The Project Gutenberg EBook of Isabel d'Arago a Rainha Santa, by Anonymous

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Title: Isabel d'Arago a Rainha Santa
       Historia sucinta da sua vida, morte e excelsas virtudes

Author: Anonymous

Release Date: February 19, 2011 [EBook #35324]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ISABEL D'ARAGO A RAINHA SANTA ***




Produced by Pedro Saborano





                           ISABEL D'ARAGO

                                  A

                            RAINHA  SANTA

        HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES


                          DEDICADA AOS FIEIS



                               COIMBRA
                   GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA
                                 1921





                           ISABEL D'ARAGO

                                  A

                            RAINHA  SANTA

        HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES


                          DEDICADA AOS FIEIS



                               COIMBRA
                   GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA
                                 1921




PRLOGO


Muito se tem escrito cerca da vida da excelsa e virtuosissima D. Isabel
d'Arago, Esposa d'el-rei D. Dins; mas impunha-se ha muito a publicao
dum folheto, como este, que sendo conciso na sua descrio no deixasse
de relatar os factos que mais distinguiram Aquela que a cidade de
Coimbra escolheu para sua Augusta Padroeira e Protectora.

O que o autor deste folheto teve em vista foi facultar aos fieis, com
grande economia de preo, um livrinho de leitura facil e corrente, ao
alcance de todos, onde a historia sagrada da Rainha Santa possa deixar
bem arreigada no espirito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente
maravilhosa, que lhe concedeu logar na crte celestial.

As notas que colhemos foram, principalmente, extradas do monumental
trabalho de investigao historica do Ex.^o Sr. Dr. Antonio Garcia
Ribeiro de Vasconcelos, na sua to apreciada obra _D. Isabel d' Arago_.

      *      *      *      *      *

A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal
e por muitas terras de Hespanha. Em Coimbra, porm,  to grande que em
parte alguma do nosso pas se realizam festas to pomposas em honra dum
santo, como nesta cidade, onde concorrem para mais de 50:000 pessoas por
essa ocasio.

 nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses,
principalmente, recorrem  proteco da Rainha Santa na sua fervorosa
suplica, e se nem sempre logram alcanar a satisfao das suas preces, 
j poderoso linitivo para a sua dr a lembrana de que Ela nunca
desamparou os infelizes com a sua divina graa.

Isabel d'Arago tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu tambem uma
prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento
que o seu corpo sagrado repousasse no mosteiro de Santa Clara desta
cidade, onde Ela esteve clausurada e donde foi trasladado o seu corpo
para o novo mosteiro do mesmo nome.

, pois, pouco quanto faam os conimbricenses em honra da memoria
sagrada da Sua excelsa Padroeira.





CAPITULO I

Nascimento da Rainha Santa


Da crte de Arago ao Trono de Portugal

A Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada
Protectora e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoa (Espanha),
no ano de 1271.

Filha do Principe real D. Pedro de Arago e de sua esposa D. Constana,
o seu nascimento foi desde logo iluminado pela graa divina, pois que
seu av, El-rei D. Jaime, que at a vivia em grande discordia com D.
Pedro de Arago, imediatamente se congraou com este, passando ambos a
viver na mais doce harmonia.

Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser
na terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a
harmonia e a concordia entre os desavindos, facto que mais tarde, quando
Rainha de Portugal, se verificou nas diversas desavenas entre seu
esposo El-rei D. Dins e seu filho D. Afonso IV.

A Rainha Santa Isabel foi, como j dissemos, aureolada desde o seu
nascimento pela graa do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se
revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a imps 
considerao de todas as crtes da Europa, facto que despertou em
bastantes principes o desejo de possuirem como esposa to excelsa
senhora.

Foi  crte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser
a preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dins a gloria de
ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de to preciosos
encantos.

      *      *      *      *      *

O casamento de D. Dins com D. Isabel celebrou-se por procurao na
antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro
de 1282 e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade.
ste auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regosijo para
todos os portugueses, antevendo estes os enormes beneficios deste
casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o pas com
demonstraes de grande alegria e verdadeira satisfao.

A sada de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristesas,
custando-lhes imenso essa separao pelas profundas saudades que D.
Isabel deixava em todos os coraes que muito a estremeciam.

De Espanha at Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por
todo o povo que acorria  sua passagem, salientando-se mais essas
carinhosas manifestaes na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de
Junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a
pompa as benos nupciais.

Em Coimbra, onde a esse tempo residia a crte juntamente com a principal
nobresa do reino, as manifestaes de contentamento e alegria pela
chegada dos rgios nubentes, atingiram o mais delirante entusiasmo,
conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor dum povo que,
mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro--o sagrado corpo
que todos hoje veneramos--e que esta cidade conserva com a mais
desvelada e respeitosa devoo.

As manifestaes de regosijo com que a cidade recebeu os rgios
consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as
suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se
achava possuida por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se
evidenciaram na vida da nao portuguesa, e de que Coimbra comparticipou
em larga escala pelos benficos actos de caridade que a Santa Rainha
espalhou por toda a parte.

Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Arago manifestou
mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou,
os socorros por ela prestados  indigencia, aos rfos, s vivas e s
donzelas abandonadas, foram os primeiros lavores que lhe teceram a sua
coroa de gloria; a fundao de asilos, de albergues e de hospitais, que
a sua magnificencia sustentou e onde se recolhia uma legio de
infelizes, originou, sem duvida, a fama de santidade que bem cedo a
distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santssima
Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no numero dos eleitos do Senhor.




CAPITULO II

Actos de Caridade


Se durante a vida de El-rei D. Dins a aco da Rainha Santa foi um
constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua
viuvs, a sua aco tornou-se verdadeiramente exemplar.

O numero de factos que desde ento assinalam to gloriosa existencia na
terra, mais e mais fazem arreigar na alma do povo a convico dos
designios de Deus por Ela to santamente interpretados.

Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande
parte dos seus cuidados, e no poucas vezes foram motivo de profundos
desgostos, D. Isabel de Arago cinge livremente o hbito de freira
Clarista e volvendo os olhos piedosos para um mais largo horisonte,
consagra-se completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando
hospicios e asilos, nos quais se albergam, sob a sua proteco, muitas
infelizes que se regeneraram pelos seus conselhos e alcanaram na terra
a felicidade que s sabem gosar as almas puras e simples.

Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva at
Deus, um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da
viuvs, foi trocar os faustos das glorias terrenas pela humildade da
clausura a que, como j dissemos, livremente se sujeitou.

      *      *      *      *      *

Junto dos seus Paos riais corriam vagarosamente as obras para a
fundao do Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se
por demandas entre os frades Cruzios e D. Maior Dias, fundadora daquele
convento, e que certamente ficariam incompletas se no fosse o auxilio e
proteco que a Rainha Santa dispensou para a sua rapida concluso.

Uma vez concluido, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste
convento um asilo para rfos e para a pobresa envergonhada, chamando
para junto de si algumas amas de leite com o encargo de alimentarem
as crianas desvalidas!

A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuido por forma
a satisfazer os seus deveres de Rainha e crist; o restante empregava-o
no ministerio da caridade visitando os asilados, a quem no s consolava
com a sua palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira
curando as chagas que lhes corroiam o corpo.

Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegao dispendia a
Rainha Santa quasi toda a sua fortuna. Com o auxilio de Deus, a quem
firmemente procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas
virtudes, nunca a Rainha Santa lutou com dificuldades para se
desempenhar da sua nobre misso. Os proventos de que dispunha parece que
tinham o condo de se multiplicar e, se algumas vezes houve em que o seu
socorro tinha de fazer face a maiores calamidades, ento eram as Rosas
que, adquirindo a forma de oiro reluzente, premiavam os seus actos de
caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para garantir o po aos
famintos!

Da sua vida, to brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Ex.
o sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da
Universidade de Coimbra[1], constam muitos e importantes
factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais
altos beneficios em favor dos desprotegidos.




CAPITULO III

Morte da Rainha Santa


Em Junho de 1336 teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D.
Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto
por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre
aqueles dois poderosos monarcas.

Quando a Rainha Santa soube de tal resoluo imediatamente se resolveu a
partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava seu filho
acompanhado de toda a Crte.

ste propsito foi prudentemente combatido pelos medicos da Rainha
Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa
viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demov-la
dessa resoluo. Inuteis rogos e infrutiferas tentativas! A Rainha
Santa, despresando esses bons conselhos e animada smente em
restabelecer a paz entre os reis desavindos--filho e neto--, parte
apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega
finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas
cheia de animo para cumprir a sua carinhosa misso.

Logo que a sua chegada  conhecida no acampamento de D. Afonso IV,
imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito
da Rainha Santa para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa
saude exigia.

Baldados esforos porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma
pstula que rapidamente lhe apareceu num brao tornou mais
melindroso o seu estado e, no dia 4 de Julho, manh cedo, a Rainha Santa
declarou que queria receber os ultimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo
dia as foras principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa v que  chegada
a sua ultima hora, e erguendo o pensamento at ao Ceu, encarrega a Me
de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes
versos do hino eclesiastico:

    Me de graas e Misericordia
    Maria piedosa e forte:
    Livra a minha alma, recebe-a
    Na hora da minha morte.

A seguir recita com visivel comoo algumas oraes; os olhos fecham-se
lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos
ante aquele quadro to emocionante, compreendem que a alma pura da
Rainha Santa, solta do seu veneravel corpo, subia aos cus a receber o
premio das suas virtudes, descanando para sempre na paz do Senhor, onde
eternamente gosar a bemaventurana com que Deus premeia os seus eleitos.

      *      *      *      *      *

, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora est recebendo
o premio das suas boas aces e dos seus constantes trabalhos. Ali, no
seio de Deus, junto da Virgem Santissima, intercede pelo seu povo, por
aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dres humanas, e
que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu
reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto fervoroso
de todos os portugueses pela Santa Rainha e, mui especialmente, do povo
de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa
devoo.




CAPITULO IV

Trasladaes


I

Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado
da crte foi escolher local para depositar o corpo de to excelsa
Senhora, opinando uns para que fsse sepultado no Convento dos
Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fsse trasladado para a S
de Evora, a cidade mais proxima daquela terra. Por conselho de El-rei
procurou-se o testamento de D. Isabel e vendo-se por ele que a Rainha
Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi
respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pr em pratica o
desejo ali expresso.

Apezar das opinies em contrario, prevaleceram as determinaes de El-rei.

O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em
marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo ms, tendo
atravessado to longo percurso debaixo dum sol abrazador.

As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de
verdadeiro espanto quando, ao 3. dia de viagem, notaram que o atade
onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas,
escorrendo por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente
da decomposio do cadaver.

Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro
desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espao um tal
aroma que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados,
logo se aproximaram do atade, louvando o Senhor por esta manifestao
da sua omnipotencia.

Quando o cortejo chegou a Coimbra deram-se ento scenas comovedoras e
lancinantes entre a populao citadina. Todos  porfia queriam beijar o
atade onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Bemfeitora,
ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa
Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graas e bondade!

Quando o atade deu entrada na igreja de Santa Clara muita gente sups
que o corpo da Rainha Santa seria exposto  venerao do publico. Tal se
no deu; no dia seguinte, 12 de Julho,  que se celebraram os oficios
divinos por alma de D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a
solenidade e com a assistencia de alguns Prelados, Professores da
Universidade, Rei, Cabido e muitos religiosos das diversas ordens.

Logo que eles terminaram, foi o atade transportado para uma capela que
a Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava
o tumulo de pedra que em sua vida tambm mandara construir _(fig. 1)_.

Foi dentro dste precioso moimento de pedra, ricamente cinzelado, que se
colocou o atade tal qual veiu de Estremoz, envolvido numa pele de boi e
com um pano de brocado repregado por cima.

Sobre o atade colocaram o bordo de peregrina e uma bolsa que o
arcebispo de S. Tiago de Galiza ofereceu  Rainha Santa quando ela
visitou esta cidade, sendo em seguida fechado o tumulo com a pesada
pedra que ainda hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da
Rainha Santa com habito de freira.

Assim se conservou at ao dia 26 de Maro de 1612, 276 anos depois da
sua morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontifice.

[Figura 1: Tmulo de Pedra]

Esta cerimonia, que se tornou necessaria para se proceder ao processo de
canonizao de D. Isabel, foi presidida pelo Bispo de Coimbra D. Afonso
de Castelo Branco, e tendo como assistentes D. Martim Afonso, Bispo de
Leiria, Dr. Francisco Vaz Pinto, dois medicos, um cirurgio e algumas
testemunhas a quem foi confiado o encargo de examinarem os restos
mortais da Rainha Santa.

Pedimos licena para trasladar para aqui o relato que sobre esta
cerimnia encontramos no autorizado livrinho--_Historia Popular da
Rainha Santa Isabel--Protectora de Coimbra_.........

Subindo  capela superior, onde estava o tumulo, e analisando-o com
todo o cuidado por fra, acharam-no exactamente como havia ficado 276
anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido
o atade que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia
rodeado de demonstraes da f e amor que os prendia quela cujos restos
ali estavam encerrados.

Ninguem sabia se o tumulo continha smente os ossos da santa Esposa de
D. Dins, se mais alguma cousa que ainda restasse do corpo e mortalhas;
por isso todos estavam anciosos por que o tumulo se abrisse.

Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordo de peregrina, que
foram pelo bispo-conde entregues  guarda das religiosas.

O atade ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela
vermelha que havia sido repregada por cima.

Com dificuldade se despregou a taboa superior do atade, cortaram-se 
tesoura os numerosos envoltorios em que a santa Rainha fora amortalhada
em Extremoz, antes de ser metida no caixo, os quais, se encontraram com
admirao de todos, em perfeito estado de conservao, como se ali
tivessem sido colocados pouco antes.

Por fim descobriu-se o rosto, peito e brao direito da nossa excelsa
Protectora. Todos cairam de joelhos, estupefactos pelo grande milagre
que viam!

O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a
cabea coberta de louros cabelos, perfeitamente seguros na pele, a
boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o
cunho da bondade e majestade que haviam sido apanagio da Rainha Santa.
Vestia o habito de estamenha das freiras de santa Clara, e um pano
branco de linho envolvia-lhe a cabea. Do atade saia aroma suave.

 vista de tal milagre as religiosas cantaram o hino do velho Simeo,
dizendo: _Agora, Senhor, j podeis deixar-nos morrer em paz, porque os
nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder_.

Feito pelos medicos e cirurgio o exame minucioso que se lhes pedia,
concertaram-se de novo as mortalhas, o tumulo fechou-se, e de tudo se
lavrou o auto competente.


II

Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do rio Mondego muito
grave se tornou a vida monstica no convento fundado pela Rainha Santa.
Como as invernias ameaassem sepultar nas areias daquele rio as paredes
do convento, as religiosas reciavam, e com razo, ficar sepultadas sob
os seus escombros, perdendo-se neles todas as preciosidades que
enriqueciam a Igreja e entre as quais devemos destacar o precioso corpo
da Rainha Santa.

Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a
comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-rei D. Joo IV ouvir os rogos
das religiosas claristas e mandou erigir no monte da Senhora da
Esperana um novo convento para sua habitao.

As obras deste grandioso edificio, que se prolongaram durante muito
tempo, foram iniciadas no dia 5 de julho de 1649 e s no dia 29 de
Outubro de 1677, 28 anos depois, le estava apto a receber as
referidas religiosas.

Por ordem do Principe regente D. Pedro, 2. filho de D. Joo IV,
procedeu-se no dia 27 de Outubro daquele ano  abertura do tmulo da
Rainha Santa, assistindo a este acto alguns representantes da Crte, 8
Bispos. Professores da Universidade e muitos religiosos das diversas
ordens de Coimbra. Como se verificasse que o caixo que guardava o corpo
da Rainha Santa estava um tanto deteriorado, logo se procedeu 
construo dum outro que o substituisse e para o qual foi mudado o corpo
da veneranda Padroeira de Coimbra. Durante esta operao quiz o acaso
que se soltassem algumas pregas das roupagens que envolviam os despojos
de Santa Isabel, podendo assim todos os presentes ver a mo direita
desta virtuosa Rainha, alva como a neve, e em to perfeito estado de
conservao que logo provocou o natural e piedoso desejo de ser
osculada, como o foi com efeito, por todos aqueles que tiveram a suprema
felicidade de ali estar reunidos.

Duraram os preparativos da trasladao para o novo convento ainda 2 dias
e, em 29 de Outubro, foi a Rainha Santa para ali conduzida
procissionalmente, acompanhada de muitos milhares de pessoas, e tendo de
atravessar por entre duas alas compactas de povo que se estendiam at ao
novo convento.

Como a essa data no estivesse ainda concluida a Igreja que hoje
admiramos, foi o corpo da Rainha Santa conduzido para uma pequena sala
existente ao fundo do cro, colocando-se ento no precioso e riqussimo
tmulo de prata _(fig. 2)_ que D. Afonso de Castelo Branco, um dos mais
notaveis Prelados desta diocese, mandara fabricar, e no qual ainda hoje
se guarda o precioso tesouro que Coimbra venera com o maior respeito
e o mais devotado amor!

      *      *      *      *      *

Concluida que foi a Igreja de Santa Clara, procedeu-se no dia 3 de julho
de 1696 a nova trasladao da Rainha Santa para a tribuna da
Capela-mr, lugar em que esteve durante muitos anos e donde teve de
mudar-se por causa da invaso dos francses.

[Figura 2: Tmulo de Prata]

No dia 1 de Outubro de 1810 tiveram as freiras conhecimento de que os
soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco
dias antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que
aos soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso pas,
apressaram-se elas em esconder as melhores alfaias do Convento e,
apressadamente, retiraram tambem do seu lugar o tumulo da Rainha Santa,
o objecto da sua mais estremecida estima, indo ocult-lo numa cela do
dormitorio, a ltima do lado esquerdo, onde dois pedreiros de absoluta
confiana o entaiparam sob um arco que engenhosamente foi disfarado
com uma cortina de alvenaria.

A se conservou o tumulo da Rainha Santa at ao ano de 1814, data em que
se estabeleceu a paz geral, sendo ento novamente mudado para o seu
lugar com grande regosijo das freiras claristas e ainda mais do povo de
Coimbra que anciosamente desejava acercar-se do tumulo da sua desvelada
Protectora, da sua excelsa Padroeira.

      *      *      *      *      *

Infelizmente no pararam aqui as mudanas a que esteve sujeito o tmulo
da Rainha Santa.

Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras,
certamente no proposito de ver tambem a Rainha Santa, mudar o seu tumulo
para o cro superior da Igreja. Com efeito, no dia 21 de Outubro daquele
ano, foi D. Miguel a Santa Clara e a, na presena das pessoas do seu
squito, foi aberto o caixo onde est o corpo da excelsa Rainha, esposa
de D. Dins.

Para o mesmo efeito foi ainda o tumulo da Rainha Santa mudado no ano de
1852, por ocasio da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860 quando
aqui esteve El-rei D. Pedro V. De ento at 1912 conservou-se sempre o
tumulo da Rainha Santa no referido cro.

Como a esta data o convento de Santa Clara no tivesse j quem
zelosamente pudesse cuidar do tumulo da Rainha Santa, e porque o local
onde le estava no oferecia as necessarias condies de segurana,
podendo facilmente ser violado por aqueles que vieram estabelecer
residencia neste convento, praticando talvez um desacato que ferisse
profundamente as crenas dos devotos da Rainha Santa, conseguiu a Mesa
desta Confraria que o tumulo fsse mudado para o lugar que lhe era
mais proprio, a tribuna da Capela-mr da Igreja, lugar onde agora se
conserva e, segundo cremos, se conservar definitivamente. Porque esta
mudana se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a
fidelidade a forma como ela decorreu, louvando ns o Senhor por nos dar
ocasio de presenciar to emocionante como piedoso acto, cuja descrio
respigamos dum jornal desta terra[2].

Do cro superior da Igreja de Santa Clara, foi no domingo trasladado
para a tribuna da Capela-mor da mesma Igreja, o riqussimo tmulo de
prata e a respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa.

Esta trasladao, sem dvida motivada pelos rumores que corriam nesta
cidade, rumores estes em que se salientavam at actos menos respeitosos,
fez-se com a possvel reserva afim de evitar aglomeraes nada
convenientes ao bom xito da trasladao.

Ainda assim, o nmero de pessoas que se reuniu no templo de Santa
Clara, na ncia de assistir a to piedoso acto, foi elevado, vendo-se
ali representadas muitas das principais famlias de Coimbra.

Perto das 5 horas da tarde, quando estavam concludos os preparativos
para a deslocao do tmulo, a entrada no cro foi rigorosamente
interceptada, ficando ali apenas, alm do pessoal necessrio para a
trasladao, os srs. Francisco Jos da Costa e Antonio Augusto Loureno,
da Mesa da Rainha Santa; Francisco Nazar, Joaquim Rasteiro Fontes,
Custdio Jos da Costa, Adriano Ferreira Rocha e Joo Ribeiro Arrobas,
os quais foram convidados a examinar as fitas lacradas que ligavam a
tampa do tmulo.

Verificada a sua inviolabilidade, foram quebradas as fitas e retirada
de dentro do tmulo a urna em que repousa Santa Isabel. Esta operao, 
bom fris-la, foi feita com o maior respeito e o seu bom exito, deve-se,
sem duvida, aos srs. Antonio Augusto Gonalves e Antonio Viana que, mui
sensatamente, dirigiram os trabalhos da trasladao.

No momento em que ia conduzir-se para a tribuna da Igreja o caixo em
que se encerra o corpo da Rainha Santa, uma comisso de senhoras obteve
do sr. Antonio Augusto Gonalves permisso para conduzir a urna, sendo
pois esta transportada pelas seguintes: D. Maria do Carmo Joice Dins,
D. Maria de Gusmo Galvo, D. Elvira Refoios de Matos, D. Maria Jos
Joice Dins, D. Maria Amelia Carneiro de Sousa Pires, D. Isabel de Sousa
Coutinho (Linhares), D. Tafones Roxanes de Carvalho, D. Maria do Carmo
Forjaz, D. Maria do Ceu Pinto e D. Matilde de Matos Mancelos Arago.

Logo que a urna deu entrada na Capela-mr, as inmeras pessoas que ali
a aguardavam prostraram-se respeitosamente na mais viva e sincera
contemplao, vendo-se em muitos olhos o deslisar de lagrimas
constantes.  que dentro daquele atade est em repouso no s o corpo
duma Mulher nobre por excelncia e virtuosa e santa pelos rasgos
generosos da sua candida alma, mas, o que  mais, por estar ali
concentrada a f ardente e sincera de milhares de crentes que nos
transes dolorosos da sua atribulada existencia envolvem nas suas
fervorosas preces o nome da Rainha Santa como um balsamo consolador
para as suas misrias e para as suas desditas.

Por isso as pessoas que ali se reuniram para assistir  passagem da
Rainha Santa, viveram bem felizes aquele rapido momento da existencia. A
noite, porm, ia avanando e era foroso pr termo aos trabalhos da
trasladao, colocando-se no local designado o atade da Rainha Santa.

Feito este servio o povo comeou a retirar-se, louvando a nobre ideia
de trasladar para a Igreja a santa querida que passou a vida na senda do
bem, espalhando por toda a parte o perfume das suas rosas, que so
aquelas que lhe engrinaldam o nome querido e ainda hoje digno de todo o
respeito.




CAPITULO V

Aberturas do tmulo e caixo da Rainha Santa


Por ser muito curiosa, damos neste lugar a noticia das vezes que tem
sido aberto o tmulo e caixo da Rainha Santa.

A notcia descritiva dsses actos to solenes, extramo-la da notvel
obra do Exmo. Sr. Dr. Antonio Ribeiro de Vasconcelos--_D. Isabel de
Arago_--, primoroso trabalho que S. Ex. publicou em 1894, e que  bem
um autentico testemunho das suas altas qualidades de escritor erudito e
consciencioso.

I.--Segunda feira, 26 de maro de 1612.

II.--Quarta feira, 27 de outubro de 1677.

III.--Domingo, 11 de janeiro de 1695, na capela que provisoriamente
serviu de Igreja em o novo Mosteiro.

IV.--Segunda-feira, 2 de julho de 1696, s 8 horas-da manh.

V.--No mesmo dia, horas depois, nova abertura pelas freiras do convento,
por estas no terem assistido como desejavam  primeira cerimnia.

VI.--No dia 4 do mesmo ms e ano foi novamente aberto o tumulo por se
desconfiar que as freiras, num excesso do seu amor para com a Rainha
Santa, se tivessem apropriado de algumas reliquias ou mesmo furtado o
seu corpo ocultando-o em stio s por elas conhecido.

VII.--Segunda feira, 9 de agosto, foi o tumulo aberto na presena de D.
Pedro II.

VIII.--Domingo, 29 do mesmo ms e ano, na presena de D. Carlos,
Arquiduque da Austria.

IX.--Domingo, 21 de outubro de 1832, na presena de D. Miguel e das
Infantas D. Isabel Maria e D. Maria de Assuno.

X.--Domingo, 25 de abril de 1852, na presena de D. Maria II, de El-rei
D. Fernando seu esposo, do Principe real D. Pedro e do Infante D. Lus.

XI.--Quinta feira, 17 de junho de 1852, para serem substituidas as
vestes que amortalhavam a Rainha Santa por outras oferecidas por D.
Maria II.

XII.--Quinta feira, 29 de novembro de 1860, na presena de D. Pedro V e
de seus irmos D. Lus e D. Joo.

XIII.--Quarta feira, 22 de outubro de 1862, na presena do Principe
Humberto, depois Rei de Italia, que foi hospede da nossa Universidade.

XIV.--Quarta feira, 9 de dezembro de 1863, na presena de El-rei D. Lus
e de sua esposa D. Maria Pia.

XV.--Quarta feira, 21 de junho de 1865, na presena de D. Isabel
Cristina, Princesa Imperial do Brasil e de seu esposo o Conde de Eu.

XVI.--Sabado, 4 de julho de 1868, na presena do Infante D. Augusto.

XVII.--Segunda feira, 4 de maro de 1872, na presena de D. Pedro II,
Imperador do Brasil.

XVIII.--Quarta feira, 14 de maio de 1875, na presena de El-rei D.
Fernando, do Infante D. Augusto e da Condessa de Edla.

XIX.--Tera feira, 24 de dezembro de 1889, na presena dos Imperadores
do Brasil.

XX.--Sabado, 25 de julho de 1892, na presena de El-rei D. Carlos, D.
Amelia e do Principe D. Lus Filipe.

      *      *      *      *      *

Finalmente, no dia 28 de maro de 1912 procedeu-se a nova e ultima
abertura do ataude da Rainha Santa.

Como decorreu este acto di-lo uma das testemunhas que a ele assistiram e
que fielmente fez reproduzir na _Gazeta de Coimbra_ de 30 de maro de 1912.

Como o nmero do jornal que publicou esta notcia foi rapidamente
esgotado, embora a tiragem fosse muito aumentada, entendemos por bem
reproduzir aqui o texto desse artigo:

Noticimos ha dias a trasladao do tmulo com o corpo da Rainha Santa
Isabel, do cro de cima do extinto convento de Santa Clara, onde estava
indevidamente desde Novembro de 1860. Foi na quarta feira, 28 deste ms
e ano, que as freiras claristas, a pretexto de irem no dia seguinte o
rei D. Pedro V com seus irmos D. Lus e D. Joo quele mosteiro beijar
a mo da Santa Rainha, e mais comodamente o poderem fazer no cro do
convento de que na tribuna do altar-mr, trasladaram o caixo com o
corpo, e no mais o deixaram voltar para o seu stio.

Entretanto  indiscutvel que muito melhor se acha na bela tribuna,
revestida de talha dourada, prepositadamene feita para le sobre o
altar-mr, onde esteve exposto  venerao dos fieis durante 146 anos,
desde a tarde de 5 de Julho de 1696, em que foi para ali transportado em
solenssima procisso pelos Bispos da Guarda, Lamego, Portalegre, Vizeu,
Leiria e Miranda, sob a presidencia do Bispo-conde D. Fr. Alvaro de S.
Boaventura, que oito dias antes, a 26 de Junho, havia sagrado a nova
Igreja de Santa Clara.

Hoje damos aos nossos prezados leitores uma outra noticia, ainda
respeitante ao mesmo assunto.

Espalhou-se, ha tempos em Coimbra, com bastante insistencia, o boato de
que o tmulo da Rainha Santa havia sido violado; e embora se
verificasse, quando ha dias se fez a trasladao, que os selos que o
fechavam permaneciam intactos,  certo que recrudesceu depois disto o
rumor de que o caixo transportado do cro para a Capela-mr se
encontrava vazio. Em face de tal boato, tornava-se necessria a
verificao, abrindo-se o tmulo com devidas formalidades, antes da
aposio de novos selos.

Foi ste acto que se realizou anteontem, quinta-feira, 28 do corrente,
pelas 9 horas da manh.

Achavam-se presentes apenas os srs.: conego Jos Dias d'Andrade,
representando o sr. Bispo Conde; Antonio Augusto Gonalves, presidente
da Camara Municipal e director do museu Machado de Castro; dr. Joaquim
Mendes dos Remedios, reitor da Universidade; dr. Antonio Jos Gonalves
Guimares, professor da faculdade de sciencias: dr. Antonio Garcia
Ribeiro de Vasconcelos, presidente da Confraria da Rainha Santa
Isabel; Francisco Jos da Costa, tesoureiro da mesma; Antonio Viana,
fiel do museu Machado de Castro.

Principiou por ser presente um envlucro, devidamente lacrado e selado,
no qual externamente se lia a declarao de que continha as chaves do
caixo da Rainha Santa, que ali foram encerradas e seladas a 23 de julho
de 1892, em seguida ao acto de ser fechado o tumulo, depois da visita
que a ele fizeram naquele dia o rei, rainha e principe. Verificado que
os slos estavam intactos, foi aberto o invlucro, e apareceram duas
chaves, uma de prata e outra de ferro, ligadas por uma cadeia de prata.

Depois abriu-se o tmulo de prata, e tirou-se dele o caixo de madeira,
forrado de rico brocado de seda e ouro, e com quatro belas fechaduras.
Todos verificaram cuidadosamente que no acusava sinal algum de
arrombamento; e em seguida, abertas as fechaduras e retirada a tampa,
apareceu uma ostentosa colcha de brocado, igual ao que veste por dentro
e por fora o caixo, sendo guarnecida de galo de ouro, e forrada de
seda carmezim. Levantada esta cobertura, apareceu outra perfeitamente
igual  primeira, e por baixo dela um veu transparente, atravs do qual
se via nitidamente a mo da Santa Padroeira, e o habito de seda cinzenta
que vestia o corpo. Cobrindo-lhe a cabea havia um veu espesso de seda
branca, sobre outro de fino linho, que lhe desciam at ao peito.

Levantaram-se sucessivamente todos estes vus, e observou-se
minuciosamente a mo direita, o rosto e os dois ps, que esto descalsos
e em perfeito estado de conservao. No se levou mais longe o exame,
por ser desnecessario.

A mo da santa e virtuosssima Esposa de D. Dins foi beijada com
piedoso fervor por aqueles dos presentes que tiveram essa devoo.

Terminado o acto de verificao foi fechado o caixo e encerrado no
tumulo de prata, com aposio de seis slos. Depois selaram-se novamente
as chaves, e lavrou-se o respectivo auto.

E assim ficou perfeitamente demonstrada a absoluta falsidade dos boatos
que correram, e a que muita gente parecia dar crdito.




CAPITULO VI

A Igreja de Santa Clara


Esta Igreja fica situada numa vistosa colina fronteira  cidade, estando
precedida dum espaoso ptio quadrilongo, do qual se disfruta um dos
mais belos e ricos panoramas de Coimbra.  entrada deste ptio
encontra-se ainda hoje uma forte corrente de ferro que servia para dar o
direito de defesa aos criminosos perseguidos.

O templo, que  de magnifica construo e de uma s nave,  fabricado no
estilo romano; os retbulos dos seus altares so dignos de ser
admirados, revelando-se neles a perfeio e gosto artistico que presidiu
 sua execuo.

Ao fundo da Igreja, e aos lados da grade do cro, esto dois tmulos de
pedra artisticamente ornados, tendo nos tampos figuras de mulheres
jacentes. O do lado do Evangelho encerra os ossos da Infanta D. Isabel,
filha de D. Afonso IV, falecida com pouco mais de 2 anos e o do lado
da Epistola supe-se conter os restos de D. Maria, filha de D. Pedro I e
de D. Constana.

Estes dois tmulos vieram tambem do velho convento de Santa Clara logo
aps a mudana da comunidade.

Dentro do cro da Igreja, em lugar menos proprio por falta de luz,
conserva-se ainda hoje o tumulo de pedra onde primitivamente esteve
depositado o corpa da Rainha Santa, tmulo este que, segundo as melhores
opinies, ela mandara fabricar em vida. As suas faces laterais so
guarnecidas de vrias imagens e de onze estatuetas de freiras metidas em
nichos de gracioso desenho.

Sobre este tmulo v-se estendida a figura da Rainha Santa envolta no
hbito de freira clarista, sobraando o bordo de peregrina, uma bolsa e
um livro de oraes.

A cabea da imagem, primorosamente esculturada, repousa num largo
almofado a coberto dum elegante baldaquino, sendo este ladeado por dois
anjos em atitude de turificarem a Rainha Santa.

Tanto este cro como o que lhe fica superior, eram adornados com
riqussimos altares de boa talha, muitos quadros de subido valor e
bastantes imagens por quem as religiosas nutriam a mais piedosa devoo.

Muitos destes preciosos objectos esto depositados no Museu Machado
Castro, de Coimbra.

Voltando  Igreja, onde se admira a preciosa estatua da Rainha Santa,
essa delicada jia que Teixeira Lopes delineou em momentos de feliz
inspirao e perante a qual instintivamente se teem curvado tantos
milhares de pessoas de todas as classes sociais, chamamos a ateno do
leitor para os quadros que adornam a Capela-mr da Igreja, quasi todos
referentes  vida da Rainha Santa, e recomendamos-lhe especialmente a
sua visita ao Museu de alfaias religiosas que a Confraria instituiu
junto da Igreja e aonde se encontram algumas preciosidades de raro valor
artstico. sse museu, que fica situado ao lado direito da Capela-mr, 
precedido dum espaoso corredor que serve de _Galeria_ dos Irmos
Benemeritos. Ao fundo, noutra sala mais espaosa, esto guardados os
objectos de maior valor pertencentes  Confraria, figurando entre les
alguns que eram do uso da Rainha Santa. Neste precioso museu est
exposto um colar de pedras preciosas com que a Rainha Santa costumava
adornar as donzelas pobres no dia do seu casamento, guardando-se tambem
ali algumas peas do seu vestuario e a roupa com que foi amortalhada.
Todos estes objectos devem merecer uma particular ateno ao visitante
de Santa Clara.

A respectiva Confraria  digna dos maiores louvores pela dedicao e
zelo que tem mostrado na conservao deste Museu, procurando
enriquec-lo cada vez mais com a adquisio dos objectos que digam
respeito  Rainha Santa. Ultimamente foi ali exposto o _Breve Original_,
obtido por El-rei D. Joo III da Curia romana, e pelo qual  extensivo a
toda a nao o culto de Santa Isabel. Este documento, muito bem
conservado ainda,  digno de particular ateno pelo fino desenho dos
seus ornatos e caracteres.

O claustro de Santa Clara, situado ao lado esquerdo da Igreja,  tambem
digno de ser visitado. As suas magestosas propores, as arcadas, e as
graciosas varandas que o circundam, formam um conjunto agradavel ao
nosso sentimento, transportando-nos  vida dum mundo superior, em tudo
mais perfeito e harmonioso.

O nosso espirito banha-se duma clarividente realidade que nos enebria,
que nos consola e seduz. Na paz daquelas arcadas contemplamos o
mundo despido de lutas inglorias, de dios e malquerenas, e a nossa
imaginao, livre das contrariedades e dos sobresaltos fomentados pela
vida presente, embala-se no doce arroio das avesinhas que saltitam pelas
arvores floridas quasi obrigando os nossos labios a murmurar com elas:

    Bemdito seja o Senhor!

      *      *      *      *      *

O vasto e grandioso edificio de Santa Clara, onde durante alguns sculos
se abrigaram muitas senhoras da mais pura linhagem e onde se praticaram
tantos actos de piedosa devoo, serve hoje de quartel ao regimento de
Infantaria 35.

A parte que serviu para hospedaria do Mosteiro e que est situada do
lado Sul,  hoje ocupada por um grupo do regimento de Artilharia.

      *      *      *      *      *

As festas com que Coimbra rende o seu culto  Rainha Santa so das mais
importantes e fervorosas que se realizam em Portugal. Nos anos em que
so levadas a efeito, a cidade veste-se das melhores galas para receber
a sua excelsa Padroeira e todos os conimbricenses, num amplexo de
verdadeiro regosijo e satisfao, cooperam no brilhantismo desses
festejos esforando-se para lhe dar o maior luzimento possvel.

A grandiosa procisso em que  conduzida a Imagem da Rainha Santa,
compe-se de inumeras confrarias e centenas de crianas vestidas de
anjo, fazendo o trajecto de Santa Clara para Santa Cruz por entre
milhares e milhares de pessoas que de todos os pontos do pas vem para
assistir a to emocionante como grandioso espectaculo. As festas da
Rainha Santa, que se prolongam durante 5 dias, costumam atrair a Coimbra
perto de 60:000 pessoas, no se registando nunca qualquer desacato que
possa ofuscar o brilho e a imponencia dessas to piedosas como
emocionantes manifestaes.

Com a procisso da Rainha Santa d-se at um facto que nos apraz
registar: quando a preciosa Imagem de Santa Isabel d entrada na cidade,
e ao ter de atravessar por entre a multido que a aguarda desde a Ponte
at Santa Cruz, no ha joelho que deixe de se dobrar ante a magestade da
sua figura! Todo aquele mar humano, que se apinha em to longo trajecto,
se curva respeitosamente perante a doce Imagem da Rainha Santa, vendo-se
muitos olhos marejados de lgrimas devido  comoo que todos experimentam.

 que aquela Imagem  o refgio de todos os crentes. Nela esto
concentradas as preces dos que sofrem, os rogos dos infelizes. E se o
povo portugus nutre por Ela a mais terna devoo, o povo de Coimbra,
que a elegeu sua medianeira junto de Deus, no esquece nunca a sua
benfica aco em prol dos desprotegidos, tributando-lhe um amor
purssimo e uma venerao a mais sublimada! Continue Ela a amercear-se
do seu povo junto de Deus e oxal a sua poderosa influencia consiga
tornar felizes na terra aqueles que lhe solicitam a sua proteco no Ceu.

FIM.



Notas

    [1] _D. Isabel de Arago_, Coimbra, 1894.

    [2] _Gazeta de Coimbra_, de 20 de maro de 1912.





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The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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