The Project Gutenberg EBook of Colonizao de Loureno Marques, by 
Alfredo Freire de Andrade

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Title: Colonizao de Loureno Marques

Author: Alfredo Freire de Andrade

Release Date: November 21, 2010 [EBook #34388]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COLONIZAO DE LOURENO MARQUES ***




Produced by Pedro Saborano





                        Alfredo Freire d'Andrade


                               COLONISAO

                                    DE

                             LOURENO MARQUES




                                  PORTO
                  TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
                        Rua da Cancella Velha, 70
                                   1897

                      *      *      *      *      *

                               COLONISAO

                                    DE

                             LOURENO MARQUES

                      *      *      *      *      *


                       ATHENEU COMMERCIAL DO PORTO


                               COLONISAO

                                    DE

                             LOURENO MARQUES


                  CONFERENCIA FEITA EM 13 DE MARO DE 1897

                                   PELO

                             SOCIO HONORARIO

                         ALFREDO FREIRE D'ANDRADE




                                  PORTO
                  TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
                        Rua da Cancella Velha, 70
                                   1897

                      *      *      *      *      *




        _Illmo. e Excmo. Snr. Presidente do Atheneu Commercial do Porto._


_Quizeram, V. Exc. e os meus illustres consocios, mandar imprimir a
conferencia que, na sde do nosso Instituto, tive a honra de pronunciar._

_Mal merece ella, to mesquinha na frma, como pobre de conceitos, to
elevada prova de considerao da parte de uma das mais preponderantes e
illustradas aggremiaes do nosso paiz; accedendo, porm, gostosamente
ao desejo de V. Excas., ser-me-ia grato que na primeira pagina de to
insignificante trabalho, e que vir assim a ser a melhor, ficasse
consignado o meu reconhecimento por mais esta prova de estima, que
juntarei a tantas outras que o Atheneu Commercial do Porto se dignou
dispensar-me._

    _Lisboa, 8 de abril de 1897._

                                            _Alfredo Freire d'Andrade._





                                    EXCMO. SNR. PRESIDENTE, MEUS SENHORES.


 consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da
illustrada direco d'este Atheneu do que as minhas foras e
competencia, que eu venho hoje dizer aqui algumas palavras cerca de
Loureno Marques. Outros o fariam com mais auctoridade e sobretudo com
mais eloquencia, pois que, pela minha parte, s a boa vontade e bons
desejos podero ser titulos  benevolencia de to distincta assembla
para com as deficiencias necessarias da minha exposio.

Pouco direi cerca da situao, topographia e historia de Loureno
Marques, hoje bem conhecidas, graas aos excellentes trabalhos do
visconde de Paiva Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.

De todas as nossas colonias,  Loureno Marques a unica que apresenta os
caracteres de um centro commercial em principio de um grande
desenvolvimento, s comparavel ao das cidades da Africa do sul. A
affluencia de navios ao porto, a actividade que se v por toda a parte,
as mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se
revelam ali, so um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a
acompanhar sem demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da
Africa do sul, sob pena de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso
dominio colonial.

A cidade de Loureno Marques acha-se naturalmente dividida em duas
partes: _a velha_ ou baixa situada no local onde se estabeleceram as
primeiras feitorias, e _a nova_ ou alta, que, projectada sobre a
vertente que se desdobra da Ponta Vermelha ao Mah, se vai a pouco e
pouco erguendo, por entre cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho
aspecto a quem vem procurar o porto. Entre as duas encontra-se uma
depresso larga e extensa, onde se reunem as aguas das chuvas e por
vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa principal da
insalubridade da povoao.

Pelo snr. conselheiro Ennes foi mandada ultimamente construir uma
estrada de 3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local
bastante salubre, com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d'onde
se ergue abruptamente e que est destinado a um largo desenvolvimento,
pois que permittir ao habitante, canado do labutar diario na cidade
commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar l em cima o ar
mais puro do oceano.

Pouco se tem emprehendido at hoje para o saneamento do pantano,
aterrado apenas n'uma pequena rea e isso mesmo pelas exigencias
crescentes do alargamento da parte velha da cidade, que, junto  margem
da bahia, ser sempre a de maior valor.

Muitas tentativas se tm feito j e as camaras e commisses municipaes
tm diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por
variadas razes. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro
Almeida Soeiro, aproveitava para edificaes a rea aterrada e drenada
convenientemente, e outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma
especie de porto interior, construindo um canal navegavel na base da
vertente em que assenta a cidade nova. Qualquer dos dois projectos
deveria ser adoptado sem demora e os trabalhos principiarem desde j,
por isso que a extinco do pantano, alm de uma necessidade
impreterivel, daria tambem margem para uma operao commercial muito
rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador.
Basta considerar o preo por que poderiam ser vendidos os terrenos
utilisaveis depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das
vantagens da operao; facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados
de terrenos para aforar ou vender, que teriam decerto comprador por
um preo superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer
dos casos, no devia exceder metade d'esta quantia para igual superficie.

Adoptando-se o projecto da construco de um porto interior, o preo das
obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal,
iria alm do que poderiamos prevr, tanto mais que, sendo o porto um
pouco desabrigado por occasio dos temporaes de sueste, o porto interior
seria de grande recurso e portanto muito appetecidos os terrenos que o
orlassem.

O interior do districto de Loureno Marques divide-se em tres zonas
principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e
formada pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce
rapidamente at 200 metros de altitude, com arborisao basta e copada
em alguns pontos, sobretudo nas margens dos rios, e constituida por
porphyros feldspathicos e por uma extensa facha de conglomerados,
parallela quelles e correndo norte sul. A segunda zona  a das areias
que, partindo dos conglomerados, vem descendo at  costa maritima, onde
os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do apparelho
littoral; n'esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo ou 
raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora rachiticas
e enfezadas, ora extremamente fortes e robustas, mas cujos troncos
torcidos e recurvados parecem significar as difficuldades que oppem ao
seu crescimento aquelles terrenos to aridos. Finalmente, a terceira
zona ou zona argillosa  a constituida pelos depositos que os rios
espalham largamente na occasio das cheias e ainda pelas argillas que
arrastadas pelas chuvas, se vo depr nas baixas da zona arenosa,
constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por
vezes de muitos kilometros de extenso, que em grande numero se
encontram principalmente para o sul do rio Incomati. A zona argillosa 
a zona fertil, mas  tambem a zona pantanosa e insalubre por
excellencia; o arvoredo  sempre forte e robusto, e as especies
numerosas, dando por vezes madeiras de excellente qualidade, se bem que
pouco aproveitaveis industrialmente.

Recortando todos estes terrenos, vem-se rios importantes, taes como o
Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do
Transvaal, se apresentam caudalosos, dando navegao, seno facil, pelo
menos possivel: o Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio
e o Limpopo at ao rio dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se,
porm, estes rios so faceis meios de transporte, so tambem elles, que,
alargando-se sobre milhares de kilometros quadrados, por occasio das
chuvas, deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros
charcos e brejos, que contribuem para a insalubridade das regies que
atravessam.

Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista
especial mais importa conhecer das condies naturaes do districto,
vejamos qual o systema de colonisao que se dever adoptar em Loureno
Marques. Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir
depende o exito da colonisao, e que no poucos desastres tm tido como
origem o querer-se implantar uma colonia em desharmonia com as condies
dos territorios que tm de a receber.

Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:

_a_) _Colonias de populao ou agricolas._--So aquellas em que, como na
Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco differente
do que tem no seu paiz e pde constituir familia, formando nucleos de
populao, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos,
terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole no pde
fornecer o contingente necessario em cada anno,  natural que outros
paizes d'isso se encarreguem, chegando n'esse caso a mudar por completo
a feio da colonia, que se desnacionalisa;  o que succedeu com a Nova
Amsterdam e a Nova Suecia, e poder talvez dar-se um dia n'uma parte
do Brazil.

_b_) _Colonias commerciaes._--Chamam-se assim as que pela sua situao
sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil
accesso, d'elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios
n'uma nova regio e introduzir n'ella, principalmente, os productos da
metropole. Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., so
necessariamente cosmopolitas e se no necessitam uma grande colonisao
de homens, precisam em compensao de muita industria, muito tino e
muita energia, e por consequencia de uma emigrao escolhida,
acompanhada de um grande affluxo de capitaes.

_c_) Finalmente, as _colonias de explorao_ so as que, pela sua
situao e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e
preos remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja
cultura em especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos
capitaes, e um regimen especial de trabalho, por isso que, no podendo
ahi o branco trabalhar a terra, ter necessariamente de recorrer ao
trabalho indigena ou de raas adaptaveis ao clima. Taes so, entre
outras, as Antilhas, as Filippinas e entre ns a colonia to largamente
desenvolvida de S. Thom, to genuinamente portugueza apesar de serem
relativamente poucos os colonos sados da metropole.

      *      *      *      *      *

Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua
colonisao, vejamos em qual d'estes typos se deve filiar Loureno Marques.

Poder ser uma colonia de populao? Esta ida, que tem tido larga
corrente entre ns, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia
de Moambique, e em especial para Loureno Marques, uma parte da
emigrao que hoje se dirige ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser
completamente posta de parte. Centos de colonos tm desembarcado em
Loureno Marques, mais de mil nos ultimos annos, e quasi sem excepo, o
seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, mais doentes e
pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a morte n'um
periodo relativamente curto. Diz-se, e  certo, que a colonia no est
preparada para os receber, mas no  menos certo que se lhes houvessem
sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu
destino teria sido o mesmo.

E seno vejamos. O clima de Loureno Marques, se no  absolutamente
mau, podendo-se facilmente ali viver com uma alimentao regular e
uns certos cuidados que s um relativo cabedal e instruco podem dar,
no  tambem bom.

A temperatura mdia, quer de vero quer de inverno, no  exaggerada,
mas as differenas de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam
a attingir 18c. no mesmo dia, so extremamente prejudiciaes, sobretudo
nas doenas dos orgos respiratorios.

Na cidade, depois da poca das chuvas, de fevereiro a maio, as emanaes
trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de N. a O.
rondando por L., so extremamente perniciosas, por isso que provm dos
muitos pantanos que rodeiam a povoao e ainda dos que orlam as margens
da Catembe. A falta de esgotos, a accumulao de individuos de raas
inferiores e o pantano do Infulne, so ainda causas locaes, s quaes se
pde dar remedio,  certo, mas que ainda hoje existem, se bem que
attenuadas.

Para aggravar este estado de coisas, as chuvas so por vezes
torrenciaes, a ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se
precipitar sobre o slo uma camada de 40 centimetros de agua, o que
concorre para a formao de novos charcos em pontos onde at ento no
tinham existido.

Se da cidade passamos ao interior do districto, as circumstancias,
sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra que se
segue  poca das chuvas  em geral perigosa, do que se faz facilmente
ida pela affluencia aos hospitaes.

Em 1893, uma estatistica da populao de Loureno Marques, certamente
inferior  verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e
asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d'esse anno foi de oitenta
e oito individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos
40 por cento proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por
cento a tuberculose[1].

Dos soldados que fizeram parte da expedio de 1895, raros foram os que
no soffreram das febres, e se os officiaes no foram to castigados por
ellas, decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que
aquelles, comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de no
seguirem para as colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco
annos.

Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Loureno Marques se pde
viver em melhores condies talvez do que em muitos pontos insalubres da
Europa, nem por isso deixam, quer a cidade, quer o districto, de
constituir uma regio pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada de
certos cuidados, que no podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a
quem as regras da hygiene so desconhecidas, e que algumas vezes j
partem da metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.

Estes, com poucas excepes, nada tm feito em Loureno Marques,
emquanto que  frequente vr individuos permanecer dez, quinze e mais
annos na cidade, sem grave damno, porque souberam e puderam manter as
necessarias cautelas; tanto mais que as condies hygienicas da cidade
vo progressiva, se bem que lentamente, melhorando.

Para constituir uma colonia de populao  necessario poder crear
familia; ora em Loureno Marques as creanas no medram, e s por
excepo se podero vr ali filhos de colonos europeus, nascidos e
creados no districto. No os conheo e as poucas creanas que se
encontram, essas vivem custosa e difficilmente;  por isso que no posso
sem pezar, vl-as partir para Loureno Marques inconscientemente levadas
pelas familias, sem que os paes imaginem qual o fim quasi inevitavel que
as espera.

 a agricultura o principal recurso das colonias de populao e isso
mesmo se tem supposto em varios projectos de colonisao propostos
para Loureno Marques; , porm, um facto averiguado que o branco, o
europeu, no pde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, sem
grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve
durante a construco do caminho de ferro do Transvaal e ainda
ultimamente alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinio
que j tinha a este respeito. Em Magudi, n'um local secco, a 30 metros
acima do rio e em terrenos de rocha e areia, foi necessario, por falta
de cafres, que a guarnio do posto que ali se estabeleceu, removesse a
areia para construir trincheiras, e este facto deu causa a uma excessiva
mortalidade; em Xinavane, n'um terreno pantanoso, coberto pelas aguas na
occasio das cheias, os soldados foram prohibidos de cavar, e no houve
seno um obito e esse mesmo de uma praa vinda de Magudi. Em Taninga,
onde se fizeram importantes remoes de terras, as febres atacaram com
tal fora a guarnio, que foi necessario retiral-a. No pde, pois, o
branco trabalhar a terra e luctar com tanto maiores difficuldades,
quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, onde
justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos
cafres.

No se pde, pois, em Loureno Marques, constituir familia, cultivar a
terra, e difficilmente se resiste por muitos annos, sem vir
refrescar  Europa,  influencia deleteria do clima. Como se poder
pensar, em taes condies, em fazer d'aquelle districto uma colonia de
populao?

E, com effeito, todas as tentativas n'esse sentido tm dado mau resultado.

Dizem uns que este facto  devido a serem os colonos lanados em
Loureno Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber.
Mas pde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as
qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Loureno Marques?
Decerto no.

Dizem outros que o mallogro se deve attribuir  carestia dos terrenos do
Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares
de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram
aproveitados, e quem d'elles tirou melhor proveito foram os que, sem
maiores cuidados, pediram e obtiveram concesses, esperando em seguida
que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem
grossos lucros, como succedeu com a Pulana, que, concedida por centos de
mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a
Catembe, onde at  linha de costa, contra expressa determinao da lei,
se fizeram concesses a individuos que com isso lucraram mais tarde
muitos milhares de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante
muito tempo o resultado das concesses baratas, sem se cultivar um s
dos milhares de hectares concedidos.

A meu vr nenhuma d'estas razes colhe. Loureno Marques no tem
progredido como colonia de populao, porque no est em condies de o
poder ser.

      *      *      *      *      *

Se passamos a considerar Loureno Marques debaixo do ponto de vista
commercial, as negras cres sob que acabamos de descrevel-o como colonia
agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella regio como
destinada a ser o emporio da Africa do sul, a colonia commercial por
excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas
multiplas cubias que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado.

E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas
nossas mos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a
extenso que vai desde o Cabo at Moambique. A sua posse, porm,
impe-nos obrigaes que o rapido progresso da civilisao do sul
africano exige e s quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em
breve eliminados por no correspondermos  alta misso que nos incumbe.

Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal,
na sua regio mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de
que dispe o interior do districto e parte do territorio inglez do
centro d'Africa, Loureno Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que
de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto
impem-se de tal frma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos
os dias crescente, no obstante o pouco cuidado com que temos olhado
para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a
especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes.

Com effeito, as colonias sul africanas no podem vr com bons olhos o
desenvolvimento de Loureno Marques e por isso vem de longe as
difficuldades de toda a ordem que lhe tm levantado. Ha annos, jornaes,
livros e publicaes de toda a especie, declaravam ao mundo que a
insalubridade da povoao era tal, que passar ali, equivalia a uma
condemnao  morte; mas a populao ia crescendo, em condies mais
favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram
inutilisar o nosso caminho de ferro, graas a uma completa liberdade de
tarifas, que menos reflectidamente lhe tinhamos concedido; pudmos
evitar esse mal, mas  custa da indemnisao que nos impor o tribunal
de Berne. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de
manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta
de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.

E muitos outros factos poderia citar, em que a m f terminou sempre por
se manifestar, de modo que hoje a supremacia de Loureno Marques, como o
primeiro porto da Africa oriental do sul est firmemente estabelecida.

A populao de Loureno Marques, que em 1864 era de 83 individuos,
elevou-se em 1893 a 1:017 e hoje no  inferior a 4:000, homens e
mulheres, europeus ou indianos.

O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880
de 47 contos, foi em 1896 de 600 contos.

O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era
insignificante, foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265,
em 1895 de 363 e em 1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de
janeiro ultimo ancoraram no porto 52 navios.

Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu
material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condies, a
affluencia de mercadorias obrigar decerto a dobrar a linha. Actualmente
a mdia do movimento semanal  de 3 a 5 mil toneladas.

Mas nada d ida mais perfeita da avidez com que os estrangeiros
procuram Loureno Marques do que o extraordinario augmento de valor dos
terrenos e das edificaes, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.

Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes
queiram vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteires
inteiros, de preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de
se vender o metro quadrado de terreno por 10 libras, isto , pelo dobro
do preo maximo dos terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Todo este movimento e ainda as transaces que cada dia se fazem na
colonia, representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas
o augmento da riqueza publica em muito pouco aproveita  metropole, que
no s d'ali no tira proveitos directamente, o que alis no era de
esperar, mas ainda mesmo poucos aufere do commercio e da industria que
os seus nacionaes ali exercem. Pelo contrario, no creio exaggerado
suppr que nos ultimos vinte annos, Portugal tem mandado para ali mais
de 10:000 contos de reis.

Para conseguir tirar de Loureno Marques todas as vantagens que nos 
licito esperar, muito resta ainda fazer, no s ao governo mas
principalmente  iniciativa particular.

Ao governo compete,  certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os
quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar
providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios
idoneos para a administrao do districto, mais importante decerto do
que a da provincia inteira, e conserval-os no os substituindo de seis
em seis mezes; e, finalmente, preferir sempre os nacionaes para
quaesquer concesses que haja de fazer.

Este ultimo ponto, porm, j implica muito com a iniciativa particular,
pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condies da cidade e
seu porto, de entregar a execuo dos melhoramentos necessarios a
emprezas que d'elles se encarreguem mediante certas concesses.

Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se no
retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por
vezes fabulosos, que podem auferir em Loureno Marques.

Infelizmente, porm, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco
affluem  colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas,
como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que
ali luctam pela vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feio
especial, em compensao abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler,
Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idolgy, e tantas outras, que
principalmente aambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades
e dominam na praa.

No vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando
ou possuindo capitaes, partir para Loureno Marques, a tentar novas
industrias e fundar novos centros de nacionalisao, com o que muito
ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que
representam o commercio da cidade, s uma pequena parte aproveita 
metropole; o resto ou  absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou
vai para a India.

O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de
mesquinha apparencia, vem-se alguns individuos, embrulhados em algodo
branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em
geral de tudo, desde a lata de conserva at aos productos cafreaes.
D'estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo
interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e
protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por
completo o commercio do interior. D'esta frma as lojas dos indios e
mouros so os centros d'onde irradiam centos de braos, que vo
recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem
annualmente do Transvaal e Natal, libras que so immediatamente mandadas
para fra do districto.

Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma
tira de algodo, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e
fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e
cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vo
gozar depois de purificados, purificao essa que os lava do contacto
com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter.

Muitos d'estes indios so inglezes, o que mais aggrava a situao, pois
que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas
indemnisaes a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no
interior. E no se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o
nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos
locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam... com os
cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a no receberem a
prata portugueza, _que no era boa_, e com effeito vendia carissimo
quando elles lhe pagavam n'essa moeda.

 certo que algumas vezes prestaram, por interesse proprio, servios
ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Loureno
Marques quasi no havia colonos portuguezes. Hoje so um obstaculo,
porque  difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto
pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que
d'outro modo o commercio do interior continuar nas mos d'elles e o
ouro que vem do Transvaal continuar a seguir para a India.

Demais, a moeda portugueza usada em Loureno Marques favorece a
emigrao do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou
do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo,
emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transaces commerciaes 
a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro,
e outra m, a boa emigra e a outra fica.

Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que
todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de
Moambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a
prata s como moeda subsidiaria. No haveria embaraos, como os no
houve na Beira, e tambem no se alterava, para com o resto da provincia,
o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n'ella corre no 
aceita em Loureno Marques e at o Banco Ultramarino tem dois typos
de notas, um para Loureno Marques e outro para os demais districtos.

Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se
poder impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da
fazenda, computando a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em
prata? Ser isto uma falta? Moralmente sim, mas legalmente creio que
no, ainda que a falta se podesse provar.

O typo de moeda _ouro_ favoreceria certamente o commercio nacional e
faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do
districto so hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que
fossem em ouro, seria n'esta moeda que o governo pagaria aos seus
funccionarios, principaes consumidores dos productos da metropole e
tambem aos seus fornecedores, que devem ser, tanto quanto possivel,
nacionaes.

A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha
j hoje bancos estrangeiros em Loureno Marques que a podem fazer em
boas condies, pois que o Banco Ultramarino no tem prestado 
provincia de Moambique e sobretudo ao districto os servios que d'elle
era licito esperar; em 1892, chegou este banco a levar pela
transferencia de dinheiro da metropole e pagando l em notas suas, a
_insignificante_ percentagem de 30%.

Mas tudo o que se possa fazer em favor de Loureno Marques de pouco
valer, se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria
e os nossos capitaes no forcejarem por tirar aos estrangeiros o
predominio que at hoje tm tido na colonia, e por desapossal-os do
monopolio do commercio, que tem como consequencia necessaria a drenagem
do ouro sem que a metropole pouco ou nada aproveite da riqueza da sua
colonia, de dia para dia crescente.

No lhe enviemos, pois, colonos pobres que l vo morrer, mas
consagremos-lhe energias ss, vontades firmes e capitaes abundantes.
Raras vezes uma colonia pde dar um rendimento liquido  me patria; mas
o que lhe d e deve dar  um mercado para o consumo dos seus generos, e
um lucrativo campo de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar
as despezas que por ella so feitas. E isto no se consegue s com
medidas administrativas, mas sim com a boa vontade e a intelligencia
commerciaes, que, luctando com a concorrencia estrangeira, evitem que s
a esta venham a caber os fructos de tantos sacrificios, que no poucos,
de homens e dinheiro, temos feito em Loureno Marques.

Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das
nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se em
sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de empregados
subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vo ao interior recolher
os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.

No Transvaal, s em Johannisberg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres,
um verdadeiro exercito, que as exigencias da explorao do ouro, sempre
crescentes, dentro em poucos annos tero quadruplicado. De entre esses
cafres, uma grande parte provm da nossa colonia, e por isso o impedir a
emigrao equivaleria a causar uma revoluo economica no Rand; ora os
cafres vo trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres,
armas e emfim dos objectos de que imaginam carecer, e voltam s suas
terras com sommas por vezes avultadas.

No creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada
anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso
a uma entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada
exclusivamente pelo commercio da metropole. Os algarismos citados esto
decerto abaixo da verdade e mostram  evidencia a vantagem de no crear
embaraos  emigrao, tanto mais que no ha em Loureno Marques
industrias nossas que caream de braos.

Para aproveitar do commercio do interior no nos seria difficil
encontrar portuguezes, habituados ao serto, que podessem competir com
os indios: alguns temos j hoje, que tm conquistado o respeito dos
cafres e entre elles um conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo
soldado do corpo policial de Loureno Marques, o Silva Maneta, cuja
dedicao pela patria e coragem excepcional, que o levava a arrojar-se
loucamente aos mais arriscados lances, tantos servios prestou durante a
campanha de 1895; e que me seja licito aqui, prestar a esse portuguez de
lei, o tributo da minha admirao pelas brilhantes qualidades, que nunca
se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa pobre, mas gloriosa
patria.

Voltando, porm, ao assumpto, de que me fez desviar a recordao de um
verdadeiro heroe, n'esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada
pagina da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados
na nossa escla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre
quando se chega a convencer de que  portuguez e branco,  mais cioso
ainda do que este, das suas prerogativas, e at respeitado pelos outros
pretos como se branco realmente fra. E no ha decerto espectaculo mais
comico do que vr um grupo de negros tratar de _senhor_ e de
_branco_ um outro cafre to negro como elles, s porque traja e
falla como os europeus.

Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade
em que d'elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se
mais trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.

Mas como condio essencial, necessario se torna que as nossas marcas
sejam sempre as mesmas e que no succeda que, desde que um producto se
acredita  custa de muito trabalho, os menos escrupulosos faam perder
uma vantagem, que difficilmente se poder recuperar. No insisto, apesar
de poder apresentar muitos exemplos, n'este facto, cuja importancia
todos podem avaliar.

Muitos e variados so os productos com cujo commercio lucrariamos, quer
no districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei
aos que julgo de maior importancia.

Na _cidade_, temos o consumo proprio, que  o de uma cidade rica, e que
deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que  sombra de
bem entendidos direitos de entrada, no to exaggerados, que sejam
apenas um incentivo ao contrabando.

No _interior do districto_, facil seria abrir mercado para os nossos
vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que vo
sendo preferidos ao alcool, no s porque realmente os cafres os
apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco,
bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, tm conseguido que
grande numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente,
aconselhando-os a beber s vinho, que elles consomem conscienciosamente.
Tambem apreciam muito o _vermouth_, ou uma mistura que em garrafas lhes
 vendida como tal. Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos
um mercado bastante largo para os nossos vinhos, e praticariamos ao
mesmo tempo uma obra meritoria prohibindo a importao do alcool
industrial em Loureno Marques e a sua venda aos indigenas.

Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, alm dos
vinhos.

A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam
lucros bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos
preferidos.

Os tecidos, quer de algodo, quer de l, pannos e cobertores, podem ser
enviados da metropole e vendidos com lucro, no s porque obtm preos
altos, mas ainda porque muito os poderia proteger a differena de cambio
e um bem entendido direito protector, no difficil de fiscalisar. Os
typos de algodes e cobertores preferidos deviam ser mandados pelos
governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem
reproduzidos. Os algodes azues ou de fundo azul com desenhos brancos
so muito apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que
foram reproduzidos n'uma fabrica de Lisboa empregando-se l de inferior
qualidade, e sendo o seu preo de custo de 600 a 900 reis: taes
cobertores tinham ento em Loureno Marques um preo de 4 a 6 shillings,
o que dava margem para um commercio lucrativo.

Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos
completos, capotes, chapos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez
ou allemo; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a
lucros importantes.

Para o _Transvaal_, o nosso principal ramo de exportao no poder
deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as
conservas, sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as
marcas.

Apesar de ser um assumpto de que pouco conheo, no creio que para nos
abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando
muito, poder apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as
indicaes geraes dos mercados aos viticultores nacionaes e os dados
estatisticos sobre que se possam basear.

A meu vr, os commissarios e exposies poucos resultados podem dar e a
experiencia bem o tem mostrado. Vo effectivamente os vinhos, faz-se uma
propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente
bons e... mandam comprar os vinhos que esto habituados a beber. No
julgo facil, n'um paiz como o Transvaal, habitado por uma populao
ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos
vinhos do Cabo, que so os que mais frequentemente se encontram por toda
a parte.

O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos
variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos
de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de
Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul
africana, foi d'esta opinio, no relatorio que apresentou no seu
regresso a Frana, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que to
largo nome tm. Este modo de proceder tem j sido empregado para a
fabricao de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo
consumo no sul da Africa; no foram os francezes procurar convencer os
sul africanos de que o Champagne, que  preferido n'aquella regio,
no  bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh'o segundo o seu gosto.

Alm do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos so
largamente consumidos no Transvaal, e muitos d'estes no vm de Frana,
Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica
o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal.

Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam
preferidos, , creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas
sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos
vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.

Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz,
dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel  vista,
parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a
populao sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse
proprio, collocal-os-iam com facilidade.

Claro est que isto s diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos
vinhos generosos tm uma reputao universal e no conviria mudar-lhe os
typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os
contrafactores, que os ha e no poucos, at em Africa.

Alm dos vinhos, as conservas podero ter tambem consumo facil desde que
vo melhor e mais artisticamente acondicionadas.  frequente em Africa,
receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas,
contrastando com o bello aspecto das fructas da California.

Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia
quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos
lucros.

Mas, alm do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos
meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os
capitaes estrangeiros vo auferir em Loureno Marques.

A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e
melhores daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na
bahia, abundante, bem como a costa do districto, em peixes de variadas
especies. A sua explorao, combinada com a da fabricao do gelo, teria
no Transvaal um largo campo de consumo, e se no se tem installado
regularmente at hoje,  porque todos se tm preoccupado em obter o
monopolio da pesca, que o governo no pde nem deve dar.

O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma
grande facilidade de applicao, daria tambem lucros fabulosos,
attendendo ao elevadissimo preo por que se esto hoje vendendo.

O aterro e aproveitamento de uma rea comprehendida entre a costa e um
muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha,
daria perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor
incalculavel, e de uma grande vantagem para o alargamento do porto e
edificios do Estado, taes como a alfandega, capitania, etc. Esta
concesso j foi pedida por estrangeiros e seria decerto um perigo se
cahisse nas suas mos, pois que, pelas concesses feitas, o governo no
possue hoje na bahia uma extenso apreciavel de costa, a no ser aquella.

A construco de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do
Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga
intelligencia, vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos
ultimos tempos tem dirigido os destinos de Moambique, o snr.
conselheiro Antonio Ennes, daria alm de grandes juros ao capital para
ella necessario (300 contos aproximadamente) uma grande facilidade ao
movimento do porto, por isso que ella seria acostavel em qualquer estado
do tempo.

As construces urbanas tm dado nos ultimos annos rendimentos
avultados, no inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa
de custo no superior a 300 libras, ser alugada por 7 libras
mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, 
certo que os capitaes empregados em edificaes rendem pelo menos 15 por
cento.

E citarei apenas de passagem, para no alongar demasiadamente a
exposio, as industrias ceramicas, a fabricao da cal e cimento, hoje
produzidos j no Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de
docas de reparao, a de fabricao e reparao de lanchas e escaleres,
etc., etc.

Creio que hoje no restar duvida que Loureno Marques  e ser uma
colonia commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio
portuguez depende principalmente do commercio e industria nacionaes, aos
quaes devemos subordinar tudo o mais. Quando os capitaes empregados em
Loureno Marques forem s inglezes, inglezas as casas commerciaes,
ingleza toda a rea em que assenta a cidade, o que equivale a dizer
estrangeiro tudo, com que direito, com que razo nos poderemos ali
conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando smente o trabalho
alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, no bastam em Africa, e o
nosso proprio decoro no nos permittiria que nos mostrassemos
degenerados descendentes dos antigos _moradores_ portuguezes.

Precisam, pois, affluir a Loureno Marques, como j disse, no colonos
pobres e anemicos ou velhos e creanas, como tem j succedido, para
apenas concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos
sos de corpo e de espirito, representando o commercio e a industria da
metropole, activos e emprehendedores, acompanhados por capitaes
nacionaes, que vo recolher os largos juros que hoje so premio de
capitaes estrangeiros.

O desenvolvimento do commercio e da industria traro como consequencia a
emigrao especial de que estes precisam, por isso que carecem de
edificaes, obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc.,
que representam outras tantas necessidades, cuja satisfao pde dar
vasto emprego a um grande numero de homens, engenheiros, operarios,
marinheiros, pescadores, etc., que devero ser to bons como os melhores
da metropole, d'onde devero ir, para resistirem  influencia do meio.
J hoje um bom operario ganha em Loureno Marques um salario avultado,
no sendo raros os que no fim de certo periodo alcanam uma pequena
fortuna; em compensao os maus operarios difficilmente alcanam meios
de subsistencia.

Mas, se tudo isto  a consequencia necessaria do desenvolvimento da
colonia, mais necessario se torna que ella se no desnacionalise, e que
a lingua portugueza seja a que predomine, porque de outro modo os
estrangeiros preferiro sempre os operarios seus compatriotas. E a
desnacionalisao, s o augmento de relaes commerciaes com a metropole
e o affluxo de capitaes portuguezes podero evital-a.

A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender,
ajudada pela proteco do governo; mal se comprehende que uma colonia
commercial por excellencia, como  Loureno Marques, possa estreitar as
suas relaes com a metropole, sem que haja navegao sob a bandeira
nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes
resultados deu, no porque a empreza no tivesse em si largos elementos
de exito, mas pela menos conveniente administrao que teve, aggravada
por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam
demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da
irregularidade das carreiras.

Dos vapores da Mala no se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da
chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a
Loureno Marques, isto no obstante os vapores serem de primeira ordem e
commandados por officiaes competentissimos.

Assim, resumindo, o futuro de Loureno Marques est, a meu vr,
dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu
desenvolvimento abre um largo campo de aco s classes liberaes e
ao operariado escolhido da metropole, que encontraro n'um paiz de
lingua, costumes e leis analogas s da metropole, vantagens no
inferiores s que apontei para o commercio metropolitano.

      *      *      *      *      *

Resta-me ainda dizer algumas palavras de Loureno Marques como colonia
de explorao, e debaixo d'este ponto de vista creio que, se o districto
tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, esto elles longe dos
que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da
provincia. Entretanto, pela sua situao fra dos tropicos e pela sua
posio geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que
conviria utilisar, imprimindo  colonisao do districto, alm do
caracter commercial predominante, uma feio de colonia de explorao,
secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.

A colonia de explorao propriamente dita deve poder produzir generos de
venda remuneradora, taes como o caf, o cacau, a canna, a quina, etc.,
que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo
dispr de mo d'obra abundante e facil, que substitua a do europeu,
que unicamente deve dirigir os trabalhos.

Loureno Marques, pelo menos na regio visinha da costa, onde os
transportes so relativamente faceis, poder talvez produzir os generos
a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha j ali
se desenvolvem. Produzir igualmente os outros generos, com economia?
No sei, visto no haver experiencias que nol-o indiquem.

E merecer a pena tental-as, quando a pequena distancia para o norte da
provincia temos regies onde as condies do clima so excepcionaes, bem
como a fertilidade do slo, para o estabelecimento de colonias de
explorao, como em toda a regio do Zambeze? No creio. Seria ir
experimentar o duvidoso, desprezando o certo.

Demais, em Loureno Marques a mo d'obra  cara. O preto ganha ali,
trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3
shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e no  facil encontral-os
por preo menor, visto que  este o salario que podem ganhar em qualquer
centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo
s queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos
cafres, esquecendo o principio geral da _offerta_ e da _procura_, sendo
o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam
cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior
salario aos do visinho.

O regulamento do preo dos salarios  praticamente inapplicavel em
Loureno Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a
emigrao para o Transvaal e para o Natal, e esta medida, alm de
anti-economica e antipolitica, seria de difficil execuo.

Pelo contrario, na Zambezia, no succede o mesmo. O preto ali,
submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preo
baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que no
est j sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer
trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes
tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforos, sob vos
pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura
barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas
no menos firmes, em seu exclusivo proveito. E tm razo, pois que a
liberdade que ns damos ao preto resume-se em lhe darmos s direitos,
dos quaes o que lhes  mais precioso  o de no trabalharem, sem lhe
imprmos deveres.

Assim, temos na provincia de Moambique pontos onde podemos ir
implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de
exlorao, ricas, de largo futuro, no inferior ao da nossa colonia
de S. Thom, sem recorrermos para isso a Loureno Marques.

, porm, certo que este districto dispe de recursos especiaes: 
cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis:
dispe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam
installar culturas remuneradoras; pela sua posio fra dos tropicos e
proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as
experiencias n'aquelles paizes realisadas, poderiam decerto
aproveitar-lhe; e finalmente ainda,  menos insalubre do que os outros
districtos da provincia,  excepo talvez de alguns pontos de Inhambane
e das terras altas do interior. Algumas localidades at, infelizmente
pouco extensas, so relativamente salubres, dando-se o caso curioso de
que no se podem sempre reconhecer  primeira vista as suas condies
hygienicas.  assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a
parte de pantanos e lodaaes, se reconheceu ser o local mais salubre de
todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um
verdadeiro sanatorio.

Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Loureno
Marques; sero naturalmente aquellas que exijam pouca mo d'obra, ou em
que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam
tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.

Taes so a creao de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de
cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com
effeito, que a Huilla, que a regio de Milange e tantas outras possam
fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato,
no puderem sahir do paiz de produco?

A cultura do milho, sem duvida se pde realisar em Loureno Marques;
cultivam-n'o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e no so
poucos, e com magnifico resultado, pois se vem as plantas attingir 3, 4
e mais metros de altura, com uma produco proporcional ao porte. Em
todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vem vastas
planicies, onde s areias se misturam as alluvies do rio, formando um
slo extremamente fertil.

O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condies
analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se pde
concluir, pois que ainda no foram regularmente seguidas para fornecer
dados seguros; todas, porm, tm dado resultado e s de uma, feita nas
visinhanas da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores,
mas  provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem
desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, no se
escolhendo a poca favoravel  sementeira, nem o typo de semente mais
apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da
colonisao africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do
trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em mdia
50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n'uma alta latitude,
mais naturalmente succeder no do Incomati.

Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo,
foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem ento
dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim
de se proceder s necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos
poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do
resultado d'estes trabalhos, que oxal sejam dados a publico.

Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela
metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de
retorno. O milho, alm do consumo no interior do districto, pois que,
comquanto parea incrivel, o districto de Loureno Marques importa por
vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para
fabricao do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que j
ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.

Alm d'estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se
poderiam crear, no s para consumo local, mas talvez tambem para
exportao. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no
districto, conforme se verificou nas plantaes de Anguane. As
laranjeiras e limoeiros no tm difficuldade em medrar, pois que os
ultimos so selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati
milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limes, que se
reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.

Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, at  fronteira sul
do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do
Limpopo, a creao de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em
qualquer d'estes pontos se vem rebanhos de gado de centenares de
cabeas, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam
tambem perfeitamente, podendo prestar grandes servios n'aquelle paiz em
que os cavallos morrem to facilmente: duas muares vi no Incomati, que,
tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em
liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a
tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.

O gado lanigero, pelo menos raas semelhantes s do Transvaal e do Cabo,
encontraria tambem magnificas condies de desenvolvimento n'uma extensa
zona nas vertentes dos Libombos, onde j se encontra, na posse dos
cafres, se bem que em pequeno numero e de raa inferior. A exportao
das ls constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da
Boa-Esperana e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Loureno Marques.

Na zona que da base da vertente dos Libombos vem at  zona argillosa e
humida, encontram-se, quando a populao escasseia, avestruzes
selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creao poderiamos
tirar da regio arenosa do districto, de um modo analogo quelle por que
no Cabo da Boa-Esperana se conseguiu tirar d'aquelles animaes um
rendimento importante, de centos de mil libras annuaes.

A cultura do arroz e do algodo, o primeiro j hoje cultivado em pequena
escala pelos negros, e o segundo, de que j se fizeram ensaios coroados
de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.

De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar,
pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforos por vezes empregados
pelo governo. J em 1780 foi necessario que o governador Pereira do
Lago, obrigasse os moradores  cultura do algodo, e em 1760 o
governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forou os habitantes de
Loureno Marques a entregarem-se  agricultura, _para ao menos evitarem
que at o po e a mandioca lhes viessem de fra_. Que diria elle hoje,
em que vem de fra no s o po para os brancos, mas ainda o arroz e o
milho para os cafres!

Das riquezas mineiras de Loureno Marques pouco posso dizer. Ha talvez
ouro, e minerios preciosos, nos files dos Libombos e ao norte do
districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas at hoje feitas
nada se tem conseguido; verdade  que tm sido poucas e mal dirigidas;
entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.

Se Loureno Marques no est em condies de poder, como colonia de
explorao propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de
prosperidade de S. Thom, Cabo, Java, etc., nem por isso  to
desprotegido pela natureza, como vmos, que no possa, amparado pela sua
colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto
periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu _deficit_
de produco cerealifera.

      *      *      *      *      *

Mas se Loureno Marques s pde ser principalmente uma colonia
commercial, devendo-se a esta sua feio subordinar tudo o mais, nem por
isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regies onde se
installem colonias de outro genero.

Na regio alta do interior de Moambique podem encontrar-se vastos
terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a
populao pde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes so
Manica, Milange, a regio do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos
basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos
antepassados executaram na America; o governo s pde fazer os trabalhos
de preparao, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo
seu caracter, no julgo que possam dar bom resultado.

Para colonias de explorao temos quasi toda a vasta rea da provincia
de Moambique, que se abre  nossa actividade, apresentando-nos uma
variedade de recursos que difficilmente se encontraro n'outros pontos.
Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos
e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao
longo da costa, essa mesma situao nos d a posse dos melhores portos,
testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar
desde o Cabo da Boa-Esperana at ao Guardafui.

Inhambane, n'uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre
parallelamente  costa, tem uma populao numerosa e trabalhadora,
terrenos fertilissimos, e a borracha e o caf desenvolvem-se ali
espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantaes
junto da villa, mostram ainda hoje a pujana dos cajueiros, coqueiros,
mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O caf, que cresce quasi
na costa, no tem animado ainda at hoje os nossos colonos a iniciarem
plantaes, limitando-se a ensaccar o que do interior  trazido pelos
cafres; ha annos, porm, ensaiou-se ali uma larga plantao de ch, que
morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado
bons indicios. No interior do districto a caa, bufalos, zebras,
antilopes e at elephantes, so abundantissimos.

Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial,
em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram
grande numero de feitorias, povoaes e centros agricolas, de que ainda
restam vestigios.

Modernamente alguns homens de iniciativa tm, em pouco tempo, realisado
fortunas avultadas e fundado magnificas plantaes no baixo Zambeze. O
coqueiro, de que se encontram ali milhes de exemplares, tem sido
plantado largamente; a canna saccharina, o caf, o arroz, etc., esto
sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos,
poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de explorao
portugueza, superior ainda a S. Thom.

Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia
ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia;
em Tte encontram-se jazigos de carvo, infelizmente de qualidade
inferior na parte j reconhecida, e nos terrenos ainda no explorados ha
indicios de importantes jazigos auriferos.

Na regio alta do norte do Zambeze, o clima  semelhante ao da Europa, e
ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenas
inevitaveis no valle insalubre do rio.

Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moambique e Angoche, pouco se conhece
do interior, mas a todos estes portos concorre o caf selvagem do serto
e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes
oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel  encontrar
territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, regio
esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos comeada, j hoje
exporta mais toneladas de caf do que toda a provincia de Moambique
exporta de saccas da mesma mercadoria.

      *      *      *      *      *

No seria, pois, razoavel procurar fazer de Loureno Marques uma colonia
de explorao propriamente dita, tentando introduzir ali, com
sacrificio, culturas que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos
d. O futuro de Loureno Marques est inteiramente ligado ao seu
desenvolvimento commercial e  emigrao para ali de individuos capazes
de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto est, mais uma vez
o repito, nas mos da iniciativa particular.

Ao governo compete no contrariar, pelas suas medidas administrativas,
essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem
de idas. Por ns ou pelos estrangeiros, Loureno Marques ha de
fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e
tudo o que contrarie esse destino redundar em nosso damno.

A permanencia dos governadores no districto (de 1881 at 1896 houve
vinte e sete mudanas de governadores), a creao de tropas
coloniaes, a separao naturalmente indicada de Loureno Marques e
Inhambane, n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicao
dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para
fra, a nomeao de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos,
em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a
organisao dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as
revoltas, e tantas outras questes de administrao, s podem ser
ordenadas pelo governo, e muito contribuiro para a prosperidade do
districto, com o qual a metropole j hoje no deveria fazer despezas.

Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos
seculos, no vo hoje, que a messe est madura, aproveitar a outros, que
avidamente espreitam o momento de lanar mo dos nossos despojos; e que
uma colonisao preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo
de expanso e actividade necessario a um povo que no est ainda
completamente decadente e perdido,  o que devemos procurar.

De entre os restos do nosso vasto dominio colonial  Loureno Marques
aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia
capital para o futuro desenvolvimento de Moambique. Para que a sua
desnacionalisao no se opere, torna-se necessario que para ali
concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que so
ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisao, e de todos
estes meios de aco nenhuma regio  mais rica do que o norte do paiz e
em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que
no Porto.

 por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso
convite com que me distinguiu, e  assembla a cortezia e atteno com
que se dignou escutar o que diligenciei expr, sem galas de estylo, mas
com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso,
se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Loureno Marques
as attenes d'uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes
emprehendimentos de que pde resultar para a nossa querida patria,
riqueza, gloria e prosperidade.

    [1] Dados extrahidos do _Districto de Loureno Marques_, por
        Eduardo de Noronha.





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Alfredo Freire de Andrade

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