The Project Gutenberg EBook of Quatro Novelas, by Ana de Castro Osrio

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Title: Quatro Novelas

Author: Ana de Castro Osrio

Release Date: November 6, 2009 [EBook #29968]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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QUATRO NOVELAS




Composto e impresso na Typographia Frana Amado,
rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.




ANNA DE CASTRO OSORIO

QUATRO NOVELAS



    A VINHA.
    A FEITICEIRA.
    DIARIO DUMA CRIANA.
    SACRIFICADA.

COIMBRA

FRANA AMADO--EDITOR

1908




I

A Vinha




A VINHA


Luis sahira para o colegio ainda criana e de l para as escolas
superiores; assim os anos tinham decorrido sem que nunca mais visitasse
a terra natal.

Dez anos, dez longos anos se tinham passado, e s agora voltava, como um
foragido ou como um ladro, que enlouquecido de saudades arrisca a vida
e a liberdade para revr a terra que primeiro conheceu e  sempre para o
homem a mais querida, a mais bela, a melhor de todas.

E--pobre Luis!--era na verdade como um foragido que voltava,
escondendo-se para que o no vissem, envergonhado dessa fraqueza
sentimental que j no ia nada bem com os seus gales de guarda-marinha
e o seu bonito bigode a ensombrar-lhe o labio superior.

E voltava amesquinhado aos seus proprios olhos, elle que se julgava to
importante pelos estudos transcendentes, que seguira com certo brilho,
porque s agora compreendia o sacrificio de cada momento, a luta de cada
hora, o verdadeiro heroismo obscuro e respeitavel que a sua educao
representava na vida da familia.

Compreendia, afinal, um pouco tarde demais para que a consciencia lhe
ficasse limpa de remorso, quanta mentira santa fra preciso inventar,
com quanta delicadeza envolver as palavras, quanta historia arquittar
para que elle aceitasse sem desconfiana o propositado afastamento em
que o tinham conservado durante esse longo periodo de tempo.

Chegara por vezes a pensar, as poucas ocasies em que reparara nisso,
que o desprezavam, que era um pria, que os pais afastavam receando a
vergonha de o apresentarem como seu herdeiro e continuador.

Dizia-lhe a consciencia que tal procedimento no era justo, porque--se 
verdade que no fra nunca um estudante desses que se mostram com
desvanecido orgulho, carregados de distines e premios que esmagam o
proprio dno e irritam os companheiros,-- certo que o curso lhe sahira
limpo, seguido como de empreitada, numa indiferena risonha de quem o
levava com uma perna s costas.

Lembrava-se de pensar s vezes no facto, um tanto irritante, do seu
afastamento sistematico da casa paterna, e pr-se consigo a acusar os
pais; mas  mais leve referencia acudia uma carta de Eduarda, que varria
do seu corao, voluvel e bondoso, a desconfiana cruel.

Era sempre a mesma delicadeza inteligente, procurando as palavras para
no maguar nem esclarecer, fugindo graciosamente duma pergunta mais
nitida, dizendo pouco em longas cartas, que satisfaziam plenamente a sua
ansiedade de momento mas muito deixavam escondido nas dobras duma alma
que se no pode expandir, sob pena de infelicitar os outros.

Eduarda, apenas mais velha dois anos do que Luis, fra desde criana uma
pequena figura simpatica de mulher, dessas mulheres adoraveis sem
deixarem de ser profundamente humanas, ou talvez por isso mais adoraveis
ainda, que tudo compreendem, por tudo se interessam, para todos so a
providencia, o refugio e a esperana.

Quando fra resolvida a sua entrada para o colegio militar, Luis ficara
radiante.  que essa admisso fra o seu maior empenho, a ambio de
largos mses e dias--desde que na terra aparecera, a proposito de
qualquer festa pblica, um regimento de lanceiros, que o tinha
enlouquecido com o seu ar soberbamente marcial e as bandeirolas,
vermelho e branco, a panejarem ao sol.

No pensava noutra coisa seno naquella sua entrada para o colegio em
que todos os alunos so j pequeninos homens, pequeninos militares de
botes reluzentes, barretina, dragonas, e duma compostura grave de
disciplina rgida.

Fazia projectos, contava as peas do enxoval, que a me lhe ia
empilhando na mala, lia e relia a relao das coisas que lhe mandavam
levar e prometia a si mesmo s quebrar o seu, mialheiro de barro quando
tivesse j a farda, para ir tirar o retrato de grande uniforme.

Mas quando chegou o dia da partida e viu  porta o carro em que devia
seguir, os criados arrastando as malas, o pai gritando porque no
estavam as coisas em ordem--e o comboio no espera!--quando viu a me
soluante por vr partir o mais novo, o mais fraquinho, o
preferido--todos o sabiam--o Luis perdeu a coragem. E chorou, chorou
intensamente, num soluar fundo, proprio dessas naturezas impulsivas,
febris, doentias, a que os nervos emprestam uma acuidade dolorosa,
embora passageira, nas sensaes.

E ella, a irmsita, j com a orla do vestido a procurar o cano da bota,
a trana loira cahida pelas costas, o corpo airoso e fino ainda sem o
quebrado das linhas feminis, no tivera lagrimas que correspondessem
quella dr excessiva, nem palavras que consolassem aquella alma desolada.

Sorria at, para esconder uma ligeira tremura significativa no labiosito
ainda criancil, mas o seu olhar era limpido, e a face, ligeiramente
enrubecida, em coisa alguma trahia o esforo enorme de vontade que a sua
atitude representava.  que era realmente heroica aquella criana que
represava as lagrimas, bem naturais no entanto, para encobrir o seu
legitimo desgosto ao vr partir o irmo, o seu companheiro e amigo mais
certo.

Porque Luis e Eduarda eram, mais do que pelo sangue, que tantas vezes
corre desemelhante em filhos da mesma arvore, irmos pela camaradagem no
estudo e nos passeios, nas distraes como nos desgostos, nesses to
maguados desgostos infantis, que todos desprezam e so talvez os mais
violentos e os mais desesperadores de toda a vida.

Mas Eduarda tinha a rara delicadeza de certas almas de exco, que em
si concentram a propria dr e s tm para a dos outros carinho e
consolo.

Se o Luis soubesse o que ella sofria, ficando ali a v-lo partir,
debruado na portinhola da carroagem e ainda a recomendar-lhe as suas
coisas--os animais, as flres, os brinquedos abandonados!... Se elle
soubesse como a pequena sentia j a solido em que ia ficar, naquella
pobre terra sem diverses e sem conhecimentos, ella que no cultivara
mais amizades infantis lm da delle!...

Nos primeiros tempos as cartas amiudavam-se: elle, contando tudo quanto
via de novo e o trazia em contnua sobreexcitao, em duas linhas
sugestivas, sempre apressado por falta de paciencia para escrever; ella,
narrando detalhadamente os pequenos casos domesticos, que tanto
interesse despertam sempre s crianas. Eram recordaes de passeios e
brinquedos, a relao de todas as pessas avistadas, os amigos da casa
que perguntavam sempre por elle, os seus recados, as suas proprias
palavras.

Luis bem o conhecia: eram verdadeiros _recados_ aquelles,--no
banalidades ceremoniosas--que evocavam,  sua recordao saudosa, as
figuras amigas que as enviavam, de longe.

Depois, no fim das cartas, como repique festivo de sinos em vespera de
dia santo, a esperana das frias, a contagem dos dias que faltavam
para essa felicidade to desejada e retardada sempre.

Quando se aproximava esse abenoado ms de setembro e elle j s
esperava a ordem para embarcar no grande comboio resfolegante que o
levaria ao conchgo da familia e ao abrigo das velhas paredes amigas,
que tinham visto nascer e crescer umas poucas de geraes de rapazes
como elle, uma carta vinha preveni-lo de que aguardasse o pai para
seguirem ambos para uma dessas famosas praias do litoral onde um ms se
passa sem se sentir na vida duma criana.

Assim foi passando o tempo: aos anos de colegio seguiram-se os da
escola, sempre despreocupados e alegres, sem que coisa alguma o
preparasse para o martirio incomportavel que estava agora sofrendo, sem
que coisa alguma lhe fizesse supr o doloroso drama, obscuro e
martirisante, que l longe se ia desenrolando lentamente, esmagando com
ferocidade os coraes que tanto lhe queriam...

Tambem, que satisfao, livre de preocupaes, elle teve quando recebeu
aquella carta em que Eduarda lhe dizia, entre coisas ligeiras e
banais:--que tinham resolvido vender a velha casa e o quintal para irem
viver para Lisba. Ficariam assim mais perto delle, quando as suas
longas viagens o deixassem descansar por algum tempo com a familia.
Assim estariam juntos durante todo o tempo em que estivesse em Portugal.

Que alegria a delle! Nem sequer lhe passou pela cabea a lembrana dessa
velha casa, que os abrigara, carinhosa e maternal, como tinha j
abrigado os pais e os avs, e vivia como sr consciente dentro do fundo
da sua alma.

Como Eduarda, querendo poupar toda a mgua ao seu corao mal preparado
para a dr, mostrava bem conhecer essa natureza de amoravel e
sentimental, que um nada arrebata  mais acsa alegria como  mais
desolada tristeza!...

A vida intensa das grandes cidades, que mais a fariam a ella viver
adentro de si mesma, concentrando-a no seu eu, tirava-lhe a elle a
sensao nitida da sua vida propria e, apanhando-o nessa engrenagem
barulhenta e niveladora, dava-lhe apenas as ideias e os sentimentos de
toda a gente.

Agora, com a vinda dos pais e da irm, sentia-se bem feliz para nem
sequer se deter a pensar nos provaveis motivos que tinham determinado
aquella resoluo.

Como estaria Eduarda, que deixara ainda uma criana, tantos anos
volvidos sem se verem? E a me? Dizia-lhe sempre, nas suas cartas, que
se sentia muito velha e doente, mas elle sorria-se confiante e no a via
seno como a deixara, sorridente, laboriosa e desempenada, a alma de
toda aquella colmeia que era a casa paterna.

Com que impaciencia febril esperou o dia marcado para a chegada, e como
logo de manh, ao alvorecer desse dia bemdito, se sentiu outro, alegre
at  loucura de ter vontade de abraar toda a gente, de saltar pelas
ruas como uma criana, sentindo-se leve, surpreendendo-se diferente, mal
cabendo na sua bonita farda de guarda-marinha!

s horas da comida no conseguiu engulir com desfastio os costumados
manjares da velha hospedeira, a quem deu um abrao apertado
prometendo-lhe trazer a familia para que os conhecesse,--havia ella de
vr como eram seus amigos...

E a velha D. Engracia, que tantas vezes se arreliara com _as suas
telhas_, como ella dizia, sentiu que as lagrimas lhe vinham aos olhos
com a comunicativa sensibilidade daquella alma que se escancarava
para lhe mostrar quanto sentia de bom.

Muito antes da tarde j elle se dirigia para o Rocio, na ideia
inconsciente de se aproximar da estao onde os iria esperar, algumas
horas mais tarde.

Falando com um e com outro, discutindo um pouco sem se interessar muito
nas conversas, entrando no Tavares Cardoso para folhear um livro, indo
ao Martinho beber uma cerveja, mastigando cigarros sobre cigarros,
impaciente e febril, mas alegre e falador como nunca os seus amigos o
tinham visto...

A hora chegou por fim, porque todas as horas chegam, por mais doloroso
ou lento que seja o seu caminhar esmagante, como fogem todas, por mais
que as queirmos retardar um instante nos raros momentos que nos trazem
felicidade. Elle l estava, desde muito cedo, esperando na gare,
sentindo o corao bater desordenado, quando ao fundo do tnel despontou
a luz vermelha da locomotiva e o guarda tocou a corneta anunciadora, ao
passar nas agulhas... Depois, que estranha sensao a sua ao vr as trs
cabeas, que resumiam todos os seus grandes afectos, debruarem-se nas
janelas do vago, sorrindo-lhe e reconhecendo-o de longe! E elle,
que s reconheceria o pai, com certeza, se os no esperasse, tal era a
diferena que faziam as duas: Eduarda, uma mulher perfeita, sem nada que
recordasse a criana esbelta que deixara; a me, debilitada e
encanecida, to vlhinha, que no podia afirmar que no houvesse engano.

Oh, mas a vlhinha  que o reconhecia bem, ao seu Luis, beijando-o e
abraando-o com frenesi e achando-o mil vezes mais bonito do que ao
retrato.

Tambem Eduarda o abraou alegremente e achou muito bom, apesar de um
pouco menos forte do que ella, que se talhara e desenvolvera longe da
atmosfra falsificada da cidade, no puro ar criador da montanha.

Chegou tambem a vez da Maria o abraar,--Maria; a criada fiel que os
acompanhara sempre, que era alguem na familia, uma pessa que a todos
satisfazia e com quem todos contavam.

Inolvidavel momento aquelle que os reunia, depois de to grande e
inexplicavel afastamento; encantador de contentamento esse primeiro
repasto, num restaurante trivial da Baixa, para darem tempo a que as
bagagens podessem chegar  casa muito alegre que elle escolhera, com
vistas sobre todo o estuario azul do Tejo, onde a lua entornava,
nessa noite gloriosa de junho, a sua luz branca e leitosa, vagamente
adormecedora...

Luis sentiu-se orgulhoso com os elogios que a sua escolha cuidadosa
mereceu  irm e queria convencer a me de que nada havia que se
comparasse ao esptculo grandioso de toda essa cidade picada de luzes,
estirando-se ao longo do rio, que centenares de pequenos faroes faziam
tambem palpitar e viver, como outra cidade flutuante.

A pouco e pouco, abertas as malas para que tudo fosse colocado no seu
logar, Luis comeou a reconhecer com enternecimento as velhas coisas que
os seus olhos de petiz haviam conhecido e admirado. Foi com alegria
quasi infantil que levou  me a velha caixa de xaro, herana da
avsinha, onde eram guardadas cuidadosamente as pequeninas coisas
preciosas que queriam roubar  curiosidade, nem sempre segura, das suas
mositas de criana.

Uma chavena, uma jarra, qualquer coisa emfim que ia aparecendo, lhe ia
trazendo uma saudade da infancia longinqua e que esvoaava agora na sua
alma como farrapo branco de nuvem distante a dissolver-se num rubro poente.

A me, que um momento ficara s junto delle, chorava silenciosamente,
olhando-o com ternura.

Luis no compreendia--chorar!?... Ento no estava satisfeita por estar
em Lisba, com elle? No viera por sua muito livre vontade?

E ento a pobre senhora, incapaz de por mais tempo o iludir, desejando
mesmo--no egoismo inconsciente dos que sofrem--associar todos  sua dr,
no se fez rogada e disse, disse tudo, tudo quanto de amargurado e
desesperador lhe tinham dado esses anos em que o no vira.

--Fra uma luta tremenda e desigual, essa que o pai sustentara durante
anos, contra tudo e contra todos, sem perder a energia, sem trepidar nem
recuar. Primeiro, ia muito bem nos seus negocios--o Luis devia
lembrar-se... Depois, as fianas, os roubos, a m f de uns, a inveja
mesquinha de outros, abalaram-lhe o crdito, envolveram-no em questes e
demandas, fizeram-no perder uma a uma todas as suas belas propriedades,
as compradas  custa de muito trabalho e as que herdara pessoalmente, e
at a sua propria casa de moradia, quando j nada mais tinha que
desafiasse a cubia alheia, l se fra embora, com o quintal. Sim, esse
fra o ltimo e o mais certeiro dos golpes, que sangrava ainda e tarde
se poderia cicatrisar na sua pobre alma dolorida.

As lagrimas corriam sem parar pelas plidas faces da bondosa criatura,
que assim foi contando, uma a uma, todas as suas dres, no poupando
Luis a nenhum dos incidentes, a nenhum detalhe desse martiriologio
incomportavel de lutar com os maus, os inferiores, esses que acorrem
sempre a lanar a sua pedra quando presentem que a fortuna abandonou os
que ha pouco invejavam.

Luis, calado, ouvia, sem a compreenso bem fixada da realidade, olhando
com uma persistencia dolorosa essa vlhinha que chorava um passado em
frangalhos, e era a sua me, a mesma que elle deixara rica e to feliz
dez anos antes.

--E porque lhe no tinham dito o que se passava?! Porque o tinham
alheado assim de todos os desgostos da familia, como se fosse um
estranho? No era filho como os outros, no devia ser igualmente filho
para as alegrias como para os sofrimentos?...

--Ah, sim! Por sua vontade ter-lhe-ia contado logo o que se ia passando,
mas nem o pai nem Eduarda o consentiram para que elle se no
impressionasse e desviasse a ateno dos estudos, que era preciso levar
ao fim sem uma falta.

Luis padecia naquelle momento uma to insofrivel amargura, que no fundo
do seu corao, humanamente egoista, sentia uma onda de
reconhecimento pelos que o tinham poupado daquella maneira... Devia-lhes
uma pacifica e alegre mocidade, que lhe preparava uma serena vida futura.

Ento, nesse impulso que d a propria revolta em toda a criatura contra
a dr que a esmaga, comeou a consolar a me, consolando-se a si mesmo.

O pai, com o emprego que arranjara numa das principais casas bancarias
que at ao fim o tinham sustentado, sustentando-lhe o seu crdito para a
liquidao voluntaria, ganhava certamente mais do que negociando por sua
conta. Depois, elle no estava ali com tudo quanto ganhasse para lhes
dar, tudo sendo pouco,  claro, para o que lhes devia?!...

E a me sorria por entre lagrimas, numa grande consolao de
apaziguamento, porque a sua dr encontrava abrigo em outra alma que a
lamentava.

--Sim, a situao economica no era de todo desesperada. Dispensariam
apenas o superfluo, a que se tinham habituado, e mesmo esse no
completamente, porque na liquidao grande parte do seu dote podra
ficar intacto.

--Oh, elle compreendia bem que no era a questo material a que mais os
afligia, era a recordao dum longo passado de paz e de desanuviadas
venturas que j ia longe; era a amargura desses ltimos anos em que
todas as suas energias se concentravam em aparentar uma soberba que no
sentiam, em mostrar um orgulho que era feito de toda a condensao
amargurada da sua dr por vrem o egoismo e a maldade dos que ferozmente
lhe espiavam as lagrimas e as deces.

--Elle compreendia bem, finalmente, que o que mais lhe custara fra o
deixar essa casa que representava tanto na vida afectiva da sua ba alma
de sofredra.


Desde esse dia nunca mais Luis perdra aquella ideia, que se tornou uma
obsesso: ir visitar a velha casa e reviver diante das suas paredes, que
lhe falariam do passado, todo o martirio a que o tinham furtado
generosamente. Em vo Eduarda o dissuadia desse capricho do sentimento,
que classificava de criancice; em vo ella lhe dizia que o passado
estava morto e ninguem mais o poderia resurgir; que no havia imaginao
nem vontade humana capaz de fazer voltar atraz o curso da vida, que para
elles se precipitara numa cachoeira desatinada e agora ia deslisar num
mais bello e sorridente campo.

Mas no! Elle fizera desse projecto o seu sonho, o seu misterio de
apaixonado, e iria, sem que ninguem o podesse impedir de o fazer.

A ideia de que a casa que fra o lar abenoado de toda a sua familia j
lhes no pertencia, desvairava-o. Iria, acontecesse o que acontecesse,
num romantico impulso de sentimento--que mal compreenderia quem lhe no
tivesse compulsado os arrebatamentos de apaixonado--evocar todo o
passado e embeber-se bem na dr das eternas e irremediaveis separaes.

Agora, elle ali vinha, como um namorado, revr pela ultima vez as coisas
que j lhe no pertenciam, e que indiferentemente iam tornar-se para
outros as suas coisas, os seus afectos.

Para que viera?--pensava j--porque no se deixara guiar pelos conselhos
da corajosa rapariga que to alegremente ia entretecendo um novo ninho
com os restos dispersos do antigo, desfeito pelo temporal? Porque
viera?!...-- que queria sofrer, ali mesmo, tudo o que tinham sofrido
aquelles que amava.

Fugir a isso parecia-lhe uma covardia excessiva. Imaginava sentir assim,
pelo poder evocativo da sua memoria despertada pela viso, lagrima por
lagrima, desespero por desespero, vexame por vexame, revolta por
revolta, a vulgar mas horrivel tragedia desse incidente numa familia
burgusa.

No vago onde passou a noite, nem uma s vez os olhos se lhe fecharam
num sno reparador. Os nervos em sobreexcitao faziam-no reviver, na
memoria, todas as circunstancias torturantes em que se dra o desastre
final. Sentia uma doentia voluptuosidade em pensar nos tormentos por que
o seu corao teria passado se a elles tivesse assistido.

Os nervos irritados por tantos dias de ansiedade obrigavam-no a
agitar-se numa febre de movimento, um desejo de choro, de gritos
convulsivos, que lhe desoprimissem o peito...

Cada nome de estao gritado monotonamente, cortando na noite arrastada
o sno dos viajantes, era para elle o martelar desesperador do condenado
que assiste ao levantar da sua propria forca.

Em breve, mais um desses gritos ouvidos, a perder-se na noite, e estaria
na linda terra, que revia: toda branca e faiscante nos dias ensoalhados
de vero, varrida pelas nortadas speras da serra, nevada como uma noiva
nas invernias inclementes--com as suas paisagens cristalisadas de sonho;
as suas feiras rumorosas; as ladainhas atravez dos campos em flr, pelo
despertar das primaveras amorosas; as romarias barulhentas, sob um
sol sufocante de cancula... Depois, os descantes; os natais, em que
fra, romeiro piedoso e crente, ao presepe do menino; as _janeiras_,
cantadas  sua porta e em que os versos laudatorios lhe agradavam
sempre; as semanas santas, com procisses na rua, por esse agonisar de
sol doirado em que um Deus assistia  morte doutro Deus...

Tudo isso elle revia, todo esse passado distante se apoderava da sua alma
e o fazia viver por momentos uma existencia, que se no repetiria mais.


Agora, em frente da antiga casa que lhe enchra de sonhos os ltimos
mses de vida, Luis sentia-se frio.

Quizera sentir muito e no sentia nada. Nenhuma comoo, nenhuma dr--na
sua alma gelada.

Nem a casa lhe parecia a mesma--e decerto no era!--cortadas as
trepadeiras que a revestiam de verde e lilaz e que a perfumavam
dcemente com os cachos exoticos das glicinias rxas. At as janelas
tinham sofrido o insulto de serem repintadas de vermelho, e as paredes
estavam caiadas de branco, essas paredes de granito polido que tinham ao
sol faiscamentos de mica e escureciam sem se resentirem das
intemperies, suavemente, como se envelhece sem sobresalto nem luta,
quando se vive sem preocupaes.

J no era a mesma--nada lhe dizia ao seu corao que era a mesma.

Lanou pelas janelas abertas um olhar de indiferente curiosidade para o
interior e ento quasi lhe deu vontade de rir, tanto era banal o
mobiliario que a guarnecia, to charramente burgusa e sem gosto a
decorao que a tornava uma casa trivial de _endinheirados_, de
_adventicios_ sem educao.

Fechou os olhos, concentrou-se por segundos na evocao do passado, quiz
enganar-se a si proprio, mas no o conseguiu; a sua alma quedou-se, por
fim, numa frieza e numa desolao de completo desmoronamento.

Faltava-lhe o quintal; voltou-se para seguir ao longo do muro, deitando
um olhar prescrutador para o pequeno jardim gradeado, que era no seu
tempo um tufo apenas de verdura, e sofrra, como a casa, a influencia
dos novos dnos.

Sim, no quintal ao menos iria encontrar as mesmas arvores, os mesmos
recantos amaveis de sombra, o mesmo perfume saudavel do pomar e da horta
verdejantes.

E seguia, rapidamente, olhando o muro de pedra solta e que era bem o
mesmo que bastas vezes saltara para comer os bellos cachos de uva
ferral de grandes bagos crados.

Isso no mudara, ao menos; era o mesmo que conhecera e lhe fazia lembrar
tantas garotices, tanta alegria passada...

Quando chegou ao alto do caminho descobriu a parte do quintal que menos
estimava, porque tinha sido adquirida ulteriormente, poucos anos antes
da sua ida para o colegio.

Lembrava-se bem de quando o pai comprara aquelle grande campo de
oliveiras e terra centeeira a entestar com o pomar, que sempre tinham
desejado na familia e por teima de camponios rudes lhes no pertencia
desde muito.

Como elle ria, satisfeito, olhando a mulher, muito contente tambem, ao
vr cahir uma a uma as pedras do muro que ia fazer do seu pequenino
quintal uma quintasinha deliciosa, mas que para elles nunca deixara de
sr o quintal.

Luis sentira ento, ao correr pela carreira principal, to comprida que
ao fundo deixava de se avistar a casa, uma sensao de posse, que o
fazia agora sorrir.

Lembrava-se bem como Eduarda estava melancolica naquella tarde de
outno, olhando o desmoronamento que lhe parecia um comeo de
destruio--porta escancarada por onde entrariam todos os
desastres... Presentimentos de alma extremamente vibratil, ou acaso sem
nenhuma significao, quem pode ao certo dizer o que determinados
estados de espirito representam?!

Ali tambem havia mudana... Luis comeou a sentir a ansiedade da dvida.
Tinham plantado vinha nesse campo, que dantes ondulava num verde tenro
pelas primaveras, e pelos veres era um manto de oiro, com as espigas
acurvadas ao pso do gro j maduro.

Entrou pelo fundo do quintal, que no seu tempo tinha apenas um pequeno
muro como signal de posse e agora se alteara numa hiptese de muralha
orgulhosa.

Seguindo pela rua mais larga, ia recordando, uma por uma, as arvores do
pomar. Uma certa pereira que se erguia em roca, toda florida e branca
como fogaa, e era a primeira a amadurecer as suas peras magnificas; uma
rua de aveleiras baixas e tufadas, donde apanhavam s mos cheias as
avels ainda em leite, que eram dum verdadeiro apetite... Depois
lembrava-se dumas certas ameixas, muito rxas e carnudas, que ainda lhe
faziam crescer a agua na bca. E a nespereira imensa que sombreava a
horta, com grande desespero do velho Antonio hortelo... e a enorme
cerdeira, que tinha uma historia engraada, que os pequenos sempre
contavam ao ouvido dos visitantes e os fazia desenhar gestos de nojo, o
que lhes provocava uma esfogueteada de risos!?... E tantas outras que
eram mais conhecidas, como suas irms, que iria abraar piedosamente
numa despedida derradeira.

Se fosse tempo de lilazes, como teria gosto de levar um grande mlho de
flres para a me! Sim, roubaria, porque ao seu inconsciente criterio
isso no lhe parecia um roubo: se o quintal era o seu, o mesmo que tinha
deixado anos antes, que mal poderia haver nisso?!

Apressou o passo at avistar a grande nogueira, plantada no ano do
nascimento de Eduarda, e que j no seu tempo era uma bela arvore que
desafiava a cubia do rapazio que de fra namorava as suas verdes nozes
de ba casta. Se no fosse noite poderia vr no tronco rugoso as
iniciais do seu nome, que Eduarda tinha aberto, na vespera da sua
partida para o colegio.

Mas ao chegar junto  arvore, donde se descobria todo o quintal, no
poude reprimir um gesto de pavr.

Ah, para que viera ali, numa febre apreensiva de lembranas,--para
reviver uma vida que j no existiria mais, para materialisar uma
saudade que j no poderia sr realidade... para qu?!...

Bem lho dissera Eduarda, aconselhando-o a no dar ao passado mais do que
a melancolica e vaga recordao que merece, e lembrando-lhe o dever de
caminhar para a frente, de viver, como ella, uma nova vida mais nobre e
mais cheia de ideais, que a faziam at abenoar esse desastre material
que a libertara de preconceitos e costumes seculares...

Mas elle sofria verdadeiramente e intensissimamente; era uma dr
material como a de lhe cortarem um pedao do seu proprio corpo, ao vr
que tambem o pomar no soubera resistir  mudana de proprietario, na
sua passividade de natureza vegetativa.

Oh, as lindas arvores de fruto, as ruas de plumeiras
decorativas,--inuteis para o criterio mesquinho do vulgo--os crisntemos
estrelados, os lirios rxos, as roseiras j grossas como arvores, tudo,
tudo fra sacrificado ao ignobil desejo do lucro. Tudo desaparecra,
para dar logar  vinha!

Como sofria com tal hecatombe, e como sentia no seu proprio sr os
gemidos doloridos das suas plantas mortas, cujas almas erravam ali sem
dvida--elle ouvia-lhes e compreendia-lhes as queixas esparsas naquelle
ar triste de cemiterio...

Vinha: toda a horta, todo o pomar, o seu proprio jardinzinho cultivado
com tanto disvelo!

Um soluo lhe subiu do peito oprimido, e as lagrimas vieram-lhe, sem
querer, aos olhos ardentes.

O quintal tinha pouca agua, sim, elle sabia isso,--fra at a grande
preocupao da familia--estando numa encosta que declivava dcemente at
ao ribeiro... Mas nunca l tinha morrido nada com sde; pelo contrario,
as arvores desenvolviam-se a olhos vistos.

Todo o desespero das coisas fatalmente irremediaveis o sacudia e fazia
halucinadamente padecer.

A vinha! Como detestava essa planta, de que transformam em subtil veneno
o dce e aromatico sumo do seu fruto, e que estropia mais criaturas e
faz correr mais sangue e mais lagrimas pelo mundo do que exercitos em
campanha!

Como se tornava odiosa aos seus olhos essa planta, que torce
convulsamente para o co os braos descarnados de esqueleto, e como a
desejaria queimar, numa furia vingativa de inquisidor!

Luis amaldioava mil vezes essa planta, que  to estimada, porque
representa a cupidez explorando o vicio.

Diante dos seus olhos, embaciados pelas lagrimas, todos esses troncos
nus se animavam e viviam danando numa roda selvatica de possessos.

Como detestava entranhadamente, sagradamente, a vinha!

No lhe lembrava, por certo, a alegria rubra e ruidosa das vindimas,
quando elles iam todos, pelos poentes fulvos dos lindos outnos da sua
terra, s propriedades de fra, e voltavam atraz dos carros que as
dornas a transbordar faziam chiar doridamente, ora enterrando-se na
areia solta das azinhagas orladas de silvas, ora trambulhando pelas
lages e pedras dos caminhos carreteiros.

Nem sequer recordava o delicado e suave perfume a resda da vinha em flr,
quando na primavera as noites so frescas e os rouxinois cantam pelas
ramarias os lirismos dos seus amres e as romanzas dos seus noivados.

Via smente os esqueletos tristes que tinham expulso as suas arvores
amadas, as suas flres escolhidas, as esbeltas trepadeiras, tudo emfim
que fazia o encanto daquelle pedao de natureza que fra uma parte da
sua propria alma e deixara de existir para sempre.

Luis abraou a nogueira, numa ltima expanso de sentimental, beijou-a
devotamente, como a uma velha amiga que se lhe tivesse conservado
fiel ao corao, e afastou-se lentamente daquelle logar que fra de
martirio para a sua alma, como a msa de operaes dum hospital onde se
amputa um membro infermo.

Ainda de longe olhou para traz, e, num instintivo movimento, tirou o
chapo num ltimo adeus  leal amiga que o vira nascer e fra a unica
que lhe soubera conservar a iluso do passado.

Um adeus, um ltimo e enternecido adeus, e tudo tinha acabado.

Foi quasi com indiferena que de novo transps o muro, sorrindo para o
pinhal que marulhava como as vagas de vagabundo mar, e que era o mesmo
ainda. Esse no tinha mudado.


Quando o comboio se ps em marcha para o internar de novo na sua vida do
presente, depois daquella tentativa de viver pela recordao um passado
sepulto, Luis sentia a impresso estranha de que a terra que deixava no
era aquella em que tinha vivido uma to importante poca da sua vida.

Essa, parecia-lhe ter desaparecido completamente, como se a tivessem
rasgado do mapa e a tivessem substituido por uma outra vila
burguesinha, cheia de sol e de gente palradora e vasia, a mexer-se e a
danar indefinitamente.

Quasi a dormitar seguia vagamente essa gente, ia escutar-lhe as palavras
para rir do mesmo riso banal, e ficava silencioso, sem nenhuma impresso
de alegria ou tristeza.

Depois... tudo se foi diluindo, aos poucos, e adormeceu profundamente,
revendo de novo a terra antiga, com varandas revestidas de trepadeiras
perfumadas, silencios religiosos, as arvores, as casas, os costumes, e a
gente que era dantes...




II

A Feiticeira




A FEITICEIRA


    La peur qui met dans les chemins
    Des personnages surhumains
    La peur aux invisibles mains qui revet l'arbre
    D'une carcasse ou d'un linceul
    Qui fait trembler comme un aeul
    Et qui vous rend, quand on est seul,
    Blanc comme un marbre.

                        MAURICE ROLLINAT.

De todos os rapazes da aldeia era o Manoel da Clara o mais querido das
raparigas.

Fra sempre um belo rapaz de afugentar rivais, mas, desde que viera da
tropa e de l trouxera aquelle ar desdenhoso de feliz D. Joo, aprendido
no convivio dos camaradas presunsos e mulheres de vida airada, parece
que as enlouquecia.

Acostumado a ajustar a farda, como apertava bem a cinta de l preta ou
carmezim, que parecia trazer espartilho, o dmo do rapaz!

Os sapatos com o lustro bem puxado, que pareciam de verniz; o chapo
garbosamente descahido sobre a esquerda; a ponta do cigarro atraz da
orelha; e o leno, com flres e uma legenda bordadas a cres vivas, a
sahir da pequena algibeira da jaqueta, as mais das vezes levada ao
hombro; o Manoel era na verdade a nata da rapaziada do logar.

No meio dos outros, com as suas caras rapadas de lrpas, valentes mas
sem a elegancia dos gestos disciplinados pelo exercicio regular, o seu
pequeno bigode de cidado retorcia-se aos domingos com uma petulancia
irresistivel.

Nas feiras e romarias, firmado no varapau metido debaixo do brao, toda
a vaidade satisfeita a brilhar-lhe nos inquietos olhitos garos,
desafiava toda a concorrencia desagradavel. s raparigas iam-se-lhes os
olhos nelle, e mediam-se com o rancr de rivalidades latentes.

E valento!?--como aquilo poucos! E, como sempre, era a superioridade
material da fora e da coragem o que mais o fazia valer aos olhos de
primitivas femeas, oferecendo-se orgulhosamente ao vencedor, ao macho
forte e soberbo.

Quando o Manoel, com um rapido piparote atirava para a nuca o chapo
mle de largas abas, dava um passo atraz, fazia girar o varapau em
sarilho sobre a cabea, e torcia a bca espumante num esgare de raiva...
podiam fugir delle!

Contavam-se na aldeia as valentias do Manoel com o mesmo entusiasmo e
ufana com que se contariam as de um heroi da historia, um heroi
autntico, de que a tradio nos deixasse o nome e a memoria de largos
feitos.

Uma vez era todo o povo de Infias que se juntara para o desafiar,
raivosos por uma questo de mulheres de que o Manoel era afortunado
protogonista, e que elle _enfiara_ pela serra abaixo--que at parecia
que o vento os levava.

 Manoel, lembras-te?...

E daquella vez na romaria da Senhora dos Verdes?...

E na feira, quando foi da compra dos meus bois?!...

As perguntas, as respostas, as diferentes verses e comentarios,
envolviam o Manoel num cro de louvres, que elle recebia mal
disfarando a vaidade num meio sorriso modesto emquanto ia enrolando o
cigarro entre os dedos fortes onde brilhava um anel de cobra, o encanto
e a inveja dos mais rapazes.

No jogo da bola, ao domingo, no terreiro da igreja, nenhum o excedia,
como ninguem era capaz de o vencer numa partida de chinquilho ou no jogo
do pau. Um valento, um rapaz s direitas, sempre pronto a fazer um
favr, riso franco, corao nas mos para os amigos; ninguem emfim mais
digno da estima dos seus patricios e ninguem que de facto fosse mais
estimado do que o Manoel da Clara.

lm de todos estes merecimentos fisicos, que o superiorisavam, ainda
era senhor de algumas belgas, e unico herdeiro da meao da me, a viuva
do Rezadeira, que ajuntara o seu peculiosito na _casa dos fidalgos_. E
era uma mulher de trabalho, a velha Clara do Rezadeira, que s tinha
olhos e corao para o filho, o seu enlevo e orgulho. Primeiro do que
ninguem, como o galo da manh, saltava da cama, onde a asfixia dum
corao emperrado mal a deixava socegar, e comeava a labuta de todos os
dias: amassando o po, chegando ao forno a prevenir a forneira,
cosinhando a vianda para os cevados, chamando a gente para o trabalho,
despachando servio, ralhando com um, combinando com outro, e sem nunca
perder de vista a panela onde se cosiam as batatas para o caldo verde
que o seu Manoel havia de comer antes de sahir, na sua tigela bem
meada de bra. Mal elle aparecia, ainda espreguiando-se e os olhos mal
abertos mas j risonho e feliz como soberano que se julga crdor de
todos os aftos e homenagens, a vlhota aprontava tudo num pice, rindo
e ralhando num visivel contentamento de quem se revia no rapago, que
era o seu filho.

 claro que no havia rapariga na aldeia e arredores  qual no
agradasse a ideia de poder vir a sr a mulher estimada do Manoel, a
senhora do seu corao e do rico bragal de linho que a velha me
guardava avaramente nos grandes arcazes de madeira de fra, grossamente
chapeados de ferro.

Elle ria-se com todas, o patife, querendo gosar o mais possivel a sua
situao de desejado, sem at ahi mostrar preferencias comprometedoras
por nenhuma.

Mas, entre todas, havia duas que nos ltimos tempos mais preocupavam o
Manoel, com grande contentamento da me que ansiava por o vr casado com
rapariga que fosse do seu calhar:--s assim morreria descansada, pois
uma cabea alevantada como a delle precisava bem do arrimo duma ba
mulher de trabalho.

Por felicidade, as duas raparigas que o Manoel trazia debaixo de vista
agradavam por igual  velha Clara--assim tinha liberdade para 
vontade consultar o corao.

Uma, Maria Tereza--a Terezinha, como lhe chamava quando acertava de a
topar no seu caminho--era afilhada da _fidalga_ e l pelo palacio se
tinha criado com mimos e delicadezas que as outras no conheciam. Era
com uma graa toda senhoril que punha os olhos no cho e enrubecia como
rom bem madura quando elle a fitava de frente, bem de frente, como
fazia s mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas
faz-las explodir em jocundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado
dava um realce de elegancia exotica ao seu corpo delgado de anemica,
flr tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas
impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a unica que na
terra sabia lr, eram tambem os seus os unicos olhos que na missa se no
levantavam do livro para andarem em leilo pela igreja  procura dos
rapazes, que l de longe, e de soslaio, no perdiam o grupo bulioso da
raparigada.

A madrinha queria-lhe muito, era o que todos afirmavam, e se no tivesse
morrido nem a Terezinha sahia do palacio, onde era respeitada como filha
da casa, e, talvez, se a morte no fosse repentina, tivesse ficado
senhora daquella fortuna, quem sabe!?... Tem-se visto coisas mais raras.
E melhor teria sido para a terra, pois a casa dos fidalgos, que fra
sempre abrigo de miseraveis como consolao de desgraados, mal a
senhora morgada fechara os olhos fechara-se tambem  pobreza, com uma
crueldade que revoltava toda a gente.

Os herdeiros, uns primos em ltimo gru legal, souberam da sua morte sem
testamento e acorreram de Lisba em marchas foradas. Mas, tudo
liquidado  pressa, apartaram gulosamente, para figurarem nos sales da
capital, as preciosidades que enchiam e decoravam o velho solar. Durante
alguns dias no se ouviu seno o martelar dos carpinteiros fazendo e
pregando caixotes e no se via seno a moderna condessinha, muito
prtica em antiqualhas preciosas, abrir portas e armarios, percorrer os
sales e os sotos, dar volta s paredes e s bojudas cmodas de
floreados embutidos, que seguiram com os candelabros, as joias, os
quadros e os Svres ricos como os incontaveis Chinas para o sorvedoiro
de Lisba. Depois, mal o Conde, com o seu ar mais chic de fadiga, deu
por terminadas as contas e entregues as propriedades ao feitr trazido
das lezirias ribatejanas como pessa de inteira confiana, fugiram
atemorizados pela tristeza pesada e humida que resumbrava o casaro
quasi deshabitado havia anos, desde que a fidalga se tolhra de todo e
passava os dias nos aposentos mais ensoalhados onde fizera a sua
habitao e a da Terezinha, que lhe lia os autres prediltos e a
arrastava na cadeira de rodas pelas ruas ensombradas pelos buxos
seculares do jardim.

Verdade seja que a Senhora Condessa, sabendo o amr que a velha prima
dedicava  afilhada e a docilidade e o desinteresse com que ella a
servira e cuidara at ao fim, ofereceu-lhe o logar de sua criada de
quarto e obrigou o marido a pr em seu nome algumas propriedades
arredadas ou a arbitrar-lhe o seu valr em dinheiro, coisa duns cem mil
ris, para os seus alfinetes, o que a tornaria na aldeia uma pequena
morgada.

A Terezinha agradeceu cheia de reconhecimento a generosa munificencia da
condessinha, a quem serviu, como ella nunca fra servida, at  ltima
hora que se demorou no palacio. Depois, quando se viu fra do ninho onde
a sua alma se emplumara e o seu corpinho debil de criana pobre crescra
e se tornara de mulher perfeita, sentiu-se como que isolada num vasto
campo deserto.

Mas, sria e ponderada como era, tomou logo a mais acertada resoluo:
indo viver com a tia, a Zfa do Padre, uma que fazia belos dces e
fra por muitos anos ama do velho abade. E para encher os dias, to
longos agora quanto lhe pareciam pequenos dantes a rodear de cuidados a
madrinha paralitica, metra-se a tecedeira. Em breve era a melhor, sem
favr, que havia na terra.

O seu tear, no monotono bater do pedal e correr da lanadeira, s parava
aos domingos e algumas horas da noite.

Aquella vida de recluso mais lhe amaciava a pele e dava um tom
ligeiramente empalidecido s suas feies miudas.

--Mas era alegre dantes!... Agora, _ds_ que o _Manl_ da Clara veiu de
soldado e entrou de atentar nella,  que de mais em mais se vai
definhando, que nem j parece a mesma. Louvado seja Deus, que s
trabalhos e desgostos me chegam _pr_ fim da vida.

Dizia isto a Zfa do Padre  Gertrudes Zarlha, velha conhecida dos
longinquos tempos da mocidade, assentadas  porta, com a roca  cinta e
o fuso girando e torcendo o linho cuspinhado pelas suas bcas palreiras.

--Mas ento aquelle desaustinado no diz nada c  nossa cachopa?!...

--Qual historia! Que eu saiba, ainda no lhe disse fala _pr_ bem nem
_pr_ mal.

--Que desaforado! O que elle precisava sei eu!... Uma rapariga como a
nossa Terezinha!... Crdo, santo nome de Jesus! Mal empregada  ella
para tal libertino, que veiu mesmo perdido da tropa!...

--L isso,  Gertrudes, mau rapaz no  elle, e tem o seu bocadinho...

--Ah, mas tem uma cabea mais leve! No nosso tempo parece que no eram
assim,  Senhora Zfa! Quando algum pretendia duma rapariga, dizia-lho,
e estava acabado, iam _pr_ igreja os banhos!...

--Ora, eu sei l! Haveria de tudo. Estas coisas esquecem muito, e o
nosso tempo j l vai ha tanto!...

--Ai eu c lembra-me perfeitamente, que o meu _home_ assim fez. Foi at
numa cava; calhou eu ficar ao p delle, e fmos ao desafio. Como eu 
que ganhei, elle ento deu-me um abrao muito grande e disse-me
assim:-- Gertrudes, s uma mulher _duma cana_; manh se tu quizeres
vou falar ao senhor abade e _vame-nos a botar os preges_. E assim  que
foi...

--E eu que ainda me lembra do senhor abade vir p'ra casa a rir muito e
a contar o caso  minha tia--que Deus haja! Ainda ella ento andava rija
e _fra_, coitadinha.

--Mas vocemec j l estava, pois no estava?

--Pois estava, desde a idade de oito anos que fui p'r companhia da
minha tia at  idade dos cincoenta em que aquelle santo rendeu a alma a
Deus! Ficou-me nos braos...

--Coitadinho! To bom homem, to srio, era como o nosso pai de todos.
Veja l se tudo no vai a peor! Olhe-me para o desatino em que este anda
por ahi, com as raparigas e as mulheres dnas de sua casa, atraz, sempre
em cantorias, e em rezas novas, que nem podem agradar a Nosso Senhor...

--J o dizia o senhor abade: a religio deve sr a consolao da nossa
vida e no o seu unico fim. Mas essa jesuitada entrou por toda a parte
com este rapazelho do seminario--e bem mal tm j feito e ho de fazer
s familias!... O senhor abade bem dizia, bem dizia... E bastantes
desgostos teve nos ltimos tempos, que lhe amarguraram o resto dos
dias... Coitadinho! Assim Deus lhes perde, que eu no posso trag-los.
At me custa ouvir a missa daquelle avejo--Deus me perdoe se pco!

--E o que me diz s amizades delle com os feitres da fidalga?! Ella
toda _trinques_, caminho da missa logo de madrugada; as filhas de gelas
abertas com as tais _onzenices_ de cantorias na igreja, e mais florinhas
p'r qui, e mais rendinhas novas nas toalhas do altar, confisso a
cada passo... Eu nem sei, eu nem sei!...

--E o marido? Vocemec hade ouvir alguma coisa--est ali  beirinha da
casa...

--Ora o marido!... Tambem gosta muito daquellas coisas, e reza e canta
e leva o padre p'ra casa a jantar e a tomar o ch, as mais das vezes.

--_Eia!_--vivem como fidalgos!

--Aquelles grandes excomungados! No tempo da fidalga, graas a Deus
ninguem batia quella porta com fome que no trouxesse uma
consolaosinha; agora nem um chavo! Tudo querem para elles, aquelles
ladres!... Parece que ainda estou a vr a Terezinha ir a correr contar
 fidalga e vir logo com uma abada de po ou de fruta, ou umas
batatinhas, ou uma tigelinha de papas e o bocadinho de carne!...

--Pobre Terezinha, to mimosa foi da madrinha e agora to triste a vejo!

--Mas aquelle maroto no lhe dizer nada  o que me d no gto!...

--Elle passa por ahi s tardes, e ri-se para ella... Quando vai a
alguma romaria sempre lhe traz uma prenda e um cravo com um verso _bem
calhante_, mas nada mais! Ella ento  uma tla pelo rapaz! Mas
quando o v faz-se encarnada como um pimento, pe os olhos baixos,
e nem sequer o salva.

--Ora essa! Tem sua graa, tem!

--Eu nem posso explicar isto. Que a minha Tereza--no  por sr minha
sobrinha--no  de engeitar...  a melhor cachopa c da terra.

--Ora isso, nem se fala! Compara-se l! Basta saber lr e tr a
_inducao_ que teve.  a flrsinha da nossa vila.

--Pois isto d-me cuidado, d! E no  pouco... A pequena s me tem a
mim no mundo, e eu estou velha e cansada; queria-a vr arrumada antes de
fechar os olhos. E com o _Manl_ da Clara do Rezadeira gostava, l isso
gostava: a me  rapariga do nosso tempo, e elle tem alguma coisa de
seu, e no fundo no  mau rapaz. Mas ento!... Parece bruxaria.

--Ai senhora Zfa, no pnha mais na carta. Isso hade sr, hade! E no
 mais nada seno coisas daquella atrevida da Maria do Prspero! Aquilo
sempre fram de m raa. At o pai... hade saber! No?! Pois eu lho
conto. Crdo, santo nome de Jesus! Cada vez que me lembra at os cabelos
se me pem em p. O que aquelle malvado disse de mim, que sempre entrei
em casa da fidalga, que Deus tem, com toda a franqueza!...

--O que foi ento?

--Ai no sabe?! Aquele grande diacho, Deus me perde! Ento no disse
elle que eu  que chupara o morgadinho, o filho da senhora fidalga!?
Aquella aventesma!... Nem que eu no soubesse!... Bom, calo-me, que 
melhor...

E mudando de tom, muito confidencial e amigavel:

--Posso dizer-lhe de certeza: a Maria do Prspero conversa com o
_Manl_ e parece que o traz enfeitiado. Olhe que lhe ouvi eu dizer--que
primeiro estava ella, que j o namorava ha muitos anos, ainda antes de
elle ir para a tropa, e que nunca a _lesma_ da Terezinha o havia de
apanhar! Desculpe, senhora Zfa, aquilo  uma atrevida, uma doida!...
Pois de que raa ella !...

--E o que  certo  que vai levando vante o seu intento; tem artes do
demonio!...

--Deixe estar, deixe estar... Eu sei c umas coisinhas que hode voltar
o _Manl_, oh se hode!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe
pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e
dizia a orao...  coisa certa.

--A Terezinha tem um leno que elle lhe deu, mas fosse l falar-lhe
nisso!... Toda se zangava, no acredita nestas coisas...

--Pois so bem verdadeiras...

--O outro dia ensinei-lhe que cruzasse as pernas mesmo de p quando a
atrevida da Maria passar por ella... Desatou a rir!

--Ah, isso  uma coisa certa para livrar do mau olhado de quem nos quer
mal. Sabe o que era muito bom? Era fazer  pequena um defumadoiro com
hervas colhidas na manh de S. Joo...  o alecrim, o funcho, a
dedaleira, o rosmaninho, o sabugueiro... Se quizer, eu tenho l.

--Muito obrigada. Assim ella quizesse!... Bem se fazia um defumadoiro
que a livrasse daquelle enguio.

Assim continuaram em conversa larga, cheia de combinaes e reticencias,
que muito as interessava, emquanto a Terezinha dentro de casa trabalhava
na teia branca, que parecia sempre a mesma, eterna como as suas mguas.

O tear monotonamente fazia subir e descer os _pentes_ com um barulho
sco e igual, emquanto ella levantava a sua vzinha agradavel de soprano
numa toada melancolica:

    --Eu heide amar uma pedra,
    Deixar o teu corao;
    Uma pedra no me deixa,
    Deixas-me tu sem razo.

E ao dizer a quadra, que parecia sahir-lhe do proprio corao, os olhos
enturvecidos de lagrimas fitavam a estampa ingenua que elle lhe
trouxera da Senhora do Castelo, a grande romaria de setembro.

Todos os anos l ia--era o costume--e tambem a Maria do Prspero, que
punha nos ranchos um contnuo esfusiar de gargalhadas terando
galhardamente com os mais afamados _piadistas_ as armas perigosas da
chalaa e da resposta  letra.

Cantavam ao desafio, ella e o Manoel. Tinham fama por todas aquellas
redondezas, e, mal as suas vozes se trocavam num principio de duelo, os
auditores cercavam-nos e apertavam-nos num crculo de admirao
excitando-os com risos e partes.

Tambem era o par certo em todas as romarias--talhados um para o outro!

A Maria era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fra
brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A
bca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras,
e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delicia no po de milho,
sua unica escva.

As saias, rodadas em balo, faziam-lhe mais altas as ancas j de si
redondas e fortes; o cabelo, em duas tranas pregadas, enchia-lhe a
cabea como uma touca de veludo negro.

Quando punha o cchen vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o
chale em bico traado deixando livre o brao esquerdo, a chinela branca
pespontada na ponta do p, nenhuma como a Maria do Prspero para
arrebanhar admiradores.

Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expanso dos seus vinte anos
sadios, vividos em plena natureza.

Nas ceifas, ao ardr dos ses caniculares, mangas arregaadas mostrando
os braos trigueiros e musculosos; ou no gesto mecnico de juntar as
paveias e sobraar os mlhos, tinha a harmonia escultural e grave duma
Cres fecunda.

Nas vindimas, era a primeira dos ranchos, vermelha do msto que corre
como sangue generoso, a bca escancarada em risos e cantigas... Tinha um
aspecto quasi tragico e uma beleza perturbante e assustadora de bacante.

Pela apnha da azeitona, quando os campos amanhecem brancos da geada que
toda a noite cahira manso e manso, tudo uniformisando sob a sua alvura
de sudario, e o frio corta as mos, que se _engatinham_, e entorpece os
dedos que mal se podem dobrar, ella motejava de todos, sempre na frente,
cantarolando e rindo, enchendo de nimo os mais desanimados,
encorajando os mais entanguecidos pela friagem.

Sempre pronta para o trabalho, a Prspera, em todas as sfaras e com
todos os tempos!

Mas, tambem, no faltava s romarias e s feiras das cercanias, com o
seu leno berrante, o casaquito branco engomado a capricho, e a sua
alegria saudavel, que fazia bem vr.

O Manoel no resistia quella fora que chamava a sua fora, quella
exuberancia de mocidade que atrahia a sua mocidade. Quando a via, nem
sequer pensava na Terezinha, que se ia finando lentamente ao compasso
triste e monotono do seu tear caseiro.

E, no fim de contas, para falar a verdade, a Maria era tambem uma ba
rapariga, que nunca tivera outro conversado. Nem havia lingua danda de
velha de soalheiro que se atrevesse a debicar nos seus crditos. Alegre,
sim; rir com todos, v! Mas atrevimentos no os consentia a ninguem. E
tinham-lhe respeito--que a sua mo era lsta, e um sopapo da Prspera
no era brincadeira!

S o Manoel gosava da sua confiana e s com elle tinha as suas _graas_
e brincalhotices mais livres, o que mais o afervorava naquelle amr
crescente que o ia conquistando dia a dia.

 noite, nas esfolhadas, quando o luar  mrno e as flres tm um
perfume mais intenso, corriam um atraz do outro, batiam-se fortemente, e
cahiam s vezes sobre a palha ainda quente do sol, com um cheiro sco
que entontece.

As gargalhadas seguiam-nos de todos os lados da eira, as chalaas
cruzavam-se no ar como morcegos de pesado e estonteado bater de
azas:--Eh l, Maria, v se tens mais fora do que elle! Isso  que era
um riso, o valento deixar-se bater por uma mulher!...

--Talhados um para o outro--isso  que no havia dvida, nenhuma!

--A Zfa do Padre que se deixasse de querer casar a sobrinha com o Manoel.

--Ba rapariga, l sobre isso no havia duas opinies; mas a Maria 
que estava a calhar para um homem de trabalho, uma mocetona daquellas
que era capaz de voltar um campo ssinha.

Os homens votavam pela Maria, bela mulher para tudo e forte como uma
torre. As mulheres, essas eram pela Terezinha, delicada e amavel, pondo
sorrisos de aquiescencia onde a outra s tinha ruidosas gargalhadas de
troa.

Era ella que lhes talhava e cosia  mquina, sem paga, as chitas pobres,
mas apesar disso to dificilmente compradas, e lhes ajustava os
coletes de linho grosso que to irmanados lhes erguiam os seios at 
ras do clo:--Ora, sempre era _outra loia_! Podia l comparar-se! Bem
se via que tivera outra criao, l em casa da fidalga, que a tratara
como filha.

--Que elle gostasse della, v! Agora da Maria, uma cachopa como as
outras!...

O Manoel, ainda indeciso, mas j a inclinar-se para a Maria, irritava as
mulheres que se ofendiam com a insolente alegria da rapariga, que andava
radiante com o seu ar de triunfo certo.

A velha Gertrudes Zarlha vivia sobre brazas, nos ltimos tempos.

Com meias palavras ou redundancias enigmaticas conseguia sobresaltar o
corao do rapaz, mas no desvi-lo duma paixo que se harmonisava
inteiramente com o seu modo de sr moral e fisico.

--Casar com a Maria--dizia a velha  bca cheia--era at um
pecado!...--e benzia-se com gestos de apavorada, que no explicava mas
punha de sobre-aviso as consciencias timoratas.


Por uma noite de vero, sinistra pelo negrume de nuvens carregadas de
eletricidade e prometedoras de fortes aguaceiros que toldavam o co,
voltava o Manoel da Clara da vila proxima onde assistira  feira.

Um calr asfixiante pesava como chumbo no abandono pungente da paisagen
lugubre. Os pinheiros esguios tinham um murmurio mais triste e vago,
como soluos suspensos de almas em pnico, e o olival verde negro
destacava-se no fundo, apertando como num cilicio doloroso a pobre terra
que se dependura de fraguedos rudes, sempre ameaada pela montanha que a
cavalga e lhe limita o horizonte, cortando-lhe toda a esperana de se
expandir por ali, como o pecado vla e corta toda a esperana da alma
piedosa...

O Manoel, que tinha ficado um pouco para tarde, conversando com uns
amigos na taberna do Geitoso, vinha assobiando alegremente, caminhando
despreocupado e sem grande pressa.

Ao passar pela _Fonte do Inferno_... diabo!... que ouviu elle?! Um rumr
confuso de gargalhadas, que aflavam no ar como grasnar longinquo de
corvos...

Mdo?.... Elle no tinha mdo, mas desde que acontecera aquella historia
da casa dos Carneiros... _Crdo! Abrenuncio!_

--E no se benzeu, o Manoel, como lhe cumpria fazer, ao lembrar-se de
coisas daquellas!... A tropa  que estraga os rapazes, est visto...

Agora, as gargalhadas j soavam mais perto... diria mesmo que ouvia a
Maria do Prspero.

--Mas naquelle sitio, quella hora!... Quem se atreveria?!...

--Em casa dos Carneiros,--lembrava-se involuntariamente--aquelle barulho
de cadeias a arrastar, os ferros em braza que vinham cahir aos ps da
gente da familia, o vozear sinistro que se escutava em toda a aldeia e
trazia apavorados os mais valentes... Deus do co, que terror fra na
terra toda! J ninguem dormia nem descansava. Muitas mulheres tiveram
ento _espiritos_ que os padres e os _bentos_ esconjuravam, e se batiam
com elles como foras iguais.

--S depois que o senhor Vigario velho se resolveu a sahir, de capa de
asperges, para benzer a casa endemoninhada,  que tudo socegou...

O Manoel j no assobiava, e ia olhando de soslaio para o Camboro,
pedraria escalvada suspensa por milagre sobre o abismo e que a toda a
hora parece desabar e soterrar as pobres casas de pedra solta tisnadas
pelo tempo.

Um ventito picado e quente levantou-se ento, trazendo o rumr distinto
de vozes, gritos surdos e gargalhadas abafadas...

O Manoel era destemido; apesar da m fama do sitio, tido como logar de
maleficas reunies diabolicas, resolveu-se a transpr o pequeno muro que
separava o caminho da _Fonte do Inferno_, a propriedade de mais
estimao dos velhos fidalgos.

Primeiro, no viu nada; depois, vaga e confusamente, luzinhas que
saltavam e atravessavam-se corriam e perseguiam-se, juntavam-se e
tornavam a afastar-se...

Um calafrio lhe percorreu o corpo e sentiu na espinha dorsal uma
sensao desagradavel que o fez tremer. O Manoel era valente,--nisso no
podia haver dvida!--mas  que aquilo que via to realmente como se 
luz do sol olhasse as suas proprias mos eram as feiticeiras, tal qual a
sua me as tinha visto tambem quando em pequenino esteve ameaado de sr
chupado por ellas...

Entre curioso e medroso--j agora no sahiria dali sem vr o que aquilo
era.

Acercou-se da eira onde a ronda sinistra era mais febril...--Jesus, que
coisa horrivel!--Olharapos corriam vertiginosamente, que mais pareciam
voar, na noite negra, com o seu unico olho flamejante no meio da testa,
lanterna magica das profundezas do averno!...

Um lobis-homem passou a galope, no seu fado triste, procurando alma
christ  qual podesse, antes da meia-noite, entregar a sua cruz
martirisante. Se elle o tivesse topado!... At os cabelos se lhe punham
de p.

As luzinhas continuavam correndo algeras, voando na escurido dura da
noite.

Surrateiramente foi-se aproximando da eira onde chamejavam em halucinado
rodopio... A pouco e pouco ia-as distinguindo na sua frma humana,
girando buliosas e grrulas.

No meio da roda--cruzes! como podia aquilo sr?!...--o Diabo passeando
altivo, vestido de encarnado e de chapo guisalhante, poisando os ps de
forquilha sobre as cabeas das feiticeiras, que riam sarcasticamente.

Dessa vez o Manoel no poude deixar de rir, to patusca lhe pareceu a cna.

Ah! mas quando elle viu com os seus proprios olhos--to certo como haver
a luz do sol que nos alumia!--adiantar-se uma das luzinhas e, tornando
rapidamente  sua figura de mulher, aparecer-lhe a Maria do Prspero,
tal qual ella!... E quando a viu chegar ao p do _homem vermelho_,
estender-lhe os fortes braos rolios e trigueiros, abra-lo com ardr,
no poude retr um surdo grito de raiva.

Aquelles braos, que s o pensar nelles lhe fazia febre; aquella mulher,
que o trazia prso havia tanto tempo e com a sua honestidade alegre
e simples conseguira o seu respeito e o seu amr, estava ali em frente
delle abraando outro! E esse outro--Deus do co, que at a sua alma
tremia!--esse outro era o proprio Diabo em pessa!

Tremia de desespero e horror por essa criatura, que no passava afinal
duma feiticeira.

Uma tremura nervosa e um frio de gelo o faziam vibrar todo. O sangue
subia-lhe  cabea, punha-lhe zoeiras nos ouvidos, halucinando-o.

As luzitas recomearam a dansa, numa _farandola_ de _sabbat_, correndo e
saltando, num delirio de gargalhadas frias como entre-chocar de ossos
numa dansa macabra.

Ao Manoel parecia-lhe que tudo dansava  volta delle, que elle mesmo se
sentia voar num rodopio de entontecer. Agora o Diabo, sentado num trno
luminoso de feiticeiras, os ps de bode torcidos e negros a descansar
sobre o formoso corpo de Maria, como se fosse um estrado, lia um grande
livro de capas encarnadas. A cada folha que voltava, sahia uma nuvem de
diabitos fantasticos, saltitantes, folgazes como gartos ao sahir da
escola, que iam juntar-se s feiticeiras, e tudo corria, voava, num
cabriolar estonteante e doido.

Uma das luzes aproximou-se ento do Manoel, que ficara empedrado na
contemplao da cna que o atordoava e lhe tirava toda a sensao da
vida, e rapidamente se fez mulher. Ficou boquiaberto, pois a bruxa era
nem mais nem menos do que a Gertrudes Zarlha, a velha amiga e
confidente da Zfa do Padre.

Se tivesse pensado melhor no se teria espantado tanto, pois essa era
tida e havida por tal desde que o compadre Marques, o alfaiate, a
encontrara feita galinha, l para as bandas da vila, arrastando aps si
uma ninhada de frangas, as discipulas que ia exercitando pela noite
alta. Admirou-se:--uma galinha to tarde fra da capoeira!?--e dando-lhe
com o metro partiu-lhe uma aza. Logo a Gertrudes tornou  sua frma
natural e lhe pediu que se calasse, pois em paga do seu silencio lhe
daria todos os anos uma camisa nova.

Mas o que  certo  que toda a gente soube do caso, sob segredo, e elle
nem por isso deixou de receber anualmente a ba camisa de pano de linho.

A Gertrudes quedou-se diante do Manoel: feia e engelhada, a bca vasia
de dentes, o cabelo esbranquiado e crespo a fugir do leno de chita,
uma cavidade vermelha no logar do olho direito perdido no se sabia por
que desastre.

--Ai, Manoel, pobre rapaz, desgraado!... Se o Senhor te visse, estavas
perdido neste mundo e no outro!...

Elle olhava-a emparvecido, numa confuso labirintica de ideias, que no
explicava nem compreendia.

--Ouves, Manoel?--continuava a velha bruxa.--Eu sou tua amiga, no te
quero vr perdido. Olha, escuta, toma sentido no que te vou dizer: O
_Senhor_ vai perguntar quem corre mais, para lhe entregar a caldeirinha
que veiu hje do inferno para a nossa missa. Tu hasde dizer que corres
como o pensamento, agarra nella, e foge. Corre quanto podres! S
estars em segurana agarrado  corda do sino da igreja, depois do galo
preto romano cantar pela terceira vez depois da meia-noite. Corre, corre
quanto podres, e livra-te de olhares para traz, oias o que ouvires,
sintas o que sentires. Ainda que te chamem pelo teu nome, no olhes nem
pres,--olha que depende dahi a tua salvao e a tua vida!

Afastou-se saltitando, outra vez luzinha, a misturar-se com as outras na
dansa macabra.

O Manoel ficou estarrecido, mas o proprio mdo lhe deu energia bastante
para responder com segurana  pergunta que o _homem vermelho_ fazia
em voz to formidavel e soturna que toda a natureza estremeceu de pavr
e os corvos no visinho cemiterio grasnaram agoirentamente.

Tendo gritado, no meio de vozearia geral, como lhe ensinara a Gertrudes
Zarlha,--corro como o pensamento!--agarrou na caldeirinha magica que
estava no meio da roda e desatou a correr com quanta fora tinha, em
diro  igreja, cujo campanario singelo donde pendia a corda do sino
era agora a sua unica esperana de salvamento.

Mas, fosse porque o conhecessem pelo andar ou fosse por penetrao
diabolica e subtil, o que  certo  que, logo que voltou costas, uma
grita ensurdecedora lhe chegou aos ouvidos. Sentiu-se perseguido por
toda uma canalha de demonios, frias vsgas e feiticeiras esguedelhadas,
pequeninos trasgos e enormes gigantes, que ardendo em sde do seu sangue
e da sua alma christ lhe corriam no encalo.

Via-se quasi perdido, sentia-se quasi agarrado por enormes braos
descarnados e com unhas aduncas e enclavinhadas, que se lhe cravavam na
carne como tenazes... Chamavam-no pelo seu nome, ouvia coisas pnicas, e
ora o insultavam com palavras que se desprendiam como pedradas de funda,
ora o seduziam com promessas tentadoras.

E dizia mesmo que essas vozes sedutras, que se misturavam s outras
brutais e agressivas, eram ditas pela bca vermelha e fresca da Maria...

Mas, fiel  recomendao da Gertrudes, corria numa nsia ofegante, num
desespero de loucura. Na cabea enfebrecida duas unicas ideias se lhe
espetavam, como navalhas agudas:--a Prspera abraando o _Senhor_, como
lhe chamara a Zarlha, e o campanario humilde onde estava a sua salvao.

No compreendia nem via mais nada, e nada mais lhe interessava no mundo.
Mas chegaria a tempo de poder agarrar a corda do sino antes do galo
preto romano cantar pela terceira vez  meia-noite?!...

J as pernas lhe fraquejavam, a cabea andava-lhe  roda, e os gritos
satanicos, que mais e mais se avisinhavam, davam-lhe a certeza do seu
triste fim, se no conseguisse chegar.

Mas j estava perto--num ltimo arranco, estava salvo!

Se fosse vinte passos mais longe no poderia resistir. Quando deitou a
mo  corda do sino, que deu na noite negra uma badalada lugubre, o galo
preto romano soltava pela terceira vez a sua voz clara e sonora de
espancar vises e pesadelos.

Um gargalhar surdo e um rumr de maldies e pragas perderam-se no ar,
emquanto o Manoel cahia pesadamente no cho, agarrado ainda  corda do
sino que tremia nas suas mos crispadas. Ao lado tombara a caldeirinha
tilintando numa vzita escarnicadora.

Para quem duvide do caso, l est ella na igreja matriz, da pequena
terra triste, cortada na rocha bruta, estrangulada entre pinhais
melancolicos e oliveiras de folhagem eternamente sombria.

L anda ella, cheia de agua benta, tilintando sempre a sua vzinha
escarnecedora e fantastica, acompanhando enterros de cavadores tisnados
que na terra encontram o seu unico repouso, e criancinhas frageis que
vo para o co aspergidas com a agua benta da caldeirinha infernal...

L anda, muito serena, orgulhosa do seu metal desconhecido forjado nas
profundezas ardentes do mundo sobrenatural, a acompanhar o senhor
vigario na visita anual em dia de Pscoa alegre e florda:--Bas
festas, bas festas, santas festas!, sorri no seu arzinho petulante.


De madrugada, quando os homens iam para o trabalho, encontraram o Manoel
ainda desmaiado, agarrando-se  corda do sino como nafrago a tboa
salvadora.

Levaram-no para casa, alvorotando toda a vila com o extraordinario caso.
A Clara de Rezadeira,--coitada!--mal viu o filho, o seu Manoel,
estendido como um cadaver sobre o leito de cabeceiras embutidas, para
onde os homens o atiraram j cansados da caminhada com semelhante pso,
ia morrendo tambem, sufocada pelo sangue cujos impetos o pobre corao
mal podia regular.

Mas o mestre barbeiro afianou a cura para breve, dando uma picadlasita
no brao do rapaz--que era de humr muito quente, e apanhara algum golpe
de sol l pela feira.

A febre sobreveiu e teve-o entre a vida e a morte, dias e noites ardendo
num fogo de que o delirio e a agitao eram o corolario logico. O que
elle via, os sonhos e os pesadelos que lhe enchiam a pobre cabea
enfebrecida, mal o compreendiam os seus enfermeiros. E todo aquelle mal
se agravava e a agitao chegava ao delirio furioso dum louco se por
acaso a Maria do Prspero chegava  porta, a pedir noticias ou a querer
ajudar a tia Clara nos arranjos domesticos.

Ninguem podia compreender tal horror  rapariga, nem ella, que se
consumia e chorava sem consolao por vr a mudana brusca do seu
Manoel.

Quando se levantou estava plido, cambaleava, e uma tristeza
profundissima lhe encovava os olhos.

No primeiro dia em que sahiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a
Gertrudes Zarlha, que encontrou sentada  porta da casa, fiando e
conversando com o gato preto gordo e pesado, seu unico companheiro e amigo.

O Manoel no esteve com ceremonias, foi direito ao fim. Contou  velha
tudo quanto tinha visto na _Fonte do Inferno_ quando viera tarde da
feira, e exigiu explicaes completas sob a ameaa duma sva se ella no
quizesse dizer a verdade.

Ao principio a Gertrudes indignou-se, ps as mos no peito, jurou a sua
inocencia e negou que fosse feiticeira.

--Na _Fonte do inferno_?!

--O Manoel que no sonhasse em tal--_crdo!_ _cruzes, canhoto!_ Fra
aquelle patife do Prspero que levantara aquella calnia e dizia a quem
o queria ouvir--que fra ella quem chupara o filho da fidalga...

Mas o Manoel atalhou:--no negassse a Senhora Gertrudes; tinha-a elle
visto, ora essa! Querer dizer-lhe que no era verdade uma coisa que elle
mesmo vira, com aquelles mesmos olhos que a terra havia de
comer?!... Demais, no tinha nada com a sua vida nem o contaria a
ninguem, pois at lhe estava muito agradecido por o tr ensinado a
livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a
verdade--sobre a Maria do Prspero. Seria ou no certo t-la visto
abraar o _Senhor_?... Seria ou no certo o sr ella feiticeira a
valer?! Podia tr-se enganado... podia-a tr confundido com outra... s
vezes, e como foi ao longe...

Era a ltima esperana, e a ella se agarrava com todo o afinco de quem
no quer perder uma dce iluso.

E pensava, horrorisado, que aquilo poderia sr verdade e teria que
deixar de pensar na Maria, agora que a paixo por ella chegara ao
halucinamento, hesitante entre o amr e o odio.

Quanto daria para que a Gertrudes lhe dsse a certeza de que os seus
olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a tr na Maria a
confiana que tinha dantes; pod-la levar para a sua casa, como ainda na
vespera lhe dissera a me, que morria pela rapariga--to trabalhadeira,
to desembaraada e ba... No tinha nada, mas isso o que importava?
Ella, a Clara do Rezadeira, no se importava nada com isso e
aconselhava-lhe a que escolhesse antes uma rapariga de trabalho do
que uma com dinheiro, que nada vale quando d em mos que o no sabem
guardar nem aumentar.

Como elle esquecia, evocando a formosa rapariga, a plida Terezinha, que
lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e
monotono do seu tear!...

Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco comeou a dizer tudo;
primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se,
contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manoel.

Era certo e mais que certo sr a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que
aprendera, mas j a consideravam das mais finas e das mais queridas do
_Senhor_.

--O lobis-homem que tinha visto--mas isso em grande segredo, porque
tinha medo de levar alguma sva--era o Prspero velho. Andava com o fado
ha tantos anos! No tinha sorte nenhuma, coitado!

Que de historias lhe contou, e elle ouviu pasmado, vencido por aquella
verdade irrefutavel:--a Maria era feiticeira!

A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidencia:--Ora
essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que no era mulher capaz
para um homem de brio e de honra.

Tinha-lhe odio, o odio implacavel das velhas criaturas despresiveis aos
que tm a insolencia da alegria, da juventude e da beleza. E ento,
depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do
rancho, que no queria estar ao p della porque lhe podia dar quebranto
ou chup-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes no a podia
tragar.

--Se fosse com a Terezinha,--continuava convencedora--com essa era de
sua aprovao. Uma rapariguinha to recolhida, sem uma _nota_, sem ms
palavras para ninguem, e sempre to ba, to condoda! Mesmo um anjo do
co!

O Manoel calava-se, abismado no seu desgosto, no podendo seguir-lhe a
tagarelice nem dizer uma palavra que lha fizesse estancar. De quando em
quando, uma palavra ou outra feria-lhe o ouvido, chamando-o  realidade,
aos repeles, sobresaltando-lhe ainda mais a alma amarfanhada.

Por vezes j a imagem da Terezinha, com a sua esbelteza delicada, o seu
vestido escuro de luto aliviado, o sorriso maguado da sua bca virgem de
beijos, se comeava a esboar na sua memoria. Via-a crada como a rom
quando acertava de lhe dirigir a palavra, sofredora e resignada quando o
sabia mais prso pelos encantos de Maria; lembrava-a fugindo arisca
da porta para o espreitar da janela, mal assomava ao cimo da rua com os
seus ares triunfantes, bamboleando-se com a importancia de janota de
aldeia.--Coitadinha! Gostava tanto delle! Emquanto esteve doente, nunca
ella deixou apagar a lampada  Senhora do Castelo...

O Manoel afastou-se por fim--a velha j o enjoava com as suas historias.
E, ao sahir dali, pensava com funda melancolia em todo o passado
extinto, nessa alegria radiosa que no voltaria mais. Da sua vida, to
profundamente abalada, nem a si mesmo sabia dar conta.

Quando subia vagaroso e preocupado a rua estreita e ingreme, os seus
olhos poseram-se com sobresalto na Maria do Prspero, que caminhava em
sentido contrario, cabisbaixa, os braos cahidos ao longo do corpo, os
olhos pisados postos no cho, o fato em desalinho de quem perdeu o gosto
e a garridice.

Que mudada estava! Nem parecia a mesma,--no a reconheceria por certo
fra dali.

O rapaz, olhando-a, sentiu subir-lhe do largo peito um soluo doloroso.

Meteu-se na sombra duma porta e deixou-a passar, avergada ao pso da
tristeza e do remorso do seu pecado sinistro.

Estremecia de horror como se a visse ainda na noite demonaca, cuja
lembrana o perseguia como uma ideia fixa de monomanaco.

Como podia ser feiticeira uma rapariga to linda, to alegre, to
sincera?!...

Mas era-o, tinha a certeza, porque a vira abraando o _homem vermelho_
de negros ps de forquilha, e porque a Gertrudes lho afianara havia
instantes.

Todo o pavr daquella noite tragica o tomou de novo, e involuntariamente
evocou o _sabbat_ infernal:--as luzinhas bailando, entrechocando-se, e
afastando-se num compasso rtmico; as gargalhadas que soavam como
crucitar de corvos; os olharapos correndo, com o seu unico olho a
furar-lhes a testa; os lobis-homens galopando, no seu fadario triste;
avejes, diabitos galhofeiros, lmures, trasgos, duendes, feiticeiras,
e, sobre tudo, como ferro em braza a causticar uma chaga, a recordao
da cna em que a Maria abraava o _homem vermelho_ e lhe servia de estrado.

Era de endoidecer!

Quando despertou desse pesadelo de acordado, j a Maria ia longe,
andando lentamente, acurvada pelo imenso desgosto de vr o Manoel to
diferente do que fra, e sem razo nenhuma que ella lhe dsse!

Se ao menos soubesse explicar o motivo porque to cruamente a repelira
durante toda a doena, quando ella passava as noites sem se deitar,
sempre pronta  primeira voz,--uma verdadeira filha para a Clara do
Rezadeira, que j lhe queria como tal!...


Alguns mses depois, os sinos da antiga igreja matriz repicavam
freneticamente mostrando o entusiasmo do sacristo pelo casamento do
Manoel com a Terezinha da Zfa do Padre.

A noiva ia radiante, mais linda do que nunca. Os olhos brilhantes, os
labios ardentes, as faces ligeiramente cradas pela felicidade
inesperada que a chamava  vida, quando ia j caminhando para a morte,
ao compasso monotono do tear subindo e descendo no contnuo trabalho.

Satisfeito e feliz, tambem o Manoel ia, triunfante, com o seu fato preto
de pano fino, o seu chapo lustroso, a sua fina camisa engomada a
primr, ao lado da noiva--uma santinha do altar!, dizia a Gertrudes
benzendo-se.

Tambem elle se sentia alegre e despreocupado, sem pensar na pobre Maria
do Prspero, que curtia ssinha, num desespero trvo e sem remedio, a
sua derrota miseravel.

Quando a Gertrudes Zarlha comeou a espalhar o que se passara, o que
vira o Manoel na noite em que viera mais tarde da feira, por se tr
demorado a conversar com uns amigos na taberna do Geitoso, a Maria teve
um violento acesso de clera, uma rubra indignao, que estava na logica
da sua forte e sadia natureza. Quiz bater na velha, que fugiu
espavorida, gritando-lhe que fosse perguntar ao Manoel--e elle lhe diria
tudo quanto vira...

E ella fra logo, forte da tranquilidade da sua consciencia, certa de
que elle estaria ao seu lado para a defender de to absurda acusao...

Mas quando ouviu da bca delle a confirmao dos ditos da velha, quando
elle lhe atirou com despreso o epteto de _feiticeira_, sucumbiu. Ficou
quieta, a olh-lo pasmada, sem encontrar uma palavra para se defender,
cheia de dvidas e de desnimo... Sem a confiana do Manoel, o que podia
fazer?!

E desandou dali, com grossas lagrimas a rolarem-lhe pelas faces, e um
aperto na garganta que a estrangulava.

Fechou-se em casa; e, sem ninguem que a consolasse, nenhuma alma
compassiva que a ajudasse a levantar daquelle abismo em que a propria
consciencia desaparecia sob a sugesto alheia, rebolou-se pelo cho,
rasgou o fato, atirou contra as paredes a cabea que sentia perdida e
desvairada, soltou gritos que lhe despedaavam o peito, at que,
exausta, ficou como morta no meio da casa. Ao voltar do trabalho  que o
pai a levou para a cama, limpando, num repelo,  camisa suja de suor e
poeira, uma lagrima que teimava em rebolar-lhe pela face encarquilhada e
dura.

--A sua pobre filha, a alegria da sua vida--em que estado a encontrava!
Maleitas ou mau olhado, espirito ruim que lhe entrara no corpo e j a
no largaria...

Quando voltou a si, pesou bem a desolao da sua vida, e chorou toda a
sua esperana, a sua alegria como a sua mocidade exuberante que tinham
fugido espantadas diante daquella noite negra e sem fim.

.........................................................................

Emquanto os sinos cantavam na manh clara, de sol radioso e co azul em
festa, as alegrias do casamento da Terezinha com o Manoel da Clara, a
caldeirinha magica tilintava o seu risito escarninho e macabro e todos a
consideravam com admirao e respeito pelo sobre-natural.

A Maria, agora feiticeira conhecida e apontada por todos, j no canta
nem vai s romarias.

Nos trabalhos do campo, as mulheres e as crianas afastam-se della
apavoradas, e os homens, lamentando-a, no tm coragem de vencer esse
pavr.

Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros,
que vagueiam inquietos, num mdo doentio e tragico.

Atormentada de vises, mordida de maus olhados, mses inteiros prsa de
delirios histericos, sente-se, na verdade, transportada nas azas do
vento para sitios ermos em que luzinhas saltitam em rondas buliosas,
lobis-homens passam em cavalgadas doidas para se irem espjar nas
encruzilhadas sinistras, moiras encantadas tecem em teares de oiro
contando as saudades antigas da sua vida humana, e olharapos, duendes,
lmures e trasgos povam as noites horrificas de _sabbat_.




III

Diario duma criana




DIARIO DUMA CRIANA


Creio que no  bem exto o titulo que escrevi no alto da pgina. Isto
no  verdadeiramente o _Diario duma criana_, no , mas sim a minha
vida toda recordada dia por dia, hora por hora, com uma preciso de
factos e sensaes de que o Chico muito se admira.

Decerto no sou muito velha--fiz em maro vinte e dois anos--mas, assim
mesmo, elle acha extraordinario como os episodios da minha infancia se
me fixaram na memoria to vivamente, e os posso recordar com tanta
nitidez, como se a minha alma tivesse a receptibilidade mecnica de um
fongrafo.

No pensei nunca em escrever; sei, to pouco, que nenhuma novidade pode
trazer ao mundo a minha prosa descuidada e frouxa.

Fui sempre pouco estudiosa e nenhuma honra dei aos meus professores. O
Chico, que  um sbio,  que me disse, uma tarde, resumindo toda uma
longa palestra em que eu lhe contei os mil incidentes de vida estranha
em que o meu pobre espirito se debateu at chegar  dce paz da nossa
felicidade de hje:

--Se tu escrevesses isso tal qual o contas, fariamos um belo estudo de
psicologia infantil!...

Eu, que adoro o meu Chico, no o queria desgostar, mas escrever tudo
quanto sentia, tudo quanto me lembrava tr sofrido, parecia-me to
dificil!... Vida toda feita de sensaes e estranhzas de carter, quem
poder tr interesse em conhec-la?!

Oh que coisa to custosa de realisar, este desejo, quasi imposio, do
Chico!...

As minhas memorias so leves fios de aranha que no servem para urdir e
tecer utilmente uma slida obra caseira.

Escrever o _Diario_ da minha infancia, eu que nunca tive paciencia de
rabiscar cartas muito grandes--a no sr para o Chico!...

Depois, sei unicamente escrever o que sinto, e os escritres--dizem--no
fazem assim. O Chico sente os versos que faz to lindamente, mas esse...
oh esse  outra coisa!

Por muito tempo discutimos, mas, como o senhor meu marido 
adoravelmente teimoso e eu no sei ainda contrari-lo, deixei-o ir uma
noite destas ao teatro, recusando-me a acompanh-lo a pretexto de ter
sno, e quando voltou, eram duas horas da manh, entreguei-lhe o
manuscrito, que leu sem descansar, tal qual o mandou imprimir logo no
dia seguinte.

Isso  que me custou!... Porque, depois de o escrever duma s vez, e sem
hesitar diante duma unica palavra que no correspondesse ao meu
pensamento, deixando correr a penna nervosamente, em galopada doida,
quando as recordaes vinham em monto, chamadas umas pelas outras, numa
lufada de quasi vertigem, sempre imaginei que elle emendaria aquilo e
lhe daria uma frma mais corrta.

Mas--qual historia!--o querido _infame_ teve o descaramento de se rir na
minha cara e de me responder:

--Que se o emendasse estragaria tudo!

Foi assim que sahiu, tal qual o escrevi, numa hora de febre.


Chamo-me Raquel. Creio que este nome  hereditario na minha familia,
porque a minha av e a me da minha av eram tambem Raquel. No sei.
De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.

O mais longe que posso recordar na minha existencia humana, vejo-me feliz.

Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode
desejar uma criana acostumada  simplicidade da vida campestre.

Os pateos eram habitados por uma multido de animais domesticos, que nos
conheciam bem, de tanto milho que s escondidas lhes deitavamos.

Eu era a mais velha, e os meus quatro irmositos seguiam-me alegremente
pelos campos fra, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defso,
nem parede que no tivessemos escalado, nem arvore que no conhecessemos
como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as arvores se
cobriam de prometedoras flres, e antes, muito antes da familia os vr
em casa, j ns tinhamos feito a nossa primeira esclha. Quando a nossa
pobre _burrica_ descansava do fatigante trabalho da nra, iamos
desamarr-la da manjedoura, saltavamos-lhe para cima, e fazamo-la
trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um _pur-sang_ trotaria
nas avenidas areadas dum luxuoso parque.

Felizes tempos!... Mas, no fim de contas, eu era uma rapariga; s vezes
lembrava-me disso, e nem sempre estava disposta a fazer de general no
exercito _fraternal_.

Muitas vezes mesmo, o instinto do meu sexo pedia-me brincadeiras mais
socegadas: queria _governar casa_, _sr a me_, exercer a minha
atividade de mulher trabalhadeira e que conhece o seu logar. Chamava
ento as pequenas da minha idade e brincavamos _s dnas de casa_:
improvisando os nossos lares em qualquer recanto do jardim, servindo de
baixela fragmentos de loia, _cosinhando_ ptalas de flres e hervas que
tinhamos mais  mo; indo ao tanque lavar a roupa das bonecas, _as
nossas filhas_; carregando a agua com a cantarinha em equilibrio sobre a
_rodilha_, no alto da cabea; tendo as nossas disputas e conversas como
viamos s _senhoras visinhas_, l no povo. Ralhavamos com os _homens_,
os meus irmositos--porque entravam tarde, andavam por l com os amigos...

Na aldeia no havia meninas _finas_, e ento arranjara as minhas amigas
e companheiras nas humildes filhas dos nossos caseiros e serviais.

Tinha os seus modos desempenados, os seus gostos simples, e, apesar
disso, no me parecia com ellas!

Sempre me hade lembrar o que escandalisava meus pais quando afirmava
perentoriamente: que de todas as casas da vila proxima, onde as havia
muito bas, era a mais humilde de todas a que mais me agradava.

Cuidaram que era uma perverso do meu senso esttico, mas vendo-a ha
pouco, j depois de mulher, confesso que no mudei de opinio.  que
sentia intuitivamente o pitoresco que os nossos artistas andam hje
procurando com tanto afan...

Na verdade a casinha trrea, construida sobre a rocha onde tinham cavado
os degraus, com seu alpendre e o seu p de videira a ensombr-lo, era
duma originalidade, na sua singeleza primitiva, que me encantava.

Nunca, como tantas crianas na minha idade, me lembrei de imitar a mam,
as tias, ou as senhoras das nossas relaes. Nada! S procurava sr
aquilo que nunca conseguiria, por mais esforos que empregasse.

Melhor fra que tivesse conseguido o meu desejo e ficasse como as outras
raparigas da minha aldeia: uma perfeita camponeza, cheia de saude e de
alegria, sem mais cultura do que a dellas!...

--Meu Deus! A delicada ternura do Chico compensa-me de muitos desgostos
passados, abre-me um caminho largo a uma existencia toda inundada de
sol; mas, quando penso em quatro anos da minha existencia, sinto em mim
uma to grande repercusso de dres passadas, que no sei quanta bondade
lhe ser precisa para mas fazer esquecer!...

Emquanto eu suportei todos os tormentos que uma pobre criana pode
sofrer, sequestrada de tudo quanto lhe rodeou e acariciou os primeiros
anos; emquanto o meu espirito, sacudido pelas lutas mais violentas,
angustiado pelas mais sombrias dvidas, se abria  compreenso duma vida
que dizem superior; emquanto o meu corao aprendia na dr os infinitos
cambiantes dos sentimentos complicados; a Rosita, a Maricas, e a
Anninhas da mstra--as queridas companheiras da minha infancia--cresciam
e faziam-se bas e laboriosas mulheres, cheias de vida e saude, sem
incompreenses mortificantes do seu proprio corao.

Quando ellas me viram voltar  aldeia, tristemente grave, empalidecida
pela dr, adelgaada pelos anos, o trajar cuidado de quem no desconhece
os preceitos da elegancia, no compreenderam as lagrimas que bruscamente
me vieram aos olhos e correram impetuosas pelas faces, como vaga
interior vencendo todos os diques.

Imaginaram--as pobres!--que eu tinha saudades das amigas de Lisba e as
desprezava a ellas. Oh no, mil vezes no! Tinha uma pungente saudade do
tempo em que o meu espirito, no fatigado, se comprazia nas suas
conversas simples, e em que os seus gostos naturais eram tambem o meu
gosto.

Chorava desesperadamente a minha alegria, para sempre tocada de mal
incuravel; tinha desprezo--e muito--por essa educao que me roubara
quatro anos de vida feliz e proveitosa, dando-me em troca uma ignorancia
mais completa do que a sua! Porque as minhas amigas e companheiras de
infancia sabiam muita coisa util, e eu apenas me podra convencer de que
no sabia nada--o que  altamente desconsolador.

Como j disse, durante a infancia considerei-me feliz. A minha me era
bondosa, como muita gente o , porque assim tinha nascido, pela mesma
fatalidade psicologica que a podia tr feito nascer uma criminosa. Mas
juntava a essa inconsciente bondade muita justia e bom-senso.

Cuidava escrupulosamente do amnho interior da nossa casa, no deixando
as criadas levantar mo dos servios, com uma disciplina que invejariam
muitos instrutores de recrutas. Rezava as oraes obrigatorias de cada
dia; cabeceava  bca da noite, antes de se acender o candieiro para
o sero; e depois de espertar era a ltima a deitar-se em casa, depois
de vr todas as portas e apagar todas as luzes--no, fsse o inimigo
sonso que se lhe metesse algum ladro em casa, ou as raparigas se
descuidassem com o lume! De manh era a primeira a madrugar, para a
mesma labuta de todo o ano,--que era afinal a de toda a sua vida.

De sabedorias para si, importavam-lhe pouco, mas queria-as para mim, que
no seu entender devia tornar-me uma verdadeira _menina educada_: tocando
piano, ataviando-me com geito de quem sabe, que no privasse com as
_raparigas da rua_, que lsse romances para tr umas luzes de historia,
que bordasse a matiz e a escama de peixe ou a casca de castanha,
cantasse ao piano em francs ou italiano, soubesse, emfim, estar numa
sala...

Duma to grande infelicidade que a unica filha tinha modos de rapaz,
detestava o piano, adormecia a lr os mais pateticos romances, e fazia a
cabea doida ao padre Jos, que nos dizia a missa na capela da casa e
toda a semana carregava com a pesada cruz de nos iniciar nos misterios
da lingua portugusa.

Ralhavam comigo, mas, por mais que ralhassem, no conseguiam fazer-me
compreender a possibilidade de estar perfilada numa cadeira a
receber as visitas na sala, como via as filhas do recebedor e as do
medico da vila quando vinham  nossa casa. Francamente, abominava as
adoraveis meninas, que ficavam com sorrisos murchos ao cimo da escada,
recusando-se a seguir-nos  quinta com mdo de estragar os lindos
vestidos  moda, esses vestidos aparatosos, cheios de fitas e rendas,
que usam na provincia as meninas ricas.

Eu, que era uma selvagem incapaz de tolerar um colte justo ou umas
botas apertadas, que pedia para que me cortassem o cabelo para no
sofrer os penteados, que s gostava dos vestidos depois de afeitos ao
corpo pelo uso, olhava com verdadeiro assombro aquellas meninas modelos.

s vezes, a minha ba Maria Augusta tentava apertar um pouco os cordes
do colte,--para me tornar elegante--mas eu protestava to
energicamente que tinha de desistir logo, dizendo-me arreliada:

-- menina,  preciso sofrer para sr formosa!

--Pois sim, espera por essa... Eu nem quero sofrer nem quero sr formosa!

Uma vez levantei-me cedo, estava uma manh gloriosa de inverno, deste
inverno to nosso, em que o azul do co  limpo, puro e transparente
como se fabricado fsse pelo mais escrupuloso dos artistas e da mais
preciosa das porcelanas.

Em casa apenas as criadas traquinavam na cosinha, encetando a labuta do
dia, e a Maria Augusta abria janelas e portas para a limpeza do
rez-do-cho.

Acordara cedo; a chilreada dos pardais madrugadores era o meu despertador.

O sol comeava a aureolar o cume dos montes, e, como a nossa casa ficava
ao cimo dum vale, depressa me inundou o quarto duma luz rosea que enchia
de alegria os meus olhos e me fazia cantarolar e rir ssinha, como se
estivesse no maior divertimento.

E vesti-me  pressa, com grande abundancia de gestos, batendo na agua
fria, que atirava para a cara com as mos em concha, satisfeita e feliz
como se uma alma nova despontasse em mim.

Em baixo, a Maria Augusta e as outras criadas festejaram o meu sorriso
jubiloso, a minha madrugada feliz.

Correndo para o pateo, comecei por dar liberdade a toda a capoeira que
ainda permanecia fechada, por soltar o Tigre que os criados j tinham
acorrentado  sua grilheta diurna, e fui  estrebaria vr a nossa ba
Cacilda, a burra, que me cumprimentou com um zurrar festivo.

Iniciando assim o que a Maria Augusta chamava irreverentemente a srie
dos meus disparates, no parei no principio, o que seria prova de pouca
independencia de carter... Desprender a Cacilda e traz-la para a
horta, para que ella podesse saborear  vontade as couves que o velho
hortelo guardava avaramente dos seus dentes de apreciadora, pareceu-me
a coisa mais natural do mundo.

Depois, ella bem almoada, e naturalmente to alegre como eu e como o
Tigre, que a seguiamos satisfeitos de a vr escolher uma a uma as mais
tenras folhas da horta, achei tambem natural, como um simples remate de
tal festa, que fssemos dar um passeio at  mata.

Chamando a Cacilda, acariciei-lhe o pescoo, dei uma volta  corda na
mo, e dum pulo fiquei-lhe montada sobre o dorso como um rapaz.

Um pequeno assobio ao Tigre preveniu-o da minha resoluo, e ahi vamos
ns todos trs, alegres e felizes, porque o co estava limpido e o sol
brilhava, porque o ar era puro e os campos reverdeciam numa jovialidade
de primavera proxima.

A meio da carreira sobreveiu-nos um obstaculo inesperado, na vera pessa
do bom padre Z, que j voltava das suas arvores em cata do almoo,
e fez estacar a Cacilda com os seus gestos e gritos indignados.

--Para onde vai a menina assim montada?!

--Dar um passeio  mata.  para abrir a memoria e o
apetite--respondi-lhe a rir.

--Mas isso no so modos de menina bem educada!--apostrofou-me aflito.

--Eu no sou _menina_, nem _bem educada_!--retorqui-lhe numa gargalhada.

--Se a mam sabe!....

--No lhe diga nada, que eu j volto.

E, dando um sinal  Cacilda, partimos a galope, deixando o bom do padre
no mais profundo pasmo.

Agora so os medicos os primeiros a preconisar s senhoras essa maneira
de cavalgar, e no tardar que a moda a impnha como a ltima palavra do
_chic_. Como a razo  intuitiva e se faz sentir na inteligencia liberta
da criana!

Mas  volta  que fram ellas! Tinha levantado um verdadeiro temporal de
protestos e queixas com os meus tos, to espontaneos e naturais quanto
me pareciam humanos e justos...

Pois no seriam elles meritorios: abrir as prises, soltar os presos,
dar de comer aos que tinham fome, e em seguida premiar-me a mim
mesma indo passear?!

No o entenderam assim em casa, l porque as galinhas tendo encontrado
aberto o porto do quintal tinham acabado a destruio da horta, que a
Cacilda encetara com tanto brio! O hortelo parecia doido e a minha
pobre mam benzia-se assustada, temendo que eu tivesse o diabo no corpo.

Fui chamada ao escritorio, quelle escritorio de paredes revestidas de
velhos livros onde o meu pai recebia os caseiros, fazia a sua
escriturao, e lia, a maior parte das vezes, os seus in-flios mofentos.

O caso era realmente grave, mais do que poderia presumir, para que assim
se tivesse apelado para a autoridade paterna...

Assentado na larga cadeira antiga, de coiro lavrado e braos abertos num
carinhoso afto, onde elle descansava as suas finas mos de intelectual,
diante do pesado bufete de pau santo torneado em trs cordas, como um
juiz austero, o meu pai admoestou-me severamente por tanto disparate e
terminou por dizer:--que me tornava o escandalo da familia e assim no
podia continuar...

E como esta outras muitas fiz, que no acabaria se as fsse a contar
todas.

A mam queixava-se da minha extrema ignorancia e incapacidade de sr
apresentada diante de gente, o que o meu pai corroborava dizendo por seu
turno:--sr absolutamente preciso, e muito urgente, mandar vir uma
professora que tomasse conta de mim e me sujeitasse a uma disciplina de
ferro.

--Que no, isso que no!--acudia a minha me--no queria estranhas
metidas em casa a vrem e a ouvirem tudo quanto se faz e em pouco tempo
a saberem mais da nossa vida do que ns proprios. Nem a gente pode falar
 sua vontade, nem tr as suas coisas, porque emfim no ha casa que as
no tenha, sem que tudo se saiba e se comente... Depois, ceremonias,
_niquices_, exigencias... nada, isso no!

--Pois  o unico meio:--opinava o pap triunfante--uma senhora que lhe
fale uma lingua estrangeira e que a sugeite a um regimen invariavel.

--Nada, um colegio  ainda o melhor; mete-se l a pequena e fica-se
livre de cuidados.

Meu pai hesitava,--tinha l as suas ideias contra os internatos--e estou
em crr que me preferia ignorante, como a _Zfinha da horta_ ou a
_Teresita do barbeiro_, a tr que me mandar para um colegio.

Os meus irmositos todos se afligiam quando se ventilava a magna
questo, que os ameaava da minha ausencia, e eu, sem bem saber o que
preferia, ia gosando alegremente os dias na bela paz da minha aldeia
florda e ensoalhada.

Mal suspeitava que a desgraa estava a bater-me  porta--e mais terrivel
do que podia imaginar! Parece-me estar a vr entrar na cosinha de grande
chamin, onde se enxugava o _enchido_ e as castanhas secavam no
_canio_, a mulher dos recados que fra  vila buscar o correio, e me
dizia, alviareira:

--Olhe, menina, aqui vem uma carta para a mam.  do seu tio Manoel; j
lhe conheo a letra.

Muito alegre, arrebatei-lha das mos e fui-me pela casa fra a gritar
pela mam at dar com ella no celeiro a receber uma _penso_. Lembro-me
bem--_cincoenta e sete!_--gritava o caseiro, e a mam, muito serena, ia
apanhando um gro de milho por cada alqueire que o homem despejava na
tulha. Quando entramos--eu e os meus quatro irmositos--como se fssemos
uma revoada de pardais bulhentos, ella toda se agastou...--Como isto me
ficou nitido na memoria!--Quando viu de quem era e o que dizia a carta,
correu toda satisfeita em busca do marido, emquanto ns
aproveitavamos a falta de vigilancia para saltarmos todos para dentro do
milho. Eu, que era a maior, enterrava-me at  cinta nos gros amornados
e enchia os bolsos do meu bibe branco, para levar uma lembrana ao
pombal. Um dos pequenos gritava que as suas botas, de canos muito largos
por trem pertencido ao mais velho, levariam mais dum saco de milho,
para a rao suplementar da Cacilda.

Riamos perdidamente, atirando uns aos outros aquella chuva de gros
muito scos, ainda cheirando a campo e ao sol das eiras onde se aloirara
e brunira!

O caseiro achava muita graa aos meninos--podra no!--e na sua cabea
lanzuda esboava-se, talvez, o pensamento finrio de se enganar na conta
com alguns alqueires a menos.  provavel que assim sucedesse, porque a
carta do tio Manoel tinha transtornado por tal frma a mam, que at se
riu quando nos veiu encontrar a todos aninhados dentro do milho, e no
passou revista s nossas algibeiras quando saltamos para fra e nos
safamos com presteza--no fsse ainda cerceada a merenda que levavamos
aos nossos protegidos da capoeira, do pombal e da estrebaria!

J fra e ainda ouviamos a contagem dos alqueires que entravam para a
tulha, arrastada e monotona. Os bois, jungidos ao pesado e primitivo
carro de duas rodas, estacionavam no quintal, ainda carregados com os
sacos cheios com o resto da _penso_, guardados por uma criancita
vestida de jaqueta, calas compridas e grande chapo, como um pequeno
homem de caricatura. O que ns rimos! Era o filho do caseiro, o
_Tonito_, mais novo do que o mais novinho dos meus irmos, mas j util
como uma pessa crescida.

So assim os filhos do nosso povo, duma sujeio ao trabalho que os
predispe para uma longa existencia paciente, sofredora e productiva.

Como esse foi o ltimo dia feliz da minha infancia, no me esqueceram
nenhuns destes detalhes, nem o cheiro  poeira do milho e aos queijos da
Serra da Estrella, que secavam em tbuas prsas ao tto do celeiro por
cordas isoladas com tstos de barro, por causa dos ratos, providencias
caseiras da minha me.

Desde essa luminosa tarde de outno, ainda quente como se o sol cahisse
a prumo, num estiramento inesperado de estio, e j perfumada pelos
frutos maduros, que se recolhiam  pressa, e pelo msto de cheiro forte
que ferve nas dornas ainda antes de recolher ao lagar, a nossa casa
transformou-se completamente. Eram s conferencias sobre o que se
daria aos _manos_, e mais os lenois bordados, a coberta de damasco para
a cama, as toalhas de linho com ricas franjas de renda de Peniche...
Tudo quanto havia de melhor se levava para _o quarto da laranjeira_, o
mais vasto e cmodo da casa, o proprio quarto de meus pais, que tudo
achavam pouco para receber condignamente o mano Manoel, que voltara
havia pouco tempo do ultramar, casado com uma estrangeira. E assim
passaram oito dias em que se no pensou nem falou noutra coisa.

A minha me fazia esforos de memoria por se recordar bem nitidamente
dos traos fisionomicos do irmo, como se volvidos tantos anos gastos em
trabalhos e fadigas, elle podesse tr ainda o rosto levemente rosado, o
buo mal lhe sombreando o labio superior, a cabeleira negra ondeada que
lhe davam um to gentil aspto no retrato em _daguerreotipo_, tirado
quando assentara praa em cadete, e que ns no nos cansavamos de ir vr
 sala de visitas, no seu estojo forrado de veludo granada.

At o Padre Jos afroixava a sua vigilancia pelo nosso estudo e punha-se
ao dispr da mam--para o que fsse necessario. A minha me sorria
benevola e agradecia, mas no o ocupava em coisa alguma, porque elle,
muito forte no portugus e no latim e mesmo um tanto no francs,
tirado disso s  msa, diante duma travessa cheia de aorda, ou no
pomar podando e cuidando das suas queridas arvores, era homem de alguma
utilidade.

Um santo, o nosso bom professor! Que saudades delle eu tive depois,
quando comparava a sua maneira to lhana de ensinar, a sua ingenuidade
de bom, respondendo meio comprometido s nossas curiosidades
extemporaneas, e quando se atrapalhava  nossa pergunta atrevida:

-- padre Z, para que est sempre a falar no diabo?

Era o costume delle, o seu _bordo_.

-- verdade--respondia-nos muito ingenuo-- um diabo duma mania que eu
tenho de estar sempre a falar no diabo!...

Um bom homem, afinal de contas; um santo velho, nada fanatico, de bolsa
franca para todas as miserias, palavras de consolao para todas as
lagrimas, espirito bem equilibrado e muito logico, um filsofo sob a
aparencia dum slido camponez. Conseguira que eu aprendesse da minha
lingua aquilo que ainda hje sei; conseguiria--era capaz!--ensinar-me
talvez o latim e at a ajudar-lhe  missa. O que no faria desta sua
rebelde discipula a paciencia beneditina do bom Padre Jos!

O tio Manoel era irmo mais velho da minha me. Sahira de casa muito
novo; a ltima vez que empreendera a incmoda viagem  aldeia, era
apenas cadete, como tirara o retrato. Depois fra para a Africa, na
nsia de ganhar honras e postos. De l percorrera quasi todas as
possesses ultramarinas, sem mais se lembrar de escrever  familia. S
havia pouco tempo mandara noticias participando tr casado, e dizendo a
sua resoluo de voltar em breve ao reino.

Alguns mses mais tarde, nova carta dava conta da sua chegada a Lisba,
onde estava tratando de se instalar, e convidava a irm e cunhado para
irem fazer-lhes uma visita. Na ltima carta, aquella que tanta impresso
causara em todos ns, dizia:--que, em vista da dificuldade que os meus
pais opunham em deixar a casa, viria elle visit-los e apresentar a sua
senhora.

No dia em que deviam chegar, logo de manh nos envergaram os fatos
domingueiros, recomendando-nos muita cautela--no fssem os tios
julgar-nos uns besuntes!

Nesse dia era escusado o _lembrete_, pois nenhum de ns pensava em
diabruras, ansiosos como estavamos por vr chegar os hospedes.

O Pap partira cedo para a vila, para esperar a diligencia que traria os
viajantes, e ns subimos s janelas mais altas a vr se
descobriamos o carro por entre as faias da estrada real.

L para o meio dia descobriu um de ns uma nuvem de poeira ao longe--tal
qual como no Barba Azul--e, logo depois, ouvimos o guizalhar da
diligencia que j se avistava numa volta da estrada. Corremos
alvoroados a prevenir a mam, que na cosinha dava as ltimas instrues
 criada sobre a cosedura do per e o assado de leito.

Um quarto de hora depois apeava-se  nossa porta, entre o povo curioso,
a mais extraordinaria pessa que at esse tempo eu tinha conhecido.

Depois disso, no caminho da vida, que j no  curto pelo muito que
tenho sentido e sofrido, tenho visto bastas figuras caricaturais: gente
de todos os modos e feitios, tipos de comedia e tipos dolorosos de
tragedia, riscados em dois traos por Gavarny, risos disformes em
plidos abortos, exageros de vestuario igualmente ridiculos, ou pela
extrema elegancia ou pelo extremo desleixo... Tenho visto de tudo, e
jmais senti o pasmo que essa primeira pessa estranha causou no meu
espirito desprevenido.

Os meus irmos, em frouxos de riso, fugiram para dentro de casa, e o
Miguelsinho, que era o mais velho, abaixo de mim, puxava-me pela
manga sublinhando risos muito ironicos.

Eu, no sei porqu, no tive vontade de rir; qualquer coisa me dizia c
dentro de mim que era para pranto, e no para riso, a entrada daquella
gente na minha vida.

Primeiro apeou-se o meu tio, um vlhote bastante alquebrado, mas alegre
por se vr na terra natal. Abraava toda a gente, e tratava por _tu_
velhas que eu me acostumara a considerar avs, e que limpavam os olhos
lagrimejando por o vrem to acabadinho... E elle ria--raparigada do seu
tempo, todas essas vlhinhas, e queriam que elle estivesse um rapaz, e
mais que no tinham andado por trabalhos e canseiras de climas
inhospitos!...

E achava extraordinario que a irm, uma garotinha de saias curtas quando
elle partira, estivesse j me de filhos...

--E j de cabelos brancos--visse bem o mano!...

Atraz delle, sahiu do carro uma pequena de cinco anos, parecendo tr o
dobro, nem bonita nem feia, extravagantemente vestida  inglesa de
torna-viagem, e toda doutoral nas suas frases. Fra a ltima a nascer,
depois de bastantes anos de casamento, em que todos os filhos lhes
tinham morrido; por isso era respeitada como milagre vivo.

Por fim, quando os criados tinham carregado uma aluvio de malas,
necessarios, sacas de linho bordadas, e tanta coisa que nos fazia
arregalar os olhos de espanto, a ns pobres pequenos selvagens, que, a
respeito de viajar, iamos s quintas proximas pelo tempo da vindima e
at ao rio em folgada pescaria uma vez por festa. Depois comeou a sahir
um prodigioso chapo de palha envolto em gaze cr de castanha, e, a
seguir, um corpo enorme vestido com um guarda-p de xadrez em largas
mangas perdidas.

Era monstruosa a minha tia! Nunca lhe poude dar este nome porque o meu
espirito se recusou sempre ao convencimento desse parentesco, que
repugnava  minha aftividade.

Alta como um carvalho e gorda em proporo, o que a tornava ainda mais
exotica entre gente miuda como  a nossa. Talvez no tivesse sido feia,
mas as feies estavam enterradas em tecido adiposo, e s naquelle
deserto de cara branca brilhavam uns olhos metalicos e frios que nenhum
sentimento conseguia adoar. Quando os poisava na miudinha figura de
morenita que eu era ento, toda a minha carne se arrepiava numa tremura
e os meus nervos vibravam desagradavelmente.

Trazia o cabelo, j a embranquecer, cortado pelo pescoo,--_
estudanta_, diziam por l as pequenas da aldeia--modos autoritarios, voz
de comando, andar de granadeiro, e uma lingua de trapos que ninguem
entendia.

Mos e ps no tinham fim, e o seu desembarao irritava-me pela mania
que tinha de fazer tudo e melhor do que ninguem, de falar alto e atirar
os braos para a frente num gesto resoluto de jogador de _box_.

Meu pobre tio admirava-a e escutava-a, submisso, como a um oraculo, nada
fazendo sem a consultar.

Sobretudo nenhuma delicadeza feminil, muito orgulhosa da sua
superioridade e senhora da sua pessa, dizendo mal--de _prtugus_, _e
tudo quanto  prtugus, muito estupidos_!...

Dizia-se filha dum banqueiro da Havana prodigiosamente rico, mas tais
riquezas--como as de _Pedro Cem_--perdiam-se na sombra da lenda.

Contava coisas estupendas de _seu pap_, descendente em linha rta de
_grandes de Espanha_, pelos vistos, dos soberbos companheiros de
Colombo... A _sua mam_, essa era uma aristocratica _lady_, viuva dum
membro da aristocracia britanica, que no se dedignara de aliar o seu
puro sangue azul ao de descendente dos audazes conquistadores...

A fortuna de _seu pap_ pesara por muito tempo nos destinos do visinho
reino, como o luxo da _mam_ dra brado na crte de Madrid e na
vilegiatura de San Sebastian, uma vez que os dois tinham visitado a
metropole.

Coisas que ella dizia, que, ao certo, quem pode dizer donde vem essa
gente, retalhos desencontrados e disparatados das raas do mundo inteiro?!

Apreendi depois, no decorrer da nossa convivencia, por meias palavras
escapadas a uns e a outros e por inconfidencias de pessas das relaes
e que os tinham conhecido l fra, que o banqueiro cahira
vergonhosamente numa falencia que fizera estrondo e a _lady_ no passava
duma aventureira, dessas que a Inglaterra exporta, sob a capa angelical
de srias _institutrices_, e que por todos os meios querem arranjar uma
existencia mais cmoda.

Orgulhava-se extremamente dessa sua origem britanica, como de tr
nascido na America, como se fsse uma legitima filha dos Estados-Unidos...

Oh, a livre America, sonho de todos ns os que nos sufocmos sob a
presso do convencionalismo europeu, como essa mulher n-la
mostrava odiosa, opressiva, duma rigidez de puritanismo fanatico!

--Oh! _Amrricana_, grande coisa!... _Eurrpa, muito desmoralisada!...
Prtugus, muito estupida!..._

Igual ao seu orgulho de tr nascido numa ilha da America e de pais to
ilustres, s o desprezo, e a ignorancia propositada, por ns, pelos
nossos gostos e aspiraes, pelo nosso povo to laborioso e inteligente,
embora inculto, pelo nosso pas to belo, o nosso clima to dce no sul
e to soberbo junto s montanhas que a neve cobre nas invernias grandes...

Desconhecia a nossa historia, no sabia lr os nossos poetas, no se
entusiasmava com os nossos prosadores. Os nossos costumes, to
pitorescos, eram, aos seus olhos, de selvagens; as canes do nosso povo
achava-as sem brilho nem graa, melopeias s proprias para adormentar
crianas.

Oh, o horror que nos causava essa criatura, que assim abocanhava tudo
quanto nos era querido, achando sempre que dizer das superioridades dos
outros pases! Ns, os pequenos, que no tinhamos adquirido com o
decorrer da vida a fleugma risonha com que meu pai a escutava, a
indiferena com que a minha me ia tratando da sua vida sem lhe
prestar ateno, nem a paciencia do Padre Z, que abanava a cabea
embranquecida como unica resposta; ns desesperavamo-nos por no nos
permitirem contrariar a hspeda. E o Miguel, que j pensava muito bem e
tinha observaes muito a proposito, dizia-me baixinho, de cada vez que
a ouvia denegrir as nossas coisas:--No sei como, sendo to mau o nosso
pas e a gente to estupida, ella casou com um portugus e veiu para c
maar-nos!...

Mas o que eu no compreendo  como essa criatura, que para ns era to
desagradavel, conseguiu convencer meus pais da sua inteligencia,
chegando a dar-lhe razo nos seus grossos dislates.

Principalmente na minha pobre me, que se julgava uma ignorante,--ella
que dirigia a sua casa com tanto criterio e olhava providencialmente por
ns todos--fizera profundo sulco a torrente de sabedoria enciclopedica
que jorrava enfaticamente da sua bca.

Logo que chegou, desembaraada dos apetrechos da viagem, olhou-nos com
altivez. Depois tomou-me  sua conta, por sr eu a mais velha e por ser
rapariga. Um dia sujeitou-me a um interrogatorio em frma:

--Menina sabe francs?

--No, menina no sabia francs.

--Oh!... vergonha!

Estive para lhe responder:--E a senhora sabe portugus?!

Chamaram-me sempre atrevida nas respostas, mas o que  certo  que me
arrependo sempre das poucas que tenho deixado de dar tal qual as penso.

--Menina sabe ingls?

--No.

--Oh! sabe _desenha_?

--No.

--Oh! muito _linda_! Aquellas sombras!... Na _Amrrica_ toda a gente
sabe _desenha_!...

--Sabe _piana_?

--No.

--Oh! vergonha, vergonha, uma menina no tocar nem cantar!...

E seguiu-se uma prelo sobre tudo quanto enumerava e que eu,
pertinazmente, ignorava. Na verdade eu sabia pouquissimo, mas estou
certa que ella no conhecia seno de nome a maior parte do que dizia.
Aquilo tudo era papagueado, elementos de coisas que aprendera no
decorrer movimentado da sua vida.

O meu querido Padre Jos pasmava:--Como podia uma senhora saber tanto?!...

E a minha me desculpava:--Oh, a mana no imagina a falta de
professores que ha por estes sitios! Temos pensado em mandar a
pequena para um colegio, mas o pai prefere uma professora... Eu,
professoras em casa--tenho-lhes um mdo!


Demoraram-se, apesar de todos os incmodos a que se sujeitavam naquele
selvatico pas, um longo ms em nossa casa. Depois...

Quando penso, ainda estremeo de raiva! Depois de longas conferencias e
segredos com os meus pais, combinaram que eu iria com elles para Lisba
e ficaria em sua casa para me educar.

Quando ns, os pequenos, soubemos o que significavam tais misterios, j
tudo estava resolvido. Eu desanimei; os meus irmositos choravam pelos
cantos, e chegavam-se a mim para os animar. O Miguelsinho, que era o
preferido da me, tentou discutir tal resoluo e pedir para que me no
entregassem  _estrangeira_, mas ficou desiludido da sua influencia
porque o chamaram pateta e prohibiram-lhe terminantemente de se meter
onde no era chamado.

C por mim, nada pedi nem objtei; fechei-me num mutismo que exprimia
j, mais do que as palavras, a onda de revolta que se me ia formando no
corao.

Sucumbi. J no tinha gosto para nada: no voltei  quinta nem procurei
mais a Cacilda, para a cavalgar como os rapazes e percorrer os caminhos
to conhecidos e amados. Os meus amigos do pombal sentiram por certo a
minha falta, como os da capoeira a tinham j sofrido...

Nunca mais procurei as pequenas minhas companheiras, mas via-as por
detraz dos vidros da janela dansarem em rodas, ouvia-lhes as cantigas
joviaes, percebia que jogavam a _laranjinha_ ou faziam de _senhoras
visinhas_... E ficava-me indiferente, j alheada da sua alegria,
afastada para sempre do seu convivio, desprezando inconscientemente a
sua humildade. Era como aquellas pessas, quasi na agonia, que j no
so deste mundo nem o que nelle passa lhes interessa--e ainda no
entraram no supremo descanso da morte.

Decerto que muitas vezes pensara em sahir da aldeia, percorrer novos
caminhos, vr paisagens inditas, terras lindas de encantar como as
sonhava por esse mundo fra!... Invejara, no poucas tambem, os
vagabundos que passavam pela aldeia e nos contavam coisas estranhas para
os nossos espiritos, e de que elles traziam nos olhos um vago
assombro... Devaneando, o Miguelsinho e eu, quantas vezes no
conversamos sobre a divertida existencia dos ciganos, que andam de
terra em terra com os ursos e os macacos e sob a sua esfarrapada tenda
tm todo o seu afto e interesse no mundo?!

Sahir dal... ir viajar... vr paisagens novas em folha para a minha
retina, terras desconhecidas, gentes exoticas, seria uma libertao, mas
ir na companhia duma pessa que nos era to particularmente antipatica,
confiada  sua guarda, colocada sob a sua autoridade, isso nunca o podia
tr sonhado, nem como pesadelo me assaltara jmais o espirito.

No chorava, porque a profundeza do golpe me revoltou at quasi 
loucura. Desde o dia em que me deram a noticia do meu destino, deixei de
sr a criana que fra at ahi para me tornar numa sombria criatura,
raro abrindo em risos a sua alma ingenua.

Tinha doze anos, cheios de saude e alegria; era uma perfeita criana,
sem sombra de malicia a macular-me o espirito--uma pequena criatura
muito humana e muito bondosa. Fui depois uma pobre alma torturada,
contorcida em odios, desprezando e desconfiando de tudo e de todos.

O mundo deixou de sr para mim uma festa cheia de sol para se tornar num
algido subterraneo.

Hode dizer que exagero, que o caso no era para tanto, nem a mulher de
meu tio merecia o repulsivo odio que lhe votei... Mas que querem?! No
ha animais que odeiam uma determinada criatura, numa repugnancia
instintiva, sem aparente razo?

Tal o meu sentimento por ella: instintivo, invencivel, fatal.

Meus irmos choraram muito quando eu parti; a minha me abraava-me
soluando convulsivamente, apesar de toda a sua serenidade de mulher que
nunca sentira rebate de nervos em vibraes assustadoras, mas eu
desprendi-me dos seus braos, de olhos enxutos, plida e sombria,
concentrada na convico ntima de que no me estimava verdadeiramente
quem assim me expulsava do seu lar, para me colocar sob a autoridade
despotica duma quasi desconhecida e j detestada criatura.

Antes o colegio!--pensava com amargura. Ao menos teria amigas que
sofreriam comigo o cativeiro, teria talvez professoras que estimasse...

Toda a gente da aldeia acorrra para me dizer adeus; assim eu andava de
braos para braos, levando beijos que me repugnavam mas aos quais no
tinha coragem de me negar. As criadas, uma por uma, vieram ainda 
porta do carro dizer-me os ltimos adeuses, e quando a Maria Augusta me
abraou apertou-me com tal nsia que um n se me deu na garganta, e
teria fraquejado ali, diante da _estrangeira_, se a no visse no fundo
do carro sorrir com ironia da cna, que aos meus olhos nada tinha de
ridicula.

Quando na vila, ao partir da diligencia, meu pai se voltou para limpar
as lagrimas furtivamente, toda a minha alma explodiu num adeus--que mais
era um grito de protesto... At elle! Todos, todos, me abandonavam. Era
demais!

Aninhei-me a um canto da carroagem, estupidificada pelo assombroso do
caso, e deixei-me transportar como um fardo, sem vontade nem iniciativa;
era mais um volume a acrescentar aos inmeros sacos, malas e maletas que
abarrotavam a diligencia alugada por conta da minha enorme tia.

De pouco me recordo dessa jornada triste que me levou a Lisba. Dias
chuvosos de princpio de outno, estradas desertas, campos desnudando-se
numa paisagem uniforme, tristezas da alma e tristezas da ba natureza,
que se despedia dos meus olhos num compungimento de simpatia.

Ainda bem que chovia! Se fizesse sol, se as raparigas cantassem pelos
campos, e os carros de bois arrastassem pelos caminhos a fartura da
colheita, quanto isso seria infinitamente mais desolador para a minha
pobre alma confrangida!

Assim cheguei a Lisba por uma madrugada nevoenta, sem sequer me tr
admirado do caminho de ferro que pela primeira vez vira no
Entroncamento, onde o fmos tomar. O que podia interessar e comover o
meu espirito atordoado por esse repelo da vida, que to cedo comeava a
maguar-me?!

Ah, como se sofre quando se  criana, quando ninguem respeita a nossa
dr e a nossa vontade, quando decidem do nosso querer como se fssemos
tteres animados por maquinismo industrial!

Lisba no me deslumbrou, porque mais, muito mais, fantasiara dos seus
encantos e fausto no meu sonhar de criana. As ruas da Baixa, com as
suas altas casarias alinhadas e uniformes, que a rigidez pombalina
decretou, faziam-me uma terrivel saudade dos campos largos por onde a
vista passeia e cabriola como cabritinho montez. Apertava-se-me o
corao recordando os horizontes que se esbatem ao longe, nas serranias
violetas; e o marulhar da multido irritava-me os nervos, mal me podendo
recordar o rumorejar embalante dos pinheirais atravessados pelos
ventos em livres carreiras de tardes outonais...

O meu pobre tio mostrava-me coisas, queria que me extasiasse com a
capital, eu pobre serrana que nunca vira nada, mas a faculdade
admirativa tinha-se embotado em mim. Era um corpo sem alma--que essa por
l me ficara, errando pelos campos da minha risonha terreola.

S quando o mar se descobriu diante dos meus olhos, elles se abriram
numa ateno de velha simpatia. No, nunca tinha visto o mar, mas
sonhava-o e amava-o desde muito, com o afto entranhado e atavico que
todos ns lhe temos. O mar, a nossa estrada movedia e terrivel!... O
mar, essa nossa segunda patria, foi a unica coisa onde descansei a vista
com enlevo e que durante os quatro anos de cativeiro me deu algum prazer
 vista. Quando, entre duas ruas, o descobria l ao fundo, numa nesga
rutilante de sol, toda a minha alma se refrescava e florejava de sorrisos.

Felizmente que a casa do tio era num bairro afastado e novo, onde raro
chegavam os preges berrados das ruas e s de longe em longe o rodar
duma carroagem fazia estremecer os vidros das janelas. E, por fortuna,
tinha atraz um jardinsito, entalado entre casas  verdade, mas
emfim mimoseando-nos com um pouco de ar mais puro para os robustos
pulmes desenvolvidos pelo ar forte da montanha.


A _cubana_ tinha frmas dogmaticas sobre a educao, que serviam para os
cinco anos da filha e para os meus doze de rapariga nubil.

Era preciso que me levantasse cedo--v! Isso no me custava, acostumada
desde criana s madrugadas na aldeia. Mas, depois de me levantar, no
podia correr pela quinta, abrindo o apetite ao almoo suculento que me
esperava na msa; tinha que fazer a cama, arrumar o quarto, e estudar.

Em casa, para ajudar a Maria Augusta, muitas vezes lhe tirava a vassoira
das suas pobres mos encarquilhadas, e varria, cantando festiva,
auxiliando-a no fazer das camas e mais arranjos domesticos; ali,
obrigada, mandada por aquella monstruosa criatura, sentia um tal
desespero, um tal rancr a referver-me na alma, que todas as minhas
ideias eram negras como fuligem, todos os meus sentimentos eram maus a
roarem pela perversidade.

Encostada aos vidros da janela do meu quarto, olhava a gente que seguia
o seu caminho, apressada ou vagarosa, alegre ou triste, pobre ou
rica,--e a todos eu invejava com verdes invejas de reptil!...

Era preciso que estudasse trs horas antes do almoo, e o meu espirito
vagabundeava pelos caminhos pedregosos da minha terra, debruava-se na
ribeira onde os salgueiros refltiam a folhagem leve e as margaridas
rosadas, as pervincas azuis e os miosotis da cr do co espreitam entre
a verdura da herva tenra.... Era preciso que inclinasse sobre os livros
a minha pobre cabea pesada de sno, e os meus olhos fechados reviam os
milharais regados de fresco, as cerejas vermelhas suspensas como pingos
de lacre das arvores amigas, as amendoeiras em flr, as encostas
cobertas de olivedos plidos, os pinheiros esguios, os castanheiros
arreganhando a bca dos seus ourios para nos darem o fruto saboroso. O
meu espirito no acompanhava o pobre corpo oprimido, que se estiolava
num quarto fechado, diante de estereis livros que no compreendia; no!
Elle assistia, l ao longe,  ininterrupta festa da natureza;
alegrava-se com os divertimentos do campo; procurava os magustos, onde
se comem as castanhas assadas na fogueira; ia aos _seres_, onde as
velhas avs contam lindas historias s raparigas, fiando  mortia luz
da candeia suspensa do velador de pau enegrecido pelos anos;
evocava as ranchadas que vo s romarias, cantando e tocando a viola e
os ferrinhos, e os que vo para as feiras lacres, entre festivos e
afadigados, na policromia do trajar das mulheres e na gravidade
interesseira do comerciante que oferece ou compra a mercadoria e discute
largamente o seu negocio...

A fuga era o unico deleitoso pensamento que se esboava no meu cerebro.
Fugir! Sr livre! No tr mais diante dos meus olhos a figura estupenda
da mulher de meu tio, nem a face simiesca da petiza!... Era o ideal
supremo que acariciava, um sonho redentor que se me fixava na cabea por
mil pontos delicados e imperctiveis. Formava com esta unica e obsessiva
ideia projtos sem conto, e se no fsse a covardia ante o escandalo,
que  ainda uma servido do nosso espirito, se no fsse o receio atroz
de sr apanhada pela policia, vir o meu caso por miudos nos jornais, e
sr finalmente trazida de novo al, certamente teria _feito alguma_!...
Faltava-me a energia determinante dos fortes caratres. A revolta
traduzia-se pelo embrutecimento, pela apatia, pela oposio passiva dos
fracos e dos ignorantes.

Fechada no quarto todas as manhs, em vez de estudar deitava-me sobre a
cama, e afiguravam-se-me as tbuas alinhadas e estreitas do tto como se
fssem as tbuas do meu caixo.

L fra era a vida: os preges que atravessavam a rua solitaria numa
festa ruidosa de cres, revoadas de andorinhas riscando o azul em
zig-zagues caprichosos, a chilreada estrdia dos pardais pelos telhados...

Morria de aborrecimento, e morrer, creio, foi o pensamento mais
consolador que nesse tempo se alojou no meu cerebro.

No estudava, o que era em mim um velho habito, mas com as lies do
Padre Z tinha chegado a compreender alguma coisa, e agora sentia-me sem
nenhuma inteligencia, sonolenta, parada, sem sombra de vivacidade
intelectual.

Tinha uns poucos de professores, pagos pelos meus pais  claro. E por
sinal que eram bem generosos com o dinheiro dos outros...

O ingls ensinava-mo ella, mas eu odiava-a tanto e o meu espirito
comeava a achar um tal prazer em contrariar os outros, que me sublevava
contra mim mesma quando comeava a compreender essa lingua que ella
tinha como sua.

Farta j de a saber, obrigava-a a algaraviar o portugus para me rir
intimamente dos seus comicos disparates.

Estava assim.


Pouco sahi durante os quatro anos que durou o meu cativeiro--porque a
sua companhia me desagradava cordialmente, porque os passeios por ella
escolhidos eram odiosamente disparatados, e porque a sua imposio de me
ensacar em verdadeiros horrores, que ella alcunhava de vestidos 
inglsa, me causava um asco invencivel.

Sem tr nunca apreciado os _laarotes_ e as rendas esbanjadas nos
vestidos provincianos das minhas antigas conhecidas, sem ambicionar a
elegancia casquilha das meninas lisbotas, o meu espirito era
demasiadamente meridional, demasiado artista, para se no prender com a
frma e no se encantar pela cr e pela beleza do trajo, como de tudo
quanto me pertencia e rodeava.

Assim, achava meio de me esquivar sempre que sahiam, o que era raro,
pretextando estudos que nunca fazia.

De mses a mses, a visita ao consul ingls era o unico parentesis de
luz na tristeza da minha vida. Tinha umas filhas encantadoras,
algumas j senhoras, e, entre ellas, a Maud era muito gentil para mim,
consolando-me e alegrando-me, nas poucas vezes em que nos avistavamos,
das muitas horas de incomportavel tedio que passava naquella casa.

Maud era muito inglsa na sua educao para censurar uma pessa das
relaes da casa, mas o simples sorriso dos seus labios finos, a ligeira
caricia dos seus olhos puros, era quanto bastava para me encher o
corao de reconhecimento e tr na sua amizade toda a confiana.

Pobre Maud! Levada pelo destino para longe, obrigada a ganhar a sua vida
pela morte dum pai aftuoso e inteligente, em que pas, em que terra, em
que familia, o seu sorriso honesto, a sua graa sria, sero consolo e
jbilo para alguma criana infeliz, como eu era?!

Outra qualquer pessa, por menos melindrosa e susctivel que fsse, no
se sentiria feliz num meio em que tudo era violento e desagradavel.

A _cubana_ ralhava por tudo, nada estava feito a seu gosto, de manh 
noite lamentava tr vindo para um pas de que dizia indelicadamente,
grosseirnamente, os ultimos horrores:--a vida era carissima, os criados
eram mandries e inhabeis, era preciso olhar por tudo, vr tudo,
desde a roupa da lavadeira at  limpeza da casa...

Tornava desgraada toda a gente, e no consentia que ninguem se
considerasse infeliz--possuindo a rara fortuna de a tr ao lado!

Ao meu pobre tio impunha uma felicidade que elle estava longe, bem
longe, de sentir. No podia formular uma opinio sua; era obrigado a
confirmar tudo quanto ella dizia, e ainda dizer-se o mais ditoso dos
maridos e fazer elogios  sua alta inteligencia, bom-senso e sbia
economia.

Meu pobre tio! Verdadeiramente, aquella presso moral em que conservava
o bom do velho, revoltava-me. Nunca pensei em impr a minha vontade a
ninguem, e tudo quanto seja coagir a dos outros, tirar ao sr humano a
liberdade de sentir e pensar por si mesmo, exaspera-me como violencia
contra mim propria exercida.

Depois, a pequena tinha a bela qualidade de espiar e ir contar-lhe tudo
quanto se dizia e fazia em casa, e por muitas vezes o que nem sequer se
sonhava dizer ou fazer. Um _amr_ de criana!

As criadas entravam e sahiam com uma velocidade de comboio expresso.

Quando mal humorada, dava-lhes bofetada e descompostura que as fazia
fugir espavoridas; mas, se por outro lado lhe dsse na cabea,
enchia-as de presentes e favres. Era conforme ellas sabiam ou no
lisongear-lhe a vaidade.

A ltima que l conheci, talvez a mais velhaca de todas, essa soube
cativ-la, e fazia quanto queria sem que ouvisse uma simples reprimenda.
Adiante falarei na menina Eulalia, que entrou para muito na minha vida.

Meu tio  que escrevia para casa e l dizia dos meus adiantamentos, que,
francamente, no eram nenhuns. s noticias dos meus pais, to carinhosas
e prolixas, eu respondia com aquellas cartas incolres que todas as
crianas prisioneiras nos internatos, ou onde quer que lhes pnham
sentinela ao pensamento, tm escrito. Cartas em que nem um vislumbre da
alma infantil entreluz; cartas feitas s de palavras ouvidas, e que so
o primeiro passo para a mentira social a que nos querem sujeitar, como a
ces sbios sob o chicote domesticador e o mdo... A criana, que sabe
que as suas cartas sero maculadas pelos olhares indiferentes, e os seus
verdadeiros sentimentos procurados nas linhas em branco da sua pobre
correspondencia, perde a sinceridade, no se expande com lisura, no diz
o que sente...

Os bilhetes que metia no mesmo sobrescrito de meu tio eram frios, pouco
mais ou menos o que me diziam que era dever escrever:--que estava bem,
que era bem tratada, que me sentia feliz... Nada do que, em verdade, eu
teria desejo de dizer!

 certo que a minha alma irritada julgava-se ofendida pelo desamr com
que me tinham expulso de casa para me atirar para o poder daquella
mulher, que para mim resumia tudo quanto eu podia odiar mais.

Nesse tempo no gostava de ninguem--nem de mim mesma. Era injusta, mas
era humana. O animal criado em toda a expanso da sua vida material e
forte, no se subjuga sem rebelio, no se obriga sem muito custo a
entrar no regimen de servides a que se convencionou chamar _deveres
sociais_.

Assim, quando meu pai empreendia a longa viagem da aldeia  capital para
me vr, eu no correspondia de modo algum ao seu afto e interesse.

Sem compreender o enorme sacrificio que faziam para me dotarem com uma
educao que supunham sr um precioso instrumento de felicidade para
toda a minha vida, achava que era desamr o que me consagravam e to
smente desejo de me vrem longe da sua casa, porque o meu feitio moral
os desconcertara e lhes era talvez odienta a minha presena...

s perguntas insistentes que me fazia, vendo-me to delgadinha e triste,
o meu orgulho fazia-me responder com sistematica negativa.

Se elle se demorasse, se insistisse, a minha energia no seria mais
forte do que a revolta contra o sofrimento, to natural ao sr humano
quando novo e saudavel.

Mas o meu pai no supunha encontrar tais meandros e subtilezas no sentir
duma criana que conhecera defeituosamente franca e impulsiva. Por outro
lado, os negocios da casa no o deixavam demorar mais do que um dia ou
dois, o que no era muito para fundir o glo que se formara no meu
corao contrariado e amarfanhado.


Ora de estudos ia eu muito mal. Os meus professores classificavam de
estupidez a minha incapacidade de satisfazer as lies, e creio bem que
o era.

No estudava, e mesmo que estudasse no compreendia.

A cabea parecia-me de chumbo, pesava-me como o capacete dum guerreiro
antigo. No faziam nada de mim, pela certa!

A professora de desenho era a unica que tinha d dos meus traos
indecisos e me dirigia com bas palavras, por isso fiquei sabendo um
pouco mais dessa arte, que das outras, e com imensa pena de no poder
fazer tudo quanto ella me dizia que seria capaz de realisar, com a minha
paixo pela corro das linhas classicas, a minha expansiva busca das
cres, que ousava procurar inditas e brilhantes na paleta de
principiante...

Sentia-me infeliz, e, se verdadeiramente me quizesse queixar, no
saberia bem precisar o que me maguava naquella casa. Talvez porque era
tudo, desde a gente at  comida. Chegava a sr um suplcio; acostumada
em casa a encher abundantemente o meu pequeno estomago voraz, ali tinha
at mdo de meter na bca um pedao a mais, porque via todos os olhos a
pesarem e a medirem tudo o que a minha garganta oprimida conseguia
deixar passar.

Por economia e por habito, eram todos frugais, e eu, por ceremonia,
quando os via recusar o _roast-beef_, que se comeria frio no almoo do
dia seguinte, recusava-o tambem, embora s vezes sentisse um bom apetite
de animalsinho carnivoro, que no se sente satisfeito.

O meu unico desafogo era o jardinsito, que tratava com todo o cuidado.
As sementeiras iam a horas para a terra, e no lhes faltavam as
regas, com a agua que eu mesmo tirava da bomba, nem a cobertura de
palha, mais tarde, por causa das geadas.

Andava sempre a espreitar o crescimento das plantas tenrinhas, que mal
despontavam na terra pobre de adubos vitalisadores; e quando, na
primavera, as arvores que mal se desenvolviam na sombra daquelle
jardinsito entalado entre predios altos, se enfloravam, toda a minha
alma florescia com ellas, recordando as que l ao longe perfumavam os
campos onde a minha saudade me levava errante...

Ora o jardim era dividido do que pertencia ao rez-do-cho da esquerda
por uma sebe de madeira, que eu pensara em disfarar sob a verdura
abundante duma trepadeira de folha permanente. Passava horas
desembaraando as finas hastes para as ir guiando e atando. Quantas
vezes, de tanto as querer estender e espaldar, no parti grandes
pedaos, que depois lamentava muito contristada! O mal de quem tem muita
pressa... em contrafazer a natureza.

Ao fundo, era limitado pela parede dum outro jardim, que nunca tivera a
curiosidade de procurar vr, embora por l sentisse as risadas de
crianas mais felizes do que eu...

A tristeza at embota a curiosidade, essa frma, embora inferior, da
vivacidade intelectual. Concentrava-me no meu proprio sentir, e todo o
mundo me era estranho.

Ora isto foi assim at que num dia veiu para o rez-do-cho visinho uma
nova familia: pai, me, e filha, uma pequena encantadora, que comeou a
sorrir-me e a cumprimentar-me quando me via na minha faina de jardineira.

A Mariquinhas, com a sua mobilidade graciosa, falou-me uma primeira vez,
a proposito de nada, s para encetar conversa. Respondi-lhe
acanhadamente de principio, mas em breve toda a minha timidez
desaparecera diante da sua ampla cordialidade. Conversamos, e logo 
despedida nos beijamos, por cima da sebe que j conseguira vestir duma
folhagem de lindo verde brunido.

Em poucos dias ficamos as maiores amigas do mundo. Pela minha parte
entreguei-me com ardr ao estranho prazer dessa amizade; agarrei-me a
essa ventura com o desespero de quem se v s, num meio irritante e
hostil, sem um unico afto a confortar um pobre corao feito para o
sentimento.

A Mariquinhas era a unica e amimada filha duns pais, que a tinham s a
ella, duns poucos que no seu ninho tinham batido azas palpitantes de
alegria e esperana e a morte lhes levara numa impiedosa e cega
colheita.

Era em casa uma pequenina rainha, que no abusava  certo da sua
autoridade, antes punha uma suprema graa nas suas ordens e caprichos.

Hje, recordando bem as suas feies, que o tempo j quasi deliu na
minha memoria, acho que no devia sr, talvez, uma formosura, mas nesse
tempo era para mim tudo quanto conhecia de mais puro enlevo.

Magrinha, elegante, duma finura de traos angelicais, tinha a plida
beleza das camelias delicadas, que as fortes chuvas do inverno desfolham
rapidamente.

Era muito instruida, uma pequena e encantadora sbiasinha, que sorria,
maternalmente conselheira, da minha supina ignorancia.

J quasi mulher, um tudo-nada garrida, vestindo divinamente os lindos
vestidos da sua esclha, ella materialisou no meu espirito o ideal duma
santa ou dum anjo salvador, que Deus tivesse mandado ao meu purgatorio.

Porque... esquecia-me mais esta: a mulher de meu tio era protestante,
mas da ltima hora. Com todo o fanatismo dos nefitos e a sua terrivel
mania de impr as suas ideias e de prgar as suas convices, todos os
dias me ensinava e explicava o evangelho,  sua moda, isto :
analisando-o e adaptando-o  vida quotidiana, com uma banalidade
desesperadora.

Na minha aldeia nunca ouvira falar em evangelho seno no latim do Padre
Z,  missa, quando a minha me nos dava a consolao de nos prmos de
p. Mas estava acostumada a conversar com o Anjo da guarda como se fosse
um irmo, e no rosto delicado das esbeltas Santas gticas, que ornavam
as paredes da nossa velha igreja, lia enlevadoras historias que ellas me
sorriam...

Arrancar a uma pobre alma de meridional, apaixonada pela cr e pela
frma, o olr dos incensos subindo em dolentes preces para um co
recamado de oiro e pedrarias, onde lindas crianas cantam e tocam
flautas e guitarras maravilhosas, onde florescem jardins ideais, e
correm fontes inesgotaveis de perfumes suaves; tirar-lhe a iluso
magnifica duma vida embalada pela esperana do milagre, e dar-lhe em
troca a frieza do raciocinio, a clara e positiva significao das
palavras, a simplicidade da frma despida do encanto da arte, ser por
certo de muito bons resultados futuros--e foi-o para o meu espirito, que
se habituou ao rigoroso cumprimento da verdade--mas nesse tempo
constituia um sacrificio a mais a juntar aos muitos outros.

Pois a Mariquinhas encarnou para a minha imaginao mortificada, o anjo
meu companheiro e prottor. Pela sua mo seguiria por sobre a _fragil
ponte_ que representa o dificil caminho da virtude, nas imagens
popularisadas pela oleografia barata, em que o guarda angelico guia uma
criancinha, com a sua mala de viagem a tiracolo, pela spera senda do
bem...

Fram os dias bons da minha permanencia naquella casa.

No sei como a terrivel _cubana_ se no ops  nossa convivencia, embora
distanciada, apenas entretida pelas fugitivas palestras trocadas a mdo
por sobre a sebe que as minhas trepadeiras iam vestindo e matisando com
uma florao polcroma.

Lembro-me agora que a Mariquinhas, com a sua viva inteligencia cultivada
no convivio da sociedade, compreendera desde logo de quanta vaidade e
orgulho se enchia a enorme criatura, e sabia lisonge-la com leves
delicadezas, das quais eu nem sequer compreendia o alcance, na minha
inteireza selvagem.

Hje, era uma linda flr mandada pela pequena para a mam pr no seu
logar,  msa; manh, noticias lidas por acaso nos jornais sobre coisas
passadas em Inglaterra ou nos Estados-Unidos; depois, uma corrta
ateno aos discursos que lhes algaraviava, quando acontecia v-la da
janela.

Com to pouco, a Mariquinhas vencera a resistencia feroz daquella
fortaleza e achava-se senhora da situao. Nunca pensei que eu teria,
talvez, conseguido o mesmo se o orgulho--que  uma virtude que nos
nobilita, mas torna dificil a vida social--no me fizesse olhar com
desprezo para esses processos que me punham numa dependencia moral que
me irritava. Decididamente a Mariquinhas era muito melhor politica; onde
o meu temperamento voluntarioso punha energia revoltosa, a doura do seu
espirito, to levemente ironico quanto profundamente conhecedor das
fraquezas alheias, usava o suborno da lisonja, que a todos conquista e
agrada.

Apesar das familias no trem nunca encetado relaes que as tornassem
do mesmo convivio,--porque a me da Mariquinhas detestava a _espanhola_,
como lhe chamava--conseguira a criana, com as suas blandicias de
lisbota amavel, que me deixassem ir passar algumas tardes a sua casa.

Era um banho dulcissimo de calma para o meu espirito, que fermentava em
sublevaes concentradas mas nem por isso menos violentas.

A D. Emilia era uma destas almas bas e ss, tal qual a da minha me,
modestas no cumprimento religioso duma existencia que nunca teve dvidas
nem sobresaltos de consciencia. O seu espirito era simples, e os seus
olhos diziam na clara expresso o que s vezes os labios no se atreviam
a proferir, com receio de ir infelicitar os outros com uma observao
menos resignada... ou mais verdadeira.

Conversar com a bonissima criatura era abrir o corao e deixar correr
as palavras livremente, numa fluencia de ribeira mrmura e limpida
deslisando por campo sem obstaculos; ouvi-la era escutar o carinhoso
conselho duma rara alma humana que nunca se tinha poluido numa mentira.

Ah, como o meu corao se aliviou da tristeza imensa em que se afundava,
contando-lhe a minha vida; e como ao contar-lha precisei verdadeiramente
o _mal de viver_, que me vencera e arrastava para o desespero! E como ao
escutar-lhe a palavra mansa e insinuante, compreendi, e melhor apreciei,
a modesta e nobre misso da minha pobre mam!...

O pai da Mariquinhas parecia viver s para tornar felizes as duas
criaturas, que eram todo o seu cuidado e amr. Aposentado do seu
logar de lente duma escola superior, passava os dias estudando e lendo
no seu gabinete cheio de livros, que j lhe invadiam a secretria, que a
filha todas as manhs lhe ia enflorar com lindos ramilhetes que ella
mesma cortava e ageitava nas jarras.

Que suave e dulcida existencia! E como a vida corria sem se sentir entre
aquellas trs criaturas, to estreitamente unidas pelo amr, sem
violencias nem coes... Que diferena da nossa casa, onde a mulher de
meu tio queria impr no s a sua autoridade absoluta, o que j seria
abominavel, como os seus gostos e sentir e toda a sua maneira
particularissima de vr as coisas!

Aquella atmosfera pacificadora fazia-me bem, domesticava-me o corao
que se tinha tornado feroz no odio e na desconfiana.

A unica receita eficaz para se sr amado sinceramente  amar; era a que
usavam os meus amigos, e por isso venceram a minha rudeza e fizeram com
que os amasse com todo o entusiasmo da minha alma apaixonada.

Com o refrigerio daquelle contacto a vida tornou-se-me menos pesada;
suportava melhor a desgraa desde que tinha quem me compreendesse e
lamentasse. Pobre criana expatriada, que eu era,--naquelle meio to
estranho e adverso!

Passado o sofrimento que nos crucifica, tirados do logar em que fmos
martirisados, olhando a frio para o que nos fizeram sofrer,  que
verdadeiramente compreendemos e sentimos a dr, mas com um sentir
retrosptivo que se torna tanto mais agudo quanto maior  a convico do
que foi a nossa miseria.

Durante o sofrimento a sua propria vehemencia nos atorda e d um
anestesico moral, que  a unica compensao para os que tm sentido
pesar sobre si a infinita maldade humana.

Quantas vezes, lendo a historia do passado, no nos atravessa o espirito
a dvida de que fsse possivel ao fragil organismo humano resistir aos
ferozes martirios fisicos e morais que as paginas ensanguentadas de
todos os povos nos mostram; mas, olhando em roda de ns, sabendo o que
se faz ainda hje e que a tirania j no pode esconder ao nosso
conhecimento, porque os protestos dos condenados resam mais alto na
consciencia humana ou os nossos ouvidos se apuram mais para os escutar,
convencmo-nos de que  um facto esse embrutecimento sensacional que
pela propria violencia da dr atenua a mesma dr, que quasi nos
insensibilisa  fora de sofrer.

 o motivo porque hje pasmo da resistencia passiva que eu fiz ao
martirio daquelles quatro anos de educao inquisitorial. Ou no
fsse a minha tia uma legtima descendente dos _hidalgos_ inquisidores
que civilisaram a ferro e a fogo os infelizes seus conquistados!


Ora na casa a que pertencia o jardim que confrontava com o fundo dos
nossos, vivia uma familia das relaes dos meus amigos,--fra at a
causa delles virem morar para o nosso lado, soube-o depois.

A Mariquinhas falava-me muitas vezes no Chico, que vivia do outro lado
do muro e era filho da grande amiga de infancia da sua mam. Dizia-me
que nessa ocasio passava elle as frias no campo, e que quando voltasse
eu veria como era gentil e bom companheiro de brinquedos.

E falava com tal entusiasmo do seu pequeno amigo, um belo estudante j
quasi a terminar o curso do liceu, que o meu afto--confesso--se
sobresaltou, e um dia perguntei-lhe ansiosa:

-- Mariquinhas, tu gostas mais do Chico do que de mim, no gostas?!...

Teve um fino sorriso incompreensivel para a minha ingenuidade lrpa e
respondeu-me com o ar ironico duma verdadeira mulher:

--Elle  um rapaz, e tu uma rapariga.

--E isso que tem para sres mais sua amiga?

--Tem tudo. No  a mesma coisa.

No percebi como podesse existir tal diferena nos aftos, mas
resignei-me a ficar sem mais explicaes para que o sorriso de desdem
com que a Mariquinhas acolheu a minha evidente tolice no lhe aflorasse
de novo aos labios finos.

Bastas vezes me ficava meditabunda, entristecida, perguntando a mim
mesma se nova complicao no viria por aquelle lado entenebrecer a
minha pobre existencia, onde se abrira uma nesga de co azul.

Felizmente no foi assim. O Chico, apesar de mais velho do que ns dois
anos, foi um timo companheiro das nossas tardes de recreio.

A Mariquinhas ao p delle tornava-se mais senhora, mais cheia de
gravidade e importancia, sorrindo-se para o Chico quando eu dizia alguma
infantilidade, como uma me que acha encantadora a ingenuidade do seu
filhinho.

E bem criana que eu era, apesar dos meus quatorze anos, ao p da
Mariquinhas, refltida, instruida e sria como o no so muitas mulheres
feitas.

O Chico, que j ento era um sbio em miniatura, ensinava-me muita
coisa, lia-me lindas historias de viagens e descobertas, que era o que
mais o interessava, e explicava-me cheio de paciencia as minhas lies.

Saltava pelo muro para o quintal da Mariquinhas, de maneira que no
fsse visto de minha casa, com receio de sobresaltar a _estrangeira_, e
vinha tr comnosco associando-se aos nossos brinquedos com um bom humr
que nos encantava.

Que a Mariquinhas e o Chico esboassem j ento um destes idilios
deliciosos de infantilidade que so s vezes o princpio de grandes e
puros aftos, que se enroscam na alma e influem para sempre na sua
modalidade, pode sr, mas que eu no compreendia nada dessas
precocidades sentimentais,  tambem certo!

Foi nesta altura da minha vida que entrou para criada da nossa casa a
menina Eulalia. No sei de que terra ignorada de provincia teria vindo
aquelle especimen bem acabado da criada alfacinha, mas  certo que ella
j trazia o cunho particular, os vicios e o geito dessa peste que entra
nas casas como a traa na roupa. Que diferena entre essas criaturas
falsas, interesseiras e intrigantes e as nossas criadas da provincia, 
moda antiga, um pouco boais e confiadas,  certo, vivendo com os
amos numa certa igualdade familiar, mas to fieis, to amigas e
carinhosas para ns! A Maria Augusta, coitada, com quanta ternura eu
pensava na ba mulher que nos criara com extremos de me, e tanto
chorara a ultima vez que me fra vestir, para a jornada!

E a cosinheira solcita e desembaraada, que nunca esquecia de meter na
fornada semanal do po de milho, para os criados, os blos para os
meninos?! E a _paquta_, a pequena criada que se vai avesando de criana
aos usos da casa, e , s vezes, no futuro, a melhor de todas?! E a de
fra, encarregada da criao e dos porcos, que nos trazia abadas de
fruta quando ia s propriedades distantes?! E os criados, desde o rapaz
dos recados ao feitr, como toda essa gente era sincera julgando-se na
sua propria casa--dizendo as _nossas_ casas, as _nossas_ matas, as
_nossas_ rendas!...

Quanto melhores, apesar dos defeitos de educao que lhes notava a
mulher de meu tio, do que essa turba avarenta e mal educada que vi
desfilar por sua casa durante os quatro interminaveis anos que l vivi!

Eulalia era baixa e magra, as faces manchadas, os dentes postios, os
cabelos frisados, e uns olhos pequenos e inquietos que nunca se
fixavam em ns com franqueza.

No gostava della intimamente, mas acostumara-me j a nada mostrar dos
meus sentimentos e nada, pois, lhe disse que a fizesse supr tal antipatia.

No entanto, ella compreendeu desde logo que eu era pouco na casa, e
ria-se de mim com a _Ll_ (o nome familiar da pequena de meu tio), que
enchia de falsas caricias. Tinha grandes demonstraes de afto pela
_sua rica senhora_, a quem lisonjeava para despertar a sua generosidade,
que percebera existir quando gostava das criadas, o que no era vulgar.

Com o meu tio, cada vez mais doente e enfraquecido, ninguem se dava mal.

Portanto, ia a menina Eulalia sr a primeira que por l se conservasse
mais de um ms ou dois.

Era mais uma criatura hostil a seguir os meus passos, mais uma bca a
denegrir o meu procedimento, mais uns olhos a espiarem-me, e um
pensamento lerta que se exerceria contra mim.

Apesar disso, as minhas relaes com a Mariquinhas no afrouxavam, e a
mulher de meu tio no se opunha a ellas porque encontrara emfim o meio
infalivel de domar o meu orgulho e fazer-me docil e estudiosa. 
simples ameaa de me prohibirem esses momentos de desafogo, no havia
nada que eu no fizesse! Se era a unica felicidade para o meu corao--e
o sr humano tem della tanta necessidade! Nem os professores j se
queixavam de mim, que a Mariquinhas e o Chico tinham-me tornado quasi
estudiosa, com os seus conselhos e com os seus exemplos.

O tempo nunca pra e por peor que estejmos corre do mesmo modo veloz,
ainda que tal nos no parea, dobradas como so as horas de amargura. J
ia para quatro anos que ali estava e, relativamente, os ltimos dois,
desde que conhecera a Mariquinhas, tinham sido de relevado encanto para
mim. No pensava nem queria pensar no que me rodeava, para s vr os
meus amigos e com elles viver, mesmo quando ausente.

Foi ento, quando ns iamos j contar dezeseis anos, que a Mariquinhas
entrou a adoecer.

A toda a hora se sentia mal. A me, muito inquieta mas sem o querer
mostrar, envolvia-a de carinhos, procurava satisfazer-lhe todos os
desejos. Enchia-se de apreenses, e toda a sua alma se enregelava e
tremia num pavr de dres j sentidas a prognosticarem amarguras ainda
inditas.

Pobre me! Era bem certo que a Mariquinhas lhe daria, e breve, o maior
desgosto da sua vida.

O outno vinha chegando, duma estranha doura esse ano, a infiltrar-se
na alma, todo doirado nos poentes tepidos a esmorecerem em lentas
agonias, como nas arvores que se cobriam do oiro das folhas mortas para
mais depressa se despirem e esperarem arrepiadas e friorentas o triste
inverno.

O jardim constelava-se de crisntemos, que na nossa terra tm o
sugestivo nome de _despedidas de vero_, brancos como flocos de neve,
rubros, amarelos, dum rxo desmaiado como leves aguadas, outros de cres
intensas, mesclados e rajados, variando na cr como na frma, desde o
desgrenhado da cabeleira bohemia ao recorte regular da mquina de fazer
flres de papel.

Debaixo do caramancho, que tambem se ia despindo, primeiro das flres,
depois das folhas, a Mariquinhas, quasi deitada na cadeira de verga que
a me lhe almofadava desveladamente, olhava melancolica os seus queridos
crisntemos, que todas as manhs desabrochavam de novo e vinham
preencher a falta dos que se cortavam ou pendiam emurchecidos.

Com as suas mos translucidas, que eram uma das suas grandes vaidades,
entretinha-se por vezes a juntar em ramilhete as flres que eu lhe
ia levando. E mandava-me ir disp-las no gabinete do pai, como outrora
ella fazia. Mas o triste velho  que no lhe achava o mesmo encanto, e
com a cabea entre os braos cruzados sobre a secretria, mal me via
desatava num soluar de criana, que me compungia extraordinariamente.

s vezes mandava-mas cortar duma s cr, e juntando-as num ramo,
dizia-me, sorrindo enigmatica:

--Vs? Gosto mais assim. As brancas junto das outras pareciam-me ainda
mais plidas.  como os doentes ao p dos que tm saude.

Tinha ento manias esquisitas, caprichos inconcebiveis, maus humres,
que me faziam sofrer enormemente. Impacientava-se quando me via chorar
com as suas maldades, mas chamava-me dahi a pouco para me beijar, numa
solicitude, numa splica, de quem deseja sr perdoado.

s tardes, quando o Chico recolhia depois das aulas, pedia-lhe para que
fsse lr-lhe historias, lindos romances, que elle ia escolher  estante
clara, de _rable_, do seu lindo quarto de donzela.

Foi assim que ouvi, como o decorrer dum sonho delicioso, aquelles
adoraveis romances de Julio Diniz, que ficaram sagrados como livro
de rezas para o meu corao de rapariga.

Depois, nem j mesmo isso; s horas a que costumava entrar o Chico,
mandava-me embora, com uma crueldade, um desamr, que me enchia de
desespero e me fazia chorar horas seguidas, com a cabea enterrada nas
almofadas da minha cama para que ninguem suspeitasse do motivo da minha
pena.

Voltavam todos os meus desesperos e tristezas como bando de corvos, por
um pouco afugentados pela alegria.

Dizia adeus s tardes joviais de recreio, adeus a tudo quanto me tinha
consolado de viver!...

Algumas vezes, mas sempre quando no estava o Chico, a Mariquinhas
mandava-me chamar com muito empenho. Ia logo, correndo alvoroada, e
encontrava-a ento carinhosa como nunca, num redobramento de afto e
ternura que me fazia esquecer todos os agravos.

Era ento a Mariquinhas doutro tempo, a ba fada que transformara a
minha dura existencia, o dce e querido anjo da guarda dos meus sonhos.

Uma tarde, em que estava melhor, olhou fixamente para mim, com um
estranho olhar que nunca lhe vira, e disse-me, como quem faz uma
descoberta:

-- Raquel, tu s bonita, sabes?

Eu ri-me francamente, como quem nunca ouvira tal nem se preocupara com o
assunto.

--No... srio!--acrescentou convincente--tens uma cara estranha, que
no  bonita  primeira vista, mas que, pensando bem, te hade fazer uma
simpatica mulher.

E quiz que a acompanhasse ao seu quarto, que tinham mudado para o
rez-do-cho, para que no se fatigasse a subir escadas; enfeitou-me com
todos os seus enfeites e joias, penteou-me de muitas frmas, e batia as
palmas satisfeita, queria que todos me vissem, perguntava  me: se
realmente eu no tinha o tipo daquella mulher que o Chico lhe trouxera o
outro dia numa magnifica gravura tirada duma revista e era a cpia dum
quadro que obtivera o premio na ltima exposio do _Salon_.

A pobre me sorria, um pouco animada por aquelle entusiasmo que lhe
parecia prenncio de melhoras.

Mas no, aquilo foi como descanso da doena, como que para retomar fora
e voltar ao assalto com redobrada violencia.

Sofria muito, a pobre alma! J mal podia andar; melhor se poderia dizer
que se arrastava, encostada s pessas que a acompanhavam. Tinha
gestos to cansados, sorrisos to murchos, caricias to frouxas, que eu
chorava sem saber porqu, s de olhar para ella.

Queria consolar-me e sorria, mas esse sorriso vinha molhado de lagrimas
e descobria-lhe os dentes descarnados numa bca exangue.

Nunca mais os nossos encontros fram a horas em que estivesse o Chico.
Tambem, pouco me lembrava delle, triste como andava com a doena da
Mariquinhas; mas, quando s vezes perguntava noticias do nosso amigo,
respondia-me to scamente que cheguei a imaginar que estavam mal.

A D. Emilia metia d, e ella tambem olhava para mim fixamente e tinha
uma frase de profundo desconsolo, de quasi inveja, que revelava o estado
do seu espirito:

--Como a Raquel tem sade!...

O mal agravava-se de dia para dia, sem remedio possivel para a pobre
querida que suportava heroicamente todos os martirios que a medicina tem
inventado para prolongar a vida dos condenados. E ella que queria tanto
viver! Tinha tanto amr  vida que nunca tivera seno caricias para os
seus adoraveis dezeseis annos!...

Os pais j sabiam: todos os filhos na idade da Mariquinhas lhes tinham
ido da mesma maneira, com os pobres pulmes esfacelados, deitando
pela bca todo o sangue dos seus corpinhos exauridos, sem que a opinio
dos medicos chegasse a sr uniforme sobre o verdadeiro mal.

Quando o tempo peorou e ella tambem j se no podia arrastar at ao
caramancho, ficava por traz dos vidros da janela para que eu a podesse
vr de longe.

Depois, nem isso, deixei de a vr; e, por mais que espiasse no jardim os
movimentos da casa, raro conseguia saber noticias.

Vivia num tal desespero, agora que, desde que a doena se agravara, no
consentiam que visitasse a Mariquinhas, com mdo de contagios!...

E viver ali, a dois passos da unica afeio que me enchia a alma,
sab-la gravemente inferma, v-la de longe e no poder falar-lhe, era
uma verdadeira tortura para o meu temperamento de impulsiva e apaixonada.

Era uma angustia curtida em silencio, que me despedaava brutalmente o
corao.

Um dia, quando atravessava a cosinha para ir  minha piedosa espionagem,
a Eulalia voltou-se para mim com uma frigideira na mo e disse-me, com
um ar escarninho que me arrepiou:

--A menina Mariquinhas--sabe?--est a morrer.

E ante a dvida, claramente expressa no olhar com que a fitei, esclareceu:

-- verdade! Disse-mo a criada da cosinha. At l ficou o medico esta
noite.

Empalideci, e cambaleei como se fsse perder os sentidos. A Eulalia, que
me dissera a novidade mais por espirito alviareiro do que por
verdadeira maldade, ao vr a minha dr teve realmente pena. Chegou-me
uma cadeira, foi a correr buscar agua, que me obrigou a beber, e tentou
consolar-me. Era tarde. O medico em casa da Mariquinhas a passar a
noite... tinha-me soado como um dobre a finados. Sempre, para o meu
espirito de criana, a sua presena assidua fra presagio de desgraa
proxima. Era a certeza de que a morte, que tantas vezes chamara para
mim, andava perto, a bater  porta da Mariquinhas...

Uma tremura convulsiva fazia-me bater os dentes como se estivesse a
tiritar de frio--era todo o frio da alma que me enregelava o sangue.

A Eulalia consolava-me, apiedada,--talvez que no fundo ella no fsse
verdadeiramente m. A vida, com as suas exigencias e cruezas, torna to
diferentes as criaturas que no tm a alma temperada para as grandes
resistencias!--Porque no pedia eu licena para ir visitar a minha
amiga? Talvez no fsse verdade!...

--Pedir  tia?! Nunca lhe tinha pedido nada, a Eulalia sabia. Era esse o
meu orgulho, a unica coisa que me tornava, aos meus proprios olhos, num
sr independente e respeitavel.

E a criada, muito conciliadora, como se tivesse despertado na sua alma a
natural bondade da nossa raa de sentimentais pelo apiedamento que a
minha mgua lhe causava, ofereceu-se para pedir, como coisa sua, a
devida licena, se eu quizesse...

Eu quiz,  claro. Era a primeira vez que o meu orgulho se dobrava numa
convivencia com a criada, o que me amarrotava e inferiorisava  minha
propria consciencia, que foi sempre o unico julgador que temi.

A licena no veiu logo, para mais cruelmente me fazerem sentir a
dependencia, mas a rapariga no desistiu e tanto disse que  tarde me
entrou no quarto triunfante com a autorisao para ir fazer a visita to
ambicionada.


A noite cahia num agonisar de luz, que as nuvens pesadas de chuva mais
velavam.

Ao entrar distingui apenas frmas indecisas, movendo-se silenciosamente
no quarto mal alumiado. Logo a seguir, no sei quem colocou uma
lamparina de vidro coalhado sobre uma msa, aos ps da cama onde a
Mariquinhas agonisava.

Olhei com dolorida surpreza: ella, que fra to linda, duma graciosidade
que doirava toda uma mocidade que se abria em flr, tornara-se com a
doena pavorosamente feia.

De princpio apenas percebera o estertor rouco, que fazia arfar o seu
corpinho mumificado, e uma frouxa mo muito plida, que apanhava,
inconsciente, a roupa da cama. Depois, com os olhos afeitos  quasi
obscuridade em que me encontrava, fitei-a com terror e no podia, por
mais que quizesse, deixar de olh-la, num crescendo de angustia que me
apertava a garganta e me comprimia o corao.

Chorei ento silenciosa mas desesperadamente, num desnimo de quem v
afundar-se todo um passado de alegrias e no v no futuro luzeiro de
esperana.

A Mariquinhas ali estendida, a sofrer, a morrer, ella to linda, to
gentil, a grrula, algum tempo antes! Ai, pobre, pobre querida, como
desejei sinceramente e como formulei no silencio da minha consciencia o
desejo de que a morte me levasse antes a mim e a deixasse a ella,  ba
fada dos meus sonhos, ao anjo da guarda que descera at  minha
miseria desdobrando as suas brancas azas acalmadoras!

Mas a luz, avivada num momento, bateu-lhe em chapa no rosto, naquelle
plido rosto to completamente mudado; a impresso foi por tal frma
brutal que as lagrimas secaram-se de subito nos meus olhos e um grito de
terror veiu expirar nos meus labios.

Endireitei-me sufocada, e ia fugir, numa revolta instintiva,  miseria
do meu ideal despedaado. Antes, antes a no tivesse procurado vr, e
guardasse na memoria a linda imagem do que fra--dizia no ntimo da
minha alma aquella voz egoista, e to fundamente humana, que faz a
felicidade dos que a podem escutar a tempo.

No sei quem me ciciou ao ouvido:--vai morrer!

E, no sei porque estranha perco daquella inteligencia prestes a
desaparecer, ella me presentiu e me reconheceu. Abriu os olhos, uns
olhos enormes j postos noutro fito; levantou a mo, j quasi
entorpecida; e soltou uns sons inarticulados, que mal pareciam de voz
humana.

--Chamou-a, quer-lhe dizer alguma coisa--murmuraram-me ao ouvido,
empurrando-me para a cama.

Fui cahir, desorientada, de joelhos, junto desse corpinho debil que
tanto sofria para sr arrancado  vida.

E nunca, nunca mais poderei riscar da memoria o olhar fundissimo de
amargura, quasi odiento, com que a Mariquinhas me envolveu toda, como
que sondando-me...

Meu Deus! eu no compreendi, no podia compreender ento o desespero da
pobre alma ao vr-me cheia de sade e de vida, emquanto ella--que tanto
amava e desejava viver!--ia desaparecer, para todo o sempre!

Ai pobre querida, que remorso imenso senti depois! Mas nesse instante,
fixada por esse seu doloroso olhar cruel, senti uma surda revolta que
subiu do mais ntimo da minha alma e me invadiu completamente o
espirito. Toda a animalidade saudavel e forte do meu sr se insurgia
contra a inveja expressa nesse olhar de moribunda--que no queria sr
vencida...

E que tinha ella que invejar-me, se alguns momentos antes toda a minha
vida, toda a minha sade, o meu sangue quente e palpitante, tudo eu lhe
daria de ba vontade?!...

A me, de joelhos, do outro lado da cama, escondia a cabea na roupa
para que os soluos no amargurassem a doente que tudo ouvia e
compreendia.

O pai, enterrado numa poltrona, parecia paralisado pela violencia
extrema da dr.

Dahi para diante no fui mais senhora de mim. Criaturas serviais, muito
prticas em identicas cnas, aconselhavam-me o que devia fazer. Uma
velha, principalmente, apoderou-se da minha pessa e foi-me indicando,
com uma intimativa que no admitia tergiversaes,--o que  costume
fazer uma menina na morte de uma amiguinha.

--Ella quer falar,--segredava-me--pergunte-lhe se quer alguma coisa.

E tocava-me nos hombros, para que me inclinasse sobre a face cadaverica
da Mariquinhas.

Queria fechar os olhos ao ritus de quasi caveira que tinha nos seus
dentes descarnados, e cada vez os abria mais, at que a sua imagem me
ficou to profundamente vincada na memoria, que me vem sobre todas, que
 superior a todas, s mais ridentes como s mais dolorosamente tragicas.

Um som qualquer escapou desses labios que inutilmente se moviam num
esforo para falar, e a velha murmurou, traduzindo o que ninguem poderia
ter compreendido:--Coitadinha, falou no menino Chico!

Depois, tive que apertar-lhe a mo, mas ao tocar na frieza placida desse
corpo que vinha morrendo aos poucos, no sei que onda de sangue me
subiu ardente do corao confrangido, que perdi a compreenso nitida das
coisas e fugi desastradamente, empurrando todos, sentindo atraz de mim
mos de moribundos agarrarem-me nas costas, leves mos feitas de sombra
que no tinham fora j para segurar-me...

Ninguem deu pela minha fuga, suponho, porque logo aps senti o chorar
ruidoso dos que j no tinham que contr a exploso da sua dr diante do
pobre corpo que umas tenues radculas de vida prendiam  terra. Voltei
atraz. A me da Mariquinhas, abraada ao corpo inanimado da filha,
chorava to angustiadamente que eu sentia ao ouvi-la uma dr fisica to
aguda, to sangrenta, como se me estivessem esfaqueando o corpo.

O pai estava sucumbido--era como se o seu espirito tivesse acompanhado o
da filha estremecida.

No sei como sahi dali e me encontrei nos braos da pobre D. Emilia, que
chorava beijando-me com uma ternura que nunca lhe tinha conhecido. E no
sei dizer, tambem, quem me levou para casa e me fez deitar essa noite no
meu quarto onde fiquei transida de pavr, esperando o dia como se com a
luz terminasse aquelle terrivel pesadelo, que me recusava a aceitar
como a verdade irremediavel!

Com a morte da Mariquinhas toda a alegria acabou para mim. Nunca mais
voltei ao jardim, a olhar as janelas do seu quarto, agora sempre fechadas.

O Chico, quando voltou, pensativo e triste, s de longe me acenava com a
mo um cumprimento amigo.

A vida tornou-se-me insuportavel: despida de interesse, vasia de desejo.
Voltei a no estudar, e peor do que nunca tolerava as repreenses,
conselhos e imposies da inevitavel estrangeira. Com o sofrimento
voltava-me a revolta; e, como com os meus dezeseis anos j raciocinava
mais, via melhor as coisas, compreendia que meus pais no me tinham
abandonado...

Sim... eu confesso que me tornei alguma coisa dificil de aturar. A tia
queixava-se, queria domar a selvagensinha--como me tratava--e
convencia-se que havia de vencer o meu espirito rebelde.

Mas isso, j o devia saber, era menos facil do que sujeitar uma aguia a
viver numa capoeira.

Uma tarde, encostava-me aos vidros da janela do meu quarto quando na rua
vi passar o Chico.

Sorriu-se para mim e perguntou-me se estava doente, to demudada e
triste eu lhe parecia. Mal o vi, uma onda de lagrimas me subiu aos olhos
e retirei-me soluando da janela, sem atinar com palavras com que
respondesse  sua surpresa.

Nesse dia chorei sempre, e j a noite ia adiantada quando me levantei da
cama, acendi a vela, e assim mesmo, em camisa e descala, fui escrever
ao Chico a contar a minha dr, dizendo-lhe o meu desespero, e
pedindo-lhe que me livrasse daquella priso onde em breve morreria, como
a Mariquinhas,--estava certa! Escrevia, pela primeira vez, tudo quanto
sentia, vertiginosamente, sem pesar as palavras, surpreendendo-me a
escrever melhor do que se falasse...

Depois da carta escrita e arrecadada debaixo do travesseiro, eu puz-me a
imaginar o que faria o Chico. Certamente no me abandonaria  minha
sorte, correria em meu auxilio como paladino doutras eras...

O que uma cabea de rapariga arquiteta aos dezeseis anos na sua primeira
noite de insnia!...

Toda a minha esperana era o Chico--se elle me faltasse, o mundo
acabaria para mim!

De manh reli a carta, que me pareceu ainda dizer pouco do que sentia, e
tentei escrever outra--que me sahiu peor. Meti-a no bolso e fui ao
jardim com ideia de a entregar ao meu amigo, mas um invencivel
acanhamento fez-me voltar para casa.

A Eulalia, na cosinha, parecia adivinhar a minha inteno, e disse-me,
maliciosa, muito habituada a _fazer de capa_ s meninas que servira--O
menino Chico est aqui em casa da S. D. Emilia, entrou ha pouco para l.

E eu, fingindo uma grande serenidade, que ella bem conheceu ser
falsa:--Ah, sim?! Eu queria entregar-lhe uns papeis... uma carta... que
a Mariquinhas deixou para elle.

A mentira fez-me crar, balbuciar; envergonhei-me de mim mesma.

--Se a menina quer, eu levo-lha l...

E quiz. E ella levou a carta, emquanto eu ficava ansiada, mal contendo o
corao, que parecia saltar-me no peito.

--Elle disse que respondia j--veiu a Eulalia, toda prazenteira,
anunciar-me.

Recolhi ao meu quarto, muito triste, sem saber o que fazer, at que a
carta do Chico viesse trazer-me a esperana ou a morte.

Como aos dezeseis anos a vida se nos apresenta duma simplicidade que no
admite a resignao nem a tolerancia!...

No tardou muito sem que a Eulalia viesse, com um ar de camaradagem e
cumplicidade que me irritou, trazendo a resposta do Chico debaixo
do avental.

Recebi-a simulando indiferena, e p-la de lado, sem a querer abrir
emquanto os seus olhos maliciosos ali estivessem a prescrutar os meus
sentimentos, como que a assoalhar-me a alma...

Desconcertada pela minha atitude, sahiu; e ento, tremendo como quem
comete uma o criminosa, rasguei o sobrescrito, e li e reli cem vezes,
com os olhos turvados, as poucas linhas que o Chico me escrevia:

_Raquel:_

Obrigado pela sua carta e pela confiana que deposita em mim. Escreva
aos seus pais contando-lhe a sua tristeza e mande-me a carta que eu me
encarrego de lha fazer chegar s mos. A Senhora D. Emilia e a mam
acrescentaro algumas palavras para dar fora s suas queixas. Todos nos
interessamos pela nossa amiguinha Raquel e temos muita pena de a vr
sofrer. Creia na dedicao e afto do seu amigo--Chico.

No era muito para o que eu tinha sonhado, mas era alguma coisa, era o
apoio moral que me faltava.

Sentia-me protegida e amada, e isso era o bastante para me tornar feliz.
Relia ainda a carta, que ia meter no seio, quando a porta do quarto
se abriu de improviso e a cara detestada da minha prima apareceu
perguntando-me, trocista:

--Ento a menina recebe cartas de namorados e no diz nada  gente?!...

--Vai-te daqui para fra!--gritei desesperada.

--Ah, ests assim soberba com o teu Chico?! Pois eu direi  mam, deixa
estar!

--Importa-me pouco a tua me, dou-lhe tanta importancia como a ti--e,
empurrando-a com violencia para o corredor, fechei a porta por dentro.

A rapariga vingou-se: foi levantando um grande alarido de queixa que
tudo contou  me. E no tinham decorrido talvez cinco minutos sem que a
abominavel criatura no estivesse a bater com violencia  porta,
gritando como possessa para que lha abrisse.

Com uma serenidade de que ainda hje me surpreendo, fui abrir, e ficando
entre portas perguntei, sem me alterar, o que desejava.

--_Oh! No ter vergonha! Menina dizer a mim voc recebeu carta dum
maroto e pergunta o que mim quer! Vr esse carta j! Vergonhas,
vergonhas, dar maus exemplos a meninas! Quando vier seu tio mim dizer
tudo!..._

E a torrente de destemperos parecia no se estancar.

No meio daquella gritaria poude apenas levantar a voz para lhe dizer
resolutamente:

--No lhe dou a carta, pode berrar  vontade.

Perdeu ento de todo a cabea e fez um gesto de ameaa, que me desvairou.

--_D-me carta j!_

 sua violencia respondeu a minha violencia. O meu carter altivo, o meu
temperamento indomavel, a minha educao livre, o meu proprio sangue,
que vinha de herois, tudo se poderia amoldar e quebrar na luta surda e
persistente de todos os dias; assim brutalmente, pela violencia, dava-se
a reo que produz a revolta.

Ergui-me duma s vez a toda a altura do meu orgulho e tornei-me soberba
de energia desesperada.

--Dar-lhe esta carta?!--E passei-lha insolentemente por diante dos
olhos--Nunca! Fique sabendo, nunca! Prefiro enguli-la.

As palavras vinham-me aos labios tumultuosamente, numa abundancia que me
espantava.

Ento, a terrivel criatura vomitou coisas abominaveis que me insultaram
infamemente e das quais--tenho hje quasi a certeza--, na sua ignorancia
do portugus, ella no sabia o verdadeiro sentido.

Uma onda de sangue me subiu ao rosto e me turvou os olhos; toda a
candura da minha alma, todo o pudr do meu corpo de virgindade absoluta,
se insurrecionou. Fitava-a, desvairada; sim, creio que, se no recuasse
e no baixasse as mos que tentavam prender-me, a teria estrangulado.
Sahi do quarto violentamente, empurrando a Eulalia, que observava
sardonica a cna que preparara com a sua baixa intriga. Ao contacto do
seu corpo a minha raiva explodiu com mais furr:

--V, sua canalha!--gritei-lhe halucinada--v chamar gente para lr as
cartas que me traz!

Estava cega, como um toiro de ba pinta longamente encurralado, quando
lhe abrem a porta do curro e entra na praa louco de furia, correndo
para um e outro lado, fazendo saltar para a trincheira, como bonecos, os
toureiros que de longe o irritam agitando as capas vermelhas.

A pequena agarrou-se a mim, aos gritos, mas rolou para o meio do cho
com uma bofetada; e a porta da cosinha aberta, com um pontap, que fez
cahir um vidro que se estilhaou no cho, enfiei por ella, sem bem saber
o que fazer, e achei-me no jardim.

Dum pulo saltei a sebe florida que separava o nosso jardinsinho, agora
abandonado, do da D. Emilia, e entrei-lhe como doida pela casa dentro.

Ento cahi-lhe nos braos, soluando perdidamente todo o meu desespero
desfeito em lagrimas.


 noite o meu tio veiu buscar-me. Deu-me conselhos, tratou-me com muita
bondade, desculpou a mulher, pediu, ordenou... Nada conseguiu.
Agarrei-me  me da Mariquinhas, e de tal maneira me impuz ao seu pobre
corao de me to dolorosamente experimentado que ella pediu a meu tio
que no insistisse. Eu ficaria com ella emquanto os meus pais no
resolvessem o incidente.

O meu tio concordou, vencido pela palavra persuasiva e dce da minha
prottora, e ao sahir bateu-me na cabea e disse-me com ternura
maguada:--Ah, cabecinha, cabecinha louca, que herdaste, por teu mal,
todo o sangue rebelde da nossa familia!

E sahiu, desculpando-me no seu ntimo, elle o rebelde doutro tempo,
vencido agora pela doena e dominado, contra vontade, sabendo muito bem
que o era, s para no desencadear a tempestade caseira e no aturar o
genio furibundo da mulher. Pobre e querido tio! Ninguem reconheceria
nesse velho alquebrado, mas ainda de soberbo e distinto porte, o
heroi de tanta faanha que deixara nome entre os rapazes da escola, como
mais tarde entre os colegas do exercito e companheiros de trabalhos e
perigos. Era o nosso sangue, na verdade, que o fazia sorrir, quasi
indulgente, quando me admoestava por tanta loucura; o nosso sangue que o
fizera, quando rapaz, desafiar, ssinho, uma companhia de pequenos
colegiais como elle, e que o fizera, mais tarde, responder sempre com
soberba quando se julgava desrespeitado, mesmo por um superior
hierarquico...

Pobre tio! Com quanta saudade recordo hje o seu bom sorriso quando,
longe da companheira, nos contava anedtas e aventuras que nos perdiam
de riso. Como teria sido adoravel, sem essa servido dum casamento
abominavel, a que no soube nem poude fugir!...

Foi ento que escrevi aos meus pais contando-lhe o longo martirio
daquelles quatro anos em que me tinham afastado do seu carinho.

Disse-lhes o meu desespero, o meu horror  tia e aos seus mtodos
educativos, e recordei com pungente saudade a feliz infancia que me
tinham feito a contrastar com aquelle inferno de todos os dias e de
todas as horas.

E como os meus nervos sobreexcitados faziam a penna galopar pelo papel
desabaladamente, estou certa que nada deixei por contar.

A D. Emilia e a me do Chico cumpriram o que tinham prometido;
escreveram comigo para desmanchar qualquer m impresso que o meu
procedimento podesse despertar no espirito dos meus pais.

Que dces dias de serena paz eu passei ali emquanto no veiu a resposta
 minha carta--que fram os meus proprios pais que em pessa me quizeram
vir buscar.

Uma tarde o Chico entrou--vinha despedir-se. Eu trabalhava junto da
janela, num bordado que a D. Emilia me dera para fazer, porque entendia
que sempre as mos deviam estar ocupadas e o espirito prso a qualquer
trabalho manual que, por insignificante que parecesse, era muito na
disciplina moral do nosso sr. Era a esse constante labr das suas
habilissimas mos, que a ba senhora atribuia o resistir ainda  sua dr.

Estava s; a D. Emilia fra dentro chamada pelo marido, quasi sempre de
cama desde que se dera o grande desastre para o seu corao de pai que
na unica filha posra todo o seu afto e esperana.

--Que trabalhadeira ests!--disse-me o Chico, sorrindo, porque ao
entrar eu nem sequer erguera os olhos, que dantes o fitavam confiantes e
fraternais.

 que as palavras impudicas da estrangeira acudiam-me  memoria e tinham
maculado para sempre a inocencia do meu afto por elle.

Sorri  sua graa, mas com um sorriso to maguado, que o Chico, vibratil
e bondoso como , logo percebeu que no estava bem. E, muito carinhoso,
quiz saber se estava doente, se me doa alguma coisa.--No,
no,--respondi nervosa e sacudida--doena no tinha... mas lembrava-me o
que tinham dito de ambos, e isso incomodava-me fortemente.

E elle quiz saber o que me dissera a tia, o que dera causa  grande
cna, de que ainda ria, s em pensar nella.

Cuidava que era ainda a pequena e ingenua Raquel que elle e a
Mariquinhas quasi amavam como filha, e que o meu to revoltoso fra
apenas um capricho de criana endemoninhada e voluntariosa. Mal supunha
que uma alma de mulher, de subito despertada, sofria e palpitava dentro
em mim.

Subitamente as lagrimas vieram-me aos olhos e comearam a correr, sem
que eu as podesse estancar no leno encharcado, que mordia em
desespero.

Passara, sem transio, da insensibilidade quasi completa de quatro anos
 mais disparatada pieguice.

Por nada as lagrimas me vinham aos olhos e corriam sem cessar.
Desesperava-me contra mim mesma; queria vencer-me, e no podia!

O Chico, muito comovido, abraava-me e beijava-me para me socegar, como
fazia sempre, com a simplicidade carinhosa dum irmo mais velho, sem
suspeitar a confuso em que eu me debatia.

Aproveitando um momento de mais calma para os meus nervos, disse-lhe
para mudar de conversa:

--O Chico vai-se manh embora e nunca mais se lembrar de mim; eu
tambem vou para to longe!

--Que tolice, nem que em Portugal haja longes!...--respondeu a rir,
emquanto eu me afastava um pouco, porque as suas caricias me
sobresaltavam e faziam mal.

--Pois sim, Coimbra no  muito longe, mas os estudantes que l andam
no pensam a srio em coisa nenhuma e tudo esquecem quando l chegam.

--Quem te disse tal?

--As raparigas da minha aldeia, quando cantavam:

    O amr dum estudante
    No dura mais de uma hora
    Tca a cabra vo para a aula
    Vm as frias vo-se embora.

Quando isto  o amr, o que far a amizade!?

As lagrimas tinham-se transformado em riso--ria agora convulsamente.

--Isso so cantigas! No penses isso de mim, Raquel. Ha rapazes loucos,
mas tambem os ha srios, como eu...

--No acredito! O Chico vai esquecer-se de mim, e quando fr para a
aldeia nunca mais o verei nem saberei de si! Antes queria
morrer!...--tornava a chorar, visionando-me s, sem vontade nem gosto
para viver.

-- Raquelsinha, no diga isso, no a esquecerei nunca,--que tolice! Os
amigos de infancia nunca se esquecem, creia. Nem to pouco esquecerei a
Mariquinhas.

--A essa,--solucei, num sentimento de magua mortificado com uma
pontinha de inconsciente ciume--a essa no a esquecer o Chico, no!...

--Mas porque menos a ella do que a si?

--Ento o Chico no era namorado da Mariquinhas?!--perguntei numa
ansiedade de dvida que se deseja no vr confirmar.

-- Raquel, no diga isso! Quem lhe meteu na cabea uma loucura
dessas?!--perguntou indignado.--Ento no eramos como trs irmos, trs
companheiros de brincadeira?!...

--Ninguem me disse nada. Eu hje  que pensei, depois do que ouvi l em
casa, que podia sr que o que se lembravam comigo fsse com ella... s
vezes a Mariquinhas parecia que me tinha raiva, e porfim j no queria
que brincassemos juntos... lembra-se?

--Sim,  verdade. No tinha pensado nisso. At pediu para a no visitar
quando estivesse a Raquel, porque a sua alegria a incomodava...

Pobre Mariquinhas! A sua figura esbelta e linda levantava-se a nosso
lado reclamando a sua parte de afto, mas o seu rosto pacificado pela
morte j no exprimia o vago ciume com que tanto nos mortificara. A sua
recordao unia-nos numa afetuosidade e numa saudade igual.

--Mas ento--disse o Chico, surpreso--a Mariquinhas supunha que ns
eramos namorados?! Pobre amiga! Uma criana como a Raquel era...

--Eu no percebi nada--respondi ingenua--nem supunha que era to sua
amiga... Nem que esta amizade era diferente... Hontem  que compreendi
tudo!...

--Mas hontem, porqu? Disseram-lhe mal de mim?!...--perguntou assomado,
numa daquellas fogosas cleras que ensombram rapidamente o rosto do meu
amigo.

--De si, no!... Foi de mim. A _estrangeira_... disse-me coisas,
coisas... que s pensar nellas me faz mal!

Crei e baixei os olhos numa confuso, vendo-o sorrir, j desanuviado.

Curvando-se para mim, perguntou-me baixinho, numa caricia que estava
toda na doura da voz:

--Disse-lhe que era minha namorada, no foi?...

Abaixei ainda mais a cabea sobre o bordado, no querendo responder uma
afirmativa que me confundia.

--E no o quer sr, de verdade, Raquel?... Ser a minha noiva emquanto
andar a estudar, e a minha mulher, a minha companheira, quando eu j
ganhar dinheiro para os dois...

Sorria embevecida, olhava-o cheia de desejo de lhe dizer que sim e
saltar-lhe ao pescoo, numa alegria louca; mas ficava-me calada,
perturbada, sem saber verdadeiramente distinguir at onde me seria
permitido mostrar o meu entusiasmo segundo as praxes que a _tia_, dizia,
eu ha muito tinha desprezado impudentemente.

O Chico compreendeu; e, no precisando ouvir mais, pegou-me dcemente na
mo que conservou entre as suas emquanto conversavamos a meia voz,
sorrindo enlevados, contando coisas, recordando factos, que reconhecemos
nesse momento srem significativos daquelle desenlace.

Ha muito tempo que eu era a sua mulhersinha--recordou o Chico
sorrindo--nas brincadeiras em que a Mariquinhas, j mais consciente,
reservava para si sempre os papeis de rainha ou fada, que iam to bem 
sua gentil figurinha de estatueta.


Foi nessa tarde deliciosa de fim de inverno, com o testemunho das
camelias brancas, que a Mariquinhas adorava, e na vespera delle ir para
Coimbra e eu recolher  velha casa paterna, que ns ligmos para sempre
as nossas existencias, que dissemos essas mil palavras banais que nada
dizem para os outros e so, num momento unico da vida humana, as
verdadeiras palavras sacramentais que ligam duas almas numa comum e
deliciosa aspirao.

Foi nessa tarde, que remiu para o meu corao anos de sofrimento, que
tramos a azul e oiro o futuro ridente que hje estamos desfrutando.


Com a vinda de meus pais, trocadas explicaes e desculpas entre elles e
os tios, sem que eu fsse obrigada a vr mais a minha faanhuda inimiga,
a tranquilidade e a alegria voltaram de novo ao meu espirito, que em
breve se refez e normalisou na serenidade da vida alde.

O Miguel, que j ento era um estudante muito cuidadoso, tornou-se em
breve o amigo inseparavel do Chico, que teve sempre meio de repartir as
frias entre a antiga familia, que o adorava, e a nova, onde no era
menos querido.

At o Padre Z discutia com elle pontos graves de historia romana e
ficava boquiaberto com a sabedoria dos rapazes de hje... e da qual nos
riamos a valer, indo depois s escondidas folhear o Larousse onde
procuravamos citaes e factos para confundir o santo velho.

A Maria Augusta, essa s pedia a Deus que a deixasse viver at vr na
capela da casa, abenoado por Deus e pelos homens, um par que era
tanto do seu agrado.

E agora, realisado esse ideal,--que reuniu  mesma msa duas familias
que ficaram sendo s uma, naquelle grande jantar de nupcias a que
assistiu toda a parentela dos arredores--ella espera ansiosa porque lhe
seja permitido apresentar ao Padre Z, de capa de asperges e estola
rica, um menino que hade vir breve de Paris numa condessinha de flres,
e para o enxoval do qual trabalhamos dia e noite com a mais rtila e
alvoroada alegria.

--Com o vestido de antiga seda cr de rosa e grandes ramos prateados,
coberto com o vo de tule bordado, que a mam guarda na grande arca dos
enxovais, eu verei como ir lindo!...-- o que me assegura a Maria
Augusta, que recorda outros batisados celebres na familia, e o meu
principalmente, que, crescidinha j, por doena do padrinho, me
desesperei iconoclastamente com o _sal da sapiencia_ e arranhei a cara
ao padre!

No se esqueceu de recomendar ao Chico, uma vez que elle foi a Lisba,
que deixasse feita a encomenda dos bolos para a festa e de confeitos
para a rapaziada, que assim encher de benos o batisado...

Isto emquanto a ba mam d volta ao bragal, desmancha lenes e finas
bretanhas, e manda ao soto buscar o lindo bercinho em que nos criou a
todos, e que j espera, forrado e engomado de fresco, pelo pequenino
dno...--ou dna?!...

E, seja o que fr, bem vindo ser ao nosso lar e... j o jurmos: s ns
o educaremos e guiaremos nos seus estudos, porque, sahindo, como poder
ser,  me, no ser facil meter-lhe grandes sabedorias na cabea.


Esquecia-me dizer que o meu pobre tio est emfim descansado, livre da
mulher que to amarga lhe fez a existencia, bem encafuado num mausoleu
de marmore, onde ella o vai vr a miude, naturalmente para lhe dar
conselhos o reprimendas. Dizem-me que na sua opinio eu sou o mais
execravel dos animais ferozes, e ainda treme de raiva s em pensar na
minha negra ingratido. A filha prepara-se para casar confecionando o
enxoval e aprendendo a sr uma admiravel dna de casa, capaz at de ser
professora numa escola de _mnagres_, mas os noivos  que, como sempre
assustados com o merecimento da mulher, j lhe vo tardando um pouco.

O pai da Mariquinhas morreu, e a D. Emilia resigna-se a viver para
chorar todas as lagrimas da sua bela alma pelo marido e pelos filhos,
sempre vivos na sua lembrana.

Sente por ns um dce carinho, que nos enche de reconhecimento, e todos
nos juntamos na saudade da querida morta, a linda Mariquinhas, que to
ntimos e indissoluveis tornou os nossos aftos.




IV

Sacrificada




SACRIFICADA


I

Quando Manoela entrou para o convento, todas as freiras e recolhidas
correram apressadas  grade do cro para conhecerem a nova companheira,
de que a superiora, Soror Gertrudes, ha muito anunciara a vinda.

Falavam a um tempo, riam satisfeitas com aquella diverso, que
desmonotonisava a vida fastienta de todos os dias, emquanto que ella,
nervosa e plida, as olhava assustada, como quem entrev, sem o
compreender, um mundo estranho.

Sentia-se abandonada no mundo, sem um afto ou uma iluso que lhe
devesse dar o desejo e a alegria de viver, mas, apesar disso, aos
seus dezeseis anos encantadores no sorria positivamente a ideia da priso.

Era to dce o sorriso triste que lhe errava nos labios, e a sua voz,
ligeiramente cantada, com o sotaque provinciano, era to fresca e
cariciosa, que as bas freiras a consideraram desde logo um anjo do
Senhor, mandado para as consolar naquelle triste fim da sua casa religiosa.

Encheram-na de presentes: uma trazia-lhe uns bentinhos, outra uma lmina
ingenua, salpicada de papelinhos doirados; rendas finas, outrora feitas
na casa; dces, especialidade do convento; coisas insignificantes, que
eram no entanto toda a sua fortuna.

E ella sentiu-se assim prsa pelo reconhecimento, integrando-se numa
vida que em breve seria tambem a sua.

A me perguntou-lhe: se queria entrar desde logo para o convento ou
ficar alguns dias fra, para vr a cidade.

--No; se tinha que entrar ali, ento que fsse j. Vr a cidade para
qu?! Que lhe importava a alegria, o movimento, a luz,--aquilo que era a
existencia da outra gente?

No estava ella perdida, morta para o mundo, despedaado tudo que tinha
feito o encanto da sua propria existencia, que era agora uma coisa
parte, fra da normalidade?!...

A me aprovou, contente com aquella resoluo; ansiava por a vr
entregue aos cuidados da ba tia, Soror Gertrudes, que a recebeu
soluando de contentamento e magua--alegria de tr a sobrinha junto de
si, fundo desgosto pela sua imensa desgraa.

Porque era uma historia um pouco triste, a dessa rapariga, que assim
vinha esconder a sua vida em flr no silencio dos longos corredores
cheios de sombra, adormentar o espirito nessa vida que j pertencia ao
passado.

Manoela ficara, muito nova, sem pai, e por isso quasi inteiramente
abandonada a si mesma, visto que a me, duma devoo estreita e dum
carter frio e spero, entregava-se por completo  prtica das suas
muitas rezas e oraes e deixava os filhos em plena liberdade.

A pequena, que era uma natureza delicada e emotiva, assim foi crescendo
sem um carinho que lhe afagasse e dulcificasse a existencia,
retrahindo-se numa aparencia de frieza melancolica.

Os irmos, trs rapazes, viviam alegremente, sem cuidados nem canseiras,
caando pelas serras, comendo e bebendo  tripa-frra com os
companheiros, jogando o pau pelas romarias e feiras--senhores
morgados de aldeia que todas as raparigas disputavam para seus pares, e
dos quais todos os homens tinham como honra a convivencia.

O mais velho, bom rapaz, bronco e ingenuo apesar da sua aparencia de
gosador, fra para Coimbra por sua alta recreao, segundo o costume
tradicional dos morgados beires, e por l se ia formando aos
solavancos: _R R_ daqui, guitarradas dali, ceias e patuscadas com os
amigos, sempre alegre e satisfeito comsigo e com os outros.

Ora uma vez, a pretexto de caadas que se faziam melhores que em parte
alguma pelos matagais cerrados das suas serranias, levou, para passar
umas frias na aldeia, o seu mais ntimo amigo e companheiro mais certo
das suas noitadas e _troupes_ em vesperas de feriado.

Cavalgando os possantes cavalos que os criados lhes levaram com tempo,
juntaram-se  caravana dos mais rapazes da regio e seguiram, como era
costume, atravessando vilas e aldeias ao som marcial das cornetas, como
um verdadeiro batalho, que ia diminuindo, no pela morte, mas pela
alegria dos que primeiro encontravam as suas casas e se despediam dos
companheiros at ao fim das frias.

Fram elles os ltimos a chegar ao vasto casaro de provincia, onde a
adega estava sempre aberta, as espingardas carregadas atraz da
porta, e a matilha impaciente tudo invadia, roubando na cosinha, sujando
as salas e quartos, batida pelas criadas em desespero, afagada pelos
amos que riam das suas partidas e se sentiam muito  vontade no meio
daquella desordem.

Manoela era um verdadeiro milagre de graa e pureza num meio to vulgar
e rude.

O rapaz, ao v-la assomar ao alpendre, mal sentira a tropeada dos
cavalos e descer correndo os degraus de pedra que davam acesso exterior
para o andar nobre da casa, para abraar o irmo, ficara deveras
impressionado. Tanto mais que no contava encontrar, numa irm do seu
herculeo companheiro de estrdia, tanto mimo e graciosidade de linhas,
uma tal delicadeza e aristocracia nativa de porte.

 primeira impresso de agradavel surpresa seguiu-se o desejo da posse e
o projto da conquista.

Para que essa criana, ignorante e ingenua, se prendesse a um homem que
lhe falava a dulorosa e enganadora linguagem de vulgar D. Joo, que
para ella representava a verdade, a honra, o ideal supremo porque tantas
outras tm, como ella, sofrido, no era preciso muito.

Um homem honesto ter-se-ia cautelosamente afastado, receoso de despertar
uma alma to confiada e crente, na sua ignorancia infantil; mas elle,
conquistador sem escrupulos, de palidez sentimental e cabeleira
romantica, cantando ao luar fados chorosos que falam de amres infelizes
com tremuras na voz e fundos ais arrastados, dedilhando a guitarra que
solua baixinho caricias de beijos gritando alto paixes estridulas...
Elle, sem alma nem consciencia, viu apenas a flr que se abria  vida e
que as suas mos brutais podiam desfolhar e arremessar depois como coisa
inutil e sem importancia.

Representou, mais uma vez, a vulgarissima comedia do amr-paixo, em que
ella, a pobresita, acreditou, exatamente porque era ingenua e pura,
deixando-se arrastar, sem que houvesse mo amiga que a fizesse parar a
tempo na descida perigosa.

Acabadas as frias, promessas feitas e juradas, elle partiu alegre e
triunfante, ella ficou abismada na mais desesperadora tristeza.

A sadade, fustigando barbaramente a sua pobre alma mal preparada para o
sofrimento, punha-lhe nas faces a palidez da morte e nos olhos
arroxeamentos de incuravel doena.

Os dias fram passando, os mses decorreram lentos e monotonos, e o
desespero ia-lhe tomando o corao avassaladoramente, visto que
elle, o ingrato, nem uma unica palavra lhe enviara a encoraj-la e a
dar-lhe esperanas. Confiando da Ama-Rita o seu segredo, conseguiu da
pobre mulher--que a amava, mais do que aos proprios filhos, porque a
criara com o seu leite--a promessa de receber e mandar as cartas para o
namorado.

Enviou muitas, muitas, mas respostas nunca as recebeu, porque nunca elle
lhas mandou.

Sentindo-se abandonada, quando mais necessario se lhe tornava o auxilio
moral do homem que a enganara vilmente, e no podendo esconder por mais
tempo o seu estado, foi tr com a me implorando proto e piedade.

Contou tudo, por entre soluos e lagrimas, nem tentando sequer atenuar
com uma desculpa a grandeza do delito, como se tivesse um prazer
estranho em se torturar e deprimir, num princpio de expiao.

Quando a me compreendeu o verdadeiro sentido das suas palavras,
possuiu-se dum desespero louco. Levantando os braos e os olhos ao co,
tomava-o como testemunha da sua ignorancia e inocencia em to grande
crime, como se o esperasse vr cahir sobre a cabea da pecadora que
soluava a seus ps.

Mas como do co no baixou nenhum sinal indicador da colera divina, ella
afastou-se brutalmente, prohibindo-a de sahir mais do quarto.

Escreveu ento ao filho, contando-lhe em poucas palavras o que se
passava e encarregando-o de procurar o amigo, e--prometendo um bom dote
a Manoela--fazer com que casassem imediatamente.

Essa carta, mandada pela Ama-Rita para Manoela vr, deixou-lhe no
corao um vislumbre de esperana, naquelle desejo que todos ns temos
de nos agarrar ao menor luzeiro que prediga felicidade.

Mas a resposta no podia sr mais cruelmente aniquiladora:--o namorado
de Manoela tinha casado, pouco tempo antes, com uma prima muito rica, e
nunca mais pensara na criana que ia comear a expiao duma culpa que
era s delle.

No havia pois maneira de legalisar ao pequenino ente que vivia j da
vida da infeliz me, a entrada no mundo e na familia.

Tratou-se ento de esconder um facto--que seria a vergonha para todos.

Levaram-na para uma casa meio arruinada, numa propriedade distante; e
foi ali, entre rochedos desolados e na visinhana lugubre dos lobos que
uivavam a sua fome pelos matagais, que Manoela, entregue aos unicos
cuidados e carinhos da ama, teve uma filha.

Com que dulcido encanto, depois do martirio de algumas horas, em que as
velhas paredes repercutiram os seus gritos lancinantes, ella acalentou
nos braos o corpinho fragil, que era uma parte do seu proprio sr, e
premia sob os seus labios febris a carnesinha arroxeada e setinea da
pequenina face!

Nos olhos, que mal se abriam  luz, queria ella lr um infinito de
ternura; da boquinha, que ainda no sabia sorrir e j sabia chorar,
esperava talvez ouvir palavras de justia e consolao...

E as lagrimas iam correndo serenamente pelas suas faces desbotadas,
lagrimas que eram ainda uma felicidade, que em breve deixaria de possuir.

A Ama-Rita chorava tambem, sem coragem para de pronto lhe arrancar a
criana, como lhe fra ordenado, na impotencia de todas as bas almas
para despedaar uma iluso alheia, principalmente quando toda uma
existencia est suspensa dum sorriso de criana.

Foi ainda a me que a veiu arrancar desse passageiro sonho,
anunciando-lhe como coisa decidida a sua entrada para o convento onde
Soror Gertrudes j a esperava.

Manoela revoltou-se:--o convento, a priso para ella, que apenas fra
uma vitima!?... Pois era tamanha a sua culpa, santo Deus!?...

--Era, sim, to grande que j coisa alguma poderia lavar essa mancha do
seu nome, recahindo sobre toda a familia. Apenas o silencio e a ausencia
poderiam atenuar o mal fazendo-o ignorar do pblico!...

Soluava baixinho, num grande aniquilamento de toda a vontade, escutando
as palavras que sahiam frias e speras da bca da me.

--Bem, irei!--disse por fim Manoela, resignada--mas ao menos quero
levar a certeza do seu perdo, minha me!...

--O meu perdo?! No, nunca poderei perdoar  senhora que assim desce
ao nivel de qualquer camponia sem principios...

Ento, sentindo-se ferida, mais pelo tom do que pelas palavras, que
representavam apenas o seu orgulho de casta, a alma de Manoela
levantou-se tambem com altivez.

Uma revolta surda a tomava toda, partidos definitivamente os laos que a
prendiam a essa me que a repelia sem encontrar uma atenuante  sua
culpa, sem um lampejo de piedade pela sua existencia to cdo anulada.

Embora! Se no lhe perdoavam os outros, absolvia-se ella a si mesma. No
conhecia o mundo; mas a sua consciencia presentia vagamente que no eram
justos acusando-a duma falta que se baseava apenas no preconceito
social, que entre dois cumplices escolhe, para imolar como vtima
expiatoria no altar da hipocrisia, aquelle que pela inocencia e
ignorancia menor responsabilidade apresenta.

Avaliando bem--agora que a vida se lhe antolhava tal qual : cheia de
deveres e responsabilidades para os fracos, livre e tolerante para os
fortes e cinicos...--a perversidade moral do homem que amara, uma grande
repulsa, um grande desprezo lhe invadiu o espirito por tal criatura.

Vieram ento novas cartas de Coimbra nas quais o irmo, numa furia
brava, contava como procurara o sedutor para o matar, como costumava
matar os lobos que lhe ameaavam os rebanhos, e no o podera encontrar.

Apenas lhe souberam dizer: que fra com a mulher passar a lua de mel,
no lhe quizeram indicar para onde. Oh, mas havia de encontr-lo, fsse
onde fsse, fsse como fsse. Quanto  irm, que desaparecesse--no a
queria mais vr!

Manoela sorriu, j conformada.

Tambem ella no tinha vontade de viver mais com uma familia que to
levianamente a abandonara e era agora to cruel na condenao.

--Sim, iria para o convento o mais depressa possivel.

Mas duas condies punha  sua completa submisso: saberia onde ficava a
filha, que no queria deixar entregue ao acaso, como sr desprezivel que
no merece a esmola dum afago; e fariam prometer ao irmo que no
continuaria a perseguir o sedutor. Para qu?! Mat-lo era forarem-na a
lament-lo, quando era apenas desprezo e asco o que sentia por tanta
abjo.

Esquecessem-nos a ambos... Ella entraria desde j para o convento, sem
nenhuma relutancia.

O irmo cedeu, instado pela me, ansiosa por vr o caso liquidado como
entendia sr melhor, sem mais desasocegos e desgostos.

Os outros dois irmos, no tendo entrado na confidencia, admiraram um
pouco a subita vocao de Manoela, mas como lhes no desagradava
inteiramente, pois ficavam assim mais  vontade,--visto que a me, afra
as horas de comer, raro sahia do quarto, a no sr para a
capela--aprovaram a resoluo com toda a ba vontade.


II

Desde que obteve a certeza de que as suas condies eram acatadas,
Manoela ficou aptica e indiferente para tudo.

Deixava-se levar sem resistencia para onde a me queria que fsse. No
seu espirito no havia seno ruinas e desmantelos.

Sempre melancolica, sem raiz que a prendesse  vida, parecia nem sequer
se preocupar com a filha que tanto a sobresaltara de princpio e deixava
especialmente entregue aos cuidados da ama.

--Adeus Ama-Rita,--dizia-lhe na ltima hora--estima a minha filha como
me estimaste a mim, e que Deus a faa mais feliz do que a sua triste
me! At... um dia--em que nos havemos de encontrar.

Mas quando esse dia?... No sabia, no via nada claro no seu futuro.

Encostada  varanda do quarto onde tanto sonhara e tanto sofria agora,
passeava os olhos amortecidos por toda a montanha que limita o
horizonte, e naquella ocasio, em que a primavera tudo cobria com o seu
verde manto, se afofava em cambiantes de pelucia cara.

Ao seu lado, a pobre mulher abafava os soluos que a sufocavam e limpava
as lagrimas  ponta do avental.

Seguira-se a viagem, a cavalo, atravessando terras desconhecidas, onde
gente espantada as seguia com a vista pelos caminhos poeirentos e
pedregosos, deixando-lhe tal confuso no espirito que nunca saberia
dizer por onde passara nem o que vira.

Logo  chegada, a me conferenciou com Soror Gertrudes, tia do marido,
agora superiora do convento, que a pouco e pouco iria acabando pela
morte das ltimas freiras, e onde Manoela foi recebida em festa por
todas essas tristonhas almas encarceradas precocemente envelhecidas.

A me partiu, socegada emfim, sem sadades que a fssem mortificar ou
distrahir dos seus austeros deveres de ba catlica.

Tambem a filha as no sofreu, porque nunca se tinham compreendido nem
estimado aquellas almas, que ninguem diria to estreitos laos uniam,
tal a dessemelhana que involuntariamente as separava.

Manoela parece que vinha, inteiramente, do pai, de quem se lembrava
vagamente, fazendo-a saltar nos joelhos, rindo e chalaando com todos,
enchendo a casa de vida e satisfao. E um dia, subitamente,
estando sentado  msa, do rompimento duma aneurisma morrera.

Quasi se no lembrava do facto em toda a sua nitidez, to longinqua era
essa recordao, que ficara apenas na sua alma infantil como sensao
dolorosa, a primeira tristeza na sua vida to cheia dellas.

Agora vinha encontrar, na tia, o mesmo carter, essa amizade confiante
que lhe faltara, essa alegria que to bem fazia  sua alma dolorida.

Sentia-se envolver naquella atmosfera de paz, que nunca tinha respirado,
e sentia-se bem naquelle esquecimento de tudo quanto a fizera padecer.

Os dias sucediam-se aos dias, de quando em vez cortados por noticias de
casa, que recebia indiferente; o tempo ia correndo sempre igual, com as
mesmas festas aos mesmos santos, as mesmas rezas, as mesmas infantis
preocupaes de vestidos a bordar para o menino Jesus tal ou para a
Senhora de invocao diversa, o presepe no Natal, o dce para a venda, a
mesma comida sempre s mesmas e invariaveis horas.

Mas um dia Soror Gertrudes morreu.

Manoela tinha ento vinte anos. Era uma criana pela simplicidade do
espirito, que ficara ingenuo e ignorante do mal, apesar de tudo,
mas era uma verdadeira mulher pela reflexo e pela dr.

Os ltimos quatro anos passados naquella casa conventual tinham
decorrido num meio sonho vago, que nem chegava a compreender bem.

Depois da catastrofe que lhe angustiara a existencia, a alma
tinha-se-lhe afundado num como branco nevoeiro, que a deixava viver
inconsciente e passiva essa vida comum sem que nella tomasse
verdadeiramente parte.

Dir-se-ia um meio estado sonmbulo de que a morte da tia, a ba Soror
Gertrudes, a vinha acordar dolorosamente.

Como ia sentir a falta dessa querida vlhinha, que lhe dera um afto
todo maternal na solido em que a austeridade da verdadeira me lhe
deixara o corao!

Logo ao entrar, passados os primeiros dias de surpresa, as palavras de
conforto da ba vlhinha tinham sido um grande bem para o seu espirito.

--Aconselhava-a a tr esperana--o futuro traz surpresas que no podemos
prevr.... E ella era to nova, santo Deus, como desesperar?! Socegasse,
estava entre bas criaturas que a amavam, e ella como tia a teria sempre
junto de si. Ainda que o no fsse, estim-la-ia na mesma, bastava
sr uma criana que a desgraa lhe tinha to tragicamente arremessado
aos braos...

Tinha razo Soror Gertrudes--Manoela era bem digna de piedade. Entrada
apenas na vida, era della expulsa com vergonha, e a sua mocidade, que
mal desabrochara, iria fenecer entre as paredes frias dum convento.
Quebrados todos os laos que a prendiam ao mundo exterior, o que ficava
dessa pobre rapariga to admiravelmente feita para amar e sr amada?

Sentia-se cahir pesadamente num abismo. Fechando os olhos, estendeu os
braos em busca dum apoio, e encontrou a mo trmula, o sorriso alegre
na sua bca desdentada, e a face macerada da freira, que para ella teria
carinhos inegualaveis.

Bem sentia ella o cancro brutal, que a ia corroendo lentamente, mas nada
dizia para no afligir a sobrinha.

Sorria dolorosamente quando uma picada mais aguda a fazia levar a mo ao
seio esquerdo, num gesto mecnico, quasi involuntario.

Manoela sobresaltou-se quando as dres comearam a sr mais amiudadas,
lembrando-se da terrivel molestia que de quando em quando assaltava a
sua familia paterna.

A tia socegava-a:--era um _nascido_ que tinha havia muitos anos, no
seria coisa de morte...

Mas nos ltimos trs mses a doena agravara-se caminhando rapidamente
para o fim.

O cancro rebentara, vermelho, luzidio, enorme, deformando horrivelmente
o pequenino seio esteril, branco como o marfim--esse seio que guardara
com tanto recato durante sessenta anos e se mostrava agora na sua
infermidade horrivel.

Quando Manoela o viu pela primeira vez, perdeu a cr, vacilou e s se
conteve por um esforo de vontade, que se manifestava nella com a
revolta natural contra mais esse golpe do destino.

Dahi para diante nunca mais abandonou a tia, assistindo-lhe a todo o
martirisante fim, sentindo, por assim dizer, na sua alma todas as dres
que ella ia sofrendo no seu magro corpo esfacelado.

Foi-lhe infermeira solcita, disfarando a repugnancia que lhe inspirava
a ferida, que se ia arroxeando, com laivos azuis, quasi negros, numa
aparencia ascorosa de podrido. Em volta a ple retesada do peito ia-se
abrindo e esfarelando.

Manoela tinha sempre diante dos olhos a ferida horrivel que to
cuidadosamente tratava, e que era o fim--ella sabia-o--dessa
existencia to querida.

Por fim Soror Gertrudes nem sequer se podia assentar na cama, e ella
assistiu-lhe  agonia, que durou dois longos dias,--lento quebrar de
cadeias que se tinham enferrujado mas no carcomido.

Quando a superiora declarou que chamassem Soror Angelica para a
substituir, porque j se no podia levantar e a morte no tardava, toda
a comunidade acudiu em pranto:--era pois certo que Soror Gertrudes as ia
deixar para todo o sempre?!

Foi-se prevenir o capelo, que a confessou rapidamente, tal era a
inocencia dessa alma imaculada, e quando voltou com a comunho todas as
freiras e recolhidas ajoelhadas em volta do leito choravam
silenciosamente, com os vos negros cahidos sobre os seus rostos de cerusa.

Manoela encostara-se  cama, e a tremura do seu corpo fazia estremecer
esse leito onde a morte j se instalara triunfante.

A ceremonia prolongou-se com o perdo que a moribunda foi pedindo a uma
por uma das suas companheiras, numa voz que era j um co de outra
existencia passada.

Quiz a sobrinha sempre ali, e consolava-a com a esperana dum futuro
melhor. Deixava-lhe o Menino Jesus do Milagre, que fra o seu
companheiro de longos anos, desde que uma senhora freira do convento do
Paraizo ali morrera e lho deixara por lembrana. E deixava-lhe tudo mais
que propriamente possuia, e bem pouco era, naquella vida estreita de
renncia.

Dirigindo-se a Soror Angelica entregou-lhe a sobrinha e pediu-lhe para
ella todo o seu amr e carinhosa solicitude.

Custava-lhe muito deix-la. Deus mandara-lhe ao fim da vida aquella
suprema provao, que fra afinal a maior felicidade de toda a sua
existencia. Quando ella j se sentia cahir na cova, com to egoista
alegria, vinha aquelle afto imenso prend-la  terra com laos to
fortes que ao parti-los metade da alma lhe ficava c.

Fechou os olhos: imaginaram-na morta e j os soluos se ouviam mais
altos. Mas no, era apenas um dormir de extenuamento que breve durou. Ao
acordar j a voz lhe estava prsa no estertor, que causava calafrios a
todas as assistentes.

Fazia esforos para falar, queria talvez dizer coisas que a sua alma, j
quasi desprendida do mundo, via como nunca tinha visto emquanto a
materia a segurava  terra.

Os seus olhos, dum azul plido, como desbotado pelos anos, voltavam-se
para a sobrinha numa nsia derradeira.

Choravam todas por a vr assim, implorando a morte que a viesse libertar
do incomportavel martirio.

Manoela escondia a cabea na roupa, soluando e gemendo apavorada; teria
fugido quelle esptculo superior s suas foras, se a moribunda lhe
no tivesse agarrado desesperadamente as mos como ltima ancora...

A situao prolongava-se pela noite fra, e to pungitiva que todas se
entreolhavam em pnico.

Era alta noite quando uma criada, vinda do campo havia pouco, se props
pr termo quelle martirio, voltando a senhora. E explicava, muito
sabida e vista nessas coisas:--que era o demonio que estava ali, no
deixando morrer a senhora, emquanto estivesse deitada sobre o lado
esquerdo. Vingava-se assim de no lhe poder levar a alma, que era de
Deus, pela muita bondade da Madre-Superiora.

Todas acreditaram piamente na explicao da rapariga; no estava o
_Livro da fundao_ cheio de factos que comprovavam as tentaes e
maleficios do eterno inimigo das esposas do Senhor, especialmente
dirigidos contra as piedosas irms daquella santa casa to rica em
milagres e indulgencias?!...

Aceite o alvitre, voltaram o corpo pesado, que a morte j quasi gelava
completamente, deixando-lhe apenas aquelle imenso sofrimento como
despedida duma existencia de que no conhecera seno as tristezas.

Mal lhe tocaram, despediu num suspiro o ltimo lampejo de vida, tal como
aquelles cadaveres conservados intactos por anos e anos nos seus tumulos
socegados e logo que se lhes toca, trazendo-os ao ar, se desfazem em
p.


III

Manoela sahiu do dormitorio logo que a tia deixara de existir.

Cambaleando, os olhos scos, a alma vazia, sem a sensao dolorosa da
pena, como se a tivessem magnetisado para a furtarem ao sofrimento,
apenas uma necessidade material a impulsionava.

Tinha sno--havia tantas noites que no dormia!

Agora que tudo estava acabado, que no havia uma esperana a
sustent-la, estonteada, inconsciente, deixava-se vencer por esse torpr
que segue a excitao dolorosa de dias sobre dias de esptativa diante
da morte. A natureza retomava os seus direitos, e a reao era tanto
mais violenta quanto fra maior o predominio do espirito sobre a materia.

Logo na pequena sala contigua ao dormitorio, que fazia de livraria,
deixou-se cahir numa cadeira sem fora para ir mais longe.

No dormitorio ia um vai-vem silencioso que mais parecia mover de sombras
num pesadlo. As freiras ciciavam ordens s criadas, acendiam-se
luzes, rezavam baixinho, limpavam as lagrimas que teimavam em
enevoar-lhes os olhos, e levantavam com respeito a morta para a vestirem
como havia de ir para a cova, com o mesmo triste habito que trouxera em
vida e logo ao entrar para o convento, novia ingenua e formosa, lhe
tinham dito que seria a sua mortalha.

E assim, eternamente amortalhada, passava da tristeza de viver ao unico
sno consolador dos infelizes, porque  daquelle que se no acorda para
sofrer mais.

A sua face, serenada pela morte, refltia a suprema felicidade de no
existir conscientemente num triste mundo to cheio de desacertos e
injustias. As freiras benziam-se e murmuravam baixinho, pondo as mos
com devoo:--que o seu rosto de santa refltia j todo o goso da
bemaventurana.

Manoela, abrindo os olhos no meio sno em que ficara embebida, viu os
ps da morta calados com as sandalias da ordem, magros e compridos,
atados com uma fita para no descahirem; e, mergulhando de novo em
letargo, sonhou que esses ps caminhavam por sobre o seu corpo desfeito
e lhe batiam com fora no corao. E a sensao foi to dolorosa e a dr
to forte, que acordou de vez, sentindo realmente uma pontada que lhe
suspendia quasi a respirao e a fez gritar levando as mos ao
peito, sufocada.

Foi quando Soror Angelica veiu tr com ella e a condusiu para o segundo
dormitorio, fazendo-a deitar na sua propria cama, encarregando uma irm
leiga de a vigiar e acompanhar. Ento Manoela cahiu num sno pesado e
mau, cheio de sonhos que a faziam chorar e gemer baixinho como quem se
sente estrangulado, sem poder gritar, e a que a irm leiga punha termo
chamando-a carinhosamente e abanando-a de leve todas as vezes que a sentia.

Era j manh quando a vieram chamar para assistir aos responsos que se
iam fazer no cro e para os quais toda a comunidade se preparava.

Levantou-se sobresaltada, sem nada perceber, como quem acorda dum
terrivel pesadlo e reconhece com surpresa que ainda existe na vida tal
qual a deixara... Atiraram-lhe o vo para a cara, composeram-lhe o
vestido, e levaram-na pelo brao, sem que compreendesse intimamente de
que se tratava. Mas quando se encontrou no cro e viu a morta estendida
no cho sobre um pano preto, entre quatro grossos tocheiros, os padres
rezando os responsos, e toda a comunidade em volta com os vos cahidos e
segurando velas acsas, compreendeu finalmente o que se passava, a
sua alma despertou para o sofrimento intenso da pavorosa realidade.

J no havia dvida possivel, e a noite, que se passara num atordoamento
de sonanbulismo, aparecia-lhe agora em toda a sua nua e horrivel
fatalidade.

Debaixo do vo que lhe cobria o rosto, as lagrimas corriam sem cessar
mas j sem exploso de soluos, to amargas e lentas que cada uma
parecia vir arrastando um pedao da sua alma esfacelada.

Procurava nessa face amada, coberta igualmente com o vo preto, o
sorriso bondoso, o olhar de carinho, que em quatro anos de recluso a
tinham feito esquecer que a vida existia fra daquellas paredes soturnas.

O vo era denso bastante para lhe velar a face, mas nada obstava a que
os seus olhos halucinados vissem, debaixo do grosseiro hbito, o peito
entumecido escancarando-se na repelencia da ferida.

Finda a encomendao, seguiu atraz das freiras, vlhinhas alquebradas e
esquecidas pelo mundo, que assim iriam rareando, uma por uma, na longa
fila que vinha do cro.

Era o ltimo enterro a que assistia ali, porque a nova lei prohibia
enterrar fra do cemiterio pblico e fra no pequeno trabalho para
se conseguir das autoridades aquella exco em favr de Soror
Gertrudes, que era conhecida e estimada em toda a terra.

Manoela tremia de pavr observando a serenidade extatica das freiras,
que no se distinguiam umas das outras, com os vos negros derrubados,
as velas a arder na mo direita, hirtas e silenciosas e graves como
esptros.

L dentro,--quem sabe?--talvez que as suas almas tremessem de frio a
cada sacudidela do vento da morte que ia levando uma a uma as
companheiras de muitos anos, e que nunca mais seriam substituidas.

J no refeitorio iam faltando tantas que, ao meio dia, a hora
antigamente to alegre de jantar,--quando sobre as toalhas de linho
alvejante os moringues de barro de Estremoz marcavam nas msas estreitas
e compridas, voltadas para o pulpito, o logar de cada uma--mais parecia
que a sineta chamava para um banquete de sombras.

Os padres iam compassando os responsos, rodeando a cova onde j
repousava o cadaver, e cada um ia deitando uma p de terra, seguindo-se
na ceremonia toda a comunidade.

Ah, bem feliz era Soror Gertrudes que ainda encontrava um abrigo santo
junto das suas irms, vivendo com ellas no eterno sno, sob o
abrigo das arcarias do claustro florido, acalentada pelo murmurio fresco
da fonte que transbordava na sua concha de marmore. As outras--pobres
dellas!--j no teriam na morte esse mesmo abrigo sagrado e seriam
relegadas a mos estranhas e indiferentes, esquecidas nesse campo
desabrigado e devassado por todos os olhos profanos, que eram os novos
cemiterios.

As velas tremiam nas mos enrugadas das pobres vlhinhas.

Das trinta e trs freiras que o _Livro da fundao_ dava como limite
para a comunidade, homenagem piedosa aos anos de Christo, e que ao soar
a hora, que para muitos fra de redeno e para ellas de mgua, se
preenchera  pressa, abreviando as profisses das novias, j quinze
dormiam insubstituidas sob as lages do claustro.

Sentindo o lento caminhar das vivas, que eram como fantasmas errantes
nesse asilo guardado pela morte, sentiriam a dce iluso de assistirem
com ellas na vida comum.

Olhavam-se apavoradas, as velhas freiras, a cada nova escolhida que a
morte vinha tocar com o seu beijo gelado, e murmuravam entre si:--de
qual ser agora a vez?--terrificadas com a ideia de srem a ltima.

Soror Claudea, com o seu olhar sombrio e desvairado, seguia a ceremonia
funebre com tremuras convulsivas no seu corpo magro de que a loucura
histerica fizera uma ba prsa.

Dantes tambem morriam,  certo, mas a cada cova que se fechava abria-se
a porta a uma novia que tomava o vo preto, e no simbolico nmero se ia
conservando sempre a comunidade.

Manoela soluava agora, vendo cahir a ltima pedra que a separava para
sempre da ba tia, que era a sua unica grande afeio no mundo--to
diluida tinha na memoria a lembrana do passado que a filha era apenas
uma vaga recordao, to pouco pungitiva como a que lhe ficara do pai,
que mal conhecera.


Soror Angelica ficara superiora sem quasi se proceder  ceremonia da
eleio, tanto se impunha a todas a sua inteligencia, a sua energia, e a
sua cultura, rara entre as senhoras daquella casa de regra spera e
humilde.

A nova superiora era uma ba e valiosa amiga para Manoela, considerando
como um dever estim-la tal qual o fizera Soror Gertrudes, que to
solenemente lha entregara.

Mas Soror Angelica era um espirito mais varonil e energico, e, se dava
amizade segura e proto incondicional, no tinha como a tia de Manoela
os carinhos e as delicadezas dum espirito que tinha ficado menineiro
apesar da esterilidade duma vida sem familia propria.

A nova superiora era respeitada por todas; a antiga tinha sido amada e
era chorada como uma ba me.

Se Soror Angelica tivesse nascido anos atraz, seria uma dessas preladas
temidas e escutadas por todos, porque sabiam fazer valer a fora do seu
direito e pesar a influencia das familias, da fortuna e do nome profano
de todas as suas governadas, em qualquer questo que as interessasse.

Se tivesse nascido alguns anos mais tarde, seria, em qualquer campo para
onde dirigisse os seus passos, uma criatura representativa, uma destas
influencias que todos procuram captar para o seu lado porque em toda a
parte entra com o valr da inteligencia, da energia e da tenacidade,
qualidades sempre raras em todos os tempos.

Superiora sem importancia num convento desapossado de todos os seus
rendimentos e que existia apenas emquanto vivessem as ltimas
freiras--como existe, sustentado pela hera que o reveste, o velho
muro em ruinas--Soror Angelica era um desacerto porque era uma fora
inutilisada.

Desde que ficou naquelle quasi isolamento, o espirito de Manoela comeou
a acordar, a debater-se para sahir do torpr em que esses quatro anos
amimalhados lhe tinham adormentado a alma.

Essa loucura ardente da f que despreza o presente pela vaga esperana
dum futuro cheio de delicias, j por vezes a compreendia, exaltada pela
devoo e pelas leituras misticas que a superiora lhe indicava. O
caminho que leva  sara em fogo onde se consomem as pobres almas
doentes, que do as Santas Terezas de Jesus, j por vezes se abria
diante da sua imaginao intiva e do seu corao amoravel to
implacavelmente impelido pelo destino para a solido e o desamr.

Naquelle meio de apertada devoo, no silencio dos grandes corredores
pontuados de capelinhas milagrosas, o seu espirito inclinava-se para um
misticismo apaixonado e obsessivo, como tudo seria naquella alma de
peninsular temperada e subtilisada pelo sofrimento, que vencera sem queixa.

Andava vagarosamente pelos claustros lageados, sentindo-se prsa dum
respeito supersticioso por essas pedras que cobriam corpos
macerados de santas; tinha sorrisos silenciosos, gestos vagos de corpo
apenas vivo pela esperana de se consumir em breve e reviver s em
espirito purificado.

 hora das oraes rituais, assentava-se com as companheiras nos
cadeires de pau santo, que se defrontavam em duas filas sobrepostas e
dantes eram s destinados s professas, e pensava que a vela benta que
as separava era a alma de cada uma das freiras que ardia no amr
apaixonado do Senhor seu Esposo e seu Deus.

O bruxoleamento da luz sobre as paginas do livro de oficios, que seguia
por dever, tinha para a sua mente enfebrecida a significao clara dum
suspirar de espirito aspirando  eterna bemaventurana.

Ali, naquelle cro grande como uma capela, revestido de azulejos
policrmos, cheio de santos e relicarios preciosos, que irradiavam na
meia obscuridade das suas doiraduras e pedrarias, numa luz quasi de
sonho, Manoela gastava os seus longos e inuteis dias.

O cro era, como tinha sido sempre desde que se fundara aquella casa, o
unico luxo, o cuidado e gosto de todas aquellas almas privadas doutras
delicadezas e distres feminis. Privadas at de irem  igreja, que
Manoela contemplava extatica pelas grades estreitas, revivendo a
vaga recordao que lhe ficara do dia da entrada, quando os seus olhos
enevoados pelas lagrimas a tinham visto sem lhe poderem dar o verdadeiro
valr.

O convento nem se via de fra, construido em quadrado por traz da igreja
que o guardava, imperturbavel e austera como sentinela incorruptivel da f.

A igreja era magnifica, nada dizendo com a humildade da regra nem com a
modestia do resto da casa: duma traa arrojada, em que as colunas em
marmore cr de rosa subiam em cordas espiraladas, at se juntarem na
cpula alta e sonora.

As janelas, do nosso gotico rendilhado a que se chama _manoelino_,
conservavam ainda restos dos antigos vitrais, que deviam ter sido dum
brilho e colorido que encheriam de encanto as naves silenciosas.

Os paineis, que a rodeavam, sobresahiam das largas molduras doiradas e
entalhadas, pelo colorido um pouco frio e o desenho convencional e
rigido do estilo que se impunha no tempo em que uma grande dama da crte
se lembrara, apaziguando talvez recordaes importunas duma mocidade
cheia de dces culpas, de fundar aquella santa casa onde,
propositadamente, s  igreja fra dada a magnificencia e o fausto
devidos ao Senhor omnipotente, dispensador de todas as graas,
arbitro de todo o julgamento. Para as Esposas, as virgens oferecidas
como vtimas expiatorias do pecado deleitoso da fundadora, a humildade,
o desconforto, e a asperesa da regra.

Contemplando a igreja, Manoela sentia-se amar um Deus imenso e
magestoso, arrastando purpuras e fazendo refulgir as joias da sua cora
imperial por catedrais goticas de naves resoantes, cheias de grandezas e
misterio. Prostrava-se ante o seu trno de luz nessa crte celestial to
fantastica e deslumbrante, que lhe descreviam as almas crdulas e os
livros piedosos.

O Christo torturado, empalidecido e humanisado pela dr, no o
compreendia ali, no luxo e na grandeza da arte, como o poderia
compreender na igreja humilde da sua modesta aldeia.

Ali era um Deus para camponezes e para as almas simples; aqui era um
Deus aristocratico e soberbo que se impunha aos grandes e aos poderosos.

Prsa naquelle deslumbramento, que a fazia viver uma existencia  parte,
Manoela assim iria gastando a existencia se no viesse um banal
incidente cham-la a si, chamando-a  vida com novos interesses e novos
deveres a cumprir.

Ama-Rita, a ba mulher que nunca a esquecra, escrevia-lhe uma longa
carta, de letra tortuosa, quasi ininteligivel, que ella decifrava a
custo. S passados sete anos lhe escrevia, porque a senhora lho tinha
prohibido e, no sabendo escrever, no confiava em ninguem da terra para
fazer uma coisa contra a sua ordem. Agora era a sobrinha, a Luisa da
Roda, que o fazia. A menina devia lembrar-se della, eram da mesma
criao, tinham brincado bastante em pequenitas... Viera de servir, mas
to doente que o mais certo era no poder voltar. Podiam confiar nella e
emquanto vivesse no teria a menina falta de cartas.

Manoela tinha os olhos rasos de lagrimas ao pensar na pobre rapariga,
talvez tisica, que tinha sido sua companheira de infancia, dessa breve
infancia que lhe vinha, numa lufada s, evocada por essa mal redigida
carta de camponia. Era um pedao da sua rude terra, que a urze e o
rosmaninho incensavam.

Depois, as noticias alongavam-se:--este que tinha ido para o Brazil,
aquelle que voltara da tropa, casamentos, btisados, mortes... e porfim,
numa linha s, como misteriosamente, a causa primaria de se ter escrito
aquella grande carta:--A menina criava-se muito bem; a menina era muito
linda.

Mais nada... E, no entanto, que mundo novo de pensamentos e de paixes
essas poucas palavras desenrolavam diante dos olhos e do corao da
triste reclusa!

O seu espirito, adormentado numa crise de misticismo para que a
predispunha o meio ambiente, reagia agora com toda a energia, porque a
sua alma no era feita para vagas abstraes; antes fra, era, e seria
sempre, uma mulher humana, nascida para viver e sentir humanamente a
vida, com todas as suas amarguras e alegrias compensadoras.

A filha!... Quasi a tinha esquecido, naquelle viver sem consciencia de
si propria, que fra a sua existencia ali.

Como podera resignar-se durante tanto tempo s com a certeza de que esse
pequenino anjo, que era a carne da sua propria carne, vivia, nessa terra
longinqua e spera, sob os cuidados da velha Ama-Rita? Sentia remorsos e
agradecia intimamente  ba servial, que assim a chamava  vida
lembrando-lhe o cumprimento do seu dever.

Relendo aquella frase incolr, sentia que dentro da sua alma se ia
levantando outro altar, criando uma nova religio, que mal sabia como
era dificil de harmonisar.

Encostada s grades da janela do dormitorio, para onde viera na nsia de
se encontrar a ss com a sua propria alma, olhava o campo que se
estendia num verde luminoso, com um castelo ao fundo, na imponencia de
cenografia esptaculosa.

Na cerca a nra gemia e a agua cahia no tanque donde era tirada para as
regas.

Esse murmurar da agua corrente evocava-lhe o passado distante, a sua
terra, o fiosinho de agua transparente a deslisar por entre os choupos,
ao fundo da sua quinta, e aquella pequenina enseada onde se ia esconder,
num desejo calmo de solido, a olhar a agua saltando de pedra em pedra
num grande esforo de quem vem exausto de longa caminhada.

Recordava, com tanta sadade que chegava a sr uma dr material, essa
poca to afastada para o seu espirito que j parecia tr pertencido a
outra existencia, as horas que passara ali ssinha, idealisando um
futuro de poesia e de romance, como o idealisam sempre as mulheres que
uma educao racional no preparou para entrar na vida pela porta ampla
e sem mentidos encantos da realidade.

Recordando todo esse passado, para sempre morto, a sua alma to
cruelmente torturada e to profundamente humana acordava num alvoroo.

Chamavam-na para a vida, e ella vinha toda inteira, corpo palpitante,
corao sangrento pronto a entregar-se a um novo ideal.

Desde esse dia nunca mais deixou de pensar na filha, que se tornou a sua
obsesso; sentia-lhe a vzinha de choro chamando-a me; via-lhe o
pequenino rosto, que idealisava duma pureza de linhas que s igualariam
os anjos das pinturas rafaelescas; tremia com a ideia de que podia uma
doena cruel arrebat-la sem que a tivesse uma vez sequer acalentado nos
braos.

J no rezava como dantes, mas ainda passava no cro as melhores horas
da sua vida, ajoelhando-se de preferencia diante duma grande Virgem que
a lenda dos seus milagres tornava clebre em toda a cidade.

Dizia a crnica:--que essa imagem viera de Candia com destino a Espanha
e fra por milagre trazida  cidade. Recebida entre musica e fogos de
artificio, foi levada em procisso e confiada s freiras que tinham fama
de mais virtudes entre todos os conventos da terra. De tal maneira se
avigorou a f nos milagres da formosa imagem que raro era o dia em que a
irm rodeira no recebia, de pobres criaturas sofredoras, bilhetes e
cartas implorativas dirigidas  Virgem para srem colocadas sob a sua
guarda. A crena no milagre, o ltimo refugio dos fracos que no
podem resistir  dr, fizera da bela Senhora uma consoladora permanente
como dispensadora desse beneficio inestimavel para a maior parte dos
sres humanos: a iluso.

Tambem Manoela se afervorava na devoo pela milagrosa imagem; mas o
motivo que a arrastava at aos seus ps e a prostrava agora em extasis
era mais humano do que mistico.  que diante dessa Virgem, que era uma
mulher que a escultura traara com toda a verdade, sustentando nos
braos um pequenino Jesus, filho humano e verdadeiro, que ella,
humanamente me, acariciava com a doura do seu olhar veludoso e a
caricia dum sorriso angelical, sentia a sua alma pacificada, sentia-se
irmanada no mesmo sentimento.

Essa mulher, me dum Deus, no a perturbava, porque era bem mulher, bem
maternal, para compreender o sobresalto do seu corao, a sadade que a
sufocava por esse pequenino corpo adoravel, leitoso e macio, que apenas
podera vr e beijar  nascena. Aspirava pela caricia dos seus braos
rolios e da sua boquinha perfumada; morria de paixo por esse entesinho
dealbante, que l longe ia crescendo e vivendo rudemente entre
camponses, que mal a saberiam amar.


IV

Num inverno humido e triste em que o claustro, a igreja e o palratorio
chegaram a sofrer uma inundao que muito assustou a comunidade, Manoela
tremia arrepiada sob o manto curto das recolhidas, e pensava com horror
no frio que arroxearia as pequeninas mos da filha que se aninharia ao
canto da lareira fumarenta da miseravel casa onde se criava, por essa
invernia inclemente que tudo abafava sob a nevada deslumbrante.

Sentia o pavr da sua almasinha trmula, quando os lobos esfomeados
rondassem o povoado, acossados da montanha pela neve, e as ovelhitas
timidas se aconchegassem no curral balando tristemente.

Ah, ella no podia acostumar-se  ideia de que a filha, a sua querida
filha, viveria assim eternamente sem conforto nem os mimos que para ella
sonhava.

J por vezes tinha tentado convencer a me, lev-la ao esquecimento e 
tolerancia pelas suas humildes splicas, mas nada at ahi a tinha
demovido do seu proposito de conservar em misterio a existencia daquella
criana que a seu vr no era do mesmo sangue que das suas veias
tinha passado s da filha, e da filha  neta, na continuidade fatal da
natureza.

Manoela insistia, pedia ainda; mas a fora instintiva do amr maternal,
que a impulsionava agora, comeava a faz-la admitir a revolta contra
esse poder que a natureza naturalmente afrouxa, porque assim o acha
necessario para a conservao da especie, embora os homens o tenham
querido fortalecer com as suas leis e costumes antinaturais.

Soror Angelica, como superiora e como amiga, continha-a e aconselhava-a
a conformar-se com a vontade de Deus...

--Depois,--dizia-lhe ella, um dia, aspirando deliciada a flr perfumosa
duma angelica que se abria num vaso colocado na varanda da sua cla de
superiora, mimo gracioso duma das suas amigas da cidade--depois, Soror
Manoela, de que lhe serve ir contra a vontade de sua me?!... No  ella
a senhora da casa?... No  ella que tem s o poder do dinheiro?

-- a senhora, porque ns, os filhos, assim o queremos; mas no sabe,
Madre Angelica, que temos direito a puxar pela herana de meu pai e
exigirmos a nossa parte?... Por pouco que seja, dar-me-ha o
bastante para viver com a minha filha...

Por menos que Manoela soubesse das leis que governam os homens, sabia o
bastante, pelas relaes mundanas entretidas entre o convento e a
sociedade, para conhecer o direito que a tornava senhora da sua pessa e
da sua fortuna.

--Revoltar-se, Soror Manoela, cuida que isso lhe daria felicidade?!...
Santo Deus! Os pais representam na terra a autoridade divina. Triste
daquelle que no pecado procura a coragem bastante para lhe fugir!...

--No pecado?...--murmurou Manoela, limpando as lagrimas.--E no ser
maior pecado o meu se deixar morrer ao abandno a minha filha, esse
pobre anjo que no tem culpa nenhuma de tr sido chamada  vida?!...

--Sim,  uma grande culpa que sua me levar ao tribunal supremo, mas
quanto maior no seria a sua, minha pobre filha, se levasse a de
rebeldia e de orgulho filial!... No chore! Tenha resignao; se
soubesse quantas lagrimas tm chorado outros que... que... que por fim
se resignaram a no viver seno com a esperana na morte!...

E Soror Angelica desviou-se um pouco, abafando no leno um soluo que
no poude vencer.

--Madre Angelica?!...--interrogou ansiosa a recolhida.--Porque chora?
Tambem, como eu, sabe o que  sofrer o pso duma vontade alheia, que
esmaga o corao?

--Ah, minha filha, se sei!... No queira, Soror Manoela, sofrer como eu
sofri... como ns sofremos... a tirania duma ordem, que despedaou duas
existencias!...

A freira, que tinha sido uma das ltimas professas, no era ainda muito
velha, mas o seu rosto, amargurado agora pela recordao, evocava um tal
passado de dres e sacrificios, que Manoela, inconscientemente,
curvou-se para lhe beijar as mos, que juntava num gesto de implorao
extrema, numa prece em que ia toda a sua alma de mistica e de sofredora.

Depois, mais socegada, sentando-se junto da msa de trabalho, convidou a
recolhida a sentar-se num pequeno escabelo e disse:

--Soror Manoela, o que lhe vou dizer julgava-o para sempre sepultado no
fundo da alma, to esquecido e longinquo como se o lra duma outra
infeliz, num desses livros da nossa santa casa. Mas Deus Nosso Senhor
inspirou-me a ideia de lho contar para que nesse exemplo Soror Manoela
encontre fora para resistir  tentao diabolica que a impele  revolta
contra a vontade de sua me. Soror Manoela, houve numa terra linda
do Alemtejo uma familia que juntava aos seus pergaminhos de fidalguia
uma grande fortuna em terras e dinheiro. Era pai e filho no tempo em
que... em que os conheci. O pai era o tipo acabado da nobreza altiva e
autoritaria; o filho a bondade, a inteligencia e a docilidade numa s
criatura humana reunidas. Em pequenino ficara orfo de me, entregue aos
cuidados duma velha parenta que o educara e cuidara como um perfeito
cavalheiro.

O seu gosto e a sua alegria estavam s nos livros que folheava sem
descanso e na penna com que se servia para versejar... s escondidas. S
uma pessa sabia do seu _crime_, como elle lhe chamava, a rir...--e
Soror Angelica sorriu tristemente para esse fantasma saudoso da
mocidade.--Era uma pupila, do pai, orf e morgada como elle. Oh, Soror
Manoela, se soubesse como se compreendiam e se amavam aquellas duas
almas que o destino parecia impelir uma para a outra!... Ambos novos,
ambos sem um corao de me que lhe tivesse sido refugio e consolao,
ambos ricos, ambos filhos unicos e ambos sentindo os mesmos prazeres, e
tendo os mesmos gostos simples e modestos. Oh! deixassem-nos lr as
lindas historias de cavalaria que a velha prima alinhava com amr
na bibliotca do seu quarto; deixassem que elle lhe recitasse as
suas poesias emquanto ella matisava um bordado, sob a proto carinhosa
da vlhinha, que lhes queria como a filhos gemios do seu corao... e
eram felizes. O que lhes faltava? Apenas a idade para que o pai
consentisse no casamento, que via tambem com olhos complacentes.

--E casaram?...--perguntou Manoela, seguindo com vivo interesse a linda
historia de amr que lhe rasava os olhos de lagrimas, a ella que do amr
tivera apenas uma fugaz e mentida viso.

--No, no casaram--respondeu a freira, sorrindo, apesar da dolorosa
contro da sua face marfinea.--No lhe disse que o morgado era um
homem ainda novo e belo, apesar dos seus quarenta anos? Pois era... Ao
contrario do filho, montava com garbo um cavalo andaluz, que ninguem
domaria como elle, s com a presso dos joelhos e a firmeza da sua mo
de rdea; sabia aprumar-se numa sala diante dos cavalheiros e curvar-se,
como ninguem, num requinte de gentileza, diante das senhoras; jogava
como um verdadeiro fidalgo, sem que ninguem podesse perceber-lhe no
rosto se perdia ou ganhava... emfim era querido e procurado por todos e
convidado com o maior empenho pelas familias aristocraticas da
provincia e da capital. A quantas formosas raparigas no teria sorrido a
ideia de o trem por marido e quantos pais o no teriam desejado para
genro? Elle ria-se dessas pretenses e estava bem convencido de que o
seu destino estava traado em vr a felicidade do filho e receber os
netos para herdeiros e continuadores do seu nome. Mas, um dia, o morgado
viu uma senhora que se apoderou do seu corao, e desde logo deixou de
se pertencer. Era uma mulher formosissima e igualmente rica, mas dum
orgulho que nada havia que podesse igualar. Apaixonou-se to loucamente
que desde a hora em que a viu at que a morte o levou nunca mais teve
vontade nem pensamento que no fsse a della ou por ella inspirado.
Apresentou-se como pretendente  mo da orgulhosa fidalga, e, apesar da
sua idade e da concorrencia de muitos outros candidatos, foi aceite.

A ambiciosa calculava o valr das fortunas reunidas e optara pela
pretenso do morgado, que lhe dava margem a viver na opulencia e
grandeza que sonhara. Mas... o morgado tinha um filho, o herdeiro da
casa, o futuro morgado e senhor, que mais tarde, morto o pai, a
esbulharia dos seus direitos de posse, nada deixando para os filhos que
podesse vir a tr.

--O que fez ento?

--Oh, a desventurada sabia bem conciliar as coisas; s no soube
conciliar a felicidade propria com a dos outros!...

--Casou com o filho?

--No, que horror! Ps como condio para o casamento com o morgado que
o filho... se fizesse padre.

--Oh, que sacrilegio! E o morgado aceitou?!

--Assim foi. Em vo o filho e a pupila lhe pediram, de joelhos, que os
deixasse casar; em vo elle ofereceu a sua desistencia ao morgadio.
Ricos seriam os dois--com o seu trabalho e a fortuna de... da pupila do
pai. Tudo debalde! Elle foi implacavel, porque ella o foi tambem. A lei
s lhe garantia a posse do morgadio para os filhos se o verdadeiro
morgado fsse frade ou padre...

--Que desespero! Que mulher to m! E depois, Madre Angelica?...

--Depois... elle foi padre!

--Oh!... E ella?

--A noiva?

--Sim, a noiva do rapaz.

--Essa cuidou morrer de desgosto, mas deu-lhe o Senhor coragem para
resistir  doena do corpo e  da alma e... professou tambem.

--Freira? Resignada, resignados ambos?... Que almas eleitas, meu Deus?
Mas... morreram?

--Elle morreu. Dorme ha muito na paz de Deus. O seu corpo ficou, a seu
pedido, no claustro do convento que fundou quando ficou herdeiro da
fortuna...

--Como?! Ento sempre foi morgado?

--Sim. A maior dr foi essa!...

Soror Angelica encostou a cabea  mo e as lagrimas escorregaram-lhe
por entre os dedos, uma a uma.

--Mas porque no fugiram? Para que se sujeitaram a essa lei odiosa?!

--Porque elle era o pai. E os filhos no podem ir contra as suas ordens
terminantes. Sugeitou-se, sacrificou-se, pela felicidade paterna. Mas...
pouco tempo depois a nova morgada, apesar de rica, autoritaria e feliz,
no poude resistir  fatalidade. Logo ao dar  luz o primeiro filho
morreu, cheia de pavr do castigo, consolada e amparada pelo homem que
sacrificara ao seu orgulho e ambio. Mses depois, o filhito que ficara
o herdeiro da fortuna morreu tambem deixando o pai consumido de
remorsos, envelhecido e triste, e herdeiro de toda a casa. E aqui tem
porque, sendo padre o filho mais velho, sempre este ficou o infeliz
herdeiro de toda essa fortuna maldita.

--Ento no acha, Madre Superiora, que foi absurda, que foi at um
crime essa obediencia que destruiu duas vidas?

--Soror Manoela--e a voz da freira tinha uma entoao grave, que nunca
lhe conhecera, como se fsse o co apenas duma alma pairando muito
alto--esse absurdo no deixou remorsos nas almas que se irmanavam e se
amavam at ao infinito. Elle morreu sorrindo e perdoando; ella... vive
na esperana duma vida melhor, sem que--graas a Deus!--tivesse sentido
ainda a dr amarga de ter causado o mal alheio.

--Amarem-se dessa maneira, trem diante de si a vida, e matarem por
suas proprias mos toda a esperana de felicidade, Senhor! Como tiveram
coragem? Eram decerto duas almas santas--no se podem tomar como
exemplo... E no posso, no posso seguir o seu conselho, Madre
Superiora! Se os velhos so egoistas e impiedosos, os novos tm direito
a reclamar a sua parte de felicidade na terra.

--Faa o que entender, minha filha. Mas fique certa que, volvidos
tantos anos e choradas tantas lagrimas, ainda no trocaria a paz da
consciencia e a dce consolao da minha sadade por uma alegria
construida sobre as ruinas doutra existencia...

--Pois era a Madre Superiora?!...

--Eu, sim, que no tive nenhum merito, porque _elle_ e s _elle_ foi o
inspirador da nossa conduta, _elle_ o filho heroico que sacrificou, sem
um protesto, a felicidade propria  felicidade de alguns anos de seu
pai!...

As duas calaram-se, entristecidas e como que suspensas, ouvindo uns
gritos lancinantes que vinham da outra extremidade do corredor.

--Pobre Soror Claudea!...--lamentou Manoela--Anda agora to louquinha!

--Ahi tem, Soror Manoela, uma que se no poude resignar de bamente...

--O qu? Ella no foi sempre assim?

--Oh, no! Era a mais alegre, a mais encantadora, a mais viva de
quantas tm vindo a esta casa procurar o repouso e a felicidade... que
nunca poude encontrar entre ns. Se a visse!... Soror Claudea nunca teve
vocao para freira e nunca pensou que o poderia sr. Se entrou para o
Convento das Bernardas foi na ideia de que de l seria facil fugir 
tirania do pai, que a queria fazer professa a todo o transe.

--Meu Deus! Mas porqu?!

--Porque a fortuna da casa era pequena e era preciso que ficasse toda
reunida nas mos do filho mais velho, o representante da familia.

As irms e irmos de Madre Claudea espalharam-se, resignadamente, por
varios conventos e fram homens e senhoras muito respeitados na
religio. Ella  que se revoltou sempre, porque, para seu castigo, desde
pequenina que queria, com um amr profano e intenso, a um moo de
modestos recursos, filho segundo como ella, que se desesperava por a no
poder furtar ao poder despotico do pai.

Comeava nesse tempo a falar-se nos liberais que se juntavam no
desterro para conspirar, os quais, dizia-se, eram recebidos de braos
abertos pelo imperador, desde que mostrassem sr homens de valia e de
coragem. Se a causa liberal triunfasse, dizia-se, esses ficariam ricos e
cheios de dignidades. Na esperana de por esse meio conquistar a fortuna
que lhe asseguraria a felicidade sonhada, o rapaz emigrou e voltou mais
tarde com as tropas liberais pondo em todos os tos de coragem da sua
brilhante carreira militar o unico fito de libertar a mulher que amava,
prsa num convento e obrigada a professar, embora protestasse sempre e
chorasse sem descanso durante toda a ceremonia.

--Assistiu a essa cna, sem lagrimas, Madre Angelica?

--Felizmente no foi no nosso convento que a fizeram professar, mas,
embora as freiras chorassem e a lamentassem, o que lhe podiam ellas
fazer?... O sr. bispo era parente da familia, e o sr. bispo  que
aprovou a profisso.

--Pobre mulher!...

--E bem desditosa! Quando o namorado chegou a Portugal soube da sua
profisso violentada, mas no desanimou. Combinou as coisas de modo que
se poude corresponder com ella e... combinaram a fuga.

--Soror Claudea fugiu?

--Sim, chegou a sahir do convento, descendo por uma corda da altura dum
segundo andar. Quando chegou  rua onde elle a esperava tinha as mos em
carne viva, to feridas que ainda hje conserva as cicatrizes e ficou
com as articulaes prsas...

--Sim, j tinha reparado que mal pode trabalhar com desembarao...

--Fugiram... mas na guerra no ha felicidade possivel. A morte foi to
cruel para o sacrlego como a familia o tinha sido para a desditosa...

--Infeliz mulher! E depois?

--Depois, abandonada de todos, aceitou este pobre refugio, apesar de
no sr professa da nossa Ordem.  desde ento que Madre Claudea sofre
as crises aflitivas que Soror Manoela conhece... Pobre Madre Claudea!
No soube conformar-se, e no foi por isso mais feliz fugindo 
obediencia filial...

--Oh, Madre Angelica, sempre o peor  ter nascido mulher! Ter sido
sempre assim? Ser eternamente a mesma coisa?!...

--Quem o sabe?!...

--Que grande culpa a minha em tr dado vida a uma criatura que hade,
como ns, sr uma sacrificada!...--E Manoela torcia as mos chorando
numa crise de nervos, que a velha freira tentava aplacar.

--Tenha esperana, minha filha; quem sabe o que ser o futuro?!...
Houve sempre mulheres que escaparam ao destino comum e fram felizes.


V

Manoela foi-se resignando a esperar, cedendo sempre, adiando de ms para
ms a realisao do projto que acariciava no seu corao, e que
importava o to pblico de rebeldia, que Madre Angelica tanto condenava.

Os anos fram decorrendo e ella assistindo, com o espirito dolorido e a
vontade embotada, quelle fim miserando de vidas que se iam extinguindo,
num bater de azas lugubres que enregelava.

O convento ia-se despovoando a pouco e pouco, como que tornando-se
maior,  medida que as vlhinhas, uma a uma, iam sahindo, para no mais
voltar, a tomar o seu modesto logar no cemiterio pblico.

Manoela era agora a cabea que por todos pensava, a alma e a energia que
sustentava aquelle resto de vida conventual, dando-lhe uma aparencia de
coheso, que no tinha.

Sentia-se apossada de todo esse vasto casaro, que parecia crescer a
cada nova baixa que a morte marcava, com a sua fatalidade cega de fora
inconsciente, na comunidade j to diminuida.

Era a herdeira natural e incontestada dos santos que lhe iam deixando as
pobres vlhinhas, como recordao, e na vaga esperana de que assim
viveriam mais na sua memoria, unico abrigo s suas almas exauridas.

Das freiras que ao entrar a tinham enchido de blandicias e amimalhado
como mes carinhosas, j poucas existiam. Iam-se mirrando e fenecendo,
seguidamente umas atraz das outras, quasi sem doena e sem sofrimento,
num descahir e murchar de vontade que nenhum ideal sustenta.

Apenas trs ou quatro vlhinhas entorpecidas pelos anos, Madre Angelica
ainda energica apesar da sua idade e da sua dolorida existencia, e Madre
Claudea cada vez mais dificil de aturar, fugindo endoidecida do convivio
dos outros, seguindo apenas automaticamente as devoes obrigatorias do
cro, que eram como que um farrapo de lucidez a alvejar no seu triste
espirito entenebrecido. Chorava dias inteiros, com gritos dilacerantes,
os pecados do mundo, que queria carregar sobre os seus miseraveis
hombros, mais do que os dos outros pecadores, sem esperana de perdo.
Tinha vises que assustavam as meninas do cro, e apavorava as criadas
narrando-lhes: como na igreja do convento fra uma vez enterrado um
grande fidalgo da cidade cuja alma em pena o diabo veiu buscar com
medonho barulho. Ella no se lembrava, Soror Claudea no era desse
tempo; mas ouvira contar bastas vezes s santas freirinhas que tinham
assistido a essa luta homerica do diabo, querendo levar uma alma
abrigada pelas paredes santas daquella virtuosa casa. O fidalgo durante
toda a vida no tivera uma palavra de justia nem de piedade para
ninguem, nem se lembrava de minorar a miseria alheia, a no sr por
orgulho e fama. Assim, logo que morreu e que o trouxeram com pompas
principescas ao carneiro de familia, feito na igreja por deferencia
especial a quem muito protegera a comunidade, um verdadeiro e espesso
nevoeiro se levantou logo do cho escurecendo a vista s freiras, que
nem podiam distinguir o padre oficiando no altar. E,  noite, o ruido
era tanto pela nave magestosa, que as freiras atemorisadas deixaram de
abrir as grades do cro para as rezas noturnas. Era impossivel resistir
ao pnico que se apoderou daquelle rancho de mulheres, que viam e ouviam
tudo quanto diziam vr e ouvir por um fenomeno vulgar de sugesto, que
tanto milagre tem feito no mundo.

Madre Claudea descrevia e pormenorisava, ento, a festa do exorcismo que
fra feita por santos monges arrabidos auxiliados por todas as
outras comunidades dos arredores, que de cruz alada entraram na igreja.
Aberta a sepultura e aspergido o cadaver, uma nuvem negra sahiu da cova
espalhando-se pela igreja e sahindo pela porta entre-aberta com fragr.
Depois tudo cahira no silencio, tudo se pacificara, ouvindo-se apenas as
oraes dos frades prostrados de joelhos num santo respeito por to
grande castigo.

E quando fram vr a cova... no continha mais do que um punhado de cinza!

Madre Claudea benzia-se murmurando exorcismos e oraes, e as ouvintes
entre-olhavam-se sentindo pela espinha um arrepio de pavr.

E no era s isto o que ella sabia. Uma ocasio--isso j fra talvez ha
seculos, mas o _Livro da fundao_ l o tinha escrito--aparecera um
rapazinho trazendo um feixe de varas resequidas que ofereceu  irm
rodeira para plantar na cerca. Se ella as plantasse veria como dum
instante para o outro, por milagre do Senhor, cresceriam logo e se
tornariam em belas e frondosas arvores. A irm rodeira ralhou com o
garoto e despediu-o; mas como nessa ocasio passasse uma novia, criana
e amiga de brincar, disse-lhe com empenho:--deixe-me experimentar, irm
rodeira; no faz mal nenhum e sempre a gente se rir da lembrana do
rapazinho.

Assim foi. Pegou numa das varas e foi a correr enterr-la na cerca,
seguida por outras novias em recreio.

Imediatamente--Santo Deus, os maleficios que faz o mafarrico!--a vara
engrossou e cresceu desproporcionadamente e tornando-se numa arvore
magnifica encheu de assombro as pobres novias, que viam, sobre ella,
uma multido de macacos fazendo-lhes negaas. Foi o inferno na casa!
Todas as que olhavam a arvore maldita ficavam possuidas do espirito
imundo e faziam os maiores desacertos e gritarias. Como toda a
comunidade corria a vr a causa de tal alvoroo, toda ella sofreu do
mesmo mal, e tr-se-iam perdido todas, certamente, se no fsse a Madre
Superiora, que, antes de mais nada, mandara chamar pela moa de recados
os senhores capeles e confessores para pr termo quelle inferno com as
suas preces e esconjuros.

Madre Claudea sabia mais e mais, mas j se no lembrava bem e a sua
memoria fraquejava ao recordar tantas coisas idas... Apertava a cabea
com as mos e chorava, num chro desfeito e infantil que enchia de
lagrimas todos os olhos.

S Manoela podia apazigu-la e por assim dizer cham-la  realidade e,
com a sua voz persuasiva e grave, faz-la socegar e adormecer
confiada como uma pobre inocente. E olhando-a esqualida e apenas com os
ossos cobertos por uma ple resequida e empergaminhada, Manoela pensava
com amargura na linda rapariga que ella fra, segundo lhe contara Madre
Angelica, amada com paixo, amando com loucura, vtima de interesses e
preconceitos alheios, um dia rebelde e desvairada rompendo com todas as
peias, logo humilhada e cheia de remorsos, entrepondo-se voluntariamente
 vida que engeitara, num terror atavico de escravo que no sabe o que
hade fazer  liberdade, com sacrificios heroicos.

Tambem Manoela teve um dia, e quando menos a esperava, depois de tantos
anos de sujeio, a sua alforria, e tambem, como ella, a no soube usar,
porque a sua vontade longamente oprimida no se fortalecera e definira.

Ao princpio, quando chegou, a noticia da morte repentina da me, no se
compenetrou bem do que essa morte representava para a sua existencia e
apenas se sentiu surpreendida--no tendo a pretenso de querer sofrer,
por costume, o que de facto no sentia, por afto.

Mas, relendo melhor as cartas do irmo e da Ama-Rita, compreendeu por
fim que era rica e senhora absoluta da sua pessa. Isto no lhe
podia de pronto dar a sensao da liberdade que por vezes pensara
deveria sentir, porque o hbito lhe dera uma nova servido, que os
timidos e os prisioneiros conhecem.

Mas, a pouco e pouco apossando-se de si mesma, resolveu fazer
prontamente o que havia tanto desejava com nsia: mandar buscar a filha,
reconhec-la como tal, e conserv-la junto do seu corao e at  morte,
triplicando em carinhos os anos de amargurada sadade em que a tinham
conservado.

Foi tr com Madre Angelica, que era ainda a Superiora venerada e
querida, que anos antes a acolhera no seu corao maternal.

Parecia outra, galgando lestamente as escadarias e correndo pelos
corredores que levavam at  cla da Superiora, que j quasi nunca sahia
do seu cantinho cheio de sol. Com os seus trinta e quatro anos vividos
numa vida quasi vegetativa, os traos finos do seu rosto, que fra duma
formosura discreta de morena, conservavam, apesar de tudo, a delicadeza
e a graa ingenua que fram o grande encanto da sua mocidade, quando a
tinham trazido para ali.

Nos momentos--raros momentos que elles fram!--de perfeita felicidade
para o seu corao, toda a sua pessa irradiava uma alegria
confiante, que a tornavam singularmente encantadora.

Quando Madre Angelica levantou os olhos do livro de oraes para dar a
licena que ella lhe pedia  porta, foi j com o assombro que causa uma
grande mudana numa pessa querida, porque a propria voz da recolhida
era outra--um novo timbre de alegria a fazia desconhecivel.

--O que , Soror Manoela?!... Alguma novidade l por baixo?

--No, Madre Angelica, a novidade  s minha...  uma coisa que eu
pensei e que lhe venho participar...

E Manoela explanou, diante da pobre freira sobresaltada, o projto, que
to simples se lhe afigurara.

--A sua filha para aqui, Soror Manoela, pensou isso?!...--perguntou
apavorada.

-- Sim, para aqui, ento no hade sr para aqui?!

--Oh, meu Deus, meu Deus! Para que estou eu guardada, santo
Deus?!--lamentava a Superiora.

--Mas eu no compreendo o seu espanto, Madre Angelica! Ento no sabia
o motivo porque estou aqui ha dezoito anos? No foi a Madre Angelica que
me levou  obediencia a minha me adiando at agora a realisao do
meu desejo?!...

--Sempre imaginei morrer antes de vr esse escandalo!... Meu Deus, meu
Deus! Ento a minha filha quer dar a essas meninas o pblico esptculo
da sua antiga culpa?!... Quer sr o riso e a fabula de toda a cidade?! O
que diro de ns?! Com tanta m vontade contra as casas religiosas, com
tanta calnia que se tem levantado, se Soror Manoela vai agora
apresentar publicamente a sua filha, o que no diro?!...

--E que me importa tudo isso?!--no sou eu livre porventura?!

--Oh, livre, livre!... Ninguem  livre de alardear os seus
pecados--respondeu a freira, impacientada.

--No  isso o que nos diz a nossa religio, Madre Superiora. Esconder
um pecado ou culpa  uma prova de orgulho que Deus condena.

--Mas no neste caso, em que a sua publicao trar descrdito e
vergonha para a nossa santa casa. O que diro, sabe, Soror Angelica?...
Diro que nesta casa a imoralidade chegou ao ponto de se apresentarem
publicamente as filhas das freiras!...

--Diro uma mentira, que eu propria desfarei contando a verdade. Bem
sabe, Madre Angelica, que se no fiz isto ha muitos anos foi por
seguir os seus conselhos, nos quais me mostrou que devia obediencia a
minha me. Por ella, por esse respeito de que me falou para com uma
pessa que me afastou da casa de meu pai, que me expulsou como a uma
criminosa, sofri dezoito anos dum silencio que considero uma covardia
hje... Ah, dezoito anos de sadades por uma filha que se no conhece e
pela qual se morre de amr!... Ah, Madre Angelica, como fram crueis
comigo! A culpa, se a houve, se uma criana, como eu era, a pode tr por
se deixar iludir por um homem da sua casta, um amigo de seu irmo...
essa culpa bem a tenho lavado com lagrimas de um corao ansioso por
conhecer a sua propria filha. Ah, a Madre Superiora  cruel: foi-o
comigo, quando me fez recuar ante a minha justa vontade; -o agora
ainda, porque no compreende este meu sentir!... Mas agora sou livre;
quero a minha filha--e heide t-la!...

Manoela, sempre to delicada no dizer e to submissa, chegava nesse
momento  voluptuosidade das almas sacrificadas quando uma vez chegam 
consolao de poderem articular a verdade, que lhe sahia em palavras que
pareciam golfadas, num atroplo de quem esteve encarcerado largos
anos e v por acaso uma porta escancarada.

--E seus irmos, o que diro elles desse to?--arriscou a Superiora
tentando dissuadi-la.

--Meus irmos!?... Que lhes devo eu, Madre Superiora? Ha dezoito anos
que me viram partir de casa, um amaldioando-me, os outros nem
perguntando a causa dessa sahida, e s agora me escrevem porque apesar
de tudo a lei me confere o direito de partilhar com elles a herana de
nossos pais. Meus irmos!? Quasi os no conheo... Nem lhes devo
amizade, nem respeito.  minha filha, sim, a essa devo todo o meu amr,
todos os momentos do resto da minha existencia.

--Soror Manoela, pense bem. Ser um escandalo! O que diro essas
meninas do cro, as criadas, as senhoras que nos protegem e nos do a
sua amizade?!... Para que estava eu guardada, Senhor!?--E a freira
levantava as mos e os olhos ao co, num gesto implorativo,
murmurando:--Ah, se Madre Gertrudes fsse viva!...

--Sim,--volveu a outra com vivacidade, to pouco do seu costume--tem
razo! Se minha tia fsse viva, ella seria a primeira a chamar a si essa
pobre criana que tem sido escorraada de todos como um co
tinhoso. E j que a no posso trazer para esta casa que me foi
abrigo nas horas tristes da vida, sahirei daqui. Irei viver com minha
filha livremente...

--O que diz, Soror Manoela, deixar-nos!? Quer deixar-nos agora que
estamos com os ps para a cova, e  a unica pessa que aqui temos para
nos ajudar a bem morrer, acabando em paz na nossa santa casa?!...

Os soluos sufocaram-na. Tambem ella sofria com a dr da sua pupila;
tambem dos seus olhos, que j deveriam estar esgotados, por tanto terem
chorado, cahiram lagrimas que Manoela recolheu no corao angustiado.

Soror Angelica abriu-lhe os braos, e por largo tempo ficaram chorando
juntas o desespero dessa primeira desinteligencia em tantos anos de
confiada e dce amizade. Foi a freira que quebrou o silencio:

--Soror Manoela, mande vir a menina; mas, se lhe merecem alguma
considerao as suas velhas companheiras, no a reconhea desde j
publicamente. Deixe que a morte feche as portas do nosso convento, e
ento ser completamente livre para fazer a sua vontade.

--Mas que nome dar  amizade por uma criana que to empenhadamente
mando vir para junto de mim?

--No poder sr uma afilhada?...

--Afilhada?!....--Manoela hesitava, pesando-lhe muito aquella fraqueza
como uma verdadeira covardia. Mas as velhas companheiras de toda a sua
existencia de expulsa mereciam alguma considerao... Cederia.

Tinha de sr--mais uma vez sacrificando ao descanso dos outros os seus
sonhos, as suas revoltas, as suas alegrias, a sua vontade.


VI

Alguns dias depois chegava Christina, acompanhada pela Ama-Rita, que
chorava de comoo s com o pensamento de revr a sua querida menina.

Manoela foi esper-las  portaria, escondendo a custo a ansiedade da sua
alma que tumultuava em desejos loucos de tomar a filha nos braos e
gritar bem alto a sua paixo.

Toda ella tremia, sorrindo contrafeita s conversas e perguntas das
outras senhoras, amparada pela Madre Superiora, que extraordinariamente
sahira do cantinho da sua cla para a fortalecer naquella suprema prova.

Veiu por fim a hora da chegada; abriu-se a portaria, e Manoela poude vr
pela grade entreaberta a Ama-Rita, muito vlhita e trpega, acompanhada
por uma mulher, uma verdadeira mulher forte e desempenada, que olhava
com visivel curiosidade essas paredes enegrecidas que iam sr o seu novo
abrigo--sahida dum convento, onde a me pagara para a educarem, para
entrar naquelle como recolhida.

Manoela,  medida que a filha se ia aproximando, subindo a escada para
entrar no palratorio, ia recuando espavorida, sentindo um frio de
morte no corao, que a asfixiava.  que diante dos seus olhos estava,
no a filha que amava e chamara febrilmente durante anos de paixo
esteril em que se consumira, mas a imagem viva do homem que, na rtido
do seu carter, apenas podera desprezar como um sr ignobil e ascoroso.

Christina no era nada, nada do que ella tinha idealisado. No era a
_sua_ filha, era a filha _delle_, que a natureza, inconsciente na
fatalidade da sua fora, lhe punha nos braos.

Vencendo a repugnancia instintiva que essa semelhana lhe inspirava, foi
sorrisonha e meiga que recebeu a afilhada, mas Christina no
correspondeu tambem a esse aplo. Os seus olhos garos ficaram frios e
dominadores, como eram habitualmente; a sua bca no se desdobrou lm
do sorriso escarninho que lhe errava habitualmente nos labios.

Foi tristemente resignada que Manoela a acompanhou ao dormitorio cheio
de luz onde ella dormia, e onde, com amoroso cuidado, lhe arranjara a
cama velada com cortinados de inexcedivel brancura, fresca como um bero
de criana.

Ama-Rita seguiu-as falando muito, abraando de quando em quando a sua
querida menina, que ainda era capaz de reconhecer entre muitas
apesar de to mudada e to triste.

Christina no despertou a simpatia viva que a me inspirara a toda a
comunidade logo ao entrar no convento.

Pagava com sorrisos contrafeitos os carinhos que lhe faziam, e mal
atentava nos mimos com que a me a rodeava. Aborrecia-se e
impacientava-se com as pobres vlhinhas, que procuravam nessa mocidade a
alegria que as aquecesse e lhes reflorisse as existencias a
extinguirem-se. Como  me, outrora, todas abriram o corao a esse
corao, mas este permaneceu fechado e frio, afastando-as descaroavelmente.

Tinha revoltas bruscas, respondia scamente, e queixava-se  Ama-Rita de
que a queriam sepultar entre quatro paredes e que a tinham tirado duma
priso para a fecharem noutra peor. Manoela sofria com todas essas
pequenas coisas, que se iam avolumando, tornando-a odiada por todas as
outras companheiras; mas temia fazer-lhe qualquer observao receando o
seu genio, que presentia violento e spero...

At que um dia Christina, de combinao com uma menina do cro que levou
 rebelio, ps uma verdadeira nota de escandalo no meio conventual,
subindo com ella ao telhado para vr o que se passava no largo
apinhado de gente para a feira.

Manoela foi obrigada a proceder, advertida pela Madre Superiora, que a
acusava, com a sua voz dce, de falta de energia para com a filha.

--Christina--dizia-lhe meigamente--para que me obriga a admoest-la?
Para que faz coisas... que no ficam bem a uma menina?...

--Mas o que fiz eu, minha senhora? Foi algum crime subir ao telhado
para tomar um pouco de ar, para fugir um instante desta sensaboria?!

--Mas a Christina no est bem, no gosta de estar no convento?

--No, minha senhora, no gosto de estar nesta priso.

--Mas oia: hade sahir, tenha paciencia um pouco. Isto no pode durar
muito; so apenas duas as freiras que ainda existem, e quando ellas
morrerem sahiremos ambas. Continuar aqui a sua educao; a Christina
sabe to pouco que mal se poder apresentar no mundo, onde ha muita
exigencia para as senhoras da nossa classe.

--Ah, sim!? Conselhos, conselhos tenho ouvido muitos. Eu j tenho
educao bastante, no preciso mais...

--Christina!?

--Minha senhora!?

--Ento no est bem ao p de mim?...--E querendo-a convencer, com a
sua voz dum carinho maternal:--No diga que no, que  sr ingrata. Se
soubesse como sou sua amiga!...

--Minha amiga?! Se o fsse, no me prendia aqui como uma criminosa. Se
o fsse, no me chamava afilhada--quando eu sei muito bem que tenho
outro nome...

Manoela interrompeu-a com um grito desvairado:

--Christina, Christina, cala-te! Tu no sabes, tu no podes compreender
nada do tormento da minha vida!...

--Ah, sim, um bom meio de me obrigar a calar, quando eu posso falar
porque sou sua filha--respondeu brutalmente.

Manoela empalideceu; aos seus ouvidos soou uma zoeira congestiva e o seu
corao quasi a sufocou na onda de sangue que lhe atirou  cara.

--Sua me!? Est enganada, menina! Nem sequer  minha afilhada.
Mandei-a criar e educar por d, e  por d que a tenho comigo.

Conhecendo o orgulho da filha, pagava essa afronta com afronta maior.
Tambem ella se sentia ferida; tambem ella tinha necessidade de
revoltar-se contra a crueldade alheia. Tambem ella tinha um temperamento
violento, que a extrema sensibilidade e o prematuro infortunio tinham
enfraquecido mas no aniquilado.

--Quer sahir?!--e o seu peito era sacudido por uma gargalhada nervosa,
que tornava speras as palavras--quer sahir?! Pois sia! Que me
importa!? Recolhi-a por d... no a obrigo a receber um beneficio que
no merece.

Mas Christina, como todos os egoistas, tinha a covardia das resolues
rapidas. Diante da indignao da me, queria recuar, submetia-se,
desejava tudo conciliar...

--Sahir, minha senhora?! Mas para onde?

--Para onde estiver melhor, para onde quizer. Que me importa a sua
vida?! E  melhor faz-lo j, j.

Manoela, com todos os nervos retesados numa crise dolorosa, tinha-se
tornado duma palidez esverdeada, os beios trmulos e descoloridos, o
corao a afog-la numa galopada infernal aps uma como rapida suspenso
de movimento.

Ante aquella ordem e o gesto de repulsa que a acompanhava, Christina no
resistiu, dirigindo-se para a porta, de cabea baixa, contrafeita,
unicamente arrependida de tr provocado uma clera que a privava, dum
instante para outro, de todo o bem-estar material a que se afizera.

A me olhava-a tristemente:--era afinal aquella a filha que tanto amara
e tanto desejara!... Um resto de piedade venceu ainda a indignao e o
desgosto.

--Oia--disse-lhe quando estava quasi ao fundo do dormitorio, fazendo-a
voltar rapidamente a cabea numa nsia de esperanada.

--Minha senhora, chamou?

--Sim, venha c.--E, sem a fitar, num repelo de magua que lhe causava
a atitude to diferente da filha, agora de cabea baixa e ar
hipocrita.--Custa-me abandon-la para ahi, sem familia nem proto...
Vou pedir a meu irmo para a receber em sua casa, como afilhada... Se
elle consentir, ficar contente?

--Sim, minha senhora; seria uma felicidade para mim. Quanto lhe devo,
madrinha!

--No, no me deve nada. V  sua vida, e tenha paciencia alguns dias
mais.

--Mas... eu queria pedir desculpa...

--No; no me ofendeu. Pode ir.

Tinha pressa de se encontrar s. Dizia bem: o seu corao no estava
ofendido; estava despedaado, calcado aos ps, por aquella que
tinha sido o encanto da sua existencia antes de a conhecer e depois no
fra seno motivo para desiluses e evocaes pungentes.

O desespero da sua alma contrastava com a serenidade da lua, em
crescente, que se erguia manso e manso num co translucido, ainda
tingido de oirenta prpura no poente, e era como um alfange de oiro
pronto a vibrar-lhe o ltimo golpe.

Soluava; j no podia mais.

Pela janela gradeada, os olhos nublados de lagrimas mal distinguiam as
linhas dessa paisagem, revista em cada dia durante anos, e que umas
vezes lhe parecia grandiosa no seu aspto cenografico, outras banal e
triste, conforme as impresses do seu espirito, tranquilo ou perturbado.

Sentia um agro prazer em chorar, e em soluar como uma criana, numa
desconsolao de abandno e de desespero. O que fra o seu passado?
Apenas uma existencia sacrificada ao convencionalismo ou ao egoismo
alheio. O presente era essa amargura de se sentir desamparada das suas
proprias iluses--as ltimas companheiras dos que mais sofrem.

O futuro... Santo Deus! o que lhe traria o futuro se no lhe trouxesse o
hbito de viver para si mesma?!...

Madre Angelica, prevenida pela Ama-Rita que vigiava sempre a sua menina,
veiu tr com ella, arrastando-se vagarosamente ao longo do dormitorio,
como uma sombra que o luar fazia destacar.

--Soror Manoela, o que tem, o que lhe fizeram para estar assim
agoniada?!...

--Ai, Madre Angelica!... Estava ahi? Ainda bem, ainda bem que a tenho
junto de mim neste momento. Julguei-me olvidada de todos--at de Deus!...

--Soror Manoela....--tornou a velha freira com severidade, adoada pela
sua muita estima  reclusa--veja o que diz, minha filha. Deus  pai e um
pai no esquece nem aflige propositadamente os seus filhos. Elle ama os
mais amargurados--e sero esses os que mais perto estaro da sua eterna
gloria.

--Ah, mas custa muito chegar at l, pelo caminho da vida...

--Tenha resignao, Soror Manoela; aprenda no exemplo dado pelo nosso
Salvador: olhe para a sua santa imagem, coberta de chagas e coroada de
espinhos! E tudo quanto sofreu, inocente e bom, foi para remir o mundo,
para salvar aquelles que o flagelavam.

--Tem razo... ter razo--soluou Manoela, humilhada. Mas logo, numa
revolta subitnea que toda a sua devoo no poude evitar--mas elle
era Deus, sofreu por sua vontade, e morreu logo!! O seu martirio no foi
uma longa vida arrastada na dr e no suplcio! Mas eu que vivo, eu que
tenho vivido anos e anos para sofrer em cada hora mais do que a morte...

--Soror Manoela!...--reprimendou a freira.

--Perdo, perdo! Meu Deus, se o sofrimento enlouquece!...

E de joelhos, aflita, soluante, apavorada com a sua propria heresia,
foi-se arrastando at ao crucifixo que se destacava no fundo,
tremulamente alumiado por uma lampada de cobre, e ali ficou agarrada aos
ps chagados da grande imagem, num choro convulsivamente desfeito e
tragico.

Madre Angelica apiedou-se, ella que era o unico corao capaz de
compreender e estimar a misera criatura, e tentou levant-la com as suas
poucas foras, e disse-lhe baixinho, numa voz que era uma consolao
para essa alma torturada e desgraada:

--Vamos, Soror Manoela, diga-me o que assim a faz sofrer. Conte-me a
sua magua--que ver como ella diminue...

--Ai, Madre Angelica, morro de sadades pela minha filha. Trocaram-ma.
No  esta! Como fui castigada, Santo Deus!

E a freira, sinceramente surpreendida na sua credulidade ingenua:

--O que me diz?! Ento a Christina no  a sua filha?... Ser
possivel?!...

--No !--volveu Manoela, sobreexcitada, no reparando sequer na
dvida da velha Madre.--No , no  a minha filha, que alimentei do
meu proprio sangue, que sahiu do meu corpo como a flr sai da planta.
 uma estranha,  uma alma gelada, que no compreendo nem estimo.
Veja-a, veja-a bem, Madre Angelica; veja-lhe bem os olhos frios e
crueis, os seus olhos metalicos como os do _outro_! Veja-lhe o riso
escarninho, que  _delle_... Consulte-lhe a alma soberba e impiedosa,
como a da av... Avalie a minha desgraa, Madre Angelica! Tenho uma
filha que no tem nada, que no  nada de mim!... E despreza-me, a
criaturinha!...--terminou num riso cascalhado, que era uma derivao do
choro histrico que a tomara.

--Socegue, minha irm. Ento!?... Isso no  proprio de si...

--Sim, tem razo! Eu no devo sofrer assim, mas que fazer?! No posso,
no posso habituar-me a esta desolao; querer amar a minha filha tal
como  e no como a sonhei, e no poder, no poder!...

Falou longo tempo, num soluar entrecortado que a esfrangalhava e
halucinava, e s muito tarde, conseguindo lev-la para a sua cla, onde
estavam mais  vontade, Madre Angelica lhe poude insuflar um pouco de
coragem e resignao para vencer aquella crise dolorosissima.


VII

O irmo de Manoela respondeu afirmativamente  carta muito digna que
ella lhe escrevera, consentindo em receber Christina como se fsse uma
filha.

A morte da me deixara-lhe um vacuo imenso no grande casaro, onde s de
quando em quando os irmos, j casados e cada um em sua terra, o
visitavam por ceremonia.

Christina pode vir--dizia na sua carta  irm--quando quizer, e na
certeza de que j a estimo como filha.

Sentia-se s, e estava na idade em que uma nova amizade  um pouco de
vida nova que se insufla na alma amortecida.

Manoela, que fsse tambem; dezenove anos de penitencia teriam por certo
depurado toda a mcula...

Esquecia o passado; talvez um pouco de inconfessado remorso o estivesse
a maguar, agora que se sentia to s e inclinado  vida serena duma
familia a refazer.

Mas a irm no ia; agradecia-lhe muito, tanto a prontido da resposta
como a aquiescencia ao seu pedido e o desejo de a revr... Mas no
iria. Tinha ali uma triste misso a cumprir; no abandonaria, no fim da
vida, as companheiras de tantos anos de angustia.

Christina partiu alegre, numa ansiedade de prisioneira que reentra no
mundo por que tem suspirado durante longos dias inresignados.

Manoela ficava sem sadades dessa filha que fra durante anos a sua
razo de viver; antes sentia, ao despedir-se, uma vaga sensao de
alvio, no isenta de cavada amargura.

--Adeus, Christina,--disse-lhe na hora da despedida--diga a meu irmo
que resolvi fazer o meu testamento deixando-a herdeira do que me
pertence. Elle que administre a casa nesse sentido, pois s quero dispr
do usofruto por causa destas pobres criaturas que me rodeiam.

--Deixe-me agradecer-lhe, madrinha...--e tentava beijar-lhe a mo.

--Para qu?...--respondeu sorrindo com ironia e encolhendo os hombros 
sincera alegria de Christina.

Era com um profundo desdem que atirava essa fortuna, que lhe era
indiferente, para o poder da filha que no a soubera amar nem
reconhecera o presente inestimavel que lhe dera antes, tendo-lhe dado o
seu amr.

Partiu, acompanhada de Ama-Rita, que apenas levava o encargo de a
entregar ao tio e voltar logo, pois essa  que, decididamente, no
abandonaria mais a sua menina.

Para ella a menina era Manoela, que nunca deixava de revr como fra: a
filha adtiva do seu corao, a estranha que tomara na sua alma o
verdadeiro logar da filha morta  nascena.

Mas bastante mudara nos ltimos tempos, apesar della se no querer
convencer do que via: a mulher que pouco tempo antes ella encontrara,
seno a linda rapariga que vira partir, lavada em lagrimas, crucificada
de dres, pelo menos uma mocidade ainda florescente, estendendo-se por
um outno que se anunciava formosissimo.

Em poucos mses Manoela fez uma diferena que saltava aos olhos e
afligia toda a comunidade, que s nella fundava as suas esperanas e as
suas alegrias. O cabelo embranquecia-lhe nas fontes; a ple amarelecida,
enrugava-se imperctivelmente a princpio, mas visivelmente nos ltimos
dias em que umas olheiras inchadas lhe davam no rosto o aspto desolador
da doena que lhe fizera do corao uma pobre maquina sem regulamento.

Podia dizer-se que ia morrendo aos poucos, das feridas incuraveis que
nelle sentira, durante toda essa existencia de eterna sacrificada,
em que a alma se lhe esfacelara pelos agudos e impiedosos espinhos
do egoismo alheio.

Com a doena de Manoela, entrou o desnimo em todas as almas e a morte
encontrou facil caminho entre aquelles organismos depauperados e sem
resistencia moral.

Todos os mses havia mortes no convento: ora as freiras, ora as velhas
criadas e recolhidas, l se iam, umas atraz das outras, em debandada
desoladora. E para ella, a morte que rodeava agora como companheira
inseparavel a velha casa conventual, to suavemente serena e risonha,
era um aflar de azas sinistro que lhe deixava na alma o luto de toda
essa querida familia espiritual, a unica que verdadeiramente estimava
agora.

O convento acabava dia a dia, hora a hora,--sentia-se, numa halucinao
de presentimentos e presagios tetricos, avisos sobrenaturais e factos
estranhos que causavam a perturbao e o pnico de todas aquellas
criaturas enfraquecidas e mais ou menos doentes, seno do corpo pelo
menos da alma.

Assim, a sineta que no claustro de cima apenas era tocada quando alguem
na casa entrava na agonia, para que as almas se recolhessem com Deus e
na sua nsia de bem merecer auxiliassem a que estava para partir, a
desligar-se, sem pena nem pecado, desta vida defeituosa e amarga,
comeara uma tarde,  hora calma do Angelus, a tocar freneticamente
conclamando toda a comunidade, que se olhava espavorida e convicta do
tragico aviso.--Era certo: aquella sineta, que uma s vez tocara assim,
segundo constava, anunciando a morte de duas freiras em cheiro de
santidade, anunciava agora a morte, o fim da santa casa que fra abrigo
de tanta pobre alma de mulher revoltada ou submissa, mas todas crentes
numa eternidade de venturas de que no tinham tido na terra a compensao.

E todas ellas, velhas e novas, mseras sombras duma outra idade ou
raparigas que a educao conservara afastadas do tempo em que vieram ao
mundo, todas curvaram a cabea  convico de que a campa as chamava, de
que era a morte que as libertaria em breve. Sim, ellas estavam prontas,
mas quanta tristeza nesse fim de existencias que j mal se arrastavam,
numa vida que no compreendiam j!...

Outro dia era um rebolio enorme nas casas deshabitadas, que as fazia
tremer de apavorante susto, pensando nas irms mortas ultimamente e em
tantas que descansavam sob as lages frias do claustro.

E eram vozes misteriosas vindas da terra, perfumes deliciosos e
estranhos que se espalhavam pelos casares vasios, fantasmas
silenciosos de freiras mortas havia seculos e que deslisavam sorridentes
como que a animarem as pobres irms que assistiam ao fim da sua casa to
amada!...

Manoela, apesar de todo o seu bom-senso, no resistia ao contgio e,
como as outras, vivia numa atmosfera de prodigios e de mdos que mais
activava o progresso do mal que a consumia.

Mas no abandonava por esse motivo as velhas companheiras, que s nella
achavam conforto para bem morrerem.

Foi Soror Claudea a ltima a deixar a vida, que to dolorida lhe fra;
foi ella, a pobre louca, quem fechou, como um ponto final simbolico,
mais um periodo de historia feminina, tecida de sacrificios e servides
e iluses profundas, e sem um fecundo e nobre e belo ideal de vida!

Ali ou na familia, no claustro ou no mundo, a existencia feminina pouco
diferia; pouco mais era que esse decorrer estirado de anos partilhados
entre pequenos deveres, insignificantes trabalhos, apagadas alegrias e
supliciantes sacrificios a que ninguem prestava ateno, to naturais
so aos servos e aos inferiores...

Morta Madre Claudea, e participado o caso s autoridades, teve Manoela
que aceitar o depsito da casa para fazer a entrega legal.

Acabada a clausura e o convento, por assim dizer franqueado ao pblico,
comeou um novo martirio para Manoela, que se no podia furtar 
indelicada e faminta curiosidade de toda a gente da cidade, que j
depois fazia da visita ao convento uma distro a quebrar a monotonia
da vida provinciana.

A querida casa to recatada e fechada a todos os olhares indiscretos,
foi uma coisa pblica escancarada e esquadrinhada por todos os
indiferentes, uns sob a capa amavel da simpatia e da piedade, outros
rancorosos ou hostis, desrespeitando as suas crenas ingenuas ou
troando com as suas alardeadas superioridades as infantis preocupaes
daquelles sres inuteis...

Manoela aftava uma serenidade que lhe custava anos de vida, no
querendo dar aos indiferentes o esptculo duma dr que era apenas sua e
das suas pobres companheiras, as recolhidas, as meninas do cro e as
criadas, que em breve seriam arremessadas para o mundo como folhas
inertes e sem vida, e dispersadas ao sabr do acaso, que as levaria sabe
Deus a que dres e a que miserias!--to mal preparadas como estavam para
a luta de c fra, quasi todas pobres e sem amigos ou familia que
as tivesse como suas...

J que no podia furtar a casa e as coisas  profanao dos olhos
estranhos, fechava a sua alma num silencio orgulhoso que a tornava
respeitada, e conservava uma certa distino naquelle acabar de
comunidade que sem ella seria um levantar de feira sem grandeza nem
simpatia.

O inventario feito, a pilhagem executada por ordem superior, viu com
profunda amargura os preciosos _Gro-Vascos_ desprendidos das paredes
seguirem, com os azulejos hispano-arabes que foi possivel arrancar, a
pouca mobilia rica que havia, os livros e as tapearias de valr,
encaixotados, segundo diziam, para os museus de Lisba... Eram livros
velhos aos cantos, pelos corredores, bahus e caixes devassados e
esvasiados...

E ainda lhe foi preciso assistir, sem que a desligassem do triste
encargo de testamenteira,  invaso dos operarios que vinham transformar
a casa, para novo destino mais em harmonia com a poca.

Portas escancaradas, divises deitadas abaixo, montes de calia pelos
pateos e claustros, deslocadas as fontes murmurosas, mortas as plantas
que eram o seu encanto--aquilo afigurava-se-lhe uma ruina completa, um
desabar de todo um passado que morria sem tr criado raizes, como
morre sem seiva, inutilisada, a planta nascida em terreno pobre e rochoso.

Libertada, porfim, foi acabar de viver para uma pequena casa de campo
que a Ama-Rita descobriu escondida entre tufos de verdura tenra e uma
dce paz idilica a rode-la.

Sentia-se de mal a peor, e sem esforo deixava-se morrer, desligada da
vida, sem afeies ou deveres que a prendessem.

lm do amr humilde da simples camponeza que a criara e a cumulava de
carinhos e ternuras na morte, como a rodeara na infancia, nada lhe restava.

Christina, muito prtica, muito  sua vontade, talhara para si um logar
amplo na vida. A ltima carta do irmo de Manoela pedia-lha em
casamento, e a della, que vinha junta, pedia, pr-forma, o consentimento
da madrinha.

Manoela sorriu: era a sua vingana, uma como rehabilitao do seu
sangue, da sua propria carne expulsa outrra como coisa imunda da casa e
da familia.

Era a vida omnipotente readquirindo os seus direitos, a natureza
triunfando dos preconceitos, que desprezava as convenes e entrava como
senhora donde fra expulsa como rproba.

Christina, na sua cega e egoista caminhada para a vida, fra a fora
invencivel da razo e da justia, fra a suprema e triunfante palavra do
futuro.

A me, amoravel, generosa e submetida, dera a existencia aos pedaos
para satisfazer as outras.

A filha, egoista e revoltada, e sem exageros de sentimentalidade que s
provocam a dr, recebia uma por uma transformadas em alegrias as
lagrimas da me.

Manoela sorria: era a sua rehabilitao, era, saboreada com infinito
gsto--to certo  que nenhum sacrificio se perde, aproveitando quasi
sempre a quem menos o merece.


VIII

Em toda a noite Manoela no pudera dormir, angustiada, sentindo sobre o
peito um pso esmagador, sufocada e aflita.

Com a manh, que rompera radiosa empoeirando de oiro todo o campo e
doirando as montanhas que se destacavam no fundo roseo do co, serenava
um pouco.

Sentia-se mais aliviada e quiz arrastar-se at  janela aonde se sentou
na cadeira de braos, que era o seu poiso habitual. Olhava atenta a
bandada de pombas brancas que sahia do pombal em vos estonteados e
incertos, embaraando-se nos ramos das laranjeiras que floriam de branco
e perfumavam delicadamente a atmosfera.

--Ah, como era linda a natureza, sempre renovada e sempre a mesma,--e
como era bom viver!...

E a pobre doente ouvia, num encanto de esperana, nunca extincta no
corao humano, as palavras de consolao que a ba Ama-Rita lhe ia
dizendo.

--Porque no iam passar uns tempos a casa do sr. Morgado?... Havia de
fazer bem  senhora...

--Sim, iriam--concordava Manoela--mas no j, a primavera comeara
apenas, e a Ama-Rita bem sabia como eram ainda invernosos e frios esses
mses de primavera l na terra.

Oh, se sabia! Quantas noites enregeladas passara acalentando nos braos
a sua menina; quantos dias fechada em casa porque a neve e o frio no
dava licena, at maio, de se sahir da lareira...

Manoela, sorrisonha s recordaes da ba vlhota, prometia fazer essa
viagem--em vindo o bom tempo.

--E o menino, quando nascer?--perguntava a Ama.

--J tens pressa de o chamar teu, no  assim?...

E comparava, com um certo sorriso ironico a aflorar-lhe aos labios
descrados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro
filho de Christina e os transes porque ella passara para que a me
chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e
recordar era tornar a sofrer as horas de desnimo e desespero que por
milagre a no tinham atirado para um hospital de doidos ou para o
cemiterio.

Tornava a vr a casa em ruinas, onde a criana nascera como um animal
bravio, que anda a monte, para no ofender com os seus gritos de
filho ilegal as consciencias socegadas...

Como isso j ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria ento que
Christina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nodoa na familia
fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem
todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que dsse sem
precalo o novo herdeiro da casa?!...

E to desemelhante destino s porque uma tinha um pai que legalmente
reivindicava os seus direitos, emquanto a outra era filha dum homem, que
na sua inconsciencia de bruto apenas cuidara do prazer material e
passageiro, com tanta mais perfidia quanto era maior o seu conhecimento
da indulgencia da sociedade para com as leviandades do homem
transformadas em crimes para as mulheres.

E Manoela, meditando e revendo toda a sua existencia naquella hora de
passageiro repouso, que a doena lhe dera, pensava com amargurado
remorso no que chamava agora a sua covardia:

--Sim, Christina, no impulso do seu egoismo e da sua nsia de viver, 
quem estava na verdade!

A transigencia, a covardia, a fraqueza, mesmo quando so filhas do
sentimento, acarretam consigo o triste premio da sua inferioridade. E
assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ella
ali estava sem familia, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse 
vida que a ia abandonando como fardo inutil, que j no presta para nada.

No, no se deve transigir, no se deve esconder uma o que em nossa
consciencia no  um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a
mostre, ferozmente, como tal!

A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e s pede contas severas
aos fracos, aos que transigem, aos que a ella se no adaptam ou a no
dominam, as duas unicas frmas de a vencer.

Christina tivera razo: ella no fra uma ba me, no soubera
desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacavel porque fra ferida,
cobrindo com a sua revolta o destino da criana que chamara a uma vida
que lhe no pedira. No tinha desculpa. Fra necessario que a filha, no
seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrificio
do proprio corpo procurando nesse casamento sem amr o nome que ella lhe
negara.

E valia muito o amr?... Ah, ella sorria, com d de si mesma,
recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo
palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento
mesquinho de dvida, com a pureza duma criana, cuja alma no fra
maculada pela desconfiana--e o que lhe deram em troca?!...

Pois bem, ia reparar a sua falta.

E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua
meditao, Manoela pediu a escrevaninha portatil que estava sobre a msa
de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...

Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e ps a penna de parte. O que
ia fazer com essa declarao a juntar ao testamento?!

Christina j no precisava do seu nome, mais amplamente coberta com o do
marido que a tomara como filha de pais incognitos, e a sua declarao
extemporanea apenas lhe traria vergonha inutil e dissabores...

No a fazia--era j tarde para isso.

Recostando-se s almofadas que a Ama-Rita lhe ageitava na cadeira,
sentiu-se agoniada, pediu agua, depois fechou os olhos, franziu
frouxamente os labios descrados, e a cabea tombou-lhe para o lado sem
vida.

--Deixou de sofrer!--dizia a velha, soluando alto, para a criada e
para a mulher do quinteiro que chamara aflita na primeira impresso de
inevitavel surpresa. E alisava-lhe os cabelos sobre a fronte,
juntava-lhe as mos numa atitude de prece. Deixou de sofrer, coitadinha!
Toda, toda a vida--uma sacrificada!...




INDICE

                                    Pag.

    A Vinha                           7

    A Feiticeira                     37

    Diario duma criana              81

    Sacrificada                     181





OBRAS DA MESMA AUTORA



    AMBIES (romance)                                                700
    INFELIZES (historias vividas). Esgotado.
    A BEM DA PATRIA: Bibliotca de propaganda educativa e
        distribuio gratuita:
            1. _As mes devem amamentar seus filhos._
            2. _A educao da criana pela mulher._
    BEM PRGA FREI THOMAZ (comedia)                                   300
    TEATRO INFANTIL: _A comedia da Lili_                              200
                     _Um sermo do Snr. Cura_                          60
    A GARRETT. No seu primeiro centenario.--De colaborao com
        Paulino de Oliveira                                           500
    GARRETT NO PANTHEON.--De colaborao com Paulino de Oliveira       50
    A NOSSA HOMENAGEM A BOCAGE 100 S MULHERES PORTUGUSAS.--Livro
        feminista de critica e propaganda                             600
    A MINHA PATRIA.--Livro aprovado oficialmente para premios
        escolares. Encadernao de luxo, desenho de Roque Gameiro,    400
        paginas em magnifico papel e inumeras ilustraes           1$000
    PARA AS CRIANAS: Publicao mensal ilustrada fundada em 1897.
        Publicados 15 volumes com magnificas gravuras.
            _Contos tradicionaes portuguses_, 10 volumes.
            _Contos de Grimm_, traduzidos do alemo. 1 volume.
            _Alma infantil_ }
            _Animais_       } originais de Anna de Castro Osorio
            _Boas crianas_ }
            _Historias escolhidas_ (traduo dirta do alemo).
                Cada volume desta publicao avulso.                  400
    INSTRUO E EDUCAO (Festas infantis).--Folheto de critica
        pedagogica                                                    100





End of the Project Gutenberg EBook of Quatro Novelas, by Ana de Castro Osrio

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK QUATRO NOVELAS ***

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     Chief Executive and Director
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