The Project Gutenberg EBook of Vamir, by J. H. Rosny

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Title: Vamir
       Romance dos tempos primitivos

Author: J. H. Rosny

Translator: Cndido de Figueiredo

Release Date: June 24, 2009 [EBook #29213]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by M. Silva





      Notas de transcrio:

      Este texto  uma transcrio do original de 1905, tendo-se
      actualizado a grafia para a variante europeia da lngua
      portuguesa (pr-acordo ortogrfico de 1990).

      Foram corrigidos alguns erros tipogrficos evidentes.




                                  VAMIR

                        ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS

                          Traduzido de J. H. Rosny

                                    POR

                           CNDIDO DE FIGUEIREDO




                                  LISBOA
                             LIVRARIA EDITORA
                           VIVA TAVARES CARDOSO
                           5, Largo do Cames, 6
                                   1905



                                  VAMIR

                        ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS




              Porto--TIP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA, SUCESSORA.
                          Rua da Cancela Velha, 70





                                  VAMIR

                        ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS

                          Traduzido de J. H. Rosny

                                    POR

                           CNDIDO DE FIGUEIREDO




                                  LISBOA
                             LIVRARIA EDITORA
                           VIVA TAVARES CARDOSO
                           5, Largo do Cames, 6
                                   1905




PALAVRAS DO TRADUTOR


H dez ou doze anos, li numa Revista estrangeira uma extraordinria
narrativa romntica, que o seu autor, o sr. J. H. Rosny, intitulava
_Vamir_.

Referia-se a narrativa aos tempos primitivos da humanidade, e atestava
to raros predicados de artista e to vasto conhecimento da pr-histria
natural, que senti a tentao de a verter para a nossa lngua.

No obstante a dificuldade de uma verso exacta do romance, procurei
remover ou atenuar essa dificuldade, e estampei alguns captulos na
imprensa peridica desse tempo, verificando que o conceito de
apreciadores competentes autorizava o conceito que a obra me inspirava.

Decorreram alguns anos e, relendo o meu desambicioso trabalho, ainda
entendi que valia a pena reduzi-lo a livro, no pela traduo em si, mas
pelos predicados essenciais da obra do sr. J. H. Rosny.

J aludi  dificuldade da traduo, e lealmente confesso que mais de uma
vez hesitei sobre se devia pr de lado o meu tentame, para no
desrespeitar a _estilizao_ do autor, ou se devia acatar estritamente a
ousada originalidade da forma, ou se me cumpriria conciliar essa
originalidade com as exigncias normais do idioma portugus.

Com efeito, a prosa do sr. J. H. Rosny, no _Vamir_, abunda em vocbulos
que, se no foram criados pelo autor, so, pelo menos, estranhos aos
lxicos correntes da lngua francesa; a adjectivao , por vezes, de um
arrojo, que deve ter feito calafrios  Academia Francesa; e o
pensamento, de longe em longe, aperta-se em snteses to cerradas, que
no ressalta facilmente a olhos desprevenidos.

Mas todas estas qualidades se relacionam, at certo ponto, com o
estranho cenrio que o _Vamir_ nos desenrola, com os cambiantes
misteriosos da linguagem nascente, e com a vaga psicologia do homem
primitivo. De maneira que poder capitular-se de beleza o que, a
revezes, se antolhe obscuridade e nimio arrojo ao leitor vulgar.

E, assim, eu prprio, seduzido porventura pelo brilho encantador da
concepo do sr. Rosny, e pelo esplendor imprevisto da sua linguagem,
reproduzi formas, que eu relegaria de trabalhos originais meus, mas que
so caractersticas de um grande talento insubmisso, que se espraia,
poderoso e intemerato, nas estepes e florestas do mundo pr-histrico.

Os puristas absolver-me-o pois de uma ou outra condescendncia com
brilhantes ousadias, e os leitores de romances tero neste livro um
salutar correctivo  romanada piegas, que entulha as livrarias, e
desvela as noites da mocidade ingnua.

Lisboa, 1 de Janeiro de 1905.

                                                         _C. de F._




VAMIR

ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS




I

Guerra nocturna


Foi h vinte mil anos.

O plo Norte defrontava com uma estrela da constelao do _Cisne_.

Nas plancies da Europa, ia extinguir-se o mamute, as grandes feras
emigravam para o pais da Luz; a rena fugia para o setentrio. O
auroco[1], o uro[2], o veado apascentavam-se na erva das florestas e das
plancies. O urso colosso, muitos tempos antes, havia j passado alm da
regio das cavernas.

    [1] Espcie de uro. Os franceses chamam-lhe _auroche_, palavra
    alem, de _auer_, plancie, e _ochs_, boi. (_N. do trad._).

    [2] Espcie de boi selvagem. (_N. do trad._).

Os homens da Europa, os grandes dolicocfalos[3], achavam-se ento
disseminados desde o Bltico ao Mediterrneo, desde o Ocidente ao
Oriente. Habitantes das cavernas, mais relacionados que os seus avs da
idade da pedra, mas sempre nmadas, a sua indstria elevava-se, a sua
arte era graciosa. Esboos traados a buril fraco, tmidos mas fiis,
representavam a luta do crebro no encalo do sonho, contra a
brutalidade dos apetites. Sculos depois, com a invaso asitica, a arte
decair, e o gracioso tipo daquela indstria s reaparecer ao cabo de
longos perodos.

    [3] Homens de crnio oval. (_N. do trad._).

Era no Oriente meridional, na estao em que as plantas abotoam.

A noite ia em dois teros. Na claridade cinzenta de um grande vale,
reboavam as vozes dos animais carnvoros. Nos intervalos de silncio, um
rio cantava a vida dos fluidos, a eufonia das ondas. Os amieiros e os
lamos respondiam em murmrios, em harmonias intermitentes. A estrela
_Vnus_ engastava-se no Levante. A teoria das constelaes imortais
descortinava-se entre as nuvens erradias; _Altar_, _Vega_, a _Carreta_
rodeavam lentamente a _Polar_ do _Cisne_.

Em quanto a vida palpitava nas trevas, feroz ou apavorada, arrojada s
festas e s batalhas do amor ou da alimentao, veio juntar-se-lhe um
pensamento.  beira do rio, no pontal de uma rocha solitria, um vulto
ressaiu da caverna dos homens, e ficou imvel, taciturno, atento,
olhando a revezes a estrela do Levante. Algum devaneio, algum esboo de
esttica astral, menos raro entre estes avoengos da arte do que em
muitas populaes histricas, preocupava o madrugador. O vigor e a
felicidade palpitavam nas suas veias; o hlito da noite perfumava-lhe o
rosto; e ele, na plena conscincia da sua fora, frua, intemerato, os
murmrios e a calmaria da natureza virgem.

Entrementes, por baixo da estrela _Vnus_, transpareceu um pequenino
claro. O alfange da lua apontou, os seus raios estenderam-se pelo rio e
pelas rvores, entremeados de longas sombras. O homem exibiu ento as
suas formas de corpulento caador, de ombros cobertos de uma pele de
uro. O seu rosto plido, pintado com traos de minio, era largo, sob um
crnio alongado e resistente. A sua zagaia, de ponta crnea,
projectava-lhe no corpo sombras em ziguezague; e na sua mo direita
firmava-se uma enorme clava de carvalho.

Ao estirarem-se os raios lunares, a paisagem entrou numa existncia
menos selvagem. Nos amieiros, havia frmito de asas dos elitros brancos;
na plancie, nesgas entreabertas de paraso; em todas as coisas uma
palpitao sensvel; tmidos protestos contra os pavores da sombra.

O homem, fatigado da imobilidade, caminhava ao longo do rio, com o passo
cauteloso de quem procura presa. A quinhentos cbitos, parou, 
espreita, de zagaia firme, na altura da testa. Pela orla de um bosquete
de bordos, aproximou-se um vulto gil, um grande veado de dez pontas.

O caador hesitou; mas a sua tribo devia estar muito provida de caa,
porque o animal, sem ser perseguido, foi-se afastando, projectadas sobre
a claridade avermelhada as pernas delgadas, a cabea repuxada para trs,
todo o gracioso organismo em carreira.

--L! L!--disse o caador, num movimento de simpatia.

O instinto predizia-lhe a aproximao de inimigo feroz, algum potente
felino, que andaria caando. Efectivamente, meio minuto depois, surgiu
da banda de alm da rocha dos trogloditas um leopardo, aos pulos,
ligeiro como um raio. O homem preparou a zagaia e a clava, atento, de
nariculas latejantes e nervos inquietos. O leopardo atravessou o rio
como uma poro de escuma, e imergiu nas sombras da perspectiva. E
todavia o delicado ouvido do caador ainda, durante alguns minutos,
percebeu os passos da fera sobre a terra mole.

--L! L!--repetiu ele, levemente comovido, numa atitude de provocao
grandiosa.

Decorreram minutos. As pontas da lua tornavam-se mais ntidas; pequenos
animais agitavam levemente as moitas da ribanceira; grandes batrquios
coaxavam sobre as plantas fluviais.

O homem libou a simples voluptuosidade de viver ante a magnificncia das
grandes guas, a mesclada difuso dos claros e dos escuros; depois,
afastou-se de novo,  escuta, de olhos afeitos s penumbras, espreitando
as ciladas da noite.

--Hoi?--murmurou ele interrogativamente, refugiando-se na sombra de um
moitedo.

Um rumor de galope, vago ao principio, aproximava-se, evidenciava-se. O
veado reapareceu, to rpido mas menos exacto na direitura da carreira,
suando, de respirao alta, ofegante. A cinquenta passos, o leopardo,
sem fadiga, gracioso, j triunfante.

O homem admirava, desgostoso, a pronta vitria do carnvoro, com um
desejo crescente de intervir, quando sobreveio uma peripcia terrvel.
L em baixo,  orla da moita de bordos, em pleno luar, ressaa um vulto
macio, em que, pelo rugido cavo, pelo salto de vinte cbitos, e pela
farta crina, o homem reconheceu a quase soberana fera,--o leo.

O pobre veado, desorientado pela surpresa, deu uma volta precipitada e
desastrosa, retrocedeu, e achou-se logo sob as garras cortantes do
leopardo.

Luta rpida, sangrenta; o arranco do veado agonizante; e o leopardo,
sobressaltado, ficou imvel: o leo aproximava-se tranquilamente. A
trinta passos, estacou, com um bramido, sem preparar assalto. O leopardo
quaternrio, corpulento, hesitou, furioso de se lhe ter malogrado o
esforo, e pensando em aventurar-se a combater. Mas a voz do dominador,
agora mais alta, reboou pelo vale, dando sinal de ataque, e o leopardo
cedeu, afastando-se vagarosamente, de cabea voltada para o tirano, com
um miar de raiva e de humilhao. O outro despedaava o veado; devorava,
a grandes pedaos, a presa roubada, sem pensar no vencido, que
prosseguia na retirada, devassando a penumbra com os seus olhos de
oiro-esmeralda.

O homem, a quem a vizinhana do leo aconselhava prudncia,
aconchegava-se cautelosamente no seu abrigo frondoso, mas sem terror,
disposto para qualquer aventura.

Depois de alguns instantes de deglutio furiosa, o leo interrompeu-se:
perturbao, dvidas, transpareceram em todo o seu aspecto, no tremor da
juba, no espreitar angustioso. De repente, com a fora de uma convico,
tomou o veado, deitou-o para as costas e ps-se em fuga. Teria andado
quatrocentos cbitos, quando junto a orla, onde ele tinha aparecido,
surgiu um animal monstruoso. Intermedirio ao leo e ao tigre no aspecto
e na forma, mas mais colossal, soberano das florestas e plancies, era o
smbolo da fora, erecto, sob a vaporosa claridade. O homem tremeu,
abalado no intimo das suas entranhas.

Aps ligeira pausa debaixo dos freixos, o animal prosseguiu na caa.
Devastador como um ciclone, abrindo caminho sem esforo, perseguia o
leo em fuga para o Oeste, enquanto o leopardo, parando, contemplava a
cena. Os dois vultos foram desaparecendo, e o homem pensou em deixar o
seu retiro porque o leopardo o inquietava pouco, quando a cena se
complicou: o leo regressava obliquamente, por ter achado algum
obstculo, pntano ou fosso.

O homem sorriu, chasqueando o leo, por no ter calculado melhor a fuga,
e retraiu-se para o seu esconderijo, porque os dois colossais
antagonistas vinham na direco dele. Como era natural, retardado pelo
desvio e pelo peso do veado, o fugitivo perdia terreno.

Que fazer? O caador estendeu a vista em torno de si: para alcanar
algum choupo era mister galgar duzentos cbitos e, alm disso, o
espeleu[4] trepava s rvores. Quanto  rocha dos trogloditas, ficava
ainda a uma distncia dez vezes maior. Preferiu sujeitar-se  ventura.

    [4] Corpulento animal felino dos tempos pr-histricos, _felis
    spelaca_.

A sua hesitao foi rpida.

Em dois minutos, as feras atingiam a beira do seu retiro. Ali, o leo,
vendo que a fuga era intil, deixou cair o veado, e esperou. Foi um
momento de trguas, uma suspenso como a de h pouco, quando o leopardo
segurava a presa. Em volta, o silncio, a hora da anunciao, a hora em
que os nocturnos vo dormir e os diurnos renascem para a luz. Claridades
de sonho, cimos de rvores embebendo-se em algodoamentos plidos,
guarnies de graminias lanceoladas meneando-se ao sopro hesitante do
Poente, e, por toda a parte, o vago, o confuso, a emboscada da natureza,
feita de fronteiras arborescentes, de clareiras, de faixas cetinosas de
cu.

L em cima, os astros despertos, o salmo da eterna vida.

Sobre um montculo, o espeleu recortava na claridade lunar o seu perfil
altivo de dominador, a crina pendente sobre uma peladura mosqueada de
pantera, a testa chata, as maxilas proeminentes,--rei outrora da Europa
cheleana, em decadncia hoje, reduzida a estreitas faixas de territrio.
Mais abaixo, o leo, de respirao rouca, a pesada garra assente sobre o
veado, hesitante em face do colosso, como pouco antes o leopardo diante
dele, uma fosforescncia nas suas pupilas, mesclada de receio e clera.
Na penumbra, j familiarizado com o drama, o homem.

Um rugido surdo se espraiou; o espeleu sacudiu a crina e comeou a
descer. O leo, em recuo, de dentes descobertos, largou por dois
segundos a presa; depois, desesperado, estimulado pelo orgulho, voltou
com um rugido mais estrepitoso que o do seu adversrio, e assentou de
novo a garra no veado.

Queria dizer que aceitava o combate. O espeleu no obstante a sua fora
prodigiosa, no respondeu logo. Parado, acuado, examinava o leo,
calculava-lhe a fora e a agilidade. O outro, com a altivez da sua raa,
conserva-se de p, de cabea erguida. Novo rugido do agressor, uma
rplica retumbante do leo, e achavam-se a um salto de distncia.

--L! L!--murmurou o homem.

O espeleu transps a distncia, a sua garra monstruosa levantou-se ante
as unhas do inimigo. Por dois segundos, a pata ruiva e a pata mosqueada
defrontaram-se num armistcio final. Depois, o ataque, uma confuso de
crinas e maxilas, bramidos ferozes, enquanto o sangue escorria.

Ao principio, o leo dobrou-se, sob o tremendo assalto. Desembaraado em
seguida, fez um salto transversal, atacou de flanco e a batalha
tornou-se indecisa, amortecido o arrojo do espeleu. De repente, o
frenesim dos organismos, a agitao dos msculos de bronze, a indeciso
de esforos malogrados, o revoltear das crinas ao claro da lua, um
despegar de carnes igual s palpitaes de uma onda no mar, a escuma das
goelas e a fosforescncia das pupilas fulvas, bramidos semelhantes ao
restrugir das tempestades nas franas dos carvalhos...

Finalmente, o leo, ferido por um golpe terrvel, caiu, rolando; e o
espeleu, como um raio, atirou-se sobre ele e comeou a rasgar-lhe o
ventre.

Debateu-se o leo, rugindo medonhamente. Conseguiu porm levantar-se
ainda, de entranhas pendentes e juba ensanguentada. Compreendendo no s
a impossibilidade de fugir, seno tambm que o outro no se apiedaria
dele, fez rosto sem fraqueza, e reentrou no combate com tal fria, que,
durante minutos, o espeleu no pde domin-lo.

Mas o desenlace aproximava-se, as foras do vencido decresciam
rapidamente: dominado de novo, deitado em terra, veio o suplicio, o
encarniamento do mais forte, as vsceras do leo arrancadas, os seus
ossos partidos entre arpus poderosssimos, a sua face triturada e
disforme..., e os rugidos da agonia, repercutidos atravs do horizonte,
cada vez mais roucos, mais dbeis, transmudados logo em suspiros, em
estertores, em tremor de vrtebras... Enfim, uma convulso de garganta,
um arranco lamentoso, e o soberano animal expirava.

O espeleu encarniou-se no cadver, na carne ainda vibrante, com a
voluptuosidade da vingana e o receio de uma ressurreio. Por fim,
assegurando-se de que era infundado o receio, repeliu desdenhosamente o
cadver, celebrou com um rugido o seu triunfo e o seu repto s
penumbras, com as espduas e trax sangrando de largas chagas.

Rompia a manh. Ao fundo do horizonte, uma viva filtrao de prata, o
arco da lua esmaecendo, evaporando-se.

O espeleu, depois de lamber as feridas, sentiu que a fome voltava, e
caminhou para a carcaa do veado. Cansado, muito distante do covil,
procurou um retiro, onde pudesse comer,  sombra. A moita prxima, em
que se abrigava o caador, atraiu o seu olhar, e cuidou de arrastar para
ali a sua presa.

Entrementes, fascinado pela magnificncia do combate, o homem
contemplava ainda o vencedor, quando viu que ele se dirigia para a
moita.

Um estremecimento de espanto e de terror lhe percorreu o corpo, sem lhe
tirar o instinto da luta e do clculo.

Pensou que, depois de tal combate, e vido de descanso e de alimento, o
espeleu no o inquietaria naquele retiro.

Entretanto, no tinha disso a certeza; recordava as lendas dos velhos,
referidas em noites veladas, o dio do espeleu contra os homens. O
grande felino, raro j, em decadncia contnua, parecia ter o instinto
do papel dos primatas para a extino do homem, e satisfazia o seu
rancor desordenado, sempre que se lhe deparava um individuo solitrio.

Ao tumultuarem-lhe no crebro estas lembranas, o homem hesitava sobre o
que, em caso de ataque, seria prefervel: se o abrigo, se a plancie
rasa. Aquele amorteceria o mpeto da fera; a plancie tornava mais fcil
o tiro da zagaia e os golpes de clava.

A hesitao no podia durar muito: o espeleu comeava a afastar a
folhagem da moita. Decidida rapidamente a escolha, o homem deu um salto,
e saiu por um atalho, em ngulo recto com a linha que o monstro seguia.

Ao agitarem-se os ramos, o espeleu inquietou-se, rodeou a moita, e,
vendo surgir um vulto humano, rugiu. Ante esta ameaa, desvanecida
qualquer tergiversao, o caador, de msculos geis e destros, ergueu a
zagaia e apontou. A arma vibrou, seguiu direita o seu caminho e foi
cravar-se no pescoo do felino.

--E! E!--gritou o homem, brandindo a clava com ambas as mos.

Depois, tornou-se imvel, firme, belo gigante, heri das idades de luta,
de olhar lcido.

O espeleu avanou, calculando o salto. O homem, com uma destreza
maravilhosa, fez um movimento obliquo, deixou passar o monstro, a sua
clava desceu como um martelo formidvel, e estalaram vrtebras. Um
rugido estrangulado de pranto, a queda, a imobilidade imediata do
colosso; e o homem repetiu vitorioso o seu grito de guerra:

--E! E!

Continuava todavia na defensiva, temendo a repetio do ataque,
contemplando a fera, os seus grandes olhos amarelos, abertos, as suas
garras do comprimento de meio cbito, os seus msculos enormes, as suas
goelas escancaradas e ainda cheias do sangue do leo e do veado, todo
aquele admirvel organismo blico, de ventre plido, sob a pelagem
amarela, mosqueada de negro...

Mas estava bem morto o espeleu, e j no tornaria a encher de pavor as
trevas.

O homem sentiu no peito um grande bem-estar, uma plenitude de orgulho
dulcssimo, uma dilatao de personalidade, de vida, de confiana em si,
que o ps nervoso e contemplativo, ante as flores que a aurora
iluminava.

As musicas e a brisa da manh ergueram-se ao mesmo tempo no horizonte.
Os animais diurnos foram abrindo as suas pupilas, as aves pipilaram de
encantadas, voltando-se para o Levante, entumecidas as suas pequenas
cornamusas. Sob transparente nvoa, o rio parecia de estanho levemente
embaciado; depois, mergulharam nele os esplendores do vapor e nele se
reflectiu um mundo de formas e matizes. Os cimos dos grandes choupos e
das pequenas graminias da plancie estremeceram, ao mesmo hlito quente
de vida. O sol j se elevava acima da floresta distante, e os seus raios
estiravam-se pelo vale, entremeados de sombras de rvores delgadas e
interminveis. O homem estendia os braos, numa religiosidade vaga, sem
culto determinado, compreendendo a fora e a eternidade do sol, e o
efmero da sua personalidade. Depois, teve um grito, o seu grito de
triunfo:

--E! E!--

E,  borda da caverna, apareceram os homens.




II

A horda


Aos sorrisos da manh, quando a aragem afagava, regeneradora e
voluptuosa, o rio e a plancie, os ties da primeira refeio
extinguiam-se  beira da caverna dos homens.

A rvore-sepulcro[5] de cem cbitos de alto, estendia os seus braos,
cheios de esqueletos plidos, de trogloditas extintos. Ao frouxo embate
da virao, o ossrio areo emitia cnticos suspirosos, eufonias
silbicas; e um velho, apoiando o tronco em os calcanhares, punha os
olhos prsbitos em tais ou tais crnios que surgiam de entre as sombras
ramusculares, reconstrua mentalmente os anais de tal ou tal caador
glorioso, de tal ou tal companheiro da mocidade, devorado pelo nada.

    [5] Refere-se o autor  rvore, que os nmadas escolhiam, para nela
    dependurar os esqueletos dos seus mortos. (_N. do trad._).

A horda de Pzanns, espalhada, ressentia-se do encanto daquela hora. As
crianas saltavam pelo campo, at  fronteira das guas; entre os
salgueiros, misteriosamente, alguma rapariga semi-nua avivava a sua
frescura e os seus enfeites, enlaava as ondas fulvas dos seus cabelos;
os homens compraziam-se em projectos de caa ou de trabalho, quase todos
corpulentos e musculosos, de crnios alongados e cheios de energias
belicosas. Em tigelinhas de slex, alguns guerreiros moam e misturavam
o minio vermelho com medula de uro, e pintavam o rosto e o peito com um
fino pincel de fibras: parbolas mal-feitas, fios entre-cruzados, vagas
representaes do natural, pequenos anis, traos irradiantes. Outros
prendiam aos joelhos, ao pescoo,  testa, aos ps, ornatos brbaros,
pingentes de caninos furados  nascena, (dentes de leo, de lobo, de
urso, de auroco, de veado), vrtebras de peixe, cristais com reflexos de
ametista, seixos gravados, e a mida joalharia marinha: a
porcelana-lrida, lapas, litorinas.

A horda representava uma humanidade j propensa ao ideal, industriosa e
artista, caadora mas no belicosa, que aceitava o mistrio das coisas
sem ter ainda conhecido culto, dominada apenas por vagos simbolismos.
Eram filhos da grande raa dolicocfala, dominadora da Europa
quaternria, vivendo em paz, de horda para horda, estranhos  degradao
da escravatura; caracterizava-os uma nobreza rude, uma grandeza e uma
bondade que no mais se encontraro no decurso da neoltica[6]. Eram
largos os seus campos e to ricos de alimentos, que ainda no surgira o
instinto de apropriao directa nem sombra de astcia vil. Os condutores
de tribo, sem autoridade efectiva, livremente escolhidos e seguidos, por
virtude da sua seriedade e experincia, ainda no haviam entronizado o
despotismo. Unicamente as questes de amor e rivalidade manchavam,
algumas vezes, a terra com o sangue de homem, derramado por homem...

    [6] Segundo perodo da idade de pedra, chamado tambm idade da
    pedra-polida.

Terminada a refeio e dispostos os enfeites, comeou o trabalho das
mulheres e dos homens que no entravam na caa desse dia. Ah! desde o
slex de Thenay[7], desde o taciturno antropopiteco, agora que no seio
da fauna ia surgir o antepassado cheleano, quantas fronteiras
ultrapassadas, dentro do universo cerebral!--diviso do trabalho,
tradio de utenslios, soberania da natureza, organismo multiplicador
das foras humanas, esboos artsticos...

    [7] Os slex de Thenay so os primeiros e os mais grosseiros
    vestgios da indstria humana, atribudos a uma espcie de
    homem-macaco ou antropopiteco, precursor do nosso antepassado da
    poca cheleana.

Com delicada agulha, muitos cosiam pelicas, depois de abrir nelas
pequenos orifcios com um puno de pedra; outros, com polidor e
raspadeiras trabalhavam em peles frescas; alguns, em bancos de pedra ou
de madeira, ao ar livre, martelavam, afiavam as machadas, as facas, as
serras, os burs. O corte, fazendo saltar pequenas estilhas, e feito com
uma destreza e pacincia admirveis, deixava aparecer, lentamente, as
lminas e as pontas, e mui raramente o artista deixava de descobrir as
direces convenientes  percusso, familiarizado com a matria, dotado
da previso que se adquire com a longa prtica. Tarefa mais delicada
ainda, contornavam outros as pontas, os anzis, os arpus de osso e
corno, munindo-se de utenslios finos e perfeitos, tais que a humanidade
no poder exced-los, seno em passando da pedra para o metal.

Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indstria: esquirolas
arredondadas por meio de slex denteado e com entalho; polidura e
alisamento com grs fino; escavao do fundo na ponta curva, com uma
lentido calculada, com mil perigos de se partir a obra.

Em quanto os trabalhos comeavam, um grupo de caadores reunia-se junto
da caverna.

Ao rochedo mais alto subiu um moo, de olhar penetrante, a explorar as
perspectivas.  sua esquerda, sob reflexos de ametista embaciada, frouxa
e vaga, a floresta esbatia-se no horizonte, prolongando-se at o rio. Em
frente, os valeiros, as quebradas das estepes, a ondulao suave dos
outeiros, osis semelhantes a nenfares num pntano, o espelho sinuoso
das guas fecundas. Atrs, perdida na poeira da tbia claridade das
nuvens, a regio das montanhas; e por toda a parte perfis diminutos de
animais pascendo em plancies: o caador contou uma horda de cavalos e
um rebanho de uros. Com uma voz atroadora, anunciou-os aos seus
companheiros, traando com o dedo a direco da caa. quele aviso,
todos tomaram as armas: o arco, o arpu, a zagaia, a clava. Depois, no
momento da partida, a velho chefe, lanando um olhar em roda, bradou:

--Vamir!--

Ento, no portal das grutas, apareceu o moo que vencera o espeleu.
Hesitou entre o desejo de prosseguir na preparao da manta que talhara
na pele do monstro e que comeara na vspera, e o desejo da caa.
Decidiu-o a mocidade, a atraco dos vales rejuvenescidos, as
exclamaes dos seus companheiros. Reentrou na caverna, e reapareceu
logo, armado de arco e clava, e o bando ps-se em marcha para o Norte.
Cheios de vivacidade ao principio, excitados os crebros brbaros pela
marcha e pelas belezas matinais, foram-se tornando depois silenciosos.

De sbito, um rebanho de uros apareceu-lhes no alto de uma colina. Os
grandes herbvoros espalhavam-se em tringulo, em nmero de muitos
centenares, numa rea de dois mil cbitos. Os toiros, de flanco leonino,
crnio volumoso e pelo avermelhado, circulavam, a passos lentos, entre
as fmeas e os machos tenros. Aquele rebanho enorme realizava um
esplendor de vidas tranquilas, de majestade pacifica e de fora social.
 voz do condutor, (um toiro colossal, postado no ngulo mais agudo do
tringulo), os outros machos agruparam-se para o combate. Uma
inteligncia selvagem,--inteligncia atrofiada, entre os seus irmos da
sia, por uma servido que j existia desde muito,--tornava-os aptos
para a tctica, para a espontaneidade.

Os caadores pararam. Encobertos por um cabeo, discutiam o plano de
ataque. A configurao do terreno e a situao das feras davam lugar a
duas alternativas: atac-las, ao mesmo tempo,  direita e  esquerda,
aproveitando a srie de outeiros transversais, ou contornar a plancie,
e surgir l de baixo, a duas lguas, de uma densa mata de figueiras
silvestres.

Depois de alguns minutos, a maioria optou pelo primeiro mtodo, porque o
outro, embora mais produtivo em caso de bom xito, era evidentemente
menos seguro, podendo qualquer pnico afastar os uros, antes de serem
assaltados.

O bando dos caadores dividiu-se em dois troos, guiado um pelo velho
que empunhava um basto de comando com esculturas, e o outro dirigido
por um colosso de idade madura.

De ambos os lados, a marcha foi organizada segundo as regras, utilizados
sabiamente os acidentes do terreno; e a horda do velho, avanando
rapidamente, aproximava-se, estava j a distncia de tiro, quando o
grande uro condutor pareceu inquietar-se. Erguendo a cabea vermelha,
constelada de luas brancas, farejou o horizonte, e ficou suspenso numa
perscrutao profunda. Depois, a sua voz ergueu-se, bela e grave, como a
voz dos lees. Os herbvoros dispersos assustaram-se, e concentraram-se.
Um minuto de duvida; um estremecimento de espinhao; a convico enfim
de que estava prximo o inimigo, o implacvel inimigo vertical, to
conhecido das feras; e logo o sinal de fuga, a partida inopinada da
enorme caravana, acelerando-se num trote, que fazia latejar o vale.

Renunciando o ardil, os trogloditas subiram a cadeia de outeiros que os
encobria, os mais geis apareceram na cumeeira; mais de dez tiros de
arco os distanciavam dos retardatrios do rebanho de uros. Estes andavam
rpidos, sem estorvo dos novilhos; mas, desde o primeiro assalto dos
caadores, era evidente que a expedio chegava ao seu terreno. Os mais
ardentes, verdadeiros brbaros de raa vitoriosa, sem clculo,
empenhavam-se numa luta de emulao, insensveis  palavra dos guias. Em
poucos minutos, trs de entre eles chegaram a menos da distncia de um
tiro, e as frechas silvaram, um toiro caiu, outro urrou formidavelmente.

--E! E!

Partiram outras frechas. Ficou estendido um toiro e depois uma fmea;
cinco caadores tinham os uros ao alcance de tiro.

Ento, sacrificando-se, dois dos bovdeos machos fizeram alto.
Escarvando o solo por um minuto, e fixando no espao os grandes olhos
perturbados, arrojaram-se  luta, nobres protectores da sua raa.

Mais frechas; mais golpes profundos; mas as belicosas alimrias no
pareciam senti-los, cada vez mais prximas sempre, sempre mais ferozes.
Confiados nas pernas, os caadores dispersaram-se, pela maior parte; mas
dois moos, entre-olhando-se, e dominados por um orgulho de valentia e
destreza, esperavam imveis. Os outros ento, facto curioso, fizeram
semicrculo.

O primeiro toiro, de cerviz baixa, e com uma velocidade terrvel, correu
directamente contra o mais alto dos moos caadores. Este, com um
movimento elegante, ps-se de esguelha e cravou a sua lana na ilharga
do toiro.

Sangrado, o animal parecia desfalecer, mas voltou de soslaio, menos
ligeiro e mais cauteloso. Mas nem por isso evitou melhor o bote: a arma
entrou-lhe de novo nas entranhas, mais penetrante, mais cruel.

Cambaleante, ajoelhado, o uro pareceu vencido, em posio de receber o
golpe supremo.

Mas, no momento em que a lana se levantava de novo, ele ressaltou, e
com o corno esquerdo levantou o homem. Levado na parte convexa daquele
crescente e no na ponta, o guerreiro desembaraou-se a tempo, e o seu
terceiro golpe, decisivo, em pleno corao, assegurou-lhe a vitria.

--Terann matou o grande uro,--rugiu ele.

Ao lado, a luta empenhava-se de outra forma. Quando Terann aniquilava o
seu adversrio, outro toiro se arrojava contra o caador da clava.

Postado em frente, temerrio, o homem desceu a arma e julgou esmigalhar
o crnio da alimria. Mas, vindo de lado, e por um desvio de cornadura,
a pancada no sortiu todo o efeito; e o toiro, precipitando-se como um
raio, arrastava o nmada pelo espao de dez cbitos.

Inerme, maltratado, espezinhado, viam-se j as entranhas do desgraado,
e ouvia-se-lhe o estalido dos ossos.

Depois o sangue jorrou: feridas enormes esburacaram o peito; e, na
perturbao dos caadores, apenas algumas frechas soaram dos arcos,
despedidas pelos melhores archeiros. Depois ainda, como o toiro se
encarniava no corpo do vencido, muitos arrojaram-se com grande clamor.

A monstruosa alimria no os esperou.

Convicta, talvez, de que morreria, mas desejando cair como guerreira,
marchou altivamente contra os assaltantes. Nuvens de dardos foram
embeber-se nos seus belos flancos, sem lhe sustar a velocidade, e
prontamente atingiu um novo antagonista, um velho que fugia sem
agilidade, e lanou-o por terra.

Baixando a cornadura, dispunha-se a arrebat-lo, mas um tiro de zagaia
nas espduas do uro salvou o homem e o flexvel perfil de Terann veio
interpor-se.

--Terann! Terann!--clamaram os caadores. Terann evitou o ataque do uro;
mas o seu segundo tiro, mal dado, roou apenas uma omoplata.

Por sua vez, rolou pelo cho; por sua vez, viu baixarem-se as agudas e
velozes pontas da cornadura, e todos o julgaram perdido. Mas, de
repente, gil como o salmo que sobe um rio, apareceu, de clava erguida,
Vamir. Teve apenas tempo de retirar Terann e arroj-lo ao acaso,
enquanto os trogloditas bradavam:

--Vamir  forte como o mamute!--

Com um aceno, Vamir desviou qualquer auxilio. Depois, colocando-se a
seis cbitos do toiro, falou-lhe assim:

--Retira-te, valente..., to digno de viver e de conservar a grande raa
dos uros, to digno de pastar por muito tempo as boas ervas da plancie.

Imvel, o bovdeo fitava no caador as suas largas pupilas azuladas; e
uma piedade misericordiosa segredava, na alma de Vamir, penas por
aquela grandiosa alimria, sacrificada  fatalidade das lutas.
Entretanto, triste, j sem arrojo e com as artrias exaustas, o toiro
baixava ainda a cornadura, aguardando o ataque do homem. E Vamir
prosseguiu:

--No, valente..., Vamir no tocar no grande uro vencido... Vamir
sentiria que as plancies ficassem privadas do valente, que pode
proteger a sua raa contra o leo e o leopardo...

Dobrado sobre os joelhos, o uro parecia escutar o caador, num sonho
dilatado e vago. Depois, a sua cabea oscilou, um eco dbil de rugido
estremeceu-lhe na garganta... O toiro prostrou-se, as suas plpebras
entrecerraram-se, e o seu ltimo alento exalou-se sobre as gramneas.

Assim findou a caa, numa grave tristeza; e os cinco uros, que jaziam
dispersos na plancie, haviam custado a vida a um filho dos homens,
porque se viu que Vanhab, filho de Djeb, acabava de restituir o seu ser
s coisas. E os guerreiros Pzanns ainda uma vez reconheceram a fora e a
coragem do uro; mas, por um sentimento de indefinida discrio, sentiam
agora mais amargura que clera. Associados s ltimas palavras de
Vamir, sabiam que a existncia do herbvoro  necessria  dos homens;
e  por este profundo sentimento que eles, muitos milhares de anos antes
da domesticao da alimria, tinham aprendido a dispor moderadamente de
qualquer vida, salvo da dos carnvoros e parasitas, e a mostrar-se
generosos com os uros valentes, para que as hordas de veados, os
rebanhos de bovdeos e as caravanas de cavalos estivessem fortalecidas
contra as grandes feras.




III

O funeral de Vanhab


Ao cair da tarde, transformado o sol num braseiro circular, os velhos
surgiram da caverna, seguidos pela melanclica horda.

Dois guerreiros moos transportavam o cadver de Vanhab; e o vermelho
claro do sol poente, sobre o plido crnio e atravs da caixa torxica,
caa como um smbolo de profunda amargura, avessa a um dia primaveral,
sobre as runas de um moo que desaparecera para sempre no abismo das
metamorfoses.

A horda desfilou lentamente atravs da plancie, e os lamentos surdos da
esposa e da me interrompiam a taciturnidade da cena.

Quando subiram a colina e chegaram  rvore-sepulcro, viu-se um velho
colocar-se ao p de Vanhab, e todos aguardaram a sua fala, porque tinha
fama de saber falar aos outros homens.

O velho conservou-se imvel por algum tempo, para que lhe chegassem 
memria coisas antigas, confusas snteses adquiridas pela sua raa que,
dominada pela natureza, ainda no tinha concebido mistrio algum alm
das formas materiais. E falou:

--Homens... Vanhab, filho de Djeb..., nascido entre ns..., era um
caador intrpido e um trabalhador destro. O uro, o leopardo, a hiena,
conheceram-lhe a fora... Retalhou os despojos de alimrias, e deles fez
vestidos e armas... Fabricou utenslios da pedra beneficente...
Homens... Vanhab, filho de Djeb, saiu da vida..., no caar mais, no
mais despojar a alimria, nem mais fabricar utenslios da pedra
beneficente... E porque era um companheiro fiel e prudente..., ns
deploramos Vanhab, filho de Djeb.

--Ns deploramos Vanhab, filho de Djeb,--repetiram as vozes da horda.

Depois, houve pesado silncio, e as cabeas dos trogloditas ergueram-se
para ver subir  rvore-sepulcro um gil caador, que passou de ramo em
ramo, por entre os esqueletos dos avoengos. Quando chegou a um ramo
livre, suspendeu-se Vanhab, filho de Djeb, ao cordo entranado, em cuja
extremidade pegava o trepador, e os restos do finado subiram por entre a
folhagem.

Do horizonte morno e do grande znite manava uma languidez to doce, um
sopro de vida to encantador, e uma majestade to serena, que os
companheiros de Vanhab, sua me e sua viuva esqueciam a dor e o terror
da morte.

O cadver, seguro enfim, oscilou um pouco, e a horda comeou a debandar
sob a penumbra do crepsculo. Nos pontais das suaves colinas,  beira do
rio, as naturezas contemplativas viram repartir-se a luz em mil
figuraes efmeras.

Dentro em pouco, debaixo da rvore, havia apenas o ncleo dos
companheiros ntimos e dos parentes.

A sombra sucedeu aos esplendores do cu. Mais um dia desapareceu nas
profundezas do passado. Mais uma noite desenrolou o manto do infinito.

Impressionados ento, com imaginaes embrionrias, com o pensamento da
morte e da noite associadas, os humildes pr-histricos, fiis a Vanhab,
juntaram um sonho aos milhes de sonhos, de que nasceram os cultos, de
que nasceram as alianas do terror, do sobrenatural e da imortalidade.

Entretanto, a jovem esposa estava prostrada sobre a erva, com os cabelos
esparsos sobre as gramneas, como as flores dos salgueiros que choram
sobre os nenfares dos lagos; e Terann, o vencedor, amigo de Vanhab,
apiedou-se dela e sentiu estremecer o corao, porque o cabelo da mulher
era formoso e o seu pescoo arredondado e branco,  claridade final do
dia.

Terann teve ento palavras doces, e ela ergueu os olhos... Ponderou que
Terann era forte entre os fortes, e sem ferocidade para as mulheres e
crianas. E, quando as trevas se cerraram, ficou um ao lado do outro,
sem movimento, sem palavras, mas sentindo raiar em si um porvir,
enquanto os lobos vagueavam na plancie, e a hiena gargalhava  borda do
rio, e os grandes carnvoros sentiam dilatar-se-lhes a fora.




IV

A ilhota


Vamir, filho de Zom, no obstante a sua juventude, era o assombro da
horda dos Pzanns. Caador experto e valente, belo de estatura e forte
como o auroco, possua tambm os dons misteriosos da arte. As formas do
animal e da planta cativavam a sua imaginao.

Era daqueles que divagam sozinhos sobre as colinas e que cruzam a
floresta, ou vogam pelo rio, ou se embebem nas trevas, pelo jubilo de
surpreender as coisas secretas.

De homens tais no motejavam os dolicocfalos da Europa, antes estimavam
profundamente Vamir, porque sabia manejar o buril que grava no osso e
no corno, e o cinzel, e o formo que desbasta a madeira e o marfim.

Apaixonado pela sua arte, tornara-se o mais famoso dos artistas entre as
tribos que, na primavera, chegavam ao Oriente meridional.

Durante dias e semanas inteiras, saa do meio dos seus companheiros,
explorando solides, trabalhando em algum retiro longnquo; e os
artefactos que ele trazia das suas excurses eram o espanto da sua
horda. Nem Zom seu pai, nem Namir sua me, se inquietavam muito com
essas ausncias, porque muito fiavam da fortuna do filho.

Ora, um dia de manh, embarcou ele, e foi, rio abaixo, na sua pequena
embarcao, que estremecia  menor ondulao das guas, cortadas pelo
remo.

 proporo que ele perdia de vista a caverna dos trogloditas, o rio era
mais largo e menos profundo, e grandes pedaos de rocha dificultavam a
navegao, vestidos de musgos e lquenes. Havia ali o hino das guas
extensas, o baixo grave da corrente, os rumores da pedra batida da gua,
um encanto de ressonncias, s vezes penedos dispostos com simetria
arquitectural em galerias abertas aos quatro ventos, nas quais soluavam
vozes de abismo.

At s margens virgens chegava a floresta, orlada de salgueiros frgeis,
povoada de choupos grisalhos, freixos plangentes, btulas nos cabeos;
atrs, a populao de rvores gigantes, o cosmos dos cips e das
plntulas em briga, o mistrio da natureza criadora, foras livres, a
renascena sobre o hino milenrio, numa penumbra de templo e de
emboscada, onde palpita eternamente a alegria, o terror e o amor.

Vamir largou os remos, dominado pela solenidade do espectculo,
encantado pela vacilao das sombras das rvores sobre a gua, pelo
perfume agreste da paragem, enquanto por entre varas e ervas iam
passando focinhos de herbvoros, e bandos de esturjes subiam a
corrente, roando os penedos errticos.

Entrementes, apareceu uma ilhota.

Vamir ps-se a remar, e foi amarrar a canoa numa angra, entre
salgueiros, no limite meridional da pequenina ilha. Batrquios,
galinholas, e um adem espantaram-se. Vamir desviou a folhagem e
achou-se numa clareira, onde a terra parecia calcada e as ervas
silvestres mondadas intencionalmente.

Sorrindo ligeiramente, Vamir meteu a mo na cavidade de um ameeiro, e
tirou de l raspadeiras, lminas, pontas de slex, pedaos de osso, de
corda, de madeira de carvalho.

Ficou por um instante em contemplao diante de uma estatueta, indecisa
ainda, cuja cabeladura, testa e olhos estavam quase concludos; e
deixou-se tomar de uma beatitude religiosa, esttica:

--Estar concluda, antes da lua cheia.--

Depois, arrojou o manto, foi  canoa buscar os dentes e os ossos que
tinha levado, e, por muitos minutos, hesitou sobre se continuaria a
estatueta, ou se trabalharia em gravuras.

Tentavam-no principalmente os caninos do espeleu. Pegou neles uma e
muitas vezes. Piscando os olhos e apertando os lbios entre os
incisivos, esboou com a ponta do buril de slex contornos imaginrios.
Depois, espalhando a vista em redor, e passeando pela ilhota, pareceu
buscar algum modelo,--rvore, ave, peixe.

Apanhou numa enseada um grande rannculo aqutico de corola plida, e
examinou-o atentamente.

Uma doura inteligente, a subtileza de estar em contacto cerebral com a
natureza, uma concentrao de artista, avincavam-lhe a fronte e as
plpebras. Grandes ptalas de verniz suave, anteras tenussimas,
pednculo matizado de rosa, tudo isto ele apreciou, como amante da
forma, com a sua retina voluptuosa, mas principalmente as linhas
terminais, os contornos que o seu buril poderia reproduzir, as
fronteiras da flor.

Fixando-a no solo e escorando-a com ramsculos, tentou restituir-lhe a
posio natural e aguou o seu utenslio.

Finalmente, tomando um dos caninos do espeleu, e profundamente absorto,
gravemente apaixonado, comeou a traar um ligeiro perfil, um esboo do
rannculo.

Firme, e de bom tacto, a sua mo musculosa de atleta prestava-se ao
trabalho artstico; entreviam-se j uns traos graciosos, o
desabrochamento das ptalas, os pontos das anteras sobre as dbeis
hastezinhas.

Comovido, Vamir quedou-se, de olhos meio cerrados e lbios mais
nervosamente apertados entre os incisivos: os minutos foram bem
empregados; a flor aparecia belamente sobre o fino marfim.

O homem riu-se em voz baixa e cruzou os braos sobre o peito. Em seguida
porm, descontente de alguns traos, apagou-os com a raspadeira,
recomeou-os, at que surgiu a contrariedade, a luta, o momento em que o
trabalho se torna pesado, eivado de clera. Com gestos de
criana-colosso, exprobraes  matria, descadas de braos ao longo do
tronco, duas ou trs vezes largou o buril.

Mas a obstinao da sua raa fazia-o retomar o trabalho, at que
terminou o esboo, corrigindo as linhas imperfeitas.

Cansado, ento, ergueu-se, e no quis olhar mais para a sua obra.
Abatido diante da natureza, sentiu que a melancolia lhe invadia o
crebro.

Demorou-se largamente  beira do rio. Era a grande estao fecundadora:
as guas enchiam-se de uma nuvem de animais inferiores, muitos dos quais
vinham do mar, subindo as correntes. As enchentes do equincio haviam
cessado mais de um ms antes, e raramente se avistavam ramos e troncos
de rvores desarraigadas.

Chegou o meio dia, o grande sol, as sombras diminudas, o ar trmulo de
calor, colunas de ar ascencionais; mas, na lentura da ilhota, debaixo
dos salgueiros e ameeiros frescos, era deliciosa aquela hora.

Alm, na margem distante, mostrou-se um grande animal corngero, em que
Vamir reconheceu o auroco. Vamir adiantou-se, sem pressa, at  beira
do rio ao longo de uma espcie de molhe.

O corao do caador palpitou,  vista do enorme mamfero. Admirou-lhe a
cabea larga, inclinada sobre o rio, as pernas altas, o peito musculoso:

--E! Aqui est Vamir!... Vamir!--gritou ele ao animal, com voz
retumbante.

O auroco levantou a cabea, assombrado, e o nmada repetiu:

--Vamir consente que vivas!--

O auroco, acabando de beber, afastou-se.

Vamir tinha levado, para conservao sua, uma posta de uro, previamente
assada. Deglutiu-a, estendeu-se no cho e adormeceu.

Passado tempo, um rumor acordou-o em sobressalto. Vamir viu fugir meia
dzia de ratos aquticos.

Levantou-se de um salto, estremunhado, e pensou logo na gravura
incompleta do canino. Quando a retomou, foi agradvel a sua surpresa: em
vez do esboo duvidoso que ele imaginava, era um bosquejo firme, exacto,
de linhas elegantes.

Pegou no buril, aprofundou cuidadosamente os contornos; depois, fazendo
um buraco para suspenso, na raiz do dente, sorriu de alegria diante do
seu novo e belo artefacto. Apenas, por aquele dia, o seu poder criador
achava-se esgotado: tentou em vo retomar a estatueta: um enfado
invencvel, uma desabilidade contnua, acompanhavam cada um dos seus
esforos.

Descorooado, reps os seus materiais e os seus utenslios na cavidade
do ameeiro e ergueu a vista ao firmamento, para calcular a hora. A noite
vinha ainda longe, o sol ia a meio caminho do Poente, se bem que a
fresquido se sentia j no prolongamento das sombras.

Os nemceros zumbiam em colunas, e por cima da floresta iam-se formando
nuvens translucidas.

Ento um aborrecimento pesou no corao do dolicocfalo,--um
aborrecimento de sade opulenta, de fora acumulada. Esvoaaram no seu
crnio desejos indefinidos, desejos de caa, de trabalhos perigosos, de
procriao.

Tentavam-no as regies de alm, a jusante do rio. Desconhecidas pelos da
sua raa, excitavam-lhe a curiosidade rude, audaciosa e pueril. Porque
no havia de ir v-las? Na sua juventude intrpida, propensa a speros
empreendimentos, acostumada aos errores solitrios, no seu crebro de
artista, de imaginao ardente, aquele desejo engrandeceu-se,
definiu-se.

Inspeccionou ento cuidadosamente as suas zagaias, a sua clava, o seu
arpu duplamente denteado; assegurou-se de que nenhuma veia de gua
ameaava a sua canoa, e, retomando o remo, embarcou de novo.

 proporo que ele se adiantava remando, a floresta tornava-se cada vez
mais densa, as margens menos definidas, formadas de humo viscoso de
aluvies movedias, de escombros silvestres. A gua, mais escura, era
tambm mais vagarosa; os penedos j no apareciam; velhas rvores de
mil anos erguiam-se de espao a espao; grandes rpteis dormiam nos
promontrios; e a gritaria dos papagaios encobria os murmrios augustos
da vida.




V

O homem das rvores


Quando a noite escureceu o rio, Vamir percebeu que estava imensamente
longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjo
arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe  memria as lendas
vagas dos Pzanns:

--Tah, ancio de cento e vinte Invernos e memria lcida, narrava o
desmoronamento das montanhas. Trs geraes antes de Tah, o Oriente
meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo
algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos
subterrneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.

O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e,
desenvolveu-se uma gerao inteira, sem que ningum se atrevesse a
devassar as novas regies. Depois, Harm, o grande caador, acompanhado
pelo pai de Tah e por moos valentes, aventurou-se aos desfiladeiros
cavados pelo cataclismo. E foi assim que se descobriram as grandes
plancies do Oriente meridional...--

Sentado sob uma faia de franas trmulas, comovido por aquelas lendas,
Vamir desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras
distantes.

Lembrou-se ainda de outras lendas: a histria dos Pzanns aventureiros,
que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e
muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestgios, e outros
tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre
rvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.

Mas nada disto desalentava o nmada. A sua curiosidade e a sua coragem
crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas
sombras.

Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o
cansao lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para
a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele
do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra
surpresas muito rpidas. E, com a clava numa das mos e a zagaia noutra,
adormeceu.

Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamir atacado pelos carnvoros.
No porque os monstros da sombra no girassem  volta da sua canoa; mas
 que nenhum tentou o assalto.

Vamir acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da
abundncia de tudo, no lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a
fora do homem.

Mais de uma vez, diante da interminvel floresta, de onde manavam grandes
ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a
tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difcil
que a ida; a memria inquietava-se-lhe com a histria dos que no tinham
regressado; e o corao enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e
Namir, seus geradores, e de seus irmos e irms, mais novos que ele.

 verdade que Zom e Namir o tinham j esperado por outras vezes durante
dois ou trs quartos de lua, e se haviam acostumado s ausncias dele;
mas agora, que durao teria a viagem?

Os obstculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamir no
podia transpor, seno levando a canoa pelas margens.

Por entre espinhais e grossas razes que ressaam da terra, por cima da
acidentada areia movedia, por entre rpteis e feras alapadas, rdua era
a passagem; mas estes prprios obstculos,  proporo que ele os vencia
em maior nmero, estimulavam-no  perseverana, pela nsia de perigos
sem recompensa.

Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o
orvalho escorria das rvores como chuva ligeira. Um rudo de ramagens
chamou a sua ateno. Viu avanar ento um vulto cor de freixo, de
andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mos posteriores; a sua
estatura excedia a da pantera. As suas quatro mos, o seu rosto, os seus
olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a
Vamir palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara at
mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinrio ser, de
braos desmedidos e peito largo, reconheceu Vamir o _homem das
rvores_. Estranho aos povos da Europa e quase aos da sia, cada perodo
o impelia para as regies ardentes: cem mil anos depois do xodo da
raa, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas
algumas famlias solitrias.

Vamir teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de
chamar, prprio dos Pzanns. O homem das rvores parou, inquieto,
espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.

Vamir, desviando as frondes, descobriu-o de sbito.

--Hoi!... Venturoso sejas!

O homem das rvores ps-se em p. Coberto de pelos penugentos, de raros
cabelos, de menor estatura que o nmada, mas mais largo de ombros,
parecia dotado de uma fora extraordinria.

Vamir admirou-lhe a fisionomia feroz, as maxilas enormes, as
sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas, a sua epiderme
escura e granulosa, sem que diminusse a simpatia, o prazer de encontrar
um semelhante, depois de uma semana de solido; e, acompanhando as
palavras com o gesto, Vamir tornou:

--Vamir, amigo..., amigo!

O homem das rvores rosnou, entreabrindo os beios, certamente hesitante
sobre as intenes do outro.

O nmada, vendo a inutilidade das palavras, recorreu aos gestos, mas sem
outro resultado, seno aumentar a desconfiana do desconhecido.

Sem se importar disso, Vamir deu alguns passos em frente; mas ento, de
punhos cerrados e pupilas trmulas, o homem das rvores bateu no peito e
ameaou o troglodita. Este irritou-se:

--Vamir no teme o leo, nem o mamute, nem as ciladas dos homens...--

O homem das rvores rosnou outra vez, sem avanar todavia para o Pzann,
mantendo-se na defensiva.

 vista do que, Vamir calou-se, j sem ira, e com uma curiosidade
crescente.

Os dois contemplaram-se por algum tempo.

Esta pausa pareceu inspirar alguma confiana ao homem das rvores. A sua
fisionomia desvincou-se, manifestando uma paz de herbvoro. Embora menos
analista que Vamir, percebia tambm que estava na presena de um
semelhante. Vagos instintos porm, talvez recordaes directas, temores
atvicos, no lhe tornavam agradvel tal presena.

Sentiria ele que outrora, ao dissolver-se o perodo tercirio, ele
ocupava a mesma escala do grande dolicocfalo que estava em p diante
dele? Que, por misrias e vivendas depressivas, a sua raa estava
agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele, gravadas na sua carne, as
dores, as revoltas, as nostalgias, os xodos perptuos, as campanhas
perdidas, tudo que se transmite de gerao a gerao, de sangue a
sangue, e cujo despertar indefinido, entressonho de vidas passadas,
ressurgidas subitamente nas fibras hereditrias, equivale  memria
directa e precisa?...

E o homem das rvores, desajeitado, continuava, embora menos
desconfiado, a espreitar Vamir. O Pzann, deixando de gesticular, e
convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender, retirou-se
para a sua canoa, a fim de a pr a flutuar.

Quando chegou ao rio, voltou-se e viu que o homem das rvores o tinha
seguido e o olhava com curiosidade.

Embarcado Vamir, uma certa benevolncia se desenhou na boca cinzenta,
sobreposta de nariz chato, do homem das rvores, que com os braos
peludos esboou um vago gesto de amigo. Vamir correspondeu-lhe
imediatamente, sorrindo, e desculpando ao selvagem a desconfiana.

Por muito tempo, e enquanto a dbil canoa se afastava, entre o raizame
das margens deixou-se ver imvel uma face atenta; e uma admirao pnica
e uma impresso mista e selvtica como as saras marginais, vagueavam no
crebro do homem inferior, no crnio moroso do homem das rvores.




VI

Contra-anncio


Mais alguns dias, e sempre a floresta! Vamir comeou a duvidar de que
ela terminasse. Porque no seria ela a fronteira do mundo?

E contudo as cachoeiras iam diminuindo.  excepo do assalto de uma
pantera, que do alto de uma rvore o atacou, e cujas entranhas ele fez
em pedaos,  excepo da tortura dos infinitamente pequenos que sem
cessar lhe perseguiam o corpo,  excepo das ameaas dos rpteis,
Vamir s tivera que vencer os obstculos do inanimado, as ciladas da
terra pantanosa e das plantas emaranhadas das angras. Cada vez mais
hbil em adivinhar os perigos, ao simples aspecto da terra e das guas,
acostumara-se a rir de tais obstculos, e maior altivez palpitava no seu
corao e nas suas carnes.

Ao sexagsimo dia, a vegetao comeou a clarear-se. Por duas ou trs
vezes se avistaram clareiras, novos recantos silvestres em que as
rvores eram mais acanhadas e mais raros os colossos seculares.

Por outros indcios ainda, pela presena de animais que preferem a
proximidade dos espaos livres, pela prpria natureza do terreno, Vamir
pde pressentir o bom xito da sua empresa.

Dois dias depois, haviam desaparecido as suas ltimas duvidas. A margem
esquerda mostrou-lhe velhas estepes, ligeiramente arborizadas, e onde as
rvores se disseminavam muito.

Ao meio do sexagsimo oitavo dia, amarrou a canoa numa calheta
escolhida, armou-se com as zagaias e a clava, e empreendeu uma excurso
a p, para o lado do Ocidente.

O solo era firme; as gramneas e as plntulas predominavam, cada vez
mais, entre as rvores.

Depois de algumas horas, Vamir chegou acima de um outeiro, de onde
avistava um amplo horizonte. Ao Norte, uma perspectiva verde, violcea,
atrigueirada, a floresta-oceano, por onde se escoavam os encantos da
luz, onde a vida se alastrava em expanses inmeras e subtis. Ao Sul, a
inclinao das estepes, entrecortadas de osis, a perspectiva de uma
regio de caa e transito livre, o novo pais que Vamir desejava
conhecer, e cuja apario lhe encheu triunfalmente o peito.

Rindo consigo, pensava na surpresa dos Pzanns, na satisfao de Zom e de
Namir, quando lhes contasse a sua viagem.

Ficou exttico, por muito tempo, sobre a colina. Mas o firmamento, por
cima dele, tornou-se ardente. Juntaram-se grossas nuvens, carbunculosas,
orladas de fosforescncias. Um sopro angustioso, giratrio, ascensional,
comprimia as plantas; os raios caram majestosamente sobre a floresta.

Vamir gostou da tempestade; o seu organismo absorveu a fora e o
movimento dela, to acordes com o estado da sua alma. Quando se
despenhavam as guas do cu, Vamir desnudou os ombros e recebeu com
voluptuosidade a fresca inundao.

Calmou-se entretanto a tormenta, esfarrapados os nimbos, bebidos pela
tepidez firmamental, desfeitos pelos choques elctricos. Apenas as
gramneas guardavam a humidade fluvial: a terra vida tudo absorvera.

Depois da chuva, Vamir marchou deliciado para a paisagem. Os ltimos
vestgios silvestres tinham-se desvanecido. Nada havia j, se no
estepes imensas, entrecortadas de verdes macios.

As nuvens disseminadas desmanchavam-se em pedaos efmeros adiante do
sol, e uma ligeira sombra, de instante a instante, refrescava as
perspectivas.

Ia chegando a noite.  hora do crepsculo, Vamir, parou  beira de um
osis e passou ali a noite. No outro dia, prosseguiu na marcha,
resolvido, se no sobreviesse alguma aventura, a regressar, visto como
havia descoberto o que desejava: novas terras de caa.

Pegadas de uros, de aurocos, de veados, de cavalos, convenceram-no da
fecundidade do terreno, e projectou uma grande expedio de moos
Pzanns, para o ano seguinte. Mas, ao segundo tero daquele dia, ocorreu
uma aventura importante.

Foi durante uma paragem, quando o nmada acabava de comer um par de
codornizes, caadas durante a marcha. Abrigado sob umas figueiras
silvestres, viu aproximar-se uma mulher.

Vinha vestida de fibras vegetais, entretecidas de gramneas da plancie.

Vamir encobria-se; a onda que nele se agitava, do corao ao crebro,
traduzia ansiedade e satisfao.

A certeza de que ela era moa demonstrava-se no s ao simples aspecto,
 proporo que ela se aproximava, mas tambm pela cadncia do andar e
pela flexvel vacilao das ancas.

Quando ela chegou a trinta passos, viu-se que atingia apenas a
puberdade, mimosa virgem de grandes olhos, surpreendendo Vamir pela
dissemelhana com a rapariga vulgar da Europa, de crnio alongado e
compleio robusta.

O seu rosto, um pouco redondo, plido como as nuvens primaverais, os
seus cabelos iguais  melnia dos lagos em noites sem estrelas, a sua
cintura breve, mais comparvel  circunferncia dos freixos que  dos
choupos, e o porte da sua figura, e a forma dos seus lbios e da sua
fronte, e o talho das suas plpebras, tudo lembrava a raa longnqua, a
humanidade que se engrandecera, aps milhares de sculos sem contacto
com as hordas nmadas do Ocidente.

Vamir,--da mesma forma que o herbvoro, estranho desde sculos s
regies bravias, guarda o instinto atvico de reconhecer o grande
tigre,--Vamir percebia a distncia entre o seu organismo e o da
adolescente. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo,
aonde o levara um capricho seu; e esta prescincia do desconhecido
abalou-o. Hesitava o nmada em assaltar aquela presa de amor, e uma
horripilao atravessava-lhe as fibras, como a aproximao de uma
tempestade nos nervos de um pssaro. Mas na sua imaginao brbara,
agitada por um sangue elctrico e por todo o amor de Maio, a estrangeira
pareceu infinitamente apetitosa.

Filho da arte, propenso  voluptuosidade dos contrastes, sentiu-se
atrado pelos longos clios de frouxel negro, pelo andar oscilante, pela
preciso dos contornos, pela encantadora viveza das pupilas, e
resolveu-se.

Mas, enquanto hesitava, a viandante abeirou-se do osis. Vamir
levantou-se de um salto, com a rapidez de um garanho.

Sentindo rumor e voltando-se, a virgem viu chegar Vamir. Assombrada e
gritando plangentemente, tentou fugir. Pisava as grandes ervas, correndo
ligeira, mas sem esperana de escapar ao formidvel caador, e por duas
ou trs vezes procurou ladear, encobrindo-se com as moitas, tomando por
tangentes. Vamir perseguia-a, cada vez de mais perto, retardado
simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e
requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. A virgem sentiu-o
enfim junto de si, e na cabea o hlito do caador.

Parou e voltou-se. Com o susto a reflectir-se nas pupilas, e o peito
turgescente sob as fibras do vesturio, ergueu os braos suplicante, em
meio de uma caudal de palavras confusas.

O nmada ficou imvel diante dela, convencido da impossibilidade de
compreender aquela linguagem, mais rpida e mais sonora que a sua. Mas a
linguagem da natureza, o terror impresso nos lbios e nas plpebras da
desconhecida, moveram-no  piedade. Menos vivas e mais profundas,
percorreram-lhe o organismo novas impresses, esboo de poema selvagem e
retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura.

Teria ela a compreenso, o instinto sequer, do seu triunfo sobre o
grande ocidental de cabelos claros?

Menos tremula, continuou a murmurar silabas, mescladas de uma indecisa
malcia. Vamir tentou responder, significar-lhe que no queria
fazer-lhe mal. Mas os seus gestos de estaturio eram novos para ela, que
os observava atentamente. Filha de raas no plsticas, de raas
cultuais, no compreendia seno movimentos amplos e montonos, distantes
da natureza. Mas ainda mais que pelos gestos, pareceu surpreendida
quando Vamir, desprendendo um dos seus enfeites de marfim, lho
ofereceu: no sem desconfiana, a virgem contemplou as linhas gravadas
na pequena lmina,--a corrida de um uro, perseguido por uma fera,--e
pegava no artefacto em sentido contrrio sem o compreender. O nmada,
sorrindo, ps-se a indicar a direco dos traos, a representar o
desenho por gestos, perturbando-a ainda mais.

Entretanto, os olhos e as interjeies de Vamir iam-na tranquilizando a
pouco e pouco.

A desconhecida j sorria tambm. Ento, cheio de alegria, Vamir ps-lhe
a mo no ombro. Ela recuou, voltando  desconfiana.

--Vamir  bom!--murmurou ele.

De repente, a desconhecida, estendendo os olhos pelo horizonte, deu um
salto e bateu as mos. Vamir, seguindo-lhe a direco do olhar, viu,
contrariado, aproximar-se, correndo, um grupo de homens, enquanto ela,
com um gesto, um tanto travesso, fazia sinal ao nmada para que fugisse.

Vamir, crispando as mos, tacteava as suas armas e contava os
sobrevindos, que eram doze, armados de grandes arcos e lanas.

Diante da impossibilidade da luta, deixou-se possuir de uma desesperao
de idlio frustrado e de orgulho ferido.

--Vamir no tem medo,--disse ele altivamente. E, como a estrangeira se
ia afastando, seguiu-a e segurou-a por um brao. Ela debatia-se,
gritando alto. Irritado, Vamir apertou-a contra si e levantou-a.

Aterrada por ver que era leve como uma cabrinha sobre o peito do nmada,
defendeu-se sem violncia, timidamente.

No obstante o fardo, Vamir tomou caminho, e ps-se a correr, com uma
velocidade surpreendente, excitado pelo grito dos que o perseguiam, e,
pelo menos nos primeiros minutos, foi ele o vitorioso.

Os que lhe iam na cola, membrudos, e de raa menos encorpada que a dele,
no pareciam perseguidores de presas, homens de jarretes de fera, como
os dolicocfalos ocidentais.

geis contudo, no cansariam to depressa como Vamir, a menos que este
no abandonasse o fardo. Mas ele no pensava nisso, dominado pelo seu
temperamento de lutador.

Vamir corria para leste, para a margem onde deixara a canoa. Supondo-se
mesmo que mantivesse a sua velocidade, no poderia chegar l antes de
metade de um dia, muito depois do crepsculo, depois que a lua estivesse
no znite.

Passados alguns minutos, a donzela deixou de se defender. Mulher afinal,
levada por um homem que a no tratava severamente, comeou a sentir uma
vaga curiosidade, deixando descansar a cabea e a parte superior do
peito no ombro de Vamir.

Ao longe, na plancie, via os homens da sua tribo, distinguia-lhes os
gestos. Armados de grandes arcos e lanas velozes, cobertos de mantos
tecidos com fibras de plantas e l de animais, eram por ela confusamente
cotejados com Vamir, vestido com a pele do espeleu e armado de clava e
zagaia; desejaria sem duvida que eles triunfassem, e contudo desejaria
tambm salvar a vida do seu raptador. Uns longes de vaidade, a impresso
feminina de que a violncia do homem no era uma injuria, a fora de
Vamir, a atraco do desconhecido, todas estas coisas vagueavam no seu
esprito semibrbaro, no permitindo a fixidez de um desejo.

Decorreu uma hora de terrvel correria, em que Vamir aumentou sempre a
dianteira que tomara.

Mais suave, mais inclinada, a luz cobria de mbar a plancie, e a sombra
do caador e da sua presa galopava, projectando-se imensa para leste.

Voltando-se subitamente, Vamir no viu os perseguidores. Subiu a um
montculo e avistou-os a mais de quinhentos cbitos. Abriu os lbios num
sorriso triunfal e gritou:

--E! E!

E, voltando-se para a virgem:

--Vamir  o mais forte!--

Ela voltava a cabea, ofendida por aquele sorriso e por aquele grito. O
caador sentou-a, e ficaram em silncio por minutos.

A respirao de Vamir, rouca e desagradvel pouco antes, foi-se
regularizando; o peito arquejava-lhe mais rtmico.

O nmada murmurou ento algumas palavras. Ela abriu os olhos, e o seu
olhar encontrou o dele. O olhar de Vamir era sereno e terno. Ela
encrespou as plpebras, deixando ler no rosto uma temeridade feminina,
maliciosa, desdenhosa.

Vamir inquietava-se e encantava-se com isso: achava-a assim mais
amvel, e repetia, com menor convico:

--Vamir  o mais forte!--

Os perseguidores aproximavam-se: era necessrio recomear a fuga.

Vamir retomou a dianteira que levara, e pareceu ento evidente que os
outros, e no ele, cansariam primeiro. Demais, os perseguidores, que at
ento corriam juntos, comearam a desunir-se, e trs ou quatro
apresentavam-se muito fatigados para prosseguir. Os outros
conservavam-se quase em grupo, sem que nenhum curasse de se adiantar aos
companheiros, dominado pelo misterioso da aventura e pela estatura
elevada e agilidade extraordinria do dolicocfalo.

Ia-se entretanto extinguindo o dia. Era a hora da cor de jalde. Na
plancie, um silncio sem vibraes, uma atmosfera melanclica e fresca,
um estdio de repoiso.

Os osis esparsos difundiam vida em torno de si; os nemceros voavam em
altas colunas por cima das superfcies hmidas; por toda a parte
despertava um frmito eufnico, balbuciaes de pssaros. Hora de
segurana e bem-estar, em que os animais diurnos no tinham que recear o
vaguear das feras, hora em que os grandes ruminantes se deitavam na
plancie com uma segurana encantadora, e em que alguma coisa do vio
matinal voltava, ao cair do dia.

A corrida de Vamir tornava-se frouxa e difcil; mas, atrs dele, a
perseguio parecia abandonada.

Na extrema do horizonte, o vulto dos archeiros fora-se esvaindo; e
debalde o caador procurou avist-los, subindo a um montijo. Descansou
pela segunda vez, poisando a desconhecida.

Esta, melanclica, quedou-se de p, ao lado dele, compreendendo a
inutilidade de qualquer tentativa de fuga.

Quanto a ele, sentia-se agora muito fatigado para exprimir o seu
triunfo, e inquietava-se por ver que no poderia recomear a corrida.
Consolava-o contudo a ideia de que os seus perseguidores deviam estar
tambm extenuados.

E ficaram ambos silenciosos.

Chegava o crepsculo. Com uma lentido majestosa, os mundos do colorido
iam-se apagando sobre o Poente, e Vamir estremeceu, vendo a sua
companheira inclinar-se, estender os braos para o horizonte e falar ao
disco do sol. Filho dos ocidentais no hierticos, vagamente
supersticioso mas sem culto, no compreendia o acto da oriental e
olhava-a com curiosidade, com inquietao talvez.

Quando ela terminou, demoraram-se ainda algum tempo, at que a lua se
ergueu.

--Vem,--significou Vamir.

Ela compreendeu o gesto e, sem resistncia, marchou ao lado dele.
Depois, na solido da noite, enquanto o lobo e o chacal comeavam a
uivar sobre as estepes, ele era um apoio. A estrangeira admirava
profundamente a grande clava do caador, lanada ao ombro e fixada por
ligaduras. Era j um principio de intimidade, de confiana, de
resignao mais calma. Mas Vamir, cheio de cansao, no tinha o ardor
de pouco antes, esgotado nas suas artrias o sangue de Maio, cheio de
poderosas molculas.

Marcharam por muito tempo os dois vultos, enquanto subia a lua
pr-histrica. Comeava a estepe a cobrir-se de mais numerosos osis; as
rvores, multiplicando-se em moitedos, anunciavam a proximidade da
floresta; os raios do luar incidiam mais prateados sobre as ervas, e
Vamir entendeu que a sua companheira devia ter fome e sono. Ele tinha
sobretudo sede.

--Descansa!--disse ele; Vamir vai caar.

Ela assentou-se, submissa. Era debaixo de trs figueiras silvestres,
robustas e cheias do perfume da primavera. O sonho infiltrava-se por
entre as ramarias, o eterno sonho da lua e das constelaes; e a filha
dos orientais entregou-lhe a sua alma confusa. Sonhando, percebia a
fragilidade do seu ser; a sua famlia e a sua tribo, o larrio da noite,
os sacerdotes, os rebanhos de bois asiticos, povoavam-lhe a mente e
torturavam-na at as lgrimas; mas, ali sozinha, no chegava a odiar o
homem que a roubara, antes o considerava como barreira nica diante da
noite formidvel.

Vamir, na plancie observava atento o horizonte. Perfis de felinos
apareciam a espaos. Muito ao longe, um cervdeo ia fugindo. Mas eis que
um lobo, de focinho erguido, se aproxima das trs figueiras; quase ao
mesmo tempo, saltou assustado um animalzito, uma lebre.

Postado em linha obliqua, Vamir esperou o ponto em que lhe ficasse mais
prxima a carreira dela; depois, a sua zagaia ergueu-se, sibilou, e o
pequeno animal rolou entre as ervas. Ao salto do caador, o lobo fugiu e
Vamir foi apanhar a lebre.

Esfolou-a rapidamente e suspendeu-a de uma frana. Depois, ajuntando
ramos e ervas secas, tirou de um saquete o slex com que os
dolicocfalos faziam lume, estendeu as fibras mais secas e fez saltar
centelhas.

Depois de algumas tentativas, a chama levantou-se, pequena ao principio,
mas avivada depois por mancheias de combustvel, acertadamente
dispostas, e a lebre comeou a assar-se.

A asitica,  vista do lume, inclinou-se, como fizera diante do sol
poente, e com igual melopeia de palavras.

Vamir, impassvel, acabou de assar a lebre. Depois, convidou a sua
companheira, e ambos comeram em silncio.

A refeio foi breve. O cansao de um e a comoo de outra no lhes
permitiam comer muito; mas atormentava-os uma viva sede: era mister
prosseguir na marcha at se achar gua.

Puseram-se em marcha, e, antes de mil passos, Vamir comeou a ouvir o
murmrio de guas e, logo aps, avistou um regato, onde se
dessedentaram.

--Dormir!--deu a entender o homem.

Ela compreendeu o gesto. Perturbou-se, perscrutou Vamir, que,  palidez
do luar, tinha um aspecto triste, abatido, nada feroz. Sentou-se ento
contra um vidoeiro e, um tanto receosa ainda, entrecerrou as plpebras,
em luta com o cansao. A natureza dominou-a, e ela cedeu  semi-morte
quotidiana.

Sentado  beira do regato, Vamir contemplava as facetas da gua, as
retculas da vegetao, as ombreiras dos salgueiros interpostos diante
da lua.

Pelo seu crebro vagueava um devaneio vasto e tranquilo como a noite.
Amortecido pela fadiga, toda aquela aventura se lhe esboava em notas
lentas, profundas, eternas. A ascenso da lua, o uivo dos animais, o
murmrio dos fluidos, os fantasmas arborescentes erguidos na plancie,
pareciam conceder-lhe o tempo e o espao. Por ter trazido consigo a
donzela, parecia-lhe sua, como a pele do espeleu, que lhe pendia dos
ombros.

Mas o firmamento comeou-lhe a vacilar, as rvores iam-se transmudando
em fisionomias movedias. Por sua vez, Vamir sentiu o ambiente pesado,
o seu ser retrado e as suas carnes cedendo ao repoiso. Deu vagamente
alguns passos por baixo do vidoeiro, segurou com a mo a veste da
adormecida e estendeu-se sobre as ervas.

Correu tempo. A lua comeou a declinar e estava a menos de trinta graus
do horizonte, quando Vamir despertou.

Com um lance de olhos, assegurou-se da presena da sua companheira e
ps-se de p, observando a plancie. Mas nada viu de duvidoso, e
concluiu que os perseguidores tinham desistido do intento ou que a sua
fadiga, maior que a dele, os condenara ao repoiso.

Como se sentia bem disposto e com as foras restabelecidas, resolveu
aumentar ainda aquela boa disposio e pr-se a caminho.

Restava um pedao de lebre; partiu-o em dois e comeu um. Depois, tendo
refrescado a cabea no regato, ficou, por alguns minutos, contemplando a
adormecida.

Estava estendida agora sobre o solo. A delicada cabea apoiava-se no
cotovelo. O seu corpo, dobrado em ziguezague, tinha um estranho encanto,
que alvoraava Vamir.

Uma onda de sangue rugiu nas fontes do caador; reaparecia nele o
instinto selvagem.

O homem abaixou-se. Mas que instinto ou que doura potica o fez erguer,
cheio de piedade?

Incapaz de a analisar, sem que ela por isso o impressionasse menos,
acordou a sua companheira, tocando-lhe levemente. Ela ergueu-se
lentamente, assustada, estremunhada. Depois, readquirida a percepo das
coisas, ficou triste e estendeu um olhar sombrio s estepes lunares, 
queda avermelhada do astro nos abismos ocidentais. Entretanto, foi-a
invadindo uma vaga satisfao, pois que o dia se aproximava, e as suas
carnes viosas eram uma invocao  felicidade.

De maneira que no recusou a ligeira refeio, oferecida por Vamir, e
at, renascendo-lhe o apetite, sentiu prazer em mordiscar a coxa assada
da lebre. O caador, encantado, admirava-lhe os dentes de lobo, a
cabeladura desprendida ao longo do pescoo; e no sei que sentimento de
maternidade se mesclava ao amor crescente do moo pr-histrico.

Furtivamente, de olhos baixos, ia-se ela acostumando  presena do
caador, achava-o mais belo e mais robusto ainda do que na vspera, mas;
a sagrada recordao da tribo interpunha-se aos dois e enchia-a de
saudades.




VII

A perseguio


Pouco depois do alvorecer, Vamir e a sua companheira chegaram enfim ao
rio.

A abandonada canoa l estava ainda na moita onde ele a escondeu: teve s
que tom-la aos ombros e p-la a nado. Mas quando nela quis meter a
estrangeira, esta manifestou violenta repugnncia. Foi quase preciso
empregar a fora. Entretanto, desde que ela se viu embaraada,
voltou-lhe a resignao, o seu fatalismo de oriental.

Vamir, acompanhando a margem, por onde a corrente era mais branda,
ps-se a navegar rio acima, lentamente.

Era deliciosa a hora, os raios do sol oblquos, e toda a natureza
rejuvenescia nas estepes. rvores mais numerosas anunciavam a
proximidade da floresta, e Vamir esperava chegar l, antes que o sol
estivesse a meio caminho do znite.

Mas haveria apenas meia hora que ele pangaiava, quando teve um rebate. O
seu olhar perspicaz descobria alm, na plancie, uma multido confusa de
homens ou animais. Minutos depois, no restava duvida: eram homens
parecidos aos perseguidores da vspera e provavelmente os mesmos. Graas
ao cortinado das rvores, Vamir tinha a vantagem de que eles no
descobririam prontamente a canoa, ao passo que ele, prximo dessas
rvores, cujos intervalos lhe serviam de observatrio, estava em posio
de lhes seguir os movimentos pela plancie inclinada que levava ao rio.

Demais, no traziam pressa; paravam amide, e desde logo percebeu o
nmada que eles lhes seguiam a pista, com todas as paragens inerentes a
este modo de perseguir.

Vamir no descobriu a impresso  sua companheira, e comeou a pangaiar
com mais ardor, no intuito de atingir a floresta e desembarcar na outra
margem. Mas, aps alguns minutos, a rapariga avistou por sua vez os que
a procuravam, e a sua fisionomia animou-se. Soltou uma exclamao, e,
voltando-se para o seu raptador, dirigiu-lhe um olhar suplicante e
humilde.

Vamir baixou os olhos, comovido. Mas depois veio-lhe o despeito, uma
resoluo rude, que lhe fez dizer, como na vspera:

--Vamir  o mais forte!--

Ela conservou-se firme, indiferente na aparncia, observando
obliquamente a vinda dos outros.

Vamir calculou que, no sendo visto no momento em que eles chegassem 
margem para conhecer as condies do rio entre a vegetao que o
ladeava, hesitariam necessariamente entre trs ideias: que ele teria
descido a corrente; que a teria subido; ou que teria atravessado o rio e
continuado o seu caminho para leste.

Mantendo-se a velocidade actual da canoa, seria possvel chegar  ilhota
longa e estreita, coberta de arvoredo, que ele avistava mais acima, a
dois mil cbitos. Chegando l e voltando  direita, nada poderia ser
observado pelos perseguidores. Calculando bem as velocidades
respectivas, a sua salvao dependia de uma dezena de cbitos.

Empenhou todas as suas foras num impulso supremo, e abeirou-se
rapidamente da ilha. Mas ao mesmo tempo chegavam os outros ao rio.

Naquele momento, foi enorme a inquietao de Vamir: um dos asiticos,
pondo a mo em pala sobre a testa, parecia olhar na direco dos
fugitivos. Pela maneira como deixou cair a mo, pareceu a Vamir que ele
nada tinha visto; mas no era menos certo que o cortinado das rvores se
tornava menos opaco para os outros e podia ser sondado por algum deles.

Felizmente a ilha estava prxima: mais algumas remadas, e Vamir estaria
no pontal.

Mas, de repente, a sua companheira, percebendo-lhe a estratgia
desesperada, ergueu-se em p e soltou um grito. Sem reagir, Vamir deu
as ltimas remadas, dobrou o pontal, e,  sombra, invisvel, tomou terra
numa pequena calheta, e levantou-se furioso:

--Cala-te!--

A sua mo rude levantou a rapariga, sacudindo-a. Ela assustou-se,
calou-se, dominada, entregue ao seu fatalismo.

Vamir conservou-se irritado dois minutos, com os temporais latejantes.
Depois, serenou, convencido de que o grito no chegara  margem, e
ps-se a perscrutar a estepe.

Devidamente, ele estava de melhor partido. Os outros, l em baixo, mais
vagarosos, mais hesitantes, chegados a uma zona, em que as pegadas de
uros se confundiam com os vestgios de Vamir, certamente no podiam
ainda explorar o rio. Vamir apontou-os, triunfantemente com o dedo 
oriental:

--Nunca mais te havero..., nunca mais!--

E, obrigando-a a sentar-se de novo na canoa, retomou o remo e continuou
a costear a ilhota.

A pequena embarcao singrou silenciosamente por algum tempo. A ilha
ia-se alargando, recoberta de spera vegetao, de rvores devoradas por
cips. De espao a espao, descobriam-se sapos colossais, aves
pernaltas, palmpedes.

Atravs do incenso primaveral, da alegria perfumada das corolas, emanava
das sombras um bafio de humo, de madeira bolorenta, de organismos
surios. Aqui e ali, pontais a dobrar e plantas fluviais sobrenadando,
atravancavam a canoa. As ogivas dos ameeiros e dos freixos roavam
Vamir e a sua companheira; e a imagem trmula das coisas ressaltava das
guas, revestida, ao mesmo tempo, de uma graa mais discreta e de uns
revrberos vertiginosos.

E assim foi chegando Vamir at meio da costa; depois, a ilha comeou a
estreitar-se, a afilar-se,  feio de proa.

As guas azulejaram. Avistou-se enfim a ponta da ilha; o rio mostrou-se
largo e lmpido; a floresta ostentou-se a trs mil cbitos.

O nmada entendeu que, ficando  esquerda, a interposio da
ilhota-navio o tornaria seguramente invisvel, enquanto os seus inimigos
no chegassem ao ponto marginal correspondente ao centro, dado que eles
continuassem a persegui-lo. Ainda mesmo que eles passassem para a outra
margem,--caso em que o perigo seria mais prximo,--ele chegaria
provavelmente  regio florestal antes de ser avistado, e ali a
dificuldade da marcha para eles dava toda a vantagem  canoa, vogando
livremente sobre as guas...




VIII

Noite na floresta


Ainda a noite! A vida imensa e minscula; o mistrio das foras; lguas
de floresta; o choque das molculas e dos seres; o contacto interminvel
da terra; o eriar-se dos organismos imveis, de veias frias,
estremecendo ao roar da aragem; o divagar da fome, das angustias, dos
amores; e um astro de mbar plido rolando nas solides do firmamento.

Entre musgosos montijos, Vamir construiu provisrio abrigo, coberto e
fechado por grossos ramos, entrelaados de enredias. Fortaleza slida.
Se uma fera tentasse viol-la, Vamir teria tempo de a ferir
mortalmente, pelos interstcios, com a ponta da zagaia, embebida num
veneno subtil e encabada numa haste de freixo.

Ao meio da noite, Vamir, despertado por certo rumor, abriu os olhos e
observou. Em torno do abrigo, vagueavam lobos; uma pantera ia passando
na dbia claridade do mato. Soaram entretanto uns gemidos roucos: Vamir
avistou o vulto de um grande tigre, que devorava um antlope, ainda
vivo.

--lem!--murmurou ele.

A doura penetrou-lhe na alma, diante da braveza da noite. O nome, que
pronunciou, era o da sua companheira, nome que ele obtivera na paragem
do meio dia, quando a apertava com perguntas gesticuladas.

 a terceira noite que passam na floresta, sem que o nmada saiba se so
perseguidos ou no. A fuga fora penosa, o rio cheio de sinuosidades, a
floresta abundante de ciladas, mas tudo vencera o caador. quela, hora,
as peripcias da travessia vinham-lhe  mente, de envolta com o nome da
sua companheira.

--lem!... Vamir  o senhor de lem!--Contempla-a, adormecida. Dbeis
ondas de luz, entremeadas de sombras, escoavam-se dos orifcios do
abrigo sobre o rosto da virgem. Vamir palpitava diante daquele perfil
indefinido, e recompunha-lhe mentalmente os traos plidos.

 proporo que ele vinha fugindo,  proporo que lutara por ela e
contra ela, que acumulara fadigas para a raptar, mais preciosa se lhe
tornara ainda.

O desenvolvimento da sua ternura coincidia com afectuosidades subtis,
delicadezas de sentimento, at ali desconhecidas. Se se sente rudemente
impelido a levar a aventura at ao desenlace, se deseja lem apesar
dela, e apesar de todos os perigos, sente-se, em compensao, cheio de
piedade e de pacincia.

S a iminncia de um perigo, o medo de a perder ou de morrer poderiam
devolv-lo  brutalidade de troglodita... Demais, ela incute-lhe um
religioso temor; perturba-o com o seu silncio, com os seus grandes
olhos, imveis durante horas, com a sua misteriosa prosternao perante
o sol poente e o sol nascente, com as palavras que ela ento profere,
lentas, montonas, rtmicas...

Estalam ramos. Ouvem-se na clareira passos pesados; os lobos afastam-se.
Por baixo das ramarias, apoiado nas colunas redondas das suas pernas,
com as suas defesas brancas cintilando  frouxa claridade, eis o colosso
quaternrio, o grande mamute da decadncia. Agita-o uma certa
inquietao ou febre primaveral, um desejo de refrescar-se nas guas do
rio. Adianta-se majestosamente, e o prprio tigre recua, levando a sua
presa.

Vamir, estremecendo, admira o enorme animal. Conserva por ele o
respeito que os velhos transmitiram, sabe que  valente e pacifico e
conhece a histria melanclica da sua decadncia.

--L! L!--

O mamute continua a andar; o perfil da sua larga cabea torna-se mais
ntido na penumbra, e Vamir distingue-lhe a crina e a pelagem, a tromba
escura que se baloia sincronicamente, e os flancos enormes.

O animal roa o abrigo do caador, afasta-se na direco do rio, e
Vamir, deitando-se, julga que pode ter uma hora de sono, e fecha as
plpebras. As ideias chocam-se confusamente; afastam-se depois, e a
respirao igual atesta o sono, o descanso.

Abrem-se ento os olhos negros da sua companheira, que se pe  escuta,
suspirando. Assalta-a uma ideia de libertao; se ela ousasse, enquanto
ele dorme, desmanchar o entrelaamento dos ramos do abrigo e fugir para
o Ocidente, para as regies da sua tribo?

Mas Vamir ouviria certamente o rudo, acordaria, e ela estremece, s 
ideia do seu grito de clera. Entretanto assoma-lhe aos lbios um
sorriso, um desvanecimento feminil e no se supe simplesmente uma
vencida. Porque ela viu-o embaraado e tmido, e fez recuar os apetites
do brbaro. Tudo isto ela compreende to bem como as filhas do homem que
ho de viver em longnquo futuro, e das quais ela possui a cincia
confusa e, ao mesmo tempo, subtil.

Por isso os seus receios so mesclados de indulgncia, sem todavia poder
esquecer-se daqueles entre quem passou a infncia; dos seres da sua
raa, da sua famlia, dos moos que falam a sua lngua.

Se ela ousasse... Mas, acima da clera de Vamir, apavora-a a floresta
que a rodeia, abundante de meandros e carnvoros; e reconhece quanto 
fraca, sem a clava e a zagaia do raptador.




IX

O idlio nascente


Nos dias daquela fuga febril, em que o gigante loiro a arrancava ao
sono; nas paragens nocturnas, e durante a comoo das caadas, comeara
a formar-se o idlio na alma de lem.

Em todos os seus sonhos, e atravs das plpebras, surgia o cenrio da
floresta e o vulto de Vamir em movimento, enquanto as estepes natais e
as tribos pastors se confundiam e se desvaneciam nos confusos
horizontes da memria.

Mas, quando recrescia o instinto de resistncia extrema, o receio da
maternidade, o desejo de sorte menos inquieta, e quando surgia a ideia
da unio dos dois, na convivncia, no contacto dos corpos, mais
distantes pareciam um do outro, esquivos, concentrados.

Algumas vezes porm, as horas que ao meio do dia dominam a carne e ao
crepsculo o pensamento, quebravam aquela indiferena.

Ento, a virgem morena, amortecida ao calor da atmosfera, ou embalada
nos vagos rumores do sonho, distendia a vontade rude, poisava os olhos
nos olhos do homem, permitia um pouco de intimidade. Indispunha-a porm
contra ele uma fera que rugia, um relampaguear de tormenta, um sbito
receio dos lobos nocturnos.

Vamir conseguiu algumas vezes que ela cantasse as melopeias, com que a
sua tribo acompanhava o trabalho. Escutava-a, encantado pela sua candura
de selvagem, seguia a cadncia, embebia-se na musica de uma lngua
desconhecida. Como uma criana balbuciante, repetia o canto,
inclinando-se s articulaes misteriosas.

Porque ele ia aprendendo o dialecto estrangeiro, j sabia designar
objectos e vocalizar movimentos.

Por seu lado, ela interessava-se pelas armas, pelas zagaias, de que
Vamir empregava muitas espcies;--as de bases abertas para receberem a
haste; as de pontas que se embebiam num buraco da haste; as de arpes
chatos ou de varetas; as de lminas como punhais; as de raspadeira; mas
o que ela admirava sobretudo era a fina agulha de fundo aberto, e o fio
para coser, tirado dos tendes da rena,--coisas desconhecidas da tribo
dela, a qual, se bem que j sabia a arte de entrelaar as folhas
vegetais, ainda empregava unicamente o furador.

E no admirava menos a escultura e a gravura, espantada da pacincia, da
segurana dos entalhes, da verdade das anlises. Escutava com
curiosidade Vamir, que procurava explicar o modo de vida dos Pzanns; e
seguia a gesticulao do homem, que indicava dimenses, figurava
cerimnias, descrevia habitaes.

De uma vez, quis ela informar-se da sorte das mulheres e, depois de
alguns esforos, compreendeu a repartio em famlias, sob a direco
dos ancios. Admirou-se muito, porque provinha das tribos mongamas em
que havia unies peridicas com as tribos amigas, sendo os filhos
criados pelas mes, e os pais reciprocamente guarda-costas das esposas e
protectores vigilantes da prole.

Os raptos de donzelas eram habituais; pelo qu, a clera dos orientais
no procedia do rapto de lem, mas de que Vamir tivesse cometido esse
rapto sem aliana prvia, e, mais ainda, essa clera procedia da viva
averso a uma raa longnqua.

Entretanto, Vamir e lem compreendiam-se mal, pela impossibilidade das
mincias.

Na marcha, na caa, na cozinha, iam decorrendo longas horas. Viviam em
comum, tocavam-se ingenuamente, como duas crianas perdidas na floresta
imensa. Ela obedecia a todas as necessidades estratgicas, deixava-se
quase guiar, mas, a cada paragem, assumia uma atitude mesclada de temor
e galantaria.

Vamir mantinha no sei que nobre doura; entristecia s vezes; era rude
com as coisas, pisando os ramos de rvores, correndo contra os lobos e
as panteras; mas, para ela, no tinha a menor violncia.

Quando havia uma passagem perigosa, e ele tomava nos braos a
companheira, submergia-se-lhe o corao numa onda de fogo, mas ele
conservava a humildade do leo diante da sua fmea, uma nobreza de
brbaro distinto. Alm de que, ele sabia que nas cavernas da sua tribo
os esponsais eram precedidos de preparaes e provas, que eram j uma
delicada compreenso dos transes fecundos do amor--alegrias e penas,
febres sufocadas, lutas intimas, destinadas a converter-se em grandes
batalhas da futura humanidade.

Vamir aceitava as provas que deviam engrandecer a espcie,--a seduo
lenta, a ventura recebida aos poucos, sem triunfos grosseiros; e  por
isso principalmente que as geraes, dele procedentes, seriam gloriosas
atravs dos tempos.




X

Combate


Depois da alvorada, voga a canoa, por entre a frescura das margens,
sobre o rio que se alarga; alto dia, vai correndo pelo amplo intervalo
que separa as ramarias. Ao longe, algumas ilhotas formam escalo e a
imagem das rvores marginais, a sua cor escura, a vida que nelas
palpita, tm uma beleza vertiginosa.

Em torno, a floresta  como um antro escuro de mil aberturas hiantes,
toda povoada pelos rumores da vida, abrigo formidvel da eterna luta,
asilo de raas contrrias, propicia s ciladas do ataque e aos redutos
da defesa, grande despensario de mantimentos, comum ao animal frugvoro
e ao carnvoro, ao rptil e  ave.

Vamir empunha o arpo, no intuito de ferir algum peixe. Est tranquilo.
Depois das corridas dos ltimos dias, a necessidade de descanso prende-o
a quaisquer entretenimentos: a Reparao das armas ou do vesturio; a
espera de caa apetitosa.

Nesta manh, entretm-se com a pesca. J duas vezes errou a vitima,
porque o animal das guas foge mais rapidamente na esteira do seu
hlice, do que a mo do homem se move.

Abaixa-se o arpo pela terceira vez, e Vamir, segurando a haste, crava
a ponta aguda no flanco de um pequeno esturjo. O peixe ondula e
ressalta; as empolgueiras opem-se  sada da arma; mas, com os saltos
elctricos da presa, os liames esto em risco de se partir, e  mister
que Vamir manobre habilmente, para evitar os repeles muito fortes ou
muito perpendiculares.

Vai pangaiando com a mo esquerda e impelindo a presa adiante de si, at
 borda do rio; chegado ali, crava ainda mais o arpo, levanta enfim o
esturjo ensanguentado e atira-o para a margem.

Vai preparar a refeio. Os ramos secos, as hastes herbceas, devoradas
pelo fogo, produzem um acervo de cinzas pardas, onde se embebem pedaos
da presa, e de onde se retiram, transmudados em carne tenra e saborosa,
que Vamir e lem comem com apetite.

Um pouco entorpecidos pela boa refeio, estiram vagamente os olhos pela
diversidade das coisas; acham-se a bastante distncia da margem, numa
clareira, ladeada de faias giganteias. Abundam as saras, que vo
recosendo os rasges, ali abertos por alguma catstrofe antiga, e
refazendo a integridade da floresta. Desabrocham robustas compsitas com
uma flor amarga; e crescem cardos colossais, hirsutos, farpados,
soberbos e terrveis.

lem e Vamir devaneiam suavemente em completa tranquilidade; mas eis
que uma frecha passa a dois palmos do Pzann. Este levanta-se, e empunha
as armas. O seu olhar adestrado descobre perfis humanos atrs dos
troncos das faias.

Aqueles perfis emergem a sbitas, e uma nuvem de frechas dilata-se no
espao.

Naquela hora de perigo, o instinto encosta lem ao peito de Vamir, ao
passo que a luta se anuncia, ao passo que os inimigos, em nmero de
sete, se aproximam cleres. So atarracados, so os homens do Oriente,
de olhos de rebo. Conhecem a agilidade de Vamir e, formando leque,
caem sobre ele, por forma que lhes no possa escapar. J os arcos esto
tendidos, as frechas envenenadas vo descrever as suas terrveis
parbolas, mas erguem-se vozes, indicando o perigo de lem, e todas as
mos substituem a frecha pela lana.

Vamir encara-os altivamente, e o seu grito de guerra perturba o corao
dos mais valentes. Reconhece nos seus inimigos a raa de lem, crnio
largo, pele trigueira, olhos escuros. Trazem tatuados os braos e a
testa, e comanda-os um velho robusto.

Vamir empunhara a zagaia... os homens trigueiros resguardam-se com os
troncos mais prximos... Ento Vamir sobraa lem, e vai recuando para
o rio, onde espera poder embarcar... A uma ordem do chefe, chovem as
frechas, que o Pzann desvia lestamente, acelerando a retirada.

Tctica hbil, com que os orientais se irritam, e adiantam-se trs
deles. Mas a zagaia de Vamir atravessa o mais gil, e o Pzann solta o
riso triunfal da sua raa, entendendo que os dois sobreviventes no
tero a coragem de lutar contra ele... A sua clava gira no espao, a
provoc-los; do seu peito hercleo saem rugidos ferozes; o seu brao
dispe-se ao extermnio... O chefe antev a perda dos seus, ordena-lhes
que parem, e eles obedecem.

Um momento de trguas. Os asiticos coleiam por entre os espinhais,
procurando cortar a retirada de Vamir. No cinzento das faias que
formavam polistilos obscuros, na eterna penumbra sotoposta s frgeis
padieiras de ramaria, Vamir entrev-os, com um olhar de melancolia
belicosa, e entretanto o sol ilumina a grande arena, o cerrado
espinhoso, de onde os orientais espiam o inimigo. Na cabea longa do
Pzann, atravs da febre da luta, a impresso de um recontro
impertinente, o receio de perder lem, e de se ver, por muito tempo,
rodeado apenas do mutismo petrificante das coisas.

Para arremessar, tem apenas o arpo. O chefe oriental quer um assalto em
massa, em que, se algum perecer, possam os demais ving-lo.
Disseminados, para no constiturem alvo muito certo, correm sobre o
raptador... O arpo, arremessado, no faz vitimas, separando-se da haste
o chifre. Mas Vamir descobre novo recurso num slex ovide, que ele
traz consigo, e serve-se dele como projctil, ferindo o velho chefe.
Este verga-se, estico, em luta silenciosa contra a dor. Vence-a,
levanta-se, junta-se ao bando, e no seu semblante espelha-se o
sofrimento e o dio.

Vamir tenta ainda fugir. Sobraa lem, mas fraqueja. Seguem-nos as
frechas: uma ferida seria a morte... Demais, carregado com lem, em
pequeno espao, quase sem dianteira, ser apanhado  beira do rio, antes
que a barca possa vogar ao largo. Depe lem, deixa-a livre. Ela porm
no se retira, cheia de ansiedade pelo Pzann. Este compreende-a, e,
levantando o pensamento a Zom, a Namir, s cavernas e s grandes
plancies, aceita o combate...

Corpo a corpo, impossibilitado o xito das frechas, a refrega comea mal
para os orientais: uma lana  despedaada pela clava de Vamir; outra 
tomada por ele; e, terrvel, ambidextro, faz, ao mesmo tempo, uso das
duas armas... Recuando, avanando, segundo a oportunidade, chega a
manter em respeito os cinco braquicfalos, e fere at um deles,
ligeiramente, no peito...

Mas estas peripcias afastaram-no de lem... v-a em poder dos inimigos,
e adianta-se para a reaver... Fere-o de lado uma lana; corre o
sangue... Em desforra tremenda, parte o crnio de um oriental, e prostra
outro no solo, com um ombro escalavrado, enquanto com uma lanada
atravessa a coxa do chefe...

O Pzann todavia sente-se fraquejar, e todas as suas foras se congregam
na defensiva.

lem solta doloridos clamores; os da sua raa dispem-se para o assalto
final; e o ardor belicoso arrasta o prprio velho para junto do inimigo
ferido...

Era o fim. Vamir procura escapar-se. A sua clava  brandida ainda uma
vez, e faz ainda uma vitima...; depois, apanha apressadamente uma lana
e um arpo, corre para o rio, salta para a canoa e trs remadas
confiam-no  corrente.

Os seus adversrios medem o perigo de uma luta aqutica. O chefe probe
que tentem o perigo... Todos ento empunham os arcos; mas o tiro 
intil, porque a barca desaparece por trs de uma ilhota.




XI

Vamir


Estendido no fundo da pequena barca, Vamir cobria com a mo o seu
ferimento, coberto de sangue coagulado.

Havia uma hora que ele esperava uma reaco favorvel para abicar na
margem, porque a perda de sangue o mantinha prostrado, num suave
meio-deliquio, em que ia perdendo a ntida concepo do seu ser. As
coisas figuravam-se-lhe pequeninas, quase imperceptveis, ao passo que o
corao lhe vogava nas delicias de uma onda morna, asfixiante,
confrangente.

Passou afinal a crise. Com a febre, renasceu a fora. O Pzann pde
impelir a barca at  margem, desembarcou, e apanhou folhas balsmicas e
resina para o penso da ferida. Depois, lavou a ferida na gua corrente,
refrescou os lbios, e estendeu na ferida uma compressa de folhas
embebidas de resina, e, por cima, uma atadura de pele. Este penso, de
uma solidez a toda prova, permitia evaporao suficiente, e dava at
lugar  supurao. Ao cabo de oito dias, seria mister renov-lo; mas,
at l, graas s folhas aromticas e  resina, pouco havia que recear.

Vamir sentiu grande alivio; a inquietao, que toda doena importa,
desapareceu, e um grande orgulho despertou, uma alegria de vencedor:
comeu e bebeu voluptuosamente, e ps-se depois em cata da madeira
necessria para o fabrico de novas armas. De pronto adquiriu as hastes:
doze, pequenas, para zagaias, e uma, grande, para lana.

Quando trabalhava, sentiu a tentao de ter um arco e frechas,  maneira
oriental, feitas de madeira endurecida ao fogo. A banda do arco era
chata, mas larga, com um encalhe redondo, para dirigir a frecha. Vamir
arrancou um pequeno freixo, cujas extremidades queimava, e passou depois
longas horas a desgastar o tronco, servindo-se alternadamente do fogo e
do slex.

Era sol posto. Vamir no conclura o seu trabalho, e calculou que
precisava de dois dias, afora o tempo para aguar as frechas. De forma
que, ao passo que buscava abrigo nocturno, planeava acabar primeiro a
lana, as zagaias, os arpes, para se precaver contra qualquer ataque,
alis improvvel.

Os orientais, com os seus dois mortos, com os seus feridos, entre os
quais o chefe, no pensariam logo em reabrir hostilidades; e, de facto,
dirigiam-se apressadamente para as suas estepes, levando consigo lem.
Vamir sorria, ao pensar que eles a no possuiriam definitivamente, e
adormeceu tarde, excitado pelos estratagemas que ele estudava para a
readquirir.

No outro dia, ao despertar, uma grande fraqueza o prendia ao solo.
Comeava a cicatrizao... Arrastou-se com dificuldade at  margem,
onde adormeceu, depois de se ter dessedentado, em risco de ser devorado
pelas feras.

Quando acordou, ia o sol a pino. Vamir dessedentou-se de novo. A cabea
ardia-lhe, as veias latejavam, as ideias eram confusas.

Compreendeu que o dia estava perdido, resignou-se, e meteu-se na barca,
junto  ribanceira. Com intervalos, em que ele ia matar a sede como
sonmbulo, as trevas envolveram-lhe a existncia, at a alvorada
prxima. Abeirou-se do Nada. Em toda noite, a sua robusta organizao
agonizou nas sombras. Os perodos da crise sucediam-se como ondas de
mar. Mas, com a alvorada, chegara a calma, o sono fora vigorificante,
e, no quarto dia, Vamir acordou com fome.

Examinou o penso. As dores haviam desaparecido. As carnes, quase unidas,
mostravam apenas um pequeno lanho. A vermelhido desaparecia do peito. A
cabea desanuviava-se.

Vamir foi  procura de alimento, armado apenas de um arpo e uma lana,
as nicas armas que lhe restavam. Debaixo das rvores, naquela ocasio,
poucos recursos havia, e, alm de tudo, s a emboscada era possvel,
porque o ferido no teria foras para um assalto s feras.

Decorreram trs horas, em que apenas se lhe depararam pequenos
carnvoros, de carne repugnante; e j a fome comeava a atormentar
vivamente o estmago do caador, quando apareceu um bando de cervas,
guiado por um belo alce, macho.

Era caa grossa e perigosa, mas tanto mais tentadora, quanto os cornos
do alce proporcionariam quanto era preciso, para pontas de lana, de
arpes e de zagaias.

Vamir sentiu deveras, naquela hora, o no ter arco, que lhe permitisse
o ataque de longe, porque o alce costumava vingar energicamente o
morticnio das suas cervas.

O alce era um veado colossal, do tamanho dos maiores cavalos da
actualidade, e as suas pontas espalmavam-se-lhe por cima da cabea, como
ramos de faia desfolhada; duas forquilhas primeiro, e depois um
tabuleiro guarnecido de pontas recurvas.

O troglodita, encoberto pelas ramadas, com infinitas precaues,
aproximou-se do bando; mas a distncia era ainda bastante, para esperar
que arremessaria proficuamente o seu nico arpo. Esperou pois.

Os animais pasciam, e saltavam, por forma que uma das cervas foi pulando
at o alcance da mo do homem. O arpo silvou, embebeu-se; um bramir de
agonia, e o animal prostrou-se, enquanto o rebanho, espantado, desfilava
pelo balsedo, deixando o alce imvel, a devassar com os olhos a
espessura da mata.

Um minuto depois, o grande veado aproximou-se da vitima, e escarvou
nervosamente o solo, dominado, ao mesmo tempo, pelo desejo da vingana e
o receio do desconhecido.

Entrementes, a soberba e comovida atitude da fera impressionou Vamir;
por um movimento de irreflexo e fraqueza, o caador saiu do esconso, de
lana em riste.

O herbvoro hesitou, estirando a pupila oblonga pela melania do matagal.
Mas o homem j recuava, e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. A
sbitas, baixando a cabea at o solo, atirou-se contra o brbaro. Este
viu-a aproximar-se, suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto; e,
enquanto o cervo se desembaraava do manto com um movimento formidvel,
o caador cravou-lhe a lana entre as costelas, fazendo-a entrar at o
corao.

O animal caiu, e Vamir sentou-se, extenuado pelo esforo. A pouco
trecho porm, levantou-se, acendeu lume, e assou uma posta de cerva.

Satisfeito o apetite, assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe lem. E,
ausente, parecia-lhe mais preciosa ainda, com os seus olhos pretos e o
seu ar, altivo e terno a um tempo. Lembrou-se das peripcias daquela
luta, em que ela o no abandonara. O olhar dele procurou-a por entre as
sebes, e Vamir sentiu confranger-se-lhe o corao, intoleravelmente.
Chamou-a pelo seu nome, e meditou, amargamente, nos meios de a reaver.

Hora de calma, silncio nos bosques. O sol espelhava-se no rio, e
coava-se, por pequenas elipses, atravs da folhagem das balsas. As
ramarias repoisavam como grandes nuvens, e o espao, velado pelas mais
altas frondes, entremeadas de clares esparsos, tinha perspectivas
confusas, profundezas de abismos.

Repassado de dor e de solido, a contemplao destas coisas abalava todo
o ser do troglodita, at o sofrimento. Ora sentia o desejo de dormir,
ora o de trabalhar; perpassava na memria o dia em que ele, nas
cavernas, esculpiu um basto de comando, e isto lhe trouxe  ideia o
alce e as novas armas.

Provido de um slex serreado, ps-se a trabalhar.  noite, havia j
cortado as pontas da cabea do alce.

Sentiu alguma febre ento, porque o vaivm do brao lhe irritava o
ferimento.

Descansando, e no podendo dormir, espicaava-o o desejo de uma
expedio, em procura de lem. Meteu-se na barca e acompanhou a
corrente.

A noite abrigava-o em manto de trevas. O rio parecia uma voz de segredo,
baixa, murmurosa, de que apenas ressaa o rouco e triste coaxar dos
batrquios. Nas superfcies, em que se alternavam as sombras e os
reflexos, o voo do morcego perdia-se e reaparecia, incessantemente. A
faixa de cu estrelado, dilatada para cima das rvores, cavava um abismo
nas guas.

Com algumas remadas, Vamir aproximou-se da margem, onde combatera com
os orientais; depois, deixou-se ir ao grado da corrente, abaixando-se de
maneira, que o barco pudesse parecer de longe um tronco de rvore.

Primeiro, atravessou solides conhecidas, em que a fauna permanecia
tranquila; depois, vagos indcios que poderiam sugerir receios. Por fim,
avistou montes de pedras, que designavam tmulos; e, decorrida uma
hora, o claro de uma fogueira denunciou-lhe a viglia dos inimigos.

Vamir quedou-se observando, por muito tempo. lem deveria estar deitada
defronte do brasido. Fazia sentinela um guerreiro, que, de quando em
quando, para no adormecer, erguia para o cu uma das mos. A fogueira
projectava este movimento numa sombra enorme para alm do rio.

O Pzann apertava o seu arpo, calculava a eventualidade de um ataque,
impelindo-o para a temeridade a sua febre e a sua fraqueza.

O rumor dos bosques crescia com o roar da virao. A gua iluminava-se
de uma fosforescncia plida, de um fundo de halo, em que viviam
ramagens longnquas, calhetas povoadas de canios. O trabalho das nuvens
alterava a cada momento a superfcie das guas, lanando sobre elas um
vu plmbeo, uma luzinha trmula, ou um arroio de constelaes.

Um drama conturbou a alma de Vamir. Atrs do brasido, com os olhos
fixos na fogueira, deixou-se ver lem.

Ah! tornar a possui-la, lev-la consigo, como noutro tempo! Mas, com o
esforo interior, reconheceu mal fechada a sua ferida, impotente o seu
brao!

Contudo, alguns dias mais, e ele teria readquirido todas as suas
energias. No entretanto, seguiria a pista, e escolheria a sua hora.

Deps vagarosamente o arpo, empunhou o remo, e, antes de voltar  sua
ltima paragem, deixou-se levar pela corrente  margem oposta. Dali,
remou com prudncia, lentamente ao princpio, e depois com progressiva
velocidade.

Decorrida uma hora, a barca vogava com dificuldade, se bem que Vamir
seguisse a ribanceira. Afora o impulso da corrente, tinha de lutar com
as algas, em que se embaraava a proa e que lhe sobrecarregavam o remo.

Estava quase resolvido a saltar para terra, quando o animou uma espcie
de canal entre os canios.

Impeliu para ali a barca e, durante alguns minutos, navegou com
facilidade; mas, em seguida, cerrou-se o canal com longas plantas
aquticas.

Com a esperana de achar guas livres a pouca distncia, o Pzann desviou
o obstculo, e entrou.

Salvo curtos intervalos, os pntanos cobertos de lentilhas, os canios,
as algas, os juncos, continuaram a travar-lhe o andamento, a ponto de
que um extremo cansao se apoderou do homem, e este teve de estender-se
por algum tempo no fundo da sua piroga.

Ia adiantada a noite. O znite empalidecia aos prenuncios da alvorada; e
erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. O ligeiro rumorejar
da folhagem, o chapinhar de uma lontra, o eterno murmrio do rio,
entremeado de notas claras, eram os nicos rudos daquela solido. As
coisas pareciam emergir em bruma pardacenta, meio-transparente; apenas,
da outra banda do rio, se avistava a orla negra da floresta, entre as
guas e o cu.

Vamir ergueu-se. Sentia extraordinrio entorpecimento, que o convidava
ao sono. Teve pressa de achar o fundeadoiro, e calculou a distncia da
margem. Pareceu-lhe considervel, at porque a vegetao aqutica se
tornava cada vez mais espessa.

Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa; mas, a
qualquer movimento, poderia voltar-se a embarcao, e o ferimento ainda
no permitia o gesto largo do nadador.

Resignado, prosseguiu, ajudando-se com o remo, ensanguentando as mos
nas folhas cortantes dos canios, empurrando a frgil embarcao,
parando de espao a espao, fatigado, nervoso.

Rompia a manh, e tudo pareceu plido ao homem extenuado: as guas, o
cu, a floresta. O grande rio saa de um horizonte de cinza, e em cinza
se alongava ainda.

A ribanceira enfim! Vamir desembarcava. Desviando as hastes mais altas,
avistou uma pantera em briga com um mamute, ainda novo. O pequeno
herbvoro, coitado, debalde tentava desviar com a tromba o seu
adversrio. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fmea, em
socorro da sua prognie; e o grito do macho entre os caniais anunciava
que se dirigia a nado para a margem. Mas a pantera, de um salto, ficou
sobre o dorso do pequeno elefante; j penetrava com as garras o espesso
coiro, e dirigia os dentes para o ventre da presa, quando interveio o
compassivo nmada. Soltou um grito de guerra, arremessou o arpo e
caminhou para o felino.

O arpo fizera apenas sangue na pele mosqueada. A pantera recuou,
rugindo, quando surgiu a cabea enorme do mamute macho. Quase ao mesmo
tempo, apareceu a fmea.

Ento a pantera refugiou-se na selva, e os enormes proboscidios,
pendulando as suas trombas, afastaram-se.

Vamir viu-os desaparecer ao longe, radiante de alegria e ufano da sua
coragem. Depois, tomou a piroga aos ombros, internou-se na mata, e
empregou as suas ltimas foras em apanhar alguns ramos, para consolidar
o seu abrigo sob a piroga.

Cansado, trpego, comeava a cravar na terra, junto de uma rvore, os
ramos mais apropriados quele fim, mas teve de interromper essa tarefa:
dominou-o um entorpecimento mais forte, e, quando procurava sentar-se,
caiu prostrado pelo sono.




XII

O mamute


Era uma clareira entre faias, carvalhos e olmos. Crescia ali a tabua e o
joio, de mistura com rannculos, cardos frocosos e urtigas diicas.

Sob os gladolos da erva, nas folhas, nas flores, nas hastes, nas
razes, havia o mundo dos insectos, esboo material do futuro mundo do
homem, praticando a fsica, a qumica, as industrias do utenslio e do
cido, criando a broca, a verruma, a serra, a esptula, a fieira, a
escavao na pele, a perfurao com custicos, as galerias de mina, a
habitao social, a sineta do escafandro, a espada, a armadura, a luz, a
seda, o tecido, a cera, o acar, o mel.

A madrugada achava-os trabalhando. Nos primeiros alvores, voluteava a
grande mosca madaleneana, traando ngulos; a vespa explorava corolas;
agitavam-se, com as suas asas aveludadas, enormes pirides; voltavam do
rio nuvens de mosquitos, a abrigar-se nas folhas; as formigas, em
legies, transportavam pulges, estames, gros, os despojos das
minsculas batalhas da vida; a cicindela, de emboscada, espreitava uma
presa; o necrforo, com as suas extremidades palidamente orladas,
procurava a carcaa, em que devia pr os ovos; o fura-pau batia com a
tromba na casca dos olmos; o grilo, fatigado das suas vibraes,
adormecia; as forfculas embebiam as suas pinas no fundo das corolas;
e, semelhante ao tigre, o grande crabo sobre o escaravelho.

Amodorrado o homem, a floresta parecia inquieta. A zona limitada pela
outiva, pela viso, pelos penetrantes perfumes dos exploradores de
troncos e ramadas, tudo comeou a decrescer, pouco a pouco,  volta do
rei bpede: os narizes microscpicos, as sensveis trompas auditivas, as
prolas negras de olhos salientes, as longas barbas-antenas,
perscrutaram as essncias, que emanavam do homem, e conheceram a sua
prpria fraqueza. Apareceram ratos, atrados pelas correias untadas de
tutano; depois, eram as cabeas curiosas dos arganazes e esquilos,
espiados pelo grande lince quaternrio, das plas das altas ramarias.

Decorreram horas. O sol banhou a clareira. A corrente da vida engrossou
com os raios solares, com os turbilhes de moscas que traavam o seu voo
enigmtico, com os znges, com as abelhas, mais rpidas e mais sonoras,
com o enxamear das aves  sombra do moitedo.

No entretanto, uma hiena, baldada a sua digresso nocturna, claudicava
esfaimada entre os espinhais. A sua pituitria reconheceu o odor humano,
entre o do coiro e o do unto. Aproximou-se. Os ratos debandaram; e a
necrfaga, sem sair do seu esconso, compreendeu que o homem no estava
morto. A esperana fe-la alapardar-se na sombra, numa semi-sonolncia.

A luz continuava a coar-se, em fios cetineos, atravs dos interstcios
das ramagens; a sombra atingiu o seu mnimo, e depois foi aumentando.

Vamir dormia ainda, espreitado pela hiena. As aves iam-se calando; as
grandes rvores emudeciam; a formiga trepava aos gladolos da erva; o
besoiro segurava-se na haste franzina das flores, curvando-a; as moscas
zumbiam doidamente, e bandos de cabritos monteses partiam as plantas, na
sua carreira veloz.

Pelas duas horas depois do meio dia, o ftido da hiena deu no faro de
chacais, que se abeiravam do mato, onde ela se agachara. Por seu turno,
emboscaram-se tambm na espessura, e a sua comoo de glutes, os seus
gritos sinistros, desvendaram aos corvos a perspectiva de um opulento
repasto.

Os corvos chegaram crocitando; com as asas negras escureceram por um
pouco a clareira, e depois empoleiraram-se numa faia. A quatro mil
metros de altura, trs abutres reconheceram a comoo dos corvos, e
caram vertiginosamente sobre uma rvore vizinha.

Enquanto Vamir dormia, os carnvoros gizavam o seu plano, desejando os
nocturnos que chegasse a noite, e temendo os diurnos que findasse o dia.
A hesitao mantinha-os quietos e de atalaia; depois, os chacais
afastaram-se mais da hiena; o pnico dispersou, por um momento, os
abutres. Nada prevaleceu contra os corvos, que se reuniam aos centos, e
que, com a afiada tesoira do seu bico, se aprestavam para o ataque.

Abriram eles o espectculo: graves e cmicos nos ramos da sua faia,
comearam por uma espcie de dana, avanando para a extremidade dos
poleiros, at que um deles casse; este esvoaava por um pouco,
crocitava furiosamente e voltava a reunir-se  fila.

O jogo e os gritos espantaram os nocturnos; e quando, numa nuvem, com o
rudo do granizo em floresta, os palreiros baixaram sobre o homem, a
hiena escafedeu-se, e o medo invadiu os chacais.

Os corvos, entretanto, iam andando, como mopes, astutos e grotescos, de
terrveis mandbulas que simulavam um grande nariz, e de corpo ondeado
de azul-escuro.

A dois metros de Vamir, hesitaram. Deixaram de crocitar; e os mais
velhos formaram concilibulo, em vozes baixas, como gorgolejos,
alternados de saltos.

Um movimento do Pzann determinou a debandada. Os corvos voltaram para os
ramos.

Pausa. Ouve-se rir a hiena e chorarem os chacais. Restabelecido o
silncio, a asa dos abutres soou pesadamente e as trs aves de rapina
baixaram sobre o solo. Os pescoos nus emergiam firmes de um colar de
guarnio branca, e a cabea longa, de um cinzento plido, parecia a
cabea de um mamfero inofensivo, camelo, canguru, antlope.

Quedaram por muito tempo, como sentinelas imveis. Os ngulos do nmero
apareciam nas espduas altas e pontiagudas; o colo parecia jorrar do
peito, e as asas eram mantos, guarnecidos de uma bela franja clara de
penas rudes. De raa forte, a envergadura do seu voo ia at oito ps; as
suas garras potentes, vidas em remexer carnes mortas, aferravam presas
animadas, nas horas de fome...

Ponderariam eles a agonia do homem, o resto da energia dos seus msculos
soberanos, o seu peito arquejante, a sua cabea de uro?

Estavam silenciosos, mas os caninos famlicos, cansados de esperar,
deslizaram pelo mato. Ento, os corvos retomaram o seu lugar, com rudo;
os chacais, assombrados, pararam; e o abutre mais velho caminhou para a
cabea loira de Vamir.

A cabeleira, esparsa nas faces, velava um tanto os olhos; o grande
bigode fulvo estremecia ao passar do hlito febril; uma espcie de riso
provocante soerguia o lbio, entre a resignada tranquilidade dos vincos
da boca.

O ombro seminu parecia de pedra polida; os cabos retorcidos do trceps
denunciavam o poema das fibras em milhares de feixes, subordinados s
mesmas funes; e o plo do espeleu encobria o tronco, em que pulsava o
corao agitado.

A floresta realizava, em silncio, o seu trabalho de cidade colossal. A
vida, repleta, dormitava nos fojos, nos ninhos, e at nas galerias dos
insectos.

Os corvos, interessados no procedimento do abutre, portavam-se com
discrio; os chacais, bocejando, fechavam os olhos deslumbrados; e a
hiena escarvava o solo com as patas dianteiras. Ouviam-se pequenos
rudos, indecisos cantos, o cair de frutos maduros,--como difuso
tiquetaque do relgio das coisas.

Entrementes, o abutre olhava, atravs do interstcio da cabeleira de
Vamir, a plpebra semi-cerrada, que deixava entrever a esclertica.

Arrancar os olhos  o instinto da ave de rapina: o abutre decidiu-se ao
assalto. Aproximou-se lentamente. Ento, os seus companheiros chegaram
tambm, e um deles ps a garra no ombro nu.

A mo de Vamir, inconscientemente, acudiu ao ponto ameaado, caindo
sobre a asa da ave; esta ripostou com uma bicada no pulso.

O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho,
os seus punhos de atleta acharam o pescoo de abutre... As garras
aduncas fincaram-se, por dois minutos, na pele do espeleu; depois, veio
a asfixia e a morte, antes que os dedos de Vamir largassem a presa.

As asas dos sobreviventes feriram o ar; os seus vultos ergueram-se at
as cimas das rvores. Ali, hesitaram por um momento, e, saindo por uma
larga abertura, desapareceram.

O grande nmada, depois daquele incidente, recaiu na sua letargia. Tinha
a aparncia de um cadver, e os corvos delegaram dez, de entre si, para
se esclarecer. Os outros celebraram conferncia, em que as vozes
entre-cortadas respondiam a sons roucos, fundindo-se depois estes e
aquelas.

Os dez verificaram que a grande presa era perigosa; mas, como os
tentasse o cadver do abutre, trataram de o explorar.

O homem conservava esse cadver na sua mo crispada. Com minuciosa
circunspeco, deram volta ao animal, e atacaram-lhe o colo nu: abriram
brecha, as tesoiras aprofundaram-na e, dentro em pouco, nas mos de
Vamir estava apenas a cabea do abutre. Depois, num esforo comum, os
corvos levaram a presa para alguma distncia.

Os chacais acharam favorvel o ensejo. Ganindo e uivando, foram-se
chegando, com um rudo semelhante ao de um aguaceiro na folhagem.

Os dez corvos ergueram voo, com um _croaa_ furioso. Mas, reunidos aos
outros, caram aos centos sobre o espinhao dos carnvoros, que
prontamente fugiram, perante a imprevista agresso.

O bando negro ficou senhor do campo de batalha, e comeou a devorar o
abutre.

A hiena deixara de fugir. As exigncias do estmago impeliam-na para a
audcia. Embora altiva ainda, a sua raa ia decaindo, perdendo
sucessivamente a ndole ofensiva. J estvamos longe do monstro daquele
gnero, de maquerodo, que, com os seus caninos de dupla lmina, do
tamanho de um cvado, agredia os proboscdeos. Talvez que a grande
hiena, nesse tempo, arrastasse ainda para as cavernas herbvoros
palpitantes; mas esta, hiena mosqueada, no obstante possuir caninos e
molares, os mais slidos na animalidade daquela poca, e capazes de
partir o fmur de um auroco, limitava-se a preferir a carne morta, ou
atacava, em suas galerias os pequenos fossadores, a toupeira, o arganaz.

Adiantou-se lentamente, baixando-se como um animal que rasteja, e
estendendo a cabea a farejar o homem, cada vez mais inquieta.

A um salto de distncia, calculou, e fixou o pescoo, planeando o
assalto do co e do lobo: a estrangulao...

Mas, toda nervosa, e raspando o colo, no se atreveu.

Enquanto ela hesitava, reacendia-se a luta, entre os chacais e os
corvos. Os caninos fizeram uma sortida e, durante um desvio do
adversrio, puderam conquistar os restos do abutre. Magra refeio, sem
duvida! De olhos vivos, pestanejando sob a aco da luz, trincavam os
ossos do voltil, com ar de precauo.

Despertado o apetite, pensaram na grande presa. A hiena no se ops, e
at parecia que de ambos os lados se estimulava a audcia. Os risos e os
uivos cruzavam-se com as corridas, os saltos de lado, e a exibio
sugestiva das dentaduras.

As moitas entreabriram-se com fragor, o mato partiu-se com um rumor de
tempestade, e apareceu um mamute, de fronte bojuda e de quinze ps de
altura.

Gostou da clareira, parou, balanceou a sua enorme corpulncia,
arrancando com a tromba algumas ervas, num capricho de colosso pueril, e
deitou-se: gozou a semi-sonolncia dos grandes animais, perpassou-lhe na
mente o devaneio, o inesgotvel fluxo das formas e dos movimentos que
durante o dia lhe haviam impressionado a retina.

A hiena e os chacais, alapardados no esconso da vegetao prxima,
recuaram de pronto. Um animal indolente, pesado, desajeitado, rompia
vagarosamente do matagal e exibia-se em toda a luz: um urso.

O mamute, tranquilo, viu-o chegar. O plantgrado parou, consultando o
proboscdeo. Despertado no seu fojo,  beira-rio, atrara-o o barulho
dos chacais; e, para o repasto do dia, contava agora com o homem
estendido, esperando a neutralidade do grande elefante, porque sabia
quanto este era pacifico, fora das pocas do amor.

Este clculo pareceu acertado desde logo, pois que o elefante se ergueu
e comeou a andar, afastando-se; mas, a dez metros do homem, atentou
nele, virou a tromba na direco de Vamir, aproximou-se, farejou,
olhou. E, mugindo ameaador, apresentou as suas defesas ao urso. Este
sentiu a clera funda, cega e obstinada da sua raa. Grunhiu, ps-se de
p, atrs de um choupo, e a mmica das suas patas e o ricto do seu beio
exprimiram sede de represlias.

Com a tromba erguida em semicrculo, as defesas tocando no solo, com o
seu corpo gigantesco potentemente especado, o elefante esperou...

Eram dois poderosos animais. O urso mostrava os braos peludos, armados
de garras colossais, os seus caninos, a sua musculosa maxila. Podia, de
p, agarrar e sufocar. A sua pele espessa, oscilante, no o embaraava
na luta contra as feras, como o leopardo e at o leo; o peso ajudava-o,
e os seus gestos vagarosos eram de uma exactido terrvel.

Mas a fora do mamute era incomparvel. Os seus pequenos olhos, ao invs
dos do urso, viam perfeitamente; a sua admirvel tromba excedia, na
agilidade e nos msculos, o brao do antropide; as suas defesas
recurvadas, do comprimento de dez cvados, jogavam e perfuravam como os
cornos do auroco. Todo o seu corpo, em cima das quatro colunas das
pernas, e sob o plo arruivascado e a abundante e negra crina mediana,
mostrava-se a destreza e a facilidade de se voltar. Na floresta, na
plancie, nos desfiladeiros, em toda a parte, era ele o vitorioso senhor
herbvoro, relquia dos colossos de tromba, do perodo tercirio, o
_dinotrio_, o _elefante meridional_, o _elefante antigo_.

O hipoptamo, o rinoceronte e ele representavam, todos trs, o escol da
era tapiriana, a monstruosa fauna alimentada do glten da planta, o
triunfo das grandes corporaturas e dos grossos msculos, o triunfo da
paz armada, a coiraa, as pontas, as defesas, a tromba, contra a sanha
dos carnvoros, a agilidade de locomotores, os caninos e garras de ao.

Perante o plantgrado mope, o proboscdeo foi o primeiro em deixar a
expectativa. Naquele crnio, banhado de ondas de sangue, a embriaguez do
furor toca, muitas vezes, as raias da loucura. O mamute soltou um mugido
formidvel e arrojou-se. A rvore salvou o urso, podendo este subir por
ela at grande altura. O outro, com a espdua, fez agitar o tronco da
grande rvore, e o urso, para no ser atirado ao solo, teve de
socorrer-se das suas garras de trs polegadas, cravadas na casca do
choupo.

Mas o elefante insistiu, e, de repente, o urso caiu-lhe sobre o dorso.
Os dentes do urso fixaram-se em a nuca do elefante, e as garras junto s
orelhas. Mas o paquiderme sacudiu-se, como um animal que sai da gua, e,
com um formidvel impulso da tromba, fez cair o inimigo, que rebolou na
erva. Depois, apanhou-o com a tromba, colocou-o sobre as defesas,
ergueu-o, e atirou-o para cima de um silvado; e como o gigantesco animal
se dirigisse ainda para o inimigo, este levantou-se, fugindo com
dificuldade.

Misericordioso, o herbvoro aceitava este desenlace, e j se ia
afastando, quando o urso reapareceu, atirando-se, s cegas, contra a
tromba, arranhando-a e mordendo-a cruelmente.

O mamute, com um mugido de dor, dobrou o jarrete e abanou a cabea. Com
este movimento, o plantgrado perdeu o equilbrio e caiu entre as
defesas. A tromba segurou-o ali; depois o marfim enorme entrou-lhe no
ventre, e, depois ainda, as grossas colunas do paquiderme esmagaram-lhe
a caixa torxica, e o urso exalou o seu derradeiro grunhido.

Por alguns segundos, o mamute encarniou-se furioso nos despojos da
vitima; e, em seguida, arremessou o cadver para longe da clareira. E a
hiena e os chacais tiveram que comer.

Satisfeita a sua vingana, o proboscdeo voltou para junto do homem.
Farejou-o novamente e, colocando-se a alguns cvados de distncia, mugiu
longamente. A fmea apareceu com a cria; e ficaram todos trs em volta
de Vamir.

Era quase noite agora. A grande mosca azul pr-histrica procurava o
abrigo da folhagem; os nemceros partiam em nuvens para as guas; o
grilo recomeava a sua vibrante arieta; as formigas transportavam a
ltima colheita para os seus celeiros subterrneos; a larva da cicindela
dormia no fundo do seu poo; os necrforos lidavam no enterramento de um
cadver de arganaz; o chilrear da passarada esmorecia nas ramarias; e os
corvos tinham levantado voo. Os raios difusos, mais rubros, mais
escuros, fixavam-se nas extremidades da grama e da tabua; depois,
escureciam mais, deixando apenas, aqum e alm, algumas palhetas claras.
Mas da erva ressaa ainda uma fosforescncia, e os graves mamutes
recebiam nas pupilas serenas estas ltimas luminosidades, enquanto de
entre o bosque saa o clamor sinistro dos chacais, e o rir da hiena,
enfartada da carne do urso pardo.

Caram enfim as trevas, estendendo o seu misterioso vu na floresta e no
rio; no mato brilhavam pirilampos; perseguidas pelo morcego, esvoaavam
falenas, de asas lanuginosas; a coruja suspirou no cncavo dos
carvalhos; e ouviu-se a voz das feras, proclamando as suas carnificinas
triunfais.

Mais de um leopardo, mais de uma alcateia de lobos, aspirou os eflvios
do homem estendido; mas nenhum ousou perturbar a invencvel famlia do
grande mamute peludo, de cabea bojuda.

At s quatro horas depois do alvorecer, estiveram de atalaia. Vamir
saiu ento do seu longo entorpecimento, refrescado e fortificado, como
de um banho fluvial em dias calmosos.

Ps-se em p. Distendeu os braos e o peito, e notou, de relance, a
partida dos proboscdeos.

Esta partida relacionava-se, na sua mente, com a aventura da manh
anterior, e teve para os mamutes palavras de boas-vindas, embora no
soubesse quanto lhes devia. Soube-o depois, quando descobriu o cadver
do urso, com os ossos partidos; e o seu corao comoveu-se vivamente.




XIII

Entre os orientais


Decorridos cinco dias de enfadonha marcha, com amiudadas paragens,
notavam-se grandes melhoras nos feridos orientais. Na paragem do sexto
dia, adquiriram a esperana de tornar a ver o acampamento da tribo,
antes de finda a incipiente lunao.

Entre os primeiros que se punham a p, o chefe no soltava uma queixa.
Suportava o ferimento do ombro como velho robusto e estico, cujos
sofrimentos parciais no influam no organismo geral. De manh e 
noite, passava em revista a sua gente, tratava o seu ferimento e os dos
seus homens, aplicava drogas conhecidas para se evitar a inflamao, e
pronunciava palavras mais benficas que o blsamo.

Durante o dia, silenciosa e torva, lem acompanhava o bando; mas, de
noite, acordava frequentemente, recordava-se e chorava.  sua alma de
primitiva faltava o grande nmada, de face clara, docemente enrgica,
ombros largos e msculos de ferro. E os mpetos dele, as expanses
alegres, a superioridade intelectual, o olhar azul, a preocupao da
arte e do trabalho, tudo agitava a sua carne viosa, impelindo as
afinidades de raa para propcios cruzamentos. Suspirava de amor,
enquanto as horas decorriam, e pensava em evadir-se, pelo receio de ser
sacrificada por seus irmos.

Comeavam j a carregar o semblante, com os louvores que ela tributava
ao Pzann, quando a interrogavam. Apenas o chefe, observador reflexivo,
adoptava um inqurito tranquilo; e ouvia com interesse os pormenores
acerca da fora, da agilidade e, mais ainda, da indstria e da arte do
homem fulvo, e acerca dos costumes da regio longnqua. Os seus dios,
que a idade acalmara, engolfaram-no no encantado enigma. Sentia que no
tivesse sido aprisionado o grande homem loiro, porque talvez este
soubesse at onde se estendia a floresta, de onde vinha o rio, e onde a
terra tocava no cu.

De costumes mais selvagens, menos artistas que os grandes dolicocfalos
das plancies do Ocidente, os orientais haviam aceitado desde o
principio as jerarquias sagradas. Nas frteis regies do Levante,
alimentavam o devanear montono e imvel do pastor. Era mais perfeita a
sua organizao social; mas aquelas raas no tinham o destino das raas
plsticas, aventureiras, laboriosas e individualistas da Europa.

Nmadas e caadores, os orientais exploravam j o vegetal, preparavam
massas farinceas com diversos gros, aumentando assim a sua
estabilidade. As colheitas de feno permitiam-lhes sustentar alguns
rebanhos de cavalos e de bois asiticos, contidos dentro de cerrados,
porque o animal, pouco domesticado ainda, esquivava-se a aplicaes
metdicas, e apenas servia para alimentao do homem.

Tudo isto, e a fertilidade das suas terras, tornava as incurses dos
braquicfalos da sia menos extensas que as dos dolicocfalos da Europa.
Nas suas florestas, uma fauna de transio vivia onde j se encontravam
espcies emigradas do Ocidente, raras variedades de bugios, chacais,
gamos misturados com os animais das estepes frias,--mamute, urso, hiena,
auroco, uro, boi almiscarado. Na poca do regelo, comeava o xodo dos
bugios, dos chacais, dos gamos, para os grandes bosques meridionais;
atraa-os o vero.

Nas savanas de leste, os asiticos haviam-se aliado com o co, cujas
vivendas se dilatavam, e que, menos vencido que o antropide, dispunha
de disciplina e de inteligncia, lutava como o homem contra as grandes
feras, e ajudava-o a caar o uro ou o chacal, sob a condio de
compartilhar os despojos.

 semelhana do homem, os ces haviam compreendido o benefcio da
sociabilidade, formavam assembleias deliberativas, organizavam exrcitos
masculinos, tinham chefes encanecidos pelo roar dos tempos... Nas
idades lendrias, foram o inimigo terrvel da raa nascente. J o pai do
neandertal lacerava a face do leo e domava o dinotrio de defesas
invertidas; j a terra estremecia sob os passos vagarosos de um
entre-sonhador da gnese civilizadora, esboada nos mundos do insecto, e
ainda o co defendia o seu imprio. E quem poderia prever o desfecho,
visto que o antropopiteco se restringia aos agrupamentos familiares, 
primitiva horda, enquanto o outro confederava as suas tribos, ampliava a
ptria, levantava exrcitos, fortificava as suas cidades e educava seus
filhos!

Os velhos encanecidos, sabedoria das tribos nmadas, sopeavam o instinto
da ferocidade, cheios de emulao no ensino dos conhecimentos, cheios do
mistrio das coisas, aventurando explicaes rudimentares sobre as fases
da lua, sobre o curso das estrelas.

Devia-se-lhes a aliana com os ces, e estimulavam as tentativas de
domesticao, com respeito aos insectos, s aves, ao uro, ao cavalo, ao
urso, ao lobo. Ocupava isto capitulo extenso em seus anais.

Conheciam o capricho dos animais, e sabiam que, se alguns cedem  fora,
outros preferem a morte  violncia.

Iam a considerveis distncias ver as tribos das chuvas, onde o
feiticeiro Nadda criava abelhas; a tribo da lua, onde os guerreiros
moos cavalgavam poldros; a tribo do trovo, onde trs ursos viviam com
os homens.

Em meio de tais recordaes, o chefe oriental sentia crescer o despeito
de no ter conhecido Vamir. Quanto seria para desejar a paz com aqueles
gigantes loiros, laboriosos e ousados! Os dois afastados povos, postos
em comunho atravs da distncia, teriam ampliado o patrimnio do homem.
Explorar-se-iam paragens desconhecidas: seria descerrado o grande
abismo, conhecer-se-ia a regio dos elefantes corngeros; ver-se-ia a
serpente monstruosa, tudo que a lenda referia, havia sculos.

Protegeu lem. No s proibiu qualquer violncia contra ela, mas at lhe
dispensou inteira liberdade de aco. De dia e de noite, consentia que
ela vagueasse a seu grado, adiantando-se ou atrasando-se na marcha, e
reprimia de tal maneira o azedume dos seus homens, que no aventuravam
uma observao.

lem reconhecia a generosidade do velho chefe. Com o decorrer dos dias,
a sua mgoa amadurecia, como um fruto ao sol do Estio. Solitria, erguia
os braos para o Invisvel, orava, suplicava. Os seus olhos exploravam
atentos o rio, o rio amigo, em que a barca do Pzann a trouxe durante
semanas. O aspecto das plantas aquticas, dos nevoeiros errantes,
inebriava-a, sufocava-a. Uma sede mortal, um profundo instinto de
sobrevivncia, sangue rubro e ardente, prestes a jorrar das veias, um
sentimento de insubmisso e de capricho, tudo isto, que inda hoje  o
perigo dos nossos amores, a perturbava e a tornava mortalmente amante e
desesperada.

Ao stimo dia porm, chegou um momento de calma. Atravs das brumas da
alvorada, lem julgou avistar entre os caniais a barca de Vamir.
Estava longe, no distinguia bem, mas, com toda a sua energia de
primitiva, convenceu-se da presena do Pzann.

Muitas vezes, durante a marcha, teve tentaes de se extraviar a bater
mato, a quedar-se nas ribanceiras. Distrada e meditabunda, quando
chegou a hora do sono, no pde dormir, e os seus olhos semicerrados
devassavam as trevas.




XIV

Reconquista


Ora, enquanto o bando dormia, de noite, o velho chefe lia na fogueira o
evolar desordenado da vida dos ramos; fogueira que se desatava em
numerosos seres subtis e coloridos, impulsiva e crepitante, matizada de
fino azul, de amarelo claro, de purpura; rasteira sobre as cinzas, de
vibraes rpidas, alta e ondulante sobre os ramos, esparsa na extrema
do fumo, que, a revezes, se iluminava e se rasgava; fogueira, de onde
surgiam mil quimeras, grutas, florestas, grandes lagos rutilantes, um
mundo transitrio, ateado ou apagado por sopros desconhecidos, mundo que
se exaltava e se acalmava e se tornava mais furioso, dominado e
terrvel, devorador de florestas, subjugado pela mo de uma criana.

E o oriental dizia:

--Salve, fogo, mais belo que a gua, tua inimiga, suave para a terra,
que tu fecundas, suave para o homem, que tuas caricias aquentam.--

E pareceu meditar profundamente. Talvez ele pressentisse ento a grande
maravilha do futuro, a era da metalurgia. J o calor fundia partculas
de terra ou de pedra, e na cinza se deparavam pequenas barras
solidificadas. E guardavam-se com desvelo estas lgrimas de metal.
Havia-as de diversas cores: amarelas, pardas, brancas. Batendo-as com
uma pedra, davam-lhes formas diversas, ou as partiam em lminas; mas
estas lminas eram frgeis, flexveis ou quebradias, e ningum supunha
ainda que estivesse ali o competidor da pedra, do osso, do chifre.

--O fogo corre em nossas veias,--murmurou o velho, voltando ao seu
misticismo;--e por isso  que a nossa boca expele fumo, como um brasido
em que se deita gua.--

Respirou voluptuosamente, ufano daquela ideia, e, ao contemplar a noite,
dilatava-se-lhe o corao.

O claro da fogueira amortecia as estrelas zenitais; mas tremeluziam
numerosas e pequeninas no horizonte do rio.

--O fogo da lua, o das estrelas,  um fogo frio como o olhar dos
homens...--

Calou-se. O rudo nocturno dos sarais parecia mais frouxo. Muito ao
longe, bramia um leo, e a sua bela voz guerreira parecia emergir das
cavidades abissais, ou ser eco de montanha, desmedidamente poderosa e
grave.

No corria uma aragem. Sobre a claridade do rio, espalmavam-se aqui e
alm as manchas de vegetao, e as sombras coavam angustias na alma.

O velho sentiu a impresso de tudo isto. Ergueu-se. A fogueira iluminou
toda a sua forte corporatura.

Pareceu inquietar-se de ver que lem tinha os olhos abertos, e aplicou o
ouvido.

Um ligeiro rudo, como de animal que rasteja, vinha da escurido da
selva; logo aps, agitou-se o mato, e ouviu-se um pequeno choque, como
de uma pedra contra outra.

--A p!--bradou ele, de arco tenso na direco do ponto suspeito.

Uma frecha rompeu do matagal, roando a cabea do chefe; e ainda os
orientais estavam meio estendidos, e j Vamir, de um salto, se achava
junto da fogueira.

Por seu turno, o velho despediu uma frecha, mas esta perdeu-se, passando
 esquerda do Pzann.

Vamir, de clava erguida, ia esmagar o seu nico adversrio, quando lem
interveio, suplicante. Imediatamente, o grande nmada dirigiu-se aos
homens estendidos e, num gesto, significou-lhes claramente que mataria o
primeiro agressor.

Reconhecendo-se vencidos, os orientais aguardavam as ordens de Vamir. O
velho olhava sem receio para o intruso, e fez sinal aos seus, para que
sossegassem.

--Fala, e no prefiras a violncia  justia.--Vamir compreendeu que
podia ditar as suas condies, e, com a sua mmica, indicou que desejava
lem.

--Vai!--disse o velho a lem.--Mas porque levas,  fora, uma rapariga
das nossas tribos? Funda-se o teu sangue com o nosso, e rena a paz os
filhos da Luz com os homens das regies desconhecidas.--

lem pegou na mo de Vamir e conduziu-o, com palavras doces, para junto
do chefe. O Pzann deixou-se conduzir, cativado pela voz austera e nobre
do oriental; mas, atrs de si, os orientais levantaram-se
inopinadamente, com um clamor entusistico.

Vamir acreditou numa perfdia, segurou lem e comeou a fugir. A alguma
distncia, nas trevas, parou.

--Velho burlador,--clamou ele,--a tua voz canta a paz, mas o teu
esprito quer a guerra. Vamir despreza-te.--

Entrementes, armava o arco e apontava. lem interps-se novamente. A
frecha, desviada, internou-se nas trevas. Os outros armavam-se ento;
mas Vamir desapareceu, enquanto o chefe, consternado, impedia a
perseguio:

--No marcheis para a morte... Ele no compreendeu as minhas palavras, e
os vossos gritos assustaram-no!

A fogueira recebeu novo combustvel; e, enquanto ela se ateava clara, os
orientais tornaram a deitar-se, desgostosos daquela cena, em que a
ingenuidade de se julgarem compreendidos inutilizava a prudncia do
chefe.




XV

Reforos


A alvorada difundia-se por cima da floresta, e o velho permanecia ainda
indeciso. Alm de tudo, era impossvel lutar com segurana contra o
homem fulvo; a sua fora, consideravelmente superior, dificultaria um
combate franco; e a sua prudncia inutilizaria qualquer cilada. Pedir
auxilio a tribos, que demoravam longe, a algumas semanas de caminho,
impossvel. Reconhecer primeiro o territrio inimigo, e levar l depois
um exrcito? Mas no surgiriam obstculos invencveis? E a floresta
teria limites?

As oraes e os ritos cantavam-lhe longamente na alma. O seu olhar
buscou a chave do enigma nos plidos lampejos das achas, nos arabescos
da ramaria. Mas no disse uma palavra: a sabedoria das tribos exige que
o chefe prudente opere, sem fazer hesitar a caprichosa inexperincia da
gente moa.

Tomou as suas armas; estudou a direco da sombra; observou o voar de
certas aves, e levou consigo os companheiros.

Todos reconheceram, logo, que marchavam para o Sul. Desse lado,
estendiam-se, at o sop de altas colinas, grandes plancies estreis, a
que se aventuravam raros exploradores; era o territrio dos ces. Um
pouco mais para o Levante, com seis paradas de um dia, poderiam chegar
s tribos amigas.

Os moos admiravam-se, mas nada diziam.

Decorreu o dia, interrompido de breves paragens, e manteve-se a
orientao at  noite.

A noitada foi spera. Uma chuva torrencial caiu sobre a floresta, quatro
horas antes de amanhecer. Apagou-se o lume, e os corpos tiritavam
encharcados.

Foi mester construir um abrigo e, quando prosseguiram na marcha, era
manh clara.

Os quatro homens marchavam em silncio. Uma espcie de ferocidade
emanava das coisas: a chuva fustigava as ramadas; a terra prendia os ps
na lamacenta argila; o vaguear das feras nos moitedos era ameaa
terrvel; os lobos, em alcateia distante, comeavam de seguir os
orientais, na previso de carnagem; as serpentes multiplicavam-se,
sinistramente estendidas nos braos das rvores.

O receio do Inverno estimulava o apetite: foi preciso disputar aos lobos
uma presa j morta.

A nostalgia das cabanas e das grutas insinuou-se no peito dos orientais,
que se sentiram invadidos pelo devaneio e pelos encantos do lar. S o
velho, impenetrvel, curvava a cabea s contrariedades, aceitando a
sorte adversa.

Principalmente a segunda noite foi frigidissima. Felizmente, descobriram
uma larga clareira,  borda da qual chegaram a acender uma fogueira de
folhas secas.

De manh cedo, puseram-se a caminho; e o musgo das rvores, e o voo de
certas aves na direco das plancies, foram-lhes orientao bastante.
Mas esta era j menos segura, e impunha-lhes numerosas paragens. Os
novos entreolhavam-se furtivamente, sombriamente, e voltavam-se amide
para Leste. Pelas oito horas, comearam a trocar palavras em voz baixa,
e parecia que os animava um fermento de revolta.

O velho todavia continuava a marchar, altivo e robusto. Sucedia-lhe
pensar alto, gravemente, e rir, at, com uma espcie de entusiasmo.
Sagaz, como podia s-lo um primitivo, dir-se-ia que tinha vista longa e
dupla, e uma voz reveladora no seu intimo.

O sol, ao meio dia, rasgou as nuvens. Da terra ergueu-se uma nvoa, com
um cheiro morno, suavssimo. O velho estendeu as mos, dirigiu oraes
ao astro, e depois voltou-se para os seus companheiros:

--Quem h que tenha o direito de se esquivar  obedincia? Se o Conselho
quer a tua cabana, deves-lhe a tua cabana; se quer o teu brao,
deves-lhe o teu brao; se quer a tua vida, deves-lhe a tua vida. No sou
eu, entre ns, apesar da idade, o mais forte e o mais discreto? Os
vossos cabelos ainda no branquejam, e os Espritos no vos falam ainda.
Abatei o vosso orgulho, ou grandes males vos adviro!--

O arrependimento e o terror encheram ento a alma dos novos; e estes,
prosternados, reconheceram, mais uma vez, a autoridade da experincia.

O chefe anunciou-lhes que depois do crepsculo chegariam s raias; o que
foi confirmado pela presena dos grandes quadrpedes migradores, amigos
das plancies.

Reapareceu a confiana e a esperana, no obstante a chuva, e o negrume
da floresta, em que vagueavam mais numerosas as feras nocturnas. Seis
lobos pereceram sob as frechas ervadas; os outros dispersaram-se; o
homem pareceu retomar o seu ceptro.

Mas as cataratas jorravam mais copiosamente; um vento impetuoso sacudiu
as rvores; as feras, inquietas, irromperam da sombra; a situao dos
homens tornou-se lamentvel.

Os lobos tornaram a agrupar-se; no esconso da mata, tornou-se mais vivo
o rir das grandes hienas. A aproximao da noite duplicou os rudos de
hostilidade, o odioso clamor das feras.

Os orientais largaram a passo forado. Atrs deles, ofegava a respirao
dos lobos, e a rajada do vento atirava-lhes aos olhos folhas mortas.

As plpebras da noite fecharam-se rpidas em meio do temporal. O chefe
parou ento.

O lobo, de pupilas fosforescentes, fechava adiante o seu crculo, e
uivava, de beios erguidos sobre os agudos caninos.

Havia poucas frechas, e o lume era impossvel. Era foroso resignarem-se
os orientais a marchar de noite, com infinitas precaues. Demais, a
raia era a salvao.

Lentamente, mantendo os lobos em respeito com tiros de zagaia, os
asiticos prosseguiram na marcha...

 terceira hora de trevas, a nona depois do meio-dia, avistaram a aberta
que dava para a plancie.

O chefe ia na retaguarda, cheio de resistncia nas suas fibras
ressequidas, espantando sempre a desordenada horda dos lobos, mas
prestes a sucumbir.

Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distncia. Os
lobos uivaram angustiosamente; depois, ouviu-se um agitar de mato, e
passarem por ele centenares de corpos invisveis, ladridos raivosos e a
debandada dos lobos, a sua fuga, em meio de murmrios de raiva e gritos
de matana e de agonia.

Tranquilos ento, os orientais chegaram  orla da floresta, onde os
ces aliados, e dirigidos por um chefe, aguardavam os seus amigos.




XVI

A chuva


Aproximava-se o perodo diluviano do Estio, que todos os anos vinha
ensombrar o cu quaternrio. O vento arrefecia ento, o frio matava,
muitas vezes, a flor ou o fruto no ramo, e grandes fomes sucessivas
exterminavam os frugvoros. Transbordavam rios e ribeiros; e o homem,
encerrado na gruta da regio alta, aprovisionado, hibernava, passando as
horas a fabricar utenslios e armas.

Vamir, prevendo aqueles dias nefastos, remava todo o dia. lem,
submissa, dominada, ajudava-o. A carne de lafo assado servia para a
alimentao; e acresciam frutos silvestres, razes tenras, ovos tirados
dos ninhos serdios.

Vamir velava ternamente por lem; e as noites, que eles passavam nas
margens do rio, trescalavam a poesia imensa das infncias.

Abrigavam-se perfeitamente contra o mpeto da chuva; a barca, sustentada
por quatro espeques, servia de tecto; a pele do espeleu tapava o lado do
vento; e grandes ramos pendiam da barca, de todos os lados.

Foi naqueles dias que o grande nmada do Ocidente se tornou esposo da
filha dos pases desconhecidos...

O rudo da chuva, o fragor da floresta aoitada pelo vendaval, isto, de
per si, j falava de invernia e do prazer do refugio.

As primeiras friagens confirmaram o prognstico. Vamir, desagasalhado
em favor de lem, tiritava ao sopro do nordeste prematuro. Teve de
gastar a manh inteira do dia seguinte, em descobrir algum animal
felpudo; e, de emboscada, surpreendeu um urso, atravessando-lhe o
corao com a zagaia.

O crebro do animal, misturado com o cerebelo e a medula de uma rena,
serviu para untar a pele, previamente esfregada e desembaraada da
gordura e dos tendes.

Desde ento, puderam ambos estar quentes, durante o sono. lem,
encantada do conforto, ria docemente, com uma confiana infinita. Mas
Vamir mantinha a preocupao das grandes chuvas prximas, durante as
quais a floresta era inabitvel. As feras, mais agressivas ento, as
hordas de lobos perigosamente esfomeados, iam amplificar a luta nos
bosques. Em combates contnuos, as armas partir-se-iam. Era preciso
estacionar, durante semanas, em alguma gruta, para renovar arpes e
zagaias, para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e
as torrenciais chuvadas ao ar livre.

Por menos suave que fosse o inicio do perodo diluviano, Vamir poder
chegar s grutas em fins de Julho, sob a condio de se apressar e de
no perder tempo. No se desprecatou; e, desde a aurora ao crepsculo, a
sua mo vigorosa fazia andar a piroga. Infelizmente,  barca sobrevieram
avarias, e foi preciso despender trs dias em reparos.

Por fim, a barca foi de novo lanada  gua. O rio, com a enchente,
tomava a cor do barro, e transbordava j para as margens mais baixas. A
corrente, alm disso, opunha-se; era preciso ir junto da terra; grandes
troncos flutuavam ameaadores, e algas terrveis emaranhavam as suas
meadas.

lem passava grande parte do dia, envolta na pele felpuda, e amodorrada
pela monotonia da gua corrente. O repasto era a sua principal ocupao.
Amarrava-se ento a barca em qualquer calheta. Graas  proviso de
folhas secas em lugar coberto, o lume era suficiente para acabar de
assar uma posta de lafo, um palmpede, um peixe arpoado em viagem.

O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa, posto
que moderado no Oriente meridional, comportava todavia o sbito regresso
do frio antes do equincio do Outono. Este facto ocasionava emigraes
parciais de smios, de gamos, de chacais, de roedores, de aves
palmpedes e pernaltas. O antropide recuava ento para o trpico,
enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas, e os pais do
elefante indiano, os filhos do grande _Anticus_ de Chelles desciam das
montanhas.

Vamir fazia parar, s vezes, a piroga, se um bando de gamos ou de
chacais chegava, em marcha,  beira do rio; mas o que verdadeiramente o
apaixonava era o xodo dos macacos, que, desfilando, e saltando de
ilhota para ilhota, passavam  outra margem. Cabriolavam, clamorosos,
aos centos, baloiando-se, saltando a vinte cvados, apanhando de novo
um ramo de rvore, suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. A face
deles tinha trejeitos, que pareciam determinados por ideias. Tinham
gestos inteiramente humanos, coando a cabea, catando-se, assentados,
descascando frutos com os dedos e com os dentes. As suas orelhas bem
caireladas, os seus olhos de viso recta, a finura, a inteligncia dos
seus movimentos, encantavam extremamente Vamir.

Sucedeu que uma fmea, furiosa, atirou um filhito para o canial.
Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram no cuidar em
no avolumar a sua coluna com um invlido. Comovido, o grande nmada
correu a apanhar o pequerrucho. Encontrou-o gemendo, de mos estendidas
no peito. Agasalhado, alimentado de frutos, o animalzito tornou-se
estimvel: gostava de dormir no colo de lem, de se encarrapitar no
ombro de Vamir, beber gua na mo dele, de se arrufar com a sua prpria
imagem na face do rio; e nada satisfazia o corao de Vamir, como o ver
o macaquito, inquieto, caprichoso, brinco.

Seria aquilo uma raa de homens anes?

Consultou lem a este respeito, e soube que a linguagem deles era
desconhecida, e que viviam como animais. Entretanto, lem falou-lhe do
homem das rvores, construtor de cabanas, e Vamir recordou-se do ente
de olhos de mbar, cabelos raros e corpo peludo, que encontrara outrora.

Um dia,  hora em que o vermelho indeciso, tremulando em fundo claro,
anuncia o desaparecimento do astro soberano, lem soltou um grito, e o
Pzann suspendeu o remo. Na margem direita, apareciam homens. Eram de
baixa estatura, curvados, e em seu rosto estereotipava-se uma fealdade
triste e humilde. Armados apenas da antiga clava; e os seus cabelos,
dispostos em pequenos anis, desciam-lhes at o queixo.

--So os _comedores de vermes_,--murmurou lem, contrariada.--No Estio,
entram nas florestas e sustentam-se de bichos moles, contidos nas
conchas; no tempo das chuvas, descem para a beira-mar, e nenhuma tribo
sagrada tolera a sua vizinhana.

Vamir, com interesse febril, observava os vermvoros. Tinham
proeminente a maxila; a testa descia levemente at os enormes
sobrecenhos arqueados; o cerebelo, desmedido, parecia pesar-lhes; no
tinham os rins arqueados, e, marchando, apoiavam-se na clava.

Durante algum tempo, procuraram razes e frutos de pevide entre as
plantas aquticas, e todos depunham a sua colheita, num monte, diante do
chefe. O monto era j considervel, porque eles, pelo caminho, haviam
j empilhado moluscos univalves, tubrculos, folhas hortenses.

Ao cair da tarde, agruparam-se em volta do chefe, que equitativamente
distribuiu por eles os mantimentos.

--Conhecem a justia!--murmurou Vamir, satisfeito.

Depois, vendo que eles acendiam lume, cedeu ao impulso do seu corao, e
dirigiu para eles a piroga, com gestos de fraternidade.

Impressionaram-se, ao principio; mas o pequeno nmero dos adventcios
tranquilizou-os.

Silenciosos e graves, contemplavam o grande nmada e a sua companheira.
A estatura do homem, desconhecida no Oriente, assombrou-os; mas via-se
que simpatizavam com ele, ao passo que visivelmente desconfiavam de
lem, em quem reconheciam o tipo dos mais ferozes perseguidores dos
vermvoros.

Entre estes no havia mulheres: as mulheres, em hordas confusas,
seguiam-nos de muito longe. A primavera reunia os sexos em paragens
tradicionais; depois, o bando masculino abandonava o bando das fmeas
durante o Estio, o Outono e o Inverno.

Eram como vencidos, os vermvoros. Sados cedo da matriz antropomorfa do
perodo tercirio, lanados nas vias _externas_ do humano pela adopo
de armas, de mtodos de sociabilidade, j muito distanciados do processo
animal, para que nele reentrassem sem fraquejar, tinham perdido, em
frente do vigoroso quaternrio, a esperana orgnica, esta fora
singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o rico.

Demais, relegados nas estepes ridas ou na profundeza das florestas,
fracos, mal armados para a caa da ligeira fauna silvestre, descambavam
progressivamente na fitofagia, adestrados em descobrir os tubrculos que
h debaixo da terra, em conhecer as hastes e razes comestveis, fazendo
provises de pevides de melancias, de gros de helianto, gulosos de
moluscos, passando o Inverno nas costas do Cspio ou do Mar-Negro, onde
se alimentavam de pesca rudimentar.

Uma bondade, um instinto adorvel, tornava a vida do individuo preciosa
para a comunidade. As partilhas eram reguladas pela mais estrita
igualdade, e cada qual tinha a maior dedicao em salvar o companheiro
da garra das feras. Por isso, eram ainda senhores do leo, do urso, do
leopardo e at do antropide; mas tinham medo enorme dos braquicfalos,
caadores das estepes fecundas:  que tinham visto perecer milhares dos
seus, sob os golpes das frechas e zagaias.

Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos, a menos de seis dias de
marcha, e at evitavam os grupos insulados.

Vamir cativou-os pelo seu riso ingnuo, e pela generosidade com que
lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de lafo e de esturjo,
ovos de adem. Tambm estas provises foram repartidas, com gudio do
Pzann. Este, brindando o chefe com uma pele de raposa, todo se tomou de
surpresa, quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribudo
um pedao a cada um do bando.

O seu riso franco, e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo
daquela prtica, sugeriram alguma desconfiana aos vermvoros; e
manifesto ainda era o terror que lem lhes inspirava, e o desgosto dela;
a ponto que Vamir, mau grado seu, decidiu separar-se deles.

Reembarcou pois. J a distncia, escondido pelos caniais, fixou
longamente a vista, com exclamaes em voz baixa; os comedores de
vermes, activando as suas fogueiras, agrupavam-se  roda delas; e,
depois de construrem com ramos uma ligeira choupana, em que o chefe se
recolheu, acocoraram-se sobre os calcanhares, ao ar livre, com a cara
entre os joelhos, as mos na cabea, e assim adormeceram.

O Pzann sentiu ento grande piedade para com a sorte dos seus irmos
inferiores. Ao amarrar a barca, passava em seus lbios um murmrio de
tristeza. Mostrou-se sombrio,  refeio da noite, e adormeceu tarde.

Acordou antes da aurora, e observou a partida dos vermvoros. Viu-os
atravessarem o rio a nado, e desaparecerem ao nascente. Quando j os no
via, suspirou melancolicamente, acordou a sua companheira, e desamarrou
a piroga.

Quatro dias decorreram no labor da viagem. Em a noite do quarto,
desencadeou-se uma furiosa tempestade, que derrubou rvores
ruidosamente, levantou no rio enormes vagas e fez tremer toda a
floresta.

Abrigado numa lapa, Vamir dormiu, resignado e tranquilo. lem passou a
noite em suplicas, orando ao Desconhecido.

O furaco sibilava, insinuando-se nos sarais, e curvava as altas
ramarias, onde se perdiam clamores em som confuso.

A tempestade declinou de madrugada. O dia amanheceu suave, as nuvens
deixaram passar rstias de sol, e a floresta ressurgiu para uma vida
hmida e tpida.

O rio, barrento, largo, engrossado e tranquilo, carreava os despojos da
batalha da vspera.

Comeava a descida para o mar dos peixes que sobem aos rios, e que iam
passando em chusmas, adelgaados, extenuados pelo trabalho da
fecundao.

lem, fatigada, dormia; Vamir, de bom humor, remava para a ptria
longnqua.

Em horas montonas, a ideia do espao a transpor, a vertigem da
andadura, adormentava o crebro do Pzann. Vamir j no era seno uma
vontade tensa, um organismo mergulhado no sono dos fluidos, a gua, o
ar; o marulho daquela e o infinito afago deste entorpeciam as suas
carnes, imobilizavam a sua memria sobre algumas palavras, sobre a
imagem de seu pai, de sua me, do seu valente irmo Guni ou da sua
irmzita, que saltava como uma cabra montesa; mas no chegava a realizar
o esforo que relaciona as coisas e as faz falar.

Mas  sexta hora depois do meio-dia, deu-se um incidente inquietador,
que atraiu toda a ateno do grande nmada.




XVII

Os aliados


Animais corredores, ligeiros,--lafos, gamos, elos,--chegavam
espavoridos ao rio e atravessavam-no. Formavam bandos considerveis,
dominados do pnico herbvoro. O seu nmero ia crescendo com o declinar
do dia, e com eles se misturavam cavalos e alguns uros.

Vamir, espantado, baldadamente procurava uma causa simples daquela
extraordinria fuga: incndio, emigrao...

Interrompia o remar, e lem murmurava esconjuraes.

E o galope dos animais ia-se acelerando. Aos cervdeos, aos bovdeos,
aos cavalos, juntaram-se lobos, chacais, raposas. O rudo do mato
patenteou a corrida de animais menores,--lebres, doninhas, fuinhas e
lontras. Apareceram enfim carnvoros,--geis panteras e ursos de marcha
pesada. Ao longe, os macacos clamavam alarma, como sentinelas
escrupulosas, e o seu clamor atravessava, como um furaco, as altas
ramadas, transpunha o rio e difundia-se nas regies desconhecidas.

Anunciava-se formosa a noite: nenhum sinal de tempestade, nenhum sintoma
de perturbao atmosfrica. Mas, como um prodgio misterioso, a fuga das
feras despertava no intimo do homem e da mulher os mais sinistros
pressgios.

Todas as vozes, na serenidade do crepsculo, vibravam de um medo enorme,
e espalhavam o contgio do terror... Vamir entrevia, no o receio do
animal perante a natureza, mas o receio dos seres perante outros seres,
o xodo das raas vencidas, o desalento de uma espcie perante a espcie
dominadora.

Era mister entretanto precauo contra a extraordinria ameaa, e
segurana contra o perigo de ser esmagado pela cega corrida de
herbvoros, que prosseguia nas trevas.

Vamir avistou, a meio do rio, uma ilhota, em que cresciam freixos.
Dirigiu para l a embarcao, e acendeu pequenas fogueiras, pondo-se
assim a salvo de ataque directo e em posio excelente para observar
tudo.

Depois da refeio, nem ele nem a companheira pensaram em dormir.

Rio abaixo e rio acima, findara a corrida dos animais. Uns
aventuravam-se contra a corrente, outros seguiam-na; e este curioso
movimento tinha a singularidade curiosa de se efectuar nas duas
direces, em sentido inverso, como se os animais que seguiam para cima
e os que seguiam para baixo procurassem fugir da zona florestal, que
terminava quase em frente da ilhota.




XVIII

Os vermvoros


Os comedores de vermes marchavam na direco do grande-lago. Ainda que
tristes em geral,  sua explorao no era estranha uma certa satisfao
no inicio das paragens. Espalhavam-se ento, e, como a colheita da manh
era individual, tinham exclamaes a cada bom achado, e mostravam
puerilmente o que colhiam, tbaras, caracis, razes doces de
umbelferas, frutos agridoces...

Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposio
daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer co
do que a um antropide. Os seus braos curtos, o seu peito em quilha, o
indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhana.

Demais, entre as tribos braquicfalas corria a lenda, de que tinha
existido ou devia existir no extremo Oriente uma raa de homem-co,
aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do
animal, das guas, nicos e legtimos possuidores da Estepe e da
Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos.

E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se
atravs dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo,
marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva
orientao que guia os animais emigradores.

A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome,
a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mmica animal, e ainda da
comunicao oculta, da transmisso simptica do terror ou da ira.

Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma
vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando
atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo,
reuniam a coorte; e, ento de clava pronta, no se pode imaginar que
solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou
o leopardo.

Depois do meio-dia, reuniam as provises comuns, as que serviam para o
repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita
individual, sem lhe tocar com os dentes.

Feita a diviso, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam
sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho dirio, com
sonhos to vagos, como os do leo ou do lobo, que rosnam dormindo.

Marchavam. A floresta hmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e
pueris, a sua ateno desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre
riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pntanos; e a sua vida
expandia-se em ligeiras comoes, em esboos de ideias, em artifcios de
quem amamenta um aborto, em lineamentos de memria e previso.
Lavasse-lhes a chuva os crnios duros, aoitasse-lhes o vento as nucas
com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os ps,
perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam.
Acumulava-se-lhes no crebro uma herana inteira de resignao.

Depois que o homem de braos longos chegou atravs dos tempos, tinham
deixado de progredir: conservavam-se. Nada mais havia para eles. A terra
imensa desprezava-os; e, entrementes, a vida esgotava-lhes os meios,
endurecendo-lhes a epiderme, erguendo-lhes velos no peito, e
estendendo-lhes refegos de gordura  volta dos quadris.

Mas o circulo das raas rivais ia-se-lhes sempre fechando adiante, e o
pobre homem antigo tinha de durar menos que as feras carniceiras, porque
estava desarmado pela longa crise de transio, em que as foras
musculares se reduzem e se transformam, na luta contra as adaptaes que
o crebro realiza no mundo exterior.

Na penumbra dos arvoredos, tinham companheiros de xodo, aos quais se
haviam desacostumado de fazer mal: numerosos bandos de gamos e chacais,
dirigindo-se para o Sul, ou o tugir dos roedores, que se encaminhavam
para o Poente. Saudavam com um longo clamor o pacifico barrito do
elefante oriental, o buzinar dos pequenos cavalos de boca papuda, cujas
hordas militares cruzavam as suas.

Na noite do segundo dia da sua viagem, o chefe dormia na sua choupana de
ramos, a fogueira nocturna ia-se apagando, e os tardgrados, acocorados,
encolhiam-se com o frio, quando o grito do vigia ps todos a p.

A palavra, que significava o leo, trocou-se entre eles, e um grande
terror lhes fez bater os queixos. O chefe agrupou os mais corajosos, e
todos se reuniram, de clava erguida.

O pavoroso vulto do leo entrou no mbito, frouxamente iluminado pela
fogueira que se extinguia, e estacou, por um minuto, diante dos clamores
belicosos dos homens.

Mas, ou porque tivesse escasseado a caa, ou porque preferisse a carne
dos primatas  dos outros animais, abaixou-se, arremessou-se com um
salto prodigioso, e caiu sobre a horda. Esta havia recuado, abrindo
espao, segundo uma tctica milenria, e mais de cinquenta clavas
desceram sobre o crnio, sobre o focinho, sobre os olhos, sobre o
espinhao da fera.

O leo defendeu-se, levantou-se, e com trs lances de garras prostrou
quatro adversrios. Os outros, estimulados  luta, tornaram-se mais
audaciosos, atacaram o focinho ensanguentado; e o hrcules do grupo, com
uma pancada, partiu uma das pernas dianteiras do animal, ao passo que
mais dez pancadas paralisavam as pernas traseiras.

Vencido, o leo procurou fugir, mas os vermvoros, tornando-se ferozes,
no lho consentiram. Arrojaram-se todos contra ele; e, enquanto uns o
seguravam, procuravam outros estrangul-lo. No o conseguiram logo, e
receberam golpes terrveis; mas, afinal, tendo o chefe enterrado a clava
na goela aberta, o leo entrou de estertorar; e ento, ferozes e
vingativos, todos acabaram com ele.

Viu-se que dois companheiros expiravam e cinco estavam gravemente
feridos. Os mortos, longamente pranteados, foram depositados no fetal, e
os feridos foram desveladamente tratados. De manh, quando prosseguiram
na marcha, os mais feridos foram levados em braos.

Os tardgrados, no obstante as suas perdas, ufanavam-se de, mais uma
vez, haver dado lio severa ao seu temvel antagonista, e erguiam
galhardamente a clava, mutuando gestos de triunfo e confiana.

A floresta agora parecia-lhes melhor. Os seus ps descalos pulavam
ligeiros pelo caminho, a sua estatura aprumava-se quase, e os seus
pobres olhos de deserdados pareciam brilhar.

 certo que, perante a simples possibilidade da vitria, uma expanso de
seiva lhes teria dilatado o crnio; mas as vitrias restringiam-se ao
animal: como uma presso material, como uma ligadura das artrias, como
uma degenerescncia dos pulmes, o medo dos braquicfalos acanhava-os,
imobilizava-os; aniquilava-os, at de longe. E, assim, o circulo das
suas ideias era to limitado como o da sua vivenda, ou porque no
ousavam pensar no que no podiam realizar, ou porque no podiam pensar
no que no tinham realizado.

Desde a fresca alvorada at um tero da manh, no houve incidente na
marcha. No agradvel arvoredo, s havia animais inocentes. O sol tornava
tpido o humo das clareiras, e os seus raios penetravam na espessura. A
tal ponto a vida se expandia, que eles se puseram a cantar.

Por volta do meio-dia, a vanguarda de quinze homens recuou vivamente.

Achavam-se num azinhal interminvel. Todos se alimentavam de trufas.
Abundavam os javalis, fugindo adiante dos emigradores; e, por cima das
trufeiras, esvoaavam legies de moscas gulosas.

Marchando, parando para escavar, a vanguarda avistara uma fmea de
antropides.

Era raro que os antropides atacassem os vermvoros, sobretudo quando
estes no levavam mulheres no seu bando; pelo contrrio, uma espcie de
confraternidade animava o grande macaco, e os tardgrados j nele tinham
tido um precioso auxiliar contra o urso e os felinos.

Formou-se conselho, e resolveu-se destacar um pequeno grupo, que fosse
assegurar as suas pacificas intenes ao homem das rvores.

Aquele grupo, devidamente vigiado, atraiu a ateno dos antropides, com
gritos de alegria e sinais de benevolncia.

Surpreendidos a principio, os antropides pareceram logo reconhecer
aliados, e assim o mostraram, gesticulando com gravidade, e avanando
lentamente.

Minutos depois, estavam reunidas as duas hordas. Os vermvoros
ofereceram aos antropides uma refeio de tbaras, pevides e folhas
tenras. Os homens das rvores aceitaram estas coisas com prazer, porque
o seu regime alimentcio era idntico ao dos tardgrados.

As duas raas deserdadas ficaram depois em silencio, por muito tempo. A
sua natureza parecia comportar um fundo comum de melancolia; e a
melancolia do grande macaco parecia mais pesada que a do tardgrado,
como se fosse proporcional ao vigor dos msculos e  largura do peito.
De maneira que o homem foi o primeiro a rir, a brincar, enquanto o
macaco permanecia grave e meditabundo. Mas um deles pareceu
impressionar-se com uma recordao longnqua, despertada pela analogia
das circunstncias. Entrou em laboriosas explicaes. Os tardgrados,
inclinados, escutavam-no, sem chegar a compreend-lo; mas a recordao
pareceu germinar noutros antropides, que se juntaram ao primeiro; a
confuso porm era cada vez maior, at que um deles se lembrou de
apanhar uns ramos secos e indicar o movimento de uma chama.

Os vermvoros viram ento que os antropides se referiam ao lume; e,
cheio de orgulho, o chefe tirou de dois pedaos de pau seco o fogo
necessrio.

Quando se fez a chama e se difundiram as lnguas amarelas, entre volutas
azuladas, os homens das rvores ficaram, por um momento, receosos e
assombrados, enquanto os tardgrados riam de boa vontade.

Era a comunho dulcssima de parias nas fronteiras da animalidade; um
prazer reciproco em se compreenderem; e como que uma curiosidade do
Esprito das coisas em conhecer os progressos por ele realizados na
disposio da matria.

Separaram-se como amigos,--os tardgrados avanando para o Oriente, os
antropides dirigindo-se para o Sul,--depois da troca de presentes: o
homem deu clavas ao macaco; e o macaco deu ao homem ovos tirados dos
mais altos ninhos.

E havia apenas trs horas que a separao se dera, quando os vermvoros
viram os primeiros sintomas da fuga dos animais, que ao depois tanto
inquietou Vamir. Primeiro, viam-se os hspedes vulgares daquela regio,
lafos, javalis, e por isso no se impressionaram muito os tardgrados;
mas horas depois, avistavam-se, como companheiros de xodo, os gamos,
refluindo em bandos considerveis.

E ento os vermvoros, tomados igualmente de pnico, retrocederam
tambm.




XIX

Na ilhota


Na expectativa de extraordinrio acontecimento, lem e Vamir
conversavam.

Agora, j o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da
linguagem dos braquicfalos. Julgava oportuno interrogar a filha do
Oriente; mas, nas suas reminiscncias, nada ela encontrava, que
esclarecesse a situao. No seu crnio supersticioso perpassavam apenas
as antigas lendas do _Animal das guas_, expulsando das florestas todos
os seres animados, a fim de investir o homem na posse delas. Os animais
foram salvos pelo _Elefante corngero_, que reina em as montanhas; e a
_Serpente_, rival do _Animal das guas_ e inimiga do homem, ops-lhe o
ser imundo que se alimenta de vermes, e a quem as tribos sagradas
aniquilaro...

Estas coisas falavam pouco ao esprito do nmada e at o indignavam.
Acaso o homem no vive de carne? e que seria das florestas e plancies,
sem animais?

Depois, Vamir no podia imaginar um animal invisvel. As suas duvidas
abalavam as crenas de lem, a qual, todavia, continuava a murmurar as
suas oraes, e a resguardar-se a si e ao seu amante, com prticas
religiosas; e o mesmo faria at a hora da morte, e porventura at
depois, se o destino lhe concedesse filhos, porque as coisas msticas,
embora nasam lentamente, so como o pigmento da carne ou a forma dos
crnios, que s o tempo transforma e aniquila.

Inclinados sobre o rio, aguardavam a noite, que vinha chegando. O claro
do Crepsculo era vvido e roxo a um tempo, duplicado pelo reflexo. Sob
aquele claro, a margem parecia muito distante, semelhando, sobre a
floresta, uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas; na
margem, moviam-se animais fugitivos, os seus corpos escuros limitados
por traos de luz, os espinhaos rolios ou sinuosos, lisos ou eriados,
as cabeas delicadas e longas, ou largas e volumosas, as armas
pontiagudas do lafo, a vasta fronte do gamo, a crina ondeante do
cavalo, o tronco flexvel e serpentiforme da lontra, o dorso corcovado
do urso...

Quando a noite se ia cerrar enfim, e as rvores e o rio se engolfavam
lentamente na sombra, houve uma suspenso. Cada vez mais raros, j se
no viam seno animais vagarosos, insectvoros ou carnvoros vermiformes
que fugiam de uma vivenda prxima. Vamir e lem redobraram a ateno, e
perceberam um rumor muito distante, semelhante ao uivo dos lobos ou ao
lamento dos chacais.

Quase ao mesmo tempo, avistou-se na margem um bando considervel de
_comedores de vermes_. Mostravam-se fatigados, recurvados, cobertos de
lama e de sangue. Transportavam em braos grande nmero de feridos, e,
diante da impossibilidade de transpor com estes ltimos o rio,
quedavam-se amargurados. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a
cada instante, com gestos de alarma, mas ningum tugia, ningum pensava
em atravessar o rio sem os feridos, e muitos dispunham estoicamente as
suas clavas para uma luta extrema, quando Vamir saltou para a sua
piroga, dirigindo-se para eles.

O bando, que ele encontrara quatro dias antes, reconheceu o gigante
loiro e manifestou alegria. Os outros, prostrados de fadiga,
estupefactos, viram chegar aquele homem.

Vamir chegou  margem, e fez sinal para que transportassem dois
invlidos para a canoa. Os que se recordavam dele obedeceram; os demais
confiaram-se passivamente  ventura.

Vamir fez uma quinzena de travessias, e todos os feridos se acharam na
ilhota; os outros alcanaram-na a nado.

Vamir facultou-lhes as suas provises. A tiros de frecha, matou trs
gamos fugitivos e um pequeno cavalo de focinho papudo. Os _comedores de
vermes_, tranquilizados, iam buscar as presas e esfolavam-nos
rapidamente, sob as indicaes do grande nmada.

Vamir desvelou-se por eles, consternado pelo desgosto de lem; tratou
dos feridos zelosamente, indicou a cada um lugar de dormida, porque os
vermvoros, depois da refeio, caram logo no sono; e foi juntar-se 
sua companheira, que estava em observao na outra extremidade da
ilhota.

Conversaram em voz baixa. lem props que subissem o rio, naquela mesma
noite; mas Vamir ops  proposta que o temporal da vspera avolumara o
rio, que arrastava troncos de rvores, perigosos para a canoa; e tambm
ponderou que os _comedores de vermes_ estavam debaixo de sua proteco.

lem resignou-se, e tomou lugar no barco, comodamente abrigada por uma
pele de urso. Quanto a ele, ficou de vela, alimentando o lume, acabando
de esfolar as presas e de as partir em quartos, que ele punha logo a
assar, para os conservar bem.

As trevas envolviam tudo, e mal se distinguiam as margens.

De quando em quando, Vamir aplicava o ouvido. O vago rumor de pouco
antes tornava-se agora mais distinto, j da esquerda, j da direita. s
vezes parecia extinguir-se, mas depois ouvia-se, sempre mais prximo.

A virao dava linguagem s folhas, a chama das fogueiras reflectia-se
na gua; a intervalos, o mergulho de um corpo e o ofegar do nadador:
depois, o silncio e a solido, debaixo de um formoso cu constelado,
sem luar.

Finalmente,  orla da floresta, assomou um perfil humano, movendo-se
indistintamente na sombra; e quase ao mesmo tempo viu-se uma ondulao
rasteira, como formada de centenares de corpos em bando; e ouviu-se um
estrpito de tempestade, o reboar de latidos multiplicados pelos ecos,
um transbordar de vida e de alvoroto, quebrando o silncio das trevas.

lem, desvairada, correu para junto de Vamir, e segredou-lhe uma
palavra desconhecida do Pzann, tendo distinguido a voz do co das
grandes plancies estreis.

Os _comedores de vermes_ despertaram tambm, e, ao claro da fogueira,
procuravam o nmada. Este, com gravidade e altivez, procurava devassar a
sombra e conhecer a ameaa que fazia tremer lem e os tardgrados.

Durante a sua marcha lentssima, os _comedores de vermes_ tinham sido
atacados pelos ces. O animal, todavia, respeitava ordinariamente o
homem antigo, cujos bandos emigrantes atravessavam as vivendas caninas.
Mas, por muitas vezes, os asiticos tinham-se servido dos seus aliados
quadrpedes para atacar as tribos errantes; e, com receio de um ataque
deste gnero, os _comedores de vermes_ tinham retrocedido de pronto.

Retrocedendo, encontraram outros bandos de irmos, de maneira que o seu
nmero se elevava a muitos centenares.

Defendiam-se entretanto com energia, e chegavam quase sempre a repelir o
seu terrvel inimigo, quando, a meio dia do rio, depois de uma longa
paragem, foram novamente assaltados.

O nmero dos seus adversrios ia crescendo sempre, e por isso sofreram,
neste ltimo encontro, perdas considerveis. Demais, convencidos, pela
marcha lenta do quadrpede, que os asiticos o guiavam, precipitaram a
sua retirada.

Chegando  beira do rio, carregados de feridos, e horrorosamente
fatigados, j no esperavam seno a morte, quando Vamir os salvou...

Surpreendidos no sono pelo grito do co, reuniram-se ao grande nmada,
como ao seu protector nico. Este convocou os chefes, e designou-lhes
lugar de combate nas ribanceiras da ilhota, encarregando-os de formar os
seus grupos. Como instrues, apenas levantou acima da cabea uma das
antigas clavas, baixando-a sobre um inimigo imaginrio. Este movimento
foi perfeitamente compreendido, e todos se encheram de coragem, animados
pelo belicoso aspecto do Pzann, pelos seus belos olhos que chispavam
altivez, pelo seu arcaboio, dilatado nas previses da luta.

Vamir fez reavivar as fogueiras, e foi pr-se de atalaia.

A margem oposta pouco tempo se conservou escura, pois a iluminou
rapidamente uma grande fogueira.

Nesse momento, a alguma distncia da fogueira, quase na estrema do
espao iluminado, Vamir avistou o co.

lem apontava-lho com insistncia, pronunciava-lhe o nome, referia-lhe a
ferocidade quando conduzido pelo homem, a sua organizao em vivendas, a
sua aliana com os braquicfalos.

O Pzann escutava-a atentamente.

O claro da fogueira, menos enfumarado, banhava de claridade o
quadrpede; e, ao v-lo mais semelhante  hiena do que ao lobo, com a
sua larga mandbula, a sua alta corpulncia, a sua flexibilidade, Vamir
compreendeu que ele devia ser um perigoso adversrio.

Desviou-se porm a sua ateno, porque, adiante da fogueira, se interps
um vulto humano, e uma voz ressoava em meio do grande silncio e sobre
as guas do rio.

Vamir e lem reconheceram a voz do chefe oriental. lem dizia:

--Homem das regies desconhecidas, escuta a voz daquele, cujos cabelos
so brancos, e a quem fala, na solido, o esprito do saber. As minhas
palavras significam paz. Aliados com o co, poderamos encarar a guerra
sem receio. Que poderias tu, homem das nascentes do rio, contra as
inumerveis legies do animal, auxiliado de frechas e braos humanos?
Aceita a paz. Mutuemos o sangue de nossas veias.--

Com a ajuda de lem, Vamir compreendeu-lhe as palavras. Voltando para a
sua clareira, aceitou-as, gritando:

--Velho, o Pzann te sada. Ouviu a filha da tua tribo, e est pronto a
mutuar o prprio sangue com o teu. Afasta o animal, e salvem-se os
comedores de vermes!--

Na margem oposta, os trs moos haviam-se reunido, e o grupo dos
braquicfalos animou-se.

No podiam fraternizar com os filhos da Serpente. O velho tendia para a
clemncia; mas um dos moos, fantico exaltado, pregou a vontade
implacvel do _Animal das guas_, a lei das tribos sagradas; e todos,
repassados de desgosto e dio, pareciam convencidos.

O chefe voltou-se de novo e clamou:

--Porque  que o homem irmo toma o partido do ser imundo?  melhor
deixar essa presa ao co.--

Mas Vamir indignou-se:

--O Pzann no ousaria aparecer entre os outros Pzanns, se abandonasse os
seus aliados; o Pzann quer a paz, mas quere-a para todos que esto com
ele.--

Formaram os orientais novo concilibulo, e todos os moos, mais
desejosos de uma vitria do que de uma soluo pacfica, tendiam para a
guerra.

O chefe no se atreveu a opor-se abertamente, mas referiu-se  coragem
de Vamir,  glria de uma expedio para as bandas do Norte depois do
Inverno,  necessidade de estar em paz com os povos longnquos.

Dois dos moos pareciam convencidos, ao passo que o fantico baixava os
olhos, obstinado. Aproximou-se, at, da margem, e, apontando a frecha
ervada a um dos vermvoros:

--O Conselho diz: nunca a tua frecha hesite em ferir o imundo!--

E a frecha descrevia a sua parbola mortal, ferindo o tardgrado num
ombro.

O doloroso grito do homem foi acompanhado de um grito colrico do homem
loiro, e de um rumor de censura, entre os orientais.

--Homem,--clamou o velho,--perdoa a exaltao de um sangue muito novo!--

Mas Vamir, cheio de indignao, replicou:

--O meu sangue tambm  novo, e no perdoaria a perfdia!--

Armou o arco, e a sua frecha atravessou o peito do agressor.

Depois, correu para junto do tardgrado ferido. Os companheiros chupavam
o sangue da ferida, extraindo assim o veneno. Vamir buscou um antdoto,
folhas alcalinas, cuja seiva ele espremeu na ferida aberta, em que
depois as estendeu.

No campo dos orientais, o velho tratava do ferido. Este persistia em
soltar injurias contra os comedores de vermes; e todos estavam
indignados, porque o nmada ferira um homem, para vingar uma criatura
ignbil.




XX

Assalto  ilhota


Prolongaram-se as trguas.

Os orientais recuaram a sua fogueira para o abrigo do matagal. Os ces
estavam invisveis, mas os seus uivos trovejavam na espessura.

Os _comedores de vermes_ recaam no sono,  parte alguns velhos mais
resistentes.

Vamir fortificava o retiro de lem com grossas ramadas e preparava as
suas armas. O fumo das fogueiras flutuava sobre a gua, entre clares
purpreos.

No se ouviu mais uma palavra de paz. Parecia que de ambos os lados se
faziam preparativos para uma luta prxima.

Vamir trabalhava e velava.

De uma vez, pareceu-lhe avistar um oriental que, a pouca distncia da
gua, se erguia, desaparecendo depois no mato. De outra vez, um bando de
ces veio beber ao rio; mas nada anunciava uma investida. Julgou
portanto que o chefe oriental aguardaria a manh, e recomearia as
negociaes.

Acabava de depor a seu lado a dcima segunda frecha, untada de veneno,
quando notou um rpido movimento e o formigar de muitos vultos na
margem.

--_E! E!_--gritou ele, enquanto os tardgrados arrancavam do sono os
companheiros.

L adiante, impetuosos, os ces mergulhavam e nadavam, aos milhares, de
olhos fosforescentes em suas cabeas hmidas e luzidias, fazendo, com a
sua imerso, erguer o nvel das guas nas costas da ilhota. Silenciosos
e terrveis, nadavam intrepidamente, sob a saraivada de pedras, ossos e
achas, com que eram acolhidos.

Vamir, verificando que entre eles no havia nenhum homem, deps o arco
e empunhou a clava.

lem, armada de uma lana, poderia defender o seu abrigo.

Os tardgrados, animados pelo Pzann, mostravam-se enrgicos, postados em
pequenos grupos, de costas para o centro, com espao livre para
manejarem os seus bastes.

Antes que tocassem terra, os ces foram atacados to vigorosamente, que
recuaram para fora de alcance. Mas de pronto se dividiram em duas fortes
colunas, uma das quais singrou para o ponto mal fortificado da ilha,
defendido por Vamir, enquanto a outra retomava directamente a ofensiva.

A precipitao dos tardgrados em auxiliar o seu salvador poderia tornar
eficaz aquela tctica dos agressores. Mas Vamir repeliu energicamente o
reforo, e obrigou cada um a reocupar o seu posto.

Apenas a coluna, contra ele dirigida, tocou em terra, a carnificina do
Pzann espalhou nela o terror.

A sua alta corporatura, a sua clava enorme, a sua formidvel destreza em
despedaar crnios, a agilidade dos seus movimentos, a sua voz
autoritria, soberbamente humana, tudo isto pareceu produzir nos animais
uma impresso como que supersticiosa.

Cheios de pnico, latindo desordenados, foram recuando.

Entrementes, a segunda coluna conseguira invadir a ilhota, sem
desconcertar todavia a tctica dos _comedores de vermes_, sempre
reunidos em grupos, e defendendo-se sem desanimo.

Do lado dos ces, as perdas eram considerveis, e os tardgrados
contavam uma vintena dos seus, postos fora de combate.

O animal sentia-se vencido, quando algumas frechas ervadas, partindo da
margem, fizeram duas vtimas. Produziu isso um certo terror, e os grupos
da costa aproximaram-se do centro. Os ces redobraram o seu furor, e, a
pouco trecho, era terrvel o nmero dos feridos humanos.

No entretanto Vamir, depois da sua vitria, notara que os asiticos
despediam frechas, quase a descoberto, de trs dos arbustos. Por seu
turno, tendido o arco, despediu algumas frechas.

Os orientais tiveram que se retirar para trs de grandes troncos, de onde
os seus tiros eram muito incertos; e contentavam-se em aular os seus
aliados quadrpedes, os quais, respondendo-lhes com latidos formidveis,
assaltaram com mais vigor os seus adversrios. A situao agravava-se,
tanto mais que a coluna, repelida por Vamir, tinha entrado pela outra
extremidade da ilhota, levando reforo.

O pobre tardgrado viu-se perdido, e o seu grito de guerra tornou-se
plangente como um gemido de agonia.

Mas o grande nmada do Ocidente levava-lhe j o auxlio do seu brao, e
a sua clava abria caminho por entre crnios e espinhaos despedaados.
De todos os lados, o animal, inquieto, aterrorizado, reconhecia naquela
voz e naquela fora a fora e a voz das raas vitoriosas, por forma que
os tardgrados retomavam coragem, e os ces, repelidos para a gua,
voltavam ao campo dos asiticos.

Uma ebriedade de vitria inflamava os olhos dos _comedores de vermes_.
Voltando-se para o homem loiro, cantaram a melopeia do triunfo, a que
Vamir correspondeu com um belicoso clamor.

Na outra margem,  beira das florestas seculares, resoava o latir
furioso dos ces e as maldies dos homens do Oriente.

Decorreu a noite naquele tumultuar terrvel, repercutido pelos ecos, e
em que os dois bandos inimigos exaltavam o seu valor no vencido e
prenuncio de novos combates.

Os tardgrados trataram acuradamente dos seus feridos, e, para maior
segurana, foram coloc-los perto do sitio, em que Vamir acampava com
lem. Dos ces, postos fora de combate, desembaraaram-se os
tardgrados, lanando-os  gua, em que alguns acabavam de morrer, ao
passo que outros, ao grado da corrente, chegavam  outra margem.

Vamir fora ter com a sua companheira. Cheia ainda do desgosto que lhe
causavam os _comedores de vermes_, lem permanecera no seu abrigo, sem
necessidade de se defender.

Vamir falava-lhe da vitria, do nmero das vitimas, da ferocidade dos
assaltantes, da probabilidade de novos recontros; e ela escutava-o,
pensativa e triste por aquele incidente, fazendo votos pelo advento de
uma paz imediata.

Manifestava a esperana de que as negociaes se retomariam de
madrugada, e o nmada aprovava, mas esquivava-se a quaisquer concesses,
relativamente aos tardgrados.

Fatigada, lem adormeceu por fim. A maior parte dos vermvoros tambm
dormia. Vamir velava sempre.




XXI

A derrota


Foi decorrendo a noite. A ronda dos astros atravessava as calmas
profundezas do rio; uivavam ces feridos; as fogueiras dos orientais
ardiam por trs das ramadas, iluminando os braos negros e contorcidos
do arvoredo e as densas e flexveis cumeeiras da floresta.

Vamir aproximou-se do rio, e ali se quedou alguns instantes, como para
dar ensejo a palavras de conciliao. Mas teve de se furtar a uma frecha
que vibrou.

Vibraram outras frechas, que, descrevendo vigorosas parbolas, iam quase
todas cair inofensivas no meio da ilhota.

O Pzann guardou-as, satisfeito de ver que se iam esgotando as munies
contrarias; mas os orientais, compreendendo logo a inutilidade daquele
tiroteio, suspenderam-no, e, com gritos e aulamentos, fizeram
reaparecer os ces, formigando na margem e latindo furiosamente.

Um vago perfil humano se desenhou entre os ces, acocorando-se logo;
outro perfil apareceu na ribanceira, em observao; e depois uma voz
humana, irrompendo do rio, denunciou um nadador.

E daqui concluiu Vamir que, desta feita, os asiticos acompanhariam a
expedio.

Em tais condies, o assalto era grave.

Sem perda de tempo, despertou toda a sua gente. Armou com arpes de
pontas fixas e de zagaias seis velhos mais sagazes, anexou, para seu
uso, uma lana  sua clava, e ps-se de atalaia em bom lugar.

Os ces acabavam de se atirar  gua. Seguidamente, a presena do homem
revelou-se em nova tctica: formaram-se trs colunas; uma seguiu para a
frente; outra para o pontal, onde estava lem; e a terceira, deixando-se
ir ao grado da corrente, rodeou a ilha, para a assaltar por trs.

Ento Vamir, para concentrar a defesa, fez evacuar o pontal oposto
quele em que se achava, e fez guarnecer o outro lado da ilhota,
organizando tudo de forma, que toda a gente se agrupasse com ele, sendo
necessrio.

Depois, enristando a lana, aguardou.

Os orientais no se viam. O seu plano devia ser o dirigir o ataque,
intervindo nele apenas no momento decisivo, e, para isso, nada melhor do
que estar na retaguarda. Tinham provavelmente mascarado os rostos, para
melhor se confundirem entre as cabeas dos ces.

A dez metros da ilha, as colunas da frente estacaram contra a corrente,
aguardando um sinal do bando que fora por trs da ilha. Quando chegou o
sinal, todas as foras atacaram a um tempo.

Parecia que aumentara a coragem dos ces. Luziam-lhes os dentes e o
fsforo azulado dos seus olhos rasgava as trevas.

Antes de assentar o p em terra, sofreram, como antes, considerveis
perdas; mas, desde que l chegaram, muitos tardgrados das primeiras
filas pereceram estrangulados; a herica defesa dos outros, postos fora
de combate centenares de ces, salvou-os do desbarato, e a luta seguiu
curso regular, com fortuna vria.

Ao princpio, dando pela ausncia do Pzann, dois orientais haviam-se
adiantado e, primeiro a tiros de frecha, e depois com ligeiras lanas,
sustentaram o ataque.

O contacto dos inimigos aterrorizara os _comedores de vermes_, que
certamente se no salvariam da derrota, se os seis velhos, armados de
arpes e zagaias no aguardassem corajosamente os asiticos. Estes,
envolvidos num crculo ameaador, compreenderam a imprudncia de
arrostar armas ervadas, e debandaram em retirada, no intervindo na luta
seno com brados e alguns tiros de frecha em momentos oportunos.

Do lado de Vamir, os ces, aulados pelas vozes distantes, tinham
efectuado a invaso.

Vamir no os esperou; marchou contra eles com tal vigor, a sua clava e
a sua lana fizeram to numerosas vitimas, que os animais aguentaram
apenas o primeiro embate e fugiram, deixando a descoberto um oriental,
armado simplesmente de uma zagaia.

Vamir, com uma pancada, partiu a frgil haste da arma inimiga, e,
segurando o homem pela nuca, lanou-o aturdido no cho, manietou-o,
deu-o a guardar a lem, e correu a socorrer os seus aliados.

Estes lutavam bizarramente. Mas as hordas caninas, sempre renovadas,
estimuladas pela voz dos asiticos, encarniavam-se e era de recear que
aos homens chegasse a hora fatal do cansao.

Ao grito de guerra, soltado por Vamir, os ces recuaram, mas retomaram
o assalto, porque os orientais, da espessura da floresta, dirigiam mais
activamente a batalha, e recebiam a aproximao de Vamir com basto
tiroteio de frechas.

Os seis velhos, armados de arpes e lanas delgadas, agruparam-se de
novo, fazendo rosto ao inimigo, prontos em auxiliar a estratgia do
nmada. Este, na frente, procurou aproximar-se dos asiticos, mas no o
conseguiu, porque os animais se opuseram firmes, no obstante os
estragos que neles produzia a clava.

Demais, sobreveio um incidente, que poderia trazer desastrosas
consequncias: os _comedores de vermes_, que defendiam as traseiras da
ilhota, refluram para a frente, produzindo um princpio de pnico, que
tornou indispensvel a presena de Vamir.

A peleja travava-se nas trevas. Os orientais, sempre que podiam;
disseminavam as fogueiras, para estimular a coragem dos ces. Os
tardgrados deixavam os lugares sombrios, e acercavam-se dos seus
brasidos, que eles alimentavam cuidadosamente. Gemiam ali numerosos
feridos, fechando com a mo ferimentos terrveis. Geralmente, tinham
mordidas as pantorrilhas e as coxas, ao passo que os mortos patenteavam
gargantas rasgadas, ventres estripados.

A purpura de sangue avivava-se ao claro vermelho das fogueiras, e os
gritos de guerra mesclavam-se s agonias do estertor, ao clamor das
vidas que se extinguiam, como os latidos do animal se mesclavam 
enrouquecida respirao dos homens.

Do esconso das moitas, a horda dos ces emergia incessantemente para a
luz. Encarniados com os gritos agudos dos orientais, que reboavam
naquela confuso, sacrificavam-se, aos centos, mas invadiam, mordiam,
aterrorizavam.

Os _comedores de vermes_, j impressionados pelo contacto dos homens das
grandes estepes, e cuja coragem era apenas mantida pela presena de
Vamir, viam, alm de tudo, aproximar-se-lhes o cansao, sentiam os seus
braos menos lestos em erguer a clava, e tendiam a concentrar-se em
grupos numerosos.

Vamir compreendeu a situao. Num impulso terrvel, arremessou-se de
repente para a vanguarda, obrigando os ces a recuar. Depois, fez sinal
aos velhos, armados de arpes e zagaias, para que se lhe juntassem.

Eles obedeceram, imitando-os os mais vigorosos de entre os demais.

Este pequeno grupo, desde ento, sustentou firme todo o peso do assalto,
enquanto os demais trucidavam os ces que mais se haviam internado, e
conseguiam repelir os ataques de flanco.

Finalmente, o Pzann, durante uma trgua curta, fez compreender que era
mester alimentar as fogueiras extensamente, e, a pouco trecho, uma rampa
de braseiros protegia o ncleo principal dos seus homens. As chamas
elevaram-se, invadiram ervas secas, mato, macissos, e queimaram
arbustos, de forma que, resguardados por tal barreira, Vamir e a sua
gente puderam tomar alento.

Os ces tomaram-se de assombro, e os orientais, conhecedores dos
costumes do animal, resolveram ladear a barreira. Para isso, era preciso
passar pelo pontal da ilhota, porque os flancos do inimigo eram
protegidos por espessa vegetao, em que as foras disseminadas
fraquejariam.

Vamir, prevendo aquele movimento, destacou mais de trezentos
tardgrados para os principais desfiladeiros, procurando estes por
indicao dele, acender ali fogueiras, com brandes que levavam e que
cobriam de ramos secos; mas no lograram esse intuito, antes da chegada
dos ces.

Frouxo ao principio, o ataque do quadrpede tornou-se formidvel com a
aproximao dos asiticos. Muitos _comedores de vermes_, fatigadissimos,
largavam o basto, e defendiam-se com ps e mos, com dentes e garras.
Facto curioso, os ces, primeiro, inquietaram-se com aquele novo
processo; mas, pouco a pouco, tiraram dele vantagem, devida
principalmente ao nmero, que lhes permitia opor trs ou quatro dos seus
a cada um dos homens.

Neste ensejo, lem veio ter com Vamir, e as suas palavras pareciam mais
eficazes que as armas. Reconhecendo nela a raa amiga, os ces estavam
evidentemente desbaratados; e foi necessria a interveno dos
orientais, para que o animal voltasse  carga.

Na refrega, duas frechas varreram a cabea e o ombro de Vamir; e depois
vibrou uma zagaia que atravessou o peito de um tardgrado, ao lado do
Pzann.

Percebendo que o alvejavam do recesso dos matagais, e que no poderia
livrar-se dos ces, se no chegasse a pr os orientais em debandada,
Vamir, depois de ter novamente agrupado os tardgrados e recomendado a
lem que se abrigasse, embrenhou-se no mato.

Orientou-se pela voz dos asiticos, e, em poucos minutos, achou-se perto
deles, rodeados de ces prestes a atirar-se. Eram foras folgadas, como
de reserva para as eventualidades.

Estes animais farejaram Vamir e denunciaram-no. Mas ele, de um salto,
p-los em desordem com a sua clava, e caiu sobre os orientais, um velho
e um moo, que fugiram, disparando uma zagaia e largando as frechas. O
Pzann alcanou-os, e levantou a clava, a qual caiu no vcuo, porque os
outros, lestos como uma pantera, evitaram a morte. Com a pancada no
solo, partiu-se a clava, e com uma s punhada, Vamir prostrou o mais
novo dos seus inimigos; o velho apontou-lhe a zagaia, e cruzaram-se os
olhares de ambos.

--Bem,--disse Vamir,--eu sei que s bom, e no desejo tirar-te a
vida.--

O chefe no respondeu, e continuou a recuar, sempre de zagaia apontada,
at que viu erguer-se o seu companheiro. Fugiu ento. Mas o Pzann
desatou a correr, alcanou os orientais, obrigou-os a voltar 
ribanceira, arremessou o mais novo ao rio, tirou a zagaia ao velho e
obrigou-o tambm a deitar-se a nado.

Com o afastamento dos homens, os ces latiram amarguradamente. A
desordem estendeu-se s matilhas distantes, Vamir interveio, soltando
clamores de vitria. Animados, os tardgrados tomaram a ofensiva; as
matilhas recuaram desordenadas, e depois desbaratadas.

O Pzann e os seus aliados ficavam senhores da ilhota.

Morrera um milhar de ces, e os asiticos eram apenas dois!




XXII

O incndio


Ardia a ilhota.

O vento impelia as labaredas, por forma que era perigoso acampar no
pontal, onde se achava o abrigo de lem.

Tinham-se apinhado ali os tardgrados, e ali curavam dos seus doentes.

A rapariga, comovida pela coragem daquela pobre gente e pelos servios
que tinham prestado a Vamir, sopeara a sua repugnncia, e ajudava a
tratar os feridos.

Naquelas tristes fisionomias, acabrunhadas de fadiga, perpassava uma
expresso de alegria, como o ondear de um tanque, ao verem passar Vamir
ou a sua companheira.

Muitos tinham adormecido, na sua posio habitual, e, atravs do pesado
sono, faziam reviver o pesadelo da peleja; soltavam gritos, rosnavam,
erguiam de entre os braos o rosto frentico, estendiam a grossa maxila.

Vamir encontrara o oriental cativo. Depois de perseverantes mas inteis
esforos para partir os seus liames, o desgraado, rebolando, chegara 
beira do rio, na inteno de se deitar  gua, e chegar  outra margem.
F-lo hesitar porm a violncia da corrente e quis ao menos partir as
correias que lhe ligavam as pernas, mas no pde realizar esse intento,
antes da chegada do Pzann.

As labaredas subiam, penetrando as trevas. O voo das aves, que se
aninhavam nas elevadas cimas do arvoredo, cruzava os clares; as
estrelas desapareciam atrs das volutas da fumarada, claras na base,
esbranquiadas depois, sombreadas como nuvens, esburacadas de
perspectivas, profundas como abismos.

Sob a aco do vento, aquilo seguia um rumo, alongava-se em grandes ns
ondulados, abaixava-se, palpitava como coisas vivas, e, nas fases de
extino, produzia o terrvel aspecto da queda de grandes rochedos, de
uma espessa chuva de cinza, de uma slida condensao das trevas.

Dardejantes, as lnguas de fogo ressurgiam purpureadas, ufanas de
vencer. Nas suas contores, levavam a crepitao das fibras secas, as
exploses das seivas aquecidas, e, da sua cumeada, deixavam cair
centelhas abundantes, um tanto frouxas, como pequenas gotas de saliva,
como orvalho de uma clera que se esvai comprimida.

No espelho das guas, tudo se conjugava: as labaredas simtricas e
ondeadas, as nuvens de fumo, e as falhas fictcias, associando-se 
queda das falhas reais.

Quando a rpida fria dos gases em ignio abandonava um moitedo,
levando consigo os finos estofos do vapor, a ramaria esboava as folhas
de um livro mgico, animadas de estranhos hlitos, franzindo-se a
qualquer bafejo da virao, e como atravessadas por ondulaes, ora
luminosas, ora obscuras.

Nas espessuras mais densas, o incndio alimentava-se, rasteiro, lento,
carregado, por baixo de frocos de fumo hmido; depois, crepitava,
rompia, arrojava-se, mordia as pequenas franas, as folhas correadas,
flamejava sobre as ervas secas, lambia demoradamente as grandes rvores,
e, inopinadamente, difundia-se em feixes desacordes, ltima expanso das
suas foras.

Do seu acampamento, atrs das moitas, os asiticos viam arder a ilhota.

A sua situao no era lisonjeira. Debalde procuraram levar os ces a
terceiro assalto. Estavam sem armas,  excepo das do ferido, as quais
cumpria reservar para defesa extrema.

Demais, inquietos quanto ao destino do companheiro desaparecido, e na
perspectiva de se verem abandonados pelos ces, os mais novos julgavam
prximo o seu aniquilamento, e lastimavam o no se haverem confiado 
prudncia do chefe. Este, fatalista, cheio de resignao, no dizia
nada, inclinado para a fogueira, de semblante anuviado de tristezas.

Os outros falaram-lhe humildemente sobre o seu desbarato e sobre a
necessidade de acordo com o inimigo.

O velho ouviu-os, guardou silncio por muito tempo, e depois falou:

--Rapazes, o bom conselho, transmitido de pais a filhos, manda que se
proponha a paz no princpio da guerra, enquanto as hostes so vigorosas
e os destinos incertos, no podendo a proposta significar humilhao;
mas ensina que na hora da derrota,  preciso morrer, para que no caiam
sobre o vencido os sarcasmos do vencedor. Na hora da paz, quereis vs a
guerra, na hora da guerra quereis a paz. Possvel  que o nosso inimigo,
em que tudo revela tino e coragem, prefira a certeza de uma conciliao
aos acasos de um combate final. Talvez o incndio o force a abandonar a
ilha, e, se ele entender que deve falar, falar. Alis, cumpre que nos
preparemos para a vitria, para a morte ou para a fuga.--

A aurora tingia de lils plido o oriente. O incndio, mais intenso e
como receoso de que o dia lhe atenuasse os esplendores, saltava aos
pncaros do arvoredo em labaredas mais altas, mugia como um rebanho de
bfalos atacados por feras, ou crepitava, seco e cruel, em pequenos
estalidos, em pequenos gritos, como bandos ruidosos de gafanhotos
destruidores das gramneas, como legies cidas de formigas em marcha
contra os casais. Os seus claros hlices de rptil cingiam os grandes
troncos, e atingiam as folhas, encarquilhadas desde logo, devoradas
depois, e que se baloiavam chamejantes  brisa matinal, como borboletas
de luz, como enxames de vespas em desordem.

O calor era enorme. Inquietos e sonolentos, os tardgrados iam recuando
sempre para a extrema ponta da ilha.

Vamir, pensativo, contemplava o incndio. Tinha em lugar seguro a canoa
e as armas. lem dormia no seu abrigo. O saguim, despertando ao rudo e
 claridade, agarrava-se s ramarias.

Entrementes, com o destroo dos grandes ramos, lambidos pelo incndio,
as labaredas avultavam mais, descrevendo estreitas curvas, que se
avivavam caindo, e que, no ar, pareciam leves e vaporosas, mas que, ao
tocar no solo, crepitavam asperamente, jorrando cleras de centelhas.

O Pzann desligara os ps do oriental e interrompera o sono de lem, para
que esta lhe servisse de interprete:

--Pergunta a teu irmo,--disse-lhe ele,--se no julga que chegou a hora
de se fazer paz.

--A morte,--disse o asitico,--no me assustaria.

--Sei que s valente,--disse Vamir;--mas no  um fraco aquele que se
salva, salvando seus irmos.

--Os meus no foram vencidos!

--No,--disse o Pzann,--mas so apenas dois, e os ces aprenderam a
temer-nos.--

Seguiu-se longa pausa, durante a qual o asitico meditava.

A alvorada subira um grau.

A cor do lils passara  da turquesa e uma semiclaridade aquosa se
estendia por todo o horizonte do rio; e, nesse horizonte, as rvores, o
cu, as ribanceiras acusavam uma frescura extrema, em confronto com a
vibrante sequido do incndio.

O Pzann sentiu desejos de prosseguir na sua viagem pela face verde das
guas, de continuar a subir o grande rio, e a ver as suas florestas, as
largas desembocaduras de ribeiras, as suas penedias, ouvir o rugido das
cascatas, o leve rumor das pequenas quedas de gua, observar a
correnteza dos rpidos, a sombra dos pequenos canais povoados de
mouches, a claridade dos extensos lveos...

No entretanto, as chamas completavam o seu assamento feroz, palidejando
com a luz nascente, agitadas em lnguas monstruosas, ou disseminadas em
delicados tecidos, aderentes s retculas dos pequenos ramos.

Ao longe, no esconso das florestas, ouvia-se o ladrido dos ces em caa,
o que arrancou o oriental  sua meditao. Viu que Vamir percebera a
ausncia dos ces e a facilidade de um acto de fora no campo inimigo.

--Que queres tu de mim?--perguntou ele ao Pzann.

--Que fales a teus irmos--respondeu este.

O oriental ergueu-se, e, acompanhado de Vamir e lem, caminhou at a
beira da ilha, e soltou a voz de chamamento, conhecida das tribos:

--R-, r-!--

O chefe braquicfalo saiu ento do mato, acompanhado pelo moo vlido:

--O nosso irmo est cativo do homem das regies desconhecidas?

--Est cativo.

--Vem pedir-nos auxilio ou vingana?

--No; o homem do montante do rio pede paz.

--Desligue ele pois as tuas mos, porque  justo que fales dessas coisas
como homem livre.--

O oriental transmitiu a Vamir o desejo do velho.

O Pzann hesitou, por um instante, com o receio de uma traio. Depois,
sem dizer uma palavra, desatou os laos.

O cativo no se mexeu, limitando-se gravemente a erguer os braos acima
da cabea.




XXIII

Regresso


Pelas gargantas das ilhotas e  sombra de rvores, por extensos e
alumiados canais, a barca ia singrando contra a corrente, que as
chuvadas entumeciam. E, enquanto lem e o saguim brincavam ou dormiam na
barca, Vamir remava sempre.

Firmara-se a paz com os orientais. Os ces tinham regressado s ridas
savanas da beira das florestas; e o misero tardgrado terminara o seu
xodo para o Grande Lago.

Os asiticos abriram as veias dos braos, e o seu sangue mesclou-se com
o de Vamir. Em nome das sagradas tribos, o velho enjeitou todas as
ideias de guerra, e Vamir falou de paz, em nome dos grandes nmadas
ocidentais.

Na primavera do ano seguinte, na terceira lua depois do equincio, os
Pzanns enviaro trinta caadores, escolhidos entre os mais intrpidos,
tendo a Vamir por chefe, e aqueles homens viro buscar outros tantos
aliados, dirigidos pelo prudente velho.

Quer o vento encrespasse as guas, quer as crivasse a chuva, cobrindo-as
de pequenas bolhas saltitantes, a canoa vogava sempre para o Norte,
desde a alvorada ao lusco-fusco. O bramir dos cervos, o barrir do
mamute, o rugir dos lees, saudavam a passagem da frgil barca e o homem
adversrio. E ela vogava, vogava, pelas gargantas das ilhotas,  sombra
das rvores, e pelos grandes canais alumiados.

E Vamir pensava nos _comedores de vermes_, na profunda tristeza deles 
hora da separao, nos seus broncos semblantes, no vago latir das suas
risadas, e dos seus queixumes, na gratido infinita dos seus olhares e
na dificuldade com que eles, demorando-se junto de Vamir, se resolveram
a partir.

Do alto de um pequeno outeiro, despediu-se deles com um grito de
amizade, a que corresponderam com a humilde melopeia da marcha. Firmes
na unio fraternal, que era o que os mantinha de p em face do
antropide e das grandes feras, transportavam consigo os seus feridos.

Pelas gargantas das ilhotas, pelos vastos canais alumiados, as semanas
sucederam a semanas, algumas vezes o sol dardejava os seus ardentes
afagos, ou soprava o nordeste, aoite invernal, ou caam lufadas
impiedosas. Era mester ento procurar abrigo nas calhetas, em cavernas
propicias, e perder dias inteiros, at melhorar o tempo.

Mas Vamir tinha o peito cheio de grande orgulho, porque vencera as
ciladas da natureza, a agresso dos animais ferozes, e o ardiloso ataque
dos homens. Parecia-lhe tornar a ouvir, nos lararios nocturnos, o velho
T, de cento e vinte Invernos, narrando o esboroar das montanhas, o
escancarar do solo, a absoro dos grandes lagos em fauces de abismos.

Sentia-se maior que Harme. A histria da sua viagem, referida pelos
ancios, faria palpitar o corao dos moos: surpresas do rio,
perversidade dos rpteis, ferocidade das feras, homens das rvores,
regies novas, homens tardgrados, comedores de vermes, lem... E os
velhos acrescentariam que devia ter sido necessria uma vontade
invencvel, para dominar a nostalgia, o horror das imensas solides!

Ainda os sorrisos do cu, e os rudes aguaceiros, o rio verde ou lodoso,
a corrente mais impetuosa, rpidos e catadupas, e sempre a barca,
empenhada no regresso, com lem folgando ou dormindo e Vamir manejando
o remo...

Sentiam-se prximas as chuvas, as infinitas chuvas. A tribo, refugiada
nas cavernas da alta regio, no deixaria as savanas do Oriente
meridional, antes de meado outono, e Vamir tornaria a ver seus pais Zom
e Namir, seus valentes irmos, e sua irmzinha, que saltava como cabra
montesa. E apresentaria aos velhos, humildemente, a esposa que ele
levava de longe.

Pelas gargantas das ilhotas,  sombra de rvores, e pelos extensos
canais desensombrados, no declinar do perodo madalenico, quando o plo
do Setentrio gravitava para o luzeiro do Cisne...




ndice

                                  Pag.
    PALAVRAS DO TRADUTOR             v
        I. Guerra nocturna           1
       II. A horda                  13
      III. O funeral de Vanhab      25
       IV. A ilhota                 29
        V. O homem das rvores      37
       VI. Contra-anncio           41
      VII. A perseguio            59
     VIII. Noite na floresta        65
       IX. O idlio nascente        69
        X. Combate                  73
       XI. Vamir                   79
      XII. O mamute                 89
     XIII. Entre os orientais      103
      XIV. Reconquista             109
       XV. Reforos                113
      XVI. A chuva                 119
     XVII. Os aliados              129
    XVIII. Os vermvoros           133
      XIX. Na ilhota               141
       XX. Assalto  ilhota        151
      XXI. A derrota               157
     XXII. O incndio              165
    XXIII. Regresso                173





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terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
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the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
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the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
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States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
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with this eBook or online at www.gutenberg.org

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from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
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and distributed to anyone in the United States without paying any fees
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with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
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through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
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liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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your written explanation.  The person or entity that provided you with
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opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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