero!




XXV


Alguns esclarecimentos cerca de Manuel de Mendona, de quem vossa
excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido.

Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario,
saiu do hotel Bragana--vespera da retirada de Jeronymo para sua casa--o
maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porm,
reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda
forcejar com o corao, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o
consumia!

Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza
 recordao de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que
Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou
pedir a filha de Jeronymo.

No dia seguinte ao romper da manh j elle tinha procurado Mascatudo.
Fechando-se ambos na camara, participra-lhe a sua resoluo.

O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraou de
boa mente a sua determinao: elle, que sobretudo no comprehendia a
verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia!

--Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendona, irs informar-te pela
visinhana sobre a conducta de Martha, e se fr como eu supponho, e
espero em Deus que seja, manh mesmo irei pedil-a a seu pae.

Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu
comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendona, encostando-se 
amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem
familia, sem parentes! Que me importam os brazes dos meus antepassados!
Em que concorreram elles para esta pequena posio que hoje tenho na
sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e s a mim! Est decidido, em oito
dias, Martha ser minha mulher.

D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se
de Mendona.

-- ordem, meu commandante.

--Ests prompto?

--Prompto.

--Sabes o servio que me vaes fazer?

--Ora essa!

--Sers discreto, reservado?

--Como uma carranca de pra.

--Bem estamos. Sabes aonde ella mora?

--Rua do Meio,  Lapa.

--Numero?

--Cento e doze.

--Tal e qual. Chegas assim como quem no quer a coisa, e pergunta alli
pela visinhana, quem  pouco mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida 
moral e religiosa, se  um homem trabalhador, etc., etc.

--Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.

--Em primeiro logar, para que se no desconfie,  falar s de Jeronymo;
o resto, vem mesmo sem o perguntares. Entendes bem?

--Se entendo... O commandante vem tambem p'ra terra?

--No, espero aqui a resposta.

--Ento s ordens, e que a Senhora da Bonana v em minha companhia.
Descendo para o escaler sentou-se  pra e mandou remar.

Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena tenda da rua da Lapa,
que ficava quasi em frente da casa de Jeronymo.

Approximou-se do balco e pediu de comer.

 proporo que comia e bebia, o marujo ia adquirindo uma certa
intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe de vez em quando do seu copo,
em que elle pegava sem se fazer rogar.

--Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. D-me noticias d'um
mestre de obras, que d'antes aqui morava, chamado Jeronymo? Ha quantos
annos o no vejo!

--Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo tempo para a casa do
pae de Martha, ainda alli mora n'aquella casinha.

-- um bom homem!... E sua mulher ainda vive?

--Ainda.

--A filha  que deve estar uma senhora?

-- toda _mystica_! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se com a
formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo lh'o offerecer, o resto do
vinho que estava no copo.

--Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mascatudo, olhando de
soslaio para a meia canada que o mooilo acabava de despejar.

--Ha pouco tempo succedeu uma _disinfelicidade_ ao pobre Jeronymo,
continuou o caixeiro, que lhe ia custando uma grande _felicia_.

--Sim? perguntou Mascatudo.

-- verdade.

--Ento como foi isso?

--Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem
agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle
ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a
hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo
empregou o, dando-lhe quinze tostes por dia. Ora veja vossemec como o
diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um
fidalgo que me atropellasse com a condio de me dar, j no digo quinze
porm cinco tostes por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita
casa, e o miseravel do patro ainda me no augmentou o ordenado. Aqui
estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, no me
chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou
elle, mudando de tom, creio que j despejou todo o vinho. Quer que torne
a encher?...

--Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.

--E ainda ahi no fica, como ia dizendo. Em tal graa caiu a sua familia
para com os fidalgos, que  raro o dia, em que as meninas no vm no seu
proprio trem buscar a filha de Jeronymo.

--E ella porta-se bem?

--Diziam que sim, porm agora, j ha quem lhe rosne no credito. Ora
aqui para ns tem razo! Uma rapariga to bonita como a Martha, e pobre
como , andar no luxo em que anda!

--Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal
fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no
corao.

--Tambem isso  verdade; pde muito bem ser, e n'esse caso ento, no
lhe deviam cortar na pelle.

--E quem  que lhe corta na pelle?

--Olhe, alli vem uma das visinhas que no lhe faz l muito boas
ausencias: a tia Monica.

N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta
na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.

--Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para
Mascatudo.

--Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da
intrusa.

--Ento como vae isso hoje l por baixo a respeito da febre, perguntou o
caixeiro, que j sabia que era a hora em que ella vinha da baixa.

--A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera
abaixando ao mesmo tempo a cabea. Hontem, continuou ella, disseram-me
que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem
uma procisso como tantas vezes lhes tenho pedido!

--Porque no mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro  tia
Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo.

--Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a
similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. Andr!

--Pelo que vejo, no  muito amiga do nosso visinho!

--E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de
similhante homem?

--Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que
tem bom corao. L o que  verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver
mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui
atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em
sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com
tanto amor a tractaram, que hoje est viva e s.

Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa aco de Martha.

--E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. S para que depois se
dissesse pela visinhana que eram uns santinhos. Que santinhos de pau
carunchoso!

--Seja l pelo que fr, o grande caso  que salvaram aquella embarcao
que ia dar  costa, acudiu Mascatudo.

--Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemec
anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo
agora acabo de rezar duas estaes, o livre de todos os perigos, meu
filho; e possa tambem a Senhora da Bonana andar sempre em sua
companhia. Padre nosso que estaes nos cos... continuou ella.

--Ento o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou
Mascatudo, comeando a tratal-a com certa confiana.

--Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que
consente que sua filha esteja fra de casa, e que venha a altas horas da
noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem ssinho com
ella dentro d'um trem. Quem elle  ainda eu no pude descobrir, mas,
agora que felizmente j consegui encaixar-me no hospital e fazer
conhecimento com as meninas... vou descobrir quem  o melro.

Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava
pura como um anjo, comeava a duvidar da sua virtude. E no tinha mais
remedio seno contar tudo que ouvira.

--Agora que j tenho l entrada como lhe ia dizendo,  que hei de saber
qual dos amigos do fidalgo,  o que est acostumado a acompanhal-a. E a
boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil
maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a pea que  a creancinha!
Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andar! Que
Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a
cabea.

Outro que no fosse Mascatudo, teria regeitado as opinies da execravel
beata, porm ferido por aquella primeira impresso, o caracter fogoso e
ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo
quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagaes, e abandonando ao
caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que
devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente
da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e
entrando nas Janellas Verdes, alcanou a rocha do Conde de Obidos, aonde
embarcou para bordo da galera.

Manuel de Mendona, passeiando  pra, aguardava com impaciencia o
resultado da commisso do marinheiro.

Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do
seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam
de Manuel de Mendona, afim de lhe participar o que se havia passado.

O escaler abordou finalmente  galera e Mascatudo subiu a escada.

--Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o  sua camara.

Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido.

Manuel de Mendona sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles
horisontes, toldados ento por uma neblina espessa, fitou a vista no
oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse.

N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou
estar quinze dias de cama.

Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as vises da febre,
se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na
varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para
descobrir o rasto do commandante da galera.




XXVI


--Ter a bondade de dizer  sr. D. Magdalena que est aqui a sua
pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-porto do
hospital.

--A sr. D. Magdalena no pde agora recebel-a; acha-se  cabeceira de
um doente que est por pouco... respondeu-lhe o guarda-porto.

--Pois sim, pois sim, v sempre dizer-lhe que  a tia Monica, a quem deu
ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; ver se me
fala ou no.

--J lhe disse a vossemec o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me
importunar mais.

--Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que
desejo, e vers como te ponho no andar da rua, s pelo mal que me ests
tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem c vir, e eu te
direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha.

--Ento vossemec, vae ou no vae! ajuntou a tia Monica em voz alta,
voltando-se de novo para o porteiro.

--E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-porto,
voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se
vossemec continua a atormentar-me subo l acima e digo ao mestre
Jeronymo que lhe pegue por um brao e que a ponha fra da porta. Forte
impertinente! cruzes, canhoto!

--Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz
de pr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do
dono da casa! Faa isso, sr. Antonio, at desejo que o faa. Ande,
ento...

N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou
apressadamente no hospital.

--Tem a bondade de dizer  sr. D. Magdalena que est aqui a tia Monica,
e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou,
disse a beata, perseguindo a mulher.

--Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a
escadaria.

--Vossemec no tem vergonha de estar assim com essa teima?

--Pois veremos quem vence--se sou eu ou se  vossemec; e sentando-se
tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica comeou a
olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.

Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da
sr. D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.

A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da
sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixo, subiu afoita as
escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o
ensejo lhe fosse favoravel.

A principio, o porteiro rugiu de colera, porm, vendo a inutilidade do
seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura
continuou na sua constante operao.

Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irm o
moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a
velha.

Quando ella entrou, Magdalena, encostada  varanda, contemplava o Tejo,
no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendona, e n'esse a vida que para
ella lhe fugia!

--Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.

--Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando
beijar a mo que Magdalena lhe extendia. J lhe disse que no quero ver
esse rosto to pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se
para mim.

--Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.

--Alguma coisa se soube. Ainda no  tudo quanto desejamos; mas de c se
vae a l, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que est
na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manh,
quando eu vinha de ouvr as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha
querida menina, senti baterem-me  porta, abri, e era o Manuel, o tal
rapazola. Que temos? perguntei-lhe eu. Que havemos de ter? J soube
onde pra o tal individuo, e quem elle  respondeu Manuel.

--E quem  elle? perguntou avidamente a filha de Tristo de Almeida.

-- o commandante da galera Esperana. Tem estado muito doente. Ha mais
de quinze dias que no sae de bordo!

--Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pde ver!

--Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda
a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:--Ha tempos estando eu
na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e comeou a
perguntar informaes de Martha. Esse individuo no tinha sido seno
alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal.

--E o que lhe respondeu, tia Monica?

--Que queria a menina que lhe respondesse! Pde-se julgar mal d'uma
pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas?
Embora eu soubesse quem esta familia , a minha bocca nunca se me teria
aberto para dizer similhante coisa!

--Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas?

--Se me parece! E faa se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e
ella pagando-lhes assim!

--Isso no, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se
passa no meu corao? O mal que me est causando  involuntario, e to
involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem
culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.

--E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendona,
possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario,
tendo a palpitar pela sua pessoa, um corao nobre e generoso como o da
minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendona querer a filha d'um
operario: s se fosse para ser sua criada.

--Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que
Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendona, creia que embora eu
morresse de paixo, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a
propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o
que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha
n'aquelle estado,  uma paixo, serei eu a propria, embora d'isso me
resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fr
nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de ris,
para collocar aquella pobre criana n'uma posio que lhe no envergonhe
os seus pergaminhos. Porm se esse amor que eu supponho existir no
corao de Martha, no fr mais do que uma desconfiana, ento Monica,
se lhe no fr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu,
Manuel de Mendona ser o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia
Monica!

E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as
lagrimas que a suffocavam!

Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o
amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a
ambio, a crapula emfim de todos os sentimentos!

Alma candida e inexperiente, no avaliava sequer a immensa distancia que
as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem
comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoo de
neve!

Ao escutar aquellas palavras que to claramente denunciavam a
ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Alm dos
lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores,
havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o
primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo
infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda
inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o no so nem o
desejam ser!

Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica
poderia fazer com que retirassem a sua proteco ao mestre de obras.
Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a
pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida  miseria e ao
descredito que por toda a parte lhe proclamava.

Eram estas as suas idas, idas que principiavam a desvanecer se, 
proporo que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle
corao, immenso como a agonia que o dilacerava!

--Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me pde saber,
custe o que custar, se Manuel de Mendona escreve a Martha, se a v, ou
se por ultimo se encontram.

--E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.

--Abenoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas
palavras se lhe rasgasse o corao.

--E se no se amam! insistiu a velha.

--Ser meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando
depois algumas moedas de prata de dentro de um _porte-monnaie_,
entregou-as  tia Monica.

--Se elles no se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha.

--Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete.




XXVII


Ao cabo de quinze dias, graas  sua robusta compleio, Manuel de
Mendona pde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a
brisa do mar completo restabelecimento.

Mas no era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo
havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio
do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se
divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direco do barco.

Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendona pegou no seu
magnifico telescopio e dirigiu-se  pra do navio afim de descobrir quem
to assiduamente o espreitava.

Ao vr o edificio que Mascatudo lhe designra, j o seu olhar de lynce
havia descoberto que alguem o estava observando.

Manuel de Mendona levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e
insinuante de Magdalena.

No era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou
por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua
terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal no succedeu. Magdalena
continuando a olhar, parecia no perder um segundo da sua persistente
observao.

Desalentado, metteu o oculo debaixo do brao, e caminhou serenamente
para a r.

Ento um milho de reminiscencias lhe acudiu  memoria. Lembrou-se
d'aquelle dia em que Magdalena o contemplra to demoradamente, quando
fra visitar Jeronymo.

Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lanou mo d'alguma
intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal
fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. No faamos juizos temerarios. Que
importa que eu v visitar seu pae? No lh'o prometti eu?

Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na
direco do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de
observao. O maritimo, voltando as costas desceu  camara onde
Mascatudo o aguardava.

Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco
de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se
achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada
pelos soluos, soltando estas palavras:

--Amam-se, no ha duvida!

--Maldito caldo de gallinha, puff, est a escaldar! dizia uma outra
voz. Era a de Olympia.




XXVIII


Graas aos rasgos de valor e profunda dedicao que o dono do hospital
da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade
de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.

Todos  uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando
constantemente no s a sua preciosa existencia, como tambem a de sua
mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras
consoladoras, manh amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia
batalhra at a ultima. Era de justia, mais do que justia,
indispensavel at conceder-se-lhe a merc em que sua magestade dias
antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao
visconde de Coruche.

Uma manh em que o visconde, fazendo a sua demorada _toilette_, se
preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.

--Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade
que existe entre ti e o Tristo da Almeida.

--Estou s ordens de sua magestade, respondeu o visconde.

--El-rei deseja agraciar Tristo de Almeida com o titulo de conde, e
mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o
nome que deseja juntar ao titulo.

--Quanto agradeo a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me
intermediario para um acto de tanta justia! Tencionava hoje passar o
dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente
a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que
me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.

--Nunca se fez um acto de maior justia, disse o conselheiro.

--Escuso de te repetir que sou da mesma opinio.

--Realmente, tem-se portado como um heroe.

--E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a
tantos perigos, acudiu o visconde.

-- um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para ns, visconde,
quem ser esse Tristo de Almeida?

--Ora essa! Tristo de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio,
descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um
caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou
completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmo para
Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma
riqueza enorme. Vasco, seu irmo mais velho, ficou empregado na casa
gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto
que Tristo dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma
vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peo-te que no contes a
pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristo, ao cabo de
cinco annos repito, j elle tinha feito cinco viagens a salvo,
introduzindo na Havana uma grande poro de Chins. Feliz em todos os
negocios que emprehendia, Tristo d'alli a dez annos estava
archi-millionario. Achando-se uma occasio em Buenos Ayres viu n'um
jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos
herdeiros a elle e a seu irmo.

--E seu pae? interrompeu o conselheiro.

--J tinha morrido a esse tempo.

--Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara
estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraa
de perder o irmo.

--Que fatalidade! murmurou o conselheiro.

-- verdade! v tu que fatalidade! Tristo, continuou o visconde,
reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos
depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem
fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.

-- um romance a vida d'esse homem.

--Tem coisas admiraveis! disse o visconde.

--Com que ento, acudio o conselheiro, a sua fortuna pde calcular-se
em...

--Cinco ou seis mil contos.

--J se pde passar com isso!

--Agora, disse o visconde,  um homem d'uma generosidade incalculavel!
Se tem cahido nas mos dalguns individuos que ns conhecemos...

--Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu...

--Como graas a Deus no preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse,
tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me.

--Eu tambem no digo que tenhas preciso, mas um homem d'esses, pode-se
aproveitar para qualquer empreza, grande j se v, e de que outros
tirassem bom partido, tirando o elle tambem.

--Ainda no pensei n'isso.

--E as filhas so bonitas?

--Uma d'ellas, Magdalena,  um anjo de bondade e formosura.

--E a outra?

--Olympia? Tambm no  feia, mas  muito gorda. Essa representa o
estomago, e a sua irm o corao. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em
sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de
comer ao despertar. Afra isso,  uma creatura esplendida.

--Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que j
no tenho outra distraco seno a meza. Seria capaz de me casar no
pelo corao mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim
essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber
fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito!

--Mas tu d'antes no eras assim! disse o visconde accendendo um charuto.
O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das
olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como
regularmente se diz.

--Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e
conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porm agora, no;
prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para
me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites
da paternidade.

--Como tu ests mudado, Joo!

--Que queres? so as circumstancias que me fazem assim pensar.

--Pois meu amigo, habilta-te e ters em Olympia a mulher que te convm.
Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos
contos de ris. Que tal, hein? Agora s te peo uma coisa: se  fora da
tua vontade, ajudada pelos meus esforos, conseguires realizar este
sonho...

--Dirs.

--Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-porto.

--Approvo e desde j t'o prometto! Se Olympia fr minha, o meu
guarda-porto ter outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o
conselheiro, eu ainda no estou feio de todo, falam por ahi do meu
talento, sou filho de gente fina, que mulher se poder esquivar a
conceder-me a sua mo, muito mais, estando eu nas disposies em que me
encontro, que  viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois
accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de
casa me ouam levantar a voz, a no ser que os pequenos me venham
interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?

--Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem
serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te
guiares pelos meus conselhos, vencers a batalha. Se por ventura a fres
visitar ao hotel e falares com a tua futura, no te approximes da
janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; no, longe d'isso, faz
um gesto de profunda meditao, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em
direco ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na
atmosphera. No fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as
empadas do Jos Romo, e os pasteis de nata da rua da Rosa. No lhe
fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel,
promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe
isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo
quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia ter um conselheiro e o teu
guarda-porto um fardamento novo!

--Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque no
aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda s vezes infantil e
sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organizao. Ento  que
era, visconde: ns os amigos de tantos annos, casados com duas irms,
que representavam j oitocentos contos e que representariam seis mil
para o futuro!

--Se o quizesse fazer, no tinha seno dar o meu sim. Se tu soubesses o
que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o
primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar
me o seu amor, mas de sobejo se lhe l no olhar com que me contempla, na
voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto
cuja melancolia me chega s vezes a causar remorso. Eu tenho sempre
feito que nada comprehendo, porm seu pae no o ignora nem a me. Falta
s dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presena inspirou 
filha.

--Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.

--Eu s vezes tambm assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a
sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creana. Se tu
soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se
lana a todos os perigos, penso eu s vezes ser mais vontade que tem de
morrer para no affrontar a minha indifferena, do que realmente
caridade.

--Mas porque motivo no lhe retribues tu com muito amor, o affecto que
essa creana te consagra?

--Porque a no amo, Joo. E como, graas a Deus, no estou na posio de
me casar por necessidade, no quero sacrificar os longos annos que ainda
me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a
desejar, mas pela qual o meu corao no palpita de amor. O motivo 
este, apenas este.

--Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois
de alguns instantes de profunda reflexo.

--Dou-te a minha palavra de honra que tenho.

O visconde no mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a
que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a
pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendona, era o
resultado de uma paixo que elle lhe havia inspirado.

Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que
lhe poderia resultar d'esse enlace, no queria, diremos, baixar da sua
dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo
corao o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente,
attendendo  sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.

Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o
casamento do conselheiro com a irm de Magdalena. Por essa frma viveria
mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixo,
Magdalena se lanasse em seus braos, pedindo-o em casamento, elle ento
do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mo para lhe dar um sim
de proteco. Eram estas as suas idas, as que elle estreitamente
guardava no fundo da sua alma.

Por isso no mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava
falando a serio.

--Pois ento, disse Joo Poderosa, visto no me teres illudido, digo-te
tambem, e muito de corao t'o peo, que me auxilies n'esta tentativa,
cuja realizao pde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios
que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato
se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora,
accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos,
vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas,
antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?

--Pois no, respondeu o visconde, e  f de quem sou te prometto, que em
menos de um mez, Olympia ser tua mulher.

Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o pao.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Vae tudo s mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official
farei de Tristo quanto me aprouver! Tenho at a certeza que obteria a
mo de Magdalena. E porque no hei de requisital-a? Requisital-a no,
que ella m'a requisite. Se eu me curvava  filha de um Tristo de
Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de
alguns momentos de graves locubraes, fazer com que o Poderosa consiga
a mo de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora no,
tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!

Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu
a trote largo, dirigindo se para o hospital.

Proximo  calada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de
dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do
postigo da sege.

Era Gil de Carvalho.

--Encontrei-o emfim, disse o jogador. Ento onde se pde ver o seu amigo
Tristo de Almeida?

--Aonde se pde ver? por ahi, respondeu o visconde.

--No  isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe
pagar as cem libras que sabe.

--Ah! o meu amigo Tristo de Almeida? esse j no joga, respondeu o
visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu
lh'as darei.

--Peior  essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que
fizera para tirar as notas da algibeira.

--Ento no quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que comeava a
desconfiar da velhacaria do jogador.

--Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho.
manh passarei por sua casa.

--Pois ento adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao
cavallo.

Deixemos o visconde e Tristo de Almeida no jardim do hospital
discutindo cerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e
subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem no
sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a
historia do mestre de obras.




XXIX


Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar
nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa
de Martha, exigir da sua amizade a revelao de todos os segredos.

Havia dias que a pobre criana, cada vez mais enfraquecida, parecia
levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita
misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braos.

Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um s momento do lado de sua filha,
erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a
Virgem da Conceio.

Martha no falava, afra algumas palavras  tia Marianna, com quem abria
inteira a sua alma.

Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos
os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa
alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu corao!

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

So duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre,
augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor
Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate.

Ouve-se o rodar de um trem, que pra  porta do operario, e, de dentro
d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma
mulher.  a filha de Tristo, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que
n'essa hora, Olympia,  mesa do _lunch_, saboreia em doce encantamento
as altas locubraes d'um intelligente cozinheiro.

Contra o seu habito, Magdalena vem completamente s. O olhr e a
pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das
palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz,
ordinariamente firme e sonora, perturba-se  mais pequena palavra, como
receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da _toilette_,
o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se
agita o seu corao!

No era Magdalena, era apenas a sua sombra!

Bate  porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.

Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario no pode occultar o seu
assombro.

Jeronymo secunda sua esposa na admirao.

--Mas que  isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de
Jeronymo voltando-se para Magdalena.

--Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me
traz aqui,  grave e muito grave sr. Balbina.

Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se no apercebesse da
presena de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o
quintal de Jeronymo, outr'ora to cuidadosamente tratado, e triste ha
uns tempos a esta parte, como o corao do seu cultivador.

--Estamos ss? perguntou Magdalena para Balbina.

--To ss que ninguem nos pde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender
o que se passava em torno de si.

--Em primeiro logar, como est a pobre Martha?

--Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico...

--O qu?

--Disse-me que me no illudisse, ajuntou Balbina agarrando se  amiga de
sua filha.

--Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mos. E o
que diz elle a respeito da sua doena?

--Que  toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o
curativo.

--E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher
do operario.

--Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio.

--Seja sincera commigo, sr. Balbina, e lembre-se que ninguem n'este
mundo ser capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou.

--Creio o bem, minha senhora.

--Pois ento porque no abre commigo a sua alma? Diga me no deposita em
mim bastante confiana no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena,
descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feies adivinha a
menor sombra de hypocrisia?

--Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo.

--Pois ento, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja
sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. No
imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar
n'um corao de me, quanta dr existe n'este meu pobre peito.

--J que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que
nunca me teria atrevido a revelar, se no fosse conhecer a nobreza da
sua alma! O que a minha filha tem,  uma paixo, paixo que a leva 
sepultura.

--E esse homem que lh'a inspirou, ?... perguntou Magdalena, como se
ainda uma pequena esperana lhe restsse.

--Esse homem  o commandante da galra Esperana, o mesmo que descobriu
aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu
excellentissimo pae.

--Manuel de Mendona! exclamou Magdalena.

--Elle mesmo!

--E elle?

--Nunca mais o tornou a ver.

--E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.

Balbina ento contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a
filha, no lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras:
esse homem  amado pela filha do nosso protector. Magdalena pensou
morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer  sepultura,
sem interromper o sentimento que dominava o corao de Magdalena, a sua
generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella
amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu
para que no seu corao immenso tambem como o de Martha, se formassem
mil conjecturas tendentes todas  generosidade.

Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que to nobremente se
me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno
martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abenoarem a
minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!

--Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, v ao quarto de
Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla,
quero-lhe falar.

A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia
produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de
Magdalena.

Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraa, continuou a
filha de Tristo de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a
enorme riqueza de meu pae! A sua alegria,  sempre aquella eterna
mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna
solido de sua alma. Minha me, afeita a illudir, tem chegado a
convencer-se que  muito feliz, no passando d'uma desgraada! Eu, que
tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela
primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e
corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graas ao seu
genio,  a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e
come, pobre irm, que seria o mesmo que dizer-te: vive e s feliz!

Falarei com Martha, e hoje mesmo lanar-me-hei aos ps de meu pae,
pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me
tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois
de os ver ambos casados, felizes, abenoando a minha mo que lhe
estreitou a sua ventura, eu ento, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei
entre as grades d'um convento!

N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a
visita de Magdalena.

Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criana, e, occultando a
custo as lagrimas que a suffocavam, lanou-se sobre o leito abraando a
pobre amiga.

--Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante,
porm, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam,
tem sido a causa de me no ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais
do que Martha possue coraes verdadeiramente dedicados? accrescentou
ella. No v que est offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em
morrer, minha amiga? No v que morrendo, mataria sua me, seu pae, e
que far soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo
se tem occultado  sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com
quem desabafe os seus desgostos? No tinha minha irm? No me tinha a
mim?  sua propria me? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente
dos seus segredos?

--Segredos! Eu? murmurou Martha.

--Sim, Martha; segredos e muito importantes. No queira negar-me o que
sei.

--No tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha,
como se j no tivesse foras para sustentar aquelle dialogo.

Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de
Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu corao lhe ordenava.

--Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas
magoas n'este corao que lhe quer tanto como se fosse sua propria irm.

Os olhos da creana inundaram-se de lagrimas. A mentira jmais havia
passado por seus labios! A infeliz no sabia que responder.

--Responda, minha irm. At hoje homem algum lhe feriu esse corao?
Jura-m'o?

Haveria ainda algum vestigio de esperana no corao de Magdalena ao
insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!

Martha sem responder agarrou-se ao pescoo de Magdalena e desatou n'uma
torrente de lagrimas.

--Perde-me, disse ella emfim, mas eu no sabia que o amava. Foi o
primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza
no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me
responderam brutalmente que no sabiam quem elle era. Aterrada com a
minha desgraa, encontrei-me s, completamente s. Ento, appareceu o
sr. Manuel de Mendona; promptificou-se a procurar meu pae, e
encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria.
Quiz esquecl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o.
O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente,
at que reconheci que o amava. Quando j era tarde foi ento que
comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a
immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era
amado por quem melhor do que eu o merecia. A dr quebrava-me a alma, mas
a ninguem revelava a minha angustia! Desde ento, minha boa amiga,
entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me
chamasse  sua divina presena sem ter deixado no mundo um rastro de
ingratido! Ame-o, sr. Magdalena! Amem-se, que so dignos um do outro,
e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vo ambos, rezem-lhe uma
orao sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que est no reino dos
tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel
de Mendona!

--E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?

--O meu corao, respondeu Martha, inclinando a cabea no travesseiro.

--Illudiu-te, e o tempo t'o provar, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o
amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o
valor da sua alma. Eu s quero a tua felicidade, Martha.

--A minha felicidade est no cu, respondeu a infeliz, levantando os
olhos para o tecto.

--Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade est nos braos
d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um corao nobre e generoso
como o teu! J a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem
estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se
enxuguem para sempre, e que as lagrimas desam sobre os meus para jmais
os abandonar. E abraando estreitamente a pobre creana, Magdalena sahiu
do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario
e partiu para o hotel Bragana!

[Ilustrao:  de joelhos que lh'o imploro! (_pag. 213_)]




XXX


Ao chegar ao hotel de Bragana, Magdalena encontrou sua me louca de
alegria. J tinha sabido por Tristo e pelo visconde de Coruche, a merc
que sua magestade acabava de lhe offerecer.

--Um abrao minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo
aos servios que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de
encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome
deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto
sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo ser filha de uma
condessa! Que te parece Olympia?

--Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra,
respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua me.

--Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para
sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez!

-- to grande a alegria que nossa me experimenta s com a ideia do
titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te
a cabea, Magdalena?

--No, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta.

--Pois faz a diligencia de te animares!  de suppr que venha c hoje
passar a noite o conselheiro Poderosa. J pedi a tua irm quasi de mos
postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.

--Preciso falar-lhe, minha me, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D.
Maria Egypciaca.

-- negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital?

--No, por certo.  outro assumpto inteiramente diverso.

--No podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa.

--J disse a minha me que era uma coisa em particular.

D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de
Tristo, aonde varias vezes temos conduzido o leitor.

--Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma
cadeira  voltaire.

--Venho prevenir minha me que desejo entrar para um convento antes do
prazo de um mez.

--Ests doida, ou variada! exclamou ella como se no acreditasse nas
palavras que escutava.

--Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena.  uma resoluo de que
ninguem ser capaz de me afastar.

--Mas que te impelle a similhante determinao? Explica-m'o. Quem melhor
do que tua me poder ser tua confidente.

--Basta que o saiba Deus, em cujos braos me quero occultar,
respondeu-lhe serenamente Magdalena.

--Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.

--J respondi a minha me que no estava louca, nem to pouco variada,
accrescentou Magdalena sentando-se no soph.

--Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na
sociedade,  que te queres retirar a um convento?

--Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me
sob os tectos da sua habitao.

--Jmais t'o consentiria, e muito menos teu pae.

--Torno a dizer a minha me, que pessoa alguma poder impedir a minha
resoluo.

--Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha
 tua vontade? Fala, fala por Deus, mas no me atormentes! Eu que
esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que
estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na
companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua
magestade de nos offerecer o titulo.

--No queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer
as minhas intenes, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel.

--Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da
poltrona. Comprehendo agora que no eram infundadas as desconfianas de
teu pae.

--Que desconfianas? perguntou Magdalena.

--Que amas...

--Eu?

--Tu, sim...

--Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida.

--O visconde de Coruche!

--Que testemunho! J disse uma vez a minha me, que nunca amei, nem
seria capaz de amar o visconde.

--Assim me queres convencer...

--Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes.

--Ento outro homem?

--No posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada.

N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristo de
Almeida.

Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o
pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a cr do rosto!
Julgou-a atacada pela febre.

--Sabers, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para ns de tanto
regozijo, a tua filha...

--O qu? perguntou Tristo, voltando-se para sua mulher.

--Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.

--Recolher-se a um convento!? perguntou Tristo como se no acreditasse
em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle,
voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu
que s a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o
que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra deixares me!
Ignoras que s tu me tens sustido a existencia? No conheces inteira a
minha vida? No te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua
causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, s
para ti, que s a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia
comea a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se
despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria
desce sobre a nossa familia, no digo por esse titulo que no passa de
uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraados. Se amas
alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me no
separar do teu lado. Se fr bom, abraal-o-hei, se mau, tu o tornars
bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o far enriquecer, e tu vers
cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!

--A minha resoluo  inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande
favor a pedir lhe:

Tristo parecia attendel-a sem consciencia de vida.

--Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote  de
quatrocentos contos?...

--O teu dote  tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristo, e
se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te
adquirir.

--Peo-lhe portanto um favor, meu pae.

--Dize.

-- que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder
dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir  enfermidade que
a anniquila.

--Ters, no cincoenta contos de ris para essa amiga, mas cem, duzentos
ou aquillo que te aprouver! Porm, abandonares me, nunca! Queres esse
dinheiro? manh; hoje; agora mesmo! Se o desejas, no tenho mais do que
ir buscal-o a casa do meu banqueiro...

 que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que
havia experimentado na vida era o amor por sua filha!

--Juras me que no abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mos
de Magdalena e levando-as junto ao corao.

--Juro que no abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos
braos!

--Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do
gabinete. Ha mais de dez minutos que est a sopa na mesa, accrescentou
voltando-se para Magdalena.

--J vamos, respondeu esta.

--Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete.

--E quem  essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristo
depois de alguns momentos de silencio.

-- Martha, a filha de Jeronymo.

--Conta com esse dinheiro, respondeu Tristo.

--Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o
brao a Tristo, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e
dirigiram-se  casa do jantar.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Apresentado pelo visconde, s oito horas da noite, entrou o conselheiro
Poderosa.

O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o
conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no
semblante.

Poderosa sorriu se! Depois, ao vr a obesidade da irm de Magdalena, o
rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude,
pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.

Depois das apresentaes do estylo, o conselheiro sentou-se junto do
magnate para lhe falar cerca da misso de que sua magestade o tinha
encarregado.

No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se
com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao
titulo.

--Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu no tenho a mais leve
desconfiana que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que
depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia
lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando
significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso
encontrava os olhos do conselheiro.

N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristo,
approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde.

A conversao correu animadissima at s onze horas da noite.

Seguindo as instruces do visconde, o conselheiro portou-se
bizarramente no tocante a dissertaes culinarias, falando sempre com
muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha.

O corao de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia,
comeou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a
cabea, que tanta relao tem com essa viscera, principiou tambem a
comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha.

s onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos
com Tristo de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim
de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.

       *       *       *       *       *

D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um
lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que
na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu
todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.

Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os
astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de
Manuel de Mendona.




XXXI


No dia seguinte  entrevista do conselheiro,  mesma hora que este e o
visconde se preparavam para ir falar com Tristo, Manuel de Mendona
resolvia procurar informaes de Martha.

--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, no fosse mais do que
uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a
Mascatudo.

--Pde muito bem ser que tal acontea, respondia-lhe o marinheiro. Em
todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendona...

--Que fazias? acudiu rapidamente o capito.

--Ia saber d'aquella pobre menina.

--Tomarei o teu conselho. Vou. No sei o que me adivinha o corao;
porm, ou eu me illudo muito, ou Martha est innocente como os anjos.

--Estou da sua opinio. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas
primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo
quanto a seu respeito ouvi dizer.

--No te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.

--E se essa mulher no passasse de uma infame mentirosa?

--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos
no terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha
era irreprehensivel?

--Isso l  que  verdade, sr. Manuel de Mendona. Em todo o caso, tudo
se poder hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua
companhia...

--Da melhor vontade e at me fazes muito favor.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendona acompanhado por
Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa,
dirigia-se para a rua do Meio.

--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem  rua das Praas, vamos 
tenda em que lhe falei. O caixeiro, que j  meu conhecido, pde nos dar
mais algumas informaes.

--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu
placidamente Manuel de Mendona.

Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma
circumstancia menos favoravel cerca da vida intima de Martha, que fazia
com que o maritimo fugisse a mais investigaes?

Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal
monta no nos julgamos habilitados.

Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de
Mendona estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a
encontrra, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre
lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas
ou tres vezes que a vira no hotel Bragana, quando ainda as boccas
maliciosas no se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia.
Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe
deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua me
lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as
aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um s corao
amigo se lhe approximava.

Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.

--Que devemos fazer? perguntou Manuel.

--Sondar estes baixios, e se o rumo no fr perigoso, seguiremos a nossa
derrota, respondeu Mascatudo.

N'este momento passava uma carruagem.

Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.

Ao mesmo tempo, o cocheiro como se j estivesse prevenido, estacou os
cavallos.

Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!

Collocando a cabea fra do postigo, a filha de Tristo fez um aceno a
Manuel para que se approximasse.

--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo
se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de
descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre
Martha; no o faa sem primeiro me falar.

--Estou s ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendona,
reconhecendo n'esse momento a filha de Tristo de Almeida.

--Mas aqui  inteiramente impossivel por causa da visinhana,
accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.

--Dir-me-ha ento?... perguntou Manuel.

--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que
Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e
os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.

Manuel ficou como assombrado! No sabia que pensar! Aquella mulher, que
na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente
dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita
maneira de o avisinhar; a perturbao das suas palavras; a visivel
pallidez do rosto, que augmentava  proporo que os seus olhos o
contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.

--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbao de
Manuel de Mendona.

Manuel contou-lhe o que se havia passado.

--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.

--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?

--Que v quanto antes, respondeu Mascatudo.

Sem mais hesitao, Manuel de Mendona entrou na rua da Bella Vista, e
seguiu para o passeio da Estrella.

--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as
portas do passeio.




XXXII


Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre
sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a
face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma
as fibras do corao, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as
nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino
dos justos com o passaporte de uma retribuio!

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Manuel subiu  montanha.

Magdalena no faltra.

--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de
Mendona, approximando-se.

--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou,
visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder,
porm, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o
hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.

--Estou s ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fr possivel.

--Sabe que tem estado  morte a filha de Jeronymo?

--No o sabia, minha senhora, respondeu Manuel comeando tambem a
perturbar-se.

--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha
para o cu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que l estive,
o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade  menos
physica do que moral, e s  ultima hora lhe podemos descobrir a causa.

--E essa causa ?... perguntou Manuel.

--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o
sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando
apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!

Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento
nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada,
tornra-se to firme e to segura, que elle no pde ver em Magdalena
mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.

--E onde existe esse homem que a pde salvar?

--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expresso que principiava a
denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, ... o sr.
Manuel de Mendona!

--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.

--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou
inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na
existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu corao candido
e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a
humildade de educao, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para
que Martha no se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o
senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve foras, lutou, mas um dia,
exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que no tem
fora bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem,
finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a
dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe
descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e
pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. No sei quem v. s. ,
porm, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer
mulher.

Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella
immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se
nas azas de uma inspirao sublime! Levantando depois a voz que
principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe
concedesse a sua mo para a filha do operario.

Manuel no respondeu!

E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham
como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!

--Que me diz, sr. Manuel de Mendona? Hesita? No a ama?  possivel?
Quem pde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim
livre curso s suas lagrimas.

--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendona dirigindo-se meigamente
para Magdalena.

--Porque choro? Porque avalio a dr de Martha! Porque a sinto to viva
e to penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta
agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca pde ser nosso!

--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.

--J amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje no, sr. Manuel de
Mendona! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma misso que tenho
a cumprir.

--E essa misso, ?..

--Vel-o casado com Martha. Vo ambos ser muito felizes. Ella ama-o
tanto, tanto como eu seria...

Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.

E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que
emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como
concerto infernal!

Finalmente, Manuel de Mendona prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a
mo de sua filha.

Apertando-lhe fortemente a mo, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu
do passeio.

Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se
para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio
dirigiram-se pela rua da Boa Morte.

--Para onde vae, sr. Manuel de Mendona, perguntou Mascatudo vendo que o
seu capito seguia a direco da estrada do cemiterio dos Prazeres.

--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para
que haviamos de ter vindo a Lisboa?

Era tal a agitao do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a
perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.

O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel
de Mendona. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o
somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria
incapaz de o revelar.




XXXIII


Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua
do Meio.

Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam.
Era Monica!

Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.

--Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas!
exclamou ella. So essas as promessas que me tem feito? Pois, minha
querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado!
Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem
me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo _tim tim por tim tim_!

--Pois, sr. Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do
_porte-monnaie_, e entregando-as na mo da beata, escusa de se
incommodar mais por minha causa.

--Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao
mesmo tempo a mo onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso,
continuou ella, que no esteja satisfeita com os meus servios? Se tal
succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas no me tracte por essa forma.

--No  isso, tia Monica:  que j sei tudo quanto tinha que saber; e,
fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua
direco, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.

Ter-lhe-ia Manuel de Mendona contado a historia dos seus amores?
Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!

O trem chegou  porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida
de braos abertos por Balbina e pela sua amiga.

Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!

--Venho prevenil-a, que manh antes do meiodia, alguem vir pedir-lhe a
mo de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa
pessoa. Quando prometto, cumpro, embora v n'isso a existencia.

A gratido no tem phrases! Balbina e Marianna, abraando-se a
Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!

--Agora, murmurou Magdalena desembaraando-se das suas protegidas,
cumpre-me falar com Martha.

--Mas,  possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a
filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.

--Almas como as de Manuel de Mendona, olham apenas para a virtude e
nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.

--Manuel de Mendona?! exclamou Marianna com uma voz tremula e
indecisa. E que edade tem esse homem? E quem so os seus paes? ajuntou a
pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristo de
Almeida.

--Infelizmente, no tem paes, respondeu Magdalena.

--E sabe vossa excellencia quem elle , perguntou Marianna.

--Sei.

--Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...

--Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.

--O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!

--Como se chama elle? perguntou Magdalena.

--Manuel de Mendona Athayde, respondeu a velha com uma voz
enfraquecida.

--E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.

-Alvaro de Mendona...

--Justia de Deus! exclamou a filha de Tristo, caindo sobre o canap, e
occultando o rosto entre as mos.

--Oh! mas por Deus no me torture! bradou Marianna, lanando-se aos ps
de Magdalena. Diga-me se  elle o meu querido filho! ; no ha duvida!
Essa sua perturbao... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da
minh'alma? No a deixo, minha senhora, no a deixo emquanto me no
contar tudo!

-- o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade
heroica. Deus que nunca desamparou os que so verdadeiramente bons,
concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justia, e n'elle a consolao
para a sua velhice. Agora sr. D. Marianna, ajuntou ella lanando-se aos
ps da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus
e em meu nome, lhe pedimos o perdo para um culpado! Concede-m'o?

Marianna no sabia que responder!

-- de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da
velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da
infeliz!

--Eu vos perdo de todo o meu corao! exclamou D. Marianna de Mendona
cahindo sobre o cho. Mas a quem perdo eu? accrescentou a infeliz
senhora, que no pensava seno em ver seu filho!

--Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de
encontro ao corao! Agora que _lhe_ perdoou, vou buscar seu filho, e
trazel o aqui mesmo.

Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a
comprehender.

Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal
sahiu, e, abraando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu
para o hospital.

No entretanto, Manuel de Mendona descendo a calada das Necessidades
dirigia-se para bordo.




XXXIV


Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendona nem sequer desconfia
que Tristo de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos
Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae.
Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote,
e ser uma retribuio generosa! Ao principio oppr se-ha ao meu pedido,
mas por ultimo, no ter outro remedio seno acceder. Occultarei tudo de
minha me. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. So estas as
suas horas.

N'este momento, o trem chegava  rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar
o porto, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia,
dando lhe os parabens no s pelo titulo que haviam concedido a seu pae,
como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.

Sem lhe prestar atteno alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli
estivera seu pae.

--Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para
o pao, afim de agradecer a sua magestade.

--E Olympia?

--Sua irm est l em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas,
que at d nauseas a quem v similhante coisa! Mandou fazer umas
torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. J viram maior
porcaria? E diz ella que  o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz
pena que esteja no hospital!

Magdalena subiu  casa do jantar, onde encontrou sua irm deliciando o
paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos
d'aquella innocente gallinhola.

--J sabes o titulo que o pap escolheu? perguntou Olympia.

--Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar atteno.

-- muito bonito! no achas?

--Muito bonito!

--Estiveste em casa de Martha?

--Estive.

--Vae melhor?

--Muito melhor.

--No te offereo d'esta gallinhola porque  de suppr que no esteja ao
teu gosto, disse Olympia dissecando a _carcassa_ da avesinha.

--Agradeo, murmurou Magdalena deixando sua irm, e dirigindo-se para o
terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de
Mendona.

Alli pde emfim dar livre curso s suas lagrimas!

D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade,
contemplra o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo
quanto havia de mais valioso para o seu corao!

Fra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de
Mendona, afastando o oculo, lhe denunciava no ser ella a pessoa que
to anciosamente buscava!

S, entregue a uma multido de pensamentos, Magdalena comeou a planear
o modo de seu pae restituir os quarenta contos de ris extorquidos a D.
Marianna de Mendona.

Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado
sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. No ignorava que uma grande
parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos,
porm, o que ella jamais suppozera,  que seu pae tivesse sido capaz de
um roubo.

Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e
vossa excellencia que me l, e, cujo corao  egual ao de Magdalena,
diga me se dres tamanhas podem caber em corao humano!

Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe
acudisse rapidamente  imaginao, a infeliz saiu d'aquelle quarto,
lanando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!

Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.

--Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.

--Doe-me a cabea.

--Isso  fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.

Magdalena desceu s enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou
no trem e mandou seguir para Alcantara.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Disse-me que ia para bordo. J l deve estar. Mas isto  uma loucura,
pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do
seu navio? Embora! A minha consciencia est livre e tranquilla! No foi
Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para
sua intermediaria? Que poderei receiar?

Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de
Obidos.

Ao chegar ao boqueiro, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos
catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera
Esperana.

Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.

Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.

Que de poemas se agitavam em sua alma  medida que se approximava da
galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua
ventura!

Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrana de
devolver aos braos d'aquelle homem a pobre me que elle to anciosa e
infructiferamente havia buscado!

A pouca distancia viu Manuel de Mendona, de p, encostado  amurada.
Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que
vinham no seu eterno movimento gemer de encontro  quilha da embarcao.

Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu
immediatamente a filha de Tristo de Almeida, e, descendo a escada de
corda, veiu recebel-a no momento em que abordava  embarcao.

--Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella,
olhando tristemente para a galera.

Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.

Durante o curto espao de tempo que levaram em chegar  rocha,
Magdalena no lhe dirigiu uma palavra.

Manuel no sabia que pensar.

Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria
a causa d'aquelle mysterio.

Chegaram finalmente  rocha.

Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendona, ergueu
o vu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns
instantes.

--Vim buscal-o to apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer
que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me
encontrasse, para lhe depositar nos seus braos tudo quanto tem de mais
precioso sobre a terra.

Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.

--No lhe offereo o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou
ella; mas, o que lhe peo,  que venha immediatamente a casa de Jeronymo
para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro
que seguisse para a rua do Meio.

Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendona e
acompanhou a carruagem de Magdalena.

Chegaram ao mesmo tempo  porta de Jeronymo.

Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de
Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendona.

A pobre senhora lanou-se-lhe nos braos!

--Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu
filho! O que lhe peo,  que tenha valor para resistir a este lance! e,
abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por
Manuel de Mendona.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Vde a lea a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre
as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade
de sensaes.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

Magdalena, de p, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta
scena ao lado da mulher de Jeronymo.

Perto de cinco minutos esteve a pobre me agarrada ao pescoo de Manuel
de Mendona! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade!
Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lanou-se aos
ps de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria
assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a
face de beijos e lagrimas de gratido!

--Agora, disse Magdalena desembaraando se de D. Marianna, devemos
attender ao estado de Martha.  necessario prevenirmos todas estas
circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?

--Com certeza que no; e demais tem um somno muito pesado, respondeu
Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.

N'este momento, Martha chamava por sua me.

Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.

--Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha me? perguntou Martha sem
notar a presena de Magdalena.

--Era a minha voz, respondeu a filha de Tristo approximando-se do leito
e beijando-a na face.

--A sua! exclamou ella. Eu suppunha...

--O qu?

--Que era...

--A voz de Manuel de Mendona? No se illudiu.  Manuel que vem hoje
pedil-a a seu pae.

Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lanou-se ao pescoo
de Magdalena.

Que lagrimas no foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto
consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do corao,
abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!

--Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braos de Martha,  necessario
que se restabelea para em breve conceder a sua mo ao filho de D.
Marianna de Athayde!

--Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma
palavra do que acabava de ouvir!

--Sim, ao filho da sua amiga Marianna.

--Ento Manuel de Mendona ...

--Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver
completamente a minha misso, e, abraando a sua protegida, Magdalena
sahiu do quarto e dirigiu-se  saleta aonde Manuel de Mendona, ainda
preso nos braos de sua me, agradecia  Providencia o ter-lhe devolvido
tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.

Ao vel-a, D. Marianna lanou-se-lhe de novo ao pescoo e cobriu-a de
beijos!

Manuel de Mendona, que fixra o rosto entristecido de Magdalena, cravou
os olhos no cho, como receiando que o trahisse o seu olhar.

Teria elle comprehendido o que se passava no corao de Magdalena?

--Agora, disse Magdalena, retiro-me. manh sendo meio dia, aqui
estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e
com seu filho. Extendendo a mo a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena
retirou-se, caminho do hospital.




XXXV


Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de conde de
S. Luiz ao illustre e philanthropico varo, que, com tanto e tanto
afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.

A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas
mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco
de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o
amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna
titular, fazer antecamara quella que dias antes se chamava apenas D.
Maria Egypciaca.

Graas s repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche,
Tristo de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de
S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em
Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...

Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito s
cavallarias, o visconde, como homem entendido na materia, fez
acquisio de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.

Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.

Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer
de manifestarem aos quatro ventos do cu o seu desamor pela
archeologia--esbanjavam sem d nem piedade, os mais preciosos objectos
de arte, deparados nos empoeirados sotos dos seus castellos feudaes,
correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver
qual seria o primeiro a depositar nas mos do magnate as nobres
reliquias dos seus preclarissimos antepassados. No tardou que o palacio
do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos
houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por no lhes
permittirem os sales o seu elevado porte.

O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste
resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas,
o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo
collar havia figurado no pescoo de um grande ministro de um excelso
monarcha.

Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor
avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou no frequentada.

O conselheiro Poderosa, graas s ausencias do visconde, de dia para dia
se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.

Olympia adivinhava no conselheiro, no s um marido exemplar, como um
dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque
apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.

O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era
extremamente agradavel para Olympia, porm, quando ella um dia notou que
depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma
othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse
homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e
dormir, acordar e comer!

Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.

A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a
Olympia, que pela sua parte no encontraria a menor opposio.

Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram
Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado,
sabia-o apenas Deus, que ajudra a primeira nos seus pedidos e escutara
as promessas do segundo!

Quanto  condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria no lhe tivesse
dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque
inteiramente lhes no desse importancia, no cuidava seno em distrahir
os seus convidados.

Aos almoos, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o
palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor
sociedade de Lisboa.

Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dr que lhes roubava a
felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem
grave e severa de D. Marianna de Mendona, recordando lhe o seu passado;
Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma,
mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!

       *       *       *       *       *

Magdalena no dia immediato quelle em que entregara Manuel de Mendona
nos braos de sua me, fechada com seu pae no escriptorio do hospital,
communicra-lhe tudo quanto dizia respeito  familia de Athaide de
Mendona.

O conde de S. Luiz, que no tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe
inteira a sua alma, desenhra-lhe em traos rapidos o quadro inteiro da
sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e s por ella havia incorrido
em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente.

Magdalena exigiu-lhe uma restituio d'aquelle dinheiro extorquido 
viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinio publica
ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou
duzentos contos de ris,  filha d'esse homem, para cuja morte
involuntariamente havia concorrido.

Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a
sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando
a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando
aquella restituio, lhe ia devolver a paz ao espirito.

Abraando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente
para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento.
Com effeito, s duas horas da tarde, e no ao meio dia como havia
combinado com Manuel de Mendona, Magdalena entrou em casa do operario.

Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor no se tinha
illudido; a sua doena era menos physica do que moral.

Desde as onze horas da manh que Manuel de Mendona estava ao lado de
sua me. J na vespera tinha visto Jeronymo, e j lhe havia pedido a mo
de sua filha.

Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens,
offereceu-se para madrinha do casamento.

Consummara-se o sacrificio!

       *       *       *       *       *

--Quando se realisar esse casamento? perguntava todos os dias o conde
de S. Luiz.

--Brevemente, respondia-lhe Magdalena!




XXXVI


Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente crte que D.
Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes
a mo de sua filha.

Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas,
para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como
sempre, desde as dez horas da manh, para receber todas as visitas que
lhe mereciam a honra da sua amizade.

O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete  renascena,
todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.

A condessa no se fez demorar muito tempo. J esperava que mais dia
menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.

--Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao
mesmo tempo que lhe extendia a mo. Adivinho pouco mais ou menos do que
se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma
cadeira para si.

A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questo.

--Provavelmente vem pedir a mo de Olympia?... ajuntou ella, sem
admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma s palavra. Quanto o
estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a
da melhor vontade, e, desde j lh'o affiano, que o conde ha-de ser da
minha opinio. Tenho toda a certeza que v. ex. ha de ser o mais feliz
possivel com minha filha. No parece uma rapariga d'este tempo. Para
Olympia -lhe to indifferente ir aos bailes, como passar as noites em
casa. No d importancia alguma ao luxo! O seu gosto  estar em casa e
olhar pela dispensa. Nem  mesmo d'essas meninas que passam o dia a lr
livros, como Magdalena por exemplo, que est s vezes at as duas horas
da noite amarrada  sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia
detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! L quanto a isso,
parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu
maior prazer  fazer pudins e fructas de compota.

O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagra de eloquencia,
debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o
havia trazido. A condessa no lh'o permittia!

--Em Olympia no ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude,
tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o leno da
algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.

--Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o
ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o
que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex. com
esse instincto que lhe  natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o
repetir.

--Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa,
approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mos.

--Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.

--Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vr: levantando-se, puchou o
cordo da campainha.

--E cr v. ex. que a sr. D. Olympia responde aos eccos do meu corao?

--No o comprehendo, sr. conselheiro.

Este occultou a custo um sorriso.

--Quero eu dizer, se o meu amor ser retribuido por sua excelentissima
filha?

--Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do
conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...

N'este momento appareceu um criado.

--V dizer a Maria que participe  Gertrudes que suba ao quarto da aia
da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua
me.

O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com
tanta facilidade decorava to grande poro de nomes!

D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina
ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.

--Provavelmente ceiou muito.  o seu unico defeito, sr. conselheiro. 
muito gulosa esta minha filha.

A criada retirou-se.

--O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.

--Sim?

-- verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.

--Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que
Olympia no esteja de p. Em todo o caso, sempre vou l acima. Talvez
que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala,
deixando o conselheiro na contemplao de umas gravuras em ao que
adornavam as paredes do gabinete.

Isto corre s mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que
me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe no era
antipathica a minha pessoa. Sua me, pelo que se v, encontrou em mim o
seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma
com tudo que sua mulher decidir! Emfim, ser o que Deus quizer! Em todo
o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristo de Almeida. E
eu que estive para desprezar a sua apresentao!... Desconfio que,
apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu
casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me
a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo
visconde, outro sentimento, a no ser o de repulso. O que fr
verdadeiramente bom e digno, no pde amar seno o que  digno e bom! E
demais, Magdalena deve conhecel-o. To pouco falado tem elle sido na
sociedade de Lisboa.

N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.

Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o
desbotado da face  synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o
corao, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada
estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas
terriveis consequencias de uma gastro enterite!

Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se
esforava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem
brevemente ia conceder a sua mo. O esophago no lhe permittia a mais
leve inclinao do busto. Olympia conservava se firme como um sargento,
deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!

--Venho agora mesmo de saber por minha me a sr. condessa de S. Luiz
que vossa excellencia deseja estreitar os laos matrimoniaes com a minha
pessoa. Se a meu pae lhe no fr desagradavel a unio das nossas almas,
estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.

O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mo n'um transporte
de reconhecida ventura.

--Como j tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz
ter o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa
possivel, portanto, no tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer
seno vir hoje mesmo pedir-lhe a mo de Olympia. Meu marido e eu mesma,
accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as
pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia ; deve
portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da
nossa familia.

--A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e  to
profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanas, que, hoje
mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...

--Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais
_migalha_ menos _migalha_ deve c estar. No falte pois, accrescentou
ella extendendo a mo ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os
olhos de Olympia, at que se retirou.

--At que vs as tuas esperanas realizadas, disse a condessa de S. Luiz
voltando-se para sua filha.

-- verdade, minha me, suspirou Olympia! E agora, para ter foras de
supportar todas estas commoes, vou ver se me do um caldo de cabea de
vitella.




XXXVII


Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro s cinco horas da
tarde foi procurar o conde de S. Luiz.

Este parecia ouvil-o sem lhe prestar atteno alguma; porm, graas 
sua esposa, declarou por ultimo que no tinha duvida em conceder-lhe a
mo de Olympia.

Joo Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso
amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de
ouro, ao orgo musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama
corao!

Momentos depois comearam a entrar convidados para jantar; entre esses
vinha o visconde de Coruche.

Ao _toast_, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento
de sua filha D. Olympia com o conselheiro Joo Poderosa.

Em seguimento aos brindes do estylo, no houve quem deixasse de notar
que esta declarao no tivesse sido feita pelo conde. Mas que
influencia tinha isso? No fra esplendido o jantar?!

O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S.
Luiz e de Magdalena!

Attribuiam a esta ultima, que uma paixo em silencio pelo visconde de
Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia.

Em vez de conversarem com as visitas, de _fazerem sala_, como
vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um
pequeno gabinete contiguo a um dos sales.

--Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais
uma vez intentara fazer a crte a Magdalena.

--Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro.
No tem Magdalena um dote de quatrocentos contos?

--Pde ser que a no ame, e n'esse caso...

--Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o
visconde que est sem um vintem.

--Tomras tu assim estar.

--Olha, quem foi esperto foi o Joo Poderosa... Quem o ha de agora
aturar com quatrocentos contos?

--Felizes dos jogadores!

--Desconfio que no! J tem comido do po que o diabo amassou. No  o
conselheiro que torna a arruinar-se.

--No digas isso. A lei natural  esta: o homem rico, que se arruina e
que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no
fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de
miseria seno quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o
sol da sua felicidade.

--A mim no me succederia outro tanto.

--s uma excepo.

--A excepo,  o que tu dizes.

--Ser o que te aprouver. O que eu no estou  para teimas. J querias
aproveitar esta minha opinio para me ferrares uma _estopada_. Adeus.
Vou l dentro ver se tomo um _grog_.

       *       *       *       *       *

 meia noite, retiraram-se todos os convidados.

--Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para
sua irm.

--Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei.




XXXVIII


O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo
visconde.

Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoar com Joo
Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde
de S. Luiz.

So dez horas da manh. Louco de alegria pelo negocio que viera de
fazer, o conselheiro formla mil planos para o seu dourado porvir!

A geada de muitos invernos que lhe nevara no corao, ia desfazer-se aos
raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e
contemplar de uma grande altura os lodaaes da pobreza, onde havia
alguns annos se estorcia.

N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

--Que entre, disse o conselheiro.

Minutos depois, entrou o visconde.

O fidalgo vinha pallido como uma estatua.

--Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro
fitando o rosto do seu amigo.

--Uma grande desgraa! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.

--Uma grande desgraa?! Uma grande fatalidade?!

--Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...

--Morreu Olympia de alguma indigesto?...

--Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.

--Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que
isso!

--O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro
amigo! A sua morte  irremediavel, mas o peior, ainda no  isso, o
peior foi o que me disse agora a condessa...

--O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.

--Que Magdalena entrar para um convento no mesmo momento em que seu pae
morrer.

--Respiro! disse emfim o conselheiro.

--Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.

--Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.

--Mas diz-me respeito a mim, louco! No sabes que amava essa mulher? Que
eu era amado por ella?

--Pois se tu a amas, e s amado por ella,  collocares-te  porta d'esse
convento e no a deixares entrar.

-- que tu no comprehendes o seu caracter, Joo. No sabes a especie de
amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe
vae abrir a sepultura!

--No comprehendo, murmurou o conselheiro.

--Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinio geral,
julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos,
emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu
amigo, Magdalena  ciumenta como uma lea, que no admitte que se divida
o corao, prefere morrer por mim, abraada  cruz do seu amor, do que
ser minha, sem ter f na fidelidade da minha alma. Comprehendes?

--Olha, se queres que te diga a verdade, no comprehendo bem essas
cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa,
estou certo que me no ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me
com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena est
constantemente delirando. Sempre te disse que no trocava a minha
felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que
jmais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me
pude aperceber d'essa paixo, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de
m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou
elle mudando de tom.

--Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...

--Como ella qu? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um
convento?

--No, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na
embriaguez...

--Mau systema, respondeu o conselheiro.

--Sabes uma cousa, Joo? acudiu o visconde despeitado com a serenidade
do conselheiro.

--Dize, respondeu este fleugmaticamente.

--Est-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por
mim, lembra-te...

--Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio
pouco na tua paixo. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia
seguinte, curado d'esse sentimento com o corao prompto e limpo para
receber outro que te apparea. Se fosses pobre como eu, se tivesses as
minhas theorias sobre o dinheiro, ento poderia acreditar que estavas
penalizado pela entrada no convento, porm como se no d isso,
felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. manh por estas horas,
completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher
que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me
d'aqui a dias curado d'essa paixo que te atormenta.

O visconde mordeu os beios de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras
do conselheiro, que no tardou muito que as intenes lhe fossem
completamente denunciadas.

--Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo
dissimular a perturbao que lhe haviam produzido as suas palavras.

--Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?

--Tenho muitas voltas a dar, no poderei ir seno de tarde. E
despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue s
suas profundas reflexes.

Pobre visconde! Realmente, compadeo-te. Quanto melhor te fra o teres
sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta
ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor
foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!

Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se
para Buenos-Ayres.




XXXIX


So tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera
ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos sales 
primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como
fachada de edificio legendario!

 que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas,
assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de
marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel,
que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e
cadaverico do conde de S. Luiz!

Tristo sente-lhe as mos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o
peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando,
levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braos abertos o
contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino
seio! Ento o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o
assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mos, pede a Magdalena
que se lhe approxime.

Ha quatro horas que no fala! Para maior expiao, a sua intelligencia
est clara e completamente serena!

Magdalena, debruada sobre o leito, pegando n'um leno de cambraia,
limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso.
O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignao.

A condessa, curvada n'uma poltrona, descana a fronte nas mos,
erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu
olhar  triste, mas resignado como o de sua filha.

Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um soph tapa os olhos com um
leno de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas
bolachinhas de agua e sal.

O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se
approximam dos ps do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde
uma multido de individuos esperam com anciedade saber o estado do
enfermo.

N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando
para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a
condessa.

Esta extende-lhe silenciosamente a mo, occultando ao mesmo tempo o
rosto com um leno de cambraia.

Joo Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento
retira-se para falar com Olympia.

Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e,
esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regao,
entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.

O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se
preparavam para fazer as delicias da mastigao da sua futura esposa!

No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia,
Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se
para a condessa.

Esta pergunta lhe o que deseja.

--Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se
retirem, responde Magdalena.

A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo
demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasio
de ir  copa tomar uma canja de gallinha.

--Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mo para
Magdalena. No quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos.
Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma
buscar D. Marianna de Mendona. Quero ouvir-lhe o perdo de seus
proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha,
cumpre com este ultimo desejo de teu pae.

--E minha me?... e toda a gente?...

--E o que temos ns com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da
minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de
todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os
peccados quelle santo padre que me trouxeste, minha filha, j no
receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer,
Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrars um pequeno cofre de
platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle
encerra. S tu sers digna d'isso. O meu testamento est na gaveta
pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia
adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D.
Marianna de Mendona: ainda no  muito, para o que lhe fiz soffrer!
Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdo d'essa mulher
fazer com que a minha alma, voando aos ps de Deus, seja acolhida no seu
divino regao.

Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna
de Mendona.

--Se tua me te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que
 um segredo que juraste guardar a um moribundo.

Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, sau do quarto e
atravessou pelo gabinete onde sua me conversava com o conselheiro.

--Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.

--Vou sar.

--Sar?

--Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.

--E essa pessoa... quem ?

-- um mysterio e um segredo, e recommendando  condessa que fosse para
junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto,
preparou-se para sar.

Era tal o respeito e considerao que Magdalena inspirava a sua me;
tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforos, para lhe
quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e
dirigiu-se sem mais reflexes ao quarto de seu marido.

--Aonde foi Magdalena?

--Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdo antes de morrer, e com
quem pretendo ficar ssinho.

A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona
d'onde momentos antes se havia levantado.

Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de
momento para momento ganhar mais tranquillidade.

Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu
pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto
significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma
obediencia passiva, levantou-se e sau do quarto. Pouco depois entrava
D. Marianna de Mendona e seu filho. Magdalena fechou a porta
deixando-os a ss com o conde.

Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.

O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios quella
situao, ergueu se n'um supremo esforo, e, chamando-os pelos nomes,
convidou-os a approximarem-se do leito.

D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do
enfermo.

--Lembra-se D. Marianna de Mendona, recorda-se Manuel, d'um banqueiro
chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em
companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta
contos de ris?

--Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendona, fixando demoradamente o
semblante do conde de S. Luiz.

--Se esse homem, que fez a sua desgraa, que lhe roubou filho, haveres,
e por ultimo a razo, debruado sobre a sepultura, lhe extendesse a mo
supplice e arrependida, implorando lhe o perdo para sua alma, que lhe
faria?

--Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perde os meus peccados,
respondeu ainda D. Marianna.

--Perda-me tambem, Manuel de Mendona? disse o conde. Perdoa a este
homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de
mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu
sua me  miseria e  loucura.

--Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdo de todo o meu corao,
respondeu Manuel de Mendona, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz
supremo d'esta tocante scena.

--Morrerei tranquillo, disse ento o moribundo, com a voz j
enfraquecida.

--Que Deus perde ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de
joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.

--Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz.
Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir  sua
divina presena! A ella devo o seu perdo, sr. D. Marianna!

--E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de
joelhos sobre a alcatifa, at se collocar deante do Christo. Pela vossa
infinita misericordia, exclamou ella levantando as mos para a cruz,
perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o corao lhe perdo, e queira a
vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este
arrependido conhea a sinceridade das minhas palavras.

--Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o
conde, voltando-se para Manuel de Mendona, e apontando para uma porta
que separava os dois aposentos.

Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organizao
robustissima, a infeliz, j principiava a resentir-se de tantas
commoes.

D. Marianna, lanando-se-lhe nos braos, debalde tentava occultar as
lagrimas.

--Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria
abraar a Martha, a minha companheira do hospital.

--Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli
esto todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e
sua filha.

--Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto
fr tempo, accrescentou elle, apertem esta mo, que sempre se lhes
extendeu com amizade.

As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava
n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!

--Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de
Mendona, no lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este
anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.

Esta ficou immovel!

Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste
arrancar esse diadema que te cora?

Momentos depois, retiraram se todos do quarto.

O conde ficou em estado de profunda atonia.

No se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos
labios descorados de Magdalena.

Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa,
Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o
commendador e o banqueiro.

--Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direco do leito.

--Dorme acudiu a condessa,  medida que se approximava de seu esposo.

Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruou-se a escutar a
respirao.

--Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que
me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do
conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto
extremecido.




EPILOGO


No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por testemunhas o visconde
de Coruche, o commendador Lopes de Miranda e o conselheiro Joo
Poderosa.

Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena. Entre varios legados
a differentes hospitaes e asylos, avultava a quantia de quatrocentos
contos a D. Marianna de Mendona e Athayde, como um testemunho de eterna
recordao pelos muitos favores de que lhe era devedor.

A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da Europa e da America,
excedia a dois mil contos.

Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz, s seis horas da manh,
Manuel de Mendona recebia-se na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com
a filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados capites de
navio, e por madrinha D. Magdalena de Almeida.

Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua mo ao conselheiro, e o
seu corao aos inqualificaveis gozos da cosinha.

Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia comtudo uma terrivel
sombra que lhes perturbava a paz domestica: o conselheiro no era capaz
de fazer nem um _beefsteak_! Toda a sciencia culinaria de que se
vangloriara, era apenas um mytho que elle crera para conquistar o
estomago de D. Olympia!

Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaar as azas negras do
monstro, e que Magdalena fechou as portas quelle hospital, d'onde no
tinha saido desde a morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente
ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lanou se-lhe aos ps e
pediu-a em casamento.

--Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, levantando os olhos para o
cu!

No dia seguinte, Magdalena entrava no convento de ***, onde morreu pouco
depois, recebendo as benos da pobreza, com quem havia repartido os
seus rendimentos.

Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma casa de penhores, abre
os seus armarios a todos os objectos de valor que o visconde de Coruche
periodicamente lhe envia pelo seu mordomo. Este espera ainda ver seu amo
n'um estado florescente, attendendo ao axioma de um dos nossos primeiros
vultos litterarios: que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos de
ris!

Quanto  condessa de S. Luiz, uns dizem que est beata, outros
asseveram que se tornou capitalista de uma partida de _Roulette_ no sei
em que parte da Europa, e de que so feitores Gil de Carvalho e Bernardo
de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiana pela paga espontanea
das cem libras que devia a seu defuncto marido, e de que nem ella mesma
era sabedora.

E Martha, e Manuel de Mendona, e sua me, e Balbina e Jeronymo, e
Mascatudo?

Apezar da tia Monica asseverar aos que  noite se reunem na tenda da rua
da Lapa, que foram todos parar aos peixinhos, pessoa de credito affirmou
a quem estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na sua unio,
se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando em doce calma os prazeres
de uma existencia honesta, moral e religiosa.

E ter-se-ho esquecido da memoria de Magdalena?

Nunca! N'aquelles coraes no cabia a ingratido.

                                  FIM




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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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