The Project Gutenberg EBook of A Divorciada, by Jos Augusto Vieira

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Title: A Divorciada

Author: Jos Augusto Vieira

Release Date: April 7, 2010 [EBook #31917]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
    em 1906.

    Mantivemos a grafia usada na edio impressa, inclusivamente a
    peculiaridade de formatao dos dilogos que o autor adoptou.
    Foram corrigidos alguns pequenos erros tipogrficos evidentes,
    que no alteram a leitura do texto, e que por isso no considermos
    necessrio assinal-los. Outras correces, por termos considerado
    importante dar nota delas, foram assinaladas na verso html deste
    texto.

      *      *      *      *      *



COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA--59. volume

A DIVORCIADA



                      COLLECAO ANTONIO MARIA PEREIRA

                                     A

                                 DIVORCIADA

                                    POR

                             JOS AUGUSTO VIEIRA


                                 2. EDIO



                                    1906
                       Parceria Antonio Maria Pereira
        LIVRARIA EDITORA E OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO
                           Movidas a electricidade
                           _Rua Augusta--44 a 54_
                                   LISBOA




1906

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO

Movidas a electricidade

Da Parceria Antonio Maria Pereira

_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1. andar_

LISBOA



_Ao Ex.mo Sr._

_Elyseu Xavier de Souza e Serpa_

OFFERECE E DEDICA

                                                             O AUCTOR.




A DIVORCIADA


I

Festejavam-se  noite em casa do brasileiro Mendes os dezenove annos da
menina Adelaide.

Toda ella se affogueava nos contentamentos intimos de _rainha_ da festa,
as faces carminando-se das exhuberancias humidas e quentes d'uma
mocidade recatada e honesta, muito vaidosa do seu vestido novo,
praguejando em frente do espelho, como um collegial estroina, contra
aquella _moda_ de penteado, que lhe no deixava pr em relevo as longas
tranas castanhas, to espessas, que a natureza lhe doara.

Tinham-se convidado apenas as filhas do Gomes, as Bastinhos, a Ermelinda
Silva, filha do Jorge director d'um banco, e umas poucas mais,
ex-companheiras de collegio, muito intimas, com quem se no fazia
ceremonia.

Rapazes viriam tambem.

O Juca, sobrinho do Mendes, tinha-se encarregado de apresentar alguns
amigos, e o brazileiro, muito popular nos estabelecimentos da Praa de
D. Pedro, convidara alguns caixeiros--para irem beber um calice do fino,
fazer uma saude  pequena.--

Era cedo ainda.

A grande meza de jantar, como um cetaceo brunido, estendia toda a
elasticidade das suas articulaes para sustentar no dorso viandas
appeteciveis, carnes frias, podins gelados, os largos taboleiros de
doce, as garrafas de crystal com opalinos vinhos do Porto e da Madeira.
Ao centro um jarro de porcellana, cheio de camelias encarnadas e
brancas, dominava todo aquelle acampamento de coisas appetitosas,
orgulhoso de si, como o general Boum no meio das amazonas da Gr-Duqueza.

Na sala de visitas a menina Adelaide collocava por suas proprias mos
heras e flores em volta das serpentinas.

O Mendes, em mangas de camisa, suando como outr'ora nas labutaes dos
seus armazens, dava ao piano uma collocao apropriada de modo a occupar
o menor espao possivel; depois vinha para o meio da sala, olhava-o na
bruta admirao da sua grossa esthetica e via que ainda se podia chegar
mais  parede.

--Ficava melhor, dizia.

Mas a filha, interrompendo o seu trabalho:

--que assim no estava bem, nem se ouviam os sons,--credo!--e, de mais,
pouco espao ficava para uma senhora poder tocar!--

O Mendes reconsiderou, cedendo um pouco da sua opinio, e em seguida
foi auxiliar a filha a dispor as flores sobre as serpentinas.

Dentro, n'outra parte da habitao, a D. Carola, accomodava uma saleta
para _toilette_ das senhoras, e o Juca, no seu quarto que serviria de
sala de fumo, dispunha charutos deliciosos n'uma estatueta bronzeada,
que fingia um escravo carregador.

Das oito para as nove horas os convidados principiaram a chegar.

Vieram primeiro as Bastinhos; traziam uns _bouquets_ muito elegantes,
feitos no Loureiro; foram recebidas com beijos cantadinhos e com um:

--Oram vivam, do brazileiro.

Acompanhava-as o pae, ex-socio do Mendes,

--homem de peso, dizia-se na praa, e compadre do dono da casa.

--Como ia de saude, ein?--perguntou, n'um _shake hands_ expressivo,
espalmando a larga mo, com uma grande cordealidade alegre.

--Uma faina, compadre, lhe no digo nada! me parece este dia aquelles em
que estavamos nos trapiches do Rio, se lembra voc?

E n'uma phonetica abrazilada, machucando a lingua patria, como se
premissem canna d'assucar, os dous recordavam as suas amargas horas de
trabalho, fatigantes mas productivas, que lhes davam agora uma
tranquillidade modesta e s, no meio da qual as suas carnes espapavam
nas blandicias oleosas d'uma nutrio sadia.

--Se gosa tambem agora, deixe l.

--Ah! se no fra isso!

As meninas entretanto, tinham ido, abraando a cintura de Adelaide,
at ao quarto da toilette, conversando muito, umas interrogativas
agglomeradas, de quem se no v desde tempo.

--E de rapazes quem viria?--perguntava a mais nova das Bastos.

--Ah, olha que no sei verdadeiramente; quem os convidou foi o Juca e o
pap.

--Vir o Alberto?

--Maliciosa! bem sabes que elle no faltaria.

--Como ouvi dizer que andava indifferente com teu primo.

--Ora, deixa l! Ainda hontem o Juca me disse que tinha estado com elle
no Suisso!

Tiraram os agasalhos, ageitaram as flores do penteado, viam-se ao
espelho, muitas vezes, com uma grande vaidade de si proprias.

--Este penteado, tambem,--dizia a Amelia Bastos,--no me fica hoje direito.

--Oh, filha, pois a mim!--confirmava a Adelaide, parece que  praga.

--Isto de cabelleireiras, no vos digo nada! so todas a mesma cousa,
no tem geito nenhum,--umas imbecis.--

E ambas acotovellando-se para apanhar a maior poro da lamina
reflectora, pregavam ganchos no penteado, com um estalido secco, de tic
nervoso, e quando o espelho no reflectia a perfeio do typo imaginado,
irritavam-se procurando outros ganchos na pequena concha de madreperola,
com adornos de filigrana, que pousava sobre o marmore do toucador.

Entretanto a campainha tocando successivamente, annunciava a entrada de
novos convidados.

--Quem ser? perguntou a Bastinhos.

--Esperai que eu volto j, disse-lhes a Adelaide.

--No, no, vamos comtigo.--

Empoaram-se ainda uma vez com a pluma _de poudre de riz_ e depois
desceram todas; tinham entrado o Jorge, director do banco, e Ermelinda,
a filha.

Adelaide encarregou-se d'esta; deixou as Bastinhos na sala, com a mam;
quando voltaram, ellas vieram cumprimentar Ermelinda, depondo-lhe beijos
miudinhos nas faces d'um moreno pallido.

s dez horas no faltava ninguem.

O Mendes com grandes sorrisos d'alegria satisfeita, movia-se em todas as
direces, muito cumprimentador e prasenteiro, dizendo graas
affectuosas a cada conviva.

As senhoras, sentadas em volta da sala, nostalgicas, como larvas em
metamorphose, conversavam baixo, timidamente, sobre motivos da _ultima
moda_. Algumas fallavam dos ultimos passeios  Cordoaria e Palacio, das
scenas de namoro, colhidas aqui e ali, nas maliciosas besbilhotices
d'amizade; soltavam pequenas risadinhas, abafadas nos brancos lenos de
cambraia, amarfanhando-os muito entre as mos.

Os rapazes encostavam-se envergonhadamente s hombreiras das portas, ou
fallavam dentro na sala do fumo, com uma vozearia de praa. Os seus
olhos, acesos d'uma curiosidade concupiscente, tomavam a direco dos
elegantes collos brancos, que sahiam das toilettes mais decotadas.

S um d'entre elles, mais ousado, com uns ares de _lion gant_, abanando
com o seu chapeu de pasta o peitilho, onde o collete branco muito aberto
deixava vr uma camisa folheada, com botes de coral, passeava na sala,
sorrindo-se com amabilidade olympica para as damas conhecidas e fitando
o monoculo d'uma sobranceria atrevida, sobre as carnaes frescas e
sensuaes das elegancias femenis.

Os rapazes invejavam surdamente aquella naturalidade e garbo simples de
porte.

--Aquillo  que  um _menino_!--exprimiam dous caixeiros, n'uma
metaphora admirativa e ciosa.

--E ento? fazia elle muito bem... que andasse d'ahi, iriam dar um
gyro... egualmente!--convidava um d'elles todo almiscarado, com a risca
do idiotismo ao meio da cabea e o cabello frisado, n'umas ondeaes
luzentes de bandolina.

E os dous fingindo-se interessados n'uma conversa importante que lhes
disfarasse o acanhamento tosco, aventuraram-se a um passeio pela sala,
sentindo-se logo invadir d'um rubor de face ao perceberem os olhares das
senhoras, que se riam baixinho das suas grossas mos entaladas n'umas
gritadoras luvas amarellas.

As meninas tinham o mesmo syncretismo dos caixeiros; admiravam a
elegancia do Alberto, achando esbelta a figura, o penteado, a maneira de
trazer a camelia, a curva artistica do bigode. As mais curiosas
examinavam furtivamente os berloques do relogio, procurando surprehender
alguma _bijouterie_ symbolica de coisas de namoro. A Ermelinda
primava entre todas n'essa muda contemplao extactica.

As Bastinhos leram no seu olhar e cochicharam logo:

--Queres tu ver que a temos _tramada_! repara na Ermelinda como se
derrete a admirar o Alberto.

--Forte tola! Deixa que a no hei-de perder de vista, Amelinha!

O Mendes entrou porm na sala; um sorriso de bonhomia, despido de
etiquetas lhe pairava nos labios.

--Vamos, minhas senhoras, vae-se danar alguma cousa para matar o tempo,
ein! Que ha-de ser,  Adelaide?

--Uma quadrilha, pap!

--Seja, eu chamo o tocador! tirem pares, tirem pares--disse passando
entre o grupo dos homens.

D'ali a instantes um d'estes artistas obscuros, na gala festiva do seu
casaco preto roado pelo uso, sentava-se ao piano e preludiava uma
quadrilha.

Os homens vinham entrando de vagar, tomavam pares, animavam a sala de
grupos. Comeava a levantar-se um p fino, que excitava as tosses.

O Alberto danou com Ermelinda.

--Olha, no te dizia eu!--murmurou a Bastos para uma visinha.

A musica de Angot elevava-se sonoramente do teclado; a quadrilha comeou.

As senhoras velhas deslocavam-se para conversar, agrupando-se em
volta da dona da casa; algumas meninas que no tinham danado,
levantavam-se com grande despeito e tomavam o caminho da _toilette_,
onde iam empoar-se; outras porm reuniam-se, vingando-se da descortezia
da sorte, em aguar as linguas rosadas e viperinas n'uma analysesinha
burlesca dos pares que danavam; tinham um vivo prazer sobretudo em _pr
nomes_, em chamar a um _p de cabra_, a outro o _alho vivo_, quelle que
danava mais pesadamente o _pataco gordo_, rindo muito, umas
gargalhadinhas abafadas, que chamavam a atteno dos pares.

Entretanto o Alberto tinha phrases d'um effeito romanesco, com que
melodisava os ouvidos da filha do director do banco; inclinava-se com
profundas reverencias nas diversas evolues da quadrilha e depois,
quando erguia a cabea, os seus olhos envolviam largamente, com
magestade, os olhos de Ermelinda, que recebia esse fluido penetrante,
fazendo purpurear o rosto por um phenomeno reflexo, que a physiologia
no sabe ainda bem explicar, quando se trata de mulheres que namoram.
Quando os outros pares danavam, Alberto um pouco mais alto de estatura,
abaixava-se para ella, murmurando phrases d'um sentimentalismo de
Antony, que ouvira muitas vezes no theatro.

--Creia vossencia, dizia, que s um corao de gelo poderia deixar de
impressionar-se ante a fulgurao d'um olhar d'esses.

--Lisongeiro!

--Lisongeiro, eu, minha senhora? Como a infelicidade me bafeja todas
as vezes que pronuncio uma verdade!

A sua voz arrastava-se n'uma tonalidade sentida; dir-se-hia que as
lagrimas iam a rebentar d'aquelles olhos baos das orgias, em face d'uma
grande concentrao d'affecto.

Ermelinda olhava-o distrahidamente e gostava de se adormecer ao som
d'aquellas palavras, docemente proferidas, que poucos homens lhe tinham
dito com tanto _sentimento_!

A quadrilha terminou; os rapazes mais cheios de familiaridade,
conversavam com as senhoras; mas dentro o Juca esperava-os com
deliciosos charutos--que no podiam perder-se.

--E d'ahi um calice de Madeira, offerecia o Mendes, ns c no temos
ceremonias, ein! so boas ellas para a missa, entendeu voc, sr Alberto?

Agrupavam-se em volta da mesa; os liquidos, como n'um apparelho
hydrostatico, desciam de nivel nas garrafas para subirem nos estomagos.
Os caixeiros esvasiavam calices com uma soffreguido mal educada--de
quem apanhava d'aquelle poucas vezes.

A senhora do Mendes examinava com cuidado, curvando-se, as bandejas do
ch e dos dces que iam servir-se s senhoras; dispunha as garrafas de
crystal em salvas de prata e distribuia aos creados as ramificaes
d'aquelle servio. Depois voltando-se para o sobrinho:

--Juca, vae servir as senhoras, avia-te!

O Alberto n'este momento enchugava os labios do sexto calice que havia
esvasiado; offereceu-se para acompanhar o seu amigo--n'aquella
agradavel incumbencia--dizia.

--Pois no, era at um obsequio--e agradeceu-lhe com um sorriso a sua
amabilidade.

Na sala tinha uns modos finamente elegantes de offerecer um calice de
vinho, que no havia recusar-lhe.

--Este Alberto, diziam as senhoras, sempre tem uma apresentao to
distincta!...

Junto d'Ermelinda deteve-se alguns minutos mais.

--Ah! ella no queria beber; e vinho perturbava-a um pouco, mas visto
que elle insistia, ia fazer-lhe a vontade--e levou o calice aos seus
vermelhos labios, que apenas se embeberam no liquido doirado pousando-o
logo.

No quarto do Juca os rapazes, tomando posies commodas, estirados uns
sobre o soph, cavalgados outros sobre as cadeiras, discutiam n'uma
nuvem de fumo e de grosserias os _bons bocados_, que estavam na sala e
faziam commentarios, indecentemente libidinosos, que provocavam cheias
gargalhadas.

Nos seus olhos faiscava um pouco a scintillao do Porto e do Madeira.
Depois a conversao recahiu sobre o Alberto, o heroe da noite; os menos
favorecidos plastica e estheticamente proromperam logo com muito azedume:

--Afinal quem era elle, de que vivia, de que se sustentava?

--Ninguem o sabia--era um vadio, no havia que duvidar.

Mas o Jeronymo, com um sorriso significativo de finura, aprumando-se
para os outros, como quem tinha o segredo do enigma:

--Sabem vocs onde mora a mulher do commendador Bernardo?

--De qual? perguntaram logo muitas vozes.

--D'aquelle... d'oculos, que est sempre  porta do Guimares.

--Ah! logo se via... s assim!... ou ento calotes em cada esquina.

Entraram logo em minuciosidades da sua vida; as informaes foram
apparecendo; disia-se que tinha dividas no alfaiate, no sapateiro e at
no Central, onde j nem de jantar lhe queriam dar.

Mas a presena de Alberto veio pr termo a estas murmuraes; a
conversao mudou de rumo, at que o piano preludiou uma walsa.

--Era irresistivel, no podia perder-se--e tomaram a direco da sala,
onde as meninas os esperavam, com os bellos olhos humidos dos ardores
choreographicos, anehelando os braos d'elles, a que sonhavam
encostar-se, como sylphides vaporosas, arrastadas na vertigem.

Incontestavelmente as honras da walsa pertenceram a Alberto e a Ermelinda.

--Se no fosse o par que ella tinha, veriamos--protestavam muitas, n'um
tom mordente d'inveja, que as irritava como picadas d'alfinetes.

--Boa, pois olha, das outras vezes!

--Logo eu ento, sempre tive um par!

--Ai! menina, nem me falles, o meu, esse parecia de chumbo!.. e sempre a
parar, crdo!...

Lamentavam-se muito da sorte, que as destinara a enlaar os seus braos
nos d'um par sem elegancia e pessimo walsista--mas para outra vez,
j os conheciam--affirmavam.

--Depois, sem animao, mesmo uns tumbas, no sei que gente escolhe este
Mendes.

Proximo d'Ermelinda o Alberto tinha j grandes intimidades, que se
estavam tornando a pedra d'escandalo das meninas, que no possuiam essa
mesma pedra. A filha do director acolhia por detraz do seu leque as
phrases incendiarias do seu par, e sorria ao sentir em volta dos ouvidos
a musica monotonamente harmoniosa da borboleta vadia da paixo. No seu
intimo duas sensaes subjectivas confluiam a dar-lhe um goso
inestimavel de felicidade--esmagar a vaidade das outras e elevar a
propria, sentindo-se preferida.

E emquanto o Alberto cinzelava n'uma linguagem fluente as phrases da sua
_declarao_, ella muito feliz por ter arranjado _namoro_, pensava j na
inveja que as outras lhe teriam quando elle passasse debaixo da sua
janella, nas cartas que lhe escreveria, no portador d'ellas, se seria de
tarde ou  noute que elle viria, como illudiria a vigilancia do pap, e
em mil outras futilidades, que fluctuavam indecisas na sua imaginao,
como o pollen das flres no co azul de maio.

As Bastos e a Adelaide Mendes murmuravam:

--Parece que o namoro sempre _pga_!

--Aquillo  pau para toda a obra.

--S queria saber quantos namoros ella j ter tido.

--Quatro lhe conheci eu.

--N'esse caso no admiro que arranje mais um!

Uma solteirona que veio para o grupo, a D. Clementina do Rosario, disse
sarcasticamente:

--Aquillo so inclinaes, meninas! Tambem ha homens, que sempre gostam
de cada delambida! nem que no houvesse mais mulheres no mundo! Ora
reparem que collo aquelle, uma esganiada!...--e protestava n'umas
excurses thoracicas, expansivas e rijas, em que os seios fartos se
elevavam n'uma curva ampla e rasgada.

Entretanto o pae de Ermelinda jogava pacificamente o _solo_ com o Bastos
e o commendador Faria; o Mendes acercou-se da mesa.

--Ento no _rico_, ein, commendador?

--Ver como este se vai tambem; pois olhe que  dos firmes; mas um
_caiporismo_ assim, nunca eu vi!

O Jorge interrompeu depois de examinar as suas cartas:

--Blo.

--No lhe dizia eu, sr Mendes!...

O Bastos que era o _p_, disse para o commendador:

--Jogue bem, parceiro, que elle o tem _furado_, essa lhe affiano eu!

Jogaram com muito silencio; mas o commendador estava realmente infeliz;
logo  terceira cartada os olhos de Jorge, que era o _feito_,
encheram-se da cubiosa alegria das _remissas_;  quinta cartada mostrou
o jogo.

O Bastos teve vontade de chamar burro ao commendador.

--Esta se no fazia, ein!--disse exaltado.

--Mas que lhe digo eu, estou caipora, no ha que vr.

O Jorge, fatigado, pediu substituto--era preciso tambem cavaquear um
pouco--e affagando a sua honesta suissa burgueza, veio at  porta da
sala observar o aspecto que offerecia.

O commendador,  meza do jogo, dizia entretanto:

--Tem uma filha bem sympathica este Jorge!

--Nem por isso, acudiram logo os dous que viam n'elle um candidato s
suas Adelaide ou Amelia.

--Peza pouco, continuou o Bastos.

--Me dizem que ainda tem os seus cinco contos! defendeu o commendador.

--E que  isso! fez n'um gesto despresivel o Bastos.

Avistando a Ermelinda e vendo a seu lado aquelle rapaz, o Jorge pensou
logo n'um casamento, n'um bom partido. Foi colher informaes.

--Um peralvilho, ein, s d'isto  que lhe apparecia--e irritado chamou a
filha, dizendo-lhe--que iam sendo horas.

--J, papai!

--E no era cedo!--accrescentou com uma tonalidade brusca na voz, que a
Ermelinda percebeu logo.

N'este momento o piano tocava uns lanceiros. O commendador Faria
approximou-se.

--Ento por aqui, commendador!--perguntou o Jorge.

-- verdade, estava um caipora! Eram dias... vinha ento um pouco
desentorpecer as pernas.

--Quer dizer que dana?

-- verdade, e se a senhora sua filha me concede essa honra.

--Pois no! oh! Ermelinda--disse o Jorge lisongeado--dansa estes
lanceiros aqui com o snr. commendador Faria.

A joven olhou o Alberto, mordeu os beios com o azedume de quem
desejaria despedir um massador que se tem de supportar, e collocou-se no
grupo respectivo.

As outras meninas viram que at o commendador danara com Ermelinda,
facto de provocar as attenes, porque o Faria quasi nunca danava.

A D. Clementina do Rosario, abafando um ciume outomnio, disse para
Adelaide:

--S faltava mais esta!

--No, a minha casa no torna ella n'uma occasio assim.

-- o que devias j ter feito, menina.

Entretanto o commendador sentia-se barbaramente atrapalhado nas
evolues dos lanceiros; a Ermelinda quasi tinha vergonha. Mas em
compensao o commendador fallava de muitas riquezas, de muitas aces,
e ella era filha d'um director de banco!

Na grossa mo do brazileiro um brilhante coruscava scintillaes
luminosas, quando os raios de luz vinham ferir a sua face. Ermelinda
sentia uma especie de fascinao.--

--O que lhe faltava seno a riqueza--pensava--e olhando menos
asperamente o commendador, animava-o com um olhar, como se anima um
molosso fiel e intelligente. De repente porm os seus olhos batiam nos
olhos de Alberto; esquecia o seu par e sorria-lhe. Comparava-os muito
ligeiramente, muito frivolamente. O Alberto era d'uma estatura elevada,
elegante, sympathica; o commendador era grosso e baixo, como um tronco
de oliveira, os seus ps assentavam no cho como as pesadas plantas d'um
pachyderme, a sua mo tinha os relevos pesados d'uma massa de gymnastica.

--Ora, sempre tenho cada ideia--pensava--isto tem l comparao!

Os lanceiros terminaram, com grande magoa do commendador--que tinha
achado muito agradaveis aquelles momentos--dizia--. Ermelinda sorriu-se.

Fez-se ento um grande silencio na sala; correu a voz de que o Alberto a
pedido de varias senhoras ia recitar uma poesia.

Os homens amontoaram-se logo uns sobre os outros, nas entradas da sala,
vidos de sensaes lyricas. As senhoras, tomando um ar admirativo e
profundo, mal agitavam os seus labios, ciciando phrases curtas, cheias
de enternecimentos.

O teclado principiou a gemer uma melopeia vaga, muito triste, como a voz
funerea de cyprestes nas aleas d'um cemiterio. O Alberto, tomando uma
_pose_ impertigada, ao lado do piano, comeou a recitar, n'uma cadencia
monotona, o Noivado do sepulchro de Soares de Passos. A formosa
balada, estafada como uma cortez viciosa, que apesar de tudo
conserva a sua belleza ossianica, soava lugubremente, aos ouvidos d'um
publico recolhido, que admirava o recitador mais ainda que a produco
do poeta.

O Alberto tinha gestos tetricos, adequados s condies do verso; as
senhoras, ao vel-o, quasi pensavam vr o phantasma da balada, arrastando
o branco sudario por entre as lousas do cemiterio. Ermelinda estava
commovida, extactica, absorta, e quando o Alberto terminou,

    --_Dous esqueletos um ao outro unidos_
    _foram achados n'um sepulchro s!..._

ella sentiu o olhar d'elle acaricial-a, como n'um beijo gelido de morte,
promettendo-lhe um amor assim, immenso, eterno, at mesmo alm da campa.

Uma salva de palmas acolheu a ultima estrophe da poesia. Alberto
agradeceu, com cortesias reverentes, de modestia affectada.

Ento o Jorge veio dizer  filha que se preparasse.

--No importa--pensou--assim como assim j marcamos a hora.--E foi
despedir-se da Adelaide, das Bastinhos, da D. Clementina. Ao passar por
Alberto disse-lhe tambem--Adeus.

--J!

--O pap assim o determinava.

--Que tyrannia!

Subiu  toilette para cobrir a capa de noite, e quando desceu, o Alberto
estava proximo da escada; sorriu-se ainda, trocaram um ultimo olhar.

Ele dansou uma vez mais; foi com a Adelaide, uma walsa, que os
fatigou muito. A filha do Mendes fez alluses aos seus novos amores,
deu-lhe os parabens--elle, que no, que nada havia!--era uma menina
muito sympathica de certo, mas o seu corao estava morto desde muito.

--E quer que lh'o ressuscitem, talvez?

--Respondeu que das cinzas no podia nascer a vida, que a paixo j no
podia incendiar o gelo,--mil banalidades cheias de sentimentalismo,
muito estafadas pelo uso, que elle conservava todavia no seu cerebro,
como se conservam as coisas pathologicas nos frascos d'alcool.

A Adelaide escutava-o e sorria-se; l bem no seu intimo achava-o tolo,
mas a educao impunha-lhe o dever da admirao, e a sua voz, se algum
dia se levantasse para dar uma opinio cerca de Alberto, diria que era
um rapaz elegante, fallando muito bem, com muito _sentimento_.

Pouco a pouco os convidados foram-se retirando. As senhoras sahiam muito
embuadas nas suas mantas de l, aconchegando as capas sobre o pescoo,
que o ar frio da rua espreitava com uma anciedade de bronchites.

Na atmosphera da sala um espesso ar condensado de gazes embaciava. As
velas de stearina desciam ao nivel das aparadeiras e as heras tinham um
verde pallido, que entristecia. O piano, como um grande monstro
adormecido, mostrava os seus dentes de marfim, canados de mastigar
notas desafinadas.

O Mendes examinava todas as salas com um cuidado minucioso; sobretudo o
quarto do Juca merecia-lhe dobrada atteno.

--s vezes, alguma ponta de charuto, um descuido qualquer, podia
originar um incendio--dizia cheio de cautelosas prudencias.

A Adelaide no seu quarto despia os atavios da festa; o seu corpo
alquebrado deixava-se lentamente cahir n'uma molleza do esgotamento.

Estava morta por tirar aquelle maldito penteado,--dizia--nunca mais se
serviria d'uma tal cabelleireira; e o collete como a apertava!

Em baixo o Juca mettia-se na cama com um--Ah!--de satisfao, de quem
termina uma tarefa; uma pontinha de alcool fazia-lhe pesar a cabea; o
somno veio logo n'uma caricia despotica, de obediencia cega, fazendo-lhe
cahir das mos um romance de Ponson, que elle tinha o habito de lr,
todas as noites, antes de adormecer.

O Mendes estava muito loquaz, desabotoava-se com uma sem-ceremonia
deshonestamente familiar, passeando no quarto, olhando a Carola que se
desfazia perante o toucador, mostrando os hombros ns, rolios,
humedecidos por um suorsinho quente.

--At que emfim!... respirava ruidoso, n'uma expirao forte,
prolongada, dilatando as bochechas.

--Uma _soire_ de truz, ein, Carola!

--Que sim--e atirava para o dorso a cabelleira farta, matisada de fios
brancos, ennovelando-a na touca de noite, com uma elevao de braos
esculpturaes, de axilas humidas, que punham desejos no cerebro um
poucochinho quente do seu velho marido, do seu Mendes.

Entrava uma luz alvacenta pelos _stores_ da janella, e fra ouvia-se
o movimento murmurioso d'uma populao que desperta. O canario comeava
a pipilar na gaiola, sentindo as livres aves gorgearem na frescura dos
quintaes, e, na rua, os vendilhes ambulantes povoavam de sons
estridentes o ar nebuloso da manh primaveral.


II

Tinham decorrido quinze dias.

O namoro havia _pegado_, consolidara-se. Com uma certeza chronometrica o
Alberto passava invariavelmente, todas as tardes, em frente da casa de
Ermelinda.

Uma vidraa corria no primeiro andar e logo depois a filha de Jorge
apparecia, com um sorriso engatilhado nos labios e um alto penteado na
cabea, emmoldurando-se no fundo escuro do desvo da janella.

A visinhana reparara a principio.

--Havia _mouro_ na costa--diziam--mas pouco a pouco a tolerancia
estabelecera-se, uma indifferena ordinaria, de coisa vulgar. A sua
_badine_ que tanto prendera as attenes, pelas curvas hyperbolicas que
traava no ar, fazendo signaes, j no despertava interesse; o leno
branco, rendilhado, simultaneamente absorvente dos defluxos e das
impresses amorosas, ia creando o bolor dos esquecimentos, como teria
creado o bafio das secrees. O namoro tornara-se um facto consumado,
ordinario, sem a irritabilidade dos excitantes.

A casa do Jorge tinha uma frontaria s; era como uma cellula engastada
no favo immenso da rua; apenas existia, formado por um angulo reintrante
da casa proxima, um pequeno recanto, d'onde se exhalavam fortes
vaporisaes ammoniacaes. O Alberto, que no podia remediar esta
inconveniente disposio, utilisava-a. Era d'ali, que elle, occulto pela
sombra do predio, procurava fallar com Ermelinda.

A noite adiantava-se. O transito ia gradualmente diminuindo; a patrulha,
n'uma locomoo arrastada e ordeira, tinha a apparencia vaga dos
ruminantes na solido dos campos. Clareaes de gaz punham sombras
indecisas, formando na rua projeces phantasticas. Uma faxa de ceu,
limitada pela vertical dos edificios, mostrava estrellas descoradas e
pallidas, como lantejoulas sujas d'um vestido de comediante.

Adejavam surdos murmurios d'um movimento longinquo; e proximo, n'uma
tanoaria, um martellejar compassado e monotono affirmava vigilias
prolongadas d'um trabalhador obscuro. Ao fundo da rua um leque de luz
sahia da porta meio aberta d'um armazem de vinhos; sentiam-se vozes
disputar, e na esteira luminosa atravessava de quando em quando um
ebrio, que forcejava por conservar um equilibrio digno. Abria-se alguma
janella com estrondo e um choque d'aguas, chapeando na rua, indicava uma
contraveno do codigo municipal.

O Alberto vinha sempre muito aconchegado no seu _pardessus_, a garganta
agasalhada nas dobras quentes de um cache-nez; mansamente, como uma
cobra que deslisa, elle introduzia-se no recanto proximo e accendia um
charuto.

Era o signal.

Uma vidraa rangia no primeiro andar da casa de Jorge, e a Ermelinda,
muito intrigada, cheia de pequenos sustos deitava a cabea de fra da
janella, investigando no espao os raros vultos que passavam, como se
receiasse compromissos.

Cumprimentavam-se com trivialidades, ligeiramente. Depois o Alberto, no
desempenho romantico do seu papel de namorado, arremeava para o alto
umas phrases sonoras, d'um gongorismo empolado, crepitantes, como
foguetes de lagrimas n'um ceu luarento, em noute de arraial.

--Que no acreditava, que era uma impostura.

--E porque no?

--Os homens! quem podia fiar-se n'elles! havia por ventura nada mais
falso?--dizia muito queixosa das amarguras da sua experiencia malograda,
em coisas de namoro.

--Ah! que elle no era assim!--protestava--que sentia por ella um
immenso amor, infinito, como s uma vez se conhece na vida.

--E mais quem!--sorria, n'uma duvida amavel que lhe lisongeava a
vaidadesinha de conquistador.

--Podia jurar-lh'o--affirmava--por tudo o que houvesse de mais sagrado
aos seus olhos, pelo seu corao, pela sua sorte, pelo proprio Deus!

Ermelinda calava-se. N'estes momentos parecia-lhe que, se fallasse,
profanaria a musica apaixonada e sublime d'aquellas juras d'amor;
concentrava-se sobre as suas phrases cheias d'uma secreta adorao
mystica e sentia-se invadir d'umas sensaes deliciosas, que a enterneciam.

--No! elle no podia mentir--pensava--como era feliz em ser assim amada!

Um extasi ineffavel a envolvia docemente, suavemente, como um banho
tpido d'essencias perfumadas. Se interrogasse ento a voz occulta do
seu espirito, no poderia dar uma definio de si propria.

--Ah! se podesse voar com elle para um ceu distante, para o
desconhecido!... que felizes que seriam!...

Deixava-se fluctuar na atmosphera quente da _rverie_, como as grandes
aves serenas e mansas, que dilatam as azas, pairando, sobre as alturas
do azul. Mas elle em baixo, quebrando a cinza branca do charuto,
interrompia:

--Em que pensava?

--Ah! nem ella poderia dizer-lh'o.

--Que era talvez em outro; notava n'ella certa distraco, bem se via,
uns modos... to poucas palavras!...

--Que era s n'elle--protestava convencida.

--Ah! era ento muito feliz.

--Muito, muito?--perguntava sorrindo com uma certeza de que havia melhor.

--Muito, muito, no! para isso s uma unio eterna, indissoluvel, que os
tivesse sempre juntos, unidinhos, como um casal de pombos enamorados.

Ermelinda sentia um rubor honesto, de felicidades nubentes, invadir-lhe
a face.

--Ah! que a Amelinha Bastos essa  que fra feliz! Um bello casamento! E
ento s o vestido do noivado, que dinheiro!... Mas nem por isso estava
bonita, no lhe parecia?

--Que sim--respondia desdenhoso.

--E sempre teve um dia mais desagradavel: chuva, sempre chuva! era
insopportavel; apesar do trem, tinha-se toda salpicado de lama! O seu
casamento havia de ser n'um dia alegre de sol, muito sol; no achava
melhor?--

--De certo! elle todavia julgava indifferentes essas cousas! qualquer
dia era bom!

Calavam-se; um novo silencio cahia, como as pausas lentas d'um trecho de
musica.

A patrulha voltava do seu gyro; e ao ver ainda os namorados, observaes
baixas, eivadas de um philosophismo de caserna se suscitavam.

Que o _gajo_ ainda estava de sentinella, no tardava em apanhar uma
queixa de peito.

--Deixasse l--respondia o camarada--comiam-lhe bem e bebiam-lhe! no
eram como a gente, uns desgraados! um rancho sem _sustancia_, e mortos
de servio.

Ermelinda fallava; mas um carreiro, em articulaes gutturaes, d'uma
linguagem primitiva e grosseira, praguejando contra os bois, no deixava
ouvir. O carro affastava-se produzindo sons estridentes nos
parallelipipedos.

--Para isto no olhava a policia--murmurava o Alberto, indignado,
agitando a _badine._

--Que o tempo parecia querer mudar--dizia ella--estava-se a pr frio,
nuvens caminhavam escurecendo o co; uma estao to inconstante!

--Exactamente, como as mulheres!--arguciava.

--No, isso, no! Elles sim! no havia hoje quem encontrasse um corao
leal, todo occupado na imagem d'uma s mulher!

--Nem o meu?

--Eu sei! Os homens so to voluveis!

--Ah, que ella o no amava! do contrario no fallaria assim!--dizia todo
offendido, n'uma voz rapida, d'um tremulo nervoso.

--Se o no amava! nem dissesse tal! era uma blasphemia, daria por elle a
sua felicidade, a sua vida.

E quasi se sentia arrependida de lhe ter chamado voluvel; uma grande
tristesa subia ao seu espirito, fazendo-lhe experimentar alguma coisa de
commovente, que lhe marejava d'agua os olhos limpidos e bellos.
N'aquelle instante desejaria cortar por todas as conveniencias, saltar
d'aquella janella, aproximar dos seus labios a fronte pallida do seu
amante e dizer-lhe n'um impeto d'amor:

--Amo-te, Alberto, amo-te muito.

Depois ajoelhar-se n'uma supplica muda, para que elle a levantasse,
doido d'amor, muito carinhoso e meigo, como j tinha visto fazer no
theatro ao actor Santos, quando se representava o Antony.

Mas quando ella se arroubava n'estes pensamentos languidos, enternecida
e melancolica, um vulto apparecia ao fundo da rua, fazendo estalar uns
passinhos miudos, rapidos, de quem tem pressa de chegar.

--O pae, o pae, adeus!--despedia-se atrapalhadamente, fechando a janella
com o menor barulho possivel.

--Que raio!--regougava o Alberto n'um plebeismo grosseiro de indignao
irada, como se desejasse fulminar com a vehemencia da sua apostrophe o
cidado honesto, que recolhia tranquillamente do seu whist, do Club. E
desalojando-se da posio, seguia rapido na direco opposta,
embuando-se mais, com as mos nos bolsos, repuchando o casaco sobre os
rins, com arrepios de frio. Voltava-se obliquamente para ver entrar o
Jorge e depois retrocedia, lentamente, devagar, como um vadio incorrigivel.

Olhava; vultos perpassavam no fundo luminoso da vidraa descida.

--Devem ir tomar o ch--pensava--emquanto elle, exposto ao relento da
noite,  neblina,  intemperie, tinha de atravessar quasi meia cidade,
um _estiro_, para se metter n'uma pocilga nojenta, miseravel, que o
revoltava.

Caminhava lentamente, com mau humor; as linhas do seu rosto vincavam-se
n'uma irritabilidade surda, espelhando o lodo da sua alma.

Atravessou ruas desertas, praas onde apenas as grandes arvores se
levantavam, como espectros collossaes; s vezes uma guitarrada
apparecia, cantando trovas fadistas, acanalhadas; mulheres que estendiam
a mo e a honra  philantropia que voltava das ceias, occultavam-se na
sombra, como vermes que se arrastam.

Alberto desceu os Clerigos, atravessou a praa de D. Pedro, subiu a rua
de Santo Antonio.

Morava em S. Victor.

Ao chegar  Batalha parou para accender um charuto. Dous vultos que
vinham na sua direco gesticulavam, fallando alto.

--Com que ento _depennado_!

--De todo!... se me emprestasses uma libra mais, uma _coroa_ que
fosse!... estou com palpite! Era no rei de espadas, acredita-me.

--Deixa-te d'asneiras; no basta o que l te ficou! outra vez tirars a
tua desforra!

Affastavam-se; palavras indistinctas, confusas, fluctuavam no espao
sonoro.

O Alberto pareceu meditar; as suas mos revolviam com avidez os bolsos.

--Cinco tostes, que miseria, posso l fazer figura!--disse com
desalento.--Deu alguns passos mais, parou de novo, indeciso. A ideia do
jogo, symbolisada n'aquelle _rei de espadas_, aferroava-lhe o cerebro,
como uma vespa opportuna que se enxota debalde.

--Tambem pouco perco, vamos l.

Resolveu-se.

Retrocedeu e entrou no Gremio. Jogadores infelizes sahiam; em cima
ouvia-se um _brou-ha-ha_ ruidoso e tosses convulsas provocadas pelo fumo
do tabaco.

A atmosphera espessa podia partir-se, asphixiava; no soalho os escarros
collavam-se s pontas de cigarros.

O Alberto entrou, sem se incommodar, como velho conhecimento.

O banqueiro apresentava n'aquella occasio um rei d'espadas.

--Jogo--disse rapido.

A sorte foi-lhe favoravel. Duas horas depois um monte d'ouro estava na
sua frente. Os olhos irradiavam-lhe alegrias febris; nas faces tinha o
calor rubro das congestes. Os amigos rodeiavam-o como a um semi-deus
olympico.

Jogou a ultima parada, levantou-se; convidou os rapazes para uma ceia.
Felicitaes choviam e sorrisos felinos, de invejas abafadas,
procuravam-o de todos os lados.

O sol banhava de luz a cidade, quando o Alberto, com os olhos baos,
cambaleando, se mettia n'um trem e mandava bater para o _Central_.


III

A hora ia passando, Ermelinda comeava a manifestar uma impacienciasinha.

--J se vai demorando--pensava--e investigava com o olhar contrahido, os
vultos que ao longe apresentavam com Alberto uma semelhana na estatura,
no andar. Mudava de posio frequentemente, aconchegava-se para o canto
da janella com o fim de apanhar uma poro de horisonte mais extensa.

A noite cahia e os empregados do gaz, n'um passo rapido, de tarefa
imposta, accendiam os candieiros, que atiravam projeces luminosas
sobre a calada, e sobre as frontarias dos predios.

Comeava a ser frequentado o armazem, l ao fundo da rua; os transeuntes
iam diminuindo, e os vendilhes, n'um grito rouco, fatigado,
apregoavam ainda os ultimos productos do seu commercio. Um rodar surdo
d'americanos serpenteava, e as luzes vermelhas, como olhos injectados,
passavam rapidas, oscillando. Uma sombra caminhava n'um movimento
circular, desapparecendo,  medida que o vulto se approximava da luz.

--Ah! d'esta vez era elle, conhecia-o no andar--e escondia-se,
maliciosa, para o surprehender.

--Mas no--o sugeito continuava a caminhar indifferentemente, no
attentando n'ella sequer.

--E esta!--dizia, n'uma voz tremente, nervosa, de desilluso provada.

Mas depois, reflectindo:

--No ha que ver, no vem!--e possuia-se d'uma irritao surda contra
tudo e contra todos; um _ferro_ que no podia bem explicar.--Parecia-lhe
que os seus nervos tinham uma sensibilidade electrica; que era toda
outra, inteiramente diversa.--

--Mas no tem explicao possivel!--murmurava.

Pensava em acalmar, em socegar; olhava distrahidamente as estrellas que
fulguravam nas alturas, procurando n'uma _rverie_ indolente e malandra,
uma especie de quietao scismadora e contemplativa que a absorvesse.

--Mas no podia,--irritava-se mais, contrahiam-se-lhe n'uma crispao
nervosa as linhas da physionomia e a sua vontade, o seu desejo, seria
n'aquelle momento converter-se n'um vendaval violento, que assolasse,
que devastasse tudo na sua passagem. Tinha intermittencias de
paciencia, acalmava; o rosto espelhava resignaes como a superficie
d'um lago, onde no sopram ventos; mas l dentro uma agitao surda
roa, como um verme das madeiras no silencio dos quartos de dormir das
velhas estalagens. Canada de esperar, fechou a janella, com estrondo
rapidamente.

--Canalha--murmurou enraivecida.

E passando pela Joaquina disse-lhe exaltada:

--Diga ao pap que hoje no esperei, doa-me a cabea.

--Se queria um ch de cidreira.

--Tome-o Voc--respondeu com asperesa, como uma nortada rija.

--Vai com a telha!--

Entrou no seu quarto, fechou a porta bruscamente.

A Joaquina ainda philosophava:

--bem o dizia ella, estava com a telha--e continuou a correr o ferro de
brunir sobre uma camisa de homem.

Uma lampada de vidro fosco, suspensa n'um tripede de metal bronzeado,
punha uma meia luz suave sobre o recinto, onde entrara Ermelinda.

Deixou-se cahir n'uma _chaise-longue_; os seus joelhos sobrepondo-se,
n'um habito de quem costura, deixavam sahir da linha desordenada do
vestido alvuras de saias e um p elegante, n'um sapatinho de bico,
enleado, que deixava vr a frma nervosa um pouco secca, da perna
calada em meia cr de rosa.

Apoiou a face sobre a mo esquerda, e os seus dedos, n'uma mechanica
inconsciente, beliscavam inquietos o rosado lobulo da orelha. Os olhos
extacticos e mudos como dois lagos de luz, poisavam, n'uma absorpo
humida e contemplativa, sobre os moveis d'aquelle ninho to povoado das
suas ideias, dos seus sonhos, das emanaes perfumadas da sua alma.

Tudo porm n'aquelle momento se lhe affigurava estupido, inerte, sem uma
recordao, sem uma saudade. O espelho do toucador reflectia-lhe sombras
indecisas e vagas; os pequenos frascos de crystal, cheios d'essencias
que ella tanto amava, pareciam-lhe agora comparsas imbecis que rodeiam o
genio d'um grande artista. A sua commoda pequena, com embutidos de
madreperola, onde guardava os seus bellos vestidos, tinha as apparencias
informes d'uma tartaruga collossal, empalhada, nos ocios de museu.

Como nos lagos tranquillos, ao avisinhar das tempestades, saltam ao lume
d'agua peixes prateados, assim tambem do intimo do seu peito respiraes
suspiradas sahiam de quando em quando, agitando-a na quietao muda das
suas meditaes concentradas.

--Porque no teria elle vindo?--

Era a pergunta que o seu espirito no cessara ainda de formular, sem que
sahisse do circulo vicioso, d'uma resposta negativa. Acudiam-lhe muitos
motivos, muitos pretextos, para o desculpar, para o censurar.

--Assim! sem mais, nem mais!--pensava-- ter-me em muito pouca estima--e
cheia d'um phrenesi nervoso apertava com mais fora o lobulo da
orelha, respirava frequente, agitando o seu sapatinho n'umas flexes
rapidas, que indicavam necessidade de movimentos expansivos.

Os olhos marejavam-se-lhe d'uma humidade turva, lagrimas segregadas no
reflexo de coleras occultas.

--Mas se estivesse doente! Ah, como era infeliz! Que maldita duvida--e
deixava-se cahir n'uma suavidade de sentimentos, esquecia todas as
recriminaes, todas as queixas, tudo o que podesse recordar-lhe uma
falta d'elle. Lembrava-se apenas que estaria talvez s, desamparado,
entregue  indifferena egoista de criados de hotel, sem um amigo, sem
uma irm carinhosa, desvelada, que o affagasse como a uma creana, que
lhe tomasse a cabea entre as mos, que depozesse um beijo animador na
sua testa aquecida pela febre.

Via-o sorrindo, se ella lhe podesse apparecer, com aquelle sorriso meigo
dos febricitantes e o olhar prostrado, d'uma languidez doentia--que lhe
devia ficar to bem!--

Chorava ento. A sua alma de mulher, apesar de educada na
sentimentalidade vadia das pieguices de collegio, dos namoros de
janella, das missas ao Domingo, dos luxos baratos, das leituras
romanescas, dos sorrisos de _soires_, irradiava uma sensibilidade pura,
honesta, como um sol, que empanado pelo escuro das nuvens, se
entremostra uma vez ou outra no fundo luminoso e transparente do azul
sereno e indefinido.

--Ah, como desejaria ser sua esposa, sua irm, sua amiga! como ella
o amaria assim doente, como seria desvelada, solicita, carinhosa.--

Calava-se; as lagrimas deslisavam sobre as suas faces, abundantemente,
como um rio que se solta. Pouco a pouco diminuiam, estancavam-se n'uma
sensao ardente, de febre nervosa que a invadia. Sentiu frio,
lembrou-se que j era talvez muito tarde. N'este instante o Jorge
voltava do Club. A Joaquina fazia tilintar dentro as chavenas do ch.

Poz-se em p e principiou a despir-se; a sua cama  franceza, estreita,
de colcha branca, esperava-a n'uma attitude virginal e passiva, como um
ninho abandonado, s quentes irradiaes de corpos vivos.

Era aquella tambem a hora a que costumava despedir-se d'Alberto; por
isso a crise ia diminuindo, cahia n'um desalento molle, de prostrao
fatigante. Metteu-se no leito, despenteada, com um vagar preguioso, de
habitos indolentes, alisando o travesseiro. Uma sensao de frescura do
linho a penetrou at  medulla; teve um calefrio rapido, um ah! de
satisfao; ennovellou-se, como as creanas debeis e ficou assim, muito
tempo, sem se mover, com os vagos olhos absortos, pregados na lampada,
que ardia.

Lembrou-se que no tinha resado; descobriu o brao e fez o signal da
cruz; os labios balbuciavam umas oraes banaes, narcotisadoras, que lhe
fizeram pesar as palpebras.

Tinha adormecido. Nas linhas do seu rosto divisava-se ora um sorriso
alegre, de satisfao saciada, ora uma contraco spasmodica,
revelando amarguras, desesperos intimos, que a commoviam. Sonhava
com Alberto.

--Via-se noiva, de vestido de faille branco, muito _chic_, feito nas
Ferin, tendo ao peito um ramo de flr de laranjeira e na cabea um
penteado elegante, coroado por uma grinalda identica, onde prendia um
vo de tulle, amplo, magestoso, que a velava pudicamente; nunca lhe
parecera to pequenino o seu p, como calado n'aquelle sapato branco,
de setim, dando um realce artistico  sua perna gentilmente vestida em
meia de seda.

--Ah! como o Alberto gostaria d'ella assim!--sorria vaidosa--

--E a elle, via-o tambem, muito frisado, de gravata branca, a camisa com
abotoadura de brilhantes, de casaca, muito attencioso, muito reverente,
cheio de elegancia, invejado por todas, por ellas, pelas suas amigas,
que a felicitavam com sorrisinhos traioeiros, compromettedores, que
faziam crar.

E de sobre a elegancia da sua _toilette_ de noiva, ella, para se vingar,
deixava cahir sorrisos, animadores, de consolao, para a Adelaide
Mendes, para as Gomes, para a filha do Bastos, e outras que ainda
estavam solteiras.

Via o aspecto dos trens, enfileirados, ao sahir da egreja, e a sua
carruagem de noiva, com os cavallos brancos, e cocheiros de fardas
vistosas. O commendador Faria, muito cheio de brilhantes, pesado,
enchendo elle s um trem, seria o padrinho.

Ao sahir, quando j vinha pelo brao d'Alberto, as mulheres do povo,
cobrindo-a de santas aspiraes, de benos:

--que Deus a fizesse feliz, que fosse em boa hora--

--Apesar de que no promettia muito a cara do noivo--observara uma
aldeleira ambulante, de grosso ventre levantado, e roupas velhas
penduradas no brao de cres arreliosas.

Que vontade teve de a esganar, o diacho da velha... dizer que o seu
Alberto, to lindo, to sympathico, no tinha boa cara: forte bruta!--

Mas esqueceu-a breve; o cortejo dos convidados, um sequito apparatoso
que a rodeava como a um astro, fazia-lhe vaidade, tornava-a feliz,
parecia-lhe que a dilatava de superioridade.

Depois os convidados, n'uma civilidade ironica, iam-se despedindo. As
senhoras abraavam-a, segredando-lhe ao ouvido e pondo beijos miudinhos
nas suas faces aquecidas. A final ficaram ss, ella e o seu amado, o seu
marido! Havia uma lampada de crystal no quarto e os cortinados, como as
vlas d'uma gondola, agitavam-se trementes, como se o leito fra na
realidade um barcosinho, onde ambos tivessem de navegar para um paiz
distante, desconhecido, estranhamente novo. Elle tomara-a um pouco
arrebatadamente, sentando-a nos joelhos, affagando-a com beijos e
sorrindo, ao tirar-lhe o vo de noiva, que a fazia reflectir no espelho
do toucador, toda branca, d'uma brancura eburnea, de camelia nevada.

E no seu rosto adormecido divisava-se um limpido sorrir, de doce
voluptuosidade, como se a alma lhe irradiara nas sensaes tpidas
d'aquelle sonhar delicioso. Mas logo aps esta serenidade tranquilla e
suave, em que talvez a sua imaginao voasse para esse periodo ditoso e
perfumado da lua de mel, em que teria sempre junto de si o seu
maridinho, muito carinhoso e muito meigo, o periodo dos jantarzinhos
frugaes e delicados, com flores na meza e alegrias no espirito, as
linhas da physionomia contrahiram-se-lhe n'uma crispao dolorosa, e o
sonho revestia uma feio diversa, em que a amargura vinha como uma flor
envenenada, empeonhar os dias de ventura;

--era ainda aquelle o Alberto que ella amava, mas desleixado, vadio,
brio; tinha grosserias insupportaveis, ferocidades de despota--

--e via-se triste, chorando muito, sem um consolo, sem um carinho que a
alentasse...--era horroroso--estava diante de si uma galeria
subterranea, escura, um abysmo de sombras...

--no, no queria caminhar, tinha medo...--mas elle, rindo, dera-lhe um
impulso brutal, fizera-a entrar; um caminho escabroso, cheio de
asperesas, silvados rodeando-a por todos os lados... cada passo
custava-lhe muitas lagrimas... e o Alberto ria, ria, estupidamente, como
um idiota embriagado... Um anjo se approximou d'ella; tinha o perfil do
commendador Faria, com os seus oculos d'ouro, e as mos a despedirem luz
como as dos illuminados celestes; mas a luz sahia-lhe da base dos dedos,
do logar dos anneis; e tomou-a nos braos, sentia-se voar, muito cheia
de doce gratido, quasi esquecida, quando uma creana se lhe prendeu aos
vestidos, parecendo reprehendel-a d'aquelle vo egoista, olhando-a
com a limpidez casta d'uns grandes olhos pretos;... mas o
anjo--commendador dominava-a, arrastando-a sempre, perguntando-lhe n'um
adociado brazileiro:

--se a sinhasinha no voava,--que morreria se parasse, l estava o snr.
Alberto a rir-se d'ella--

e--sim, l estava!--olhou para traz, uma enorme cadeia a prendia a elle,
e uns policias passavam ento, empurrando-a, batendo-lhe brutalmente.

--Queria fugir, fugir: era horroroso!

Despertou ento. Um suor frio lhe humedecia a testa; a cabea doia-lhe
um pouco, sentia-se fatigada. A luz da lampada esbatia-se moribunda nos
primeiros alvores da manh que vinham entrando pelas fendas da janella;
ouviu o gallo cantar no quintal e logo depois uma voz arrastada, n'uma
melopeia monotona, bradando do fundo da escala:

--Leiteira!--

A Joaquina desceu; ouvia-se um murmurio indistincto de vozes feminis, e
em seguida o estrondear da porta que se fechava.

N'aquelle dia andou toda alvoroada, nervosa, muito inquieta. Olhava
muitas vezes o relogio, uma pesada machina de nogueira, a que o Jorge
todos os sabbados dava corda, com a phrase rythmica:

--Tens de comer para oito dias.--

Parecia-lhe que os seus largos ponteiros de metal se moviam com uma
lentido desesperadora. Teve vontade de o adiantar--mas era uma
tolice--pensou.

Sentou-se a trabalhar para ver se distrahia. Descobriu no bastidor um
bordado delicado, a matiz, um ramo de rosas, sobre que vinha poisar uma
borboleta. A mo porm no lhe assentava, as sedas sahiam frequentemente
da agulha, o desenho errava.

--Ora! no estava para aquillo.--

Levantou-se, principiou a ler; era Agulha em palheiro de Camillo
Castello Branco; interessava-se muito por aquelle sympathico filho do
sapateiro, o heroe do romance, e sentiu deslisar umas lagrimas furtivas
ao ver a formosa Paulina, uma doce creao do romancista, to soffredora
e to amante.

Tocaram a campainha.

--Quem seria?--disse pousando rapidamente o livro e pondo-se diante do
espelho, para anediar o penteado.

--Se fosse visita de ceremonia! que massada.--

Mas a Joaquina veio dizer:--que estava ali a snr. D. Amelinha Bastos,
aquella que tinha casado.--

--E vem s?--

--Vem, minha senhora.--

--Ah! que mandasse entrar para a sala de visitas, que se aviasse.--

--No te encommodes, no te encommodes, menina, eu no sou de
ceremonias, venho mesmo para a tua sala de trabalho,--disse a Bastinhos
entrando estouvadinhamente, chilreando como um passaro alegre.

Beijaram-se muito,--que no havia quem a visse, devia estar muito
zangada, se era cousa que se fizesse.--

--Ai, filha, tenho tido tanto que fazer.--

--Tira o chapu; espera, eu o tiro,--

e com um geito feminil, delicado, levantou-lh'o de sobre o penteado,
emquanto a Amelinha, quieta como uma creana que se enfeita, esperava
n'uma attitude passiva.

A Bastinhos principiou logo a fallar, tinha uma grande verbosidade,
muita volubilidade nos pensamentos, de quem tem muito a descrever, mas
que o faz sem methodo.

--A modista, os passeios, o theatro, se no sabia do ultimo escandalo da
mulher do commendador Bernardo, que fra uma vergonha, que o marido ia
requerer o divorcio.--

--Estou admirada!--dizia-lhe Ermelinda.

-- o que te digo, menina, e ento com quem, v se adivinhas?--

--No, que no adivinhava.--

--Com o Alberto, filha, com o Alberto!--e desatou n'uma gargalhada
crystalina, debruando-se sobre o bordado a matiz, muito curiosa.

Ermelinda sentiu as pernas tremerem-lhe; a sua physionomia invadiu-se
rapida d'uma pallidez pronunciada; o seu desejo seria ter n'aquelle
momento uma exploso de colera, de lagrimas; mas a Amelinha Bastos
estava ali e a sua presena suffocava-a, como uma mascara que nos
affogueia o rosto.

--Se queria tomar alguma cousa--perguntou-lhe--tinha-se esquecido.--

--Nada, nada!--

--V l, menina?--

--Tens tu por ahi Xerez?  do vinho que mais gosto, meu marido aprecia-o
muito!--

--Que ia buscar-lh'o n'um instante, que a desculpasse por ter de ficar
s.--

-- vontade, filha,  vontade--e pegou no romance que Ermelinda estava
lendo, em quanto esta se retirava a buscar-lhe o Xerez.

D'ali por momentos Ermelinda entrou com uma pequena salva de prata, onde
vinha uma garrafa de crystal e dous calices; a Amelinha muito prompta,
com grande espalhafato, foi ajudal-a. Ella mesma encheu os calices e
tomando um, disse com modo desenvolto:

-- tua felicidade, Ermelinda.--

--Obrigada, menina.--

Mas os seus olhos turvaram-se d'umas lagrimas, depressa occultas n'um
leno em que fingiu assoar-se; dentro mesmo ella tinha chorado,
agradecendo no seu intimo  Amelinha aquelle desejo do Xerez, que lhe
dera uns instantes de isolamento.

A Amelinha, sentada na _chaise-longue_, saboreava o vinho em pequenos
sorvos, fazendo covinhas nas faces. Depois, como tomada d'uma lembrana
repentina:

--E o teu namoro, como vai, menina?--

--Oh, filha, se queres que te diga...--

--Dize l, dize l, estou muito curiosa de saber--e curvou-se um pouco,
n'uma _pose_ confidencial, de quem escutaria com vido interesse.

--Andamos assim, meios c, meios l--respondeu Ermelinda encolhendo
os hombros, franzindo o labio,--se queres que te diga, menina, j me
importei com elle, aquillo foi uma _phantasia_, uma brincadeira que
pouco durou! Para mim j no ha _illuses_.--

--Pois tinham-me asseverado que te casavas.--

--Credo, nem se pensou em tal!--Mas como desejasse evitar a continuao
da conversa:

--E tu, como te ds com o Guilherme?--

--Bem, filha, magnificamente!--

--Tu  que foste feliz--disse Ermelinda tomando a mo, que a Amelinha
abandonou, n'uma _nonchalance_ de bb, gosando com aquelle aperto que
lhe lembrava uma caricia do seu maridinho.

--Por emquanto no tenho raso de queixa; o Guilherme no v outra cousa
diante dos olhos; at, se queres que te diga, s vezes chega-me a
aborrecer com tantas pieguices.--

--Ingrata...--

--Ingrata, no! Mas tu o sabes... sou assim um poucochinho estroina...
no gosto de homens to serios e to pccos.--

--Olha, menina,  n'essas pequenas coisas que consiste a felicidade.--

--Boa! ahi queres tu prgar-me um sermo de moral! oh, menina, enche-me
este calice; mas ainda agora reparo que tens lagrimas nos olhos!

--Lagrimas, eu! ests doida!--

--Coitadinha da pequerrucha, que quer illudir uma mulher casada--disse
arrastando a voz n'um chilrear cantadinho--e batendo-lhe na face
palmadinhas amigaveis, animando-a, pedindo-lhe a confidencia
d'aquelle chro.

--Que no era nada; s vezes ficava assim nervosa, tinha d'aquellas
extravagancias.--

--Nervosa, tambem ella era muito! o dr. Arnaldo Braga dizia que era todo
o seu mal--e a Amelinha principiou a explicar, com grande volubilidade,
as impresses que sentia ouvindo musica, ao ver no theatro um drama
triste, ou ento quando o seu gato preto, em certos dias, se lhe
atravessava no caminho e ella, sem querer, lhe pisava a cauda e ouvia o
miar queixoso do animal.

--Muito nervosa, muito! este anno vou at para a Foz e tomo um grande
numero de banhos; j combinei com o Guilherme.--

--s feliz, menina, s feliz!--

--Assim!...--fez Amelinha contrahindo o labio com certo desdem! e
curvando-se disse-lhe ao ouvido uns segredinhos quentes, que fizeram
enrubescer Ermelinda.

--Ora!--respondeu esta--pde l ser isso!--

-- o que te digo, filha!--e a Amelinha, pondo-se em p, principiou a
passear, cantarolando a cano do Rigolleto:

    La donna  mobile

N'este momento o velho relogio de Jorge bateu as duas horas.

--Ai! to tarde! Credo! Adeus, menina, vou-me embora!--

--J?--

--J; ainda tenho de ir ao Pinheiro, a Cedofeita. Preciso umas
guarnies para o meu vestido d'estao.--

--N'esse caso no te demoro!--e Ermelinda, collocando-lhe de novo o
chapeu, fazia-a prometter que viria mais vezes, para passarem um
bocadinho juntas.

--Estou s vezes to s!--

--Pois hei-de vir, filha, hei-de vir! e pondo-lhe na face uns beijos
sonoramente cantados, a Amelinha, affogueada pelas irradiaes do Xerez,
muito alegre como um passaro na Primavera, desceu o vo de tulle branco
sobre o rosto e sahiu, batendo com grande estrondo a porta da campainha.

--Sempre est uma douda!--disse Ermelinda vendo-a sahir!--e aps um
silencio de reflexo:

--E adeus, so estas as que so mais felizes!


IV

Ainda n'aquella noute o Alberto deixra de apparecer. No dia immediato
era Domingo.

Os moveis quietos, n'uma ordem respeitavel, com uma seriedade
burocratica, esperavam as _visitas_; tudo arrumado, polido, com grandes
vaidades de limpesa. Tinham-se renovado as flores das jarras, de vidro
fosco, com uns ramos de rosas pintadas no seu ventre bojudo; nem uma
cadeira fra do seu logar, nem um jornal sobre a _jardiniere_, toda
aceiada com o seu panno de largas bordaduras, nem uma musica aberta
sobre o piano, nem uma planta que se no houvesse regado, nem um
album que no estivesse cuidadosamente fechado; uma falta emfim d'essa
desordem adoravel, immensamente artistica, que prende o espirito ao
ambiente salutar e alegre da sala de trabalho.

Dentro, nos quartos, a contrastar com essa monotonia aceiada para os que
vem de fra, sem descalar as luvas, analysar os nossos albuns e
criticar os nossos moveis, uma desordem perturbadora, preguiosa, reles,
cortada pelo cheiro ammoniacal de roupa suja, espalhada no cho, sobre
as cadeiras, n'um monte desordenado. A commoda d'Ermelinda, com as suas
gavetas abertas, ostentava brancuras de saias, de penteadores, de
camisinhas, e umas pequenas caixas de carto, com estampas
lithografadas, d'onde sahiam perfumes e folhas seccas, aromaticas. O
cofresinho das joias abria-se indiscreto patenteando objectos d'ouro com
finas perolas, brilhantes miudos, como olhares luminosos que pareciam
espreitar da mollesa macia do setim azul.

Ermelinda toda opprimida no seu vestido de _foulard_ cinzento, a manga
um pouco larga, tomou uma manilha estreita e com um vagar indolente,
embevecendo-se na penugem negra do seu brao, enrolou-a, correndo-a por
sobre a carne, ao arrepio, at onde pde seguir o arco da pulseira.
Depois, ao calar as luvas, ais abafados lhe sahiam do peito,
suspirosos, como se reflectissem ainda as vibraes d'aquella crise
nervosa, porque a sua alma houvera passado nos dias ultimos.

Mas o Jorge, que passeava lentamente na sala, ainda com o palito ao
canto da boca, esquecido, com a meditao suspensa de calculos
financeiros, de cotaes da Bolsa, o fato endomingado, a camisa branca
sobre que assentava a gravata preta de setim, um pouco impaciente j:

--Ento vens d'ahi hoje, menina?

--J vou, pap, j vou.--

E mais apressada, olhando-se ao espelho uma vez ainda, pregando um novo
alfinete no collo do vestido, Ermelinda fechou a porta do quarto, e
voltando-se para dentro:

--Prompta.

--J no era sem tempo! isto de mulheres!--

No portal Ermelinda fazia o apanhado, que rangia n'um _frou-frou_ de
fazenda nova; emquanto a Joaquina de cima espreitava para os ver sahir,
elles combinavam o passeio, consultavam-se sobre o caminho a seguir.

--Que era melhor ir primeiro  missa--dizia Ermelinda--e depois
voltariam pelo jardim, ou iriam ao Palacio.

--Seria como ella dizia--concordava o Jorge.

E os dous, na plenitude vaidosa do luxo de Domingo, tomando apenas os
passeios da rua, reverenciando as pessoas conhecidas, com um ar todo
festival, de superioridade engrandecida, e de roupa lustrosa, seguiam
para a Trindade, para a missa das onze. Homens  porta accumulavam-se
vedando o caminho, e em frente, no atrio da Assembleia os dandys do
Porto, fallando de cavallos e de jogo, ou contando anedoctas indecentes,
estalavam grandes risadas que os faziam contorcer em posies ridiculas,
funambulescas, dobrando-se, dando palmadinhas sobre as coxas.

O Alberto estava entre elles, e ao ver passar Ermelinda, toda comprimida
no seu vestido, o seu bello olhar profundamente negro, a epiderme morena
um pouco empallidecida, exhalando frescura, sentiu um desejo mordente de
entrevistas nocturnas, de _ttes--ttes_ amorosos, chegados um do
outro, a cintura enlaada, as respiraes confundindo-se.

E quando o Jorge passou, cortejando palacianamente os seus amigos, elle
notou que Ermelinda, ao havel-o reconhecido, voltara o rosto
desdenhosamente, sem que denotasse no olhar sequer uma interrogao, uma
queixa, um desespero.

Os outros, que sabiam do namoro, perguntaram curiosamente:

--O que tinha havido, se as relaes estavam cortadas?--e ao verem que o
Alberto balbuciava, riram estrondosamente, beliscando-lhe o amor proprio.

Um mais intimo acercou-se d'elle:

--Se tinha cahido--perguntou.

--Deixa-me--respondeu bruscamente e partiu na direco da Egreja, a
badine agitada, n'uma convulso de phrenesi.

--Bravissimo! Romeu feito Tartufo!...--e batiam as palmas, rindo da
pilheria, muito contentes da sua imbecilidade enfatuada.

O padre sahia n'este momento da sachristia; um murmurio rumoroso se
levantava entre a multido que ajoelhava; as damas abriam os livros de
missa, fazendo rugir estrepitosamente as saias engommadas, os _failles_
novos, emquanto os homens, na seriedade dos seus casacos pretos,
amontoando-se a um lado, estendiam lenos brancos, como genuflexorios. Uma
luz suave cahia das janellas do cro derramando tons sanguineos, de
damascos vermelhos, sobre as senhoras que ficavam n'aquella direco,
emquanto uma penumbra doce envolvia todo o resto. Destacavam dos corredores
familias retardatarias; as meninas estouvadinhas, adiante, acommodando-se
em passos miudos, como as aves que poisam, fitavam os homens com uma
curiosidade muito feminil e cochichavam, reconhecendo alguem.

Houve um prurido devoto quando principiou a missa; os labios moveram-se
silenciosamente; os olhos cravaram-se nos livros; as beatas faziam
deslisar com avidez as contas untuosas; mas pouco a pouco o narcotismo
das coisas monotonas ia-se derramando, causando tedios; bocejos
disfarados escondiam-se por detraz dos lenos brancos e os homens, com
uma obstinao sensual, de namoradores vadios, apreciavam os melhores
bocados, faziam _vistas_. _Crevs_ de risca ao meio, muito aromatisados
de _patchouli_, as luvas a estalar, cofiavam os pequeninos bigodes,
fazendo _signaes_; e no fundo escuro das copas dos chapeus, cartas de
namoro destacavam, impondo-se s burguesinhas sentimentaes, que
esperavam o aperto da sahida, no portico.

A Ermelinda estava proxima da Adelaide Mendes; o Alberto ficou em frente
com o Juca, o sobrinho do brazileiro. Confidenciavam.

--E ento a mulher do commendador, conta-me essa historia, menino?--

--Nem lhe falasse em tal! Ridiculo... simplesmente!

--Ah, ah! E o marido?

--Que era o mais santo dos maridos! Uma pomba!... tinha ido com ella
para o Bussaco esconder as maguas na verdura dos cedros!...

--Mas apanhou-te!...

--Shoking!... respondeu encolhendo os hombros.

E em quanto o Juca o asseteava de perguntas, muito minucioso, querendo
saber tudo, o Alberto olhava devoradoramente Ermelinda, torcendo o
bigode, mordendo-o, franzindo o sobre-olho, n'uma attitude de irritao
concentrada. Mas ella, muito seria, muito devota, poisando os bellos
olhos no livro de missa, fingia no vel-o, entregando-se toda ao amor
divino, e gosando com uma beatitude recompensada, a impaciencia que
percebia manifestar-se n'elle.

A Adelaide Mendes segredou-lhe ao ouvido:

--Que o Alberto estava com o Juca, se j o tinha visto...

--Que sim, era-lhe indifferente.

--Ento andaes _arrufados_?

--No, mas... tinham-lhe passado os enthusiasmos.

--E est de luto! quem lhe morreu? sabes?

--No, que no sabia!--e vesgamente, no estrabismo de quem quer ver sem
que os outros dem por isso, a filha do Jorge observava o Alberto,
pondo-se a si mesma o ponto de interrogao d'aquelle vestir lutuoso.

--Se seria algum parente da provincia--pensava--e que elle tivesse
de partir sem a poder avisar!... ah, sempre era ento desculpavel--e
enternecia, amollecendo a asperesa do olhar, quebrando-a no vago fluido
dos olhos d'elle, que sentia poisar sobre todo o seu corpo, absorvendo-a.

Mas a campainha do coadjutor principiava a vibrar; corpos se curvaram
n'um mysticismo reverente e ouviam-se os peitos echoar no tympanismo das
contrices. O padre elevava serenamente a hostia, devagar com uma
grande lentido ceremoniosa! E depois, um silencio demorado, at que a
campainha vibrou de novo mais forte, com sonoridade, como que
dispensando as attenes; lenos se recolhiam no escuro das algibeiras e
os homens tomavam uma _pose_ mais elegante, o tronco direito. A beno
desceu e todos, recurvando-se um pouco, se persignaram rapidamente, com
desdem, voltando-se, comprimentando ceremoniosos, com a cabea. O povo
comeava a evacuar a egreja, n'um ruido de tropel, confusamente, de quem
quer sahir primeiro. E as senhoras mais atraz, sorrindo, beijavam-se,
fechando os livros. Os conhecidos vinham, comprimentavam.

--Suffocava-se um pouco,--

e l fra um sol alegre, primaveral, que brincava atravez do reposteiro,
penetrando no templo, na instantaneidade da luz, quando alguem sahia.
Grupos se formavam. A Adelaide Mendes, a Ermelinda, a D. Carola, e
envolvendo-as como n'uma circumferencia de respeito, o Juca de chapeu na
mo abanando-se, com a desenvoltura d'um frequentador do Circo, o
Jorge todo grave, um sorriso a escoar-se dos labios escanhoados para as
suissas grisalhas, nitidamente penteadas, e o Alberto, n'uma _pose_
melancholica, o chapeu sobre o quadril, todo de preto, com uns grandes
ares romanticos e tristes.

O Jorge por uma polidez excessiva perguntou:

--Se fra alguem de sua familia, que havia fallecido?--

--sua tia, D. Joanna de Atayde, l na provincia, uma boa velha que quasi
lhe fra me e que at na morte o considera filho!

--deixando-te herdeiro, ein?--interveio o Juca:--

--que sim, que deixara, mas que sobre tudo lhe sentia a falta, um
corao de santa!...

--os meus sentimentos--comprimentou gravemente o Jorge.

--pois olha menino, eu dou-te os meus parabens; e de mais a mais sendo
ella velha!...--

Poz nos labios um sorriso amargurado como unica resposta. As senhoras
tinham ouvido, e ellas tambem davam os seus pezames, tomavam parte na
sua dr;

--que eram consolaes amigas, suaves como um balsamo--respondeu.

E quando Ermelinda lhe apertou a mo, foi j com uma compassividade
meiga no olhar,--perdoando, sabendo em fim o motivo.--

Foram sahindo. Iam todos para a Cordoaria ouvir musica,--era a banda do
dezoito que tocava, tinha visto isso no Commercio--dizia o Jorge--

--e o snr. Alberto se recolhia  provincia,--perguntava.--

--que no, ou talvez o fizesse temporariamente!... Venderia as
propriedades e metteria o dinheiro em qualquer banco; alm d'isso era
preciso pagar as dividas de rapaz, tornar-se em fim homem srio!

--Tu!--desatou a rir o Juca.

--E porque no--observou o Jorge n'um tom amigavel de reprehenso--ainda
est verde este diabrete--indicou sorrindo, apontando-o ao Alberto, com
o grosso pollegar da sua luva escura--que fazia muito bem, denotava
muito nobres sentimentos, todos tinham tido as suas rapaziadas, mas l
vinha um dia... em que se tomava juizo--aconselhava.--

--faria por tomal-o elle tambem!--respondeu srio, n'um tom accentuado,
de novas resolues emprehendidas.

E emquanto o Jorge se enchia por elle d'uma sympathia calculada,
vendo-o, regenerado, vivendo na boa sociedade, elegante e fidalgo, e de
resto, namorando a sua Ermelinda, que poderia vir a ser sua esposa, o
Alberto, num sorriso intimo, de bom comediante, acariciando o bigode:

--Ests cahido--meditava.


V

O commendador Faria vestia-se no seu gabinete do _Hotel_; tinha um
grande apuro de si proprio, muito escanhoado, o cabello lusidio de
pomada, a risca ao lado, as barbas muito penteadas, a camisa d'uma
brancura anilada com ricos botes de brilhantes. Tirou do bolso um
chronometro inglez, de setenta libras--dez horas ein, e se esquecia de
almoar!--

e vestindo o casaco, dando o n da gravata, ageitando os oculos em
frente do espelho, foi abrir a janella do quarto; mas recuou, teve um
movimento instinctivo de retirada,

--que caiporismo de mulher, no largava um homem, parecia _Mineira_,
ella, que grande massada--

alto, porm, sorrindo, comprimentou a D. Clementina do Rosario, fez
oscillar a sua grossa cabea com um bello ar de amabilidade, teve mesmo
uma phrase galante para com a visinha, que todos os dias, n'um rigor
chronometrico de vinte e quatro horas, o asseteava com a sua carnao
copiosa e fresca, o collo alvo da brancura lactea das camellias, e um
sulco escuro, que descia, n'uma curva insinuante, attrahindo o
brazileiro, cuja janella um pouco superior lhe offerecia as vantagens
d'uma contemplao a _vol d'oiseau_.

--Uma manh muito fresca--dizia--appetecia um passeio pelo campo--

--elle ento que precisava tomar seus banhos em Vizella.

--e quem o impedia, ella talvez para l fosse tambem aquelle anno--

--mas tinha seus negocios, que no havia outro motivo, no...

--na idade d'elle...

--quarenta e cinco, D. Clementina, j c estatavam quarenta e cinco--

--que era isso! e ninguem o dizia, to bem conservado.--

Sorria-se.

Um trem passava levando as palavras no ruidoso estremecer dos seus
movimentos; vendilhes apregoavam, e a D. Clementina, na impossibilidade
de atirar amabilidades para a janella do commendador, enviava uns
sorrisos pudicos, d'uma honestidade quarentona, como ainda sabiam
fazel-os os seus labios de purpura desbotada. E depois, quando voltou
uma intermittencia de silencio, que permittia a transmisso da voz,
erguendo-se um pouco, n'uma flexo tetanica de collo, muito novedadeira:

--Ento sabe que Ermelinda casa!

--no, no sabia, boatos talvez--

--qual historia; era verdade, podia ella affianal-o; estivera l em
casa ainda hontem; o commendador  que apparecia poucas vezes agora...,
e no fazia mau casamento... o Alberto herdara d'uma tia--

--pois no sabia, no sabia!...

e o commendador deixando cahir mollemente a sua affirmativa, sentia
passar na sua memoria avivada, como n'um kaleidoscopo, em que as imagens
se succedem, aquella _soire_ de casa do Mendes, a sua infelicidade ao
_slo_, e seu enleio a dansar os Lanceiros, quando a Ermelinda um tanto
_coquette_, envolvendo-o na doura quente do seu olhar, exhalando aromas
subtis, que embriagavam, lhe sorria acariciadora, mostrando a
brancura dos seus dentes eguaes, e um collo decotado, suavemente
trigueiro, onde poisava um formoso signal escuro.

E depois a noute de insomnia que elle passara, affagando aquella imagem
que fugia, esvaindo-se na penumbra pallida das suas ideias desfallecentes.

O seu corao tivera ento umas pulsaes mais desordenadas, alguma
cousa de estranho, como a onda d'uma vida nova, que elle nunca tinha
experimentado. Lembrava-se que s uma vez sentira uma impresso quasi
analoga, a bordo d'um paquete, por uma _lady_ ingleza, de meigo olhar
azul, que lia melancholicamente no tombadilho,  tarde, quando o sol
cahia em irradiaes douradas na linha do poente e se via a helice abrir
um sulco nevado, de espumosa brancura, no dorso azul do grande mar
dormente. Mas ento, ao desembarcar no Lazareto, a ingleza seguira para
Bordeaux e elle, na capital, fra pouco e pouco esquecendo aquelle
episodio romanesco da sua vida. Mas agora, lembrando-se que Ermelinda ia
ser d'outro, que a veria todos os dias, sorrindo com a meiguice do seu
olhar para o marido que lhe daria o brao, sentia um mal estar, um como
desejo de ser mau, oppondo-se ao seu casamento, contrariando-lhe a
felicidade,

--no por que aquillo lhe importasse... mas, no sabia explicar,
sentia-se encommodado, a final de tudo.

E distrahido, cofiando com um automatismo inconsciente a suissa
grisalha, esquecendo que estava  janella a conversar com a D.
Clementina, que o requestava toda vaidosa da sua redondesa de
formas, retirou-se bruscamente, sem se despedir. Mas lembrando-se da sua
descortesia, voltou:

--que o chamavam de dentro, se era servida de seu almoo.--

Ouviu-se no ar um

--obrigado--e o descer d'uma vidraa que cahia chronometricamente no
caixilho, para s se erguer no dia immediato.

--ainda era aproveitavel esta D. Clementina, mas uma mulher que elle
aborrecia, lhe causava nojo... e ento no era para comparar com a
outra... e ahi estava elle a pensar n'ella, se encommodava com aquillo.--

--que era uma tolice--pensava--j no era creana e a Ermelinda era uma
rapariga nova... o pae havia de querer dinheiro... o banco no estava
muito seguro, elle sabia d'umas transaes pouco felizes--e no faltavam
mulheres--concluia alto.

Affrouxava-lhe a genese do novo ideal perante o conhecimento prtico da
vida

--ora, que se no ralaria.--

E sahindo do quarto encaminhou-se para a sala de jantar, onde o esperava
a costelleta que elle humedeceu com suas pimentinhas, o escaldado de
farinha de Serohy, os ovos quentes, e simultaneamente a conversao dos
companheiros, muito animada, recordando os affanosos dias do Rio de
Janeiro, as distraces das Xacaras de Bota-fogo, das Larangeiras.

A conversao estabelecia-se, de companheiro a companheiro.
Reminiscencias se avivavam, cortando-se mutuamente, como bolhas de
champagne, que effervescem n'uma confuso tumultuaria. O Loureno
Pereira  direita do commendador, tinha acabado de almoar,
recostava-se, accendendo um charuto, reclamando o _dessert_ do cavaco.

Fallou-se nas companhias de Bonds, que faziam percurso para o Bota-fogo.

--E a proposito, se recorda voc, commendador, a partida que aconteceu
l ao Mendes, com aquella Francezita da rua do Ouvidor?--

--Pintou a manta aquelle estroina!

--Mas que o Juca Silveira no lhe ficava a dever nada, ein!--

--O Juca,  verdade!... e onde est elle agora, sabe voc, Loureno?

--No  socio do Chico do Barbadinho?

--no, que no era! desmanchara de ha muito a sociedade

--elle, j me recorda elle! Pois esse rapaz tem agora commandita com o
Pinto, aquelle que morava l adiante na rua do Gonalves Dias,  esquina.--

O commendador no se recordava; veio outra explicao do Loureno
subsidiar-lhe a memoria.

--O Pinto, que tem casa de molhados  rua da Alfandega, com o Jos
Casimiro, que morreu da febre em 74.

--J, j! Ora com quem foi parar o Juca! estava admirado!...

--E ia bem! A casa tinha muito credito do tempo de Cunha Almeida & C.

--Bom moo, o Juca!

Successivas recordaes se evocavam, generalisando-se. O almoo tinha
concluido; os estomagos digeriam na tranquillidade feliz d'um bem estar
ocioso, e os charutos ardendo deixavam cahir a cinza esbranquiada sobre
a toalha da meza, d'onde o criado retirava os servios n'uma attitude
diligente e curva.

A luz suavemente cortada pelos _stores_, estendia um rastro alegre por
sobre as aparadeiras, dando um brilho metallico s louas que pousavam
sobre o marmore, s fructeiras, ao centro da mesa coberto de flores, aos
crystaes dispersos ainda com restos de vinho, que no tinham sido
levantados; em quanto as moscas n'um zumbir monotono, volteando em redor
do grande candelabro de dous ramos, cahiam sobre as chavenas
aproveitando os restos d'assucar.

L fra, nas cruas irradiaes do sol que batia n'um predio fronteiro,
presentia-se um dia de calor, das fortes temperaturas tropicaes; mas os
brazileiros, oppunham-lhe a sua cala branca, rija de gomma, e os seus
Chilis, leves d'uma frescura hygienica. Iam-se pouco a pouco levantando,
sahindo da sala, aos grupos, como os mansos animaes emigradores,
trauteando pequenas canes, chacaras Brazileiras,--a _Mulatinha do
caroo_, o _Nhonh_, e j na rua dirigiam-se aos estabelecimentos
conhecidos, aos Bancos,  Associao commercial, ou vinham parar na
Praa Nova,

--o _palheiro_--como elles o denominam--em casa do Pimenta, do
Guimares, do Prata.

Um ruido de cidade, como um latejo palpitante de vida, se
concentrava na praa. A intervallos os americanos passavam, pachydermes
gigantes, de movimentos vagarosos, n'um trote miudo de muares; o povo
esfervilhava, trajes variegados das lavradeiras dos arrabaldes, d'uma
vivesa crua de colorido, os da cidade com seus fatos claros, caminhando
depressa, na sombra dos edificios, evitando aquelle dardejar de
irradiao que batia cruamente na calada. Os trens infileiravam-se a um
dos lados, os cavallos pacificos, de cabea baixa, quebrados pela
ardencia do calor, em quanto ao centro o Rei-Soldado, golpeado pelo sol,
com uma grande intrepidez de estatua, empoado, mostrava do alto do seu
cavallo a carta constitucional ao Rainha, cuja taboleta annunciava
tripas aos sabbados e s quintas-feiras.

Na Baviera, no Camanho, no Suisso, homens entravam, pedindo gelo,
refrescos, sorvetes de morango; quem passava via o loiro da cerveja nos
copos estreitos, e individuos recostados, abanando-se com os chapeus; na
Mor os janotas, estoirando as luvas, cumprimentavam, bocejando, na
grande nostalgia de cerebros vasios e quando succedia que alguma senhora
ao subir dos passeios mostrava a levesa elegante do p, olhares
esgaseados, d'uma sensualidade sorna as procuravam, mordendo-as com o
desejo surdo de calcinaes febris; e logo os brazileiros em casa do
Guimares, sentados nos mochos do estabelecimento, bamboleando-se, se
acotovellavam cochichando:

--Bom bocado! ein!... se no tinham reparado.--

--Viu-se o Jorge passar com Ermelinda; o commendador estava l no seu
mocho, lendo o Commercio do Porto com uma grande atteno minuciosa;
mas os outros noticiaram logo:

--que l ia o Jorge com a filha.

--sempre se casava ella, ein?

--Levava boa rez, no tinha duvida--disse de dentro o negociante--

--e a rapariga estava de appetecer--accrescentaram--mas ao verem que os
dous tomavam um trem,

--Ora para onde iro elles a esta hora! sempre o desejava
saber--observou o Juca, curiosamente, batendo com a badine no balco.--E
sahiu rapido, borboletando como um colibri, desejoso de saber.

O commendador desviara os olhos do jornal; parecia-lhe que d'aquella
mulher, que estava uns vinte passos distante, irradiava alguma cousa de
subtil e quente, como um veneno oriental que lhe corresse nas veias;
fitava-a insistentemente, atravez dos seus oculos d'ouro, como desejando
attrahil-a para si, n'aquelle mutismo de obediencia passiva, com que os
magnetisadores recebiam as suas allucinadas. E ao ver Ermelinda saltar
para o trem, descubrindo brancuras de vestidos n'um movimento rapido,
sentiu-se como que estonteado, uma aura que lhe ennevoava a viso,
alguma cousa de terrivel e doce, que escachoava confusamente no seu
cerebro, e pondo-se a p, um pouco pallido, disse para o caixeiro do
estabelecimento

--Me ds um copo d'agua, Manoel?--

E bebeu-a d'uma assentada, um pouco apressadamente, como se confiasse em
que a aco fresca do liquido lhe acalmaria aquella agitao intima, que
bem a seu pesar, lhe sacudia os nervos to pacificos.

Mas n'este momento o Juca, entrava todo offegante, vaidoso de si, dando
um giro mais largo  sua _badine_.

--J sabia...--

Rodearam-n'o; uma grande curiosidade patenteada em todas as physionomias.

--Ento, dize l, menino?...

--Ao tabellio, meus lyrios, ao tabellio; vo assignar as escripturas.--

Os commentarios choveram; o commendador tinha-se retirado, apenas
soubera da informao do Juca.

--Me incommoda, isto, ein, no sei porqu--ia elle a rumurejar quando
passava  esquina de S. Bento.


VI

Alberto conseguira effectivamente insinuar-se no espirito de Jorge; as
relaes iam-se estreitando, tornando-se mais intimas; principiou a
frequentar a casa,  noite,  hora do ch. O commendador apparecia uma
vez ou outra; e quasi sempre a D. Clementina vinha tambem, o seu
pequenino co felpudo, de que narrava com uma grande prolixidade
enfadonha as travessuras, as caricias.

--Querem saber o que elle fez outro dia... o meu Totsinho...--e
affagava-o correndo-lhe a mo pelo dorso, n'uma boa caricia
amoravel--estava eu j deitada, elle dorme no meu quarto o Tot e ouo-o
gemer, gemer, parecia mesmo um christo, fra a alma, chamo por elle,
vem muito candongueiro...--

Mas j ninguem lhe prestava atteno; o Jorge tinha proposto uma pequena
partida de sueca, e acceitara-se com vontade,

--era preferivel  historia do fraldiqueiro--dissera baixo o commendador.--

A D. Clementina cortou a narrativa,

--gostava da sueca, era o seu jogo, seremos parceiros, commendador?

--Com muito gosto, minha senhora.--

A Ermelinda e o Alberto  que achavam massador,

--ir agora jogar a sueca, que estopada--

--ainda se viesse por ahi a D. Gabriella, a viuva do Brando--cochichavam.

Ouviu-se uma campainhada. Exultaram.

--Havia de ser a D. Gabriella!... vai abrir, Joaquina.--

Era effectivamente a viuva; um ar ressequido, de rata velha, arrastando
os ss, com um silvo prolongado em todos os vv, ainda pretenciosa, com
uma paixo occulta pelo Jorge, que tinha a felicidade de a no perceber.

Disposeram a meza. Ermelinda e Alberto, um pouco affastados folheavam os
albuns, distrahidamente embevecendo-se em phantasias coloridas, muitos
projectos--que haviam de effectuar, um dia, logo que fossem um do
outro, para todo o sempre.--

O Jorge questionava.

--Pois se o trunfo era copas, minha senhora, era copas...

--Julguei que podia embarcar a bisca ali no valete do commendador.--

--Qual historia! Ahi tem o resultado, perdemos por sua culpa...

E voltando-se para Ermelinda:

--Toca alguma coisa, menina; no sei para que te serve a habilidade!...

--J vou, pap...

E sentou-se ao piano, o Alberto ao lado, voltando-lhe a musica. Era um
motivo da _Traviata_, d'um sentimentalismo enervante, que punha no
espirito uma doce melancholia; tocou depois um trecho da Dinorah, a
walsa da sombra; parecia que as notas vibrantes do piano recordavam
aquelle gemido hilariante da pobre louca, que se desenhava em todo o seu
perfil na lucillao casta do luar.

Havia commoes ternas n'aquella musica, toda repassada d'um perfume
apaixonado, sentimentalista; a alma deixava-se voejar na photosphera
quente d'uns amores loucos, muito ideiais, com idylios banhados de luar,
e phrases d'uma levesa etherea, d'uma brancura ingenua de estrellas;
amortecia o vigor dos fortes, como uma gaze feerica envolvendo um
bronze; e Alberto, contemplativo e scismador, de p, absorvendo na
languidez quebrada do seu olhar, a escultura formosa de Ermelinda,
experimentava um desejo incoherente de se apossar de toda aquella
mocidade, arrebatando-a, como um cavalheiro medieval, no corcel
vertiginoso da sua phantasia.

Mas o Jorge irritado:

--Oh, D. Gabriella, pois isso faz-se, ir metter a sua bisca debaixo do
az.--

--Mas, sr. Jorge...

--Qual mas, nem qual carapua; a senhora est hoje d'uma abstraco
imperdoavel...

Ermelinda cessara de tocar, sorrindo para Alberto d'aquellas
questiunculas futeis; os seus olhos negros levantando-se tinham uma
meiga expresso indefinida, como se a musica, que estivera tocando, os
houvera mergulhado n'um fluido suavemente humido e voluptuoso. Voltaram
a sentar-se junto da _jardinire_, um pouco recolhidos na sombra,
apertando-se occultamente as mos, com uma doce presso dolorida, que os
fazia estremecer de gozo.

-- muito sentimental aquella walsa da Dinorah!

--Tu gostas?

--Immenso; mal sabes como me sinto apaixonado quando a oio tocar.

--Hei-de tocal-a ento muitas vezes... depois...

--Pois... sim...

--Mas com uma condio; has-de me dar um beijo de cada vez...

--Um s! dou-te mil... meu amor...

--Ah, ah, mil... eram muitos...--e abriu um sorriso gracioso,
desenhando-lhe no carmezim dos labios um estojo assetinado, guardando
uma dentadura egualmente branca, que um poeta novio denominaria
perolas.

A Joaquina entrou com o ch; poseram-se as cartas de lado, rodearam
todos a meza; o Alberto tinha sempre o cuidado de servir as senhoras.

--Ento, D. Clementina, um bolinho mais.

--Nada, no queria, estava servida...

--E Vocssencia, D. Gabriella, no se serve de mais uma torrada.

--Faz favr, sr. Alberto!--e sentia-se logo na m coriacea das suas
gengivas desdentadas um ruido aspero de triturao, que ella humedecia
com pequenos golos de ch, muito saboreados.

O Jorge conversava com o commendador sobre negocios economicos

--que estava j muito bom o cambio e se assim continuasse viria de l
muito dinheiro.--

--era preciso; se no se dava em crise!--approvava o commendador--

--que as aces da Companhia Carris tinham baixado, e as do Gaz, e as da
Viao, e muitas mais...

--uma miseria, tudo!...

--elle, que estava de dentro  que sabia o que por l ia, tudo pdre,
affianava-o.--

As torradas, os bolos, os biscoutos iam desapparecendo, as chavenas
fumegavam na desconsolao vasia de porcellana quente.

--Se tomavam mais ch--perguntava Ermelinda.

--nada, nada--dizia a D. Clementina--agora cada mocho a seu souto; vo
sendo horinhas...

O commendador puchava pelo seu chronometro de setenta libras

--onze horas, minha senhora...

--credo, muito nos demoramos hoje.

E cobriam os agasalhos, n'um conforto macio, dizendo-se adeus. A D.
Clementina e o commendador eram os primeiros a sahir, depois o Alberto
despedia-se ceremonioso para com o Jorge, volvendo o olhar d'uma
tristeza saudosa para Ermelinda, que promettia, por leves signaes
trocados, fallar da janella na noite seguinte, emquanto o pae estivesse
no Club. A D. Gabriella era a ultima, e dava sempre um beijo na
Ermelinda, chamando-lhe--a sua filha--e um _shake-hands_ ao pae, d'uma
expresso significativa, forte como uma velha esperana. Depois a
Ermelinda dava as--boas noutes ao pap--que ficava ainda a lr o
Commercio n'uma tranquilidade pacata, de chinellas bordadas a tapete.

Mas no eram essas as noites em que mais se expandia, em candido voejar,
a imaginao ardente dos namorados. A companhia era sempre um obstaculo,
um _non plus ultra_  sua phantasia sonhadora,  idealidade rutilante
das suas imagens de prazer.

--Que aborrecimento ter de aturar a velha historia do Tot, contada pela
D. Clementina, e a phonetica de sabi do commendador e os vv, silvados
da D. Gabriella.--

--Ah, como era bom estarem elles ss os tres em volta da _jardinire_, o
Jorge lendo o Commercio, interrompendo-se apenas para narrar um
caso--que podia ser fatal--e o Alberto folheando os albuns, sentindo
descer sobre si a respirao suave de Ermelinda, occulta na meia sombra
do _abat-jour_, trabalhando silenciosamente no seu bordado.

--ou ento, quando Ermelinda se sentava ao piano, tocando uma musica
triste, entornando umas melodias melancholicas por sobre a sua alma de
_crev_, dando-lhe umas sensaes deliciosas que o amorneciam--

--e depois que momentos felizes quando o Jorge por um motivo qualquer
tinha de se ausentar da sala, ficando ss, os dous, na plenitude livre
do seu amor, que irrompia, como um riso torrentuoso, n'uma caudal
indomita de beijos...

--Oh, Alberto, Alberto, que fazes!...

--perdoa-me,  uma loucura, mas eu amo-te, e soffro... soffro d'este
amor--e ajoelhava-se, n'uma supplica humilde, urgente, que a dominava,
tornando-a tremula...

Mas o Jorge vinha, e a sua presena, como um _douche_ gelado por cima
d'aquelle incendio, acalmava-os, fazendo-os retomar atrapalhadamente os
objectos em que se entretinham antes d'elle sahir.

Sob estas fustigaes incitantes a fora psychica accumulava-se,
polarisando-se reciprocamente n'um magnetismo mysterioso, que os
attrahia um para o outro.

--S a morte nos separar--diziam dominados ainda pela excitao
recebida, sob a impresso candente d'um beijo d'amor, d'uma emoo
fortemente sentida. Essa fora latente, que se accumulava, podendo
explosir com uma violencia vulcanica, reclamava o casamento, a unio
reciproca, como uma valvula de segurana, por onde podesse respirar a
paixo, amortecendo-se na atmosphera pacifica da vida vulgar, em commum.

Conheciam-se pouco, mas... que importava!... amar-se-hiam muito... o
conhecimento viria depois... havia apenas um mez que Alberto tinha
entrada em casa; mas

--havia seis mezes que o namorava--dizia Ermelinda--e o corao no a
podia illudir... no... era o seu verdadeiro amor aquelle...--

E fluctuavam-lhe vagamente, n'uma indeciso esvahecida, as
reminiscencias dos seus outros namorados;

--Uns pulhas, a final!... E depois eu era creana! tolices...--

E tratou-se do casamento. O Alberto tinha sobre tudo um grande interesse
em apressar esse enlace. Dizia ao Jorge:

--que estava s, que desejava conhecer a verdadeira felicidade...

--a que se encontra unicamente no lar domestico--ponderava o director do
Banco.--

--justamente, aquella que s pde vir dos carinhos affectuosos da
familia--concordava...

E l de si para si pensava:

--que era preciso effectuar a cousa, emquanto durava o dinheiro da
_batota_, emquanto elle estava com a _leiteira_, a sorte que o protegia
nas noites do Porto, e nos dias de roleta, na Povoa... podia vir o azar
e l ia tudo, com os diabos...--

E de vez em quando affectando alguma difficuldade em collocar algum
capital, aconselhava-se com o Jorge, interrogando-o

--de como se desfaria d'umas propriedadesitas na provincia, se seria melhor
conserval-as--e entregava-lhe algumas notas de cem, duzentos mil ris, que
dizia provirem d'uns pagamentos de fros, havia pouco recebidos.--

O Jorge sentia vontade de o abraar.

--Um genro magnifico--pensava--e diziam por ahi que era um estroina, um
jogador, um bebado; a gente quebra, rapaziadas!...--

E foi elle o primeiro a ceder s instantes solicitaes de Alberto,
preparando tudo, aplanando todos os pequenos obstaculos, comprando uma
mobilia nova para o quarto dos noivos, e outra para a sala de visitas.

--Agradecia-lhe ainda a delicadeza de o no quererem affastar, de
viverem juntos; a separao, a deslocao brusca dos seus habitos
matal-o-ia, tinha d'isso a convico.--

Havia apenas em casa uma pessoa que no sympathisava com o Alberto; era
a Joaquina. Um instincto puramente animal a revoltava contra aquella
peralta,--que viria pr a casa n'uma roda viva; e depois embirrava-lhe
com o _focinho_,

--seria muito bom, seria, mas  missa d'ella  que elle no ia...--

E s vezes, das suas meditaes, ao engommar as brancas saias de
Ermelinda, resaltava uma queixa, um repello de revolta contra tudo
aquillo.

--Boa, no que se a cousa no fosse direita ella _raspava-se_, por ali
era o caminho--

e dilatava as bochechas, n'um movimento de folle, soprando ao ferro de
brunir

--amizade  menina, como o outro que diz, tinha, l isso tinha, a gente
a viver com ella ha quinze annos, erro fra... mas adeus, que se
aguentem... e ho-de-me sentir a falta, no que outra Joaquina no lhes
vem c to cedo...--

Enchia-se d'uma vaidade esbofada, do amor proprio da sua utilidade
affirmada todos os instantes, na cosinha, no engommar, no arranjo e
limpeza dos moveis.

--Boa--continuava-- vr as criadas que ha hoje por ahi; cada qual faz o
seu servio e disse... eu sou aqui uma moura de trabalho... adeus,
tambem... o trabalho no custa, quando a gente tem saude, graas a
Deus... e depois se eu quizer sahir... uih!... casas no me faltam...
so assim...--e aprumava os dedos, n'uma accumulao collectiva, que
indicava uma forte abundancia numerica...

--mas, l, o tal senhor, no lhe engraava com os bigodes... ainda se
fra o commendador... aquillo sim, que era um regalo de homem e pezava,
bem se via nos brilhantes que elle trazia na camisa... mas estas meninas
de hoje s querem bonifrates... e elle ento que andava babadinho por
ella, isso conhecia-o ella... oh, se conhecia...--

E a Joaquina, evocando umas cantigas do seu Minho, cantarolava,
continuando a pr nas saias uma brancura luzente de stearina.

Tinha ento os seus trinta e cinco annos talvez; viera para casa do
Jorge com doze annos apenas para ser a criada da menina e fra
crescendo, tornando-se prestavel, amorosa para com todos, muito
servial; tinha sobre tudo uma amizade animal por Ermelinda, a sua
menina, que tantas vezes trouxera ao collo, com quem tantas vezes
brincara... A familia do Jorge era a sua familia, e principalmente,
depois que a senhora morrera, a Joaquina tomara um certo predominio na
casa, o predominio da utilidade, do prestimo positivo, da sciencia
pratica das cousas. E foram-lhe assim passando, n'aquelle deslisar
monotonamente suave, os dias formosos da sua mocidade; chegara a ter um
namoro, dous at, o primeiro com um rapaz marceneiro, que morrera no
hospital, o segundo com um policia, que representava o papel de
Falstaff, no co da sua innocencia de bicho de cosinha... Mas tudo isso
acabara, esvaecera-se lentamente, como um arroyo de vero que scca,
deixando umas areias fulvas na sua passagem; e a Joaquina um poucochinho
gorda, aceiada, d'um loiro branco dos temperamentos lymphaticos,
espapava-se agora n'aquella tranquilidade da familia, contente com a sua
sorte, sem as revoltas instinctivas do servo. A molleza apathica do seu
temperamento adormentara-lhe as imposies estimulantes da carne; e
laboriosa como uma formiga, entregue sempre  tarefa assidua do
trabalho, esquecia-se que resvalava pouco a pouco n'esse plano inclinado
da vida da mulher, em que as brancas matizam a cabea e as rugas se
aninham na face, desfeiando-a, com as garatujas d'uma tatuagem a carvo.
Mas aos Domingos, nos dias de ocio, em que o corpo se sentia
resfolegado das canceiras do trabalho, e o jantar era um poucochinho
mais copioso, com uns estimulos de acepipes apimentados, a Joaquina
experimentava umas mordicaes acirrantes do instincto e deitava-se na
cama, extasiando-se na brancura polposa dos seus seios e suspirando,
n'uma recordao entre odiosa e doce pelo seu segundo namoro, o bravo
agente da ordem, o policia 45.

Mas aquillo passava, como uma ligeira effervescencia e o trabalho
adormentava de novo o tumulto provocado d'aquella natureza apathica, que
continuava tranquillamente na curva suave da sua existencia.


VII

Na rua de Welesley, a tia Magdalena acabava de frigir a terceira cert
de iscas de bacalhau, uma massa d'um amarello canario, com fragmentos
retalhados de ovo batido,--que ninguem sabia preparar com tanta limpeza
e com tanto _paladar_--dizia ella. O seu corpo baleiforme, d'uma gordura
toucinhosa, curvando-se para pr o avental, enodoado de manchas
lusidias, levantou-se de subito, quando a Annita lhe entrou na cosinha,
um aspecto pallido, enfermio, d'umas rosetas carmezim ao meio da face,
e uma tossesinha secca, muito frequente.

--D licena, tia Magdalena.

--entra rapariga, j no ha quem te veja.

A Annita ia a responder, mas a tosse interrompeu-a, um accesso brusco,
que ella procurava abafar, collocando um leno sobre a bocca.

--Trata-me d'essa tosse, pequena, isso  _fraqueira_, queres tu tomar um
caldinho!

Os olhos d'Annita, uns vagos olhos negros, d'uma doura quebrada,
moveram-se como que a acceder quelle offerecimento e depois
baixaram-se, mudamente, deixando rolar umas lagrimas furtivas.

A tia Magdalena reparou:

--Tu por que choras, rapariga!

--Se soubesse!...--e Annita, deixando rolar as lagrimas, n'um soluar
comprimido, os olhos a avermelharem-se, prorompeu rapidamente, como uma
confisso que se deseja fazer depressa:

--Ha uns doze dias que o Alberto no apparece; e sabe... a pequenita,
est to mal, seccou-me o leite, coitadinha, no faz seno chorar,
aquillo  fome, percebe!...--

--Ora o grande maroto; eu bem te dizia que aquillo nunca te havia de dar
bom pago! Uns tratantes todos, uma corja,  o que !...--E a tia
Magdalena, n'uma indignao honesta, brandindo a gordurosa faca de
voltar as iscas, com a respirao ruidosa, vermelha do calor do lume,
como uma clamyde vingadora, ameaava os devassos da boa sociedade,

--uns pelintras, uns paninhos d'armar, e que no deitavam uma de x, se
os virassem de cangalhas, que era o que elles mereciam... uma
forca--concluiu toda offegante, limpando a cert ao avental e
collocando-a sobre as trempes para proceder a uma nova fornada d'iscas.

--E agora sabes que mais, Annita, leve o diabo paixes e trata de te
aproveitares em quanto  tempo.--

--E a pequenita, que lhe havia de fazer, no lhe diria? e depois, sem
saber cousa nenhuma d'elle...

--D'elle, ora no est m essa! que esperas tu d'ali? A estas horas
lembra-se bem de ti! sempre ainda s de bom tempo!...--

--Mas  que isto no pde ser assim entende, tia Magdalena! No, que no
faltava mais nada! Estar a gente bem collocada, ganhando a sua vida,
seno com honra, por que a boa sorte no  para todas as creaturas, mas
com decencia, com certas commodidades, e vem de l um senhor todo
palavrinhas doces, promette-nos mundos e fundos e para que... para nos
deixar morrer de fome... ainda se fra eu s, mas a minha pequerrucha,
coitadinha do anjo... que culpa tem ella...--

E quebrando a violencia da palavra a esta lembrana, triste, soluante,
as lagrimas a soltarem-se outra vez, desolada, batida pela miseria e
pelo infortunio, como uma pobre planta do mar, que tem o consolo de se
agarrar a uma concha mais debil que ella, no meio das revoltas convulsas
dos elementos, a Annita, com a voz fatigante, entrecortada na macia
suavidade dos doentes, como se tivera pejo da revelao que ia fazer:

--E depois, sabe, tia Magdalena, no sei porque, depois que tenho a
pequerrucha, parece-me que  um crime voltar  vida que levava.--

Magdalena olhou-a espantada, guardou um silencio curto; philosophava
talvez sobre a desigualdade dos destinos, porque ao deitar do alto
um fio d'azeite liquido na cert, que fumegava, n'uma chiadeira
monotona, observou com um certo ar sentencioso:

--A sorte no pode ser a mesma para todos, Annita; cada qual vai-se
sugeitando ao que Nosso Senhor lhe destinou.--

--Isso  verdade, tia Magdalena.--

--Pois ento, filha, toma este caldinho e leve o diabo paixes; tu ainda
no s assim nenhuma peste!

E com uns modos brandos, um largo sorriso corrupto, a tia Magdalena
insinuava-se, contava casos identicos, uns casos de que tinham resultado
boas fortunas e muitas raparigas que ella conhecia e que
hoje--accrescentava orgulhosa--andavam ahi no galarim! oh, se andavam! e
algumas a ella lh'o deviam!--

E depois capciosamente, com uma insinuao que se enrosca, a tia
Magdalena promettia-lhe auxilial-a, occorreria s primeiras despezas,--o
vestido era tudo--dizia--e depois tu m'o pagars quando poderes.--

--L isso, creia, no serei ingrata.--

E mais confortada, com uma resignao de vida nova, pensando um pouco na
miragem que lhe fulgia diante dos olhos, a Annita, saciada a fome, na
plenitude feliz d'um estomago satisfeito, arremeava a phantasia ao
encontro d'um brazileiro endinheirado, d'um negociante, d'um burguez
honesto que a sustentasse, n'um trem de luxo, casa montada, uns vestidos
espalhafates e uns brilhantes,--oh, desejava muito uns
brilhantes,--e sahiria com a sua creadinha, muito invejada,
golosamente desejada pelos _dandys_ que estacionavam s portas dos
cafs, das tabacarias, nas aleas do Palacio--

--mas nunca, havia de se vingar, estava farta de peraltas.--

E um pouco mais positiva, com a lico pratica do infortunio em que ia
resvalando, pensava em aproveitar-se um pouco da flor da sua mocidade, e
depois,--a filhinha era preciso aconchegal-a n'um agasalho de
confortos--d'um collegio, onde a pequena estivesse decentemente
collocada, e que a no importunasse muito a final--concluia.--

Vinham-lhe todos estes pensamentos n'uma confuso adoravel, com uma
effervescencia de cerebro docemente embriagado, sonhando-os ella s, com
uma doce voluptuosidade intima, em quanto a tia Magdalena curvada sobre
o lume espalmava com a faca as iscas amarellas que chiavam n'uma
compresso rugidora e com a outra mo esfregava os olhos blepharaticos,
lacrimejantes com o calor do lume. Lembrou-se da pequerrucha, despediu-se

--havia de voltar, tinham muito em que conversar

--c te espero, minha brazileira, e olha, vem  tardinha, tenho mais uma
_aquella_ de vagar.--

A Annita sahiu da tasca. Ficava em frente a alameda das Fontainhas, com
as suas sombras frescas, a relva cylindrada, um doce murmurio d'aguas
que cahiam no tanque. A tarde descia lentamente com uma grande preguia
de creoula, arrastando a sua cauda de luz por sobre a cumiada dos
altos de Villa Nova, dando um tom melancholico de ruina ao velho
convento da Serra do Pilar. O Douro l em baixo, n'uma mansido lassida,
quasi parado, deixava-se cortar em espadanas de crystal pelos remos
curvos dos barcos _rabellos_, um tanto primitivos, que iam navegando
lentamente.

Mirones melancholicos, com um ar romantico, se encostavam ao paredo
contemplando a paisagem n'uma grande mudez admirativa e ociosa, em
quanto em baixo as lavadeiras batendo a roupa, cantavam alegremente,
amenisando o trabalho.

A Annita sentia-se possuida d'aquella beatitude pantheista; o seu
espirito resfolegava alegrias, o corpo sentia-se leve, como que
impregnado d'um ether ligeiro, que a estonteasse de felicidade,
fazendo-a voar na mansido do azul, como as aves brancas que atravessam
o espao. Toda ella delineava bellos sonhos aereos, phantasias gentis,
castellos d'Hespanha rendilhados de luz, que nada parecia poder destruir.

--Seria rica e feliz! A sua filhinha teria sempre vestidos brancos, a
cinta enlaada por uma larga fita cr de rosa, e um chapeu pequenino de
palha d'arroz, feito na melhor modista. E sahiriam juntas, ella toda
cingida n'um vestido de velludo cr granada, a cr da moda, o sapatinho
aberto a desvelar as meias de seda, um chapeu modelo, toda perfumada,
com o bello aroma d'essencias caras--havia de ser do Jockey-Club, que o
Alberto tanto gostava--

--mas ao recordar este nome uma sombra escura perpassava ennevoando
aquelle sorrir intimo, como uma nuvem que empana o sol, ou um signal
negro que poisa no branco setim d'uma pelle avelludada.

--Ora, que lhe importava! Era um canalha, estava dito.--E evolando-se
outra vez ao ceu das suas phantasias, pensava ento em como havia de ter
a sua casa, um primeiro andar com mobilia de pau setim, tapetado de modo
que ella no sentisse o ruido dos seus passos, e uma ottomana toda
macia, com boas molas doces, onde podesse recostar-se languidamente a
pensar em coisa nenhuma. Ficra-lhe a voluptuosidade preguiosa dos
divans, do seu tempo de _cocotte_;--e teria um piano, sim, era decente,
ella no sabia tocar, mas a pequerrucha aprenderia!--alm d'isso ella
gostava de musica, sensibilisava-a, dava-lhe um poucochinho a doce
voluptuosidade dos enervamentos molles e--lembrava-se sobretudo dos
fadinhos chorados na guitarra, que tanto a enterneciam.--

Mas dous brazileiros vinham do outro lado da alameda; um d'elles, usando
oculos, pareceu olhal-a com atteno; questionavam em grandes gestos
largos. A Annita pensou em que elles seriam muito ricos.

--Si lh'o digo eu, homem! se casa ella! esta manh o Juca contou na loja
do Guimares, que tinham j assignado as escripturas.--

--Mas se elle no tem aonde cahir morto! olha quem, o Alberto!

--Herdou d'uma tia da provincia, voc sabe?

--Historias, aquelle passaro no entra em gaiola minha, no, essa lhe
digo eu! Conheo de ha muito o Alberto de S!

A Annita sentiu-se intrigada, alguma cousa de occulto que se revelava,
estonteando-a.

--Ah, pois era possivel! Aquelle canalha ia casar-se! E ella, e a
filha!... que pulha, que miseravel!--

E desejava ouvir, interrogar os brazileiros; saber se era d'elle, que
realmente se tratava. Approximou-se, tinha uma grande agudeza d'ouvido,
precisava no perder um som. O brazileiro dos oculos no deixava de a
fitar de vez em quando.--Se podesse fallar-lhe.--

--pois  verdade, !... concluiu o brazileiro, bamboleando o guarda-sol,
e abrindo os braos, n'um gesto largo, de quem no duvida.--E depois um
pouco artista:--

--Bonito panorama, commendador!...

--Ah, nada qui chegue s vistas di Petropolis! e o morro do po
d'Assucar, ao entrar a barra, no gosta voc?

--Admiravel, lhe digo ento!

O homem dos oculos continuava a fitar a Annita, que um pouco mais longe,
o corpo gracioso, curvando-se um pouco sobre o paredo, fingia olhar o
Douro. O companheiro notou-lhe uma certa distraco.

--Qui tem voc, commendador?

--No reparou o amigo Loureno n'aquella moa que est alm!...

--Magano!--disse, batendo-lhe uma palmadinha no hombro.

--No, mas repare, se parece ella muito com a Ermelinda, do Jorge!

-- verdade! Ah, ah, quem ella !... desatou o Loureno n'uma
reminiscencia subita.

--Voc conhece ella?

--Se conheo!  a Annita, uma moa que j esteve ahi por certas casas,
ein, e depois sahiu, creio que para a companhia d'alguem, o commendador
comprehende?--

--Ah, ah, pois se parecia ella muito com a Ermelinda, ia jurar que eram
irms as duas, ora j viu...

--O diabo o jurasse.--E riram muito, dobrando os grossos ventres em
contraces diaphragmaticas, as bochechas dilatadas, no espapamento
obscuro de alegrias alvares.

O Loureno despediu-se, tinha que fallar com o Mendes, ficara de estar
com elle no caf Suisso, e instava para que o commendador o acompanhasse

--ficava mais um poucochinho, lhe agradava muito aquelle panorama.

--Oh, era sublime!

--At logo!

--At logo, no hotel, ein, para a partida do slo.

O commendador viu o Loureno subir a rua de S. Lazaro e continuou a
passear na alameda, abstracto, um pouco descuidoso de si, como se
caminhara embalado na serenidade doce d'aquella natureza que se lhe
desenrolava diante! Havia um pensamento latente, que phosphorecia l
dentro, na solido do seu espirito, e ora se apagava, ora
reapparecia, para tornar a fugir, alguma cousa de errante, que elle no
podia condensar n'um raciocinio logico, e bem seguro, como fazia a uma
somma de cifras dispersas. Escapavam-lhe phrases soltas, entrecortadas:

--Mas  isto feitiria, de certo, eu tenho ouvido fallar n'essas coisas!

E reconcentrava-se, recolhendo a si a ideao que se evolava, como as
creanas recolhem os papagaios de papel fluctuantes e moveis, que se
alam no espao.

A Annita passou por elle, toda gracil e acariciadora, um bom sorriso a
colorir-lhe os labios veludineos, o corpo meneando-se n'um movimento
furtivo, de cora domesticada. O commendador reparou n'ella e exclamou:

--Muito se parece o demonio da moa!

E, seguiu-a com o olhar, n'uma attraco inconsciente, pensando talvez
em Ermelinda, que via reproduzir-se no corpo esbelto e delgado d'Annita,
uma attitude de _gaucherie_, um pouco trocista, que lhe recordava o
baile de casa do Mendes. E naturalmente foi-a seguindo, com uma
docilidade de idiota, irreflectida, de desejo que se abre fustigando o
instincto, e avassalando, n'um despotismo intransigente, todas as ideias
ss, que poderiam nascer. A Annita percebeu isto mesmo, e mais
provocante, um poucochinho _cocotte_, tomando um ar garrido, de
honestidade duvidosa, caminhava lentamente,  _se laisser prendre_,
fingindo-se embevecida na grande obra d'arte, a ponte Maria Pia, que se
estendia, como um arco de madresilvas, de montanha a montanha,
esbatendo-se ento, na doce luz crepuscular. E o brazileiro,
ouvindo-lhe j a respirao, o _frou-frou_ do vestido, quasi a par:

--Me d uma palavra, sinhsinha.

      *      *      *      *      *

Depois de deixar o brazileiro, Annita dirigiu-se lestamente para casa,
cantarolando uma musica em voga, um fragmento d'opereta; chilreava-lhe a
alma a umas esperanas fagueiras, que desciam envolvendo-a, n'uns sonhos
embriagantes de felicidade. Preparava o seu plano de ataque para a
primeira entrevista com o commendador; estudava todas as seduces, que
o estonteassem, todas as _ficelles_ que podessem prendel-o; adivinhava
que precisava andar differentemente com elle, cortar pelos espalhaphatos
pelintras de _cocotte_, e fazer-se honesta, um poucochinho sria,
mostrando ainda assim a garra de _diable_ por debaixo da apparencia
avelludada das caricias affectuosas.

N'estas disposies subiu a escada; um gemido debil, de creana
exhaurida de chorar, cortou-lhe os vos  aza da phantasia, e vendo no
bero aquelle rosto branco, muito chupadinho, com os olhos pretos
docemente embutidos na cr lactea da pelle, tomou-a carinhosamente,
aconchegou-a ao peito, que a pequena procurou com vida anciedade, mas
que largou logo, chorando, n'um vagido de fome.

--Deixa que tambem ha-de chegar a tua vez, meu querido amorsinho,--e
depl-a no bero, principiando a embalal-a, n'uma melopeia monotona,
que a adormentasse.

Um luar doce, d'uma voluptuosidade estival, entrava pela janella,
clareando o quarto; e a Annita, sentada junto ao bero, ao ruido
cadenciado d'aquellas oscillaes, mergulhava o seu espirito n'essa
photosphera de saudade, que vive na alma de cada um de ns e que ella
uma vez soubera possuir com o eleito do seu corao, um bom rapaz da
provincia, o seu primeiro amor, ambos cheios d'uma mocidade fresca e
alegre, pobres os dois, mas unidos contra a adversidade, mos dadas no
caminho aspero da vida!

--Oh, que fatal ideia a sua em querer vir para a cidade, ser rico,
trabalhar muito!

Morrera, victima da grande lucta, da immensa peleja e ella, s, bonita
talvez, requestada, adquirindo habitos de luxo, um pouco preguiosa,
adormecida na saudade d'aquelle primeiro golpe, deixara-se resvalar,
cahira... e... dentro em pouco via-se adorada por muitos homens,
chamavam-lhe a Annoca, a _gatinha parda_, sabia ter graa, e era a mais
procurada d'entre as suas irms de infortunio... E depois o Alberto
insinuara-se no seu corao, queria ter um _amante_ tambem, um janota,
um dandy, estava farta d'aquelles imbecis que a procuravam a preo
d'ouro, por instantes curtos.

--elle fra a sua desgraa!... E confrontava, achava miseravel aquella
pocilga aonde elle a mettera, promettendo-lhe cada dia cousa melhor e
isto havia um anno e depois--a filhinha viera... para cumulo das suas
desventuras.--

--Ah, seria bom ser me, quando se era rica!... mas assim, que
miseria!...--

Despontava ento a imagem da sua nova conquista, o brazileiro, e ella,
affagando uns sonhos de ventura, curvava-se sobre o bero, segredando
com a filha, como se ella a podesse entender!

Bateram  porta n'este instante. A Annita levantou-se, foi abrir, e um
raio de luar, apanhando a entrada n'um espao vedado, illuminou a figura
elegante de Alberto. Sentiu-se afogueada, alguma cousa como o despontar
d'uma revolta, que a sacudia. E muito ironica:

--Bravo, sim senhor, a boas horas!--

--s horas que me apraz--respondeu seccamente, atirando comsigo para uma
cadeira e accendendo tranquillamente um charuto.

A Annita ficou a olhal-o, de braos cruzados, o cerebro paralysado por
aquella entrada brusca, indecisa; mas depois recobrando-se d'aquelle
silencio, sempre ironica:

--Dou os parabns a V. Ex.--

O Alberto relanceou sobre ella o seu olhar, conheceu que a Annita sabia
das suas novas resolues!--Ah, isso evitava-lhe trabalho, estimava-o--e
alto:

--Obrigado! e ainda bem que o sabes! Isto assim como assim tinha de
acabar; no era possivel!

--No era, no!

--Vamos, no te zangues; s boa rapariga!--E levantando-se,
approximou-se d'Annita, tomando-lhe as mos, aconchegando-a a si. Mas
ella fez um movimento rapido, desprendeu-se, e, torrentuosa,
quebrando a transparencia das ironias,

--Seu pulha, seu miseravel! pensava que era s roubar-me a tranquilidade
e o bem-estar, trazendo-me para esta pocilga, vendendo as poucas joias
que eu tinha, mentindo-me sempre, arranjando-me uma filha e agora, por
aqui  o caminho! No que elle no  seno casar com a sr. D.
Ermelinda! Ora at o diabo se ria! Ahi tem a sua filha, leve-a, faa
presente d'ella  sua noiva e para c as minhas jias, ouviu!--

O Alberto recebeu esta saraivada, com um ar pallido, d'um sorriso
sarcastico, trauteando a sr. Angot, e pondo o chapeu na cabea:

--At mais ver, _gatinha parda_!


VIII

Trens de praa, os cocheiros com librs de luxo, iam-se pouco a pouco
enfileirando na rua onde morava o Jorge. O povinho ia parando, mulheres
sobretudo, desejosas de ver sahir o cortejo. Os convidados ainda com os
sobretudos e j de luva _gris-perle_, as senhoras de vestidos de sda,
entravam e logo o director do banco com um sorriso amavel, d'uma
cortezia palaciana, sahia a recebel-os, um bello ar festivo, a barba
escanhoada, a gravata branca sobre um peitilho folheado, todo grave na
sua casaca preta.

Tinha sempre uma phrase nova para receber os cumprimentos.

--Meus parabens, sr. Jorge.

--Obrigado, amigo Mendes, sei que so sinceros!

Rodava mais uma carruagem e logo outro, entoando:

--Parabens, parabens!

--Recebo-os, como a mais amavel das felicitaes--e sorria.

As senhoras todas subiam, queriam ajudar a vestir a noiva. Tinham o
fetichismo das grandes occasies. A Adelaide Mendes dizia que havia de
ser ella quem pregaria o ultimo alfinete!--e todas queriam fazer o
mesmo, as solteironas afim de serem as primeiras a seguir na via lactea
do matrimonio.

No seu quarto a Ermelinda estava j vestida, o rosto afogueado n'uma
vermelhido casta; um largo espelho a reflectia com o seu vestido de
_faille_ nevado, d'uma scintillao velludinea guarnecido a flores de
larangeira; iam pr-lhe o vo, um largo vo de fino tulle branco!--Mas
em antes as amigas rodeando-a, notavam uma prga que era necessario
desfazer, encobrir... com um ramo, e uma elevao no penteado, que urgia
modificar.

Davam-lhe os parabens com sorrisinhos maliciosos e ditos agudos, d'uma
levesa picante, capazes de crestar o avelludado d'aquellas flores
virgineas, que a engrinaldavam,--e a cora, que a repartisse pelas
amigas, no se esquecesse, para o noivo bastava a... outra--

A Adelaide Mendes disse que preferia a sua parte do _bouquet_;--

--ah! tambem, tambem!--

--vai mais chegadinho ao corao--

E uns dedos rosados vinham logo ageitar o _bouquet_, um pequeno ramo
gracioso, de flores de larangeira, que fechava o decte do vestido,
poisando sobre a curva do seio, com uma castidade toda timida,
narcisando com a sua fina essencia a carne assetinada, d'uma alvura de
camelia, onde poisava um formoso signal escuro, cheio de pequeninas
provocaes.

Estava prompta em fim. Nunca o seu espelho lhe parecera to lisongeiro,
como n'aquelle momento;

--Ah, era assim que ella se tinha sonhado nos seus devaneios
incoherentes de mulher nova e moa!

--mas sentia-se nervosa, muito agitada; tinha sobretudo uma grande sde!--

A Amelinha, disse-lhe:

--que tambem ella estivera assim, mas passava, no tinha duvida--e
preparou-lhe um copo d'agua com assucar, que a Ermelinda tomou,
curvando-se para no deixar cahir alguma gotta sobre a sua toilette de
noiva.

A D. Carola, a esposa do Mendes entrou, um sorriso largo, a pronuncia
brazileira:

--Vamos, meninas, so horas de conduzir minha afilhada--

--E elogiou-a,--que estava muito bonita realmente, era o mais formoso
dia da sua vida--

--Eu sei, D. Carola! talvez o mais infeliz!--e abriu as palpebras a umas
lagrimasinhas brancas, d'uma humidade crystallina, que rolaram  como
pequenas perolas sobre os olhos negros, avelludados.

--Ora j viram, a menina a chorar--rompeu a Amelinha Bastos!--eu c at
me ri, podera no! se eu ia por minha vontade--

Mas a D. Carola reflectiu:

--que poucas deixavam de chorar, realmente a cousa bem pensada, no era
para menos! mas que no havia nada mais lindo, dando-se bem...

Em baixo os convidados cercavam o Jorge, perguntando pelo Alberto, o
noivo. Elle explicava:

--O casamento effectuar-se-hia em Cedofeita, era um pouco do tom, e o
Alberto iria dar  Egreja com os seus amigos.

--E os padrinhos, os padrinhos quem eram?

--Da sua Ermelinda era o Mendes e a D. Carola.

--E do Alberto?

--Do Alberto, ah, do Alberto, era o commendador Faria e a senhora do Dr.
Roberto Jocy, um amigo d'elle, muito intimos, uma senhora de esmerada
educao, pertencente a uma familia ingleza.

A noiva desceu emfim.

Os homens olhavam-a com uma grande sensualidade hypocrita; trocavam-se
sorrisos velhacos e ditos apimentados, que Paulo de Koch no
despresaria. Tomaram logar nos trens. A D. Carola foi com Ermelinda, o
Jorge ia com o Mendes. O cortejo principiou a desfilar em direco a
Cedofeita.

L estava o Alberto, o commendador Faria, um pouco pallido talvez e o
Dr. Roberto Jocy, um rapaz moreno, de physionomia insinuante e
sympatica, a senhora, um typo esguio, de ingleza magra, com uma
pronuncia incorrecta; e o Juca Mendes, o Alfredo Costa, o Luiz Serra, o
Carvalhinho e outros ainda, companheiros da _pandega_, uns _crevs_
perfumados; de penteados divididos em dous hemispherios, muito luzentes,
os pequenos bigodes retorcidos. Conversavam nos claustros.

--Um poucochito magra, ein,--rapazes.

--Havia de engordar com as delicias do matrimonio--

--Respeito  moral da burguezia, meus caros D. Juans.

--Que estupida asneira fez o Alberto!

Foram entrando no templo; alinhando-se; o sachristo, com a sua batinha
vermelha, d'um tom sanguineo, de carrasco, ia distribuindo brandes
accesos, aos homens, s senhoras, como se os preparasse para um
sacrificio murtuario, de festas funebres. O povo entrava, collocando-se
ao fundo, na penumbra escura do guardavento. Um cheiro de cera derretida
se espalhava no ar e vozes ciciavam em commentarios de m lingua, de
sensualidade rutilante. Por fim os padrinhos e noivos sahiram da
sachristia, e os dous proximos um do outro, com um sorriso promettedor
de felicidades nubentes, caminharam entre as alas dos convidados, at ao
arco-cruzeiro, onde o padre, paramentado, com um livro d'oraes na mo,
os esperava, com um latim j velho auctorisador de caricias para
mysticamente os unir n'um lao eterno, indissoluvel, que nunca mais
podesse desatar-se.

O padre enlaou-lhes as mos e ao pronunciar o Ego vos conjugo
Ermelinda sentiu a face orvalhada, as lagrimas convencionaes da noiva
romantica, que o Alberto recebeu com um sorriso leve, finamente
desenhado nos seus labios vermelhos. O commendador Faria, sentia-se mal;
bagas de suor frio lhe porejavam a fronte e o seu leno de fina bretanha
roava-se sobre a pelle humida, absorvente, como uma esponja; um
pensamento importuno, que se no sacode facilmente, penetrava-o com
grande desespero seu.

--Mas que me importa ella a mim?--perguntava a si proprio--e
insensivelmente os seus olhos cravavam-se em Ermelinda, toda formosa no
seu vestido branco, um bello ar de virgindade pudica, como as esposas do
Senhor nos dias de noviciado.

--mas, que raiva esta!... Ora, ora!...

E desviava os olhos, terminando em fitar um S. Miguel doirado, domando
bellicosamente o velho Lucifer, d'uma cara angulosa, que o olhava, o
pescoo torto, com um grande ar sarcastico.

--Podia ser minha, mas no , acabou-se!... E desviava o pensamento para
objectos communs, negocios que o interessassem, passeios que tinha
destinado fazer; mas como um pendulo que se move em volta do mesmo
centro, a ideia voltava tenaz ao mesmo assumpto, suppliciando-o,
amargurando-lhe aquelles momentos, em que desejaria ter a mais santa
tranquillidade.

S a D. Clementina adivinhava talvez, no seu ciume de solteirona, o
que se passava na alma do commendador.

--Ah, mas era bem feito, no estava ella ali que se morria por elle... e
agora, que felicidade... ficaria s no campo... Ermelinda era d'outro.--

A ceremonia terminou finalmente. Todos tratavam de a abraar,
cumprimentando, com uma chuva de felicitaes.

Depois do casamento os noivos iriam para Braga, passar a lua de mel no
Bom-Jesus.

--Era moda--dizia-se--havia tom n'este voejar de pombos livres para a
solido tranquilla das florestas.

Ermelinda foi a casa mudar de vestido e o sequito esperando-a,
acompanhou-os at Campanh, enchendo a gare.

Muitos abraos trocados, mas a machina silvou, um grande silvo agudo,
vibrante como um gemido soluado. Ermelinda teve at um pequenino susto.

--Credo, no esperava agora por aquillo.--

Mas era tempo; entraram no wagon, a locomotiva arrastava-se lenta, com
um vagar preguioso, de quem sabe ser uma boa locomotiva portugueza. Os
adeuses cruzavam-se no ar, frementes de saudade, gloriosos, muito
alegres. Os convidados retiraram-se.

O Luiz Serra, um poetastro novio, dizia para o Dr. Roberto, em cujo
trem regressava para a cidade:

--Gosto d'isto, tem poesia, Dr.--

--Escreva-lhe uns versos--respondeu ironicamente o joven medico.

--E vou escrever, a inspirao est ainda muito recente, muito viva! Um
casal de pombos, que se unem, n'uma unio mystica, recamada de perfumes,
acompanhada dos canticos religiosos, e depois o esvoaar livre, no
grande espao, at irem poisar na floresta densa, onde ensaiam a
tentativa do primeiro ninho,--n'um idylio palpitante d'amor.

--Melhor o ensaiassem em casa.--

--Oh! Dr., isso  fossil!

-- por isso mesmo que na epocha de hoje deve ter um grande valor!

--Deve confessar que uma _lua de mel_ passada dentro de casa  a maior
sensaboria, que os nossos bons burguezes podiam inventar; falta o amor,
o idylio, a ventura, a felicidade dos primeiros dias de noivado! Eu c
por mim protesto contra esse erro de chronologia, de lesa-elegancia, de
lesa-poesia.--

--Que de leses ahi no vo, santo Deus,--ora oia-me, Luiz Serra.--Tudo
o que o Sr. pensa a proposito d'esse primeiro periodo de noivado, no
passa d'um bolo coberto de assucar lyrico, deixe-me exprimir assim. Que
vantagem pde ter essa iniciao mentirosa na felicidade do casal, no
me dir? E depois attenda; a lua de mel  um cyclo que devia deixar de
existir no casamento; o bom senso e a boa educao protestam contra
ella! Ou a lua de mel deve exprimir a synthese da felicidade e essa deve
durar sempre, no pde limitar-se a uns bons dias apenas, ou ella
exprime smente uma conveno idylica entre os noivos e  isto o germen
de futuras questes, de dissidencias graves, que terminam muitas vezes
no adulterio, no divorcio.--Que faz o Alberto em ir com a Ermelinda
pipillar idylios nas carvalheiras do Bom-Jesus?

--Mas amam-se, asseguram a sua felicidade.

-- exactamente o contrario do que o meu amigo pensa; por que no iriam
antes sensatamente para sua casa perfumar com as primeiras alegrias de
noivos o quarto, onde teem sempre de dormir, a saleta do trabalho, onde
vivero juntos, o jardimsinho que os distrahir nas horas de aborrecimento?

--Florian dentro de casa, Dr.--

--Ou Florian nos bosques do Bom-Jesus! Ora diga-me; que recordao podem
ligar os dous a esse leito de hospedaria, onde se tem deitado um casal
de noivos por semana, convencionalmente e s para obedecer a uma
imposio do _chic_? Com que alegrias podem elles revestir depois o seu
quarto, a sua casa, quando se recolherem quebrados j da vertigem
voluptuosa, com os primeiros defeitos mutuamente reconhecidos, murchas
as flores santas da illuso? Pois no lhe parece que a lua de mel deve
ser uma iniciao augusta, com que se cimente o bem estar do lar, longe
de ser uma iniciao mentirosa, com que se encobrem os primeiros
defeitos e se envenenam os pacificos dias do futuro?

N'este momento o trem parava em frente do escriptorio do medico. Luiz
Serra despediu-se:

--Discutiremos ainda, doutor, a sua doutrina tem um realismo, capaz
de estancar a mais copiosa fonte de lyrismo.--

--Se ella foi _secante_, deve confessar.

Riram-se; a esposa do medico apertou-lhe docemente a mo.

--No auguro bem d'este casamento Roberto.

--Nem eu--concordou, encolhendo os hombros--deixal-os l--educao,
educao--e o Dr. aspirou tranquillamente o seu charuto, expellindo um
fumo claro, que subiu em pequeninos rolos.

Mas o Luiz Serra precisava affirmar em publico a sua sympathia pelos
noivos e as incorreces do seu estylo, e por isso nos jornaes do dia
immediato as iniciaes L. S. declaravam ao mundo:

--que se tinham unido pelos sagrados laos do matrimonio os Ex.mos
Srs. Alberto de S, um dos cavalheiros mais distinctos da nossa
sociedade elegante e D. Ermelinda Jorge a formosa filha do director do
Banco Commercial,--que os noivos tinham sido acompanhados  _gare_ do
Caminho de ferro por um numeroso sequito e arrastado na aza vertiginosa
do comboyo, iriam passar a lua de mel na floresta do Bom-Jesus--

que elle lhes desejava o mais auspicioso futuro, uma lua de mel perenne,
de que seriam fiadoras as qualidades distinctas dos nubentes--e
terminava por

um parabem enthusiasta.--

      *      *      *      *      *

A payzagem tinha as macias tintas melancholicas do Outono, arvores que
se desfolhavam saudosas da sua cr esmeralda, olivaes escuros,
enfileirados ao longe como soldados obedientes d'um batalho em marcha;
as casarias das aldeias, docemente esbatidas por uma luz crepuscular,
desappareciam, deixando no espirito, sensaes ternas de idylios
perfumados. Os regatos, como cobras azuladas, enroscavam-se no verde das
campinas, em beijos limpidos de fecundidade luminosa; os montes
escalvados desfilavam ao longe n'uma fluctuao duvidosa de luz e os
pinheiraes, como pelotes de gigantes, formados  beira da estrada,
animavam-se, movendo-se n'uma illuso d'optica que se impe quando
marchamos n'um movimento rapido. O comboyo tinha umas oscillaes
cortantes, barulhosas, de ruidos de molas abafadas, e os _rails_, duas
fitas indefinidas que se desenrolavam diante d'elle, desappareciam n'um
recolher rapido, apressado, de _trou-trou_, incansavel.

Alberto e Ermelinda iam n'uma mesma janella, hombros chegados, mos
enlaadas na cintura, embevecidos no pantheismo bucolico d'aquelle
diorama que lhes fugia diante dos olhos.

--Como isto  lindo--dizia ella--eu gosto muito do campo.--

-- poetico...

--Olha aquella casinha, no vs... toda enfofada em verduras.--

--Havemos de arranjar uma assim;  bonito  _chic_ vir passar um mez na
nossa casinha de campo.--

--Ah, como tu s bom!...--e recolhia-se um pouco para dentro, a
imaginao debruada de phantasias coloristas, cofiando-lhe o queixo,
muito de leve, mansa e insinuante, offerecendo-lhe o rosto, em que elle
depunha um beijo amoravel, muito demorado. Sentaram-se um ao lado do
outro, comearam a brincar, umas pancadinhas furtivas, d'uma graa
infantil a que ella fazia uma _moue_ de ingenua, muito adoravel, de
pequenina gata.

E depois enroscando-lhe o pescoo com um grande impeto d'amor agradecido:

--Ainda me parece um sonho, Alberto.--

-- verdade, ainda me parece um sonho.--

E estreitava-a, arqueando-lhe a cintura na curva dos seus braos,
beijando-a doidamente, voluptuosamente, fustigando-a de excitaes
nervosas. Ermelinda deixava-se amollentar no avelludado quente
d'aquellas caricias, que nunca conhecera.

--Ah, como era bom ser assim amada--dizia, toda offegante, a respirao
curta; muito quebrada por sensaes incoherentes, d'uma delicia
indefinida; e ameigando-o, muito carinhosa:

--Tu s o meu maridinho, ora no s?--

--Se sou!--e segurava-a com vigor, apertando-a muito contra o peito,
n'uma sollicitao sedenta de namorado, communicando-lhe um tremor
convulso, entre voluptuoso e dolorido, que a perturbava de fortes
commoes.

Anoitecia; tinha-se passado Nine; principiava a lucillao do luar, n'um
tremulo vago, a palpitar amorosamente por sobre as cumieiras da
serra, que escureciam na grande paz dormente; as arvores tornavam-se
indistinctas massas confusas, fluctuantes, n'aquelle arfar constante do
comboyo; umas bafagens quentes penetrando pelas janellas, passavam de
quando em quando indo affagal-os n'um enlanguescimento morno.

Os beijos d'Alberto tinham um calor penetrante e Ermelinda, entre os
seus joelhos, o cerebro atordoado, deixando-se cahir n'um affrouxamento
languido, a voz ciciando um queixume:

--Alberto!...--

A locomotiva silvou; avistava-se Braga, com as suas luzes encravadas
como pequenos pyrilampos na massa vultuosa da cidade.

Um quarto de hora depois estavam no hotel.

--Ainda n'aquella noite iriam para o Bom-Jesus; que lindo! subir a
montanha  luz candida da lua, elles, agora to felizes, to amiguinhos
um do outro--dizia Ermelinda.

--E se ns fossemos manh?--ponderou Alberto.

--manh, ora, que tolice!--replicou enfastiada.

--Tolice, no; ia-se mais descanado.--

--Olha a grande fadiga,--respondeu com uma nevoasinha de colera--que
semsaboria ficar em Braga!...--e amimando-o, a mosinha no rosto,

--Havemos de ir hoje, sim?--

--Vamos la, s uma feiticeira!...

--E depois, que lindeza manh, quando acordarmos, ouvirmos o gorgear
dos rouxinoes na sombra fresca das carvalheiras!

--Romantica!

--E tu no o s tambem! No amas como eu esses espectaculos da
natureza!... e depois quando se  noivo!...

--Tens razo; seria uma tolice ficar em Braga.--

Mas no fundo, bem no fundo do pensamento de cada um, a desilluso
entre-abria-se, como uma flor venenosa que tem nas finas particulas
aromaticas a corrupo futura do ar que embalsama. Na imaginao
d'Ermelinda, Alberto cahira no prosaismo das commodidades triviaes,--um
materialo, ora vejam l, e eu que o julgava uma alma apaixonada,
radiosa de luz, de poesia d'amor... e fiava que o futuro lhe descobriria
ainda mais em relevo esses defeitos,--que elle no saberia ter as
delicadezas subtis, de que toda a mulher se quer vr rodeada, como n'uma
onda de finissimo arminho,--que seria talvez grosseiro, conhecera-o na
ruga animada da sobrancelha, quando lhe contrariou o seu desejo de irem
n'aquella mesma noite para o Bom-Jesus.--

Mas olhava para elle, era o seu Alberto, o seu maridinho;--ora, que lhe
importava tudo isso agora, era noiva, estava na sua lua de mel... e
rodeava-o d'uma caricia longa, na ebriedade do seu novo estado.

A seu turno o Alberto pensava:

--Uma romantica, ein!... gostava da mulher que no fosse prosaica, mas
parecia-lhe que a sua tinha essas qualidades exageradas, e depois um
vidrinho de cheiro, tinha genio, conhecia-se; mas havia de amansar, que
remedio!... mas, com os demonios, no era agora occasio de pensar
n'isso.--

E beijava-a, no aquecimento febril da sua paixo sensual, brio de gozo,
como um rapaz estroina que saboreia uma garrafa de champagne, sem se
lembrar que tem de pagar depois.

Alugaram um carro, e partiram. A cidade perseguiu-os durante algum tempo
com a illuminao dos seus candieiros, as suas casas interiormente
illuminadas, as suas tascas, as suas egrejas succedendo-se a curtos
espaos, os seus ruidos; mas para logo uma aragem fresca de campo lhes
beijou as faces, e o luar, na silenciosa tranquillidade da noite,
escorrendo como um banho de neve por sobre a fluctuao indistincta da
payzagem, envolvia-os suavemente, como n'um manto opalino, tecido por
mos feericas.

O carro ia devagar, subindo sempre, n'um zig-zag monotono; as grandes
arvores velavam-lhe por vezes a lua, que logo reapparecia n'um vacillar
tremulo, d'uma limpidez crystallina. Chegaram ao hotel. O criado
appareceu, e logo o cocheiro, um poucochinho confidencial:

--Trata-me bem d'esses dous pombinhos.--


IX

Em casa o Jorge principiava a sentir a nostalgia do isolamento;
encerrava-se no seu gabinete e procurava interessar-se no trabalho, que
trazia entre mos, o relatorio do Banco; mas a penna suspendia-se sobre a
brancura do papel, morosa, sem poder fixar uma ideia clara; e para encobrir
essa carencia de actividade demorava-se pacientemente, minuciosamente, nas
perfeies caligraphicas d'uma palavra qualquer como que receiando achar o
vacuo para alm do ultimo trao.

E descontente de si atirava com a penna para o lado, levantava-se,
punha-se a passeiar, accumulando factos, reminiscencias, que podessem
dar-lhe em resultado uma associao d'ideias precisas, methodicamente
definidas; mas apesar de tudo o trabalho no progredia, o papel l
estava branco, com as suas linhas azues parallelamente dispostas, como o
zig-zag d'uma estrada que era preciso caminhar.

--No estava com disposio--concluia e arrumava tudo na sua pasta
envernizada, com um grande vagar minucioso, entretendo-se, matando o
tempo, que a elle o matava com o seu aborrecimento feroz.

A Joaquina vinha chamal-o para tomar o ch.

Sentava-se, lanava o liquido fervente sobre a sua fina chavena de
porcellana; mas tinha abstraces, deixava-a transbordar, enchendo o
pires. A Joaquina do lado, a mo apoiada sobre as costas da cadeira,
avisava-o, com certa familiaridade de criada antiga:

--Que est fazendo, Sr. Jorge!... Ou elle credo! nem que ella fosse para
o fim do mundo!... Olhe que a estas horas lembram-se l bem de si...

--Dizes bem, dizes bem, Joaquina--e esquecia-se de deitar o assucar

--est azedo, o ch...

--Podera no, se o senhor o no adoou!... ora, ora at d vontade de rir.

--Joaquina, ento.

--Isto foi graa, o senhor desculpe;--e impertigando-se toda na sua
seriedade--no que elle uma cousa assim...--

O Jorge comia pouco, um biscoito apenas; o appetite faltava, o seu bello
appetite burguez, to sadio e to prompto.

--No, assim at  desnecessario fazer comida--ponderava a Joaquina,--ao
jantar fica tudo, ao ch  isto que se v.

--No tenho vontade, mulher...

--Vontade? faz-se!... o senhor no est doente, Deus louvado...--

--Ento que queres?

--Quero que coma, boa pergunta!...

E a Joaquina retirava o servio da meza, curvando-se, arredondando os
seus largos quadris, e deixando ver a brancura da meia, que se descobria
atraz, n'uma provocao macia.

Abriram-se um pouco mais em intimidades, unindo-se no seu isolamento; o
Jorge confiava-lhe pequenos planos e ella approvava ou reprovava com uma
capacidade intelligente, que elle at ali sempre lhe desconhecera.
Comeou ento a considerar a Joaquina uma mulher, um sr quasi egual,
capaz de faculdades affectivas, de intelligencia.

--parecia-lhe menos criada, superiorisava-a e experimentava uma certa
satisfao egoista n'aquella descoberta.

A noite adiantava-se; a Joaquina dentro tinha feito a arrumao da
loua e viera perguntar.

--Se no queria mais nada...

--No, podia-se deitar.

Viu-a retirar com um vagar pachorrento, seguindo-a instinctivamente com
os olhos, surprehendendo-se de que nunca tal fizera e pareceu-lhe uma
mulher fresca, lembrou-se da brancura da meia que ha pouco se lhe havia
entremostrado e um desejo quente mordicou-o, esfervilhando-lhe no
sangue. E para affugentar uma ideia fugaz, que lhe perpassou no
pensamento, como se fra uma mosca luminosa, levantou-se, resolveu ir
deitar-se.

Tinha de passar pelo quarto d'ella; fel-o tremulamente como um
collegial; ouviu um rangido de leito, pareceu-lhe mesmo ter
surprehendido um suspiro vago.

Mas caminhou rapido, entre descontente e satisfeito, respirando emfim
quando chegou ao seu quarto; sentou-se a lr o Commercio
entranhando-se no labyrintho dos cambios, que o acalmaram, como uma
poo anodina.

Depois j na cama suscitava razes especiosas que o absolvessem,
minorando-lhe o extraordinario do caso, reduzindo-o s propores
limitadas d'um facto vulgar--que todos os dias se est vendo;--e
calculou que a Joaquina devia ter para cima dos seus trinta e cinco, no
era nenhuma creana e lembrava-se da sua viuvez propria, inconsolada
agora que o unico affecto, a filha, lhe fugia, amando mais o marido, o
outro.--Sentiu-se encher d'um certo ciume para aquelle que o tinha
deslocado, uma revolta intransigente, impetuosa.

--Mas  lei do mundo, acabou-se; j o Evangelho dizia Por elle deixars
pae e me--

e foi cahindo n'um dormitar resignado, as palpebras cerrando-se, uma
respirao doce, que lhe conciliou definitivamente o somno.

Dormiu mal, um sonhar agitado, o sangue effervescente e de manh quando
a poeira luminosa se coava atravez do _store_ da janella teve um sorriso
largo, muito significativo para a Joaquina, a boa Joaquina que vinha
trazer-lhe o chocolate.

      *      *      *      *      *

Os noivos chegaram  tarde; vinham moidos, o corpo quebrado, n'uma
lassido relaxada, as roupas brancas sujas do fino carvo da locomotiva,
anciosos de banho, um banho fresco, que os estimulasse, dando-lhe tom
aos nervos fatigados; deitaram-se cedo, pouco loquazes para com o Jorge,
que, os interrogava cerca dos monumentos de Braga, a velha s, onde se
mostram os altos sapatos d'um bispo pequenino, e o Bom-Jesus, a Cintra
do Porto, um bello panorama, um dos primeiros do paiz, segundo diziam
pessoas authorisadas.--

--Tudo na mesma--respondiam um pouco aborrecidos. E para a
Joaquina--manh agua para o banho, no te esqueas.--

--Podiam dormir descanados.--

Deram as boas noites; foram para o seu quarto. O Jorge ficou um
poucochinho ressentido d'aquelle acolhimento s suas perguntas;
isolava-o aquella friesa, e instinctivamente voltava-se para a
Joaquina,--um sorriso franco, sempre alegre, uma grande palradeira, que
o escutava com muita atteno e respeito.--

--Isto agora  outro modo de vida, no tem que ver.--

--Mas ento, que dizes tu a isto, Joaquina?--

--Boa!... olhe, se quer que lhe falle com franqueza, eu com a cara
d'elle no engrao.--

--L isso tambem no,  bom rapaz, o Alberto.

--As obras  que o ho-de dizer; olhe que as apparencias tambem enganam.

Os primeiros dias iam passando; uma nevoasinha de tdio descia,
envolvendo-os, fazendo descer o nivel elevado da emotividade.

Ermelinda achava a sua casa pouco romantica para aninhar, n'um aconchego
tpidamente voluptuoso, a pomba ideal da sua paixo;

--Oh, quanto mais lindo no era o Bom-Jesus, com as suas arvores de
copas obumbradas, as suas fontes de crystalina agua, o lago com o
barcosinho, o azul esbatido da luz, cortando-se nas irregularidades da
payzagem.

Comparava com a sua casa, uma monotonia, sempre aquelle barulho ruidoso
de cidade amortecendo-se pelos corredores, a sala forrada a papel, com
aquelle monstro do piano a um canto, umas bugigangas de _biscuit_
eternamente postas sobre as _consoles_; o seu quarto um pouco pesado,
com a grande cama  franceza, de mogno, occupando o centro, sem uma
recordao boa, que o povoasse de saudade, a lamina do espelho,
reflectindo-a, como um confidente silencioso, que parecia
adivinhar-lhe os mais occultos pensamentos, e depois a Joaquina, uma
criada sem a elegancia moderna, sem aquella submisso respeitosa do
criado encasacado, que passa nobremente nos tapetes offerecendo-nos um
copo d'agua, com uma ceremonia de diplomata.

--Ai, o Bom-Jesus!...--suspirava--e estendia-se lassidamente na sua
_chaise-longue_, preguiosa, sem vontade de trabalho, quebrada pelos
excessos d'aquelles dias voluptuosos, os melhores da sua vida, a
imaginao revoando ao encontro desses momentos de febre, os braos
inteiriando-se n'um espreguiar de creoula, bocejando frequentemente.

A seu turno o Alberto dava ao diabo ja o convencionalismo da lua de mel,
sentia-se aborrecido, o _spleen_ d'um lord; lembrava-se ruidosamente dos
cafs quella hora povoados, uma atmosphera quente, ditos scintillantes,
anedoctas escandalosas que se entornavam por sobre as reputaes como os
calices de cognac por sobre as bandejas, os choques entrecortados das
bolas de marfim na baeta verde dos bilhares, os artistas que appareciam
contando a novidade de bastidores, e os theatros com o seu latejar de
luzes na via-lactea dos collos das burguezas, a rapaziada fina nas
plateias assestando intemeratamente os binoculos, o Juca, o Luiz Serra,
o Carvalhinho, uns estroinas, capazes de bater uma _claque_ e armar um
chinfrim, e depois irem tranquillamente comer ao Gomes, s duas da
manh, ostras cruas com vinho de Bordeaux.

E todo este mundo to seu conhecido, to seu intimo, se movia no
seu pensamento parecendo escapar-lhe, n'uma aspirao vaga, como
aquelles rolos esbranquiados do fumo do seu charuto, que se desfaziam,
em largas ondulaes, no ambiente estreito do seu quarto. A phrase
rhetorica, afinada pelo diapaso do sentimentalismo, cahia lentamente
nos monosylabos chos, muito simples, d'uma chatesa trivial, que no
pde mais fingir, sem os arremeos vehementes e lancinantes da paixo.

Ermelinda notara-o, com a tristeza d'uma ptala nevada que se v cahir
da corolla das illuses; mas

--confiava em si--dizia--e procurava dominal-o com as excitaes
nervosas do prazer, prostrando-o a seus ps, n'um ciciar timido,
ardentemente enamorado, que a enlevava toda no ceu indefinido das
idealidades.

E os dous ainda, n'um consumir rapido das phospherencias da paixo,
supportavam-se mutuamente as pequeninas discusses, as nevoasinhas de
tdio, a descoberta reciproca dos defeitos que atiravam, para de fra do
velludo das caricias, _la greffe du diable_, que mais tarde lhe rasgaria
a solidariedade do seu bem-estar.

Sentiam-se ainda felizes, muito amiguinhos e promettiam sl-o:

--para sempre, para todo o sempre--

Mas cada um, no escaninho mysterioso do seu espirito, via bem descer no
rutilante ceu da sentimentalidade, a branca lua do seu noivado que ia
desapparecendo n'uma curva rapida, deixando um rastro luminoso, que
se apagava j, na orla occidental d'esse horisonte ideado.

E no egoismo do seu gozo esqueciam o Jorge, affastando-se, como que
evitando-lhe a presena, tornando o menos possivel demorados os momentos
em que tinham de estar juntos, sendo os primeiros a levantar-se da meza,
os primeiros a dar as boas noutes depois do ch.

--Isto custa, Joaquina.

--Boa, at parece mais triste esta casa!

E approximavam-se n'uma necessidade imperiosa de convivencia,
consolando-se mutuamente, recordando os dias tranquillos do passado em
que todos os coraes tinham a suave claridade da paz; iam-se prendendo,
ensilvando, n'uma attraco baseada na mesma fora, revelando-se
reciprocamente, contentes por se comprehenderem, por se verem reunidos
no mesmo caminho de solido. E eram j mais amigos, permittindo-se
pequenos gracejos, umas familiaridades demoradas, em que se espancava o
convencionalismo do respeito. O molle temperamento lymphatico da
Joaquina accendia-se, como uma phosphorencia errante; e quando  noite o
seu corpo cahia no macio nevado dos lenoes, a imagem do Jorge,
substituindo a do policia 45, desenhava-se nitida, d'uma perfeio
correcta na sua imaginao de mulher viuva de materialidades sensuaes.

Quanto a elle sentia o sangue inflammar-se, uma desfaatez de desejo
apresentando-se intransigente  sua moralidade, com uma causticidade
irrequieta, penetrando-o, atravessando-o com o impeto d'uma amazona de
circo atravez da fragilidade d'um arco de papel. Quebrava as
hesitaes com argumentos especiosos, como um britador teimoso as pedras
que lhe resistem; mas era cauteloso, prudente, tivera sempre medo do
escandalo; e por isso evitava as occasies de tentao, com um
puritanismo timido, balbuciante, no se querendo aventurar sem a certeza
da acquiescencia, gostando muito de jogar pelo seguro,

--esperar o ensejo, sobretudo--dizia.

Os primeiros aborrecimentos iam-se accentuando, mais repetidos, mais
duradouros. Ermelinda conhecia que o Alberto lhe fugia, a imaginao
fatigada, farto  saciedade do seu papel romantico de Antony; sentia um
grande desconsolo, uma melancholia enervante, vendo esfolhar-se a flor
azul das suas illuses, e recolhendo-se no fundo da propria phantasia,
como n'uma cella monastica, deixando-se voar ao encontro do extasi
mysterioso, que tantas vezes sonhara quando via nos livros a paixo
descripta com traos patheticos, d'um mysticismo ideal.

--Ah, como so infelizes as pobres mulheres--dizia--que decepo as espera!

e recostava-se na sua poltrona, um romance aberto, a imaginao voejando
com o romancista no caminho de fogo, onde appareciam em sulcos luminosos
os grandes heroes do amor, os martyres, os eternos namorados, os
divinisadores da paixo.

E a sua phantasia vendo apenas o drama, engolphava-se n'este sonhar
d'uma morbidez debilisadora, esquecendo que para aquem d'esse ideal
mentiroso, existia bem perto d'ella, um outro ideal menos allucinante,
mas mais casto, cheio das austras douras intimas, dos affectos suaves,
das virtudes ignoradas mas nem por isso menos formosas, um ideal, que
toda a mulher deveria ter como a columna de luz que lhe guiasse os
passos atravez do caminho da existencia.

E n'essa abstraco, em que lhe andava erradamente o espirito, Ermelinda
tinha descuidos imperdoaveis de toilette, um desleixo que a amollentava,
ficando s vezes um dia inteiro com o penteador da manh, o cabello
cahido, simplesmente preso na nuca, deixando uma humidade oleosa na
brancura da bretanha.

--Ora, que lhe importava; j no perdia casamento!--

E depois via o Alberto tambem, um descuidado, atirando o fato para cima
das cadeiras, escovando-se e penteando-se apenas quando tinha de sahir,
desarranjando uma gaveta para procurar um leno, calando as luvas j no
meio da rua, tendo deixado no quarto uma desordem de moveis, de roupa,
de calado. Sentia uma vontade de repr tudo no seu lugar,
minuciosamente, com um grande geito femenil,

--mas ora, a Joaquina que se arranjasse!... no estava para lhe poupar
trabalho--e desviava os olhos, repoltreando-se na cadeira, vida da
continuao da leitura.

O Alberto vinha encontral-a assim:

--Ento, ainda n'esse estado!...

--que me importa.

--se vier por ahi alguem,

--se vier, veio; no te afflijas que eu depressa me arranjo,--

Deixava-a, trauteava uma aria, dando um passeio no quarto, indifferente
quelle desarranjo d'ella. E depois, muito amoravel, batendo-lhe uma
palmadinha na face:

--Ento a Lili sabe quem eu encontrei?

--Que me importa quem tu encontraste!...

--Foi a...

--A Amelinha Bastos, a estas horas!

--Adivinhou!...

--E d'ahi?

--Perguntou-me por ti, quando lhe ias fazer uma visita.

--Ora, que tenha juizo.

--No, mas agora fallando srio, olha que  preciso fazermos as nossas
visitas de casamento...

--J pensei n'isso, mas...  uma massada...

--Em fim teem de fazer-se;  um dever da boa sociedade...

--Has-de comprar-me umas luvas, sim, quero-as de sete botes...--

--Certamente; de menos  _chinfrim_...--concordava, muito convencido. E
brincando, n'um momento de _humour_, arrancou-lhe o livro.

--Ora que brincadeira tola!--disse estendendo os braos para o rehaver.--

--Ah,  tola, pois toma, vai buscal-o!... e n'um arremeo o livro voou
pelo quarto, indo parar proximo da cama.

Ermelinda levantou-se pallida, muito sria, a sua vaidade ferida. Uma
lagrima rolou-lhe por entre as pestanas.

--Grosseiro--murmurou sem que elle ouvisse, e foi buscar o livro,
sentando-se de novo, as costas voltadas, a vista divagando sobre a mesma
pagina.

Mas a Joaquina chamara para o jantar, e os dous sahiram do quarto, a
physionomia contrahida, carrancudos, intransigentes na sua seriedade. O
jantar correu rapidamente, friamente, sem trocarem uma palavra; o Jorge
sentia um desconforto glacial penetral-o, abafando a necessidade de
palestras expansivas, coarctando-o, pesando sobre elle como uma
atmosphera de chumbo.

Ermelinda apenas tocava nos pratos; comia pouco, um phrenesi colerico,
atirando as travessas, servindo-se ella mesmo antes que o Alberto
tivesse o constrangimento de servil-a.

A Joaquina pensava:

--Esto de trombas, os pombinhos!...

O Alberto bebia mais que o costume; umas libaes longas, demoradas,
esvasiando o copo d'uma s vez, e no fim um contrahir de face, um morder
incisivo do labio, a mo tocando mecanicamente as guias do bigode, e um
relancear de olhos para Ermelinda, furtivo, instantaneo, com uma
scintillao de colera concentrada.

O Jorge no podia mais.

--Parece que estamos na semana santa, credo, fallem para ahi...--e
experimentava uma conversa, um caso do dia, uma anedocta, que morria
logo, amortecendo-se aos monossylabos d'Alberto, o unico que ainda lhe
respondia.

Ermelinda sentia-se contrariada, indisposta, uma raivasinha secreta,
amargurando-a, com engulhos de lagrimas; levantou-se, uma grande
necessidade de chorar, de estar s, de se julgar infeliz. E ao passar
pela Joaquina, o leno enxugava-lhe os olhos, que se avermelhavam, n'uma
cr injectada de desesperos, humedecendo-se.

--Oh, menina, pois vale l a pena chorar, quem  que no tem os seus
arrufos; isso d'aqui a pouco j no  nada--consolou-a, muito
ternamente, uma caricia de velha criada, que a trouxera ao collo.--

Mas ella aspera, cortante:

--Sabe que mais, metta-se com a sua vida--e desceu a escada,
dirigindo-se para o quarto.

A Joaquina ficou de p, assombrada, uma estupidez idiota na physionomia,
entalada, como se sentisse um spasmo no esophago; e depois, com as
lagrimas a bailarem-lhe nos olhos:

-- bem feito, grandissima burra, no lhe ganhasses tanta amizade.--

No seu quarto, Ermelinda desatou n'um largo choro.

--Era uma infeliz, uma desilludida... ah, quanto mais no valia o ter
ficado solteira--

e assombreava com negro colorido o quadro da sua existencia, n'um
appello  desgraa, ao infortunio; mas depois procurava consolar-se,
desentranhava-se em affagos para comsigo mesmo, procurando esquecer, no
fazer caso; e as palavras da Joaquina soavam-lhe ainda aos ouvidos,
tornando-a reflexiva.

--Sim, era crueldade, quem  que no tinha os seus arrufos.--

Esta palavra sensibilisava-a, dando-lhe ainda um perfume gentil de
namorada, imaginando-se requestada por elle, muito estremecida.

--Foi o melhor tempo--suspirou.--

E a reminiscencia recordava-lhe essas horas do passado, aquelles
enthusiasmos apaixonados d'elle, a _verve_ cheia de fogo, a calcinao
ardente da palavra.

--Oh, quanto a realidade era differente!... E o noivado, ah! o seu
noivado!...

Uma recordao doce se lhe entornava na alma, perfumando-a, n'uma
briedade feliz. Via o Alberto a seus ps, timido, como uma creana,
segredando-lhe pedidos d'uma volupia embriagante, muito submisso,
dizendo-lhe baixinho:--Adoro-te--; e a esta evocao to acariciadora,
quente como um arfar da atmosphera no estio, deixava cerrar os olhos,
esquecendo o motivo de toda a sua colera e transportando-se com elle ao
ceu da sua idealidade; assim disposta achava encantador--que elle viesse
muito humilde, pedir-lhe o beijo do perdo, affagal-a n'uma
reconciliao harmoniosa.

--No lhe resistiria, no; mas tambem no queria ser a primeira a
quebrar--dizia, ainda com resaibos da offensa recebida, entumecendo-se
n'um grande orgulho de si propria.

O Alberto desceu; viu-a sentada na cadeira, a mo sustentando o queixo
redondinho. Escovou ligeiramente o fato, poz o chapeu na cabea,
principiou a calar as luvas. Ermelinda teve um pensamento de ciume.

--E se elle fosse procurar outra! oh, no, que ideia.

N'este momento o Alberto preparava-se para sahir; mas no veiu como de
costume poisar-lhe um beijo na testa.

--At logo--disse bruscamente.

Levantou-se, embargou-lhe a passagem.

--Tu onde vais?

--A ti que te importa?

--Que me importa!... Vamos, no sejas mau--disse timidamente, confusa
por ser ella a primeira a pedir, envergonhada de si, mas o pensamento
queimado ainda por aquella ideia ultima que a assaltava; e tirando-lhe o
chapeu, n'uma _moue_ engraada, o corpo quebrando-se n'uma gentileza
voluptuosa, a sorrir-se:

--No te deixo ir, tira as luvas, sim, vais logo...

--Creancices--volveu, encolhendo os hombros, e tirou as luvas, sentando-se.

--Aqui me tens!--bruscamente.

Sentou-se-lhe nos joelhos, balouando-se, fingindo que cahia, forando-o
a amparal-a nos seus braos, provocante, roando-lhe ao de leve o rosto
pelos seus labios.

O Alberto cedeu; deu-lhe o primeiro beijo, e logo outros, o sangue
excitado, uma pontinha d'alcool na circulao.

N'aquella tarde no sahiu de casa.


X

A modista trouxera-lhe o chapeu, um modelo de Pariz, d'uma plumagem
finissima, poisando maciamente na cr granada do velludo;
collocara-se em frente do espelho, experimentando-o, vendo-o se lhe
ficava bem, meneando-se, apanhando a maior poro da lamina.

--Era um primor, realmente, mas tinha que elevar um pouco mais o
penteado, assentaria melhor--

e voltava-o de vagar, com uma admirao insaciada, tocando delicadamente
nas petalas assetinadas da flor, antegosando a inveja que aquillo
causaria s suas amigas.

-- j de senhora cazada--dizia, n'uma distinco frivola de _toilette_,
applaudindo-se por este conhecimento, por esta grande noo de
differenciao de estados, baseada no vestido--que muitas no tinham,
umas ignorantes, trazendo os _myosotis_ por exemplo, que s so dados s
meninas solteiras, e outras cousas mais,--umas minuciosidades futeis,
que a enchiam de vaidade,

--E depois dizia muito bem com o vestido, oh, muito bem!

Era um vestido de _faille_ plumbagineo, a _traine_ de velludo, umas rendas
caras, que M.me Sellier's mandara de proposito vir de Pariz, um talhe
elegante, que lhe devia realar a formosura. Abriu o guarda-vestidos,
admirando-o ainda uma vez em toda a extenso fluctuante das suas rugas,
pendente do cabide, na macia suavidade da cr, no matiz nevado das
preciosas rendas.

--E agora que j tinha o chapeu, no era possivel adiar mais tempo;
iriam fazer as suas visitas de casamento.

Alugaram um trem, um _coup_ do Marques, de molas doces,
acolchoado, elegante, confortavel, d'um estofo assetinado.

--Ah, como seria bom ter um trem--pensava--reclinar-se languidamente nas
suas almofadas, correr nas brancas fitas do mac-adam ao som estrepitoso
dos grandes cavallos normandos, os lacaios flamantes, de compridos
casaces, com largos botes chapeados.

--Como eram felizes os ricos--e revoltava-se contra essa desigualdade de
fortunas, n'um impeto socialista, figurando-se-lhe uma injustia a falta
d'aquelles sumptuosos contactos do luxo.

Mas o trem havia parado  porta do Mendes. Era a primeira visita. O
cocheiro desceu, tocando violentamente a campainha.

Uns beijos cantadinhos se trocaram,--muitos parabens, estava at mais
bonita, um poucochinho gorda; ah, agora  que era gozar.--

--Certamente, D. Carola, em quanto a gente  moa.--

--Pois no, Snr. Alberto, depois se vem os filhos e isso  sempre o mais
certo.--E voltando-se para Ermelinda:

--Onde mandaste fazer o vestido, menina?

--Na Sellier's; um poucochito caro...--regosijava-se por ter sido
notada, quebrando-as de inveja.

--Eu bem digo  mam, que se tire de costureiras baratas,  mesmo uma
zanga, nunca as cousas ficam em termos; o que se ha-de dar ao rato...

--Devagar, menina, devagar, a economia...

--Ora, grandes economias!...--atalhava.

O Alberto afastara-se um pouco; olhava o jardim, esperando, com um ar
passivo, de marido obediente.

Palraram muito.

Fallaram das modistas, dos chapeus, do theatro. A conversao cahiu no
baile que o Bernardo ia dar para festejar os annos do cazamento.

--Melhor, tivesse juizo, aqui para ns, olha agora a doida! Elle!...
sempre ha homens que se varreram de juizo!--

A Ermelinda sentiu-se um pouco afogueada; sabia vagamente d'uma aventura
com o Alberto, que a Amelinha Bastos lhe tinha narrado.

--Mas emfim, era ainda solteiro, adeus! a tola fra
ella--desculpava-o--e criticavam o Bernardo.

--Bom estomago! havia de ser o Mendes.

--E o Alberto, no lhe digo nada, ciumento ali chegou!

Mas o Alberto interveiu:

--que era tarde, ainda tinham de ir a outras partes; sentia ter de
cortar to deliciosos momentos.--

--To poucochinho tempo.--

--Para outra vez seria mais: era uma via-sacra a percorrer.--

--Ento venham jantar um dia.

--Desde j agradeciam, e viriam, viriam, era-lhes muito agradavel a
companhia da _madrinha_ e da D. Adelaidinha.--

--E depois--recordou Ermelinda um pouco afogueada--a gente lembra-se com
saudade d'esta sala...

--Ai,  verdade, fra ali que principiara o namoro; pois viessem,
viessem, era mais uma razo...

Despediram-se; novos beijos, um _shake-hands_ ceremonioso do Alberto, os
seus respeitos ao amigo Mendes.

Me e filha acompanharam; ficaram-os olhando do alto da escada, umas
mezuras com a cabea, uns adeusinhos agitados.

--Que luxo ein, onde iria aquillo parar.

--S o chapeu, mam.

--Bem diz o teu pap; ai, banco, banco!

Sentia-se o _coup_ rodar na calada.

Visitaram a Amelinha Bastos, a D. Gabriella. Chegou a vez  D. Clementina.

Encontraram-a a acariciar o seu Tt, o seu amor felpudinho, que
principiou a grunir, n'uma revolta sorna, por ver que os estranhos lhe
vinham roubar as caricias da sua amiga. Chegou at a accommeter o
Alberto, n'uma grande indignao ciumenta. Mas ella amansou-o explicando:

--que o Tt tinha realmente ciumes, era um verdadeiro tigre.--

E batendo umas palmadinhas amigaveis em Ermelinda:

--Ento como se d a minha menina com o seu novo estado?

--Bem, D. Clementina, muito bem.--

--Podera no; elle ha l melhor vidinha!--suspirava--e depois quando se
tem um marido novo, elegante...

--Oh, D. Clementina, eu passo a ter ciumes...

--Ai, filha, no, isso no...--riram ambas, um cascalhar timbrado, a
brancura dos dentes a desfiar pelo carmezim dos labios.

--E muito linda, muito linda!...

O Alberto interveiu, uma graa de galanteria...

--No m'a encha de vaidade; Vocencia deve saber por experiencia propria,
que a formosura das mulheres  o inferno dos homens...--

--Ora, nem diga isso!  o paraizo, o paraizo d'elles! Os senhores so
uns mal agradecidos.--

Mirava-lhe o chapeu, o vestido; calculava o preo da fazenda, das
guarnies, da pluma, das flores.

--Um dinheiro--pensava--isto assim ho-de dal-as frescas--e
regosijava-se j d'um mal futuro, elogiando-se as proprias qualidades
economicas, n'uma ferocidade ciumenta de solteirona.

--Trazes um chapeu _chic_;  modelo, menina?

--que sim, que era--e no fra caro.--

--Ento?

--Quatro libras!...

--Ah, quatro libras, no era caro, no!--e pensava que por aquelle preo
se podiam ter dous chapeus bons, uma desgovernada--no, no tinha
duvida, por aquelle andar a herana da tal tia em breve se lhe havia de
ver o fim.

Despediram-se.

--Ainda tinham de ir a casa do Dr. Roberto, morava longe, na Foz, em
Carreiros, uma boa hora.--

--Isso decerto, menina; e depois s para aturarem aquelle _carapau_
inglez--chacoteou.--

--Oh, D. Clementina,  do meu parecer--acudiu Ermelinda--o Alberto que
no, que no, mas eu embirro com aquella cara, um ar seraphico, de
mestra de meninas.--

--Mas no tens razo, Lili-- uma boa creatura, um pouco excentrica
talvez, ingleza, isso comprehendia-se.--

--Ai, deixe l, Snr. Alberto, gente que se no entende, que falla uma
algaravia...--

-- a sua lingua, o seu idioma.--

--Pois sim, no digo menos d'isso; mas estou com a D. Ermelinda, no
engrao com a tal ingleza, que chama  gente _senhorra... senhorra!_
ora que desconchavo!...

--Nem sei como o Dr. se namorou d'aquillo! Elle ha gostos!...--

--Pois vivem muito bem, um casal modelo...--

Ermelinda replicou:

--bem se fiava n'essas; haviam de ter as suas, todos as tinham--

E passavam-lhe pela mente as questinculas futeis, que to frequentemente
se levantavam agora entre os dous, enevoando-lhes o sol da harmonia,
distanciando-os em espirito, desatando-lhes a alma n'um relaxamento
indifferentista.

Disseram-se adeus; beijocaram-se, o Alberto um grave aperto de mo. O
Tt impacientava-se, um rosnar regougado, at que sentiu em baixo bater
a porta da campainha, e viu a D. Clementina sentar-se no soph,
saltitando ento, satisfeito, o nariz afilado, procurando o calor das
saias, muito cadongueiro, uns latidos meigos.

Ficava o mar em frente. Um sussurro monotono, cheio de casta poesia, a
alma do gigante a segredar queixumes, beijando a praia com um amor
voluptuoso, em beijos nevados, de espumosa prata; e abrindo sobre o
largo as janellas da casa do Doutor, a namorarem a luz, a perfumarem-se
das emanaes iodadas das plantas marinhas, rasgadas ao alto, umas
cortinas de cassa a toucarem-as pudicamente.

Appareceu-lhes Bertha,

--vinha da cosinha, tinha ido ella mesmo preparar o _plum-pudding_, o
seu Roberto gostava muito, era doudo por aquillo.--

--E o Doutor, bom, de saude?...

--Ainda na cidade; olhe, vem s quatro horas, trabalha muito, coitado;
por ora vivemos aqui,  longe, mas  mais economico; e talvez vivamos
sempre,  to saudavel este ar...--

--Mas devia ser insipido n'aquella quadra,--ella, Ermelinda, s gostava
da Foz no tempo de banhos, havia convivencia, bailes; as manhs da
praia, as tardes de musica no Passeio Alegre...

O Alberto apoiava:

--Sim, devia ser realmente insipido.--

--Pois, olhe, no nos aborrecemos; at gostamos mais d'esta quadra,
vivemos mais um para o outro;  tarde o Roberto vem canado, fatigado,
janta bem, e vamos passeiar, duas creanas s vezes, a liberdade
solitaria da praia... era muito lindo, deveria gostar...--

--No, no, Deus a livrasse de tal; e como passava as noites, aquellas
noites longas de inverno, sem theatros, sem partidas...

--Temos as nossas partidas--volveu sorrindo Bertha,--fazemos musica os
dous; o meu Roberto  um artista, toca violino, eu acompanho-o ao piano,
a musica  uma boa distraco, no deixa a gente aborrecer-se; so uns
bons companheiros, Mendelssohn, Mozart, Meyerbeer,...

--Mas sempre musica, realmente!... eu tambem toco, mas, confesso-lhe, s
vezes aborreo-me; a gente nem sempre est com disposio.

--Tem razo,  verdade, mas olhe, ento variamos; lemos juntos, eu gosto
muito de Elliot, de Michelet, de Taine, e de Dichens, que  o romancista
da minha patria; e s vezes quando a leitura nos no distrahe, e que a
nossa alma precisa como que receber um bocado d'essa onda de
sociabilidade, vamos ao theatro tambem, no nos julgue mysantropos; o
Roberto s vezes no quer ir, diz-me que no; mas eu conheo-o, ns as
mulheres lemos bem no pensamento d'estes senhores; no  depois que
apparea o tdio que eu devo distrahil-o,  em antes, que eu devo fazer
com que no haja tempo de formar-se; e no se frma, assim, tenha a
certeza!--

A physionomia de Bertha illuminava-se-lhe docemente espelhando a luz da
sua consciencia limpida, crystalina, que fazia d'aquelle amor uma
religio; era branca, da brancura nevada das filhas do Norte, o olhar
azul meigo, como uma ambrozia; a face rosada, d'um colorido de saude; a
gracil agilidade das _miss_, uma insinuao que attrahia, que fazia
estar bem junto d'ella.

Tinha uma actividade de _spinster_, pondo em tudo um conforto macio, um
aconchego carinhoso, alegre, limpando ella mesmo a sua salinha, o
seu gabinete, vigiando a sua casinha, confeccionando pelas suas proprias
mos o prato favorito de Roberto, que vinha s tardes, do Porto, o
espirito fatigado, um desgosto de clinica, um doente que lhe morrera,
apesar de todos os esforos,--mas que ao vel-a toda branca no seu roupo
claro, offerecendo-lhe a face e o jantar, esquecia tudo, espreguiava-se
na sua indolencia de senhor e at

--nem tinha vontade de sahir de casa--dizia,

Ermelinda sentia a seu pezar o influxo d'aquella honestidade s e boa, e
as palavras de Bertha, enchiam-a d'uma claridade intima, que ella
procurava assombrear com a tinta escura do seu ideal corrompido.
Amesquinhava-a, deprimia, pensava em que tudo aquillo podia muito bem
ser uma mentira, uma falsidade..

Mas a protestar contra estas ideias de vileza os objectos mudos pareciam
levantar-se na sua simplicidade de coordenao e bom gosto. Os moveis,
os albuns, os quadros, as musicas, as cortinas de cassa das janellas, as
begonias opulentas nos seus vasos de dez tostes, o cho encerado das
escadas, os metaes das portas polidos como espelhos, tudo revelava um
gosto de aceio, uma alegria de suaves expanses, uma intelligencia
curiosa e activa,

--que ella no podia deixar de reconhecer a final--

--Mas no era ella, no, aquella magra loirinha, que fazia aquelle
milagre; oh,  por que tinha um bom marido, isso sim!--e comparava-o
Alberto com o Doutor, fazendo-lhe a saliencia dos defeitos, dos
vicios que todos os dias se iam revelando com um impudor cynico--

--oh, tivera ella um marido como o outro e veriamos--e o seu espirito
divorciava-se lentamente do espirito do seu esposo, accusando-o de
grosseiro e hypocrita, de menos cavalheiresco, de no ter a fina
comprehenso dos sentimentos delicados do corao feminil.

Isto enchia-a d'uma certa inveja para com Bertha, amesquinhava-lhe a
belleza physica, chamava-lhe uma

--cotovia magra, um carapau de Inglaterra.--

--Ai, a D. Clementina  que a definira bem.--

Bertha offereceu-lhes um calice do Porto, um pequeno _lunch_; estavam na
praia, no fossem ceremoniosos.--

--No, no acceitavam; tirava-lhes a vontade de jantar; e eram horas,
desculpasse a massada.--

--Nenhuma, absolutamente nenhuma: gosto de os vr felizes; to felizes
como ella o era com o seu Roberto--

Abria-lhe um sorriso jovial, d'uma cordealidade doce, e

--offerecia-lhe a sua casa, viessem uma vez ou outra, nos dias santos,
quando a cidade os enfastiasse; seriam sempre bem vindos; o Roberto
lamentaria no lhes ter fallado.--

Ermelinda sentiu um calor mordente, quando Bertha lhe poz um beijo na
face, despedindo-se, e roou ao de leve, muito ao de leve, os seus
labios no rosto branco da ingleza.

E j no carro, quando a Foz ia desapparecendo com o silencio das casas
inhabitadas e o sussurro eterno do seu mar,

--Estar ali a felicidade realmente?--perguntava-se, a imaginao
mergulhando como n'um crepusculo cr de rosa e ouro, e vendo-se querida
do eleito do seu corao, uma existencia suave e tranquilla, a claridade
intima no espirito, o sorriso bom nos labios, dous companheiros leaes
caminhando na montanha da vida, um ao lado do outro, elle protegendo-a
com a sua fora, ella renovando-o com a sua graa, indifferentes para o
mundo, para esse mundo egoista, que os envenenava com as suas seduces
e os despresava com os seus escarneos.

Ia calada, a phantasia acariciada n'este bello sonho, os olhos
acompanhando vagamente a corrente esverdeada do Douro, que descia,
banhando as casarias brancas da Aforada, espelhando o cotovello saliente
da montanha, as fabricas do Andersen, a verdura matizada de Santo
Antonio de Val-Piedade, e depois toda Villa Nova cortando a luz com as
irregularidades dos seus edificios, a linha escura dos pinheiraes ao
longe, orlando o horisonte vasto.

O trem subia vagarosamente a _Restaurao_; harmonias de banda
regimental cahiam lentamente, ondas apagadas d'uma sonoridade distante.

--Musica na Cordoaria! E se fossemos para l um bocadito, Lili!--

--Como quizeres!

--So duas e meia;  cedo ainda para o jantar!...

--Vamos l, sim, manda parar ento.

Apeiaram-se; burguezes espanejavam ao sol a sua obesidade preguiosa,
_dandys_ com camelias na botoeira, damas todas encolhidas no regalo
quente das suas pelles, _cocottes_ com vestidos mirabolantes, estudantes
de medicina pondo uma vaidade espectaculosa nas suas pastas amarellas,
de fitas vermelhas fluctuando, militares alisando as fardas com luvas de
camura, todo um publico pacato, passeiando com um methodo ordeiro na
grande alea, acotovellando os _mirones_ que paravam em frente do coreto,
para no perderem o gesto largo da batuta do regente e as notas que se
rebolavam com uma liberdade mal educada por sobre os ramos esguios do
arvoredo, creanas saltando em redor do lago na admirao curiosa dos
habitos dos cysnes, brazileiros aposentados que occupavam
pachorrentamente as cadeiras do Asylo, um ou outro municipal em vadiagem
destacando-se com o colorido escarlate dos vivos da farda e das chapas
reluzentes do metal das agulhetas.

--Muita gente, hoje!

--Sim, muita gente.

Deram o brao, cadenceando o passo no rythmo da musica, cumprimentando
pessoas conhecidas, umas cortezias elegantes, de affectao estudada.

A orchestra batia valentemente a grande marcha da Aida; a voz perdia-se
na sonoridade dos instrumentos.

Caminhavam juntos, uma vaidade de se verem moos e admirados, Ermelinda
arrojando aos olhos das outras, que passeavam, a sua _toilette_
formosa, o seu chapeu _modelo_ de finissimas flores; e elle a luva
correctamente calada, a guia do bigode n'uma curva de artista, atirando
ao publico com a formosura da sua Lili; toda elegante com o seu vestido
de _traine_ de velludo, invejada, seguida pelo olhar cubioso dos
_dandys_ que o cumprimentavam, dos estudantes que ao vel-a passar
prorompiam n'um cortejo de gulosas interjeies admiraveis.

Iam e vinham na grande alea povoada, encarando sempre em frente com a
massa granitica do hospital da Misericordia, d'uma architectura pesada e
d'um sumptuoso imponente, o trem esperando-os  porta do jardim.

--Estava j cansada--dizia--a bota do p esquerdo apertava-a um pouco.--

O jardim despovoava-se; a musica cessara; tres horas nos Clerigos
lembrando as necessidades physiologicas do estomago.

Chegaram a casa moidos, um pouco fatigados. A toilette incommodava-os,
um desejo violento de se despirem, de se prem  larga.

E Ermelinda depoz o vestido sobre a cama, o chapeu n'uma cadeira,
despenteou-se, os cabellos cahindo n'um desleixo emmaranhado, o corpo
mettido n'um penteador um pouco surrado, os ps n'uns sapatinhos commodos.

--Estava  sua vontade, emfim--e subiu  sala de jantar, um grande
appetite, palradeira, comendo gulosamente azeitonas antes de principiar
o jantar.

O Jorge interveio:

--que lhe faziam mal, que era uma creancice.

--Antes isto do que o tal _lunch_ de Carreiros, ein, Alberto--gargalhou.

--Sim, antes isso--e comia devoradoramente, pouco expansivo, o pescoo
curvo sobre o prato de sopa, bebendo de espao a espao, o guardanapo
limpando os cantos da bocca.

--Ento foram tambem a Carreiros?

--Fomos, podra!

--E o Doutor, o sympathico Doutor?--interrogava.--

--No estava l!--

Ficou muda, um pensamento fugitivo, associando-se quella adjectivao,
com que o pae mimoseava Roberto, a imaginao alvoroada, uma comparao
desfavoravel para o seu marido, que agora sem os atavios da elegancia,
um casaco usado, com a gola voltada, encobrindo a auzencia dos
collarinhos,--muito comilo.--

--E se ns fossemos hoje ao S. Joo?--

--Vai a Lucia, creio eu.--

--Ai, a Lucia, quero ir ento; e se houver enchente!... o melhor era o
pap ir j comprar o camarote...

--Pois sim, eu vou,--e saboreava de vagar a ultima sobremeza, muito
guloso, o crme esfiando-se pelos bordos da pequena colher.

--A Joaquina fez hoje isto bem--elogiou.

--O que succede raras vezes--acudiu o Alberto.

--No, vamos l, no estamos mal servidos.

--Rles, simplesmente; o _ram-ram_ sabido, nem um prato novo; no ha
como a cosinha franceza!

--Eu c por mim detesto-a,--obtemperou o Jorge--uns nomes pomposos, uma
_homard  la russe_, uma _timbale d'ecrevisses_, um _foie aux
champignons_, etc., etc., tudo uns bonitinhos e a final a barriga vasia.--

Alberto encolheu os hombros, um ar de superioridade, achando pulha
aquella critica da cosinha franceza, feita pelo sogro.

Veio o caf. Ermelinda bebia aos pequeninos sorvos, o corpo recostado na
cadeira, a manga do penteador descia mostrando uma redondeza pennugenta
de brao.

--Levantaram-se.

--Ia comprar o camarote; elle no voltaria, l os esperava no trio, s
oito e meia, no fossem tarde.--

--Para o anno havemos de ter assignatura, sim, Alberto?

--Certamente; no se pde viver no _hig-life_ sem isso;  mesmo
indispensavel, chamar-nos-iam pelintras, uns sovinas.--

--Oh, havemos de ter, fica j combinado...

E passou-lhe o brao no hombro, amorosamente, um agradecimento quella
acquiescencia de bom tom, esquecendo as desharmonias que se tinham
manifestado, os seus aborrecimentos, a comprehenso do ideal que o
separava d'elle.

Entraram no quarto, estendeu-se languidamente na poltrona, a circulao
quente do jantar, a imaginao antegosando o prazer da noite de theatro, as
plateias curiosas assestando os binoculos para os camarotes, os penteados,
as toilettes do _hig-life_ e tudo aquillo n'um ambiente callido, de luzes
scintillantes, a musica e o canto espreguiando-se na atmosphera quente.

--Ento, menina, no tratas de te pentear, vo sendo horas...

--J!... ainda to cedo!... estou com uma preguia... Vou mandar chamar
a penteadeira.--Se eu soubesse, antes iamos manh...

--Ora... que creancice...

Fazia esforos para se levantar, o corpo quebrado, n'uma mollesa
flacida, a nudez dos braos retesando-se sobre a cadeira.

--S se tu me tirares d'aqui...--

Elle veio, tomou-a pelas mos, fez um esforo, pl-a rapidamente de p;
o penteador desabotoou-se, deixando ver uma renda de camisa poisando
sobre o assetinado do seio,

--Oh, que desastrado!--sorriu-se--e se eu cahir outra vez!--E atirou-se
sobre a poltrona, o corpo n'uma curva provocante, contente da sua
semi-nudez.

      *      *      *      *      *

Muita gente no theatro. A illuminao ainda a meio gaz, um poucochinho
cedo, mas logo os violinos principiaram em afinao, uns gemidos rapidos
esfiando-se delgadamente no ambito livre, e a luz scintillou, como um
leque aberto, avivando as cores mirabolantes dos vestidos, o polido dos
penteados, a seda lustrada dos chapeus altos. Senhoras entravam para os
camarotes, accomodando-se na frente, uma grande ostentao de _toilette_
para recompensar a incomprehenso da opera:

--Pouca gente conhecida;--e assestava o binoculo movendo-o em
differentes direces, a manga do vestido descobrindo o canho da luva
_gris-perle_ de sete botes.

--Ai o commendador, o padrinho!--

--Aonde?

--Ali, na superior, olha...

L estava realmente, recostado, uma grande abstraco do meio, a suissa
recortando a brancura do collarinho, os oculos d'ouro reflectindo
scintillaes irisadas de luz.--

--No entendia nada do lyrico, antes os cavallinhos, as operetas; mas
era moda; precisava a gente impor o seu bocado, chamar-lhe-iam urso.--

Ermelinda inclinava o corpo, uma agitao inquieta, um desejo de ser
notada, cumprimentada. O Carvalhinho ao vel-a fizera descrever ao seu
chapeu uma curva graciosa, muito reverenciadora; e logo o Luiz Serra e o
Juca Mendes, e os amigos do Alberto, os _dandys_ que estacionavam pela
superior.

O commendador voltara-se tambem por sua vez; um sorriso amavel,
luminosas facetaes de brilhantes no peitilho da camisa.

Regosijava-se. O Alberto mesmo sentia-se jubiloso em reflectir sobre
ella as saudaes dos seus conhecidos, dando-se um ar de importancia, de
popularidade, no seio do _hig-life_.

Um camarote abriu-se; uma mulher entrou, uma grande frescura de
mocidade, o assetinado do _poudre de riz_, amaciando a cr trigueira das
faces. Vinha s; um vestido elegante, de _faille preto_, guarnies de
setim, o decote aberto n'um impudor provocante, o cabello negro
frisado, uma risca rosada separando dous bands reluzentes. Brilhantes
nas orelhas, irisando a luz, e um olhar quebrado, na doura amortecida
d'uns cilios negros, tendo s vezes umas ironias relampejantes, d'um
cynismo deshonesto.

Poisou o binoculo no rebordo do camarote, a luva branca de canho
comprido, a enroscar-se n'uma pulseira d'ouro, o leque n'uma agitao
lenta.

--Quem  aquella, Alberto?

Olhou na direco indicada; fez-se vermelho, um rubor de collegial
apanhado em flagrante, e para disfarar:

--No sei, no conheo! Ora deixa ver o binoculo.--

O pano subia, a atteno de Ermelinda desviou-se para a scena;
appareciam umas arvores seculares, o _baixo_ cantando uma cano
monotona, e logo depois o tenor, um typo gordo, umas notas desafinadas
que a plateia recebeu com murmurios de censura.

Mas elle, no desfitando o binoculo, o espirito preso a uma corrente de
ideias bem diversas d'aquelle meio, absorvendo aquella mulher atravez
das lentes, fazendo uma analyse demorada de todos os seus encantos e de
toda a sua toillette, um prazer voluptuoso em sentir-se attrahido:

--Mas  a Annita, no tem que ver!... que luxo!... onde iria ella
apanhar o _pato_! E mais bonita, sim, mais bonita! At mais gorda; eu
bem o previa, que a gordura havia de a aformosear!--

E recordava as suas convivencias passadas, a atmosphera quente de
bordel onde a conhecera, a sua _inclinao_, aquellas ceias em que
bebiam _champagne_ e adormeciam brios nos braos um do outro, os
requintes de lubricidade, em que se juravam amor

--e a pequena, que faria ella da pequena?--

Esquecia-se de que tinha Ermelinda junto de si, a imaginao
engolphinhando-se nas anfractuosidades do seu passado, a scena ultima,
sobretudo--aquella scena que os tornara talvez irreconciliaveis para
sempre.--

--Mas o _pato_, o _pato_, quem seria!--havia de sabel-o e d'ahi quem
adivinhara, talvez que ella ainda lhe tivesse alguma dedicao.--

O pano cahiu. Uma pateada  ultima area do tenor.--

--Ia fumar um pouco, vinha j, se ella queria tomar alguma cousa--

--no, no, pdes ir,--e vendo ainda aquella mulher no camarote fronteiro

--Ento conheceste-a?

--Nada, no--e sahiu rapidamente, o espirito alvoroado, intrigado por
colher informaes exactas, que o illucidassem, muitos pormenores.

Fumava-se nos corredores, apertos de mo, criticas  empreza,  opera,
aos artistas.

--Uma pepineira--dizia o Luiz Serra no seu calo de botequim.--

-- para a frente, rapazes, pateada a valer, ha-de ficar a noite memoranda.

--No vale tudo os quatro contos do subsidio.--

--E querem publico as senhoras emprezas, pois no! para apresentarem
esta chinfrinada.

O Alberto entrou no grupo.

--Ento, rapazes!

--Homem, caes da lua...

--Mas j no  da lua de mel, que elle cae, aposto!

--Explica-te.

--Vejo a Annita n'um luxo asiatico, aquillo  teu, ein, Alberto?

--No, jurava que no, e at gostava de saber quem era o _pato_.--

--Pois pensavamos que fosses tu.--

--Eu sim, descartei-me a tempo d'aquillo--respondeu com um certo desdem.

--Pois est magnifica e de mais a mais pouco accessivel.--

--Conta l, menino!

--Um tigre, um monstro; passou outro dia no Suisso e voltou-nos as
costas como quem despreza os antigos conhecimentos.--

Grande risada.

--tinha graa, a final.--

A campainha tocava dentro; a orchestra principiava a desenrolar harmonias.

--Ao chinfrim, rapazes, ao chinfrim.--

Os espectadores entravam retardatariamente, n'uma linha obliqua,
caminhando de lado.

Os cros desafinavam o mais possivel, n'um compromisso funesto de
enterrar a partitura. Via-se o regente gesticular, n'uma agitao
febril, a batuta n'um voltear vertiginoso; um rumor surdo sahia das
torrinhas, prenuncios de tempestade na plateia.

--Vai ahi haver um chinfrim medonho--disse o Alberto no camarote.

--Se ns nos retirassemos!...

--Ora deixa-te de tolices, tinha graa perder o melhor do
espectaculo!--e voltou-lhe as costas, a vista medindo a fora numerica
dos pateantes, e a sua fora qualitativa.

Depois os olhos volviam-se-lhe obstinadamente para o camarote d'Annita;
tomava do binoculo observando-a ainda uma vez, approximando-a de si por
meio d'aquella illuso d'optica, o pensamento revolvendo-se no leito de
Procusta do seu passado.

--S... mas hei-de sabel-o,--murmurava--o Juca sabe tudo, elle ha-de
saber isto;  impossivel que o no saiba.--

Annita tinha-o visto logo ao chegar; um escandecimento de sangue
subira-lhe nas faces, um desejo instinctivo de o descompor, de lhe
chamar pulha, ali, naquelle mundo que o conhecia, em frente d'aquella
mulher que era d'elle, um escandalo enorme, de que todo o Porto falasse.

--Mas no, estava vingada; dava-o ao desprezo--e amollecia as suas iras
na comparao do seu bem estar actual, a vida facil correndo como um rio
de leite, os seus caprichos satisfeitos, um luxo que nunca conhecera,
brilhantes, toilettes caras.

E olhava de soslaio a mulher de Alberto, n'uma analyse curiosa e miuda,
averiguando da riqueza do seu vestido, comparando, desdenhando da
sua inferioridade em joias.

--E o Alberto seria feliz?--interrogava-se, sentindo a piedade dos
afortunados, um ar compassivo para desditas phantasiadas.

--Sempre era o pae de sua filha!... felizmente que a pequenita tinha
morrido--e uma nuvem de tristeza poisava sobre a sua imaginao,
escurecendo-lhe a claridade, como um cirrhus a um raio de luar. A
recordao porm era fugitiva, cedia  efflorescencia de novos
pensamentos que a occupavam.

--Parece que se no do l muito bem--observava--quasi sempre de costas
para ella!...

E quando via o binoculo de Alberto assestado para o seu camarote.

--Pois no meu lindo amor, ha-de ganhar muito com isso--e voltava-se
mais, o rosto desviado para o palco, a atteno obrigada a prender-se na
scena que se estava representando, o tenor pedindo perdo, com as suas
notas desafinadas,  prima-dona que tinha offendido com as suas
infedelidades.

--Ora, tanto entendo eu d'aquillo como de lagar d'azeite--e meneou o
corpo n'um coquetismo estudado, um sorriso levemente franzido nos seus
labios vermelhos, fazendo-o voar imperceptivelmente, como uma fina
essencia, para a plateia, a encontrar o commendador, que lhe
correspondia n'uma irradiao d'olhar entre satisfeita e ciumenta.

A pateada rebentou furiosa, uma grande tempestade; cadeiras rangiam e
viam-se _dandys_ n'uma tarefa ingloria, tentando quebrar os bancos,
assobiando, gesticulando com vehemencia. Fallava-se alto, disputas,
questes com os visinhos, uma balburdia, panno descido.

A _claque_ aventurou algumas palmas, mas logo a pateada recomeou e
gritos tumultuosos de

--Fra, fra--a policia interveio, desmaios nos camarotes, as familias
burguezas retiraram-se.

--Um grande horror quelles malcreados, que no deixavam gosar,--apesar
de que era bem cabida uma manifestao de desagrado--nunca se vira no
Porto uma companhia to rles.--

O Alberto tivera de ceder s instancias de Ermelinda; sahira, ia para
casa contra vontade,

--uma imbecil aquella sua mulher--mas emfim era preciso contemporisar um
pouco! o pae parecia j no andar muito satisfeito!--

--Que miseria, com os diabos! Antes a Annita, mil vezes a Annita--

e affagava o desejo de a encontrar, volver com ella quella vida
aventureira do passado, gosar, saciar-se brutalmente n'um desmando de
jejunalidade imposta e depennar, n'uma boa camaradagem, o _pato_ que
ella s depennava agora, despojando-o das suas pennas para se cobrir de
velludos e brilhantes.--


XI

O Jorge queixava-se, principiava a sentir um desequilibrio nas finanas da
casa; Ermelinda e Alberto tinham exigencias imprudentes.

--Um luxo por ahi alm--dizia a Joaquina--nem que fossem uns
principes--e depois c esto as costas largas! que poupe, que poupe;
d'aqui por diante nem carne se ha-de ver na panella, t'arrenego!--

Os noivos levavam uma vida ociosa, d'uma tranquilidade aerea. Ermelinda
queria vestidos caros, luxuosos,

--que podessem apparecer diante da baroneza de Lindoso, da mulher do
commendador Bernardo, das Castrinhos, das Cardosas, as suas novas amigas
do _hig-life_, com quem se encontrava no Palacio, no S. Joo.--

E eram despezas superfluas de trem, de presentes generosos, de noites
seguidas de theatro, de passeios, uma vertigem doce, um rodar
inexperiente no plano inclinado da economia.

O Alberto secundava-a; tinha da sua individualidade uma ideia balofa, um
desprezo das mediocridades, das coisas reles

--no podia realmente viver d'outra frma, ali, onde todos o conheciam,
onde elle tratava por tu toda a rapaziada elegante! no se tinha casado
para ser um burguez amarrado  bisca sueca, ou ao loto com as senhoras
visinhas! no faltava mais nada que agora o casamento o viesse privar da
liberdade dos seus gozos.--

O Jorge comeava a comprehender que fra talvez um erro aquelle
casamento; de dia para dia Alberto revelava-se irascivel, grosseiro,
indelicado para com Ermelinda, quando lhe no satisfaziam exigencias de
dinheiro.

Mandava a mulher ter com o pae

--que se arranjasse, no haviam de ficar em casa a morrer de aborrecimento.

Ermelinda procurava ser o lao de conciliao entre os dous; animava o
pae, nunca depois de casada tivera para com elle carcias to meigas.--

--Pois sim, filha, mas  necessario deitar contas  nossa vida; os
negocios vo mal, mesmo mal.--

--De hora em hora Deus melhora, pap.--

--Fia-te na virgem e no andes! Isto assim no tem geito, e olha, se
queres que te diga, se tivesse tanto de santo como tenho de arrependido...

--Mas agora que se lhe ha-de fazer, pap; em verdade tambem, est mesmo
um usurario, quer que a gente morra de tdio em casa!--

E convencia-o, subjugava-o com razes futeis, ditas graciosamente, a
promessa d'um beijo e perguntando-lhe a sorrir com uma candura de ingenua--

--Se tambem havia de ser assim mau para o seu netinho.--

Este ultimo argumento quebrava-lhe todas as energias, cedia logo

--que remedio! no havia de contrarial-a n'aquelle estado, podia
prejudicar a sua saude; no, coitadinha, ella no tinha culpa; mas
depois havia de pr cobro a isto, oh! se havia--

--mas a elle mesmo--considerava--no convinha cortar radicalmente por
todo aquelle superfluo de exteriorisaes; que diriam os outros, os seus
collegas, a praa, o commercio que o julgava com boas garantias de
capital... no, no se podia fazer a cousa assim de vez, era
preciso ir de vagar.--

e traava combinaes, adoptava um plano, um bom plano que o livrasse
d'aquelles apertos srios--tinha em vista uma grande especulao de
fundos, a cousa era certa, o capital do Banco figuraria e se houvesse
algum revez, soffresse quem soffresse.--

Estas ideias chamavam-o  realidade das suas occupaes; fra
distribuido o relatorio, propunha-se um bom dividendo, mas

--francamente a coisa no estava muito slida,--j at se rosnava um
pouco, mas emfim os accionistas pertenciam quella das bem-aventuranas,
que premeia com o reino do ceu,--o que elles queriam era bons
dividendos, e esses davam-se, a cousa havia de caminhar; a questo era
resolver aquelles embaraos da crise e depois ficava mais desaffogado.--

Associava-se-lhe a este ultimo pensamento o encargo das despezas do genro,

--um vadio afinal, nem mesmo confio j na tal herana; uma
mystificao!... mas agora  aguentar por honra da firma... podra,--e
lembrava-se de que seria talvez conveniente empregal-o, um lugar no
banco no podendo ser n'outra parte, tinha boa lettra, ajudante do
guarda-livros, uma pechincha; havia de lhe fallar.--

E quando estavam ao _dessert_ insinuou a ideia:

--que era preciso entreter-se, aquella vida enfastiava, o trabalho era
pouco, e depois murmurava-se, era mesmo conveniente...--

O Alberto ficou silencioso, partia a marmelada aos pequeninos
retalhos, uma distraco inconsciente de movimentos.

--A coisa no lhe desagradava realmente, chegava para charutos, o resto
viria,--e acariciava a ideia de especulaes estranhas, d'um arrojo
funambulesco que o fizessem rapidamente rico, que lhe dessem um trem
magnifico, cavallos de raa, um palacio luxuoso, de vastas escadarias de
marmore; o Banco seria o meio, o caminho de l chegar; sempre affagara o
pensamento de se introduzir n'uma d'aquellas machinas de numerario, onde
se rolam as cifras volumosas, como na roleta as moedas baratas; mas era
estupido estar ali preso, amarrado como um macaco; o trabalho
causava-lhe um tdio mortal.--E para o sogro:

--que havia de pensar n'isso, fallariam depois--e desceu para o seu quarto.

Ermelinda teve um bom impulso de o aconselhar,--

--faz-lhe a vontade, filho, faze; e depois  at mesmo bom, e tu
distrahes, o trabalho tambem entretem; e  uma garantia de futuro... tu
pensa...--disse-lhe baixo, o rosto affogueando-se n'um rubor honesto de
confisso custosa.

--Ahi vens tu com a tua tlha! ora adeus, d'aqui a l no nos da a
cabea; n'este mundo todos se arranjam.

--Mas as cousas levam-se de longe, menino...

--Vae prgar moral a outra freguezia; que tem que vr uma cousa com
outra? o que vier veio, acabou-se,  fome no hade morrer e se
morrer... era uma vez um anginho que voou ao ceu, pedirei ao Luiz
Serra que lhe faa um necrologio em verso.--

Ermelinda revoltava-se no seu sentimento de maternidade contra estas
rajadas que a feriam no ser que ella ainda desconhecia, mas que amava
j; achava pouco delicado o proceder d'Alberto para com ella, tinha
mesmo uma certa dr por vr que elle se no enchia de jubiloso alvoroo,
sabendo que ella em breve o faria pae; mas desculpava-o, tomava como
gracejo as suas palavras, e abrigava-se, como uma creana, na aza do seu
carinho, a imaginao a sonhar um futuro de delicias para o entesinho
que ia dever-lhe a vida, tendo exquisitices incoherentes, uma grande
volubilidade caprichosa.--

Alberto passeiava no quarto, passos largos, o pensamento concentrado na
proposta do Jorge.

--Era o unico meio de se salvar, no via outro; o dinheiro do jogo ia
dasapparecendo e depois... alm d'isso o arranjo no era de todo mau;
nem o deslustrava, l estava o Visconde da Ribeira no Mercantil... e
quem sabe; podia mesmo vir a ser o gerente do Banco; o sogro andava
acabrunhado, aquillo no ia longe...--

e sentando-se junto d'Ermelinda, uma caricia affectada para a sua
mulhersinha, batendo-lhe uma leve palmadinha nos joelhos:

--Acho que aceito, Lili; que dizes tu?

--Oh, filho, faze o que tu quizeres; mas eu digo-te que sim... olha, at
depois o pap no nos receber de to mau humor, quando quizermos alguma
cousa; v l tu, mas eu fazia-lhe a vontade, coitado, elle  to nosso
amigo...

--Hum! hum!... ha a distinguir!--

--No, Alberto, no, tu s injusto.--

--Bem, bem; fallemos n'outro assumpto; pois decido-me, fao-te a
vontade; v l,  preciso sacrificar um poucochito ao futuro... tu tens
razo, minha Lili...

--Obrigada--e tomou-lhe a testa, um beijo longo, muito carinhoso, como
um agradecimento evolado do intimo.

Sentia-se feliz n'aquelle instante; uma como fluctuao luminosa
palpitava dentro da sua alma de mulher, dando-lhe uma ebriedade suave;
tinha vontade de absorver dentro de si toda a personalidade do seu
Alberto, integrando-a n'um mesmo amor, com a do pequenino ser
mysterioso, que vivia no sanctuario das suas entranhas. Queria ella ser
o fco de irradiao fecunda para os dous, que se confundiam n'um s,
ser o carinho affectuoso, a consolao, a ambrozia que os ungisse na
mesma embrocao de felicidade.

--Porque no havia de ser sempre assim! para que se haviam de levantar
espinhos no jardim da sua existencia? como era bom amar sendo amada!...--

Nem quiz sahir n'aquelle dia; foi para a varanda que deitava sobre o
quintal, ver descer serenamente a tarde no ceu cr de rosa, deixando um
sorriso de saudade s franas das arvores, que matisavam, como grandes
nodoas, o alvor das casarias da cidade; e  noute quando a meia luz do
_abat-jour_ lhe deixou ver o Alberto a seu lado, repoltreado n'uma
cadeira de verga, pensou no seu tempo feliz de mulher solteira e
lembrou-se de Bertha, quellas horas ouvindo o sussurro eterno do
mar, ao lado do seu Roberto.

Communicaram ao Jorge a resoluo tomada,

--ainda bem, ainda bem--e jantou n'aquelle dia com mais appetite, a
satisfao de ver dissipar-se uma nuvem que pesava sobre o seu
espirito.--E  noute nos seus colloquios entre amorosos e confidenciaes
com a Joaquina:

--o rapaz indireitou-se, vamos l--

--Deus queira que elle tome tento na bola, Snr. Jorge.

--Ha-de tomar, ha-de tomar, c estou eu para o dirigir.--

Estava contente, uma claridade a illuminar-lhe a soturnidade do
pensamento, como um raio de sol na atmosphera humida d'um armazem
sombrio. Ha muito tempo j que a Joaquina o no vira d'aquella frma;
tornara-se mais rapaz, brincalho, dando-lhe umas palmadinhas sonoras no
quadril arredondado, tendo exigencias segredadas a que ella reagia,

--Ou elle, olha agora a lembrana.--

      *      *      *      *      *

Dous dias depois tinha de reunir-se a Assembleia geral do Banco; o Jorge
l estava com os seus collegas, prompto para a defeza, varios papeis
enrolados na mo, gravemente cintado na sua sobre-casaca preta.

Grupos de brazileiros e commerciantes questionavam; discutiam o
relatorio, o parecer do conselho fiscal.

O commendador l estava, os seus oculos d'ouro em refraces
caprichosas de luz, um pouco importante, conscio do seu peso monetario,
e da sua sciencia algarithmica.

Os brazileiros tinham-o como um corypheo da arithmetica.

--Entende de cifras como poucos, dizia-se--e depois este tem que perder,
no  para ahi nenhum barlavento; nome respeitado na praa,--

e rodeavam-o, procurando saber a sua opinio sobre o relatorio e contas
da direco, consultando-o como um oraculo,

--Que diz o commendador a esta embrulhada? eu por mim no sei o que quer
dizer esta verba--e apontavam-lhe uma parcella a figurar no Passivo, que
no harmonisava com o Activo--

--uma coisa inexplicavel, que ninguem era capaz de comprehender.--

O Mendes apostrophava--

--Macacos mi mordam si eu entendo isto.--

O commendador dizia prudentemente, com receio de _raia_:

--Elles explicaro logo isso, ein;  pedir a palavra e fallar... mas me
no parece que o Banco v mal; oito por cento de dividendo, ein; no
pde dizer-se mau negocio.--

--L isso  verdade, vo elles dando e o diabo que os entenda--aventurou
um bacalhoeiro da rua de S. Joo.

--No  tanto assim, Snr. Araujo; se querem as cousas claras; no Rio se
no v um relatorio por esta frma.--

--Isto as cousas c mudam de figura, meu caro senhor.--

--Qual figura, nem qual carapua; no ha l banco que no tenha sua
escripturao em dia.--

--Isso tambem c, meu rico senhor.

--Me diz aonde, se faz favor? tudo uma embrulhada; quer que lhe diga eu
ao senhor aqui em particular, tudo isto  uma capiranga e ai de nossos
capitaes! Se faz politica, aqui, em todos os estabelecimentos bancarios.--

--Isso me diga o senhor,--

e o bacalhoeiro lembrava-se, que elle j tinha recorrido ao credito
n'uns embaraos srios, fazendo pezar a sua influencia eleitoral.

A campainha da presidencia vibrou pela sala; homens irromperam dos
corredores, descobrindo-se respeitosamente. Havia silencio.

O secretario procedeu  leitura da acta precedente, que uma inclinao
de corpos sentados approvou por unanimidade. Dispensou-se a leitura do
relatorio.

--Se algum accionista pedia a palavra sobre o relatorio e contas da
direco--perguntou a presidencia.

Um silencio geral, esperando todos que apparecesse o primeiro; mas
ninguem, a larynge seccava-se-lhes n'um spasmo anti-rethorico; murmurios
surdos se espalhavam.

--E ninguem, ora esta!--

Segredou-se ao commendador que fallasse, o Mendes apontava aquella
parcella inexplicavel.

A presidencia repetiu a pergunta.

O commendador pediu a palavra.

Libertaram-se os peitos n'um ah de satisfao;

--at que emfim a cousa comeava.--

A direco estava um pouco trmula, presagiando tempestade; mas o Jorge
conhecia o commendador, era seu amigo, d'ali no podia vir grande
batalha.--

O orador foi breve--

--que no tencionava pedir elle a palavra; mas que... no animo d'alguns
senhores accionistas se apresentava uma duvida--

Muitos apoiados com vocalisao especial da Mendes--

--e essa duvida dizia respeito  parcella A que figurava no Passivo, sem
a correspondente do Activo.

Muitos accionistas procuravam no relatorio a falta de harmonia notada
pelo orador.

--que pois a digna direco o esclarecesse a elle e  respeitavel
assembleia, que se daria por satisfeito com essas explicaes, e que no
resto approvava o relatorio e contas e bem assim o parecer do digno
conselho fiscal.--E sentou-se, a mo ageitando os oculos para encobrir o
rubor congestivo das suas faces.

Apoiados resoaram.

O Jorge pediu a palavra por parte da direco.

--Vamos a ver, o que elle responde; o commendador no  homem que se
fique,--sempre quero saber a historia da tal verba.--

O Jorge narrou as circunstancias do Banco, a epocha da crise, a historia
de transaces, as difficuldades monetarias, multiplicou cifras
apontando para o relatorio, de que lia variados trechos, foi prolixo,
d'uma claridade confusa, torcendo os espiritos n'um labyrintho de
arithmetica,  e--concluia--tinha assim justificado aquella alis
justissima observao do seu amigo Commendador e da illustre Assembleia
geral.--

Apoiados estalaram; o commendador declarou que se dava por satisfeito.

A presidencia perguntou se mais algum accionista tomava a palavra.

Ento o Alberto levantou-se,

O Jorge olhou-o com sobresalto.

--que ia elle fazer, aquelle doido--e sentiu vontade de o fazer
desapparecer, de o sumir pelo cho abaixo, como a um diabo das magicas.
Os seus collegas interrogavam-o mudamente,

--que significava aquillo?--

mas elle encolhia os hombros

--estava absorto tambem, no podia dar a mais leve explicao.

Entretanto o Alberto principiara--

--que o no prendiam n'aquelle lugar consideraes de parentesco ou
amizade, mas visto que alguns snrs. accionistas punham em duvida a
sensata elaborao do relatorio, elle como accionista que zelava acima
de tudo os seus interesses, no hesitava em tomar parte nos debates.--

O Jorge estava cada vez mais enfiado; a direco impacientava-se.

Mas o gesto largo de Alberto, a sua _pose_ d'orador impunham-se  massa
bruta dos accionistas.

--que estavam n'aquelles lugares--e apontava para a direco,--homens
d'uma probidade inconcussa, capitalistas respeitados, cujo nome nunca
ninguem ousara macular com a mais leve suspeita,

Muito apoiados--

--que melhor que ninguem elles tinham sabido atravessar com
circumspeco e tacto financeiro a epocha da crise e a prova ali estava
n'aquelle resultado final, os oito por cento de dividendo.--E tecia um
largo elogio, palavres sonoros, com uma grande fluencia de expresso.

Apoiados mais calorosos ainda de possuidores de aces.--Murmurava-se,
como n'um applauso unanime--

--falla bem o rapaz, e entende da pda,--est dito--

Alberto continuava embriagado no seu triumpho--

--que no hesitava por isso em propor uma recompensa pecuniaria 
direco, e que se no dissesse que era o interesse de familia que o
impulsionava, por isso que da sua proposta excluia o cavalheiro, com
quem estava ligado por laos de parentesco.--

Mas o publico bradou

--que a proposta devia ser geral--

o commendador accrescentou at

--que todos eram dignos d'essa gratificao--e propoz ainda um voto de
louvor ao conselho fiscal.--

O relogio batia quatro horas; a presidencia apresentou as propostas dos
dous oradores e os accionistas approvaram

--queriam ir jantar, que os levasse o diabo a todos.--

O Mendes dizia c fra aos grupos que o rodeavam--

--que a historia da parcella ninguem a esclarecra.--

Grupos formavam-se de novo; um discutir incoherente e tumultuario
contrastando com o silencio que tinham guardado l dentro. Commentava-se
o Alberto

--fallava bem, no havia que ver.

--estava mesmo a pintar para uma direco,

--de vagar se ia ao longe--

E dispersavam-se na confluencia das ruas, contentes dos oito por
cento,--que vinham agora mesmo ao cahir da faneca--dizia o merceeiro de
S. Joo.

Trens rodavam subindo vagarosamente a rua de Ferreira Borges, um
desfilar de populao laboriosa que vai cuidar do estomago, burgueses
pesados questionando aos bocados, caixeiros de escriptorio com rolos de
papeis debaixo do brao.

O Jorge entretanto dava-se a si proprio os parabens por aquella
revelao do genro--

--Isto bem aproveitadinho, no lhes conto nada--dizia para os collegas--

Se o rapaz quizesse entrar c para o banco--aventurou um dos directores.

--Eu lhe fallarei, a cousa ha-de-se arranjar,--um papagaio de vez em
quando convm.--E applaudia-se de ser elle o que lhe havia feito j a
mesma proposta, mas que n'esta occasio occulta,

--era sempre conveniente; so elles os agradecidos.--

E em casa, quando Ermelinda veio recebel-o ao cimo da escada, contou-lhe
a proeza do Alberto, muito satisfeito, alegre com a desopilao
d'aquelle peso do relatorio e contas, a gratificao a entre-sorrir-lhe
no meio dos seus embaraos.

O Alberto deu-se uns ares de modestia recolhida

--que outro qualquer faria o que elle fez; nada de extranho a final;
tinha ouvido uns _zuns-zuns_ de vespas importunas, aquillo indignara-o e
resolvera-se a fallar, eis ahi estava.--

Ermelinda olhava-o com uma admirao mais terna; parecia-lhe aquillo um
feito de semi-deus, erguia-lhe o culto fetichista dos heroes; e
julgava-se reflectida no esplendor d'aquella aco, uma emphase vaidosa
de ser sua mulher, de lhe chamar seu, eternamente seu. E as nuvens que
at ahi tinham assombreado o ceu da sua unio pareciam-lhe agora
desfazer-se, como as neblinas tenues da manh, deixando clarear um
horisonte aberto, d'uma grande pureza luminosa.

E o Alberto, contente de si, applaudindo-se na execuo da sua inspirao:

--Boa ideia, com os diabos, a cousa ha-de seguir naturalmente, fui
feliz, a questo  de aproveitar a mar, isto  melhor do que a roleta;
os _pontos_ teem a mais um pouco de dinheiro e uma dose de parvoice.--

Sonhava especulaes estrondosas, que o enriquecessem em pouco tempo, um
_el-dorado_ onde podesse ser invejado, dar as leis no mundo financeiro,
no mundo argentario. Atirava com a imaginao para um vasto horisonte
d'ambies, fazendo-a descrever uma curva vertiginosa e brilhante,
vendo-se respeitado com um grande poder, rodeado de todos os voluptuosos
contactos do luxo; viagens ao estrangeiro, prazeres d'uma variedade
infinita.

Estas ideias que elle communicava a Ermelinda inflammavam-os a ambos
n'uma ambio mentirosa, o espirito desviando-se da realidade espinhosa
das cousas praticas, e gastando por isso largamente, agora mais
desaffrontados porque o Banco lhe dava um bom ordenado, atirando-se a
uma extravagancia de despezas, uma loucura que os estonteava.

O Jorge inquietava-se, receiava uma derrocada fatal; a especulao que
bafejara tinha-se gorado; iam cada vez mais em peior estado os negocios
do Banco--

--E ao Alberto no havia quem lhe dissesse uma palavra, um
orgulhoso.--Demais a Ermelinda sentia-se no ultimo periodo da gestao,
adoentada, umas syncopes frequentes, que a prostravam muito--o Dr.
Roberto dissera que s melhoraria depois--era por isso necessario
esperar.--

Mas todas estas difficuldades torturavam-lhe o espirito; possuia-se
d'uma tristeza grande, agitado, pouco communicativo at mesmo para com a
Joaquina,--que o aconselhava,--uma partidaria do _Laisser faire, laisser
passer_.

--Coma e beba e leve o diabo paixes, senhor Jorge--

--fallas bem, fallas bem, se te visses n'ellas como eu--e o pensamento
engolphinhava-se n'aquelle labyrintho de embaraos, que o iam
apertando como as malhas d'uma rede, uma accumulao consecutiva de
difficuldades, que renasciam multiplicadas como uma fecunda gerao de
polypos, ao passo que ia cortando algumas.

Era menos frequente  noite no Club e quando apparecia, distraces
imperdoaveis no _wist_ faziam-o perder quasi sempre.

Comia menos, o seu vigor physico ia gradualmente diminuindo; appareciam
uns achaquesitos, umas dores de cabea que duravam dous a tres dias, a
face cahindo n'uma pallidez doente; uma fraqueira no estomago.

--Uns caldinhos de substancia,  o que isso precisa--dizia-lhe a criada.--

Principiou a consultar o medico; o Dr. Roberto aconselhou-lhe tonicos,
distraces, ares lavados do campo.--E ao jantar com uma grande f
meticulosa tomava uns confeitosinhos brancos, de ferro, que andavam
muito annunciados nos jornaes do dia.--

--E talvez fosse _flato_--aventurava a Joaquina--

--Sim, tambem padecia!--e tomava  noite umas quatro pilulas catharticas
de Ayer, lendo sempre com minuciosa atteno o folheto que trasia as
explicaes sobre o seu modo de emprego, affianando o seu effeito
_salutar, tonico e natural_, tendo a rara propriedade de serem
_innocentes_ e ao mesmo tempo _efficazes_.

Isto tranquilisava-o bastante.

--Se no fizessem bem, tambem no fariam mal.

Mas a saude, apesar das promessas do folheto, ia entrando n'uma
decadencia gradual. A D. Gabriella j fazia promessas ao Senhor de
Mathosinhos e a Joaquina essa tinha mais f com o Senhor da Pedra.

--Cacos velhos, cacos velhos, D. Gabriella.--

--Nem diga isso, credo, velhos so os farrapos--e lamentava aquelle
derruir precoce de saude, onde iam as suas esperanas, como as heras que
vivem radicadas nos velhos edificios e se destroem com a sua derrocada.

Alberto assistia quelle esphacelar com uma secreta alegria intima, de
quem se v livre d'um fardo importuno.

--Seria mais senhor das suas aces, no teria aquelle _Argus_
constantemente a vigiar-lhe os passos, e agora... bem se importava...
tinha uma posio segura no Banco; os collegas do Jorge respeitavam-o...
os seus planos realisar-se-iam em breve; e o velho no ia longe, no,
bem se conhecia.--


XII

Ermelinda sentia-se agitada por uma forte impressionabilidade;
amedrontava-a o receio d'uma maternidade dolorosa, consultava o medico
amiudadas vezes, tomava conselhos com senhoras cazadas suas conhecidas.

--Quem lhe dera j ver-se livre d'aquelle perigo--dizia--e ia entretanto
occupando o pensamento com o enxoval do seu beb, um enxoval rico, umas
rendas finas a enfeitarem as camisinhas, as pequeninas saias, os
vestidinhos de passeio. A Joaquina aconselhava com o bom senso
pratico das filhas do povo--

--que era preciso tratar das envoltas, das flanellas, de cousas que
agasalhassem e trouxessem a creana sempre fresca,--

--Tu sabes l o que dizes!...

--Pois a senhora ver... para que lhe servem os bonitinhos.--

Mas os bonitinhos encantavam a imaginao da futura me; via a sua
filhinha,--havia de ser uma menina--toda aceiada no collo da ama, uma
capa branca de fusto cobrindo-a toda n'uma ondulao macia, a touca de
rendas circumdando, como uma aurola, o seu pequenino rosto de
_cherubim_, d'um cr de rosa pennugento;

--passearia com ella no Palacio  hora da musica, nos formosos dias de
primavera que vinham a despontar, quando o sol, como um bohemio alegre,
fatigado do ar soturno do inverno, se rebolasse a sorrir na limpida
atmosphera azul.

--por-lhe-ia o nome de Rosina, um nome poetico, celebrado nos romances,
uma heroina por quem se inflammara no capitoso aroma da paixo o corao
do conde de Almaviva.

--E a sua Rosina, seria linda, no admittia a possibilidade d'ella ser
feia... nem mesmo tinha a quem sahir--accrescentava n'um confronto
vaidoso da sua e da plastica do Alberto.--

Via-a depois com a gracil formosura dos oito annos, vindo toda ladina do
collegio, j uma senhora feita nos ditos espirituosos, uma precocidade
nubil de namoros, e entrando mais tarde nos bailes, invejada como ella o
fra, requestada pelos mais elegantes, chegando a causar delirio na
impetuosidade das walsas.--

A despertal-a d'estes embevecimentos a natureza annunciava a
approximao da crise por vagas dores contrativas, e toda ella se
recolhia n'um receio pueril, com panico de morrer, a imaginao a
figurar-lhe casos muito funestos.

--No, que no era nenhuma brincadeira--e consultava a Joaquina,
tornara-se at mais amoravel para com ella, exigia a presena do pae, do
Alberto, do Doutor.--

Riam-se muito, consolando-a, esforando-se por lhe communicar uma
alegria desafogada.

--Nem que estivessem agora todos os perigos reservados para ti.--

--Pois sim, tambem no dizia isso, mas s Deus sabia.--

O Alberto no comprehendia aquellas flebeis impressionabilidades de
espirito doente.

--Isso era nervoso--dizia n'uma formula generica, que para elle abrangia
todos os casos--e recordava-se de que a Annita andara a p quasi at ao
fim, que nunca tivera aquellas exquisitices, a Magdalena viera na
occasio e as duas, l no quarto, tinham-se arranjado dentro de meia
hora.--Aborreciam-lhe aquellas pieguices, aquellas puerilidades, um
enfado por todas aquellas exigencias d'ella, dando-lhe mesmo vontade de
romper abruptamente--

mas soffreava as suas manifestaes de irritao, era preciso
contemporisar,

--o diabo s vezes tecia-as--o Doutor recommendara tranquilidade
d'espirito, a coisa era por pouco tempo, deixar correr, no queria
responsabilidades.--

A crise dolorosa manifestou-se; foram chamar a parteira, a D. Anna
Cardoso, uma loirita baixa, que tinha residencia no hospital e que o Dr.
Roberto indicara como muito habil.

--que se no affligisse, o parto promettia ser bom,--e fallava baixinho
 Joaquina, fazendo certas recommendaes.

Ermelinda contorcia-se, uns gemidos entrecortados, o rosto a empallidecer.

--Ento, um bocadinho d'animo, descanasse um poucochinho--e deslisava a
mo por baixo da roupa, n'um auxilio de contraces provocadas.

A Joaquina tinha perdido a sua placidez apathica, andava aparvalhada,
nunca imaginara que a Ermelinda podesse assim soffrer. Curvava-se sobre
o leito, um carinho de me,

--No ha-de ter perigo, Nossa Senhora do Bom-successo lhe valha, j lhe
prometti duas velinhas de quarta.--

Ermelinda continuava a gemer, um contrahir doloroso, as mos
segurando-se na cabeceira do leito, retesando-se, com grande violencia
muscular.

A parteira annunciou o termo, curvou-se mais sobre o leito, e um vagido
de creana, d'um timbre inimitavel, fez-se ouvir.

Ermelinda tinha ficado n'uma prostrao apathica, syncopal.

O Doutor entrou, recommendou socego, fez-lhe engulir uma colher de vinho
generoso. Despertou lentamente,

--Ento!?--perguntou--mas vendo o medico junto de si, sentiu-se confusa,
um pejo do seu estado.

A Joaquina disse logo

--Uma menina, D. Ermelindinha, uma menina.--

--Oh, uma menina, tragam-m'a, quero vel-a.--

O Doutor sahiu.

Fra o Alberto passeava lentamente; o Jorge sentara-se, os cotovellos
fincados sobre uma meza.

--No ha perigo; est a cousa prompta; foi muito feliz at, vamos l,
por ser a primeira vez... parabens--e o medico accendeu um charuto.--

Vou ainda para o escriptorio, ate s quatro, se fr necessario mandem
dizer; a parteira  de confiana...

O Jorge alvoroou d'uma alegria intima; parecia-lhe at que no sentira
tanta, quando ha vinte e seis annos, lhe annunciaram a existencia
d'aquella que agora o fazia av.

--Um baptisado de pompa, ein!--

--Est dito--concordou Alberto.

Elle, por si, no sentira accelerar-se muito a sua emotividade,
confrontava o caso um pouco analogo com o da Annita,

--era at um encargo que a gente tomava--e de mais a mais uma
menina;--no via demasiado motivo para os parabens do Roberto.--

Mas apesar d'isto aquelle corpo pequenino, brando como uma gelatina,
d'uma leveza de passaro, impressionava-o d'alguma frma,
parecia-lhe uma como integrao do seu ser, de que s agora
conhecia a falta, e alguma cousa o agitava extraordinariamente,
fazendo-lhe borbulhar dentro da alma uma sensao nova de carinho, como
o rebentar inesperado d'um jacto d'aguas gazozas, que rompe a crusta da
terra n'um determinado ponto. A emoo affectiva abria brecha na sua
sensibilidade gasta pelos prazeres e pelo cynismo; dominava-se comtudo.

--No lhe faltava mais nada que tornar-se piegas  ultima hora--

e accendia um charuto para distrahir de sobre si aquella ideia nova, que
o envolvia como uma nuvem perfumada, de subtis aromas.

      *      *      *      *      *

Ermelinda foi-se pouco a pouco restabelecendo. Procurou-se uma ama

--achava estupido estar agora a alimentar a creana--dizia Alberto--isso
era bom para a gente do povo.

Ermelinda concordava--

--era realmente assim; fanava-se a belleza d'uma senhora, e depois uma
creana tinha tantas impertinencias, seria sempre um empecilho, um
estorvo a qualquer distraco.--

O Dr. Roberto contestou-lhe

--que era o melhor o leite da me, que muitas vezes se deterioravam
aquelles organismos debeis com a alimentao d'uma mulher mercenaria.--

--No, isso no, doutor; eu mesmo sou fraca, escolhe-se uma ama
robusta, o pap escreve para a Maia, assim no tem duvida.--

--Como V. Ex. quizer...--

A ama veio, uma alde vigorosa, muito palradeira,

--que tivera at de passar o filho d'ella pela roda s para servir o
Snr. Jorge,--e ento a menina, benzesse-a Deus, havia de ser uma
latagona; nem a senhora a podia crear; o que ella precisava era leite,
leite de sustancia--

e offerecia aos beios da pequerrucha um seio farto, d'uma dilatao
espapada de multipara.

Ermelinda deleitava-se em ver a sua pequenina a babujar n'aquelle peito
que no tinha a brancura assetinada do seu,

--mas deixal-o, o que ella quer  leitinho--

e beijava-a depois, os seus finos dedos, com aneis de cobra, acariciando
a face vermelha e enrugada da creana.

Sentia-se mais alegre, mais gracil no seu novo papel de me; a febre do
leite dando-lhe uma ternura entre voluptuosa e morbida, que lhe aquecia
o sangue ainda depauperado. Exigia muito o Alberto junto de si,
rodeava-o com caricias, impunha-se e offerecia-se, uma doudice de
creana, as vibraes nervosas d'uma impressionabilidade doentia.

--Elle porm no estava para a aturar,--at ali contemporisara; mas era
de mais!... enfadavam-o j aquellas momices!... E depois a nostalgia da
recluso, do banco para casa, de casa para o banco e isto por causa
d'ella, para a no perturbar no seu estado grave! Mas isso acabara--

e repulsava-a com desabrimento, a sobrancelha sempre enrugada, um tdio
por aquelle regimen de priso cellular, um aborrecimento de ser cazado,
a imaginao dourando-lhe os quadros da sua vida livre e licenciosa de
rapaz.

Ermelinda pesava-lhe como um despotismo absoluto, um obstaculo
invencivel s suas aspiraes de liberdade,  sua independencia pessoal;
e d'ahi as revoltas repetidas contra aquelle jugo, questiunculas que os
separavam, uma acrimonia em todos os actos que exigiam convergencia de
reciprocidades.

Supportavam-se apenas; disputas incessantes se levantavam e aquella paz
octaviana que durara pelo espao do perodo grave d'Ermelinda, rompia-se
agora a cada momento, em discordias muito tempo soffreadas, com uma
effervescencia azeda, que depositava uma bilis odiosa no corao de cada
um--

--mas era um viver infernal--dizia ella a cada momento,--

-- ir tendo paciencia, filha, nem tudo so rosas na vida de
cazados--aconselhava o Jorge.

Porm aquelles queixumes d'Ermelinda amarguravam-o, ralavam-o d'uma
mortificao cruciante; sentia-se cada vez mais adoentado, os embaraos
pecuniarios cercavam-o, o vigor physico fallecia, e ainda por cima a
filha, o seu idolo de fetiche, soffria d'um soffrimento irremediavel--

Lembrou-lhe o divorcio, chegou mesmo a fallar-lhe n'isso

--mas era um escandalo, uma vergonha, fosse vendo se o levava por bons
modos.--

Ermelinda tentou reconciliar-se; chegou mesmo a dar-se uns ares de
martyr resignada, mas o Alberto

--achava estupido que lhe distribuissem o papel de tyranno de
comedia--tinha phrases irritantes, d'uma grosseria mal educada, que a
pungiam na sua delicadeza.--

Concordavam apenas n'uma tregua de harmonia, quando tinham de sahir
juntos, alguma visita, um ou outro passeio, qualquer pequena _soire_
familiar... Ahi mesmo porm Ermelinda lacrimava-se com as suas intimas,
aconselhava as solteiras a que no cazassem,--havia muitos espinhos que
s a experiencia revelava.

E deposta a mascara com que se tinham afivellado para apparecer ao
publico, a tregua rompia-se, um motivo futil os irritava, cada um
querendo a superioridade da sua opinio, distanciando-se n'uma separao
odiosa, enojados de se verem, de terem de se corresponder a cada momento.

Ermelinda principiou assim a ter uma averso da toilette, do aceio;
deixava-se ficar todo o dia com o penteador encardido da gordura dos
cabellos, um desleixo de si, uma preguia sentimental occupada em se
lastimar.

--No que valia a pena, realmente, estar a enfeitar-se para o senhor seu
marido! nunca ella o tivera conhecido--

--e tambem era s para lhe _fazer a raiva_; s porque elle gostava
de luxo,  que ella se no vestiria.--

O Alberto s vezes sentia ainda desejos de reconciliao; a natureza
impulsionava-o, uns fermentos da paixo, que o tinha attrahido para a
formosura de Ermelinda, levedavam no seu corao d'homem, tornando-o
bom, momentaneamente acaroavel. Vinha de fra com tenes conciliativas,

--dar-lhe-ia um beijo, recordaria com ella as venturas formosas do
passado--combinaria planos sobre o futuro da pequena--

mas via-a desleixada, ainda com a roupa da manh, bocejando de tdio,
desabafando n'um mau humor de contrariada com a sua presena.

Enojava-o aquillo;--

--fizera-se porca de mais a mais--e a creana andava mal limpa, a ama s
tratava de comer bem e de dormir, deixando-a n'uma immundicie
revoltante, os olhos remelados, o babeirito sujo.

--Era impossivel! no estava para se encommodar,--a me que olhasse por
ella, se quizesse--

E comia, n'um mutismo obstinado, uma ou outra palavra rapidamente
proferida, levantava-se ao _dessert_ sahia logo, ia tomar o seu caf no
Suisso.--

--V, papai,  isto e eu que o ature! no... tambem j  de mais...
agora s l para as duas da noite.

e vinha para o quarto lastimar-se, arremeava-se sobre o leito, a cabea
occulta no travesseiro, lagrimas a desfiarem n'uma torrente
impetuosa, levantando-se com os olhos injectados, muito abatida e
quebrada.

O Jorge, o cotovello sobre a meza, com um ar de compassividade, via-a
sahir abruptamente.

--Quem o havia de dizer, Joaquina.

--Eu sempre o prophetisei; aquella cara nunca me enganou; e sabe que
mais? o remedio  cada um para seu lado; olha agora o pandilha! a menina
assim cae ahi doente e depois o vers...

--Mas que vergonha, que vergonha!

Todas estas sensaes desagradaveis se infiltravam no seu espirito,
desmoronando-lhe a firmeza e claridade, como as aguas salitrosas que
arruinam um bello edificio. Fallava pouco, um esquecimento de si mesmo
em meditaes prolongadas, a fixao d'uma ideia a absorver-lhe toda a
actividade do pensamento. Os seus padecimentos aggravaram-se, tomava
muitos remedios depauperando-se com dietas obrigadas; apparecia um
achaque pelo mais ligeiro motivo, a cabea que tinha dores nevralgicas,
o estomago que depunha os alimentos quando a Joaquina apresentava um
prato novo, o figado que se opilava  mais leve indisposio.

Andava hypocondriaco, tinha distraces imperdoaveis, os empregados do
banco chegavam a ter por elle um sorriso de commiserao, quando o viam
errar a mais simples conta de sommar.

O commendador chegou mesmo a provocal-o a uma confidencia,

--Anda to abatido o amigo Jorge!

--Vai-se andando, vai-se andando.

--Trate de si, homem.

--Um pouco adoentado, realmente um pouco adoentado.

--Vo-se os anneis e fiquem os dedos, voc me entende, hein... quem c
ficar que se arranje...

No espirito do Jorge esta phrase cahiu como uma gotta de metal em fuso.

--Quem c ficar... ah, sim, ficava ella, se elle lhe faltasse de um
momento para o outro... e sem amparo a pobre da rapariga, de mais a mais
com a pequerrucha... _n'elle_ nem queria pensar... estavam servidas as
pobresinhas... ainda se lhes podesse deixar muito... mas as cousas
estavam to mal, os primeiros passos errados haviam sido como um
meandro, que o envolvera... agora sim, era ver se lhe podia salvar algum
bocadito... mas para isso s a _separao_ de pessoa e bens... uma
vergonha, Jesus, o que lhe estava reservado para o fim da vida.

Alheava-se n'estas consideraes, um olhar espantado, d'uma
tranquilidade triste, quando via a Ermelinda curvando-se sobre o bero
da filha, fazendo umas festasinhas chilreadas  creana.

E a verdade , que aquella familia se no desagregara talvez desde
muito, porque tinha em Jorge um lao de coheso, uma como columna a
sustentar a estabilidade do edificio. Elle conheci-o; o Alberto
respeitava-o um pouco, o seu interesse egoista a isso o obrigava,

--Mas se eu falto, se eu falto, que ha de ser de tudo isto?--

Esta ideia atravessava-o com uma tenacidade impertinente de
verruma; impunha-se-lhe a todos os pensamentos, pesava sobre elle como
uma grande avalanche precipitando-se no declive d'uma serra.

Era necessario tomar uma resoluo definitiva:--no, assim aquillo no
tinha geito.--

O Alberto no se emendava; sacudia com hypocrisia o jugo despotico da
casa, ia conquistando pouco a pouco a sua liberdade sacrificada. Uma
noute por outra no apparecia; e depois, quando no dia seguinte
Ermelinda, com uma ejaculao represada de bilis, abria o capitulo das
recriminaes, elle ao sentir-se culpado, tomava uma attitude
acriminosa, abafava com a sua voz trovejante as queixas d'ella,
revestia-se d'uma pose sarcastica, a palavra secca de ironias,--se tinha
medo a menina havia de comprar um cosinho.--

E no conseguiam reconciliar-se, obstinadamente mudos um para com o
outro, olhando-se odiosamente durante dous ou tres dias at que uma
futilidade qualquer os ia abonanando, supportando-se ento, a paz calma
dos vulces suspensos.--

Mas as hostilidades abriam-se por um motivo ligeiro; questinculas
pequenas surgiam, contradices oppondo-se teimosas, mutuamente.

-- o co e o gato--dizia a Joaquina ao vel-os de novo n'uma discusso
quasi sempre futil.--

Havia j despedido a ama. A creana principiava j a balbuciar as
primeiras palavras, as suas pernitas rolias tinham as hesitaes dos
primeiros movimentos; o Jorge sentia dilatar-se d'um amor paternal
ao ver a pequerrucha trepando-lhe pelas pernas, n'uma tenacidade em
vencer aquellas columnas que se lhe afiguravam collossaes.

--Olha o diabrete, no chegas c, ainda tens muito po para comer.

A Rosina no desanimava porm, estendia o bracinho curto, queria
apanhar-lhe a Suissa que voejava por sobre o collarinho, balbuciando a
palavra--Av,--chamando-o com imperio, querendo subjugal-o ao capricho
da sua pequenina vontade.

Entrava n'esse periodo gracil da infancia, em que os mais indifferentes
abrem um sorriso s suas irriquietas travessuras, aos lampejos vibrantes
das suas phantasias de _baby_.

Ermelinda approximava-se d'ella mais; exhultava porque tivesse passado
esse longo estadio de trabalhos e canceiras obscuras, e habituava-se
agora a vel-a como um pequeno figurino trajando o costume da sua
phantasia, uma boneca que ella tinha de enfeitar pondo n'isso toda a sua
vaidade de mulher e de me. O Alberto mesmo demorava-se um pouco mais
depois do jantar, a carne feliz d'uma boa digesto, alegrando-se de
ouvir chilrear aquelle passarinho as notas phantasiosas d'umas mentiras
imaginaveis.

--Diabo da pequerrucha era mesmo um encanto--e como ella inventava umas
historias sem ps nem cabea.--

A Rosina parecia pois pouco a pouco ir estabelecendo a harmonia entre os
dous; esqueciam-se de si, a atteno convergindo para a filha,
surprehendendo-se at de se verem agora to amaveis, admirados de
que houvessem adormecido aquellas disputas incessantes que at ahi os
divorciavam em recriminaes asperas e molestas.

Mas este periodo no se prolongou muito. O Alberto uma noite entrou
tarde; por acaso o Jorge tinha-se encontrado mal. Ermelinda estava ainda
a p; e quando o viu chegar, uma esfusiada de ironias a atacou.

--Bonito, no tinha duvida! Tres horas da manh!... em casa tudo tinha
andado em afflies, e o estroina l por fra... nas orgias... um bello
comportamento de homem casado... o pae doente, to mal, sem haver quem
fosse chamar um medico... realmente...

Encolheu os hombros, friamente, resistindo na armadura d'uma
indifferena fingida quelle assalto de palavras irritantes.

Mas ella continuou, um phrenesi insaciado:

--Isto s no inferno, s a minha paciencia! Mas  de mais, todas as
cousas teem um termo.--

--Pois  procural-o--respondeu bruscamente.

--Ol se hei-de, pois que pensava o meu menino!...--

E cantava ironicamente o diminutivo, o corpo saracoteando n'um movimento
de rotao, uma attitude de escarneo provocante.

O Alberto avanou para ella, apertou-lhe os pulsos violentamente, os
olhos injectados d'uma colera animal.

--Tu no penses que brincas comigo! e sacudiu-a fortemente, com uma
rudesa aspera.--

Ermelinda encarou n'elle com um olhar profundo de desprezo e de colera
por se sentir fraca; e depois o corpo enteiriando-se, muito
pallida, a voz com um timbre imperativo:

--Deixe-me, senhor.--

O Alberto largou-a, sahiu do quarto impetuosamente, os seus passos
ouviam-se sonoramente no corredor emquanto ella atirando-se sobre o
pequeno leito de Rosalina.

--Oh, minha filha, como ambas fomos infelizes.--


XIII

No quarto de Jorge a luz mortia d'uma lampada derramava uns tons
lividos em todos os objectos. A roupa da cama, um pouco em desalinho,
enroscava-se em volta do corpo do doente, cuja cabea esbatida n'uma cr
macillenta, revellava soffrimentos graves, irremediaveis, o corpo
levantando-se nas almofadas, arquejando em movimentos rapidos, d'uma
dyspnea violenta. O brao descarnado, com a brancura da camisola a
envolvel-o, procurava a pequena escarradeira de porcellana que Ermelinda
lhe apresentava com um carinho muito affectuoso.

O commendador, sentado n'uma cadeira aos ps do leito, tinha uma
attitude gravemente composta, d'uma embecilidade passiva em face d'um
mal, que no podia remediar.

Pronunciava palavras de conforto, de espao a espao, uma grande
oppresso d'aquelle meio taciturno, com volatilisaes acres de mostarda
e um cheiro de doena, que provinha da renovao incompleta do ar.

A Joaquina entrava de quando em quando, com uma taa de caldo na mo, os
olhos avermelhando-se na frico de lagrimas absorvidas na ponta do
avental, e sempre esquecendo um objecto necessario, a colhr para
remecher o caldo, o guardanapo para limpar os labios, o copo d'agua que
se lhe havia pedido, uma perturbao de sentidos que a alienava,
fazendo-a entregar disparatadamente um objecto em logar d'outro.

Pedia a Deus:

--que lhe valesse--e sahia a cochichar umas resas, seduzindo a divindade
e a patrocinao dos bem-aventurados com a promessa d'umas velas de
cera, d'umas missas pedidas, d'umas voltas de joelhos em que flagellasse
a propria carne em de redor da capella do santo invocado...

O Dr. Roberto dissera confidencialmente ao Alberto:

--que no havia esperana, e depois, aquelle espirito estava n'um
abatimento grave, algum desgosto profundo o havia prostrado.--

Estas palavras queimavam-lhe a alma; tinha vontade de entrar no quarto
do sogro, pedir-lhe perdo, prometter que d'ali para o futuro seria
sempre o leal amigo d'Ermelinda, que podia morrer descansado e confiando
n'elle.

Mas o Jorge entrava sempre n'um paroxismo violento, quando a sua figura
assomava  porta do quarto, rosnava umas palavras entrecortadas, que mal
se entendiam e depois pedia a neta,

--que lhe trouxessem a Rosina, porque no estava ali  beira do av.--

Abraava a pequena, beijando-a com soffreguido, os olhos
avivando-se d'um brilho excitado,--

O commendador recommendava-lhe prudencia--

--que aquelles abalos lhe faziam at mal--e pedia a Ermelinda, que
retirasse a creana, que era necessario presena d'espirito.

--e no chorasse, havia sempre esperana, emquanto havia vida.--

Ermelinda agradecia no seu intimo aquellas consolaes, onde a sua fina
perspicacia de mulher percebia um tremulo de amor e sinceridade!--Oh,
quanto no seria mais feliz em ter desposado aquelle homem, que agora a
ampararia, que a respeitaria sempre como um escravo, que teria por ella
todas as attenes delicadas d'uma alma leal;--mas era irremediavel,
estava unida ao outro!...

--_Ao outro_, que differena no confronto!... Sempre fra bem creana em
se apaixonar pelo que suppunha ser o romance da vida!... Oh, como estava
arrependida.--

Vinham-lhe estas consideraes, velando  cabeceira do leito, emquanto o
Jorge, n'uma intermittencia calma, entregue a uma somnolencia de
prostrao, dormitava brandamente, o vigor alquebrando-se n'aquella
madornice comatosa, como um fio de azeite que se escoa lentamente por um
orificio aberto no fundo d'um vaso, e o Commendador e o Alberto,
conversando baixo com o doutor, na saleta proxima, rumorejavam agouros
funerarios.

O doente teve um momento de allivio; a respirao tornou-se-lhe calma, o
rosto socegado deixou de se contorcer em contraes paroxisticas, a
palavra, posto que branda, sahia com uma fluencia doce.

--Melhorzinho, ein--disse o commendador consolando-o.--

--Melhor, realmente! Isto ha-de ir indo, ha-de ir indo.--

--Coragem  o que se quer.--

O Jorge permaneceu calado; um pensamento agitava-lhe a imaginao.

--Se no fossem ellas, commendador!--bem me importava a mim a morte.

--Deixe essas ideias, ouviu, isso lhe prejudica.--

--No posso, quer que lhe diga, no posso, levo-as aqui atravessadas--e
apontava para a garganta, como se um obstaculo invencivel estivera l
collocado.--

--Mas ento... se por fatalidade isso acontecesse, o que est muito
longe de ser, ellas ficavam amparadas, ein!... quantas desejariam ficar
assim.--

O Jorge quedou silencioso; dentro do seu espirito uma onda de verdade se
agitava; mas o seu egoismo, a confisso do seu infortunio, um quebranto
de cobardia sopesavam-o com toda a fora. Depois, abruptamente, como
quem atira de si um fardo pesado:

--Oia, commendador; eu sei que  meu amigo; Ermelinda  infeliz,
ella... coitada, digna de to boa sorte... e depois sabe... o banco...
ai, no posso, no posso... e uma dor sobre o corao fel-o contorcer
n'uma agonia violenta, a falta de ar reapparecia, a respirao
agitava-se frequente.--

O commendador amparou-o, tinha palavras de consolao, d'uma sinceridade
leal, n'aquelle momento em que presentia que um moribundo se debatia nos
seus braos.

--Eu velarei por ellas, descance, no tenho familia, sero a minha,
amigo Jorge, vamos... coragem, isso passa...--

Mas o doente abria desmedidamente a bocca n'uma ancia de ar, os olhos
voltavam-se nas orbitas, no estrabismo da agonia, um apagar da
scintillao da vida, as mos avincando-se como que procurando alguem.

O commendador chamou para fra.

Veio o Alberto, a Ermelinda, a Joaquina. O Jorge exhalava o ultimo suspiro.

--Meu pae, meu paesinho, olhe sou eu,  a sua filha, tem ali a sua
netinha...

O Alberto teve uma phrase sonora.

--J te no ouve, Ermelinda.--

Um deliquio sobreveio, o rosto impallideceu rapidamente, e cahiu nos
braos do commendador, que a amparou n'uma grande atrapalhao
carinhosa, o espirito desejoso de prestar todas as consolaes de
affecto quella mulher, que pela primeira vez sustentava nos seus
braos, na mais critica das occasies, quando o corpo do pae ainda
quente lhe parecia lembrar na baa fixidez do seu olhar cadaverico, que
velasse por ella, por aquella desgraada...

Encheu-se de gente a casa; veio a D. Gabriella, a D. Clementina, a
familia do Mendes, a Amelinha Bastos; todas porfiavam em prestar os
seus servios, installando-se provisoriamente, rodeando Ermelinda de
consolaes banaes, e murmurando entre si, calculando o estado de
fortuna em que tinha ficado, commentando a morte do Jorge, muitos
incidentes miudamente accumulados--

--que ainda ha pouco tempo andava to bom.--

--um homem que parecia que vendia saude--dizia a apaixonada D.
Gabriella--ai, se me lembro d'uma cousa assim.--

A D. Carola Mendes insinuava:

--que talvez algum desgosto,... os negocios iam to maus; ella d'alguma
cousa sabia, o seu marido dissera-l'ho confidencialmente.--

--pois desgosto houve e grande--confirmava a D. Gabriella--mas quanto a
isso, D. Carola, talvez no, aqui era sempre do bom e do melhor...--

--Onde se tira e se no pe, minha cra amiga...

A D. Clementina aventurou outra hypothese:

--No ia por alli o gato s filhozes, a cousa era outra...--

Mas a D. Carola no se dava por vencida.

--Pois se o Mendes m'o disse, menina.--

--deixasse l fallar os homens, elles s vezes no eram dos primeiros
que sabiam as cousas; que tambem--accrescentava--no dizia que no
houvesse certos embaraos pecuniarios, porque luxo, louvado Deus, era o
que se via, um desaforo...--

--L isso era verdade.--

--Mas aqui para ns a Ermelinda deu-me outro dia certas queixas; creio
que o Jorge no vivia muito bem com o genro...--

--Isso at o mais cego o percebia--

--Vejam l os _passetes_ que elle fez; aquillo era tudo impostura, mas
olhe l agora, lagrimas, viste-as, nem eu!...--

Seguiu-se por unanimidade esta ultima hypothese,

--que o Jorge morrera d'um grande desgosto motivado n'uma forte questo
com o Alberto, que os dois se no podiam ver, que isso estava provado 
evidencia--

--quem devia saber pormenores havia de ser o commendador--lembrou a D.
Gabriella.--

--sim, o commendador, esse devia saber--concordou a D. Clementina
affogueando-se d'um carminado serodio.--

--mas aquillo era caixa fechada, no se descosia com facilidade.--

--a questo era de saber tirar os nabos do pucaro sem a gente se
escaldar.--

--e realmente o commendador tinha o feitio d'um pucaro; havia de
chamar-se d'ora em deante o commendador _Pucaro_.--

Uma risadinha abafada acolheu o dito; a D. Clementina riu foradamente
para fazer cro, mas l no seu intimo mordia com ferocidade o _espirito_
d'aquellas pedantes,

--umas tolas, capazes de festejar o _pucaro_... se elle lhes acenasse
com a sua riqueza.--

Dentro, na saleta armada em camara ardente, o cadaver estendia-se na sua
immobilidade, o rosto lividamente esbatido na reflexo dos lumes de
cera, de casaca preta, o chapeu alto sobre o ventre, o brao esquerdo
rigidamente estendido ao longo do corpo. Um criado do armador espevitava
as velas, com uma grande indifferena de _habitu_, fumando o mais
voluptuosamente que podia o seu cigarro, em companhia do Christo, que o
contemplava da sua cruz branca de marfim.

Um carro funebre parou  porta, um ruido surdo, de molas pesadas e
lentas; e logo os mercenarios subiram, um tropel tumultuoso, phrases
grosseiras em dialecto gallego.

Mas a Ermelinda ouviu-os; protestou, debateu-se nos braos d'Alberto.--

--que o no levassem, queria despedir-se d'elle, era a ultima vez que o
via--e arremessada pela impetuosidade da sua dr, entrou na camara
ardente; os homens tiravam o chapo que servira apenas ceremoniosamente
e ella pde ver ainda o cadaver, na sua lividez _mate_, um fio vermelho
ao canto do labio, o nariz afilado.

--Meu pae--e cahiu n'um deliquio, as senhoras vieram, affastaram-a
presurosas, com um grande carinho affectado.--

A Joaquina veio tambem; quiz vel-o sahir, era a ultima vez...

--e desatou a chorar, n'um largo pranto carpido, a voz rouqueando-lhe em
gritos abafados, uma vontade de se atirar animalmente quelle caixo,
cingir nos braos o cadaver que lhe fugia e aquecel-o com os beijos da
sua febre, reanimal-o para as efflorescencias da vida.

--Meu rico patrosinho, ai, meu querido sr. Jorge, que nunca mais o
torno a ver,--to meu amiguinho era!--

E na dilatao expansiva da sua dor, a pobre mulher recordava
inconveniente as scenas recolhidas do seu passado com elle, e a alma
quebrada n'uma saudade dolorosa:

--Nunca mais, nunca mais, tudo acabou ali.--

O Alberto percebeu a violencia d'esta saudade; as palavras da Joaquina
revelavam-lhe o que elle apenas desconfiara e com um cynismo revoltante:

--V l para cima, Joaquina, era melhor que se lamentasse mais a ss;
no lhe faltar quem o substitua.--

E com um desprezo para aquelle morto que sahia e por aquella mulher que
ficava:--

--Que bonita sogra me no dava o sr. director!--realmente, oh moralidade
dos bons paes de familia!

Accendeu um charuto; foi recostar-se n'uma poltrona da sala de visitas,
onde alguns homens estavam para lhe fazer companhia.

Fra ouvia-se o rodar abafado do carro funebre, e uma claridade
luminosa, proveniente das tochas dos que o acompanhavam, penetrou
atravez das janellas meio cerradas, derramando uns tons amarellados por
sobre a sala.

Sugeitos batiam na escada entregando cartes de visita e o Alberto, com
uma vaidade orgulhosa das suas relaes, ia mostral-os a Ermelinda, um
pouco com o fim de humilhar de inveja as suas amigas.--

--Um bilhete da Viscondessa de Romualdo para ti, menina--

--E outro do conselheiro Silva Monteiro.--

Ermelinda recebia-os com ar contristado.

--Coitados, so verdadeiros amigos!--e atirava-os para cima da meza,
gloriosa dos brazes estampados, em que as amigas faziam uns minuciosos
reparos.

      *      *      *      *      *

Foi-se pouco a pouco esvaecendo a nuvem sombria d'aquelle drama de
familia; os dias de nojo tinham passado e Alberto retomava as suas
occupaes no Banco; mas percebia que um certo desdem dos directores o
envolvia, uma atmosphera de desconfiana, em que se no encontrava  sua
vontade.

--Pulhas--dizia do alto da sua prosapia de imbecil--acham o osso um
pouco roido! tenham paciencia... ainda tem muito que devorar!... mas no
ho-de ser os unicos, eu lhes protesto; no, que no faltava mais nada.

E meditava um lance de mestre, a riqueza fascinava-o, uma sde de vida
ociosa e facil lhe acenava  imaginao ambiciosa.

--Agora de mais a mais estava livre do Jorge, livre d'uma vez para todo
o sempre, no teria quem o estorvasse na sua marcha, era senhor seu,
completamente seu, sem aquella peia que lhe vedava os passos.--

--Em casa mesmo tudo havia de correr d'outra maneira; at ali em
qualquer questosinha a mulher tinha logo apoio no pae, e depois a
criada vinha tambem, uns grandes ares dominativos, d'uma
familiaridade, que se respeitava; mas a cousa ia mudar de figura... a
Joaquina ia pl-a no andar da rua, o mais pequeno motivo, uma questo
qualquer... desejava uma creada _chic_...--

Ia a si destruindo tudo o que podesse lembrar-lhe o dominio imperativo
do Jorge; esta ideia desafogava-o, fazia-o dilatar d'uma grande
satisfao intima, e um dia, que uma indisposio o azedou com
Ermelinda, ao ver que a Joaquina vinha intervir, como de costume,
levando-lhe o conforto das consolaes.

--Quem lhe deu a Voc liberdade de se metter onde no  chamada?--

--Oh, senhor Alberto.

--J lhe disse, no quero em minha casa quem mande mais do que eu e se
lhe no serve, procure, estou farto de a aturar.

--E eu ao senhor;  j,  fazer-me contas e a porta da rua  larga...

O Alberto cresceu para ella--

--No me _fanfe_, ouviu.

--O senhor pensa que eu lhe tenho medo.--

Esbofeteou-a; o temperamento molle da Joaquina prorompeu n'um soluo
comprimido, Ermelinda interveio, patrocinou a causa d'ella...

--Nem quero ouvir fallar de tal mulher, contas e rua, j...--e sahiu da
sala, um ar embofado de D. Quixote--

--C a espero no escriptorio.

--Oh, minha rica senhora--e abraaram-se as duas, uma effuso tumultuosa
de lagrimas, um adeus  convivencia de dezoito annos,--

--Tem paciencia, Joaquina, eu hei-de fazer-te tudo que puder, mas
que queres, tu bem o conheces--

--Ah que se no fosse a senhora e a menina!

--Ento, mulher; olha, talvez a mais infeliz de todas seja eu...--

--E  sim, j se v, que ; ai agora,  que a senhora as vai penar com
aquelle carrasco... mas olhe que para si eu sou sempre a mesma... casas
no me ho-de faltar, ainda outro dia a D. Amelinha Bastos me fallou,
quando ahi esteve por occasio da morte do Snr. Jorge... ai que grande
falta elle fez n'esta casa...

--Mas ento com isso nada se remedeia!...--

Foi arranjar a caixa, veio entregar-lhe a chave,--se a queria ver--

--Oh, Joaquina que at me offendes com isso.--

O Alberto pagou-lhe pontualmente, despediu-a com um ar secco,

--Que estimava que fosse feliz.--

E viu-a partir seguida d'um gallego, que levava a caixa, respirando
emfim por se ter desfeito d'aquella testemunha das suas humilhaes,
d'aquella columna de apoio em que ainda se encostava affectuosamente a
alma de sua mulher.

Mas a Joaquina fra, o eixo sobre que girava a _menagerie_ das cousas
domesticas, havia-se partido: criadas inculcadas por adelas principiaram
a succeder-se, uma indifferena por tudo quanto pertencia  casa,
reclamando a sua liberdade dos Domingos, roubando escandalosamente nas
compras, namorando s tardes com os criados visinhos.

Ermelinda enfastiava-se d'estas pequenas minudencias de casa,
confiara sempre na Joaquina e nunca se importara em dirigir a sua
actividade n'esse sentido; e depois, agora que o tentava, que o seu
instincto de _menagerie_ se despertava, que tinha de pensar na educao
da sua Rosina, um grande desgosto a minava surdamente, enchendo de tedio
todos os seus actos.

O pae e a criada que quasi lhe fra me, tinham-n'a abandonado, ficara
entregue ao poder d'um marido, que principiava a detestar, a reconhecer
como um tyranno insupportavel, a desmascarar d'aquella falsa douradura,
com que at ahi encobrira todos os egoismos e todas as infamias; o
caracter d'elle ia-se desenhando com uma nitidez de contornos
assustadora e a cada revelao d'aquella alma to vil o seu espirito
recolhia-se como que dentro d'uma armadura crystallina, onde apenas se
queria ver isolada com o sentimento da maternidade, o unico j agora que
lhe restava.

Mas faltava-lhe a base d'uma educao solida; no sabia ter a tenacidade
da lucta, um grande sentimento doentio a quebrantava, chorava como uma
suppliciada diante das mais pequenas difficuldades que surgiam,
orvalhava com lagrimas constantes o rosto assetinado da sua Rosina. O
instincto da mulher levantava-se s vezes como uma boa flr que nasce
por entre a aridez das urzes, mas o Alberto tinha sarcasmos crueis para
aquelle rejuvenescer d'uma alma nova, murchava com o sopro das suas
grosserias aquellas subtilezas perfumadas, em que o seu corao se
desentranhava, todo cheio de esperanas e de risos limpidos.

Vivia por isso desgostosa, um aborrecimento por tudo o que a cercava,
repoltreada na sua _chaise-longue_, entregue  leitura d'um romance,
deixando quasi sempre a direco da casa confiada a uma creada que a
illudia.

Gastava-se demasiado, o Alberto principiava a ter injurias insultantes,

--que no queria litteratas em casa, que era preciso uma California para
sustentar aquelles esbanjamentos, que olhasse pela sua vida,--o dinheiro
no se roubava.--

Ella replicava logo

--que o no estragasse elle l por fra,--para que tinha despedido a
Joaquina, uma criada em quem se podia confiar!... s se queria que fosse
ella varrer e cosinhar, no lhe faltava mais nada.--

Uma saraivada de insultos se trocava entre os dous; o Alberto sahia de
casa para s voltar altas horas da noite, ella estancava-se em chorar,
desgostosa por no ter um corao amigo, onde podesse entornar aquellas
lagrimas que escaldavam o seu.

Foi n'uma situao d'estas que a D. Clementina a veio encontrar, n'uma
visita  tarde,

--tinha ido ao Palacio, mas estava tanto vento, lembrara-se de vir
passar com ella um bocadinho.

--agradecia-lh'o, estava to s ultimamente.--

--e teu marido, menina, e teu marido?

Encolheu os hombros, as lagrimas a pullularem irrequietas por entre as
palpebras.

A possuidora do Tt farejava um escandalo, um segredo de familia, um
drama intimo de que ella ia ser a unica espectadora talvez.

--E at ests mais magra, menina, crdo! parece que no vives muito
feliz.--

--As felicidades, D. Clementina, so boas para quem as merece a Deus.--

--Oh, filha! desabafa, tu bem sabes que isto aqui  um poo--e apontava
para o corao--as amigas no se fizeram para outro fim! No sei se te
lembras da Vicenciasinha, que morreu envenenada, pois olha que tudo me
contou e eu... ba... calada como um pto... isso assim  de te matar
lentamente; desafoga, menina, no ha mal que no tenha remedio.--

Insinuava-se, offerecia a sua alma como um consolo anodino e bom, um
balsamo que se entorna sobre feridas irritadas.--

--No, no a deixaria sem que ella se tivesse aberto para com ella, fra
sempre muito sua amiga, desejava dar-lhe uma prova verdadeira d'isso.--

Ermelinda foi desfiando lentamente os espinhos do seu martyrio obscuro;
sentia-se alliviada, uma oppresso que lhe deixava desafogado o peito,
mais forte com as consolaes affectuosas d'um carinho, que desde muito
ninguem tinha para com ella.--

--Narrou as groserias do Alberto, a despedida da Joaquina, uma criada de
dezoito annos, que a trouxera ao collo tanta vez, o inferno do seu viver
atormentado, as altas horas da noite a que elle recolhia, a sua
indifferena por ella e at pela pequena, as revelaes em que se
patenteava a vilesa d'aquelle caracter;--

A D. Clementina benzia-se, interrogava minuciosamente, indagava com
muita curiosidade.

--Oh, filha, eras digna de melhor sorte.

--ento, que lhe havia de fazer... mas que dizia ella a tudo aquillo?

--Eu sei c, menina, vai tendo resignao, vai tendo paciencia; os
homens s vezes teem d'estes _rompantes_, mas passa, passa, quem sabe
at se andar por ahi mal _encaminhado_.--

--Oh, D. Clementina nem me diga...

--Pois olha que no  outra cousa, e hei-de-o saber com certesa; tu
vers como sae certo, isso so favas contadas...

Entornava-lhe na alma o veneno do ciume, com um grande desamor cruel,
fazendo alarde da sua experiencia em casos d'aquella ordem.

--No era o primeiro, e depois olha _quem_!... se no se recordava
d'aquella historia com a mulher do commendador Bernardo...; mas havia de
o saber--protestava com empenho--e conversariam depois, viria agora
visital-a mais a miudo, at lhe levava a mal que a no tivesse chamado
ha mais tempo, as amigas conheciam-se nas occasies.--

Ermelinda ficou como um doente a quem se acalma a dor com a ministrao
d'um veneno... aquellas palavras da sua amiga corriam-lhe na alma ao
arrepio, como uma bafagem quente de vero, que respiramos mas que
reconhecemos nociva; parecia-lhe que uma sensao extranha germinava
dentro de si, crescendo com um grande vigor luxuriante,
assombreando com as suas folhas envenenadas o pouco sol que ainda sorria
e lhe cantava.

Tudo lhe perdoaria menos isso--

A sua vaidade de mulher formosa crispava-se em revoltas instinctivas, e
a lembrana de que uma outra possuia aquelle homem, que ella rodeara dos
perfumes calcinantes da sua paixo, batia-lhe a alma como uma onda
tempestuosa de ciume, pungia-lhe o orgulho em humilhaes amarguradas.--

--Era talvez at a essa infame que ella devia o seu infortunio,--agora
estava explicado tudo.--

As palavras da D. Clementina tinham sido uma revelao,--fizera-se a luz
diante d'aquelle desvendar d'illuses--

--oh no havia que duvidar--

E relacionava todos os seus dissabores, todas as irascibilidades, todas
as suas questes com Alberto n'aquelle principio de causalidade,
attribuindo-lhe a origem dos seus males, do seu viver infortunado e amargo.

--mas vingar-se-hia! seria generosa e sublime, teria d'ora em diante
para com elle todos os carinhos, todas as delicadezas, todas as
submisses; seria uma lucta travada no desconhecido, sem que elle
podesse penetrar a causa d'aquelle seu redobrar d'affectos; roubal-o-ia
a essa mulher funesta, conquistando-o ainda com a sua belleza, com a
fora do seu ciume, com a energia de todos os seus direitos de esposa e
de amante.--

E sentia-se agitada d'uma vida nova, o corao alvoroado, a alma
fortalecida para aquella peleja, elevando-se aos proprios olhos pelo seu
papel de heroina e de martyr, o orgulho de se no deixar vencer, a
vaidade propria espicaada.--

A D. Clementina voltou alguns dias depois.

--Altas novidades, menina, altas novidades.--

--ento, dissesse, estava anciosa por saber--

--que lhe dizia ella?... era verdade, doia-lhe dar aquelle golpe, as
cousas porm s se remedeiavam depois de sabidas,--

--j estava resignada, era a sua sorte--

--mas no valia a pena affligir; era a Annita, uma creatura  _toa_,
aquella que s vezes apparecia no S. Joo, ssinha n'uma frisa...

--So as peiores, D. Clementina, so funestas essas mulheres.

--e demais tinham-lhe dito que estava por conta d'um brazileiro, ainda
lhe no sabia o nome, mas no descanaria em quanto o no soubesse.--

Expunha com muita verbosidade casos identicos, aconselhando pequeninos
tramas, muito contente do seu papel confidencial, creando uns fros de
indispensabilidade no decorrer d'aquelle drama domestico.

--Fosse com ella o caso e veria.--


XIV

Por um d'esses phenomenos emotivos, de que s o capricho parece poder
dar razo, quando se trata d'uma mulher, Annita, regalada na sua
vida feliz, as ambies saciadas pela profuso aurea do commendador,
principiou a sentir em si um grande tdio nostalgico, desde aquella
noute, em que no S. Joo tinha visto o Alberto, o binoculo fito na sua
frisa, curvando-se depois para segredar com Ermelinda.

Vinham-lhe as recordaes alegres do seu passado, buliosas de vida e de
enthusiasmo, dominando na fluencia da sua luz as manchas escuras, que
lhe tinham feito conhecer o travor de tantas lagrimas.

Ao ver o Alberto com aquella mulher, que lhe chamava seu, experimentava
um pequeno ciume, uma como que irritao da sua vaidade, um obstaculo
que se levantava  exigencia d'um seu capricho.

--Quizesse eu e veriamos--dizia para se consolar, uma grande confiana
no seu poder de seduco, os labios contorcendo-se desdenhosamente.

--mas no, no queria--argumentava, buscando na sonoridade das negativas
um ponto de apoio em que firmasse a sua vontade, que se ia quebrantando..--

--era o que lhe faltava! agora que estava como n'agua!...

Scismava um pouco,

--mas tambem o commendador era to aborrecido!... s vezes dava-lhe
vontade de o enviar ao diabo para que o aturasse--... e era galante, uma
pequena perfidiasinha...,--

O Alberto principiou a perseguil-a; offerecia-se com um grande cynismo
indigno, apparecia-lhe em toda a parte, passava vagarosamente
recostado n'uma _victoria_ de praa por debaixo da sua janella.

Resistira-lhe muito tempo, mas--elle era teimoso, ella no o ignorava--e
pouco a pouco amollecia n'aquella resistencia de vingana.

--Alem d'isso escrevia-lhe, protestava-lhe que no era feliz, que nunca
mais tivera um momento de santa alegria desde que rompera as relaes
com ella...

--j o tinha desesperado bastante, o pobre rapaz,

sentia uma necessidade d'aquellas convivencias estroinas, que o
commendador condemnava, com o seu ar pacato, o bom conselho d'uma
prudencia moderada,--de que os excessos prejudicavam a saude--e alm
d'isso mordia-a a curiosidade de saber d'Alberto as intimidades da sua
vida, das suas relaes com aquella outra, por quem elle a havia
trocado, que lhe chamava seu com tanta segurana.--

E quando  tarde o Alberto passou recostado nas almofadas da _victoria_
um sorriso lhe escapou dos labios, fugitivo como uma promessa de perdo,
suave como uma esperana de paz.

Tiveram em seguida todas as palpitaes quentes do romance; o Alberto
vinha quando o commendador no estava, sahiam disfarados para o campo,
tinham as suas ceias no gabinete azul de mobilia estofada, quando a
_criada_ despedia o brazileiro sob o pretexto d'um grande encommodo de
cabea, de que a menina fra acommettida.

Annita achava tudo aquillo muito natural; partilhava o seu corpo entre
os dous com uma rectido segura de consciencia, como quem cumpre um
dever de mercenaria e uma imposio do corao, espreguiando a alma
n'esta bonhomia deleitosa, contente por se ver rodeada d'um conforto,
que tanto desejara.

O Alberto porm indignava-o aquella sociedade ignobil com o ouro do
commendador; parecia-lhe pouco decente servir-se d'uma mulher que outrem
sustentava, no porque elle achasse o facto indigno como um attentado
contra um principio de honra, mas porque era realmente reles no poder
ssinho sustentar todo aquelle luxo d'uma amante, ter de privar-se de
certas liberdades, occultar-se timidamente como um estudante de dezoito
annos.--

Meditava por isso um golpe de mestre; mordia-o a vileza das ambies de
fortuna, e desejava ser rico dentro de pouco tempo, custasse o que
custasse.--

Achava-se abjecto diante d'aquella secretaria, onde escrevia, quando no
gabinete da thesouraria do Banco negociantes entravam e sahiam,
ouvindo-se dentro o tilintar sonoro do ouro, os algarismos
precipitando-se em accumulaes estonteadoras.

--Tentou as falsificaes d'umas lettras de cambio; a fortuna
protegeu-o, ninguem deu por tal; a felicidade deu-lhe azas  audacia,
procurou fazer a imitao d'uma firma que assignava uma lettra no valor
d'alguns contos de reis.

Mas a direco apercebeu-se a tempo; chamou-o ao gabinete.

--Estava despedido e no o mettiam n'uma cadeia por considerao para
com a pobre senhora filha d'um collega.--

Empallideu. Nem podia dizer se era de raiva, se era de dor;--aquella
despedida desbaratava todos os seus castellos doirados, sentia-se
pusillanime diante da perspectiva da vida de tribulaes que se abria na
sua frente.

E quando chegou a casa, um forte abatimento o prostrava, quebrando-lhe
toda a energia; annunciou a sua despedida ainda com um ar de ironia...

--Sabes, Lili, aquelles senhores do Banco, uns figures _honrados_,
despediram-me.--

--A ti!... perguntou surprehendida,--

--Sim, a mim, no lhes fazia l conta; achavam-me demasiado tolo para
comprehender as suas gentilezas...--

Ermelinda teve a boa coragem consoladora das mulheres dignas;
parecia-lhe at que d'ora em diante o amaria mais, achar-se-ia com mais
fora para se sacrificar por elle e levantava-o na ara do seu corao
por ter sido um homem honrado, que no quizera compartilhar as
indignidades d'uns ladres engravatados.

--Ora no te afflijas, seremos um pouco mais economicos, emquanto te no
empregares de novo,--

Um enternecimento brando lhe dilatava a alma, acarinhando-o muito,
beijando-o affectuosamente na fronte, a sua mo cofiando-lhe o cabello
negro como que a excital-o corajosamente para as novas luctas, a
palavra derramando-se untuosa como um balsamo por sobre aquelle golpe da
adversidade.

Adormentava-o na dor, communicando-lhe a grande fora da sua f, conscia
de que praticava formosamente um dever, o corao sentindo-se
transbordar de sentimentos meigos e carinhosos, com que desejaria
n'aquelle momento alastrar o cho da sua existencia, tornando-lh'a suave
como um velludo.

Mas o Alberto achava-se ridiculo n'aquella posio; mordia-o cada vez
mais a inveja de fortuna, tinha sde d'uma vingana estrondosa, em que
podesse abater o orgulho dos ricos que agora se affastavam d'elle;
queria sobre tudo humilhar--aquelles pulhas do Banco.

Quasi o importunavam os extremos de carinho que sua mulher lhe
dispensava, e na sua imaginao excitada por aquelle insuccesso
levantavam-se novos castellos de Hespanha, jogaria forte, o ouro viria
como uma grande torrente que o innundasse:

--faria um partida valente aos honrados burguezes, o commendador seria a
primeira victima, tirar-lhe-ia definitivamente a Annita, installando-a
n'um luxo de bom gosto, pompeando com a formosura d'ella por sobre a
gula concupiscente dos pelintras, que adornavam a porta do Suisso.--

 falta d'uma occupao que lhe gastasse o tempo pavoneava-se pelas
mezas dos cafs, pelas esquinas das tabacarias, n'uma grande
ociosidade vadia, commentando as pequenas intrigas de theatro, o
escandalo ultimo, a marcha politica dos acontecimentos. E  noute a
baeta verde chamava-o com fascinaes irresistiveis; recolhia tarde,
quasi sempre de madrugada, quando os lampees principiavam a apagar-se,
e que o movimento dos operarios comeava ruidoso, o silvo agudo das
fabricas vibrando atravez da neblina esfumada da manh.--

Ermelinda esperava-o com mansa resignao,

--que lhe faziam mal aquellas noitadas, se no tinha pena d'ella que
ficava to ssinha,--que a Rosina tinha despertado duas vezes e
perguntado pelo pap.--

Respondia-lhe com azedume, uma nortada rija,

--que o deixasse, no estava para a aturar.--

Cahiam-lhe no espirito aquellas palavras mansas e cordatas, queimando-o
como um cauterio de dever, preferindo que ella tivesse aquellas
resistencias asperas, aquelle tom acrimonioso das questes d'outr'ora.
Julgava esta mansido uma hypocrisia, um egoismo refalsado:

--Como no tinha o paesinho que lhe aquecesse as costas, era aquillo,
tudo palavrinhas doces.--

E deitava-se brutamente fatigado, indifferente quellas caricias que o
provocavam, aos affagos da pequerrucha que vinha muitas vezes beijal-o
com a alegria infantil das creanas, que despertam cedo.

Mas o jogo ia levando as economias de Ermelinda, o dinheiro escasseava,
recorria-se um pouco ao credito; o Alberto protestava ressarcil-a
de todas as perdas da occasio e pedia-lhe as joias com uma
suavidade lamuriosa,--

--que tinha entrado n'umas transaces que lhe dariam um lucro certo,
esperava obter um emprego com aquelle dinheirito--fazia muitos planos,
um futuro delicioso em que ella e a filha tomavam a maior parte.

--Levasse-as, levasse-as, oxal dssem o resultado que elle desejava.--

Mas as joias entravam logo n'uma caixa penhorista; o Alberto jogava o
dinheiro, pagava ceias, levava vida folgada emquanto durava o producto
da venda.

Uma madrugada em que de vespera tinha empenhado uma d'essas joias,
entrou em casa brio, cambaleando, uma phraseologia de bordel
cumprimentando Ermelinda.

Foi preciso que a creada, juntamente com ella, o viessem auxiliar ao
subir da escada. Mas elle protestava--

--que no estava bebedo, apenas um poucochinho entrado--e pedia um beijo
 criada, uma trigueira que parecia descender directamente do chimpanz,
de feies largas, rindo maliciosamente d'aquelle pittoresco Noemico.

E j no quarto, a palavra balbuciante, pedia a Ermelinda:

--que se lhe sentasse nos joelhos, haviam de fazer uma pirraa ao
commendador, os dois estariam abraados quando elle chegasse. Uma grande
risada, estendia os braos tremulamente para a alcanar, fallando-lhe
com uma alegria inconsciente.

--Sempre o mesmo demonio, esta _gatinha parda_, que viesse!... ento...
e a nossa filhinha, coitadinha da pequerrucha... que morreu--

e desatou a chorar, a embriaguez cahindo rapidamente n'um periodo
comatoso, a palavra rareando, as phrases tartamudeadas.

Ermelinda sentiu uma pallidez branca invadir-lhe a face; revoltava-se de
nojo perante aquelle homem, que via brio, patenteando na sua
inconsciencia a alma lodacenta, que ella porfiava em regenerar, em
attrahir para si.

--Oh, no, no era possivel, tudo estava acabado para ella.--

Mas ao mesmo tempo que se revoltava, sentia uma grande commiserao por
aquelle desgraado, uma vontade de se sacrificar para poder salval-o, um
desejo sincero de perdoar, amando-o muito.

--Quem sabe, s vezes qualquer cousa lhe podia fazer mal. Esgotemos o
calix at s fzes, tratemol-o bem, tem-se visto tantos exemplos...--

Armava-se com raciocinios pacientes, encadeando-os logicamente, tirando
do seu corao de mulher energias com que resistir e vencer aquelle
estado, que se lhe affigurava anormalmente transitorio.

O Alberto porm ia perdendo o respeito pela casa; repetia a miudo
aquellas scenas de embriaguez, principiava a ser grosseiro, d'uma
grosseria enodoada de taberna.

A sua paciencia de mulher esgotou-se, recalcitrou fortemente, impugnou-o
com azedume.

--At que emfim a _santinha_ arremessava a capa--respondeu-lhe com ironia.

--que no era santa, estava bem longe de o ser, mas que a paciencia
tinha limites, um grosseiro, isto fazia desesperar,--

--que repetisse, que repetisse,--e crescia para ella, a face affogueada
na congesto do alcool.

--No era elle que fallava, tinha desculpa.--

--Ah, no, no era elle, pois tomasse l--e esbofeteou-a
precipitadamente, arremessando-a contra um movel, animalmente feroz, a
colera faiscando no seu olhar injectado, toda a serenidade perdida.

--Era um inferno aquelle viver assim, infame!--

--No o irritasse mais, se queria os ossos direitos.

--No, aquillo assim no podia continuar.

--Quando quizesse, at lhe fazia um grande favor.

--Se o meu pap fosse vivo!...

--Assobia-lhe agora, dize-lhe que te venha ca valer.--

Ermelinda empallideceu; e logo uma onda de sangue a escaldou, uma
indignao que a suffocava.--

--Demais a mais cobarde, a insultar um morto que lhe tinha feito bem;
era revoltante!--os seus pensamentos atropellavam-se, como creanas
inscientes de um perigo, que se acotovellam sobre a aresta d'um
precipicio. Debruava-se sobre a sua dr intima e uma grande escurido
sombria, onde apenas lucillava humilde a estrella do seu amor de
me, se estendia diante dos seus olhos.

--Era preferivel matar-se!--dizia.

Mas a imagem de Rosina levantava-se, como uma margarida branca a
indicar-lhe a grande lucta da vida; e foi d'ali abraar-se n'ella
demoradamente, os olhos copiosos de lagrimas:

--Minha filha, minha pobre filha.--

      *      *      *      *      *

Estas scenas continuavam; viviam mal, o Alberto, perdido uma vez o
respeito por ella, usava d'uma violencia brutal pela mais leve
questiuncula. No queria que lhe exprobrassem o seu procedimento, e
Ermelinda tinha muitas vezes de fechar-se no quarto com a filha para
escapar  irritao da sua colera, do seu _mau vinho_. Um dia porm
levou o insulto mais longe; foi o cumulo dos opprobrios para ella;
trouxe-lhe a Annita, offereceu-lhe de jantar, fez com que Ermelinda a
servisse, obrigando-a pela ameaa da fora.

--Oh, era de mais, era de mais tambem--dizia amargurando-se, imbelle
para romper com elle, para fazer valer os seus direitos, para se fazer
ao menos respeitar dignamente.

--que lhe batsse, perdoava-lh'o j, mas apresentar-lhe aquella mulher
em casa, obrigal-a a ser sua escrava, ver sobre o pescoo d'ella uma
joia que fra de sua me,--no, no podia resistir--

mas quebrava nas lagrimas a sua reaco corajosa, no sabia mesmo o que
havia de fazer, causava-lhe medo o ver-se depois isolada, sem
foras para luctar, sentindo-se fraca e impotente diante do mundo que
ainda talvez a condemnasse.--

Emmagrecia rapidamente, a sua formosura emmurchecida pelos dissabores e
soffrimentos physicos, umas olheiras roxas occupando metade da face.

--Sahiria, iria tomar conselho com alguem, queria desabafar, no podia
mais!--

E procurou a D. Clementina; encontrou-a a brincar com o Tt, muito
folgada na sua vida de solteirona, as carnes cada vez mais dilatadas
n'um contentamento de nutrio feliz.

--Oh, mulher, tu parece que vens do Repouso!

--Antes l estivera, que no seria to infeliz!

--Desabafa, menina, desabafa.--

--Oh, Pulcheria--chamou para a criada--leve a menina e d-lhe
biscoutos--era preciso ter cautella em fallar diante de creanas--dizia
prudentemente.

--E ento a Rosina que era to viva.--

--Pois por isso mesmo; ento menina, conta l.--

Fez-lhe uma confidencia completa; narrou-lhe dolorosamente a inutilidade
dos seus enthusiasmos em o regenerar, as suas noites perdidas, as
violencias de que era victima

--que visse,--e mostrava-lhe os braos com largas echymoses, como nodoas
de tinta postas na tez assetinada.--

--Mas isso  um horror, filha, tu no pdes continuar a viver com esse
monstro.

--E ainda aquillo no era nada, que fosse vendo, que fosse
vendo--descobria-lhe o corpo, n'um impudor precipitado, nodoas roxas
apparecendo a macular a brancura da pelle.

--Mas eu tudo lhe perdoaria, tudo! a ultima, porm, que elle me fez, a
de me levar a casa aquella maldita mulher, obrigar-me a servil-a, oh! D.
Clementina, eu na presena d'ella no chorava, no lhe queria dar esse
prazer; mas depois, quando estive s, as lagrimas eram como punhos,
queimavam-me.

A D. Clementina enternecia-se, consolava-a com brandura, tinha para
suavisar-lhe aquellas dres palavras dces, d'uma ternura lacrimosa,
chorando tambem.--

--Mas nem mais um dia com esse homem!  tratar da separao, e isto j,
antes que elle te d cabo do que  teu e da tua filha; ainda que no
fosse seno por causa da pequena, que est a ser escandalosamente
roubada, e depois que exemplo!... bradava ao ceu.--

Ermelinda tinha objeces fracas, adversativas hesitantes...

--mas que diria o mundo...

--o mundo, ora no faltava mais nada; estar uma victima ali debaixo do
jugo do carrasco e ainda por cima havia de fallar! que lhe importava a
ella! Com elle escusava tentar a felicidade, era remar contra a mar.--

--sabia isso, mas to s, que vergonha!... e depois que posio a sua!
Nem solteira, nem casada!... Uma cousa assim!--

Mas a D. Clementina tinha a coragem da reaco, communicava-lhe energia

--fosse ella homem e veria se a no fasia j assignar um requerimento ao
juiz!... mas iria ella mesmo a um advogado! No, que eu fui muito amiga
de tua me, isto ,--considerou--ella era um pouco mais velha do que eu.--

--se eu tivesse pae, D. Clementina.--

--mas no tens, acabou-se, d'ahi no vem agora o remedio!... Descansa
que eu manh l vou a tua casa; boa! eu te direi o que tens a fazer!...

Sentia-se contente do seu papel activo, uma soluo rapida a todos os
obstaculos, uma consciencia da sua imprescindibilidade, detalhando
planos com uma volubilidade agitada, communicando-lhe uma excitao de
energia, chicotando a sua mollesa hesitante e irresoluta.--

--Tu vers, tu vers como tudo ha-de correr bem!  preciso pr termo a
esse martyrio.--

E quando a Ermelinda sahiu, a D. Clementina sentou-se a uma
escrivaninha, fez um pequeno bilhete n'uma calligraphia miuda e
redondinha, e chamando a Pulcheria:

--Toma, vae levar isto ao hotel, ao Snr. commendador.

--Ao Snr. commendador!

--Sim, ento, fica-te ahi pasmada se te parece!--

      *      *      *      *      *

O commendador palitava os dentes, recostado n'uma cadeira de braos,
muito satisfeito da sua digesto regular; o criado veiu:

--que a moa da D. Clementina tinha entregado aquillo.--

--Me no larga a carioca--pensou o brazileiro.

E abriu o bilhete; uma pallidez leve o invadiu, ficou immovel; e logo,
levantando-se, uma resoluo tomada...

--que dissesse  criada, que l ia j.--

Veiu para o quarto, releu de novo; a D. Clementina dizia-lhe:

Peo-lhe o obsequio de me vir fallar immediatamente; trata-se de
arrancar a pobre Ermelinda a um martyrio cruel.

--Mas que martyrio ser este, ein?...--

--o marido talvez... me recordo agora que o Jorge ao morrer me disia que
ella no era feliz... ha-de ser isto, ha-de... pois cumprirei a minha
palavra... apesar de que a gente metter-se entre casados... veremos,
veremos... a D. Clementina me explicar!...  mulher para revolver meio
mundo.--

E apresentou-se em casa d'esta; atacou-o ex-abrupto.

--Contei comsigo e parece-me ter feito bem...

--Oh, minha senhora!...--

--Eu lhe digo, se eu fra homem, trabalharia s, assim no me  possivel.--

--Mas estou inteiramente  sua disposio.

--Trata-se de obter o divorcio de Ermelinda.

--Mas isso  negocio to grave--atalhou o commendador.--

--Por isso mesmo  que precisa ser resolvido e de prompto...
desculpe-me, eu nem lhe roguei que se sentasse, mas tenho as ideias
to confusas...--

O commendador tomou logar no soph; o Tt rosnava roando-lhe pelas
pernas.

--Oia, ella esteve aqui ha um instante;  uma martyr, a pobre creatura!
se lhe visse o corpo... tudo so manchas de pancadas, nodoas negras que
o senhor no imagina.--

--Mas isso  uma barbaridade!...

--, , e para evitarmos que um dia qualquer aquelle monstro a mate, 
que a auxiliaremos na separao;  capaz de tudo o maldito!... E depois
se fra s isso!...

--Ento ainda ha mais?

--Olhe, vai bebado para casa, altas horas da noite, insulta-a,
injuria-a, tem-lhe dado cabo das joias, aquella casa est pela agua abaixo.

--Me espanta tudo isso que diz; no haver exagero?!

--Exagero, exagero! Ns as mulheres s nos revoltamos, quando mais no
podemos soffrer; se a visse ha pouco, como eu a vi, est mirrada a pobre
da rapariga; no tem feito seno chorar!

--Me commove o seu estado, creia, D. Clementina!--

--Podera no, s se o commendador no tivesse corao!... E s vezes
parece no o ter--disse n'uma queixa d'amor no correspondido.--

--Oh, minha senhora.

--E sabe o resto, o que lhe fez aquelle infame!

--Pois mais!...

--Oua e ver! Outro dia, elle anda para ahi a trote com uma mulher
 ta, uma Annita, a quem chamam a _Gatinha parda_!--

O commendador compoz os oculos com uma certa precipitao,
ruborisou-se-lhe o rosto n'um carminado subito; abaixou-se para fazer
uma festa ao Tt, a primeira que lhe fasia em sua vida.

A D. Clementina continuou:

--Pois outro dia teve o descaro de entrar com ella em casa, de lhe dar
de jantar, de faser com que Ermelinda servisse a tal grande senhora.

--Oh,  de mais,  de mais--rompeu o commendador pondo-se em p...

--J v que a pobre martyr no pde continuar a viver com aquelle verdugo.

--No, no pde continuar, fez bem em me chamar; auxilial-a-hei em tudo
o que possa; cumpro mesmo com um dever; o Jorge tinha-me dito que ella
no era feliz, mas a morte veiu, no teve tempo de se explicar.--

--Pois ahi est tudo explicado.

--Infelizmente!... Mas ainda hoje eu irei fallar a um advogado, ein, e
lhe protesto que ella se libertar d'aquelle despota.

O espirito do commendador nunca se sentira to agitado, como desde
aquella revelao da D. Clementina; por um lado, no seu corao uma
chamma d'amor relampejava, inflammando na sua labareda todas aquellas
recordaes semi-extinctas que o tinham feito pensar em Ermelinda, como
um ideal que se no attinge,

--o baile da casa do Mendes, as noites da sueca, o debruar do seu corpo
gentil nos braos d'elle, quando o Jorge fallecera, esta scena
sobre tudo, perpassavam-lhe na imaginao com um colorido quente e vivo,
como se ali refervessem ondas tumultuosas de vapor, que no tivessem por
onde se escapar.

E depois a revelao de que a Annita o trahia escandalosamente,

--ella, a quem elle tinha levantado da miseria, a quem dera sdas e
brilhantes, a quem montara uma casa com todas as commodidades do
luxo,--para outro gozar, afinal--

--ah, era de mais!--protestava--e vingar-se-ia, vingar-se-ia
estrondosamente, despedil-a-ia como quem despede uma escrava, sentindo
apenas que no podesse cortar-lhe as carnes com um bom chicote, como no
Brazil se fazia aos negros! e a elle ento tirar-lhe-ia a mulher como
uma boa desforra, desmascarar-lhe-ia aquella refalsada hypocrisia, daria
uma publicidade grande  sua infamia, exhaltando a martyr, e depois quem
sabia--talvez que no corao d'ella brotasse um perfume de gratido e
amor!... apesar de que a lei condemnava-a brutalmente a um celibatario
perpetuo, uma lei estupida, que a collocava n'uma posio violenta e
falsa, fechando-lhe a felicidade como um pomo vedado,--mas veriamos,
veriamos.--

Foi d'ali ter com um advogado.

--Ella que requeresse, que requeresse, allegasse as violencias, os maus
tratos, as infamias do marido, paragrapho 4. do art. 1204 do codigo,
elle dava-lhe j a norma, e no arrefecessem, conhecia bem aquelle
patife, um vadio que todos despresavam; se sabia a historia do banco,

--No, no, ignorava...

--Pois tinha-se querido abotoar a creana, uma falsificao de firma, a
coisa abafara-se em atteno  pobre senhora...

--Ainda mais essa!... se admirava de tanta audacia!...

-- como lhe digo, e no descanse, no descanse. E o melhor ser tambem
que ella requeira o deposito, o patife  capaz de acabar com ella.--

Sahindo do escriptorio do advogado o commendador comeou a delinear o
melhor plano de se desfaser da Annita; lembrou-se primeiro d'um lance
dramatico

--elle iria, surprehendel-a-ia em flagrante, despedil-a-ia com
violencia, seria inexhoravel, impetuoso como um tufo.--

Mas a prudencia aconselhava:

--que a cousa podia tornar-se escandalosa, com aquellas mulheres tudo
era de esperar, depois um conflicto com elle, nada, nada, o melhor era
dar ao diabo tudo aquillo, despedir-se por uma carta, no querer saber
d'ella para mais cousa nenhuma; faria de conta que tinha perdido
aquelles cobres, no lhe fasiam falta, graas a Deus! e livrava o seu
nome de compromettimentos, era melhor, muito melhor...--

      *      *      *      *      *

Onze horas da noite, a Annita recostada n'um soph, o Alberto com a cabea
poisada nos seus joelhos, o fumo d'um charuto a espreguiar-se
voluptuosamente, como um thuribulo que a perfumasse, sentiu a criada bater
uma pancadinha na porta do gabinete.

--Que ?--perguntou contrariada.

--uma carta com toda a urgencia.

Levantou-se, o Alberto ficou a vel-a caminhar, um movimento gracil na
linha dos quadris, os braos ns sahindo provocadoramente das mangas
rendilhadas da camisa.--

--Ento cartinhas a esta hora e urgentes, ah!... trahe o seu Albertinho,
ora deixe estar.--

--Oh, filho, no me bacoreja coisa boa.

Annita abriu a porta; viu-se a criada a estender uma carta, e fechou
logo, um saltinho de _travesti_ indo poisar n'uma banqueta que estava
aos ps do Alberto.

--L tu, filho.--

O Alberto tomou a carta.

--Eu conheo esta lettra com toda a certesa... vejamos a assignatura,
ah,  de S. Ex. o commendador--disse ironicamente,

--que no pde c vir, oh, que pandega, dormes c, est dito; vou dizer
 Emilia que traga _sandwichs_ e champagne.--

--Espera l, espera l.--E o Alberto ao lr, sentia-se tomar d'uma
pallidez desesperadora.--

--ento!

--ouve:--Minha Senhora

--Ora essa, nunca me tratou assim.--

--no me interrompas, com todos os diabos!

--credo, que cara a tua!

--ouve l:--Sabendo do seu comportamento indigno a meu respeito,
envio esta carta como uma despedida formal na occasio talvez em que o
seu amante a possa lr.

                                                               Faria.

--Bonito, sim, senhor!... Eu sempre esperei isto d'aquelle carioca! No
diz mais nada?

--Um post-scriptum.

--Ah, que diz?

--P. S.--Tudo o que existe n'essa casa lhe fica pertencendo; no mais
desejo que me procure.

--T rola, eu procural-o depois d'uma d'estas!--

E enlaando o pescoo do Alberto:

--Oh, filho, agora sim, que somos livres.--


XV

O commendador era d'uma actividade zelosa e multiplicada; conferenciava
com a D. Clementina, consultava o advogado, fallava ao juiz, convidava o
Mendes e o Dr. Roberto para membros do conselho de familia.

O Mendes ainda lembrava:

--a conciliao... seria bom concilial-os... aquillo s vezes era o
diabo.--

--Nada, nada, estava reconhecido que elle era um grande tratante; era
preciso salvar a pobre senhora e a filha! que havia de ser da creana
com aquelles exemplos! no lhe diria!--

--visse na que se mettia! por elle estava prompto a acompanhal-o.--

O Doutor concordava tambem:

--era um triste remedio, mas era infelizmente o unico; ella ficaria
n'uma posio falsa, evidentemente falsa, condemnada pela brutalidade da
lei a um ostracismo perpetuo, inutil para a sociedade, como aquellas
antigas martyres que morriam entaipadas, mas que se lhe havia de fazer?
o indispensavel era poupal-a ao menos s violencias d'um infame.--

Poucos dias depois s onze horas da manh uma carruagem parou  porta do
Alberto...

Sahiram dous homens e uma senhora ficou ainda.

Eram o juiz e um escrivo.

N'aquella manh o Alberto recolhera tarde de casa d'Annita; o seu
espirito andava irritado com as contrariedades que de toda a parte o
rodeavam, e cheio de um mau humor canalha tinha ainda pouco tempo antes
espancado brutalmente sua mulher.

O juiz encontrou-a ainda com os olhos humidos de lagrimas, as palpebras
inchadas.

O Alberto, quando o magistrado se fez annunciar, sentiu-se invadir d'um
terror cobarde; foi todavia amavel, d'uma amabilidade ironica, quando
teve de dirigir-se a Ermelinda,

--Se ella quer...

Ermelinda chorava, a Rosina chorava por ver chorar a me, e nos seus
olhos limpidos, um espanto se desenhava como que adivinhando que alguma
cousa de grave se estava passando.

Ermelinda hesitava; mas depois, como uma onda que se arremea
precipitadamente na praia:

--Sim, senhor juiz, a fatalidade a isso me obriga; vou,
acompanhal-o-hei, mas hei-de levar a minha filhinha!

--Prepare-se ento, minha senhora, a sua filha ir com V. Ex., a lei
authorisa-me essa providencia; o seu deposito provisorio far-se-ha em
casa da D. Clementina.--

O Alberto perdeu a serenidade.

--Eu logo vi que havia de ser esse bandalho.--

--Lembro ao cavalheiro que est diante d'um magistrado,--observou-lhe
severamente o juiz.

Ermelinda sahiu para voltar logo; trajava de preto, um vo descido, as
lagrimas a saltarem silenciosamente dos seus olhos, a filhinha pela mo,

--Ento ns vamos embora?--perguntou a Rosina.

--vamos, filha, para nunca mais voltar.--

--quero levar ento as minhas bonecas.

O juiz affagou-a:

--A mam dar outras depois--

e voltando-se para Ermelinda:

--V. Ex. no quer mais nada d'esta casa?

--no, senhor juiz, estou prompta.

--n'esse caso partamos.--

A filha do Jorge sentia-se fraca, o espirito abatido diante d'aquelle
momento, que ia cahir, como a louza d'um tumulo, sobre toda a sua
existencia, apagando-a para a felicidade; a Rosina sentia tremer-lhe a
mo e ao ver que a mam continuava a chorar, os seus olhos d'uma candura
d'anjo mareavam-se de lagrimas tambem.

O juiz esperava, um ar sereno, de gravidade compungida.

Ermelinda fez um esforo; dirigiu-se ao marido, apertou-lhe a mo.

--Adeus, Alberto, s feliz e perdoa-me!--

--adeus, senhora--respondeu seccamente.

A Rosina perguntou espantada:

--O pap no vem?

--no, filha, d-lhe um beijo.--

O Alberto levantou a creana, beijou-a nervosamente, uma lagrima de
emoo rolou precipitadamente sobre a sua face.

--Adeus, filhinha!...

O juiz interveio:

--Vamos, senhora, poupe-se a estas scenas dilacerantes.

Desceram a escada; o Alberto viu-os descer, a Ermelinda primeiro com a
filha, depois o juiz, atraz o escrivo.

Uma voz de mulher, que vinha da rua, repercutiu na escada.

--Coragem, menina, ests livre d'esse monstro!--

Era a voz da D. Clementina. A carruagem rodou, n'um murmurio fremente de
calada.

Passada a emoo de momento, o Alberto passeava phreneticamente no
gabinete.

--Ento, ein, no fui comido! Tudo se conspira contra mim com mil
diabos!...

Pensamentos de vingana, d'uma desforra estrondosa, lampejavam no seu
cerebro escandecido; acalmava porm, reflectia:

--E agora era tirar de tudo o melhor proveito! que a levasse o
demonio! l  pequena tinha-lhe um bocado de amisade, mas adeus, isso
passava.--

Ideias se encadeiavam n'uma associao tumultuosa, e a sua reminescencia
avivava as lembranas do passado, o namoro com ella, o casamento,
que--tinha sido afinal um logro porque tinha menos do que elle pensava--

a sua lua de mel, as primeiras questes, o seu emprego no Banco, a morte
do Jorge, a reconciliao com a Annita.

--eu fui um bocado violento, devemos confessar,--mas com um raio, no
era para me fazer isto!--comparava-a com a Annita, que o tinha aturado
um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e
afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus
caprichos,

--e vou-me at l, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil
diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma
comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faa de mim um personagem...--

Fluctuava j indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante
da figura arrebicada e _travessa_ da Annita,--que riria muito, e pediria
champagne para festejar a sua liberdade d'elle.--

--Vida airada, e nem se lembrava de tal! j devia ter sido ha mais tempo.--

No o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu
egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; no sentia a
falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o
aborreciam! O que elle queria era dormir, descanar, quando vinha de
fra,--aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe
sombras fluctuantes, como as vises de sonhos incompletos! E agora
parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da
sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e
embriagante.

Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns
habitos preguiosos de _cocotte_, deshonrando-se, se tinha de por-se a
p antes da uma hora.

Sentou-se na margem do leito.

--Sabes Annoca, estou sem mulher!...

--sem mulher, conta l isso--e sentou-se, o corpo recostado na almofada,
a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiosa
por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se
n'uma linha correcta d'uma cr leitosa e velludinea.--

Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a
Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se
n'uma provocao concupiscente.

--Ah, ah, oh, deixa-me rir; com que cara no havias tu de ficar, e
dou-te os meus sentimentos, menino, dou-te os meus sentimentos; eu
tambem estou sem homem!--

Ria muito, umas gargalhadas limpidas, espadanando-se de encontro quelle
caso to serio, comparando a situao dos dous,

--nem de proposito, s a ns!...

--mas que graa lhe encontras tu!

--graa, pois no tem!... a modo que ficaste com pena... a Gatinha tem
ciumes, ouviste!...

beijou-o no pescoo, mordendo-o sensualmente, uma provocao
excitando-o, cheia d'umas caricias felinas.

--E estamos livres outra vez,  como d'antes!... agora sim que me agrada
isto!.... Vamos ser um do outro para sempre... valeu?

--Valeu, com mil demonios--e enlaou-a nos braos, queimando-se na
quente languidez d'aquelle corpo, o olhar esvaecendo-se n'aquella nudez
appetitosa, d'um trigueiro rosado, uma pennugem negra maculando-a.

      *      *      *      *      *

Alguns dias depois, no tribunal, em audiencia secreta, tinha logar o
julgamento da aco, que separava definitivamente de pessoa e bens os
conjugues Alberto de S e Ermelinda Jorge.

Estavam o Commendador, o Mendes, o Dr. Roberto, o Luiz Serra e o
Guilherme, cazado com a Amelinha Bastos, e ainda o Juiz, o escrivo, o
delegado do ministerio publico, os advogados.

Ermelinda estava com a filha a um lado, Alberto a outro, uns bellos ares
contristados d'uma gravidade composta.

Recolhidas as testemunhas o juiz dirigiu aos dous palavras prudentes de
conciliao, d'uma severidade amiga e triste.

Mas o Alberto protestou logo,--

--no, que pela parte d'elle no desejava tal conciliao, seria
uma indignidade, quando fra ella que requerera o divorcio.--

Ermelinda por sua vez dizia:

--que bastava de martyrio, que esgotara o calix, no desejava de novo
unir-se a elle; uma vez dado aquelle passo no voltaria atraz.--

As testemunhas ento vieram depr; a D. Clementina e a Joaquina
especialmente foram eloquentes, d'uma convico odiosa contra _aquelle
senhor_, que era peior que um selvagem--dizia a ex-criada vingando-se
d'aquelles bofetes, que a tinham despedido.

Os advogados fallaram, uma rhetorica eloquente, sobretudo o advogado
d'Ermelinda, a quem o commendador promettera uma boa recompensa; e em
seguida o juiz, os vogaes do conselho de familia, o ministerio publico,
o escrivo recolheram-se a uma sala de conferencias, votaram a separao.

Depois, por um accordo reciproco, convencionou-se que a filha ficasse
com a me, podendo ir visitar o pae todas as vezes que este o exigisse.
A questo de bens tinha pouco litigio; o Alberto fra desbaratando as
pequenas economias do Jorge e alguma cousa que restava concordou-se, que
ficasse como subsidio de alimentos e como dote para a pequena.

Vestida de preto, a Rosina pela mo, os olhos cubrindo-se de lagrimas,
vexada no seu novo estado, cedendo ao peso da vergonha d'aquelle
processo judicial, Ermelinda entrou em casa da D. Clementina, muito
commovida, branca de marmore, a voz soluante.

--Tudo, tudo acabou!

--ou elle credo, nem que tivesse morrido alguem.--

--antes morrera eu, D. Clementina, teria sido mais feliz!...

--e a tua filha, sim, no me dirs? o egoismo no te deixa ver o que
seria d'essa creana sem pae, nem me?...

--Tem razo, tem,  preciso viver para ella; ha-de ter me, j que no
tem pae--protestou.

As lagrimas foram rareando; a commoo esbatia-se na vulgaridade dos
accidentes chos, como nuvem que se esfarrapa, aclareando-se, em pedaos
do azul; o tempo ia derramando um balsamo doce sobre aquella ferida,
cicatrisando-a, n'uma suavidade lenta.

O commendador visitava-a de quando em quando, sempre muito attencioso,
um pequeno _bijou_ para a Rosina.

--E porque no vinha mais vezes?--dizia a D. Clementina, entre suspirosa
e affogueada.--

--seus negocios, seus negocios, mas no as esquecia, tudo que
precisassem d'elle, era s dizer; no era homem de palavras, mas nas
occasies alli estava prompto.--

Ermelinda confirmava--

--que lhe era muito grata, se no fra elle e a D. Clementina, quem
sabe, talvez j no existisse.--

--e sabe noticias d'elle?--perguntou a D. Clementina.--

--mas seria melhor que no fallassem n'isso,--observava--fra
viajar, segundo lhe tinham dito, creio que com uma mulher  ta.--

O rosto d'Ermelinda rosou-se levemente; um rubor de ciume,--e os seus
olhos quasi supplicaram ao commendador que a poupasse quellas
narrativas,--

--mas no fallemos n'isso, nem vale a pena,--obedeceu o brazileiro.--

Ia intrigado d'aquellas visitas, commovia-o o estado triste d'aquella
mulher; uma onda de commiserao, que no estava longe do amor,
principiava a enternecer-lhe fortemente a alma, com desejos impetuosos
d'uma tyrannia cruel. Rareava por isso as visitas.

--no queria que ella perdesse por sua causa, e depois, apesar de no
ter marido, tambem no podia casar com ella, uma estupidez da lei--

mas enviava  Rosina lindas _corbeilles_ de flres, _bouquets_ de
violetas, umas prendasinhas graciosas, que pareciam levar intenes
significativas.--

--O commendador, realmente,--disia a D. Clementina--muito amigo  da tua
pequena; nunca lhe conheci este affecto pelas creanas.--

-- d'uma bondade grande, l isso , e delicado, tem uma alma generosa
debaixo d'aquella apparencia--disia Ermelinda--e ficava calada, um
pensamento volteando na sua imaginao ociosa, de romantismo
desilludido, pensando n'aquelle baile em que pela primeira vez tinha
conhecido os dous, o commendador baixo e desgracioso, como um tronco de
velha arvore, o Alberto elegante e esbelto como um jasmineiro
perfumado,--

--como as apparencias enganavam--suspirou.--

Mas a D. Clementina principiou a desconfiar d'aquelles elogios
apparentemente banaes; uma pontinha de ciume a mordicava, umas picadas
ao arrepio no seu sentimentalismo serodio, e tinha s vezes respostas
enviesadas, um pouco acrimoniosas, de quem est na sua casa, fazendo um
favor e recebendo uma ingratido em troca, isolando-se um pouco nos seus
aposentos, pretextando visitas para deixar Ermelinda ssinha, dando-lhe
a entender que lhe estava sendo pesada, picando-a no seu orgulho, como
entendia que ella a picava no seu amor.

Ermelinda tragava em silencio aquellas desconsideraes que a magoavam,

--sim, que havia ella de fazer n'uma casa ssinha com a filha?... e
depois as despezas! ali no pagava aluguer de casa, nem criada, isto j
no era pouco!--

Mas um dia a Joaquina veiu visital-a, encontrou-a a chorar, quiz saber o
motivo e ella ento contou-lhe:

--as affrontas que soffria, um sorriso quando estava alguem, mas um mau
modo quando estavam as duas, tornara-se impertinente, tinha respostas
bruscas que offendiam, parecia que lhe comiam o po tambem,

--pois  arranjar uma casinha, olhe, eu j agora no a deixarei; no me
dou muito bem com a Amelinha, ella no  m, mas aquillo  um
desgoverno,  uma casa de Orates, ninguem se entende ali, cada um
pucha para seu lado.--

Convencionaram por fim, em que seria a Joaquina que arranjasse a casa,

--uma casinha barata, retirada podendo ser; haviam de levar a vida, no
tivesse medo--confortava a boa da criada.--

D. Clementina viu-a sahir com certa satisfao mal disfarada.

--que no sabia para que ella fasia aquillo, mas emfim no a impedia,
estava mais  sua vontade; e se precisasse d'ella, bem sabia;--

--nunca esqueceria as finesas que lhe devia, tinha sido uma boa amiga,
mas no deveria abusar, no;--

--bem conhecia que lhe estava sendo um pouco pesada.--

--se eu fosse muito rica, menina--

--mas no se despedia dos seus favores, ia trabalhar, precisava de o
fazer, e a D. Clementina tinha relaes, valer-lhe-ia de muito, uns
bordados, obras de cabello.--

--l isso, podendo ella, estivesse descanada.--

Abraaram-se, uns beijos lacrimosos,

--que se visitariam a miudo:--

Mas as visitas da D. Clementina rarearam; quando lhe perguntavam por
Ermelinda, disfarava mal o seu ciume outomnio, uns desabafos contra a
ingratido,--que a via agora poucas vezes--, realmente sahira-lhe uma
rlha.--

E a filha do Jorge ia pouco a pouco cahindo no esquecimento; nem a
Mendes, nem a Bastinhos, nem as Gomes, nem as amigas do _hig-life_ a
procuravam j. Alguma que o fasia era por curiosidade, uma
vontadesinha de a humilhar, encommendando-lhe uns trabalhos futeis,--

--realmente era pouco decoroso conservar relaes com uma senhora
n'aquelle estado; a sociedade no via bem essas relaes, sempre era uma
mulher sem posio! E depois, o escandalo d'um divorcio!--

Retesavam-se n'uma honestidade pruriginosa, muito meticulosas na escolha
das pessoas amigas, um grande respeito pela moralidade da opinio,

--no dava honra em verdade conviver com uma mulher divorciada.--

Apagavam-lhe com desculpas banaes a aureola de martyr, que n'um momento
lhes dera o syncretismo do sentimento por ella e achavam que:

--deveria ter tido mais paciencia, no fra to mimalho, no se
apanhavam moscas com vinagre--

O commendador mesmo, obrigado a partir repentinamente para o Brazil a
fim de obviar a uma crise commercial, que o ameaara, teve de cortar as
suas vizitas, em face d'esta fora maior.

E era assim que Ermelinda se via gradualmente rechaada das suas
relaes, accommodando-se no seu isolamento humilhante, um desejo de ver
as outras cahir tambem, azedando-se n'uma fermentao acre de vinganas
miudinhas, uma aspirao malquerente para com a sociedade, que a
repellia injustamente, a energia quebrantada, amollecendo n'uma lassido
vadia de temperamento, um grande desmazelo de si, a vida
figurando-se-lhe um fardo pesado, que tinha de arrastar no caminho
ingreme da fatalidade.--

A filha smente lograva purificar um pouco aquella alma que se
corrompia; esquecia-se de si, como os pantanos se esquecem das suas
aguas perniciosas, para alimentar a flr luminosa de mocidade e candura,
que se levantava como um lyrio, seivando-se no lodo d'um paul.

O trabalho rendia pouco, comia-se uma parte do pequeno capital, a
Joaquina mesmo adoecera com a fadiga, e isto sobrecarregara o estado
financeiro da casa; a miseria pairava, como um corvo, que se banqueteia
n'um cadaver e Ermelinda sahia raras vezes, receiosa de encontrar uma
antiga conhecida que lhe attentasse no vestido surrado, fra da moda.

Emmagrecia, a sua formosura esvaecendo-se, como uma estrella que
descora, o tom quente das faces substituido por um macillento doentio,
de pobresa chlorotica de sangue, os bons alimentos que faltavam.

Perdia a energia para o trabalho e quedava-se s vezes em longas
contemplaes scismaticas, um confronto do seu presente com o seu
passado, a vida amargurada d'agora, com a vida facil e descuidosa
d'ento, maldisendo o seu destino, sem resignaes corajosas para
aquelle infortunio, que tinha de devorar ella s.

E apesar de que a imagem da filha vinha occupar, como um claro amigo,
quasi todo aquelle negror da sua alma, sentia que l ficava ainda uma
sombra, um vacuo que o amor de me no podia preencher, alguma cousa de
desconsolador, que deixava no seu corao um arrepio gelado, como a
corrente d'uma noute fria que penetra n'uma sala quente, atravez d'um
vidro partido. Uma aspirao se elevava d'uma preciso mal definida,
fluctuante e incorporea, como que devendo encher aquelle vasio--

--Lembrava-se de que talvez a miseria lhe custaria menos se tivesse um
companheiro que a comprehendesse e a alentasse, que tivesse para ella um
sorriso amigo e carinhoso, que lhe incutisse fora n'aquelle peregrinar
atravez d'espinhos;--

--Via tantos pobres felizes!... justamente o seu bairro mostrava-lhe
frequentemente d'estes exemplos; morava em frente de si um operario
honesto, um ensamblador, que tinha pela mulher uma adorao fanatica;
havia dous filhos, uma santa paz, o trabalho alegre como uma beno, e
s tardes, quando elle largava o servio, via os dous no quintal, 
sombra fresca d'uma ramada, bebendo tranquillamente pela mesma caneca de
vinho, os pequenos a faserem _hortinhas_, uma bonhomia suave, que fasia
lembrar um quadro hollandez, e depois o operario estender-se
preguiosamente sobre um banco de pinho, a cabea no regao da mulher,
que o catava muito de manso, baixando-se a espaos para o beijar
carinhosamente na testa.--

No tirava os olhos d'elles e a agulha cahia-lhe da mo, a imaginao a
pintar-lhe um quadro identico, em que ella tambem se baixaria para
beijar a fronte pallida do seu marido, a Rosina traquinando com as
suas bonecas a um canto do jardim.

--Como fra infeliz!... e era preciso to pouco para se ter a
felicidade--suspirava.--

Quasi tinha inveja quella mulher honrada e quelle operario honesto;
affigurava-se-lhe uma injustia aquelle contraste de paz em frente da
sua vida de amarguras, e s vezes, ao vr que os dous sahiam do quintal,
braos enlaados, rindo muito, alegres do seu amor, uma bafagem quente
lhe subia no peito, um desejo incoherente de se sentir beijada nos
labios varonis, a reminiscencia avivando lembranas felizes d'outros
tempos, a energia do seu temperamento despertando indomita, n'um
esfusiar esteril e impotente.

Vinha-lhe porm adjunta a recordao do Alberto, e uma onda tumultuosa
de odios represados a dilatava toda.--

--Nunca mais, odiava-o de morte; um pulha, um miseravel, um indigno que
no quizera comprehendel-a, e que lhe tinha roubado para sempre a
felicidade!--

--quando se lembrava que a sua filha era filha d'elle, quasi a olhava
com desamor,!... mas no tinha culpa, a pobre creana.--

E ficava n'uma exaltao nervosa, um atropellamento de pensamentos
chocando-se violentamente, frenetica, incoherente, passarinhando muito
pela casa, respondendo asperamente  Joaquina, repellindo as meiguices
da pequena, arremeando com aborrecimento a costura, tomando um livro
para logo o deixar, at que se ia quebrantando este nervosismo, a
excitao cahindo n'uma prostrao apathica, que terminava sempre por um
largo choro copioso, muito mansa e abatida, deitada de bruos sobre o
leito, e fechada ssinha no seu quarto.

Foi n'uma occasio d'estas que o commendador, de volta do Rio de
Janeiro, a veiu encontrar--

--tinha-lhe custado saber onde moravam agora, ein, mas afinal se tinha
informado bem; e como iam, como iam, a Rosina estava uma senhora--

--coitada! tinha uma infancia bem desgraada--

--n'aquellas idades o que se queria era brincar; mas ella, ella, que a
achava muito transformada, se estava doente?--perguntava carinhoso--

--doente, no, iria morrendo lentamente, o mundo j para ella no tinha
alegrias,--

--que deixasse l, era nova! e depois a minina!--

Mas a Joaquina interveio.

--que no era verdade, no, que ella queria encobrir, que a D.
Ermelindinha andava muito doente, nem comia, era mesmo um passarinho de
magresa! e depois aquelle desgosto que a matava.--

--A gente se distrahe.--

--vo l fallar-lhe nisso!...

--oh, Joaquina, cala-te por Deus,--

--eu c no tenho papas na lingua; sabe Vossa senhoria, pois  como lhe
digo, no que eu tenho-lhe amisade, isso  que ella no pde negar; no
sou como essas visitas que _alvoraram_ todas, ninguem procura gente
pobre!... E vai-se vivendo, Deus sabe como!--

--Joaquina... ento...

--deixe ella dizer, deixe ella dizer.--

--e digo, sim senhor; se Vossa senhoria c tivesse estado, veria como as
cousas tem corrido!... Agora nem a D. Clementina por c pisa, boa... tem
medo que lhe peam alguma cousa; pois se Deus quizer, emquanto eu tiver
dous braos, no se ha-de occupar aquella _sastrona_!...

--Joaquina--interveiu n'um tom reprehensivo.

Mas o commendador pedia-lhe:

--que deixasse fallar, que deixasse fallar--a sua indole harmonisava-se
com aquelles desabafos expansivos da Joaquina,--queria as cousas assim,
no era homem do rodeios, po po, queijo queijo--e commovia-se d'uma
compassividade altruista por aquelle infortunio, em que as via,

--Mas estava elle agora alli, no havia de ser assim--protestava--

--a Joaquina tinha-se sacrificado muito por ella, a unica pessoa que a
no abandonara--dizia depois Ermelinda ao commendador.--

--boa criada, no as ha hoje assim! conserve-a, conserve-a sempre.

--sempre, s se ella quizesse deixal-a; era quasi sua me.--

O commendador resolveu desde logo modificar-lhe as condies do seu viver.

--mas que diria o mundo? no, no acceitava, em tudo se lanava veneno--

--mas no podia consentir, o seu amigo tinha-lhe recommendado a filha na
hora da morte, e depois, elle no tinha familia, dotaria a Rosina,
j ella no tinha de que ter escrupulos.--

E principiou a enviar copiosos presentes, mobilia e comestiveis, um
rodeio de confortos, sollicito em adivinhar-lhe os pensamentos, conta
aberta na modista, uma submisso de escravo em todas as suas aces,
alegrando-se de ver como Ermelinda se refasia, um pouco mais rosada j,
engordando at, a nutrio sadia agradecendo os bons alimentos
delicados, como a flor estiolada agradece o raio do sol que lhe faltava.

--E no tinha que agradecer-lhe, pelo contrario, elle  que se
considerava feliz em poder-lhe fazer algum bem; cumpria religiosamente
um dever, andava contente, no precisava de mais.--

Ermelinda porm enchia-se por elle d'uma suave gratido; o sangue novo
que a revigorava, entumescia-a de incongruentes desejos; adivinhava a
alma do commendador e sentia-se feliz em ser assim amada, submissamente,
como uma rainha, com a adorao respeitosa e fervente d'um fanatico.

--Como teria sido feliz, se o houvera desposado--pensava--que desgraa a
sua, em ter conhecido o _outro_!--

--e elle afinal, a que podia aspirar coitado?!... que falsa posio a
sua--como se lhe affigurava uma indignidade revoltante aquelle _voto_
que a sociedade lhe houvera imposto com o processo de separao!--

--porque no havia ella de ser livre, poder amal-o, poder dedicar-lhe o
seu corao to cheio de boa gratido, principiar com elle uma vida
nova, toda cheia de paz e de carinho, formando uma familia honesta
e honrada!--

--que era ella afinal? nem solteira, nem casada, nem viuva! que lei
infame!... e no havia justia na terra!--

Um circulo de ferro a envolvia de todos os lados, estreitando,
diminuindo de raio, esmagando-a dentro d'aquellas interrogativas sem
resposta.

E ao commendador, por seu lado, uma nostalgia da vida, tenue como um
nevoeiro, o ia invadindo;

--aquella mulher era o seu desejo, a sua felicidade, o seu bem! mas no
abusaria, seria uma infamia! e entretanto a lei quasi o incitava, em
face d'aquelle despotismo cruel, que tinha tyrannicamente roubado a
liberdade quella mulher... e porqu, no lhe diriam?... porque ella se
tinha revoltado contra um bebado, um jogador, um patife que a
espancava,--era um absurdo, realmente.--

--e entretanto, conhecia-o, no bastavam  sua natureza forte, aquelles
idealismos cavalheirescos de Magrio, que o faziam sacrificar por ella;
um grande tedio o aborrecia, aquella pura devoo no satisfazia a
anciedade exigente do seu espirito.--

--E talvez que ella o no repudiasse, presentia-o, o seu olhar fazia-lhe
agora mais mal do que nunca, quando o surprehendia a pousar sobre si
n'uma quietao contemplativa e muda--

--era preciso affastar-se, vel-a menos vezes, fazer-lhe todo o bem
que pudesse, mas fugir, fugir a final de contas.--

Ermelinda vendo que o commendador distanceava as suas vizitas, sentia-se
intrigada, descontente de si, accusava-se de no ter sido mais
accessivel, o ar um pouco severo de quem obstinadamente se recusa.--

--E no, no era por isso--uma gratido por elle a envolvia, como uma
nuvem de perfumes, e sentia-se bem, quando pensava que d'ella dependia a
sua felicidade.--

A sua saude revigorando-se, energias de temperamento se despertavam;
habitos adquiridos se reaccendiam em desejos brutaes, instigando a
carne, n'uma provocao petulante. E na incoherencia d'estas ideias, que
ainda no se vasavam n'uma frma nitida, a imagem d'Alberto
extinguia-se, esvaecendo-se n'uma penumbra indistincta, sacrificando-se
 imagem do commendador, que se destacava luminosa, em toda a pujana
d'uma vehemencia indomita,--

E Ermelinda, costurando silenciosamente, o espirito a divagar em sonhos
incoerciveis, via no quintal visinho a mulher do ensamblador, debaixo da
ramada, a beijar carinhosamente o marido, e depois, quando vinham de
dentro, ella a cantar, como um passaro alegre, umas trovas cheias de
fogosa paixo peninsular, muito satisfeita de si, a voz crystalina
revoando, como um trinado sonoro, no azul d'aquelle ar, onde volitavam
as andorinhas que regressavam a saudar a primavera.


XVI

Tinham passado mezes.

Uma lucta titanica, surdamente ferida, no mysterio concavo psychico das
almas de Ermelinda e do commendador. Uma attrao incoercivel os
chamava, uma vontade de revolta contra o convencionalismo social, contra
aquella tyrannia da lei que os expulsava da felicidade, como o archanjo
expulsara do Eden, ferozmente, com uma brutalidade inquebrantavel, o
primeiro par humano.

Vinham-lhes desejos de peccar, de bater de face aquella prohibio
medonha, que os separava, de arrojar para longe o manto pudico d'uma
honestidade eterna, a que a lei os comdemnara fatalmente.

Ermelinda estava mais gorda, o sangue vivo das alimentaes fortes, o
temperamento flammejante de exigencias, uma lassa morbidez quebrando-a
na incoherencia insaciada e vaga de desejos, que se formulavam em
pensamentos languidos.

Mudava muito de roupa, narcisando-se a miudo, horas esquecidas na sua
_chaise-longue_, o jornal do dia cahindo sobre o roupo claro, que a
desenhava toda nas suas formas appetitosas, o psinho bamboleando no
sapato bronzeado, com as fitas enroscadas como uma cobra nas columnas
assetinadas da meia cr de cinza.

Percorria os olhos pelo jornal; gostava muito do folhetim e do
noticiario.

Um dia claro, de sol doirado, palpitava l fra, coando-se impertinente
atravez dos _stores_ de madeira; espreguiou-se lentamente, bocejou, o
jornal cahiu no cho, deslisando suave. Fez um grande esforo para o
apanhar, o brao movendo-se lento, o corpo requebrado n'uma attitude
madorrenta; mas de repente empallideceu; atirou o periodico com arremeo--

--Que nojo!...--e poz-se em p, passeando para o lado contrario, como
no querendo vel-o.--

Uma carruagem parou  porta.

--Quem seria?--e foi  janella muito curiosa, levantando um poucochinho
o _store_, o pescoo curvando-se para ver melhor.

--Ah, o commendador!... e ento que estava s, tinha de ir abrir-lhe a
porta, a Joaquina fra buscar a Rosina ao collegio... valesse-lhe Deus.--

A campainha vibrou; demorou-se um instantesinho em frente do espelho,
anediou o cabello.

--E nem tempo tinha do se vestir! Jesus! recebel-o-ia mesmo assim de
roupo, elle no era de cerimonia!--

E foi abrir a porta; o commendador entrou, trasia um bello ramo de
rosas, e um embrulhosinho,

--uma lembrana para a Rosina--

--tinha ido para o collegio estava s em casa, mas subisse, ella ficaria
contente ao vel-o, j no apparecia ha tanto tempo!...

As escadas terminavam; entravam no gabinete, ella tomava o ramo de
rosas, d'um perfume vivo, muito aromaticas, um avelludado formoso de
petalas sanguineas.

--Que lindas rosas!  muito galanteador, na verdade!...

--Oh, D. Ermelinda!...

--Aposto que as trouxe do Palacio.

--Justamente, tinha adivinhado!--e sentou-se, o corpo cahindo
pesadamente n'uma cadeira pequena, situada junto da meza de costura.
Ermelinda dispoz as rosas n'um vaso com agua; collocou-as ao centro,

--gostava muito de flores! ella!...--e ento que era feito d'elle,
porque no apparecia,--disia n'um tom reprehensivo.--

Curvava-se para affagar as rosas, uma voluptuosidade em sorver aquelle
perfume intenso, o corpo desenhando-se na justesa clara do roupo.

O commendador estava embaraado; no sabia que responder; desejava ter
n'aquelle momento a Rosina, que com as suas travessuras o tornasse menos
timido, dando-lhe um tom alegre de creana.

--Viu o jornal no cho, apanhou-o; mas Ermelinda fez-se corada, teve
mesmo um movimento brusco, disse-lhe zangada:

--Deixe o jornal; ento no prefere conversar? se soubesse o que ahi
vem!...

--Aqui?

--Ahi, sim, veja,--e apontou uma local do noticiario, a mo nervosa
affagando as flores, emquanto o commendador lia baixo:

--CHRONICA POLICIAL--Foi encontrado em estado de embriaguez Alberto de
S, sendo conduzido para o Carmo, onde teve de passar a noute.--

--E ento, que diz a isso?--perguntou com meiguice.--

--Coisas d'este mundo!... Uma desgraa!...

--Uma desgraa, sim, uma desgraa!--e principiou a choramingar.

--Ento, vale a pena affligir; aguas passadas no moem moinho! o que l
vai, l vai!...

--Diz bem, porque  livre! commendador!... mas eu n'esta posio falsa e
condemnada.

--Livre, antes o no fra!... Se soubesse o que me compunge o seu
estado, se estivesse na minha mo fazel-a feliz...

--Oh, obrigada, obrigada--e tomou-lhe a mo com eternecimento, um tremor
nervoso agitando-a, perdendo pouco a pouco a energia da vontade, um
entorpecimento lasso quebrantando-a.

--Como seriamos felizes--balbuciou o commendador--e vendo que Ermelinda
se calava, uma esfusiada de palavras lhe sahia dos labios, as imagens
colorindo-se n'um fogo calcinante de paixo, que se libertava, a
allucinao dos sentidos torturando-se no leito procusteano do prazer e
do soffrimento, a torrente espraiando-se n'um desafogo perdoado,
supplicas urgentes, que a commoviam, a imaginao atordoada diante da
formosura d'aquella mulher, que fra o seu sonho, apertando-lhe as mos,
beijando-as com soffreguido estonteadora. Ermelinda levantou-se.

--Oh, no, no,  impossivel!

Uma risada christallina de creana explosiu  porta da rua. Era Rosina
que voltava do collegio.

--Est zangada commigo?--perguntou o commendador entre confuso e meigo.

Calou-se um pouco.

--Olhe, somos dous infelizes--disse apertando-lhe a mo,--que devo eu
agora  dignidade d'um brio, que a policia levanta por caridade?... Se
podessemos casar!...

--Mas  impossivel, bem v, a lei tem d'estes absurdos, d'estas
tyrannias inqualificaveis.  uma fatalidade!

--Sim,  uma fatalidade--e pousando-lhe rapidamente um beijo na testa,
Ermelinda sahiu, deixando o commendador estonteado, um atordoamento que
deslumbra, a alma larga no cabendo na estreiteza da palavra, que se
paralysa.

      *      *      *      *      *

Alberto e Annita tinham dissipado a mos cheias o que lhe restara de
tempos de maior conforto; liquidado o dinheiro dos moveis de cada um
partiram para Hespanha e s quando a exhaurio da bolsa lhes annunciou
a hora ultima d'aquella folia,  que ento se resolveram a regressar a
Portugal, delineando fortes planos de combate, resolvidos a luctar no
meio que os conhecia, muito corajosos de vontade artificiosa. Mas a
desilluso veiu depressa; os habitos da ociosidade haviam-lhe tirado a
energia do trabalho, e os dous, recriminando-se mutuamente a
causualidade do infortunio proprio, principiavam a aborrecer-se,
supportando-se uma intimidade que se enraisara no vicio do passado, mas
praticando cada um a sua independencia. Alberto passando a noute na
batota e nos cafs, Annita passarinhando pelas praas, e pelas
lojas, acenando com os restos da sua belleza physica quelles que um dia
a tinham cubiado.

A degradao veio pouco a pouco, uma decadencia embrutecedora, que
embaciava as ultimas vibraes da dignidade, as roupas encardidas, a
consciencia derreada, as nodoas das ultimas camadas alastrando-se por
sobre os restos d'aquella fina elegancia.

Alberto embriagava-se frequentemente; o alcool era o seu amigo, a sua
consolao, depois das noutes caliginosas do jogo, em que o azar o
perseguia, com uma tenacidade medonha.

Embrutecia-se horrivelmente, a policia tomara-o j como incorrigivel,
houvera mesmo umas pequenas historias pouco dignas, que o tinham
compromettido com o codigo penal.

Resolveu ir com a Annita para Lisboa.

--Outra cousa, a capital!... batotas a cada esquina, aquelles inglezes a
cahirem como patos...--

--E depois l quasi no somos conhecidos--concordava a Annita--mas o
peior era o dinheiro...

--Com os diabos, a sorte nem sempre havia de falhar.--

Effectivamente uma bafagem de felicidade o favoreceu. Vestiram-se
melhor, partiram. Mas o dinheiro esgotou-se depressa; as desilluses
vieram, foram cahindo, dissolvendo-se no grande meio, incapazes para a
lucta, uma degradao rapida e miseravel.

O Alberto fes-se cocheiro.

--gostava d'aquillo!... guiaria os cavallos dos outros j que no podia
guiar os seus!...--

e quando as effervescencias do alcool lhe produziam vises
extravagantes, um sorriso se abria na sua imaginao, sonhando-se n'um
_tylbury_ elegante, uma formosa parelha d'egoas normandas, a pelle de
tigre cobrindo-lhe os joelhos, o pingalim traando uma curva no ar
tremente das vibraes da carruagem.

--Eh, l, eh, eh!--gritava no sonho, uma incitao animada,
parecendo-lhe ouvir um rodar vertiginoso de trem. Mas o entorpecimento
da embriaguez passava, os olhos abriam-se a custo, e atravez das
pupillas ainda esfumadas e baas do alcool, elle entrevia a enxerga do
catre policial, ou as taboas cobertas de palha da cavallaria, os
cavallos ruminando silenciosamente na manjadora.

--era bem estupido aquillo--disia levantando-se--e estava frio,
precisava um golo de _geribita_, um copinho que matasse o bicho, que
desse calor.--

De vez em quando uma recordao do doce conforto do passado, lhe
atravessava a memoria j muito gasta; mas no eram as imagens de
Ermelinda ou da filha, que elle entrevia; essas fluctuavam vagamente,
n'uma indeciso de contornos apagados.

--bem se importava!... o que elle desejava era a boa cama, a boa meza, a
_chelpa_ sempre s ordens para gastar! e a ellas que as levasse o diabo.--

O alcool ia fazendo estragos, a memoria esquecida, a intelligencia
apagando-se nas rudezas bestialisadoras da sua nova vida, do contacto
dos vadios e das cavallarias; a Annita mesmo abandonava-o um pouco,
fizera-se corista d'um theatro barato, e por isso cuidava-o menos,
deixava-lhe encardir a roupa branca, aborrecia-se d'aquellas vaidades de
o trazer limpo.

--que se arranjasse, o theatro tomava-lhe o tempo... e depois um
brazileiro andava para cahir na rde, quem sabe... talvez ainda podesse
casar... era agora a sua ideia, bastava j de privaes, e depois com
elle nunca poderia fazel-o, era um homem casado... afinal.--

      *      *      *      *      *

Uma commoo extraordinaria agitava os espiritos; alguma cousa de
gigante, como o despertar de um povo, fazia palpitar o corao da
patria; Portugal preparava-se para o tricentenario de Cames.

Chegara o mez de junho; os jornaes vinham cheios de noticias relativas 
commemorao do poeta. A companhia dos Caminhos de Ferro estabelecera
comboyos a preos reduzidos para Lisboa. Um formigueiro de povo
esfervilhava em Santa Apolonia; os trens de praa alinhavam-se,
convidando os viajantes. Illuminaes no Tejo e no largo da Estao
davam  cidade o aspecto d'uma creao feerica.

--Como era lindo, como era lindo!--dizia uma mulher que sahia da Estao
pelo brao d'um sujeito baixo, todo envolvido no seu guarda-p, um
bonnet de seda a descer sobre os aros d'ouro d'uns oculos escuros.

Chamaram um trem.

--Nos leva ao hotel Borges, ein, voc sabe?--

Mas quando o cocheiro fechava a porta, um balo veneziano, ardendo,
projectou um raio de claridade sobre o seu rosto.

Ermelinda escondeu-se na almofada, soltando um pequeno grito; tinha
reconhecido o Alberto.--

--Boa gorgeta, ein,--dizia ainda o commendador com o corpo inclinado
para fra da janella.--


FIM





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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